Entre o Desejo e a Honra


 

 

Capítulo I

Dez Anos Depois

 

Aquela despedida para nunca mais.

As mãos se apertaram num gesto rápido.

Os olhos se encheram de lágrimas

Nunca mais, como um soluço, nunca mais.

Destinos que se cruzam rapidamente.

Quem sabe se de novo, um dia? ...

Havia um pressentimento, uma certeza quase, porém,

De que nunca mais, nunca mais...

 

(Augusto Frederico Schmidt)

 

Houve uma época – até muito depois de ele ter se tornado um homem – que Aioria pensava no inverno como uma época de perdas. O tapete fino e branco dos primeiros dias da estação fazia com que se lembrasse da manhã na qual o irmão partira para nunca mais voltar. Nessas ocasiões ele se mostraria introspectivo e um tanto quanto intratável e permaneceria assim durante dias até que, em meados de fevereiro, o tapete branco se tornasse mais espesso e os ventos noturnos começassem a soprar com mais força, trazendo com eles os pesadelos.

Então ele partiria para quatro semanas lutando contra lembranças que bombardeavam impiedosamente seu inconsciente. Os sonhos eram sempre sobre os soldados invadindo sua casa, matando seu pai a tempo dele poder testemunhar como o sangue jorrava contra a parede cinzenta da sala antes que fosse arrastado dali. Às vezes acordava imediatamente depois disso, mas mais frequentemente continuava sonhando até o momento em que sua mãe o afastara da casa, ordenando que tomasse a direção da floresta e corresse para o mais longe que conseguisse. E, assim como acontecera na realidade, ele obedecia e nunca olhava para trás de modo a tomar conhecimento do que aconteceria com ela.

Os pesadelos faziam com que gritasse, ele sabia. Era o som da própria voz, elevando-se sobre o barulho do vento, que o despertava a maioria das vezes. Ele sentava-se sobre a cama improvisada com palha, o rosto suado e o coração aos saltos, e não encontrava o calor do corpo de Houshi aninhado a seus pés. O cachorro estaria esperando perto da lareira, deitado e com a cabeça levantada, esperando o aceno de Aioria para que voltasse, o que significava que a cota de gemidos e palavras tinha acabado por aquela noite.

Intimamente sabia que Shion também estaria bem consciente de suas perturbações, mas preferia fingir que não, que o outro lado da cabana era longe o suficiente para os sons serem abafados pelos barulhos de fora e o mestre continuava a dormir profundamente. Se em alguma manhã durante todos os anos em que permaneceu na montanha Shion lhe tivesse perguntado sobre o que sonhara, provavelmente teria preferido ir embora e correr o risco de ser reconhecido e morto em algum outro lugar a responder, mas ele nunca perguntou. Era um acordo silencioso que tinham desde a manhã seguinte aquela noite, quando decidira permanecer ali até tornar-se forte o bastante para o que o esperava lá fora: o mestre não perguntaria sobre o discípulo e o discípulo tentaria viver no presente, fechando os olhos para todos os seus temores e desejos, seguindo apenas os ensinamentos mestre.

Durante pouco mais de nove anos, Aioria se manteve afastado dos vilarejos que cercavam a montanha. Costumava permanecer nos arredores da cabana durante o dia, sob a proteção dos cedros muito altos que a cercavam a tornando incógnita para qualquer um que andasse pelas trilhas. À noite, quando o mundo se tornava silencioso, com exceção dos sons de grilos e do piar das corujas, costumava correr por entre as árvores até conseguir ver a silhueta das casas sobre os raios lunares na região onde crescera. Não costumava demorar muito por lá, apenas o suficiente para ter certeza de que mais um dia acabara, mas ele ainda conseguia lembrar. Apesar da culpa que sentia e dos pesadelos constantes, seu maior receio era que a ilusão da vida simples que levava agora um dia o fizesse esquecer quem ele fora e, consequentemente, da sua promessa.

