No Supermercado
Se havia uma coisa que Inuyasha odiava mais que ter que esperar o ônibus em pleno meio-dia, debaixo de um sol de trinta e cinco graus, era ter que fazer hora extra à noite no supermercado, quando metade de Tokyo resolvia que a despensa estava vazia e ficava entrando e saindo o tempo todo, fazendo com que o vento seco da estação ficasse entrando pelas portas automáticas, golpeando suas costas a cada cinco minutos.
Por que era mesmo que tinha aceitado aquele emprego chato de caixa de supermercado? Ah, claro, a mãe de Kagome pedira a uma amiga de uma amiga que era casada com o gerente dali para indicá-lo como um rapaz ativo e trabalhador, que não tinha nenhuma objeção em esticar seu horário quando fosse preciso, e que estava procurando desesperadamente por um trabalho. Na verdade ele estava pouco ligando com isso de ganhar a vida. Sempre pegara o que precisava direto da natureza, nunca negociando com homens. Gostava mesmo era de ocupar seu tempo deitado sob a Goshimboku, observando como as nuvens se arrastavam lentamente no céu até adormecer.
Ah, mas quem ligava para o que ele gostava? Kagome com certeza não. Ela dissera que como ele se recusara a se matricular em uma escola para adultos, de modo que pudesse aprender coisas como números e verbos, tinha que arrumar um emprego como qualquer outro rapaz de sua idade. Era isso ou ela o faria trabalhar em casa, de preferência o obrigando a fazer pequenas adoráveis tarefas como continuar servindo de modelo para o hobby de costura da mãe dela ou ajudar Vovô a mentir descaradamente aos pobres tolos que visitavam o templo e acreditavam que seus amuletos fajutos fossem lhes dar sorte em alguma coisa.
Ele agora quase se arrependia por não ter concordado com isso. E daí se ele preferia descansar a fazer coisas cansativas? Não havia ninguém em quem pudesse bater nessa época desprovida de youkais e os da espécie que ele fora costumavam ficar quietos quando não estavam massacrado alguém. Kagome tinha obrigação de entender que ele não era um simples ser humano, não tinha?
Bom... certamente ela ainda não se dera conta que precisava. Fora por causa de suas freqüentes discussões sobre o assunto que quando a senhora Higurashi dissera que lhe arrumara um trabalho, animara-se pensando que assim não só agradaria a garota como teria metade do dia longe de reclamações.
- Essa droga de conserva está fora de validade! – gritou um careca na fila do caixa.
Inuyasha cerrou os punhos e contou até dez. Daria qualquer coisa para simplesmente poder surrar qualquer imbecil que ousasse lhe falar com tom de voz um pouco mais alto, mas havia o gerente lhe observando com toda aquela parafernália de circuito interno e ele levava muito a sério o lema de “o cliente sempre tem razão”. Teria que pegar a estúpida lata e devolver a estúpida seção e ao mesmo tempo usar um estúpido tom suave na voz para distrair o estúpido cliente.
Por que Naraku tinha que ser mortal e tinha se deixado destruir deixando para trás todos os fragmentos da Shikon no Tama? Se ele não fosse tão fraco não teria sido morto e eles ainda estariam no saudoso Sangoku Jidai, procurando por fragmentos, lutando contra terríveis youkais e sendo absurdamente felizes. Sim, maldito Naraku, até mesmo na morte encontrara uma maneira de torturá-lo. Era tudo culpa daquela criatura complicada metida a Peter Parker que nunca fazia nada pessoalmente e na única vez que resolveu dar realmente as caras, acabou morto e enterrado e quase o levara junto com ele... Ou talvez tivesse levado e aquilo fosse uma espécie de purgatório.
Ele continuou ali, somando automaticamente as compras e cobrando dos clientes indiferentemente. A fila estava cada vez maior e, segundo o gerente, eles tinham que atender todo mundo antes de fechar. Como se não fosse pouco, ele ficara devendo duas horas de trabalho por ter chegado atrasado àquela tarde. Que culpa tinha se um idiota engraçadinho o tinha distraído e feito com que perdesse o ônibus? Outra das maravilhas daquela nova vida... Estudantes colegiais ruivos que acham que são youkais. E pensar que ele quase caíra naquilo... E que tivera que correr quatro quarteirões antes de entender que o motorista do ônibus não ia sentir o cheiro do passageiro que ficara para trás e simplesmente parar...
