São Paulo, segunda-feira, 13 de abril de 2009
Observatório da Imprensa
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Sem lucros, sem impostos
Crises devem ser enfrentadas com soluções
ousadas. Ousadia, no caso da grande crise da mídia contemporânea, significa
escapar dos preconceitos, dogmas e modismos.
A proposta do senador Benjamin Cardin (democrata, Maryland) de converter as
empresas que editam jornais impressos de pequeno e médio porte em organizações
sem fins lucrativos tem os atributos para produzir uma espetacular reversão no
processo de fechamentos em série de jornais americanos.
Diferentemente do plano Sarkozy para salvamento da mídia impressa francesa (ver,
neste Observatório, "Sarkozy
quer salvar a mídia impressa"), o
projeto de Cardin não tem qualquer relação com o poder executivo, nem sujeita a
imprensa a qualquer constrangimento. Formado em direito, o senador é
especialista em políticas fiscais, sua solução é eminentemente tributária, seu
projeto virá com a chancela do Legislativo.
Isso não significa que o plano Sarkozy seja suspeito ou contenha ameaças ao
livre exercício do jornalismo. Com toda a certeza será bem sucedido no ambiente
institucional francês, acostumado com a presença do Estado. Convém não esquecer
que o paradigma francês de excelência em jornalismo, Le Monde, foi criado
em 1944, em seguida à liberação, por iniciativa e com recursos oferecidos pelo
general De Gaulle a seu amigo Beuve-Méry. O líder da resistência francesa nunca
escondeu o seu desprezo pela imprensa do seu país que não vacilou em aderir ao
invasor nazista.
A cultura americana, marcada principalmente pelo espírito da Primeira Emenda,
herdeira da tradição liberal inglesa, não admitiria uma intervenção estatal no
Quarto Poder. A "solução Cardin" (o nome do senador é Kardonsky) passa ao largo
do Executivo. As empresas que se filiarem ao programa transformam-se em
entidades educacionais – como já acontece com as emissoras públicas de
radiodifusão. Com isso, ficarão isentas de impostos sobre o faturamento em
circulação e publicidade. Além disso, poderão ser habilitadas a receber doações
que seriam abatidas do imposto de renda.
Em compensação esses jornais estariam proibidos de apoiar causas políticas ou
fazer a tradicional declaração de apoio a um candidato. Mas estariam liberados
para cobrir a política e campanhas eleitorais sem submeter-se a regulações.
Leitura, conhecimento e cultura
Embora sem qualquer conotação ideológica, o projeto Cardin traz consigo um
agradável envolvimento cívico e comunitário. Diante das aberrações produzidas
pelos conglomerados internacionais multimídia – em alguns casos tão aterradoras
quanto as do mercado financeiro –, este projeto traz de volta a antiga noção de
imprensa como serviço público.
Os conglomerados de mídia vão esnobá-lo. Aliás, já começaram (ver abaixo). O
projeto não foi concebido para ampará-los. O legislador americano – qualquer
legislador – não pode assistir impassível ao desaparecimento de um dos pilares
do sistema político americano – a imprensa provincial.
São os pequenos e médios diários que precisam ser salvos, este é o segmento a
ser estimulado e, graças à sua capilaridade, poderá reverter a pasmaceira
agônica da mídia metropolitana.
O jornalismo regional dos EUA recebe das universidades a mão de obra em estado
bruto, trabalha-a em empresas compactas, enxutas, e a entrega à grande mídia uma
ou duas décadas depois. No meio do caminho estabeleceu uma forte conexão com a
comunidade onde circula, estimulou o mercado local, reforçou o hábito de
leitura, transmitiu conhecimento e criou cultura.
Uma imprensa de porte médio sem fins lucrativos, porém desvinculada do poder
político e econômico, poderá ser a salvação da lavoura. Nos EUA e no Brasil.

A divulgação do projeto do senador Ben Cardin na imprensa brasileira é,
em si, um caso de estudo. Foi notícia no Globo (sábado, 4/4, pág. 36) e
não mereceu qualquer comentário ou complementação dos demais jornalões nos dias
seguintes, embora a informação estivesse disponível nas agências desde o dia
anterior (sexta), quando o Washington Post publicou o artigo assinado
pelo senador democrata.
Como sabe o leitor deste Observatório, nossa imprensa é avessa e
impermeável à discussão sobre a mídia. A direção do Globo foi rápida:
percebeu que o projeto não conflitava com seus interesses e o liberou. A
Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo, porta-vozes naturais de
programas e projetos visando a desconcentração, recearam romper o pacto
corporativo, silenciaram e perderam uma belíssima oportunidade de estimular a
inovação.
A mídia tem soluções para a sua própria crise, basta publicá-las.
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/
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A Observatório da Imprensa é publicada,
originalmente, no sítio do
Observatório
da Imprensa, às terças-feiras e neste Mandando Pra Rede
às quintas
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