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Aten��o nos Assuntos da Doutrina (Verdade Sobre o Nosso Ser)

Pela ignor�ncia n�s nos identificamos com os pensamentos e embarcamos neles e, quando nos apercebemos, j� v�rios pensamentos passaram e se foram por falta da Plena Aten��o. Ent�o, para haver progresso nesse autoconhecimento, na Doutrina, temos que desenvolver a Sabedoria, e n�o meramente concentra��o, porque a descoberta �nica do Buda, a chave para Ilumina��o, foi a descoberta deste tipo de medita��o, que � um simples observar do fluxo de fen�menos psicof�sicos em que n�s n�o dirigimos a mente. Nos outros tipos de medita��o daquela �poca e predominantes ainda hoje, como j� foi dito, a mente � sempre dirigida por palavras ou mantras, para um ponto ou um objeto etc.

Pela medita��o vamos compreender que toda imagem por palavras, sons ou melodias, lembran�as, etc., � condicionada por uma base interna (o corpo e a mente) e pelos objetos da mente, que s�o todas as experi�ncias que temos guardado no subconsciente. Pela natureza insatisfat�ria da mente, tudo o que experimentamos volta de uma maneira incontrol�vel, e embarcamos no turbilh�o dos pensamentos.

A verdadeira liberta��o vem unicamente pela compreens�o, pela Sabedoria, penetrando e vendo como surgem e como passam os desejos, os apegos, as lembran�as e outros pensamentos; esse autoconhecimento (Sabedoria) s� � poss�vel quando h� concentra��o. � imposs�vel desenvolver a sabedoria sem desenvolver a concentra��o, por�m a concentra��o, s�, n�o traz liberta��o; � for�a bruta: suprime as impurezas, mas n�o vai � raiz.

A medita��o nos Quatro Fundamentos da Plena Aten��o exige de n�s apenas a atitude de alerta. Alertas e atentos a tudo o que ocorre em nosso ser f�sico, emocional e mental. N�o devemos ter apego nem avers�o a qualquer forma de pensamento, seja ele elevado ou negativo. Esta medita��o nos d� cada vez mais autoconhecimento e sabedoria, que jamais poder�amos obter por leituras, ou instrutores.

Nossas imperfei��es passam a ser dominadas, n�o pela coer��o, repress�o ou for�a de vontade, e, sim, pela correta compreens�o, sabedoria, percep��o, viv�ncia do momento que passa em toda a sua plenitude. Quando percebemos um desejo no momento exato em que ele vem surgindo, isso � liberta��o, pois ele cessa, deixa de existir e se transforma em simples pensamento, porque apenas o contemplamos como mero espectador que observa o seu surgir, seu passar e o seu desaparecer.

Na medita��o da Plena Aten��o mental n�o h� esfor�o, nem h� inten��o de concentrar-se em um �nico objeto. � uma medita��o que desenvolve a contempla��o din�mica ou moment�nea de todas as viv�ncias, ou tomadas de consci�ncia do instante presente na observa��o de todos os fen�menos psicof�sicos.

A concentra��o moment�nea, descoberta por Gautama Buda, � a �nica maneira que temos para penetrar nas tr�s caracter�sticas da exist�ncia (Imperman�ncia, Insatisfatoriedade e Impessoalidade), em todos os fen�menos psicof�sicos. N�s s� podemos perceber e compreender gradativamente estas tr�s caracter�sticas, quando seguimos o fluxo destes fen�menos e notamos que s�o como um rio em regi�o de corredeira. O rio nunca � o mesmo, nem sequer por dois momentos consecutivos, mas um constante vir-a-ser, um vir sempre em muta��o.

A concentra��o moment�nea permite perceber cada momento de consci�ncia, seja ele predominante do corpo � como na observa��o do ar entrando e saindo pelas narinas durante a respira��o �, seja ele predominante do verbo � no caso de qualquer atividade verbal, tanto da mente como na pr�pria palavra �, seja ele predominante da mente vendo ou ouvindo nas portas dos sentidos.

Na observa��o de um momento de consci�ncia com predomin�ncia do corpo � o ar entrando, provocado pela inspira��o � h� um surgir, uma viv�ncia e um desaparecer, e a mente que observa, rotulando, �entrando�; e a mente observando o ar saindo na expira��o � h� tamb�m um surgir, uma viv�ncia e um desaparecer que s�o um novo momento, que nada tem a haver com o anterior.

A mente que observa tamb�m tem um surgimento, uma viv�ncia e um desaparecimento, assim como todos os outros fen�menos que ocorrem, tanto na porta dos sentidos, no pr�prio corpo, como na mente; s�o todos impermanentes; n�o existe nada de permanente neste ser, tudo � um fluxo, tudo � um vir-a-ser.

A penetra��o desta primeira caracter�stica, a lei geral da Imperman�ncia, � fundamental para compreender a Realidade interna. Quando compreendemos esta lei, vamos compreendendo a segunda caracter�stica, isto �, este vir-a-ser, esta exist�ncia, este complexo de fen�menos psicof�sicos que s�o insatisfat�rios.

E quando compreendemos a Imperman�ncia e a Insatisfatoriedade, gradativamente compreendemos a Impessoalidade, isto �, a inexist�ncia de um eu, ou de um algo permanente, porque tudo � um fluxo. Assim, percebemos como a natureza � impessoal, o que significa a inexist�ncia de um dono deste corpo, desta mente. Vemos que esse corpo n�o � �meu�, que n�o tem sentido dizer �eu�, porque o �meu� sempre aponta para um propriet�rio, um dono, e esse dono seria �eu� (o corpo, na verdade,  pertence � natureza).

