O Anjo-Menino e o Menino-Anjo

Nos prados de março
correm grandes águas:
abrem seu caminho
de alegrias novas
arrastando mágoas,
vão cortando fragas,
adoçando fráguas...
Como arrastam mágoas,
pedrinhas, objetos,
essas grandes águas!

As flores miúdas
dos pés machucadas
marcam rastros leves,
pedem caminhadas
pelas madrugadas
ai! tão machucadas
as flores miúdas
pelos pés pisadas.

O perfume agreste
nos campos sem fim
afasta o horizonte,
arrasta o horizonte:
onde a vista alcança
é tudo um jardim
de perfume agreste
nos campos sem fim.

Um anjo-menino
toca bandolim.

E o menino-anjo
delicadamente
caça borboletas.
Não fugiu de casa.

É feliz, tranqüilo:
nada de venetas.
Quer apenas a asa
dessa borboleta,
quer prender seu vôo,
saber
o segredo,
pegar pela asa,
levar para casa,
saber os segredos...

Árvores, tijolos,
alpendre e curral,
sombras no telhado
de um céu delicado,
a memória guarda
o traço pascal
de um céu delicado.

De um céu comandado
pelo anjo-menino
no seu bandolim,
céu de campo largo
onde o outro menino
caça borboletas
nos prados de março
num tempo sem fim.

 

 

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