Férias II
O gramado estava esburacado. A casa estava parcialmente destruída. Janelas estavam quebradas, a porta da sala no meio do gramado bem embaixo de um galho de árvore. Na grande varanda do segundo andar, um enorme rombo na parede e lá em baixo, dentro da piscina de águas marrom, estava o parapeito da varanda que caiu. Numa outra quina da sala de leitura com a sala dos monitores de TV e satélites também estavam faltando tijolos. Tijolos anteriores à guerra de secessão americana. Aquela era uma casa em estilo colonial. Era a mansão dos X-Men.
Os donos da mansão também não estavam melhores. Fera veio carregado no ombro de Wolverine, que não tirava os olhos de uma Jean desacordada e suja de sangue no colo de Scott. Vampira trazia o professor Xavier com um dos braços, no outro trazia Rachel que ainda a chamava de mãe. Gambit trazia Jubileu desmaiada em seu colo, provavelmente por stress e estafa. Bobby Drake vinha cabisbaixo ao lado de Bishop. Mística e Magneto chegaram cambaleantes até o portão de ferro destruído da casa e relutaram em entrar, mas Xavier fez questão. Os dois entraram meio que de mau gosto. Warren ajudava Ângela a caminhar. Tempestade era única que continuava com seu passo de Deusa, poderosíssima por fora, mas igualmente arrasada com as perdes acontecidas pela intolerância, pela barbárie e pelo preconceito humano.
Ao entrarem todos naquela sala de móveis empoeirados e destruídos, Xavier pediu que Vampira o colocasse em um sofá. Ele sentou e Magneto se colocou de pé atrás do mesmo sofá. O velho telepata colocou a mão no rosto.
Professor: A vida não acabou. E para nós que ainda ficamos vivos, só nos resta trabalhar. Sei que ninguém aqui ainda assimilou tudo o que nos aconteceu nessa caçada aos mutantes, mas temos que arregaçar as mangas e ir ao trabalho. Vamos definir prioridades! Scott! As prioridades!
Scott: Salvar a vida de quem ainda convalesce, Professor.
Professor: E isso diz respeito a
Fera e a Jean. Como Fera não poderá cuidar de Jean, eu sugiro que Bishop ligue
para a antiga obstetra de Jean e também para o Mike, irmão de Edward Northon, que
tanto ajudou Vampira ao ser preso junto com ela no primeiro de todos os
seqüestros. Dois médicos serão necessários.
Gambit: E la petit Jubileu, professor?
Professor: Ela está bem... Esse desmaio foi causado pelo massacre emocional e nervoso. Mas levem ela ao Lab Med também. Tempestade! Prioridades!
Tempestade: Arrumar a parte de dentro da casa e tampar os buracos com plásticos e panos para amanhã começarmos a reconstruir os estragos da mansão, professor.
Professor: Vocês ouviram Scott e Ororo. Essas foram as prioridades definidas. Quem não for levado ao Lab Med, comece a fazer o que Tempestade comanda. Vampira e Gambit!
Vampira: Pode falar, professor.
Professor: Rachel vai ficar no quarto de vocês essa noite. Scott e Jean estão resolvendo outros problemas.
Gambit: Ces´t trés bien, professor.
As horas passavam e a noite começava a cair. Não houve parada para lanche, banho ou descanso. Direto daquele massacre sem vencedores, os x-men foram ao trabalho. Fera, Jean e Jubileu estavam ainda desacordados. A médica de Jean se revezava com Mike para atender aos três necessitados. Scott não saía do Lab Med, embora estivesse bom. Ele observava o trabalho de retirada de seu filho morto.
Wolverine, Bishop e Gambit retiravam entulhos de dentro da casa. Carregavam aquelas pesadas cargas de lixo, incluindo móveis inutilizados, e colocavam dentro de sacos diante do enorme buraco provocado na parede da varanda do segundo andar. Vampira carregava inúmeros sacos de uma só vez e os levava voando, daquele segundo andar da mansão destruído, até a grande lata de lixo da prefeitura na distante rua. Ela fez inúmeros vôos, sempre carregando carga.
A poeira dos tijolos e reboco esmagados, Tempestade mandava para fora da casa com a força dos ventos. Bobby Drake congelava uma fina e leve camada em cima do chão de mármore branco da cozinha, em poucos segundos aquilo virava água. Ele, Warren e Ângela jogavam sabão líquido naquela água e começavam a limpar a cozinha. O processo de enxágüe foi feito da mesma forma congelante e derretedora sobre o mármore. Tempestade secou tudo com correntes de vento frio.