Ignor�ncia � justamente o oposto destas tr�s caracter�sticas e condiciona todas as nossas interpreta��es do mundo fenom�nico, colocando-nos num estado de distor��o hipn�tica do pensamento e da vis�o. Nesse estado de distor��o, somos levados a imaginar que o que � Imperman�ncia (anicca) � perman�ncia (nicca); o que � Sofrimento (dukkha) � fonte de prazer (sukkha); e o que � Impessoalidade, um fluxo (anatia) � uma entidade fixa (Atta). Esta percep��o do eu, essa percep��o de perman�ncia, que � satisfatoriedade � � a raiz de todos os sofrimentos poss�veis.

Para desenvolver, na medita��o introspectiva, a investiga��o da Doutrina e alegria que nos leva � verdadeira compreens�o da Realidade, a mente n�o deve estar agitada ou preocupada; este n�o � o momento adequado; deve-se, em primeiro lugar, desenvolver a concentra��o de tranq�ilidade, que traz calma, boas vibra��es. Somente ap�s desenvolver a tranq�ilidade, passando para a medita��o introspectiva, � que ser� poss�vel ver o Dharma, a Realidade interior, a Verdade sobre o nosso ser.

Quando a mente est� sonolenta, entorpecida, sem �nimo, n�o � o momento adequado para desenvolver a concentra��o de tranq�ilidade, mas, sim, para desenvolver a investiga��o da Doutrina que cria energia e alegria. Nesta ocasi�o, � favor�vel fazer ligeiras reflex�es sobre a natureza da Doutrina; sempre muito curtas para evitar cair no pensamento discursivo, esse mon�logo interior, esse pensamento sem qualquer controle que n�o sai da mente e que surge de uma maneira impessoal.

Este � um modo pelo qual n�s ganhamos mais compreens�o. Por exemplo, reflex�es sobre os Cinco Agregados da exist�ncia: ouvindo um som, refletir que � um fen�meno condicionado que, devido ao contato, traz � exist�ncia a sensa��o, a percep��o, a voli��o e a consci�ncia. Observando que a mente vagou, refletir que a mente vagou, porque naquele momento exato faltou a Plena Aten��o. Com isso, ganhamos autoconhecimento porque percebemos como a natureza � impermanente, insatisfat�ria e impessoal.

Os Quatro Esfor�os Mentais

Os Quatro Esfor�os Corretos, na medita��o ou na vida cotidiana, s�o os seguintes:

1. Esfor�o de evitar.
2. Esfor�o de superar.
3. Esfor�o de fazer surgir.
4. Esfor�o de manter e desenvolver.

1. Toda vez que surgir na mente qualquer estado de consci�ncia, como saudade, sensualidade, �dio etc., t�o logo surja o primeiro pensamento, devemos observ�-lo e rotular; com esse rotular do pensamento, o fluxo ser� cortado. Este � um esfor�o para evitar que a mente v� a estados negativos de consci�ncia.

Na vida cotidiana este esfor�o nos leva a desenvolver qualidades boas, como toler�ncia, paci�ncia, compreens�o. Pela falta de aten��o, n�o temos consci�ncia destes estados negativos e embarcamos facilmente neles.

2. Toda vez que percebemos que nossa mente j� foi a um estado negativo ou insalubre de consci�ncia, devemos imediatamente observar e rotular aquele estado negativo; com esse rotular do pensamento o fluxo ser� cortado. Isto acontece porque a Plena Aten��o, naquele momento exato, n�o estava estabelecida; n�o est�vamos vivendo o momento presente e a concentra��o falhou. Este esfor�o de superar, tanto na medita��o formal sentada, como na vida cotidiana, tamb�m nos leva a desenvolver qualidades positivas, como paci�ncia, toler�ncia, compreens�o, etc.

3. A medita��o, j� em si, � um esfor�o para fazer surgir os estados positivos de consci�ncia que ainda n�o surgiram, isto �, fazer surgir aquilo que h� de mais saud�vel, mais ben�fico. Porque a medita��o desenvolve a moralidade, a concentra��o, a tranq�ilidade, a paz, a Plena Aten��o e a Sabedoria � estados que trazem bem-estar, n�o s� a n�s, como aos demais. A medita��o do Amor Universal fundamentalmente � este terceiro tipo de esfor�o.

4. Tudo o que surgir na mente que seja saud�vel, salutar, ben�fico para o progresso espiritual, devemos estar atentos para que n�o seja negligenciado, fazendo o esfor�o correto para que se mantenha sempre presente em n�s e se desenvolva at� � perfei��o.

Plena Aten��o na Vida Cotidiana

Muitas coisas poder�o ser compreendidas pela mente capaz de permanecer atenta por longo per�odo de tempo. Desta maneira a consci�ncia atingir� n�veis mais elevados e a vis�o intuitiva desenvolvida nos possibilitar� esclarecimentos imposs�veis de alcan�ar pela fun��o intelectual costumeira. � medida que a pr�tica da medita��o se desenvolve, desenvolvemos a capacidade de observar o contato f�sico e mental, em sucess�o, dos seis �rg�os sensoriais com os seus respectivos objetos.

No Ocidente, homens c�lebres, em todas as �pocas e em diferentes ramos de atividades, obtiveram resultados intuitivamente, devido a seu concentrado poder de aten��o. A aten��o concentrada desenvolve a intui��o e torna mais clara e r�pida a faculdade de racioc�nio, an�lise e decis�o, como tamb�m os sentidos obt�m mais agudeza, finura e perspic�cia.

No treino da medita��o pode acontecer que a concentra��o, em alguns indiv�duos, transforme-se num h�bito quase involunt�rio, tornando-os escravos dela, de maneira que passem a esquecer-se de tudo o mais, negligenciar muitas vezes afazeres e obriga��es necess�rias. Tal atitude ou h�bito na vida cotidiana � nocivo. Estes, involuntariamente, tornaram-se escravos de seus h�bitos, em vez de senhores das suas mentes. V�m a ser sonhadores distra�dos de olhos abertos, e n�o observadores atentos de racioc�nio correto.

