Férias II


Alguns madrugaram mesmo tendo ido dormir em tão avançada hora. Outros só conseguiram dormir ao amanhecer. Mas às 10 horas da manhã estavam todos reunidos na sala ainda  com pedaços esburacados. Até mesmo Jean e Fera estavam lá, a única ausente era Jubileu. Fera estava enfaixado e sempre sentado na poltrona, mas trazia uma bengala para quando fosse andar. Jean também estava sentada e se precisasse se locomover, usaria sua telecinésia para ir flutuando e não fazer esforço físico. Tempestade segurava camisas de Sam que ela mesma tirou do armário do quarto vazio dele. Fera segurava os livros de estudos do Míssil que era ainda tão jovem e muito estudioso. Wolverine segurava a bola de futebol americano. Vampira segurava algumas fotos do jovem loiro que era muito próximo dela. Gambit trazia revistas em quadrinhos do menino. Todos seguravam alguma coisa de Sam nas mãos. A cova no jardim já havia sido aberta, o caixão vazio era branco e estava ao lado do buraco de 7 palmos, esperando para ser preenchido de lembranças.

Jubileu ainda estava no Lab Med, mas estava acordada. E pela ausência total naquele recinto médico, ela suspeita que estavam todos na sala se preparando para o enterro de Samuel Guthrie. Ligada a aparelhos de monitoramento de sua saúde, ela estava presa. Mas sabia que não estava doente e estava se sentido irritada com aquela situação.

Jubileu: Eu tenho certeza que estou aqui como se fosse doente só para me deixarem longe do enterro!

Olhou para a aparelhagem cara de Lab Med e não teve pena.

Jubileu: Mas eu não estou doente!!!

Usando seus poderes, uma rajada de plasma foi passando pelos fios e destruindo a aparelhagem que a mantinha ligada. Os fogos coloridos, típicos de seus poderes, iluminaram a o recinto. Jubileu era mestre em destruir aparelhos eletrônicos.

Levantou e foi para a sala. Já não havia mais ninguém.

Jubileu: Eu sabia! Eles vão me pagar por isso!

Subiu as escadas correndo e depois voltou para a sala e foi andando pelo gramado por alguns minutos. Lá longe na colina podia avistar as cruzes da sepultura de Psilocke e do filho de Vampira com Magneto. Também via todos os x-men de preto reunidos. Foi se aproximando e ouvindo o que a voz de Xavier dizia.

Professor: A monstruosidade que nos afetou causou danos em todos. Em uns mais, em outros menos. Serão marcas difíceis de apagar. Mas nada pior do que o mal irremediável da morte. Sobre todos as outras marcas, eu garanto que o tempo apaga ou minimiza; e a elas se sobrevive. - Falava isso olhando para Jean Grey que flutuava sobre os mutantes e trazia os olhos aquosos de uma noite chorada pelo filho morto. Também olhou para Vampira, que logo abaixou os olhos de vergonha, que foi molestada por 5 guardas e por pouco não foi estuprada por Edward Northon. Também olhou para Fera que estava inclinado de dor sobre sua bengala por ter sido baleado. - Não estou dizendo que essas marcas são leves. Não! Elas são profundas e todos temos o direito de mostrar nossa indignação e dor a elas! Mas a marca maior caiu sobre Samuel Gutrhy, nosso jovem x-men chamado de Míssil. Ele não irá sobreviver às chagas que sofreu. A morte é irremediável. Perdeu a vida ainda em tenra idade. De todas as monstruosidades, essa foi a pior. Se tivesse acontecido a qualquer um seria igualmente uma barbárie e monstruosidade sem tamanho. Mas por ter acontecido a um jovem de tão pouca idade e tão bom caráter é ainda mais revoltante. Quero lembrar que isso também ocorreu a outros 400 mutantes e teria acontecido a todos nós se não tivéssemos destruído aquela insanidade.

Wolverine começou a fungar o ar. Ele sentia um cheiro diferente: era Jubileu. Olhou para trás e viu a adolescente em pé com rosto de ódio e lágrimas pelo rosto. Trazia consigo a colcha e o travesseiro do quarto de Sam.

Professor: Não são os jovens que devem morrer, são apenas os velhos. Mas continuamos a enterrar crianças porque quem tem governado o mundo é o poder do assassinato e da indiferença com a dor alheia. E volto a dizer que Samuel Gutrhy era o mais educado rapaz que eu já conheci. Talvez até mais educado e responsável do que o próprio Ciclope na idade dele! Era extremamente disciplinado e amoroso. Chamava a todos nós de dona e senhor.

Jubileu: Vocês deviam ter vergonha do que estão fazendo! - Gritou interrompendo Jubileu. 