Era pelo dia em que atravessaria o oceano até o Santuário e recuperaria o respeito que um dia seu nome impusera que suportava os longos e árduos dias de treinamento. Shion era um bom homem, mas rígido e incansável. Outrora havia tido um posto elevado dentro do exército real e contava com orgulho sobre todas as vezes que liderara tropas por territórios além do oceano, conquistando reinos poderosos em meio a batalhas de proporções épicas. As histórias eram muitas e Aioria as consideraria fantasiosas se seu mestre não tivesse se mostrado tão habilidoso. Algumas noites, quando o céu estava isento de nuvens e coberto por centenas de pontos brilhantes, ele deitava-se ao relento e observava as constelações, imaginando se um dia teria a chance de viver suas próprias batalhas. A resposta sempre dependia do resultado daquele último encontro com Aioros que tão ardentemente desejava e era essa certeza que o tornava um aluno tão apaixonado. Sua vida só começaria depois de ter restabelecida sua honra e para isso precisava ficar cada vez mais forte, até o dia em que Shion não tivesse mais nada para lhe ensinar.

Aqueles anos de treinamento passaram como uma brisa, mas ao mesmo tempo parecia ter sido toda uma eternidade. No dia em que Aioria contava o vigésimo inverno de sua vida, a neve estava caindo abundantemente sobre a montanha e de vez em quando eles podiam ouvir o estalar da madeira que ameaçavam ceder sob a neve que acumulava no telhado. Por causa disso decidiu adiar os treinos até que pudesse dar um jeito naquilo e toda a manhã foi gasta em não deixar que a cobertura branca e gelada se tornasse demasiado pesada para o teto já bem gasto e ao mesmo tempo substituir as vigas que estivessem em pior estado.

Já passava do meio dia quando finalmente voltou para dentro da cabana e o rapaz tinha certeza de que ouviria o mestre manda-lo voltar lá fora e praticar algum exercício enquanto ele mesmo não aparecia para acompanhá-lo, coisa que anos antes o deixaria bastante irritado, mas, para sua surpresa, Shion apenas indicou-lhe uma cadeira e pediu para que se sentasse.

- Tenho algo importante a lhe dizer – o homem de longos cabelos dourados, que agora já começavam a tornarem-se brancos, sorriu serenamente.

Aioria aceitou o convide prontamente. Tirou os sapatos e a pele que levava sobre os ombros, então se sentou, fitando o mestre em silêncio, esperando que falasse.

- Você se lembra do inverno em que nos conhecemos? – Shion perguntou, mas encarava a porta fechada da casa, como se pudesse ver através dela e dos anos, dando a impressão de que falava com ninguém, senão consigo mesmo. – Foi o inverno mais frio do qual posso me lembrar. Até mesmo quando parte do pico da montanha desabou quinze anos atrás, não nevava como naquela noite. Quando o encontrei deitado perto das urzes no vale, não achei que fosse sobreviver.

Parou de falar por um instante, ficando pensativo e com uma expressão leve, quase sorridente. O rosto até então impassível de Aioria franziu-se um pouco, em sinal de que uma luta interior começava a ser travada. Nunca tinha demonstrado o desejo de falar sobre o passado antes e o mestre respeitara seu silêncio. Não entendia por que agora ele começava a lembrar do dia que o acolhera sem mais nem menos.

- Eu o trouxe para casa e tomei conta de você durante dias, estava fraco e febril, mas isso não era nada comparado ao estado da sua mente. Não pensei que fosse voltar a ser uma criança como as outras, mas você me surpreendeu e se recuperou por completo. Lembro que me agradeceu polidamente e já fazia menção de partir quando eu o convidei para ficar e ser treinado nas artes da guerra por mim.

- Mestre... – começou Aioria, mas calou-se antes que pudesse interromper as palavras de Shion. A confiança naquele homem e a curiosidade de até onde aquela conversa os levaria sobrepujou sua má vontade em falar sobre qualquer assunto que se relacionasse ao seu passado. Se as coisas fossem longe demais, ele saberia como reagir. Não havia ninguém no mundo melhor que ele em absorver-se em si mesmo e permanecer assim enquanto lhe conviesse.

O telhado rangeu sob uma rajada de vento particularmente forte e esse foi o único som ouvido pelos próximos minutos. Shion mexeu-se desconfortavelmente na cadeira, segurando a perna esquerda de modo a acomodá-la melhor. Tinha uma velha cicatriz de batalha naquele joelho e ela costumava latejar dolorosamente durante todo o inverno, especialmente em noites como aquela, quando a neve e o vento se aliavam para castigar a montanha.

