São Paulo, segunda-feira, 08 de junho de 2009
Observatório da Imprensa
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Angústia pelo "modelo de negócios" bateu na porta errada
Não são apenas os empresários da mídia ou
os executivos dos departamentos comerciais, também as chefias das redações só
pensam naquilo.
Não se discute jornalismo, não se escreve sobre jornalismo, não se buscam novos
caminhos para o jornalismo. Os porteiros das redações estão obcecados com o
chamado "modelo de negócio". Vão aos seminários, deitam falação nos eventos
profissionais – tal como o Juquinha – com uma idéia fixa: a monetização da
comunicação.
São pagos para melhorar a qualidade da informação periódica, a sociedade
preparou-os e incumbiu-os de manter e aprimorar um sistema confiável e livre
para a distribuição de conhecimentos, no entanto mimetizam as instâncias
superiores, assumindo-se como gerentes comerciais. Esquecem os conteúdos que
lhes compete aprimorar, estão se lixando para a superficialidade, a banalidade,
a simplificação e os descaminhos do conhecimento que lhes caberia corrigir.
Reinventando a roda
Querem reinventar um serviço público que funciona de forma ininterrupta e
exemplar há pouco mais de 400 anos e introduzir modificações que vão alterar sua
própria natureza. A distribuição periódica de informações converteu-se numa das
grandes criações do engenho humano a um custo ínfimo – tostões. E com estes
tostões multiplicados por milhares de exemplares construíram-se sociedades
desenvolvidas e impérios econômicos. De repente, pequenos imperadores começaram
a fascinar-se com a possibilidade de vender enganos (ou bolhas), voluntariamente
ignoraram Marshall McLuhan e confundiram meio com mensagem.
A internet é uma ferramenta, a rede mundial de computadores é um sistema
integrado de ferramentas. Se este fenomenal aparato tecnológico não consegue
manter a qualidade da tecnologia anterior, não é revolucionária — é apenas
complementar. O Twitter é uma forma de dizer "olá, como vai, o dia não está
lindo?". Não é um conduto para a circulação de idéias minimamente elaboradas. É
um teaser, chamadinha – sacou, cara?
O que os chefões do jornalismo deveriam discutir neste momento crucial é a
ontologia do jornalismo e da imprensa, sua razão de ser, sua essência, o
incomparável milagre da sua sobrevivência. A sociedade lhes confere fé e
credibilidade para melhorar o mundo e não para piorá-lo.
Soluções generalistas para situações particulares
Parte da atual crise da imprensa é fruto das empresas de consultoria,
especialistas em vender soluções generalistas para situações particulares.
Imaginam que as mesmas chaves servem para portões e portinholas. A famosa capa
do Economist sobre a morte dos jornais (ver
aqui) só continha opiniões de
consultores e de um único jornalista, aliás brasileiro e pouco familiarizado com
a prática da reflexão (ver também "Revista
decreta a morte de jornais"). Essas
consultorias vivem de crises: num mundo sem turbulências – naturais ou
artificiais – tornam-se descartáveis.
O vaticínio aparentemente confirmou-se porque a imprensa tem o poder de
confirmar qualquer coisa. Prevê, adapta, conforma, comprova e, quando se
arrepende, passou o perigo.
Convém reparar que a bolha da tecnologia seguiu-se à euforia do "fim da
história" e dos conflitos ideológicos, como se a partir daquele momento a
sociedade humana prescindisse da busca permanente da verdade. Claro, não foi uma
conspiração, foi um descuido coletivo, fruto da descompressão.
Assim como algumas potências emergentes estão conseguindo enfrentar a pandemia
econômica mundial, em determinadas sociedades e regiões a mídia impressa está
conseguindo enfrentar e superar as ameaças fabricadas pela fértil imaginação dos
consultores.
Bussiness talk sobre o fim dos impressos
A edição de 16 de maio da mesma Economist foi excepcionalmente
midiática: cinco textos sobre a crise do jornalismo (um deles servia de suporte
opinativo para uma grande matéria sobre o apocalipse dos impressos —
ver aqui).
Destes, apenas um tratava exclusivamente de conteúdo: a resenha da biografia de
um dos mais celebrados jornalistas e críticos da mídia dos EUA nos últimos
tempos [American Radical, The Life and Times of I.F. Stone). O resto era
business talk.
Vender a idéia do fim dos impressos foi um péssimo negócio. Tanto assim que no
dia 27 de maio, Gavin O’Reilly, presidente da Associação Mundial de Jornais
(WAN, em inglês), declarou numa reunião em Barcelona que, contrariando todos os
prognósticos, a venda dos jornais impressos no mundo teve em 2008 uma alta de
1,3%.
Alta irrisória é verdade, mas o final de 2008 marcou o início da débâcle
econômica mundial. Diante da iminência de um crash maior do que o de
1929, os leitores foram buscar explicações, queriam entender o que se passava. O
dispara-despenca das Bolsas de Valores servido pelos portais era insuficiente.
Exemplo brasileiro
Veja-se o caso do Brasil: apesar do formidável crescimento da internet,
apesar da existência de pelo menos quatro poderosos portais de notícias, o nosso
jornalismo virtual não consegue competir com os meios tradicionais (jornais,
rádios e TV). Está sempre aquém e abaixo. Salvo em situações muito especiais,
como foi o caso da tragédia do vôo 447 da Air France na segunda-feira (1/6), em
que os meios digitais ficaram sozinhos ao longo do dia até a hora dos
telejornais.
Em dias normais, nossos portais emudecem depois das 22 horas e só vão despertar
quando os jornais impressos começam a chegar às bancas e aos assinantes.
Desperdiçam dez preciosas horas, quase metade da jornada, e no lugar de oferecer
pela manhã um produto mais atualizado, mais bem acabado, e capaz de superá-los,
contentam-se em funcionar como complementos.
A morte dos jornais impressos só se dará quando os portais de notícias
dispuserem do mesmo arsenal noticioso, opinativo e analítico. Isso levará tempo
para consumar-se ou talvez nunca se consume por falta de investimentos ou apoio
publicitário.
A crise de identidade não está no papel, está no mundo virtual, apressado
demais, fragmentado demais, monetizado demais para compreendê-la. A angústia dos
papeleiros pelo "modelo de negócios" é artificiosa. Quem não sabe para
onde vai é a fantástica revolução da internet.
Infelizmente, isso só pode ser dito com todas as letras num veículo virtual.
Como este. Os donos do papel, ao contrário de Hamlet, não gostam de discutir
questões ontológicas.
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/
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A Observatório da Imprensa é publicada,
originalmente, no sítio do
Observatório
da Imprensa, às terças-feiras e neste Mandando Pra Rede
às quintas
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MURAL DE
RECADOS DO MPR
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