Os cômodos mais afetados quase ficaram sem móveis. Xavier teria de comprar outros. Lá em baixo, via-se no gramado, Magneto distante comandar os objetos de ferro a se levantarem do jardim e flutuarem para lixeiras. A grade principal da mansão que fazia ligação com a rua, e estava retorcida, Magneto fez questão de re endireitar perfeitamente. A casa japonesa de Wolverine, assim como aquele jardim zen, foi totalmente destruída. Todos os seus entulhos já estavam fora da casa. Sobravam agora os enormes buracos. Se foram as sujeiras e ficaram os vazios. Nu lugar da casa japonesa um enorme buraco no gramado ainda com um pouco das pedrinhas brancas. No lugar da parede na varanda colonial do segundo andar da mansão, havia um grande buraco. No lugar de muitos antigos móveis, vazio. No quarto de Samuel Guthry, vazio completo. Vazio no coração de todos.
Vampira foi andando desolada para a
varanda destruída e ficou observando o grande estrago da parede. Gambit foi
atrás dela. Por ser intocável, o cajun estava sabendo respeitar uma distância
essencial que deveria ter entre ele e ela.

Vampira: A casa está destruída, Remy.
Gambit: Eu espero que tudo volte ao normal, petit.
Vampira: Entre nós? Ou sobre a mans...?
Gambit: Sobre tudo. Principalmente sobre nós.
Vampira: ...
Gambit: Sofro muito.
Vampira: Idem.
Deu para sentir um embargo de voz voz chorosa em Vampira, mas ela só disse idem e saiu da varanda destruída. Já estava sofrendo demais por conta do massacre, para dar chance ao sentimentos amorosos de amolecerem mais uma vez. Tinha que ser forte e dura como aquela Vampira às vezes sabia ser magnificamente.
Só quando a Lua já brilhava reinante no céu, foi que Scott saiu do Lab Med e se juntou aos demais x-men que ainda limpavam e carregavam entulhos. Wolverine carregava um pedaço inteiro de parede nas costas, inclusive com vergalhões à mostra. Ia colocá-lo no chão e cortá-lo em dois com suas garras, para ficar mais fácil de carregar. Ele já havia cortado inúmeros blocos, tijolos e vergalhões como se fossem papel naquela tarde e noite. Mas ficou com o peso nas costas por mais um tempo. Olhou para Scott e perguntou o que mais queria saber:
Wolverine: Como ela está?
Scott: Fisicamente bem. A médica disse que ela está bem.
Wolverine: Acabou tudo lá dentro?
Scott: Acabou. A coletagem e raspagem foi feita. Fera já teve as balas retiradas, está tomando doses cavalares de antibiótico injetado, Mike tirou uma radiografia e usou a aparelhagem Shiar para ver que nenhum órgão foi afetado... Jubileu continua dormindo e suando frio... Uma pressão baixa que está sendo monitorada.
Wolverine: E o guri? Quê que cês fizeram?
Scott: Eu mandei cremar.
Wolverine: ... ... - Aquilo foi forte. Wolverine era duro e forte, mas às vezes se surpreendia com a firmeza e frieza com que Scott tratava de muitos assuntos delicados. Justo Scott, que ele sempre chamava de caolho príncipe encantado.
Scott: Foi a decisão mais sábia em se tratando de gene...
Wolverine: De gene Summers e Sinistro por perto.
Scott: Exatamente. Sinistro por perto.
Scott ia se afastando, caminhava em direção ao quarto. Wolverine reviu a cena da chaminé da fábrica funcionando e cobrindo de cinzas o gramado e todos os viventes em volta. Sam, o Míssil, foi morto por gás asfixiante e depois cremado com mais 400 corpos. Apesar disso, Scott teve a frieza e a capacidade de segurar dor e sofrimento ao ordenar que o pequenino filho fosse cremado ainda dentro do Lab Med, diante de seus olhos; para que não sobrasse dúvidas sobre a destruição do encontro dos genes Grey e Summers.
À meia noite toda a limpeza já havia sido feita. E todos os x-men estavam reunidos na sala dos monitores de TV, satélite e câmeras da mansão. Esta sala estava intacta. Todos tinham semblantes abatidos. Vampira estava ao lado de Gambit, que estava ao lado de Scott Summers. Xavier entrou na sala, era o único que já havia tomado banho. Ele olhou para vampira, gambit e Scott e viu um sangue já endurecido e marrom em seus rostos.
Professor: Esse sangue é de vocês? - Eles nem lembravam de sangue nenhum...