- Eu reconheci em você uma criança nascida entre os nobres do reino, Aioria – ele continuou finalmente –, estava escrito em casa gesto que fazia. Talvez por ter crescido em um ambiente no qual errar não é uma opção, você se mostrou disciplinado demais para sua idade. A única coisa que eu não conseguia entender, era por que se esforçava tanto em controlar o seu orgulho e fazia tudo o que eu te mandava sem questionar.

Aioria conteve um pequeno sobressalto. Lembrava-se bem do primeiro ano de treinamento. Fora o ano mais difícil não apenas porque não estava preparado fisicamente, mas principalmente porque o mestre lhe delegava tarefas que em sua casa eram realizadas pelos servos mais insignificantes. Quando isso acontecia, ele tinha que concentrar-se o mais que pudesse no objetivo de tudo aquilo e esquecer toda a humilhação que sentia. Se não se tornasse forte, jamais chegaria ao Santuário com vida e era exatamente o que aconteceria se Shion o mandasse embora.

- Aioria!

Ele levantou os olhos para o homem mais velho que agora o encarava fixamente.

- Eu tentei preparar seu espírito e fazer de você um homem forte, mas eu sinto muito em dizer isso, eu não consegui – o choque no rosto do discípulo era evidente, mas Shion não se deixou intimidar. – Você jamais será esse homem enquanto não conhecer a você mesmo e livrar-se das dúvidas que o acompanham desde aquele dia, seja lá o que tenha acontecido antes. Está aqui há dez anos, Aioria, e enfim chegou o momento de você partir. Se não conseguir trocar essas dúvidas por algumas certezas enquanto estiver lá fora, você será consumido por elas e eu sinto muito em dizer que jamais voltaremos a nos encontrar.

Trocar as dúvidas por algumas certezas... Aioria repetiu mentalmente. A única coisa que conseguia tirar disso era que o mestre realmente o conhecia muito pouco. Ele não tinha dúvidas, sabia exatamente o que tinha que fazer assim que saísse da montanha. Pegar um navio para o Santuário... Encontrar Aioros... Sobrepujar com seus feitos a mácula de ser reconhecido como o irmão de um traidor... E não importava o que o mestre pensava a respeito disso, ele não ia morrer até conseguir.

- O meu treinamento não está completo – foi tudo o que saiu por seus lábios por maior que fosse a vontade de protestar contra aquelas palavras.

- Não está mesmo – assentiu Shion. – Mas não há mais nada que eu possa lhe ensinar em termos de táticas de combate. Você pode se considerar um soldado completo, Aioria, o mais só aprenderá quando descer dessa montanha e se encontrar no mundo real. Você sempre ouviu minhas histórias sobre as guerras do passado com bastante interesse e eu imagino que seja esse o caminho que pretende seguir. Se for o caso, não há melhor momento do que esse.

- Há alguma coisa acontecendo? – Aioria perguntou sentindo o coração acelerar. Até então não tinha levado a sério a idéia de partir, ainda mais estando em pleno inverno, mas se uma guerra estivesse prestes a estourar, a situação seria muito diferente. Poderia ser a oportunidade que esperara nos últimos dez anos.

Shion se levantou da cadeira com alguma dificuldade e caminhou lentamente para perto da lareira, quase tendo que arrastar a perna que o incomodava. Era por natureza um homem inquieto e não conseguia permanecer muito tempo sentado em momentos decisivos como aquele. Passou a mão pela testa e respirou fundo, comportamento que Aioria reconheceu como uma espécie de ritual. O mestre sempre agia daquela maneira quando estava a ponto de expressar-se sobre um assunto que o preocupava.

- Você era então muito jovem, mas consegue se lembrar da rebelião dos camponeses e escravos no Santuário cerca de onze anos atrás? – perguntou pausadamente.

Aioria assentiu. Como poderia esquecer? Aquela rebelião foi o início da desgraça da qual sua família foi acometida.

- Havia uma grande comoção por causa do nascimento de uma criança que a grande maioria dos subjugados acreditava ser a reencarnação de Athena. A menina era filha de uma escrava, o que para eles era a prova definitiva de que o sistema de aceitação apenas de nascidos nobres entre aqueles que se candidatavam a cavaleiros do Santuário só poderia estar errado. Os camponeses e escravos se uniram e provocaram uma rebelião que durou um ano inteiro. Até mesmo alguns soldados do reino se juntaram a eles, esperando poder mudar alguma coisa, mas, como se sabe, no final eles não foram páreo para o exército e tudo o que fizeram não passou de um pouco de tumulto.

