Entre o Desejo e a Honra
Prólogo
Feliz daquele a quem o nascimento deu um irmão.
A fortuna não lho pode dar. É um amigo que foi
criado com ele, e ele possui um segundo eu para
resistir a um mundo cheio de lutas e de perfídias.
(Schiller)
A casa estava completamente silenciosa. Tampouco havia luzes, com exceção da lareira da sala que ainda resguardava um pequeno fogo agonizante. O menino de cabelos claros e olhos tão verdes quanto às roupas que vestia remexia displicentemente as cinzas com um pedaço de madeira, de modo a não deixa-lo morrer. Se a chama apagasse completamente, ficaria escuro e frio demais para permanecer na sala e ele não queria voltar para o quarto. Não até o irmão mais velho entrar pela porta a seu lado e finalmente dar-lhe a chance de fazer todas as perguntas que vinha guardando desde que descobrira sobre seus passeios noturnos.
O vento soprou mais forte do lado de fora, fazendo com que os galhos do cedro próximo à janela batessem contra a mesma repetidas vezes, contribuindo para a atmosfera fantasmagórica que a madrugada conferia ao salão principal. O menino estremeceu e pela primeira vez tomou consciência das sombras dos móveis desenhadas nas paredes, que pareciam enormes e assustadoras em volta dele. Encolheu-se um pouco mais, abraçando a si mesmo, protegendo-se assim do frio e de seus medos infantis.
Uma hora se passou, talvez mais. Havia um relógio de areia no centro da sala adjacente, mas ele não tinha disposição para tatear até lá e traze-lo para junto de si. Temia a escuridão, mas ainda mais a possibilidade de ser ouvido pelos que dormiam ou de não estar ali quando Aioros finalmente aparecesse. Tinha que ser aquela noite. No dia seguinte o irmão partiria com o exército para além do oceano e tudo estaria acabado. Era só uma criança, mas não ficaria tranqüilo até que pudesse ter certeza de que os pressentimentos que o atormentavam eram apenas peças provocadas por sua jovem imaginação, como costumava dizer sua mãe quando despertava trêmulo de um pesadelo. Caso não fossem... Ah, ele preferia nem mesmo pensar.
O fogo estava se apagando e não havia nada mais que pudesse fazer. Logo o lugar estaria tão frio que o obrigaria a voltar para o quarto se não quisesse arriscar-se a pegar uma pneumonia. Olhou suplicantemente para a porta uma vez mais. As batidas na janela tinham parado, o vento parecia ter dado uma trégua entregando a casa novamente ao silêncio, e nada dos desejados sons de passos no lado de fora.
De repente, ao mesmo tempo em que se levantava com raiva pela oportunidade quase dada como perdida, a porta se abriu e um homem vestindo uma pele branca entrou furtivamente. Assim que se viu dentro da sala, despiu-se da pele e passou as mãos pelos cabelos úmidos do orvalho invernal. Ainda não tinha percebido que não estava sozinho em meio a toda a escuridão, mas não demorou a dar-se conta da outra presença ali. Por mais imóvel que seu pequeno irmão pudesse se manter, ele nunca conseguia passar despercebido, não para Aioros. Não para um dos principais capitães do exército do reino.
- Ainda acordado, Pequeno? – perguntou sorridente. – Eu pensei que tinha me prometido que dormiria depois do sol se pôr de modo a estar acordado bem cedo para me acompanhar até o porto. Você sabe que só poderei estar de volta – fez uma pausa, franzindo a testa, mas por um instante curto demais para que o garoto percebesse qualquer coisa errada na ausência de luz – daqui a muitos meses.
Esperou uma resposta em silêncio, mas esta nunca foi pronunciada. Por longos instantes apenas o assobio ocasional do vento foi ouvido até que Aioros resolveu se aproximar.