Tempestade: Pela Deusa! Criança, você não deveria estar na enfermaria do Lab Med?

Jubileu: É no mínimo uma falta de respeito e consideração vocês não terem me avisado que fariam essa cerimônia hoje!

Tempestade: Queríamos te poupar, criança.

Jubileu: Eu não sou mais criança! E já tinha ouvido do próprio Sam, conversando com o professor, que vocês me tratavam de forma infantilizada! Que droga! Eu sou uma x-men e sou uma pessoa que merece a verdade e respeito sempre! Custava me informar do enterro e perguntar se eu queria ir ou não?! Quem decide poupar a minha dor ou não sou eu mesma!

Charles Xavier abaixou a cabeça e telepaticamente pediu desculpas a Jubileu. Disse que a idéia em poupá-la havia sido dele. A chinesa não se importou com a discrição dele em pedir aquelas desculpas no silêncio de uma manifestação de poder telepático e berrou sua resposta para todos ouvirem.

Jubileu: Ele era mais do que meu amigo, professor! Eu gostava muito dele. Eu não esperava isso de você, professor!

Ela chegou mais perto do caixão e se desenrolou da colcha do quarto de Sam. Dobrou-a e colocou por cima das demais coisas. O caixão foi fechado. Telecineticamente transportado por Jean, que flutuava sobre todos, para dentro do buraco. Wolverine, Gambit e Bishop começaram a tapar o buraco com terra enquanto os demais se dispersavam.       


Logo após o almoço, que tinha transcorrido silencioso e com ar fúnebre da desesperança total, Ciclope e Tempestade colocaram no jardim o material de reconstrução da casa. Tijolos, cimento, areia, pedra, pás, tintas e demais materiais de acabamento estavam espalhados pelo gramado. Um mutirão foi formado. Fera, por estar ferido, ficaria de longe dando as ordens de quem sabe mais de arquitetura e engenharia do que os demais.

Professor: É uma pena que você não possa ajudar manualmente, Hank. Sua extremada força brutal seria de grande ajuda.

Fera: De fato. Porém, a bela sulista de mexa branca no cabelo está presente para isso.

Vampira: Ninguém merece! O pior trabalho sempre fica pra mim! É duro ser gostosa e poderosa, mesmo! - Ela própria ria.

Vampira voava e colocava os tijolos e cimento nos estragos do segundo andar. Jean, também afastada por sua convalescença, ficava de longe comandando os tijolos e as melosas massas de cimento que flutuavam até Vampira. Azulejos que precisavam ser cortados com máquina especial para não quebrar o arranjo da casa, Wolverine cortava com suas garras como se fosse brincadeira. Charles Xavier observou todo o processo de reconstrução da casa com Rachel no colo. Era a única pessoa que podia ficar com ela.

O gramado esburacado Tempestade resolveu com seu poder sobre a natureza. Demorou algumas horas até que os centímetros se igualassem, mas ela conseguiu! Sobre o jardim japonês de Wolverine que fôra destruído, ela ainda não podia fazer nada. Gambit ia passando a massa nas partes que Vampira já tinha colocado tijolos. Tempestade fazia com que o cimento e a massa de Gambit secassem com a rapidez de seu ventos. Daí, Bobby Drake podia entrar em cena com sua lata de tinta e sua ajudante de pintora Jubileu!

Bobby: A gente ia ganhar uma grana como empresa de reformas!

Jubileu: É! "Reparos e reformas mutantes, em dois tempos sua casa destruída pela desgraça estará de volta"!

Bobby: Tipo... Você não ia fazer parte da empresa. Não se a empresa fosse minha.

Wolverine: Vocês da tinta vão parar de brincar e voltar ao trabalho ou não?!  

Bishop e Warren ligaram a bomba que esvaziou a água marrom da piscina. Colocaram a novata Ângela lá dentro para fazer a limpeza. Depois a própria Tempestade fez um rápido enxágüe. Chamaram Wolverine para meticulosamente recortar azulejos para colocar nos cantos e bordas da piscina que foram quebrados. Piscina pronta, Tempestade faz chover exatamente em cima dela e a enche de novo!

Tempestade: Agora só são preciso algumas pastilhas de cloro. 

Mais uma vez o trabalho avançou até a noite. Eles estavam exaustos. As queridas férias ainda não davam sinal de que estavam para chegar. Depois do sofrimento que passaram presos, da morte de colegas, de um enterro, uma limpeza geral e uma reforma; Xavier queria que eles tomassem banho e voltassem para uma conversa séria. 


Na sala de leitura Xavier segurava Rachel no colo. Todos os demais mutantes entraram. Jean pegou a filha no colo. Quando a menina viu Vampira, esticou os braços e disse " mamãe".