- Inuyasha! – alguém o chamou por trás e ele se virou para se deparar com o gerente, um homem de cabelos claros, barba rala e muito magro, fitando-o com o rosto fechado. – Eu não sei por que a veia na sua testa está pulsando dessa maneira, mas lembre-se que no nosso supermercado atendemos sempre com um sorriso.
Ah, céus, por que Naraku não vinha tentar mata-lo naquele momento? Era assim tão difícil sair do mundo dos mortos para uma vingança pessoal de rotina?
- Sorriso – repetiu o gerente ao ver que ele não estava se esforçando. Inuyasha sorriu muito forçosamente, ganhando do chefe um aceno com o polegar. Assim que o viu se afastar, porém, murmurou um quase inaudível “imbecil” e voltou a irritação habitual, virando-se para continuar com o trabalho.
- Vou pagar em dinheiro – disse o cliente da vez. E o ex-hanyou suspirou contente uma vez que não teria que perder tempo com um cartão de crédito ao menos nessa ocasião. – Se puder colocar os sorvetes de chocolate e menta em sacos separados, agradeceria muito.
Inuyasha começou a pegar os pacotes para registrar os preços quando estancou. Aquela voz...
Levantou a cabeça muito lentamente, pedindo desesperadamente que não fosse quem ele achava que era, que sua imaginação estivesse lhe pregando uma peça, mas todas suas esperanças esvaeceram em um sopro assim que fitou o rosto do sujeito. O mesmo também estivera muito distraído até então e não percebera com quem estava falando, mas assim que se deu conta de quem era, exibiu um sorriso luminoso e exclamou alegremente:
- Mas se não é o filho de Inuytasho, grande youkai que poderia me cortar ao meio com suas poderosas garras e cujo hobbie é correr atrás dos ônibus da linha em pleno meio dia... Inuyasha!
Tudo bem, era o ruivo da parada de ônibus. O estúpido imbecil que passara grande parte da tarde imaginando maneiras de matar. Ele estava ali, com aquele sorriso terrivelmente irritante e não podia nem mesmo dar-lhe uns bons socos porque estava em pleno horário de trabalho e teria que considera-lo um cliente. Será que a vida poderia ser um pouco mais injusta? Ou ele estava sendo castigado por todas as vezes que chamara Sesshoumaru de estúpido?
- O que você quer? – perguntou rispidamente.
- Não está vendo? – o ruivo arqueou as sobrancelhas e apontou para os dois grandes potes de sorvete no balcão.
Inuyasha olhou para o produto e para o rapaz. Repetiu o mesmo gesto repetidamente sem fazer menção de registrar os preços.
- Você me seguiu até aqui – disse finalmente. – É uma daquelas câmeras escondidas que aparecem na televisão, não é? Onde você a colocou, eles estão de combinação com o gerente? Ou você está com uma miniatura no bolso?
Ele ia se aproximar e checar o bolso de Kurama, mas este se afastou e levantou as mãos, sorrindo divertido. No mesmo momento, como se surgido do nada, o gerente apareceu e encarou a cena com um olhar interrogativo.
- Está tudo bem aqui? – questionou.
- Ah, sim – respondeu Kurama. – Esse simpático caixa só estava me ajudando a encontrar o meu cartão de crédito. Mas eu já disse que não tem importância, pagarei em dinheiro.
O gerente olhou para os dois rapazes que aparentavam até então estarem discutindo. Os dois tinham sorrisos idiotas no rosto, pareciam inofensivos. Balançou a cabeça e ainda se dirigiu mais uma vez a Inuyasha antes de sair:
- Lembre-se: o cliente sempre tem razão.
Quando viu que o homem tinha se afastado a uma distância segura, Kurama pegou os potes de sorvete e arrastou na direção de Inuyasha.