- Aioria, está tudo bem? – indagou em tom mais grave, o fato de chamá-lo pelo nome dando ênfase a seriedade da pergunta. – Você estava me esperando todo esse tempo é porque quer falar comigo sobre alguma coisa, certo?
- Sim – a voz soou quase sussurrada, com certo tom de surpresa, como se estivesse acordando de um devaneio, e o menino de não mais que dez anos correu para ele, segurando-lhe a mão como sempre fazia quando se sentia inseguro diante de alguma coisa. - Eu queria perguntar sobre algo que estive pensando.
Aioria olhou nos olhos do irmão mais velho, tão iguais aos seus, intensamente. Como dizer a ele que andara observando seus passos, que certa vez o vira, da janela de seu quarto, se afastando pelo jardim com um grupo de homens suspeitos e que isso vinha incomodando-o desde então? Como falar de suas apreensões sem que aquele em quem confiava mais do que em qualquer outra pessoa no mundo não sentisse que estava duvidando de sua integridade?
Ouvira comentários do próprio pai e de alguns de seus amigos sobre traidores entre os soldados que partiam para o Santuário. Naquela semana mesmo um homem de alto posto no exército viera avisá-los para estarem atentos e fizera perguntas sobre a conduta de Aioros junto à família. As respostas, obviamente, foram as melhores possíveis e ele chegara a pensar que estava ficando louco com aquela desconfiança que tanto o envergonhava.
- Você vai partir em missão amanhã, mas vai voltar em seis meses como o prometido, não é? - perguntou, escolhendo as palavras. - Se houvesse alguma coisa errada, você diria ao seu superior e ele resolveria tudo... É isso que os soldados fazem quando desconfiam de alguma coisa, não é?
- Pequeno... - Aioros interrompeu e havia divertimento em sua voz. - Do que está falando?
Mais silêncio. Aioria não queria falar claramente sobre aquilo. Se estivesse tudo bem como ele desejava que estivesse, o irmão poderia se ofender com as suas perguntas e não suportaria seis longos meses sem saber se havia sido ou não mal-interpretado e ainda menos ouvir claramente que o insultara.
- Está frio. Você não sentiu frio lá fora? - seus olhos brilhavam com lágrimas que se recusava a derramar e a pergunta soara cheia de significado.
- Eu não estava com sono e decidi dar uma volta... Acho que tenho feito muito isso desde que soube que partiria para longe - respondeu Aioros tranquilamente. - Você sabe que é a primeira vez que vou ao Santuário e não faço a menor idéia do que encontrarei quando chegar lá. Dizem que há uma grande comoção por causa do nascimento de uma criança que seria a reencarnação de Athena. Há rebeliões por toda parte pelo direito de disputar as armaduras de ouro. Segundo nosso governo, apenas os nobres têm esse direito, mas muitos acreditam que isso é errado porque o nascimento não determina se a pessoa tem as características essenciais a um cavaleiro de Athena.
Ele ficou pensativo, com o olhar perdido na parte superior da lareira, como se tentasse entender o que ele mesmo acabara de declarar.
- Mas essas pessoas são uns ignorantes, não é mesmo, Aioros? Nosso pai sempre disse que...
- Não há nada mais importante que o sangue - completou o rapaz ainda absorto em si mesmo.
- Você...
- Não há nada errado, Aioria... - Aioros se ajoelhou de modo a que os dois ficassem na mesma altura. - Amanhã eu irei atravessar o oceano e daqui a seis meses nos encontraremos novamente. Você não precisa se preocupar com a minha conduta. Manter a honra dessa família está acima de qualquer outra coisa para mim, você duvida disso?
Aioria suspirou e balançou a cabeça negativamente sem nenhuma hesitação. Era como se um grande peso tivesse sido tirado de dentro de seu peito. No dia seguinte veria o irmão mais velho, a pessoa em quem mais confiava e talvez a quem amasse mais que aos próprios pais, embarcar para longe, para a ilha onde se localizava o santuário de Athena. E assim como o veria partir, assistiria sua volta no dia combinado e então haveria muitas histórias para ouvir em volta da lareira como sempre acontecia quando o pai voltava de uma longa viagem.