Dever�amos adotar progressivamente o treino da medita��o, acima descrito, nas nossas atividades cotidianas, embora isto seja dif�cil nas condi��es em que vivemos, especialmente nas grandes cidades.

O importante da medita��o de Plena Aten��o � desenvolver, em todos os momentos da vida, em todas as horas e situa��es, a vigil�ncia e consci�ncia de nossas emo��es, palavras, pensamentos e ocupa��es. Pela maior capacidade de observa��o, a tranq�ilidade interior se desenvolve e a consci�ncia mais l�cida torna o homem mais senhor de si. Isto � poss�vel mesmo para pessoas de muitos afazeres e responsabilidades que pretendem n�o ter tempo para meditar. Observar e estar atento ao momento presente � medita��o, seja na leitura de um livro, seja na realiza��o das diferentes atividades di�rias.

A medita��o de Plena Aten��o n�o interfere na realiza��o de nosso trabalho cotidiano. Pelo contr�rio, devemos nos concentrar unicamente no que fazemos. Assim, quando comemos, devemos estar conscientes do comer; quando exercemos as fun��es naturais devemos estar conscientes disto etc. No decorrer do dia, quando executando uma determinada tarefa, ao percebermos que a mente se desvia do objeto da nossa ocupa��o, imediatamente observemos este fato e, logo a seguir, retornemos � aten��o, � tarefa que est�vamos executando. H�, em n�s, uma constante preocupa��o em pensar nas coisas que devemos lembrar e fazer, para mantermos o controle dos fatos. Mas o certo � que a mente deveria permanecer tranq�ila e passar a funcionar eficientemente apenas quando solicitada, lembrando-nos e orientando-nos em nossos afazeres, resolvendo nossos problemas e dificuldades.

A mente pode ser comparada a um arquivo, que deveria ser utilizado somente quando solicitado. Entretanto, o que acontece, e n�o temos consci�ncia disto, � um incessante mon�logo interior e desaten��o que nos desgastam inutilmente. Apenas uma pequena parte dos pensamentos que ocupam nossa mente � funcional. A maior parte do que pensamos � in�til. � necess�rio estarmos vigilantes e atentos a todas as atividades, pois nossos atos e pensamentos, de um modo geral, s�o executados quase que automaticamente pelos condicionamentos do h�bito. N�o percebemos a maioria deles; isto nos sobrecarrega e desgasta de tal forma que inibe e perturba nossa capacidade de trabalho e energia criadora.

Carpenter escreveu: �A capacidade da m�quina mental aumenta consideravelmente quando a empregamos com concentra��o e s� para um determinado trabalho de cada vez, como quando a deixamos tamb�m parada depois de conclu�do o respectivo trabalho. Ela vem a ser, assim, um verdadeiro instrumento que se p�e de lado, depois de ter sido utilizado.�

Retiro de Medita��o

N�o h� d�vida que levar uma vida retirada das agita��es e dificuldades, longe dos ru�dos e das freq�entes solicita��es, � muito agrad�vel.

O retiro num mosteiro de medita��o, a fim de aperfei�oar a mente e o car�ter, ou mesmo como exerc�cio moral e espiritual, fortalece-nos para que, ao sair, possamos prestar melhores servi�os ao meio social em que vivemos. Mas, certamente, o m�rito n�o � menor no caso do indiv�duo que pratica o Budismo no meio de seus semelhantes, ajudando-os e prestando-lhes servi�os.

Os mosteiros foram constru�dos com a finalidade de abrigar monges, isto �, pessoas que consagram a vida inteira ao desenvolvimento espiritual, e auxiliar e orientar o desenvolvimento daqueles que os procuram. Desta forma, os mosteiros budistas tornaram-se, al�m de centros espirituais, n�cleos de estudo e de cultura.

A medita��o de Plena Aten��o nos retiros � praticada durante per�odos de tempo vari�veis de tr�s a vinte e um dias. A medita��o no retiro abrange o dia inteiro at� a noite. Ali s�o praticadas as diferentes modalidades de medita��o, sentada, andando, trabalhando, etc., j� descritas anteriormente. Ao acordar, pela manh�, o treino de medita��o � logo posto em pr�tica e se prolonga at� ao anoitecer.

O sono � um estado de subconsci�ncia. � semelhante ao primeiro estado de renascimento da consci�ncia e ao �ltimo estado de consci�ncia no momento da morte. Este estado de fraca consci�ncia diminui a capacidade de concentra��o, n�o permitindo a contempla��o.

Prote��o Mediante a Plena Aten��o

Certa vez o Bem-Aventurado contou a seus monges a seguinte est�ria:

Houve uma vez, um par de saltimbancos que fazia acrobacias numa vara de bambu. Um dia, disse o mestre-acrobata a seu aprendiz: � Ap�ie-se nos meus ombros e suba na vara de bambu. � Assim que o aprendiz o fez, falou o mestre: � Agora proteja-me bem, que eu o protegerei. Protegendo-nos e vigiando-nos mutuamente, desta forma, seremos capazes de mostrar nossa habilidade, teremos bom proveito e desceremos com seguran�a da vara de bambu. � Mas, disse o aprendiz: � Assim n�o, mestre. V�s, � mestre, deveis proteger-vos, enquanto eu tamb�m protegerei a mim mesmo. Assim, cada um de n�s protegendo e guardando a si mesmo, melhor desempenharemos nossas tarefas.

O Buda, que passava, ouvindo o col�quio disse:

- �Os sonhos s�o dramatiza��es do subconsciente; por esse motivo s�o eminentemente pessoais; os animais tamb�m sonham.� (Dr. Joseph Murphy.)