Shion interrompeu a narrativa e deslocou-se dessa vez para perto de uma das janelas. Estava fechada, mas ele podia sentir o vento frio penetrando pelas frestas e acumulando uma camada fina de gelo na superfície plana de madeira do parapeito. Passou os dedos sobre ela distraidamente enquanto continuava:

- Acreditava-se que durante a contenda, a criança da qual tanto se falava havia sido morta e ninguém se preocupou mais com essa história até seis meses atrás. Os boatos que correm é que dois homens, um grego cuja identidade não se conhece e um estrangeiro chamado Julian Solo, reiniciaram a campanha e juntaram um exército de camponeses e escravos muito maior do que o que tinha se formado no passado. A preocupação do reino é que esse estrangeiro esteja conseguindo armas para eles e por isso tem mobilizado o exército para que fique preparado. Dentro de dois dias eles estarão mandando um grupo especial para o Santuário com a missão de espionar e enviar notícias das condições gerais dos rebeldes...

Parou de falar de repente e se virou bruscamente para o discípulo que o ouvia com interesse não disfarçado.

- Aioria, você acha que tem alguma chance de ingressar no exército como um soldado?

O rapaz carranqueou diante do significado da pergunta. Entrar no exército como um soldado exigia dele ser um grego e parte de uma família honrada e de posses, ele apenas correspondia à primeira das exigências.

- Não – respondeu quase sussurrando, sentindo a vergonha de sua condição tomar conta de seu ser com uma força que ele não experimentava havia vários anos.

- Então o grupo especial é a sua grande chance.

-o-o-o-o-o-

Eu não consegui dormir àquela noite. Tudo no que conseguia pensar era que na manhã seguinte, no instante em que colocasse o pé para fora daquela cabana, minha viagem para o Santuário começaria, a vida pagaria suas dívidas para comigo e eu finalmente poderia procurar por um caminho sem o enorme peso de carregar o nome de um traidor sobre as minhas costas.

As palavras de Shion sobre as dúvidas que ele atribuía ao meu espírito não me preocuparam, eu pensava nisso como simples conseqüência da ignorância dele no que se referia ao meu passado. Não me passou pela cabeça nem mesmo brevemente que houvesse algo de verdade naquilo, que eu poderia duvidar no meu íntimo que o querido irmão que conheci um dia tivesse abandonado a tudo que devia resguardar deixando a família pagar pelas conseqüências de seus atos sem nem mesmo hesitar. O reino declarara que sua lealdade tinha passado para o lado do inimigo e eu tinha aprendido a confiar cegamente naqueles que regiam a terra onde nasci. Tudo o que podia fazer era lutar para alcançar a minha meta de vingar o destino trágico dos meus pais e reingressar como membro da sociedade pelos meus próprios feitos.

O grupo especial não era algo do qual eu já tivesse ouvido falar. Não estranhei. Qualquer soldado do reino ficaria feliz em não se lembrar que homens como aqueles existiam. Eles eram conhecidos popularmente como o Exército dos Párias, constituído por criminosos, estrangeiros e escravos que por algum motivo obtiveram a liberdade. Esses homens que não tinham um lugar entre a sociedade se ofereciam para partir em missões complicadas, muitas vezes suicidas, na esperança de fazer algo certo e cair nas graças do imperador. Se conseguissem sobreviver e se portassem bem, cumprindo a risca o que lhes fosse ordenado, poderiam ter seus nomes limpos e conseguir boas recompensas.

Shion tinha começado pelo Exército dos Párias muito tempo atrás. Ele me contara sobre como fora bem sucedido em resgatar um príncipe aprisionado em um país estrangeiro, conseguindo com isso tornar-se um cidadão da Grécia. Eu duvidara do relato mais de uma vez, atribuindo a fantasia à meia garrafa de vinho que ele fazia desaparecer religiosamente todos os domingos, mas não tinha importância. Se um navio sairia do porto dali a dois dias na direção do Santuário, eu estaria nele, na companhia de quem era o que me trazia menos preocupação.