Os 3 levaram um tempo até se lembrarem de Edward Northon explodindo a própria cabeça com uma arma bem diante deles. Todo aquele cérebro genocida voou no rosto deles.
Gambit: Non. É de Edward Northon. Ele se matou na nossa frente.
Muitos ali não sabiam exatamente o que havia acontecido. Agora que sabiam, as reações eram diversas.
Wolverine: Covarde! Se matou! Eu é que tinha que ter matado ele, não ia ser tão agradável quanto uma bala na cabeça, eu garanto! * Snikt *
Tempestade: Pela Deusa! Ele tinha que ter sido preso!
Bobby: Preso nada! Preso ele foi da outra vez e acabou sendo solto! Foi bom que tenha morrido... não interessa como.
Vampira: Cara, que nojo! Eu nem lembrava que eu tava com o sangue daquele cachorro no rosto, nos olhos, no cabelo! Nojo!
Gambit: O louco citou Jesus Cristo antes de se matar.
Warren: Vocês não está falando sério!!!
Gambit: Eu não estou falando sério, mon ami?! Chere e Scott estão de prova! O anormal disse "eu voltarei e serei milhões" e deu o tiro na cabeça! - Tempestade estremeceu.
Professor: Isso não deixa de ser uma ameaça.
Tempestade: Pela Deusa!
Todos imaginaram aquele tiro seco e alto. Os olhos dos 3 x-men piscando de susto e o sangue jorrado contra a pele dos rostos. Viram os olhos se entreabrindo e os dedos retirando, inconscientemente, um ou outro pedaço de massa cinzenta que tenha voado contra a sobrancelha ou a boca. Era uma cena dura e dantesca.
Professor: As perdas foram muitas, meus alunos. Tanto de um lado, quanto de outro. Nessas eternas guerras contra os "diferentes", contra as mais variadas diferenças, nós nunca de fato ganhamos. Conseguimos libertar os mutantes e a nós mesmos, mas não ganhamos nada. Só perdemos... E perdemos muito!
Warren: Estamos cansados de tanta luta, professor. É sempre briga, luta, combate e treinamentos para isso.
Professor: Gostaria de não precisar mais treinar vocês para isso... Mas infelizmente a atualidade nos tem forçado a isso... Mas de uma coisa vocês podem ter certeza, aconteça o que acontecer com os mutantes ou com o mundo; vocês vão ter novas férias a partir de hoje. Não vão ter nada o que comemorar nelas, mas vão ter muito o que descansar.
Scott: A partir de hoje não, professor.
Tempestade: Scott tem razão. Nós só começamos a limpar. Amanhã começaremos a reforma da casa.
Vampira: Ih, fala sério! Não dá pra chamar pedreiros, não?
Professor: Não, Vampira... Ororo me lembrou de algo bom. Reconstruir essa casa vai lhes fazer bem internamente. É parte da cura do emocional de vocês, é uma reconstrução de algo que essa batalha destruiu dentro de cada um de nós.
Wolverine: Existem tijolos dentro da gente que não serão nunca recolocados.
Professor: Eu sei. Sam é um deles. Amanhã também será o enterro.
Wolverine: Que enterro, velho? O guri foi cremado e mandado pelos ares como se fosse poeira! - Tempestade colocou seu braço sobre Logan, ela percebeu que a furiosa irritação dele também era dor. Wolverine logo saiu de perto dela e continuou bufando de raiva.
Professor: Vamos enterrar o que ainda sobre dele, Logan. Roupas, livros, CDs, objetos em geral. Quem perde alguém sempre precisa enterrar alguma coisa. ... Agora descansem e até amanhã.
Xavier saiu da sala. Os x-men também começaram a se mover para irem aos banhos, à geladeira e à cama. Dormiriam mais de 14 horas com certeza! Mas ainda lá dentro da sala, um monitor de voz se ligou. A voz metálica de Xavier pôde ser ouvida.
Professor: Ciclope, Mike acaba de me informar que Jean acordou.
Scott saiu correndo da sala para o Lab Med. Wolverine não quis demonstrar, mas os mais próximos perceberam um respirar diferente, um sobressalto do corpo. Um ar de preocupação. Foi só então que Gambit percebeu a falta de Bruna.
Gambit: Wolverine, onde está Bruna?
Wolverine: Isso é da sua conta?
Todos se entreolharam.
Gambit: Non... Pardon, estressado. Eu só fiz uma pergunta.
Wolverine: Em boca fechada não entra mosca, Gambit. Nem entram garras.
Wolverine saiu da sala grunhindo. Vampira balançou a cabeça.