- Assim � que est� certo, � acrescentando ainda: � � exatamente como diz o aprendiz: �Eu mesmo me protegerei� (da mesma forma devem as Bases ou Quatro Fundamentos da Plena Aten��o Mental � Satipatthana -, serem postas em pr�tica). �Protegerei os outros� (dessa forma devem as bases da plenitude mental ser praticadas). �Protegendo-nos a n�s mesmos, protegeremos os outros; protegendo os outros, protegeremos a n�s mesmos.�

- E como fazer para proteger a si mesmo e proteger os outros? Pela repetida e freq�ente pr�tica de medita��o.
- E como fazer para proteger os outros e proteger a si mesmo? Pela paci�ncia e pela indulg�ncia, por uma vida pura e de n�o-viol�ncia, pela bondade e compaix�o. (Satipatthana Samyutta)

Este Sutra (s�nscrito; pali Sutta) pertence ao n�mero consider�vel de ensinamentos importantes e eminentemente pr�ticos de Buda, que se acham ocultos como um tesouro enterrado, desconhecido e sem uso. Assim, este texto cont�m uma importante mensagem para n�s, e o fato de ele ainda estar lacrado com o selo da Plena Aten��o (Vigil�ncia) � um apelo adicional � nossa aten��o.

O Indiv�duo e a Sociedade

O Sutta (pali) trata das nossas rela��es com outrem, das rela��es do indiv�duo com a sociedade. Resume, de modo sucinto, a atitude do Budismo ante os problemas do indiv�duo e da �tica social, do ego�smo e do altru�smo. Sua ess�ncia est� contida nestas duas senten�as:

�Protegendo-nos a n�s mesmos, protegeremos os outros. Protegendo os outros, protegeremos a n�s mesmos.� Estas duas senten�as completam-se mutuamente e n�o devem ser tomadas ou observadas separadamente.

Hoje em dia, quando se d� tanta �nfase ao servi�o social, uma pessoa pode, por exemplo, ser tentada a observar, em apoio a suas id�ias, apenas a segunda senten�a. Mas qualquer observa��o unilateral desvirtuaria o ponto de vista de Buda.

Tem de ser relembrado que, na est�ria, o Buda aprova expressamente as palavras do aprendiz, isto �, que se tem primeiro de observar cuidadosamente os pr�prios passos ou a��es, se se deseja proteger os outros da dor. Todo aquele que est� mergulhado no atoleiro n�o pode ajudar os outros a sair dali. Neste sentido, a autoprote��o constitui a base indispens�vel para a prote��o e a ajuda a ser dada aos outros. A autoprote��o, entretanto, n�o � a prote��o ego�stica. � o autocontrole, � o autodesenvolvimento �tico e espiritual.

H� algumas grandes verdades que s�o t�o compreens�veis e profundas, que at� parecem ter uma escala cada vez mais larga de significa��es e se expandem com a nossa pr�pria capacidade de compreens�o e pr�tica nas mesmas. Tais verdades s�o aplic�veis em v�rios n�veis de compreens�o e s�o v�lidas em muitos aspectos de nossa vida. Ap�s atingirmos o primeiro ou o segundo n�vel, surpreende-nos ver que gradativamente novas perspectivas se abrem ao nosso entendimento, iluminadas por essas verdades. Isto tamb�m autentifica as duas grandes verdades do nosso texto, as quais examinaremos agora minuciosamente.

�Protegendo-nos a n�s mesmos, protegeremos os outros� � a verdade desta assertiva principia num n�vel muito simples e pr�tico. Este primeiro n�vel material da verdade � t�o evidente por si mesmo, que apenas precisamos dizer umas poucas palavras a seu respeito. � �bvio que a prote��o � pr�pria sa�de envolver� a prote��o da sa�de do nosso pr�prio ambiente, tanto o mais pr�ximo quanto o mais remoto, especialmente quando se trate de doen�as contagiosas. O cuidado e a circunspec��o, no tocante aos nossos atos e movimentos, proteger�o os outros do sofrimento que lhes pode advir em conseq��ncia de nosso descuido ou neglig�ncia. Mediante uma conduta cuidadosa, absten��o de �lcool e outros t�xicos, autocontrole em situa��es que possam conduzir � viol�ncia � de todos esses e de muitos outros modos �, podemos proteger os outros, ao protegermos a n�s mesmos.

O N�vel �tico

Chegamos agora ao n�vel �tico dessa verdade. A autoprote��o moral salvaguardar� os outros, individual e socialmente, de nossas pr�prias paix�es desenfreadas e impulsos ego�stas. Se permitirmos que as tr�s ra�zes de todo o mal � o apego, o �dio e a ignor�ncia achem guarida em nossos cora��es, ent�o os ramos dessas ra�zes ir�o disseminar-se e alargarem-se como parasitas selvagens, asfixiando toda vegeta��o sadia e nobre que germina ao redor. Mas, se nos protegermos contra as tr�s ra�zes do mal, os outros seres humanos estar�o livres de nosso impudente apego ao dom�nio e poder, da nossa desenfreada lux�ria e sensualidade, da nossa inveja e do nosso ci�me.

Estar�o livres de atos dilacerantes ou at� destrutivos e criminosos, conseq�entes do nosso �dio, das nossas explos�es de ira, da difus�o, de nossa parte, de uma atmosfera de antagonismos e disputas que tornam insuport�vel a vida para aqueles com quem convivemos. Os nocivos efeitos de nossa cobi�a e �dio sobre os outros n�o se limitam, todavia, �queles seres humanos que s�o objetos passivos, ou v�timas, de nosso �dio, ou os seus haveres objetos de nossa cobi�a.