-o-o-o-o-o-

Aioria tentou não pensar no que estava fazendo durante as horas que se seguiram. Apanhou seus pertences em silêncio e sentou-se no batente da cabana ao lado de Houshi, acariciando o pelo do animal distraidamente enquanto observava a neve caindo sobre a montanha. A paisagem estava mais nebulosa que de costume e nenhum som lhe chegava aos ouvidos. Apesar disso, ele podia ficar ali e imaginar a lua e as estrelas escondidas sob o manto de nuvens e as folhas verdes dos cedros que surgiriam quando o inverno terminasse. Agora que estava prestes a partir, era como se não tivesse passado tempo suficiente naquele lugar, como se ainda houvesse detalhes que ele não pudera memorizar e que agora talvez jamais fosse ter a chance.

Mais uma vez se pegou a perguntar-se se aquela eterna despedida na qual se transformara sua vida acabaria. Sua escolha havia sido feita, mas uma vez que partisse, não haveria garantias de que viveria o suficiente para um retorno.

Olhou para trás, para dentro da cabana onde a lareira ainda resguardava algumas brasas acesas e Shion ainda dormia sentado na cadeira perto dela. Por um instante ponderou se deveria simplesmente pegar a sacola de couro onde tinha guardado o pouco que tinha e ir embora sem despedidas, desaparecendo no nada da mesma maneira como tinha aparecido ainda na infância, mas acabou descartando a idéia. Não deixaria o mestre pensar que não era grato por tudo o que fizera por ele e, embora jamais fosse admitir em voz alta, sentia que se partisse como um fantasma, sua presença talvez fosse esquecida e, se por acaso não retornasse, seria um conforto pensar que pelo menos sua lembrança tinha permanecido.

Não havia sol naquele dia, mas Aioria já estava ali a invernos suficientes para saber que ele estaria alto e brilhante se estivessem em outra estação. Houshi deixou escapar um gemido de protesto a perda de calor quando o rapaz levantou-se de perto dele e se dirigiu a lareira, começando a reviver o fogo com um pedaço de lenha. Como era esperado, Shion despertou do sono e se levantou, mancando para a porta a fim de olhar como estava o tempo lá fora antes de continuar a rotina de todos os dias. Nenhuma palavra foi dita. Os dois homens tinham o costume de falar apenas o necessário e, como tudo já tinha sido discutido no dia anterior, o mestre não se deu ao trabalho de repetir suas explicações nem suas advertências.

A manhã foi gasta em tarefas domésticas e consertos habituais de inverno e, quando a hora foi aproximando-se do meio dia e a neve parou de cair, Shion sentou-se novamente em sua cadeira e, dirigindo-se a Aioria, acenou com a mão displicentemente na direção da porta:

- Você deve ir agora. Aproveite que a neve deu uma trégua e desça a montanha o mais rápido que puder. Viajar com aqueles homens não vai ser tão fácil como você pode estar pensando. Eles estão concentrados no porto, provavelmente. Devem estar esperando que apareçam mais voluntários de última hora.

O cachorro, deitado próximo ao fogo, levantou a cabeça e latiu como se dissesse adeus.

Aioria abriu a boca para protestar, mas não disse nada. De coisa alguma adiantava prolongar sua permanência ali. A cada instante que passasse, o futuro lhe pareceria mais obscuro e ele não ganharia nada além de alimentar os receios que tentavam insistentemente eclipsar sua decisão. Então pegou a sacola já largada perto da porta e olhou para trás, procurando pelas palavras.

- Mestre...

Shion balançou a cabeça e depois a mão da mesma maneira que antes, como se tratando de algo sem importância. Os dois olharam-se por um instante longo e Aioria pensou ter visto mais nos olhos do mestre do que ele poderia ter dito em palavras. Não havia nada a ser acrescentado, ele lhe desejava sorte no caminho que escolhera e tinha esperanças que um dia voltariam a se encontrar.

Imaginação ou não, isso seria o máximo que conseguiria daquele homem, o ex-combatente introspectivo com o qual convivera todos os últimos anos e que talvez ele pudesse ter amado com o afeto destinado a um pai, se o seu coração não estivesse tão acorrentado a família destruída no passado e na missão de recolher e remodelar os cacos do que era uma lembrança querida hoje apenas para ele. Balançou a cabeça levemente, em uma promessa silenciosa de que faria o que fosse possível para que se encontrassem outra vez e, talvez, nessa ocasião tivessem mais a dizer do que tiveram naquele tempo. Uma última olhada para a cabana, um meio sorriso para Houshi.

