A Descoberta da América pelos Turcos
|
2 Iniciada a bordo, a amizade a ligar pela vida afora Jamil Bichara e Raduan Murad prosseguiu e se reforçou quando os dois imigrantes decidiram, sem consulta prévia, tentar a vida nas terras do sul da Bahia, o recém-descoberto Eldorado do cacau. Durante a travessia, tenebrosa, Jamil pudera admirar o saber e a virtuosidade de Murad. Quase uma criança, rapazola, enchera-se de entusiasmo ao ver o companheiro de viagem superar a náusea e esbanjar conhecimento e astúcia na mesa de pôquer não mais que uma tábua vacilando aos solavancos do navio ou no tabuleiro de gamão. Ou ao ouvi-lo declamar versos de amor, alguns de aprazível concupiscência de odaliscas e vinhos, dizia-os em árabe e em persa nas noites de lua derramada sobre o mar, colcha de estrelas. Jamil e os demais ouvintes, canalha rude, não conheciam a língua persa nem lhes soava o nome antigo de Omar Khayyan, mas a sonoridade das estrofes dos rubayats, envolvente melodia, os aliviava das agruras da navegação e fazia crescer o prestígio de Raduan Murad: desembarcou cercado de respeito, com os bolsos guarnecidos de moedas de cobre, prata e ouro. Ganhas à custa de talento e de habilidade manual. |
|
|