A cobi�a e o �dio t�m poder contagioso e, portanto, seus efeitos letais multiplicam-se. Se n�o pensamos em outra coisa, sen�o em desejar e arrebatar, adquirir e possuir, conservar e apegarmo-nos, ent�o podemos fazer surgir e fortalecer esses instintos possessivos tamb�m nos outros. Nosso mau exemplo pode servir de padr�o de comportamento dentro de nosso meio ambiente. Poder�, por exemplo, influenciar nossos colegas de trabalho, etc. Nossa conduta talvez induza outros imitar-nos na satisfa��o comum de desejos vorazes, ou � prov�vel que despertemos ressentimentos e esp�rito de competi��o, avivando nos outros o desejo de vencer-nos na corrida.

Se somos dominados p�la sensualidade, podemos ati�ar o fogo da lux�ria nos outros. Nosso �dio talvez cause o �dio e a vingan�a aos outros. Tamb�m pode acontecer que nos aliemos a outros ou os instiguemos a atos comuns de �dio e beliger�ncia. A cobi�a e o �dio s�o realmente como as doen�as contagiosas. Protegeremos os outros, pelo menos at� certo ponto, se nos protegermos e tornarmo-nos t�o imunes quanto poss�vel contra essas mal�ficas epidemias.

Prote��o Pela Sabedoria

Com rela��o � terceira raiz do mal, o embuste ou a ignor�ncia, sabemos muito bem quanto mal pode ser feito aos outros atrav�s da estupidez, da irreflex�o, dos preconceitos, ilus�es e embustes de uma simples pessoa.

Sem sabedoria e conhecimento as tentativas para protegermos a n�s mesmos e aos outros quase sempre fracassar�o. Poder-se-� divisar o perigo somente quando j� for muito tarde; n�o se poder� fazer previs�o para o futuro, n�o se saber� a exata e efetiva significa��o da prote��o e da ajuda. Portanto, com a autoprote��o mediante sabedoria e conhecimento, protegeremos os outros das danosas conseq��ncias da nossa pr�pria ignor�ncia, de nossos preconceitos, contagiantes fanatismos e embustes.

A Hist�ria tem mostrado que os grandes e destrutivos embustes das massas, muitas vezes, come�aram ou foram ati�ados por um simples indiv�duo, ou por um pequeno n�mero de pessoas. A autoprote��o, mediante a sabedoria e o conhecimento, nos tornar�, a n�s mesmos e ao nosso ambiente, imunes contra os perniciosos efeitos de tais influ�ncias.

Indicamos, resumidamente, a for�a e extens�o do impacto que nossa pr�pria vida privada pode ocasionar na vida dos outros. Se deixarmos intactas as fontes reais ou potenciais do mal social dentro de n�s, qualquer atividade social externa, de nossa parte, resultar� t�o f�til quanto manifestadamente incompleta. Se somos, entretanto, movidos por um esp�rito de responsabilidade social, n�o nos devemos esquivar da �rdua tarefa da autoprote��o, isto �, de autodesenvolvimento moral e espiritual. A preocupa��o com as atividades sociais n�o podem servir de escusa ou fuga ao primeiro dever, o de p�r em ordem, antes de mais nada, a nossa pr�pria casa. Por outro lado, aquele que diligentemente se devota ao auto-aperfei�oamento moral e ao autodesenvolvimento espiritual ser� uma for�a ativa e poderosa para o bem da Humanidade � mesmo sem engajar-se numa atividade social externa. Seu silencioso exemplo, por si s�, dar� ajuda e coragem a muitos, mostrando que os ideais de uma vida pura e isenta de ego�smo podem ser realmente vividos e n�o s�o apenas t�picos de serm�es.

O N�vel Meditativo

Passaremos, agora, ao pr�ximo n�vel, que � o mais elevado na interpreta��o do texto. � ele expresso nas seguintes palavras do Salta: �E como pode algu�m, protegendo-se a si mesmo, proteger os outros? Pela pr�tica repetida e freq�ente da medita��o.�

� autoprote��o moral faltar� estabilidade, na medida em que permane�a como uma r�gida disciplina, refor�ada por uma luta de motiva��es e h�bitos conflitantes de conduta e pensamento, Os desejos passionais e as tend�ncias ego�sticas provavelmente atingir�o maior intensidade se se tentar silenci�-los por pura for�a de vontade. Mesmo que algu�m temporariamente seja bem sucedido em dominar os impulsos passionais ou ego�sticos, o insol�vel conflito interior lhe impedir� um progresso moral e espiritual e lhe atingir� o car�ter. Al�m disso, a desarmonia interior, causada por uma for�ada supress�o dos impulsos, buscar� sa�da na conduta externa e tornar� o indiv�duo irrit�vel, recalcado, dominador e agressivo para com os outros. Assim, o mal poder� n�o s� atingi-lo, mas tamb�m aos outros, em virtude de um m�todo errado de autoprote��o.

S� quando a autoprote��o moral se tornar uma fun��o espont�nea, quando ocorre t�o naturalmente como o fechamento protetor das p�lpebras ante o mais leve contato com um corpo estranho, � que ent�o nossa estatura moral proporcionar� real prote��o e seguran�a a n�s mesmos e aos outros. Essa naturalidade da conduta moral n�o � uma d�diva dos c�us, mas uma conquista alcan�ada, n�o s� nesta vida, como tamb�m em exist�ncias anteriores, pela pr�tica e aperfei�oamento repetidos. Portanto, diz o nosso sutra que, s� pela pr�tica constante, nossa autoprote��o tornar-se-� bastante forte para que possa tamb�m proteger os outros.

Todavia, se essa constante pr�tica do bem situa-se apenas no n�vel pr�tico, emocional e intelectual, suas ra�zes n�o se firmar�o e aprofundar�o suficientemente. Tal pr�tica constante deve estender-se tamb�m ao n�vel do aperfei�oamento meditativo. Pela medita��o, os motivos pr�ticos, emocional e intelectual de autoprote��o moral e espiritual, tornar-se-�o nossa propriedade mental, que n�o se poder� perder de novo facilmente. Por isso, o nosso sutra fala de cultivo mental � bhavana. Esta � a mais alta forma de prote��o que nosso mundo pode proporcionar (� parte dos aperfei�oados Est�gios de Santidade).

