Na Parada de Ônibus
Início de tarde, debaixo do escaldante sol do meio dia, esperando um ônibus que provavelmente apareceria lotado... Inuyasha agradecia aos céus pelas maravilhas do século XXI.
Olhou com tristeza para as próprias mãos enquanto se acomodava mais para a esquerda no banco da parada, onde a sombra ainda não tinha desaparecido por completo. Apenas uns anos antes, estaria diante de poderosas garras com as quais poderia escalar as paredes de algum daqueles enormes prédios com facilidade. Depois seria só saltar tranquilamente por cima dos telhados até seu destino...
Suspirou resignado. Tinha escolhido ser humano e agora teria que agüentar as pontas. Pelo menos quando voltasse para casa no final do dia, teria Kagome esperando por ele com um daqueles sorrisos que o faziam esquecer todas as desgraças do mundo. Era apenas por causa dela que suportava aquela vida em um corpo tão frágil comparado ao que tinha antes.
Já estava ali parado havia quase quinze minutos quando um rapaz de cabelos vermelhos, compridos, usando um uniforme colegial se sentou a seu lado, sem importar-se com o sol. Segurava uma pasta marrom que parecia pesada e olhava para o relógio com uma ruga na testa, aparentemente estava atrasado.
- Droga de ônibus que não chega nunca! - resmungou Inuyasha.
O garoto ruivo olhou para o final da rua, de onde o veículo deveria aparecer, dobrando na esquina da esquerda, e sorriu.
- Essa linha está sempre se atrasando. Se houve algum ônibus nos últimos quinze minutos, então podemos nos preparar para esperar pelo menos mais meia hora.
Inuyasha grunhiu e cruzou os braços. Mais meia hora naquele calor. Ainda por cima chegaria atrasado no trabalho... Virou-se para o lado e cruzou as pernas em cima do banco, apoiando o braço no joelho e a cabeça na palma da mão aberta. O ruivo sorriu simpaticamente, mas o ex-hanyou fez questão de ignorá-lo. Não estava com humor para conversas.
Ficou ali, na mesma posição, emburrado e se perguntando por que raios tinha saído de casa com uma camisa de mangas compridas no verão e em pleno meio dia. Isso sem falar que a roupa do rapaz ruivo parecia muito mais quente, mas ele estava sentado no sol e nem uma gota de suor tinha aparecido em sua testa. Grunhiu outra vez, o que chamou a atenção do outro que o encarou com seus grandes olhos verdes e um meio sorriso divertido.
- Está quente, não é? Eu queria ter outra maneira de chegar mais rápido ao colégio hoje.
- Não me interessa! - disse Inuyasha. Então sorriu sarcasticamente. - Eu poderia escalar aquele edifício ali em um instante - apontou para um prédio de quatro andares, paredes brancas e aparência antiga. - De lá posso saltar para onde eu quiser. Não faço porque não quero.
A última frase foi quase gritada e ele esperou que o ruivo ficasse assustado e saísse correndo dali na mesma hora, deixando-o sozinho para ser torturado pelo calor tranquilamente. Mas, pelo contrário, ele deu uma risada divertida e acenou afirmativamente.
- Acho que eu deveria estar fazendo o mesmo, o problema é que dá muito na vista, sabe?
O tom meio sarcástico do desconhecido irritou Inuyasha. Se havia um defeito que ele não tinha perdido com o desaparecimento de sua parte youkai, este era a presunção. Não podia admitir que alguém o subestimasse e achasse que ele era maluco. Muito menos um garoto de colégio tentando se bronzear enquanto espera o ônibus.
- Pois fique sabendo - disse, descruzando as pernas e encarando o outro com um olhar fulminante - que na minha época eu fui um youkai temido por muitos! Eu brandia a poderosa tessaiga pelos campos e era capaz de matar cem youkais com um golpe só.
- E o que foi que eu disse? Saiba que na minha época eu fui um youkai raposa que roubava artefatos valiosos. As pessoas e os outros youkais tremiam somente em escutarem o meu nome ser mencionado - respondeu o ruivo alargando o sorriso.
- Eu era filho do grande Inutaisho! E tinha... tinha um monge, uma caçadora de youkais e uma sacerdotisa submissos a mim! - retrucou Inuyasha, estufando o peito, desgostoso pela resposta.
- Ah, claro que tinha. No meu caso, eu trabalhava sozinho, era forte o suficiente para não precisar de guarda-costas.
O rosto de Inuyasha ficou vermelho. Quem aquele estúpido pensava que era para insinuar que ele não era forte? De repente, a imagem dele tornando-se meio-youkai e brandindo a tessaiga para o ruivo apavorado surgiu em sua mente quase lhe arrancando um sorriso. Droga, por que era mesmo que tinha se tornado humano? Ah, sim, por Kagome. Era por causa dela que tinha que suportar um colegial ruivo idiota insinuando que ele não era de nada. Hunf! Era bom que ela reconhecesse o sacrifício que ele estava fazendo.
- Se eu estivesse na minha forma youkai, te partiria ao meio com as minhas garras agora mesmo! - gritou.
O ruivo riu:
- E se eu estivesse na minha forma youkai, ia fazer a mesma coisa sem precisar nem mesmo chegar perto de você – disse. - Eu apostaria que até mesmo uma simples rosa seria capaz de derrubá-lo.
