São Paulo, segunda-feira, 20 de abril de 2009
Observatório da Imprensa
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Euclides volta ao Estadão. Em grande estilo
Há tempos que nossa imprensa não consegue
organizar uma efeméride com tanta inteligência e propriedade. O centenário da
morte de Euclides da Cunha deveria ser lembrado no próximo dia 15 de agosto
(sábado), mas o Estado de S.Paulo preferiu encarar a tarefa com uma
saudável disposição jornalística.
No lugar das maçarocas habituais que serão empilhadas junto aos
interessantíssimos "cadernos especiais" que nunca são lidos, a direção do
jornalão preferiu produzir uma temporada euclideana iniciada em março e que
poderá estender-se até o fim do ano.
Euclides da Cunha é um banquete para todos os gostos: os fãs de dramas
sentimentais e tragédias gregas já foram regalados com o seriado da Globo (Desejo)
apresentando em 1990 (reprisado em 1995-1996). A sangrenta e shakespeariana
tragédia em Piedade (ou A Tragédia da Piedade ou ainda Uma
Tragédia Brasileira), passional e patética, sem vilões, quanto mais lembrada
mais compaixão desperta.
O soberbo Os Sertões, os livros subseqüentes, os relatos sobre o Alto
Purus e a obra póstuma trazem um tom telúrico que contrasta vivamente com a
noção amena de "Brasil brasileiro, mulato inzoneiro".
Reportagem e reedição
As rememorações do Estadão começaram com a série de reportagens
realizadas por Daniel Piza e Tiago Queiroz (fotos), no início de março, no
território percorrido por Euclides no Alto Purus. E prosseguiram auspiciosamente
na edição de domingo (12/4, caderno Cultura, pág. D-14) com o início da
republicação de todos os textos e reportagens produzidos a convite do
amigo-camarada Júlio Mesquita na antiga A Província de S. Paulo (hoje
O Estado de S. Paulo).
Com ortografia atualizada e comentados por Walnice Nogueira Galvão – nossa
euclidista mor –, os textos de Euclides deixam a primeira página do jornal para
ganhar uma dimensão poligráfica, cósmica, que talvez não tivessem em 1888
(quando começaram a ser publicados).
O primeiro texto ("A Pátria e a Dinastia"), de 22 de dezembro de 1888, soa como
um ensurdecedor ataque ao monarquismo pouco antes da sua derrubada. Ensurdecedor
porque o fraseado e o palavreado são tão elaborados que lembram o clangor de uma
poderosa banda marcial cuja força é perceptível, mas não seus acordes.
Graças ao Estadão estamos percorrendo um fascinante museu da imprensa e
da cultura, examinando um texto perfeitamente entendido pelos 1.200 leitores que
compraram a primeira edição de Os Sertões (1902), convertido 121 anos
depois num quase enigma idiomático. A primeira frase tem doze linhas (nas
medidas de hoje), três vírgulas, cinco adjetivos, dois advérbios de modo. E
apesar do emaranhado gongórico, arrasadora.
Euclides e Hipólito
Esta viagem pelo jornalismo do fim do século 19 é um complemento à releitura
do texto de abertura da edição de junho de 1808 do Correio Braziliense.
Os dois autores, Hipólito da Costa e Euclides da Cunha, nasceram com uma
diferença de 92 anos (1774 e 1866, respectivamente) e exibem curiosas
semelhanças.
Polígrafos, multidisciplinares, um era maçom e o outro, positivista. Hipólito
era um atento observador das transformações do seu tempo, anticlerical,
antiescravista, fascinado pela ciência e novas tecnologias, democrata (admirador
da revolução norte-americana, porém sem coragem de assumir-se antimonarquista).
Euclides era um cientista, darwinista, filósofo, convicto democrata,
ferrenhamente republicano, pan-americanista.
A convergência que nos interessa é a relação com o jornalismo. Hipólito é o pai
do jornalismo brasileiro e seu primeiro teórico. Euclides é o primeiro grande
repórter, testemunha ocular e, ao mesmo tempo, pensador.
Jornalistas? No tempo de Hipólito, as palavras journalisme (em francês) e
jornalismo não haviam sido cunhadas. No tempo de Euclides, o jornal era composto
por uma soma enorme de informações telegraphicas, entremeadas por
opiniões, geralmente veementes. Alguns estudiosos – como a própria Walnice
Nogueira Galvão – afirmam que Euclides da Cunha escrevia em jornal, mas não era
propriamente um jornalista.
Em breve conheceremos os seus despachos sobre a quarta expedição contra Antônio
Conselheiro em Canudos (1897) e estaremos em condições de julgar se são
reportagens ou literatura. Ou – melhor ainda – se são um produto transgênico,
combinação de jornalismo e literatura. Euclides seria assim o expoente de um
new journalism gorado, que não chegou a maturar porque o autor, para
sobreviver, precisou dedicar-se a outras atividades.
O Estadão está oferecendo a jornalistas e leitores uma esplêndida
oportunidade para degustar um vintage da melhor qualidade. Num tempo em
que as vindimas são tantas e inexpressivas que ninguém as distingue.
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/
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A Observatório da Imprensa é publicada,
originalmente, no sítio do
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da Imprensa, às terças-feiras e neste Mandando Pra Rede
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