Uma mente meditativa vive em paz consigo mesma e com o mundo. Nenhum mal ou viol�ncia dela pode advir. A paz e pureza que ela irradia subjugar�o o poder e ser�o uma b�n��o para o mundo. Ser� um fator positivo na sociedade, mesmo que viva em reclus�o e sil�ncio. Quando a compreens�o e o reconhecimento do valor de uma vida meditativa se extinguirem numa na��o, ser� o primeiro sintoma da deteriora��o espiritual.

Prote��o aos Outros

Temos agora de considerar a segunda parte da palavra do Buda, que � um complemento necess�rio da primeira: �Protegendo os outros, protegemo-nos a n�s mesmos. E como? Pela paci�ncia e indulg�ncia, por uma vida n�o-violenta e inocente, pela bondade e compaix�o.�

Aquele, cujas rela��es com o� pr�ximo s�o governadas por esses princ�pios, proteger-se-� a si mesmo de modo melhor que qualquer arma poderosa ou for�a f�sica poder�o faz�-lo. Aquele que � paciente e indulgente evitar� conflitos e querelas e transformar� em amigos todos aqueles aos quais demonstrou uma paciente compreens�o. Aquele que n�o usa da for�a ou coer��o raramente tornar-se-�, em condi��es normais, objeto de viol�ncia, bem como jamais a provocar�. E, se acaso encontrar viol�ncia, logo a dissipar�, assim como n�o perpetuar� a situa��o atrav�s da vingan�a. Aquele que tem amor e compaix�o por todos os seres e � livre de hostilidade vencer� a m� vontade dos outros e desarmar� o violento e o brutal. Um cora��o compassivo ser� o ref�gio de todo mundo.

Agora compreenderemos melhor como essas duas senten�as complementares do texto se harmonizam. A autoprote��o moral � a base indispens�vel. Mas a verdadeira autoprote��o s� � poss�vel quando n�o entra em conflito com a prote��o dos outros; ali�s, n�o apenas se degrada, mas tamb�m se exp�e ao perigo, todo aquele que busca autoprote��o �s expensas dos outros. Por outro lado, a prote��o aos outros n�o deve conflitar com os quatro princ�pios, isto �, Paci�ncia, N�o-Viol�ncia, Bondade e Compaix�o, e nem deve interferir com o livre desenvolvimento espiritual do indiv�duo, conforme acontece no caso de v�rias doutrinas �totalit�rias�. Assim, na concep��o budista de autoprote��o, todo ego�smo � exclu�do; na prote��o aos outros a viol�ncia e a interfer�ncia n�o encontram guarida.

  Autoprote��o e prote��o a outrem correspondem �s duas grandes virtudes: Sabedoria e Compaix�o. A correta autoprote��o � a express�o da sabedoria e a correta prote��o aos outros � o resultado da compaix�o Sabedoria e Compaix�o, sendo os elementos caracter�sticos Bodhi, ou Ilumina��o, encontraram a mais elevada perfei��o no Integralmente Iluminado, o Buda. A exist�ncia do seu desenvolvimento harmonioso constitui um tra�o caracter�stico de todo o Dharma (Doutrina). Encontramo-lo, por exemplo, nos quatro Sublimes Estados, onde a equanimidade corresponde � sabedoria e autoprote��o; enquanto que a Bondade, a Compaix�o e a Solidariedade humana correspondem � compaix�o e prote��o aos outros.

Estes dois grandes princ�pios de autoprote��o e prote��o a outrem s�o de igual import�ncia, quer para a �tica individual, ou e estabelecem a harmonia entre ambas. Seu ben�fico impacto, entretanto, n�o se det�m no n�vel �tico, mas conduz o indiv�duo �s culmin�ncias da mais alta realiza��o do Dharma, enquanto, ao mesmo tempo, cimenta uma base s�lida, no sentido do bem-estar social.

A compreens�o destes dois grandes princ�pios de Autoprote��o prote��o a Outrem, como manifesta��es das virtudes da Sabedoria e Compaix�o, � de vital import�ncia para a educa��o budista, tanto os jovens como paris os adultos. Em verdade, s�o eles, estes dois princ�pios, que constituem a pedra fundamental na constru��o do car�ter, e merecem um lugar de relevo na atual tentativa, de 1bito mundial, de renascimento do Budismo.

�Eu protegerei a mico mesmo.� Assim devemos estabelecer nossa plena aten��o mental, guiando-nos por ela e devotando-nos � sua pr�tica.

�Eu protegerei a outrem.� Assim devemos estabelecer nossa vigil�ncia e devotarmo-nos � pr�tica da Plena Aten��o, visando nossa pr�pria liberta��o, bem como a felicidade e o bem-estar de muitos.�

Mente Consciente e Subconsciente

A mente abrange a mente consciente e a mente inconsciente. A mente consciente, conhecida como mente objetiva, volunt�ria, exterior ou superficial, tem conhecimento do mundo objetivo atrav�s das seis faculdades dos sentidos, sendo que a sexta depende da faculdade mental � indriya � que est� em rela��o com os objetos mentais, id�ias, pensamentos, concep��es etc. O racioc�nio e intelecto s�o as fun��es mais importantes da mente consciente.

A mente inconsciente, conhecida tamb�m como subconsciente, subjetiva, interior ou profunda, percebe pela intui��o; � clarividente, v�, sente e percebe sem aux�lio intermedi�rio dos �rg�os dos sentidos. Atrav�s da mente subconsciente podem ser adquiridas as faculdades de clarivid�ncia, telepatia, levita��o, etc. Admite-se que a maior parte de nossas capacidades mentais estejam latentes na mente inconsciente. O subconsciente ou superconsciente, em certas religi�es, � interpretado como a presen�a de Deus, Intelig�ncia Suprema ou Consci�ncia C�smica.