Jean: Estou aqui, meu amor. - E beijou a testa da menina.

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A menina continuava com os braços esticados na direção de vampira e Gambit. Jean delicadamente abaixou os braços da filha e aninhou-se mais próxima a Scott.

Professor: Essa é minha última convocação geral antes das férias tão merecidas, meus filhos. Sei que vocês estão ansiosos.

Bobby: Eu tô pregado. Quero praia, ondas, gatas, sol e alguma coisa pra beber.

Professor: E você terá, Robert Drake... Mas antes, a conversa que preciso ter é sobre Rachel.

Todos se entreolharam.

Professor: Já estive conversando com Fera e Magneto, mas as respostas não me vêm. A menina mutante teve seu gene X retirado do corpo. Não é mais mutante, é um bebê normal. Porém, os ganhos da mutação não foram perdidos. Tem pouco mais de 6 meses e parece ter um ano e meio, quase dois. Isso é estranho... Quase impossível. Como teriam conseguido retirar o gene X dela? E mesmo assim os ganhos da mutação ainda ficarem no corpo?

Wolverine: Isso eu não sei. Mas pro Sinistro ter devolvido a guria, é porque a história é essa mesmo. 

Jean: Isso já não me importa mais. A única coisa que me importa é que eu consegui ter minha filha de volta.

Scott: Sinceramente, professor... Acho que isso foi até bom. Essa noite foi muito difícil para mim e para Jean. Mas nós vimos que se perdemos um filho, ainda temos Rachel conosco e ela precisa de carinho. E se ela está sem o gene X, é uma certeza de que teremos paz como uma família. Sinistro não é mais uma ameaça.

Professor: Sobre isso eu também concordo. É melhor para a vida dela viver sem essa mutação. Uma infância mutante não é agradável, muito menos quando se é perseguida por Sinistro. ... Mas eu questiono se de fato ela perdeu o gene X. E se as demais crianças presas com ela também perderam...

Fera: Está no jornal, professor. - Fera estendeu o caderno da parte de ciiência do New York Times - "As crianças submetidas a eliminação do gene X não apresentam mais nenhum sinal de mutação".

Tempestade: Inclusive o artigo vem com um título extremamente preconceituoso: A Cura!

Vampira estremeceu ao ouvir isso. Não agüentava mais nenhuma manifestação de preconceito. Depois resolveu dizer o que pensava.

Vampira: O que ela guarda da mutação é algo que não poderia ser apagado pela perda do gene X. Se ela amadureceu mais depressa por causa da mutação, a falta do gene não ia fazer ela regredir... A única certeza é que agora, como bebê normal, vai se desenvolver no tempo de todas as crianças. Sem mais nenhuma manifestação de poder e amadurecimento precoce.

Professor: Também pensei nisso.

Gambit: Ah! E essa petit tinha poderes! E como! 

Professor: Quais? Quais eram? - Ele estava curioso.

Vampira: Ela mexia no tempo.

Wolverine: Credo!

Gambit: Nós fomos parar em Roma antiga!

Jubileu: Ahhhhhh! Que baratoooo! Eu também quero! - Pulou de surpresa alegre típica de Jubileu.

Gambit: Eu tirei fotos! - Também animado com o interesse dela em algo que só ele tinha achado o máximo dos máximos.

Jubileu: Tá falando sério?

Gambit: Oui! Vou revelar amanhã e...

Professor: Parem com isso e me contem mais! - O professor interrompeu os dois empolgados.

Jubileu: Esqueçam a empresa de reformas e consertos! Nós vamos é ganhar dinheiro vendendo fotos tiradas em Roma Antiga!

Vampira: Bom... Ela quando se sentia ameaçada podia fazer coisas incríveis para se proteger.

Scott: Primeiro foi o choro que perturbava todo mundo.

Vampira: Pois é. E depois, se ela se sentia ameaçada, conseguia se transportar para outro tempo!

Fera: Extraordinário!

Jean: Não estranho o motivo pelo qual Sinistro sempre quis minha filha.

O professor fazia cara de muito preocupado. Ouvia tudo com muita atenção. Ele já estava começando a entender o que poderia ser aquele sumiço do gene X em Rachel e nas demais crianças.

Professor: Tudo bem... Vocês estão dispensados. Eu só peço que Fera preste atenção em todos os noticiários para me informar se os genes X dessas outras crianças não voltam a reaparecer repentinamente.

Fera: Certamente. - Fera não entendeu o motivo daquilo...<

Todos saíram da sala de leitura e uma frase de Vampira ficou se repetindo na mente de Charles Xavier: "Ela quando se sentia ameaçada podia fazer coisas incríveis para se proteger".


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