- Agora vá para a cama ou irei embora e não teremos chance de nos despedirmos.
- Sim!
O menino sorriu e correu para o quarto sem ligar para a escuridão ou para o barulho. Encontrara alívio para suas dúvidas e isso era o bastante para que nada mais importasse.
Não olhou para trás, mas mesmo se o tivesse feito não teria visto a expressão desolada no rosto do irmão mais velho que estava voltado para a direção oposta. Talvez ela tivesse sido um consolo nos anos que se seguiriam, nas muitas vezes que o ódio tomaria seu coração e o respeito e afeição dessa época se reduziriam a uma lembrança dolorosa.
Aioros teria feito mais se soubesse que era a última vez que os dois conversariam como irmãos. Mas ele não tinha como saber. Continuou ainda por muito tempo de pé, apenas observando os contornos nas paredes castigadas pelo tempo e pedindo a qualquer deus que o estivesse ouvindo que a escolha que fizera fosse realmente à correta e não estivesse, ao contrário, cometendo um grande erro.
-o-o-o-o-o-
Aquela noite não foi esquecida, por maiores que tenham sido os meus esforços para apagá-la da minha mente de uma vez por todas. Custava-me aceitar que poderia ter evitado a ruína do meu nome e família se não tivesse sido tão tolo, se não fosse uma criança fraca que ainda segurava a mão do irmão mais velho para enfrentar uma noite gelada e escura de inverno.
Houve uma despedida festiva no porto no dia seguinte e depois o tempo parou em uma interminável espera.
Os seis meses prometidos se passaram e nenhuma notícia dos soldados enviados para além-mar retornou. Muitos acreditavam que era a fúria de Athena por eles terem ousado revidar contra uma rebelião que agia sob o nome dela. Estes faziam suas preces e suplicavam pelo retorno de seus entes queridos, mas a maioria – meu pai estava entre eles – apenas encarava como um atraso não raro em uma situação como aquela. O Santuário era isolado demais para se ter idéia dos acontecimentos internos e, com a pouca informação que se tinha, os soldados nada podiam fazer se não esperar que suas suposições fossem corretas e que pudessem voltar a salvo dentro do período estimado.
O imperador e os nobres insistiram nisso durante muito tempo. Eles tinham tomado suas precauções e não viam motivos para acreditar em algo diferente. Então os seis meses se tornaram oito e depois dez... Quando se contava um ano desde a partida de Aioros, um dos soldados que o acompanharam retornou, ferido e esgotado como se tivesse estado todo aquele tempo perdido em um deserto, trazendo consigo uma mensagem cujo conteúdo foi o início do caos.
Era inverno novamente, uma noite bem mais fria do que aquela em que tivemos nossa última conversa, eu e o homem que um dia chamara de irmão. Meu pai entrou por aquela mesma porta, usando uma pele branca para se proteger do frio que tornou as duas ocasiões ainda mais semelhantes causando-me um déjà vu. Mas daquela vez não houve sorrisos pelo minha presença, apenas uma palidez doentia e uma desatenção a tudo mais que não fosse o documento que tinha entre as mãos. Um pergaminho que mais tarde eu saberia era o decreto de nossa sentença.
Aioros tinha traído o reino, se aliado aos rebeldes e provocado o fracasso da missão. Ele que me garantira naquela mesma sala que preservaria a honra de nossa família acima de qualquer coisa. O odiei no instante em que pude acreditar.
Mais tarde, quando vi tudo o que eu mais amava morrer por causa do erro que ele tinha cometido, jurei a mim mesmo que o perseguiria até o Hades se preciso fosse, mas o ouviria me explicar o porquê e, nesse mesmo dia, a honra de meu nome seria restabelecida e eu teria vingadas cada gota de sangue.
Fim de Prólogo