O inconsciente c�smico s� � inconsciente enquanto estamos separados dele, isto �, enquanto n�o temos consci�ncia da realidade. Na medida em que despertamos e entramos em contato com a realidade, n�o h� nada de que n�o tenhamos consci�ncia; o inconsciente torna-se consciente e, quando isso acontece, deixa de ser inconsciente, tendo sempre em mente que ele n�o se transforma em intelecto reflexivo. Como diz o Prof. Suzuki: �Na realidade, o inconsciente � o que � mais �ntimo e, precisamente em virtude dessa intimidade, temos dificuldade em deitar-lhe a m�o, pela mesma raz�o por que o olho n�o pode ver-se a si mesmo. O tornar-se, portanto, consciente do inconsciente requer um treinamento especial por parte da consci�ncia.� * Tornar consciente o inconsciente significa viver em verdade; esse objetivo da apreens�o din�mica e plena do mundo � que � o objetivo da medita��o budista.

� medida em que h� pregresso na mente consciente, devido ao conhecimento, o homem desenvolve mais o intelecto, dando-lhe maior import�ncia, atribuindo-lhe o cetro das conquistas, em todos os campos da atividade humana. V�rias condi��es contribuem para o embotamento da mente consciente: os condicionamentos �s coisas do passado, representados pelas cren�as, filosofias, teorias e conceitos, aos quais a mente se apega em fun��o da procura e do desejo de seguran�a e de satisfa��o dos sentidos, que criam novas necessidades, obrigando. -nos a desejar o que julgamos melhor.

O intelecto � necess�rio para determinar, embora vagamente, onde est� a realidade; mas a realidade s� � captada quando o intelecto renuncia a suas pretens�es sobre ela. A intelec��o e a conceitua��o s� s�o necess�rias para compreender as nossas pr�prias limita��es. Somente pela introspec��o, desenvolvida na pr�tica da Plena Aten��o ou Vigil�ncia, � que a mente se libertar� desses condicionamentos, adquirindo tranq�ilidade, possibilitando a sabedoria do subconsciente vir � superf�cie, revelando todo o conhecimento acumulado e arquivado.

Esta mente, � disc�pulos, � luminosa mas � maculada (no homem comum, auto-esclarecido) por manchas advent�cias. Esta mente, � disc�pulos, � luminosa e � livre das manchas advent�cias no Nobre Ser.

Percep��es Ps�quicas

Pode-se definir a mente como a soma da a��o ps�quica consciente e inconsciente. Pelo treino da medita��o, como em raros casos espont�neos que surgem na vida comum, ocorre o desenvolvimento e o agu�amento dos sentidos ps�quicos, adquirindo as pessoas as faculdades conhecidas como clarivid�ncia (percep��o extra-sensorial); telepatia (transmiss�o de pensamento); premoni��o (antevis�o de ocorr�ncias futuras); proje��o (sa�da no corpo astral); regress�o de mem�ria (lembran�a das vidas remotas); psicocinesia (a��o mental sobre a mat�ria); etc. Estas faculdades nada mais s�o que resultados da liberta��o das energias ps�quicas mentais, denominadas siddhis em s�nscrito, ou iddhi em pali.

Essas manifesta��es ps�quicas algumas vezes est�o ligadas ao desenvolvimento espiritual, mas nem sempre caracterizam espiritualidade, e podem levar facilmente o indiv�duo ao orgulho, vaidades e exibi��es, dificultando a espiritualidade. Quando os homens usam o poder da mente concentrada de uma forma construtiva, harmoniosa e ben�fica, se diz habitualmente que este poder prov�m de Deus; quando usam o poder da mente de forma negativa, diz-se que prov�m de Sat�, dem�nio, esp�rito do mal, etc. �A cren�a em dois poderes, o do bem e o do mal, � um res�duo de id�ias supersticiosas. As for�as da natureza n�o s�o boas nem m�s, dependem do uso que fazemos delas. Podemos usar a eletricidade para fins utilit�rios, aquecimento, luz, mover m�quinas, etc., ou para eletrocutar algu�m. Portanto, o bem e o mal, em realidade, est�o na mente do homem.� (Dr. Joseph Murphy, Telepsiquismo.)

� medida que o homem progride no caminho, a manifesta��o das energias ps�quicas e mentais � iddbis � � percebida, habitualmente, sob a forma de poder, que traz consigo um aumento do amor altru�sta e benevol�ncia, justi�a e compaix�o, e sua influ�ncia � sentida no ambiente das rela��es na vida di�ria.

O iogue Ramach�raca diz: �� verdade que alguns, chegando � consci�ncia da sua natureza real, sem compreender o que isso tudo significa, podem cometer o erro de utilizar o poder da vontade despertada para fins ego�stas. Assim, s�o conhecidos os casos de magia negra, como tamb�m s�o constatados casos bem conhecidos da hist�ria e da vida contempor�nea. Todas estas pessoas de grande poder ps�quico chegaram cegamente � consci�ncia, ou parcial consci�ncia da sua natureza real, mas faltou-lhes a influ�ncia dos ensinamentos superiores. O mau uso do poder da vontade s� traz sofrimentos e inquieta��es...�

Conv�m salientar, nessa quest�o, que tais capacidades existem em todos os seres humanos em estado latente, e, quando despertadas, manifestam-se em maior ou menor grau de desenvolvimento. S� funcionam nos planos do �eu� que est� sujeito ao desejo e, portanto, a utiliz�-lo em seu pr�prio favor. Esses poderes e capacidades, quando normais, s�o exercidos consciente e voluntariamente. Mediunidade, por exemplo, n�o � uma capacidade espiritual mas, antes, uma anormalidade, j� que resulta de algo que se passa no corpo do homem, do qual ele n�o � consciente, al�m de constituir um grande perigo para sua sa�de. Assim como a mediunidade, tamb�m qualquer outra manifesta��o conseguida atrav�s do hipnotismo, ou qualquer processo em que o homem se torne passivo e sujeito a interven��es alheias.