- Uma... rosa? - Inuyasha perguntou abobalhado. Nunca tinha ouvido tamanha besteira. - Por acaso você é daquele tipo de homens que, sabe... Sai com outros homens?
- Isso é um convite? - o ruivo se afastou a uma distância segura, com uma expressão entre o assustado e o divertido.
- Não seja imbecil!
Cruzou as pernas novamente, assumindo a mesma posição emburrada de antes. O que tinha dado em todos os humanos para acharem que podiam se divertir as suas custas? Souta estava sempre rindo escondido com os amigos, observando quando ele e Kagome faziam questão de ficarem a sós. Quanto à mãe desta, vivia pedindo que, por favor, ele experimentasse essa ou aquela roupa, o que era um prato cheio para Vovô aparecer na porta, rindo até quase perder o fôlego, zombando descaradamente de sua incômoda posição.
Como se não fosse pouco, agora havia o maldito ruivo da parada de ônibus.
- Olha, eu não quis te ofender - disse o ruivo, rindo outra vez. - Foi você quem começou.
- Eu não comecei nada.
- Ah, começou sim.
- Não mesmo!
- Claro que sim!
A cena era no mínimo estranha. Inuyasha gritava a plenos pulmões enquanto o ruivinho apenas sorria respondendo com toda paciência.
- Eu não comecei coisa nenhuma! Estava falando do meu passado e você ficou ai, dando uma de idiota - Inuyasha gritou, por fim.
- Eu também estava falando do meu passado, oras. Não acredita que fui o lendário youkai raposa, Kurama Yoko?
- Não!!
- Por que não? - perguntou Kurama.
- Simplesmente porque eu nunca ouvi falar.
Kurama balançou a cabeça desinteressadamente e olhou novamente na direção da esquina. O ônibus estava demorando... Segundo seu relógio de pulso, já estava ali há quase vinte minutos.
Voltou-se novamente para Inuyasha com aquele sorrisinho incrédulo e divertido que o outro aprendera tão rápido a odiar.
- Você é alguma espécie de especialista em youkais ou por acaso se considera um ser onisciente?
- Oni... o que?
- Onisciente - Kurama teve que se controlar para não rir daquilo. - Alguém que tem consciência de tudo.
- Eu sei o que quer dizer onisciente, não sou burro! E não, eu não sei de tudo, mas conheci todos os youkais poderosos que andavam sobre esse chão e tenho absoluta certeza de que você não é um deles!
- Entendo... e qual é seu nome mesmo? - o rapaz ruivo perguntou.
- Inuyasha - respondeu orgulhoso.
Os dois ficaram em silêncio por um instante. Inuyasha quase esperava que a menção de seu nome fizesse o outro tremer sobre as pernas, mas ao contrário disso, ele apenas deu de ombros e voltou a olhar para o relógio distraidamente.
- Não me traz nenhuma lembrança.
- Porque você é um maluco, não um youkai - disse Inuyasha, triunfantemente.
Kurama ergueu a sobrancelha esquerda.
- Eu sou maluco? Posso provar que não sou...
- Provar...? - perguntou Inuyasha, afastando-se inconscientemente, diante da expressão segura do outro.
- Você pode provar que é um youkai?
Ele não podia. Depois que a Shikon no Tama o transformara em humano, a única coisa que tinha restado de sua vida anterior era a tessaiga, mas nem mesmo conseguia empunhá-la com aquele corpo frágil. E se aquele ruivo metido fosse mesmo um youkai, o que iria fazer?
Levantou-se, saindo de seu confortável cantinho na sombra e se dirigindo ao sol, onde teria mais espaço para lutar - ou fugir, dependendo de quão pretas as coisas ficassem.
Kurama observava atentamente o rosto do rapaz e a relutância que demonstrava agora. Aquele sorriso apareceu novamente e ele viu, com diversão, a carranca que trouxe ao rosto de Inuyasha.
- Muito bem, eu vou provar.
Balançou os cabelos de um lado para o outro. Inuyasha assumiu sua velha posição de luta, mas a tessaiga não estava na bainha. Não existia bainha!
"Estou ferrado...", pensou.
Então, como um milagre, o som de rodas avançando no asfalto foi ouvido e o ônibus parou bem ali.
Kurama sorriu largamente, nunca esperar o ônibus fora tão divertido.
- Acho que vamos ter que deixar nossa conversa para outro dia - disse enquanto subia no veículo. Quando encontrou um lugar vago, ainda acenou pela janela, sempre mantendo o sorriso.
Inuyasha observou o ônibus se afastar rapidamente com uma expressão espantada. Não sabia se agradecia a sorte ou se se sentia absurdamente idiota. Afinal, que provas ele tinha de que o ruivo maluco era realmente um youkai? Tudo bem que não podia sentir o cheiro nem usar nenhum tipo de sentido superaguçado, mas mesmo assim... Era apenas um estúpido colegial!
Bateu o pé na calçada, furioso, e só então percebeu. O ônibus já se afastava a toda, quase no final da rua, e ele tinha esquecido de ir com ele.
Desconsolado, começou a correr.
FIM
Seqüência: No Supermercado