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São Paulo, segunda-feira, 27 de abril de 2009

Futebol


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Ateu por causa do Santos


DEUS EXISTIA até o dia 6 de dezembro de 1964. Naquele domingo, deixou de existir.

Pelo menos para um menino prestes a completar 15 anos e que, pouco mais de cinco anos depois, viraria jornalista.

Menino que, levado pela mãe, tinha o hábito de ir à missa aos domingos e até de comungar.

E que levava a religião suficientemente a sério a ponto de nunca ter pedido a Deus, com a hóstia no céu da boca, que o Corinthians fosse campeão, coisa que, então, já não era havia quase dez anos.

Mas não tão a sério também, a ponto não de pedir, ao menos, que o Corinthians ganhasse do Santos e quebrasse o que se chamava de tabu, que já durava sete anos.

Mas nem nisso era atendido.

E aquele domingo foi demais.

O Corinthians fez 1 a 0 e 2 a 1 ainda no primeiro tempo.

Mas Pelé (quatro vezes) e Coutinho (três) fizeram 7 a 4, porque Silva fez 3 a 5 e 4 a 7.

Ao chegar do Pacaembu, o menino comunicou à mãe que nunca mais iria à missa -que dom Paulo Evaristo Arns, o grande cardeal corintiano, não leia estas linhas...

"Mas por quê?", quis saber a mãe.

"Porque Deus não existe", ele respondeu, sem mais.

E assim ficou para sempre, até porque a convicção foi reforçada na faculdade de ciências sociais da USP, pouco depois.

Nem mesmo quando o tabu foi quebrado, 2 a 0 com gols de Paulo Borges e Flávio, em 1968, 11 anos depois do que tinha sido a última vitória, ele fez qualquer concessão.

Ao contrário, saiu do Pacaembu com um bando de torcedores em direção ao Parque São Jorge para pagar promessa, comprou uma bandeirola por extorsivos e inesquecíveis NCr$ 35 (o salário mínimo era de 130 cruzeiros novos) e ainda acompanhou o coro bizarro: "Um, dois, três, o Santos é freguês!".

Como se vê, não é à toa que este clássico até virou o premonitório livro "O Grande Jogo", dos jornalistas Celso Unzelte, corintiano do fundo d'alma, e Odir Cunha, santista só aparentemente calmo. Lançado pouco antes que "o maior clássico alvinegro do mundo", como eles dizem, começasse a decidir o Paulistinha, nele se contam os dramas e as alegrias do mais antigo dos clássicos de São Paulo.

E olhe que decidir mesmo, Corinthians e Santos decidiram poucos campeonatos.

Três paulistas (1930, 1935 e 1984) e um Brasileirão (2002), com apenas uma vitória do Corinthians, em 1930, ainda no amadorismo.

O mais engraçado de tudo é que o menino ateu jamais conseguiu desgostar do Santos, ou sofrer tanto como sofria quando as derrotas eram para o Palmeiras ou para o São Paulo, clubes para os quais passou a ter olhar diferente apenas depois que virou jornalista.

Porque todos torciam por aquele Santos, o melhor time da história.

E, mais curioso ainda, o mesmo Santos que o fez ateu deu-lhe mais dois anos de saúde, porque aos 13, na decisão do Mundial de clubes com o Milan, 2 a 0 para os italianos no Maracanã, o garoto prometeu que, se houvesse a virada, ele pararia com o vício recém-começado de fumar.

E o Santos virou para 4 a 2.

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Texto originalmente publicado, segunda-feira, dia 26 de abril, na Folha de S.Paulo

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Juca Kfouri escreve nesta coluna, originalmente publicada na Folha de S. Paulo, às segundas-feiras, às quintas e aos domingos.
    



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