- Agora registre a minha compra e eu poderei ir embora.
- Não – respondeu o ex-hanyou.
- Como assim não, pensei que não tivesse ficado feliz em me ver... – retrucou o ruivo com ironia.
- Não vou deixar você sair daqui até eu descobrir por que você está me perseguindo!
- Vocês dois, querem parar de discutir e ir logo com isso? Eu não tenho o resto da noite! – gritou o homem atrás de Kurama. Era alto e mal-encarado, usava uma camiseta preta, colada ao corpo, ressaltando o dorso exageradamente musculoso.
- Eu também não – disse Kurama. – Tenho um jantar daqui a pouco e preciso do sorvete – novamente afastou os potes para cima de Inuyasha. – Registre-os, eu pagarei, irei embora, e nós dois... – olhou para o homem que os encarava atrás – nós três ficaremos felizes.
- É isso ai cara... – o cliente alto e forte sorriu.
Mas Inuyasha não se deixou intimidar. O ruivo tinha feito com que ele ficasse devendo duas horas de trabalho por causa do atraso e estava furioso com ele. O fato de eles estarem se encontrando pela segunda vez no mesmo dia não podia ser bom sinal. A não ser que Sesshoumaru estivesse levando uma vida extremamente agradável e todo aquele carma pelo qual estava passando fosse necessário para manter equilíbrio do universo, algo estava acontecendo e ele ia descobrir o que era.
- Não! – afastou o sorvete de volta para o lado de Kurama. – Eu já disse que não até você me explicar porque está aqui!
- Mas eu já disse que vou a um jantar...
- Eu quero saber a verdade!
- Mas essa é a verdade.
- Está pensando que sou burro?
- Eu pensei que o cliente sempre tivesse razão...
- Você não é cliente, é um maluco mandado pelo mundo espiritual para me deixar maluco!!
Kurama franziu o cenho.
- Conhece o mundo espiritual?
Os clientes na fila deram um grito indignado, interrompendo a discussão. Havia pelo menos dez carrinhos de compras ali e os dois estavam batendo boca há quase essa quantidade em minutos.
- Registre o sorvete, por favor – Kurama pediu tranquilamente, afastando os potes pela terceira vez.
- Não! – gritou Inuyasha devolvendo-os.
- Sim...
- Não!
- Sim.
- Não!
- Sim!
Os dois empurravam os potes, cada um para a direção do outro. A tampa dos mesmos estava estufada, a ponto de arrebentar. Kurama estava se divertindo, mas a hora estava passando e precisava ir para casa com o sorvete. Não tinha tempo para ficar discutindo com o grande youkai Inuyasha na fila do supermercado.
Deu um empurrão mais forte nos potes, mas, talvez pela ansiedade, talvez por estar segurando o riso, não controlou a força e a tampa acabou arrebentando fazendo com que todo o produto de chocolate e menta se derramasse em cima de Inuyasha.
Silêncio.
Ninguém ousou se mexer ou respirar.
Kurama colocou a mão sobre os lábios para conter uma gargalhada, mas então o rapaz todo coberto pela sobremesa gelada pareceu finalmente assimilar o que tinha acabado de acontecer e nem mesmo a lembrança do gerente observando de alguma das salas no primeiro andar conteve sua explosão. Levantou-se de um salto e agarrou o colarinho da camisa de Kurama – com as mãos sujas de chocolate – e começou a sacudi-lo.
- Eu vou te matar, desgraçado!!!!! – berrou alto o suficiente para que todo o supermercado ouvisse.
A essa altura metade da fila já tinha se dissipado. A outra metade nem mesmo ligava mais para quem estava na frente e quem estava atrás, apenas observava a cena comentando e dando palpites entre si sobre como tudo aquilo acabaria; todos com exceção do homem imediatamente atrás de Kurama que segurava uma caixa de cerveja e não parecia nem um pouco satisfeito que sua reclamação anterior não surtira efeito algum. Observou por alguns instantes Inuyasha sacudindo pela camisa o ruivo, que apenas sorria e balbuciava alguns pedidos de desculpas, e então gritou um altíssimo “Chega!!!” que sobrepujou os xingamentos que o ex-hanyou dirigia a Kurama.