Aioria então partiu sem olhar para trás uma segunda vez.

-o-o-o-o-o-

Descer a montanha não era um desafio, mesmo no inverno. As trilhas eram largas e estavam sempre acessíveis uma vez que eram amplamente utilizadas por lenhadores e aldeões que tinham o costume de caçar por ali. Aioria teve o cuidado de andar sempre mais próximo a floresta do que ao centro do caminho, assim poderia esconder-se se por acaso percebesse alguém se aproximando. Enquanto caminhava, tentava imaginar como seria aquele grupo especial com o qual estava indo se encontrar. Viajar com aqueles homens não vai ser tão fácil como você pode estar pensando, foram as palavras de Shion. Teria dito isso por eles serem em sua maioria criminosos e filhos de culturas distantes, a maioria tidas como selvagens, ou por causa dele mesmo? Tantos anos vivendo naquele lugar, sem contato com outras pessoas, talvez fizesse com que estar de repente em meio a um exército fosse um choque para ele. Mesmo pensar em andar novamente pela cidade, em meio as ruas cheias de gente, causava-lhe um ligeiro mal estar. De qualquer maneira, esse era um detalhe que teria que superar se quisesse seguir adiante. Não tinha que conviver com ninguém se não quisesse, atura-los seria o bastante.

Quando as árvores começaram a ficar mais dispersas e o vento a soprar com mais intensidade, ele soube que a cidade estava próxima. Algumas casas já apareciam em meio as árvores e a essa altura Aioria decidira que não era uma boa idéia continuar se escondendo. Nenhum daqueles fazendeiros estranhariam um viajante dirigindo-se ao porto, mas certamente despertaria desconfiança se o flagrassem tentando se camuflar. Mais a frente, quando a estrada se tornou realmente aberta e várias outras pessoas começaram a surgir se dirigindo todas a mesma direção, ele teve que usar de toda sua força de vontade para não dar meia volta e retornar a montanha. Os anos de solidão o tinham afetado mais do que imaginara a princípio. Cada vez que se encontrava com alguém na estrada, seu coração disparava e tinha a impressão de que todos o estavam fitando.

Não seja estúpido, rapaz, eles têm muito mais com que se preocupar do que com a sua vidinha insignificante. Mas se continuar olhando em volta desse jeito idiota, então sim, pode apostar que vão começar a querer saber mais do que é da conta deles... Aioria balançou a cabeça e respirou fundo, concentrando-se na estrada e não nas pessoas. A voz de Shion soou clara e repreensiva dentro da cabeça dele como uma espécie de consciência. Ele tinha a leve lembrança da voz de Aioros ter desempenhado esse papel uma vez, mas isso só até o dia infeliz que o conduzira até ali.

Concentrando-se, assim, em não pensar na fobia repentina, logo a estrada rural ficou para trás e um aglomerado de casas surgiu. Eram residências de pessoas humildes, uma parte da cidade onde ele nunca havia estado na infância. O lugar estava ainda mais cheio de gente, especialmente mulheres e crianças, que os outros pelos quais passara até então. Alguns garotos corriam por ali, rolando na neve e jogando bolas geladas uns nos outros, gargalhando ao serem atingidos. Toda uma série de lembranças atingiu Aioria ao ver a cena. Ele e o irmão costumavam brincar daquela maneira antes de Aioros entrar para o exército, tanto tempo que ele estava surpreso em ainda conseguir recordar. Por um instante ele parou e assistiu como algumas mulheres apareceram e puxaram os garotos pela mão para dentro de casa, reclamando que eles tinham tarefas a cumprir antes de poderem fazer o que quisessem. Quando criança, jamais tivera tarefas a não ser quando começara a treinar para ser um soldado algum dia. E isso fora o que sempre quisera desde que vira o pai empunhar uma espada pela primeira vez, logo nem mesmo era encarado como um dever. Olhou para si mesmo e sentiu vergonha diante daquele garoto que fora um dia, o velho ódio pelo irmão reacendendo-se e enterrando qualquer recordação feliz da qual ele fizesse parte.

