A Vida

No dia 16 de Janeiro de 1914, no Bairro Ilhota, junto ao Arroio Dilúvio, n.� 97 da travessa Batista, em Porto Alegre, nascia Lupicínio Rodrigues, o quarto dos vinte e um filhos de, primeiro filho homem, do casal Francisco e Abigail Rodrigues. O bairro era popularmente chamado como "Bairro das Enchentes", tanto que a parteira � Dona Júlia Garcia � só conseguiu chegar à casa de barco. Era um menino que nascia predestinado a ser um dos grandes nomes da Música Popular Brasileira. Seu nome foi uma homenagem a um dos heróis da "Grande Guerra".

Sua Infância pobre, porém sem miséria, dividiu-se entre peladas, algumas surras e bem pouco estudo. Ficava quietinho no canto de um botequim nas imediações de sua casa, onde se reuniam os boêmios de Porto Alegre e marinheiros que chegavam ao Sul trazendo ritmos novos trazidos do Rio. Escutando músicas, trovas e versos que ali cantavam, conheceu as composições de autores como João da Baiana e Pixiguinha.

Até seus dezesseis anos já havia trabalhado como mecânico, empurrador de rodas de bonde e ajudante em fabricação de porcas e parafusos.

Para manter o filho sobre alguma forma de controle, o pai � que não aprovava a vida boêmia que o filho já levava - inscreveu-o aos dezesseis anos como voluntário no Exército. Na tropa ele iniciou sua carreira artística, no final da década de vinte, como cantor de um conjunto formado por soldados.

Lupicínio foi soldado no Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre tendo em muitos momentos, dificuldades em se enquadrar ao rígido regime militar. Nem por isso desistiu da música.

Durante a Revolução Constituicionalista de São Paulo, fez parte da corporação do Sétimo Batalhão de Caçadores que combateu o levante, como Padioleiro da Enfermaria. Nesta época compôs um samba criticando o rancho "...que era só charque e farinha..." e que foi cantado por todos os soldados.

Foi advertido pelo Comandante da corporação: "Se o senhor não gosta do charque coma farinha. Se não gostar da farinha, coma charque... Mas, não se meta a falar da comida e vamos acabar com este negócio de fazer samba. Estamos conversados?"

Foi em Santa Maria que Lupi cultivou seus primeiros romances. No pequeno salão do Clube União Familiar conheceu Iná, "a mulata mais linda e faceira". O namoro cresceu forte e promissor.

Em 1935, deu baixa do Exército e voltou a Porto Alegre onde conseguiu o emprego de Bedel na Faculdade de Direito. Pouco tempo depois, Iná e a família se transferiram para Porto Alegre.

Vem o noivado e quando tudo parecia se encaminhar para o casamento feliz, surgem os problemas. Lupi tinha outros amores: os Bares, os Amigos e as Serenatas. Enquanto ela queria a vida pacata de um lar com filhos, ele não se desprendia da sua vida boêmia. Como conseqüência, discussões e discórdia que resultaram no rompimento do casal.

Apesar do grande amor que sentiam um pelo outro, ela se afastou e cada um foi cuidar de sua vida. Para Iná, uma vida de funcionária pública, casada e com filhos. Para Lupicínio, o boemia, o samba, uma carreira vitoriosa de compositor e o grande amor fracassado que serviria de inspiração para maioria de suas músicas.

Apesar dos apelos de centros maiores, Lupicínio Rodrigues jamais quis sair de Porto Alegre. A cidade foi sua musa, sua fonte de inspiração. Dizia ele: "O que me prende a Porto Alegre é que eu adoro o Rio Grande do Sul e não sei viver fora daqui. Saio, viajo, passo dois meses fora e morro de saudade, por isso sempre dou um jeito de voltar".

Casou-se com Cerenita quatorze anos depois de tê-la conhecido como Cabo em Santa Maria. Com ela constituiu família e teve um filho � Lupicínio. Ele já havia se casado anteriormente e desse primeiro casamento trazia a filha Teresa que lhe deu cinco netos. Em seu casamento reinava o amor - "Quando eu chego cansado/teus bra�os est�o me esperando..."

Sua rotina dividia-se entre a boemia e o lar, onde primava em ser um perfeito chefe de fam�lia.
Porém, Lupicínio continuava o velho boêmio. Depois dos seus afazeres diários, ouvia as músicas que os companheiros traziam e ia jantar com os amigos na churrascaria Colombo que era o ponto de encontro. Após o jantar, a conversa continuava até a entrada em cena de um violão. Então os copos se enchiam e a noite crescia em direção da madrugada. Bem mais tarde iam todos para o Clube dos Cozinheiros, onde Lupicínio era um dos diretores. No fim da noite, ainda sorridente, levava em seu carro os amigos que não tinham condução e enquanto voltava para casa já ia se preparando para inevitável (e quase diária) queixa de Cerenita: "Mas eu pedi para você não chegar tarde, não pedi?"