Imediatamente os dois rapazes pararam e olharam na direção dele.
- Eu odeio interromper briga de namorados, mas como eu disse antes, não tenho a noite toda!!!
- Mamãe, eles são namorados? – perguntou uma garotinha com os olhos muito abertos a mulher que a segurava pela mão.
A mãe imediatamente tratou de afastá-la dali, mas não a tempo de impedir que a pergunta ecoasse pelas imediações.
Kurama carranqueou descontente e tratou de afastar-se de Inuyasha antes que a coisa piorasse para o lado dele. Este, por sua vez, agora dispensava toda sua atenção para o estúpido imbecil que tivera a audácia de proferir em voz alta aquela insinuação descabida. Século engraçado o XXI... Quando tentar esganar alguém podia ser confundido com uma demonstração de afeto...
Tendo ou não confundido, o cara ia ver o que era bom. Ele não era mais um hanyou, não podia retalhar ninguém com aquelas unhas curtas de humano, mas ainda tinha agilidade suficiente para saltar sobre o balcão, agarrar o outro pelo pescoço e dar-lhe um soco bem no meio da cara.
E foi exatamente isso o que fez – ou tentou fazer.
O salto foi tão rápido que quase passou despercebido pela maioria ali, mas quando ele agarrou a camisa do cliente, o gerente materializou-se ao lado de Kurama e o encarou horrorizado.
Olhou dele, coberto de sorvete, segurando a camiseta do homem na fila e prestes a dar-lhe um soco na cara, depois para Kurama – cuja camisa branca não estava em condições muito melhores – assistindo a tudo parecendo meio perplexo e então levou as mãos à cabeça.
- Inuyasha, o que pensa que está fazendo? – perguntou, aos gritos.
- Batendo nesse imbecil? – o rapaz não estava nem um pouco intimidado pela presença do patrão.
- Se você der mais um passo, juro que jogo você para fora agora mesmo, sem direito a nada!
Inuyasha hesitou, folgando o aperto na camiseta do outro. O homem sorriu zombeteiramente.
- O chefinho não vai gostar que a garotinha bata no cliente. Lembre-se que sou eu quem sempre tem razão...
Um brilho dourado passou pelos olhos do ex-hanyou no milésimo de segundo que ele levou para ponderar as implicações daquilo tudo. Se fosse despedido, Kagome ficaria furiosa e a mãe dela talvez não fosse mais bem vista pela tal amiga da amiga que lhe indicara para o emprego. Por outro lado... ele ficaria absurdamente feliz.
Sua mão nem mesmo hesitou quando fez o caminho direto para o nariz do desconhecido que revidou prontamente. Os dois ficaram ali brigando, sob os gritos histéricos do gerente e os ainda mais altos de um grupo de homens que gritava encorajando-os a continuar.
Kurama nem mesmo esperou que a silhueta dos seguranças aparecesse do outro lado das portas automáticas, saiu de fininho antes que fosse retido como um dos causadores daquela confusão. Da próxima vez pensaria duas vezes antes de provocar Inuyasha, mas quem poderia culpá-lo? Quando vira que era o mesmo garoto invocado e meio maluco da parada de ônibus, achara que seria divertido provoca-lo um pouco. Só não imaginou que ia acabar daquela maneira...
Olhou para as manchas de chocolate na roupa e suspirou. A mãe não ficaria nada satisfeita quando visse seu estado ao chegar a casa e ele nem mesmo tinha conseguido comprar o sorvete.
Atravessou o estacionamento andando devagar, ainda ouvindo os barulhos causados pela confusão lá dentro. Talvez encontrasse uma loja de conveniência aberta a caminha de casa. Se não tivessem sorvete de chocolate e menta, paciência. Tinha certeza de que se fosse preciso, outro sabor agradaria a tal senhora Higurashi que sua mãe convidara para o jantar.
FIM
Seqüência: O Jantar