As mulheres puxando seus filhos já tinham desaparecido para dentro das construções humildes que eram suas casas. Aioria forçou-se a continuar andando, dessa vez ignorando as cenas domésticas em volta, reprimindo as lembranças que poderiam invocar. Logo a zona residencial também foi ficando para trás, dando lugar a uma rua ainda mais cheia de gente, onde tendas e toalhas cobertas por mercadorias de todos os tipos tinham sido dispostas em pontos estratégicos, de maneira a chamar a atenção daqueles que apareciam fosse qual fosse a direção que tivessem escolhido. Havia um cheiro forte de comida e perfumes, mas o olfato treinado de Aioria podia identificar um mais fraco de sal vindo de mais adiante. Não havia dúvidas de que o porto estava perto.

- Tudo bem, eu vou conseguir...

A multidão caminhando pelo mercado não era uma visão exatamente animadora para alguém que estivera em pânico por causa de menos de meia dúzia de aldeões na estrada, mas em nenhum momento, enquanto atravessava a grande rua, tratando de afastar os produtos que lhe eram praticamente impostos a todo instante, Aioria deixou transparecer sua perturbação. Se alguma vez tinha estado em um mercado como aquele, tinha sido uma experiência fútil ou desagradável demais para ter sobrevivido na memória aqueles dez anos. A fragrância da água salgada estava ficando cada vez mais forte e, impulsionado por esse referencial, logo as tendas que provocavam maior interesse foram superadas para dar espaço a uma região mais tranqüila.

Não havia mais tanta gente e Aioria finalmente sentiu o corpo relaxar. Ele nem mesmo tinha percebido que tinha enrijecido-se nos últimos instante, como se a qualquer momento alguém fosse saltar sobre ele e uma luta fosse ser iniciada. Pela primeira vez, permitiu-se olhar em volta, para os comerciantes que tinham optado por um lugar mais afastado, a maioria deles não tendo uma aparência muito honesta, especialmente um que sorria com uma expressão lunática enquanto negociava com um grupo de três homens pela posse de qualquer coisa que se debatia dentro de uma jaula coberta por um enorme lençol carmesim.

- Por essa quantia vocês podem levar duas delas – o negociante falou. A voz dele era aguda e melodiosa, soando como se ele estivesse apresentando um espetáculo. Suas feições jamais abandonavam aquele sorriso estranho, largo, fixo demais para ser verdadeiro. Os três compradores balançaram a cabeça e um deles, um homem que devia ter mais de dois metros de altura e cujas feições morenas e rudes davam-lhe uma aparência intimidadora, adiantou-se até a jaula e puxou o lençol revelando seu conteúdo.

Aioria sentiu o ar lhe faltar por um segundo ao ver a mulher amarrada que se jogava insistentemente contra a grade. As roupas dela estavam tão rasgadas que eram quase insuficientes para cobri-la e seus pulsos e tornozelos estavam muito machucados por causa das cordas. O comerciante saltou na frente do homem grande que parecia estar indo buscá-la e abriu a jaula. Imediatamente a mulher deu um salto na tentativa de escapar, mas tropeçou nos pés amarrados e caiu para frente, ficando imóvel no chão.

O homem do sorriso fixo a chutou levemente e, não obtendo nenhuma reação, abaixou-se e puxou-a pelos cabelos vermelhos dando a Aioria uma boa visão do rosto coberto por uma estranha máscara dela. Ele ainda permaneceu incapaz de desviar os olhos quando ela foi jogada de encontro ao comprador alto e este a lançou sobre o ombro, em seguida afastando-se para junto dos companheiros.

Quando eles saíram andando na direção contrária, Aioria voltou a concentrar-se na maresia, andando mais rápido do que estava até então. Aquele era o mundo para o qual estava voltando. Cada um tinha a sorte que lhe era destinada e precisava lutar por si próprio se quisesse desafiar o destino e ser alguém melhor. Ele não podia se considerar atualmente muito mais do que aquela escrava, mas não se permitiu sentir compaixão por ela. Talvez um dia, quando tudo terminasse, seus sentimentos para com os fracos fizessem alguma diferença, mas não agora. Certamente não tão logo.

 

Fim do Capítulo I

 

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