A imagem do bo�mio teve o contraponto do propriet�rio, que foi, de diversos bares, churrascarias e restaurantes com m�sica, que seguidamente ia abrindo e fechando, como o Jardim da Saudade, o Clube dos Cozinheiros e, o mais c�lebre de todos, o Batel�o, que elevou a ponto tur�stico da cidade. Tudo apenas para ter, antes do lucro, um local para encontro com os amigos. Gabava-se de ser mais cozinheiro que compositor, especializado no trivial caprichado.

Exerceu, por muitos anos, o corgo de procurador do SDDA (Servi�o de Defesa do Direito Autoral) e de representante da SBACEM (Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de M�sicas).
Alma boa e caridosa, manteve, em propriedade sua, um abrigo para desprotegidos da sorte, sem nenhum alarde fazer.

Deixou cerca de uma centena e meia de can��es editadas. Outras centenas comp�s que foram perdidas, esquecidas ou est�o � espera de quem as resgate. Suas m�sicas nasciam de fatos reais, observados ou vivenciados. "Cada uma que me faz uma sujeira, me deixa inspira��o para compor algo. Meu primeiro autom�vel foi comprado com o dinheiro de um samba, feito para uma mulher... Minha casa foi adquirida com o dinheiro de um samba que fiz para outra, tamb�m por causa de uma trai��o...".
"Temperamento calmo, pessoa modesta, meio desligado, passo lento, voz macia, ombro caindo para a direita, sem a barbicha que o caracterizava, Lupic�nio parece n�o ver o tempo passar. Ele, sim, vai passando pelo tempo, indiferente, olhando a vida � sua moda...".

Nos anos 60 sua produ��o diminuiu, e entrou, como v�rios compositores da MPB, num per�odo de obscuridade. Suas m�sicas n�o tocavam mais nas r�dios, agora invadidas pela bossa-nova e pelo rock. Lupi passou a escrever uma coluna todos os s�bados para o jornal �ltima Hora (de 1963 a 1964), onde abordava temas como a bo�mia, o ci�me, a tristeza ou ainda fazia an�lises de suas composi��es.
Na d�cada seguinte, gra�as � iniciativa da Abril Cultural, que lan�ou um disco contendo m�sicas de Lupi com int�rpretes da nova gera��o, como Paulinho da Viola, Gal Costa, Gilberto Gil, Elis Regina e Caetano Veloso, Lupic�nio foi redescoberto.

Numa das �ltimas entrevista que deu � imprensa, para o Pasquim, em 1973, perguntado sobre o que estava achando do panorama musical brasileiro, se n�o se sentia meio deslocado, respondeu com uma ponta de amargura - ainda n�o havia sido redescoberto - e outra de orgulho: 'Eu n�o tenho nada com o ambiente musical brasileiro. Eu n�o sou m�sico, n�o sou compositor, n�o sou cantor. N�o sou nada. Eu sou um bo�mio" .

Mas o tempo implac�vel cedo o veio buscar do conv�vio familiar, dos amigos e admiradores.

Faleceu em 27 de Agosto de 1974, às 13:30h, vítima de insuficiência cardíaca. A cidade de Porto Alegre quase parou para homenagear seu mais querido compositor. O corpo foi levado para a cede do Grêmio Futebol Portoalegrense, seu time do coração. "Se acaso você chegasse", foi cantada em coro por amigos e fãs acompanhados por flauta, cavaquinho e violão no momento em que seu corpo era sepultado no cemitério de São Miguel e Almas.

Lupicínio que faleceu vinte dias antes de completar 60 anos, teve seu último pedido atendido pela metade, conforme confessou D. Cerenita. Pois, ele havia pedido que ninguém chorasse em seu enterro � impossível � e sim cantasse "Se acaso você chegasse".

Em outra entrevista, poucos dias antes de falecer, quando estava internado, no Hospital Hernesto Dornelles, concedida ao Jornal "O Globo", falou sobre vários assuntos, entre eles:
- A consagração no Rio de Janeiro, quando o Teatro Opinião lotado cantava suas músicas;
- O retorno de canções da velha guarda regravadas por intérpretes da época. Disse ele:� Certa ocasião, em conversa com Sérgio Porto, disse: "Uma vez que nasceu o amor, as canções jamais poderiam ser esquecidas", e hoje vejo tudo voltando;
- Dos novos valores que surgiam na época destacava Lúcio Cardim autor de "Matriz e Filia" e "Dor de Cotovelo", canções que gostaria de ter composto.

Quando perguntado por amigos a razão da internação, não perdia o humor e dizia: "Foi o coração, amou demais...".

 

 

 

 

 

 

 

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