Vampira: ÊÊhhh, grosso! Parece um cavalo no cio de tanto coice que dá!
Duas horas da manhã. Todos os banhos já tinham sido tomados. Todos os restos da geladeira já tinham sido comidos, um ou outro já estava dormindo; mas outros vários continuavam de pé.
Bobby: Eu vou dormir no quarto de Jubileu hoje... Ela vai passar a noite no Lab Med. Porque o meu quarto ganhou uma parte do teto conversível.
Vampira: Deve ter ficado fashion!
Bobby: Deve! Dorme lá e espera chover pra você ver a fashion night!
Gambit deu aquele sorriso de gato charmoso com o cabelo molhado do banho e mudou o assunto da conversa.
Gambit: Para onde nós vamos viajar, ma belle?
Vampira: Do que você está falando, Remy?
Gambit: Das férias que Xavier nos deu!
Vampira: Credo, só você pra pensar nisso numa hora dessas!
Gambit: Eu quero esquecer tudo de
ruim que nos aconteceu, belle. - O cajun se
aproximou perigosamente dela. Bobby Drake chegou a deixar o queixo cair e ficou
preparando um grito de socorro para Gambit.
Mas Vampira rapidamente saiu de perto dele!
Vampira: É como Wolverine disse: certas coisas não vamos esquecer nunca.
Gambit: Mas podem ser minimizadas.
Vampira: Isso leva muito tempo.
Gambit: O tempo pode ser levado em outra cidade e longe dessa casa. Férias.
Bobby Drake levantou carregando consigo uma garrafa de coca-cola completamente congelada por seu hálito.
Bobby: Bom, fui! Vou deixar vocês brigarem-amarem sozinhos.
O casal intocável ficou sozinho na cozinha. Silêncio por um tempo.
Vampira: Tenho certeza que por causa da minha super força e vôo, eu vou carregar cimento e tijolos mais do que qualquer um amanhã!
Gambit: Minha linda pedreira! Ma belle trabalhadora braçal!
Os dois riem, ela ia dizer "cachorro", mas em seguida ia dar um beijo naquele homem arrasador. Por isso, teve que se conter e não dizer nada. Parou de rir, ficou olhando fixamente para a mesa.
Gambit: Rachel está no meu quarto. Vamos dormir?
Vampira: Eu vou dormir no meu, Gambit... E você sabe disso.
Gambit: Não fuja de mim. ... Você foi uma das que mais sofreu naquele lugar horrível, eu queria ficar ao seu lado.
Vampira: Todos devem estar chorando em seus quartos agora, não é?
Gambit: Bom... Ao menos Jean eu escutei no corredor.
Vampira: Eu abraço o travesseiro e choro com ele, Remy. É o jeito...
Gambit: E eu faço o quê?
Naquele momento, Wolverine surgiu na cozinha. Estava com os olhos vermelhos de quem havia chorado. Além disso, eles ainda traziam certa aquosidade recente.
Gambit: Quê isso? Você estava chorando?
Wolverine: Não... Tava cortando cebola no meu quarto de madrugada, só pra ouvir uma pergunta idiota como essa!
Gambit: Por que estava chorando, mon ami?
Wolverine: Vai te ferrar que você sabe porquê!
Vampira: É Bruna, Logan?
Gambit: É mais fácil ser Sam, cherre.
Wolverine puxou Vampira pelo braço com certa violência. Abraçou-a escondendo seu rosto em seu cabelo. Gambit só não teve reação de ciúme maior do que uma pontada na barriga, porque percebeu que Wolverine estava muito mal. Os dois escutaram uma voz embargada pelo choro sair dos cabelos de Vampira.
Wolverine: Caraca, guria! Vou precisar segurar vela e passar um tempo com vocês essa noite. Eu não estou agüentando ouvir o choro de Jean lá do meu quarto.
Não era alto, mas Logan tinha uma super audição.
Vampira: Cara, você não tá assim só porque ela perdeu o filho e está arrasada.
Wolverine: Claro que não. É a morte de Sam, é Fera baleado, é Jean perdendo um filho, é Bruna tendo me mandado andar por culpa inteiramente minha. São os 400 mortos, é aquela anja do Warren que foi estuprada mil vezes! Puta que pariu, que mundo desgraçado! Que vida filha da ...
Gambit: A gente já entendeu, mon ami.
Os três ficaram abraçados em roda. Nem Wolverine conseguiu se segurar por muito tempo. O dia seguinte ainda teria muito trabalho e muitas demonstrações de poderes para a obra andar mais rápido.