Os feiticeiros n�o t�m nenhum poder, por�m quando querem rogar uma praga para uma pessoa, avisam-na de que foi amaldi�oada; esta obedece � sugest�o, que se torna, ent�o, um movimento do seu pr�prio pensamento; e como os pensamentos s�o criadores, eles ferem a pr�pria pessoa.

As leis da natureza s�o impessoais e implac�veis; a mesma verdade se aplica tamb�m � nossa mente, portanto n�o devemos lidar com for�as que n�o conhecemos. Por exemplo, se, desconhecendo as leis da eletricidade, n�o sabemos o que � um isolante ou um condutor, corremos o s�rio perigo de sermos eletrocutados.

O Buda mostrou que o desenvolvimento de poderes ps�quicos, sem estar fundamentado numa forte moralidade, n�o � objetivo da vida espiritual e, entre as maneiras err�neas de viver, apontava o fazer profiss�o do magnetismo, hipnotismo, quiromancia, cartomancia, astrologia etc., previs�o do futuro, ou interpreta��o de sonhos. Por�m, achava que n�o se devia renunciar a tais poderes, busc�-los intencionalmente, ou repudi�-los caso surgissem espontaneamente.

Quando, repentinamente, aparece a manifesta��o da plena consci�ncia da for�a do nosso corpo astral, denominada, no Budismo, percep��o ps�quica aguda ou �despertar do Kundalini� (for�a vital no Ioga), esta manifesta��o, que � uma das formas da percep��o supra- consciente, aparecendo em pessoas n�o esclarecidas, pode causar espanto, trauma, podendo lev�-las a perturba��es mentais, ou mesmo � morte.

No Budismo n�o h� nada oculto; comprova-se a exist�ncia do poder ps�quico, por�m n�o se lhe d� import�ncia fundamental. Entretanto, aparecendo espontaneamente, o fato � considerado e analisado da mesma maneira como observamos e analisamos os fen�menos do mundo f�sico.

Gautama Buda prevenia os monges em n�o usar de poderes ps�quicos, pois considerava tal procedimento uma fraqueza, um modo barato de atrair o povo, especialmente no que concerne aos ensinamentos da Doutrina que agu�am a compreens�o. Por esse motivo, empregava a palavra, e somente a palavra, em todas as circunst�ncias.
Certa vez, o Bem-Aventurado, encontrando um asceta que praticava austeridades durante muitos anos, perguntou-lhe o que pretendia obter ap�s tanto esfor�o. O asceta orgulhoso respondeu que queria conseguir o poder de atravessar o rio andando sobre as �guas. Respondeu o Buda: �Vais lucrar muito pouco com tanto trabalho e desperd�cio de tempo, pois com algumas moedas poder�s conseguir que um barqueiro o leve em poucos minutos.�

No livro An Introduction to Zen, encontramos um lindo texto, que se segue:

Certa vez, quando o mestre Bankei calmamente pregava a seus seguidores, sua fala foi interrompida por um sacerdote de nome Shinshu que acreditava em milagres e pensava que a salva��o vinha da repeti��o de palavras sagradas.

Mestre Bankei, incapaz de continuar a palestra, perguntou ao sacerdote o que queria ele dizer.

� O fundador da minha religi�o, � continuou o sacerdote � estava na margem de um rio com um pincel na m�o. Seu disc�pulo estava na outra margem segurando uma folha de papel. E o fundador escreveu o santo nome de Amida no papel, atrav�s do rio, pelo ar. Podes fazer algo t�o milagroso?

� N�o, � disse Bankei � s� posso fazer pequenos milagres como: comer, quando estou com fome; beber, quando tenho sede e, quando insultado, perdoar.

Os Tr�s Magos e o Buda

Certa vez, tr�s mestres de magia pediram ao Buda para demonstrarem seus poderes ps�quicos (milagres).
Gautama Buda colocou-os em salas separadas e deixou-os � vontade. Decorrido algum tempo, chamou-os e pediu que contassem o que tinham conseguido fazer. Cada um contou fatos diferentes.

Para o primeiro, Buda disse:

� O ser bestial vermelho, com uma coroa de fogo na cabe�a, que voc� materializou, nada mais � sen�o o fogo que voc� mesmo extraiu do abismo infinito; com isso queimou casas de indefesos. Vai depressa e ajuda-os!

Para o segundo disse:

� O drag�o com rosto de donzela, que voc� materializou e viu, nada mais � sen�o as ondas que voc� desviou do seu ritmo normal, causando inunda��es; apressa-te para ajudar as v�timas!

Para o terceiro disse:

� A �guia gigantesca voando que voc� viu, foi o furac�o que destruiu toda a safra dos lavradores; vai, corre e compensa as perdas!

Continuando, disse aos magos:

� Onde est� a utilidade desses poderes? Devem concordar que os milagres n�o s�o �teis, porque o principal milagre da exist�ncia voc�s n�o perceberam. N�o perceberam a exist�ncia fora da forma; se percebessem poderiam dirigir a aten��o acima dos limites terrestres. Continuando presos � mat�ria, seus pensamentos concentrados atra�ram ondas de elementos das for�as da natureza. O desequil�brio causado por esse maior condensamento, provocou abalos em v�rias regi�es da terra. At� uma pequenina pena ca�da da asa de um p�ssaro pode provocar um trov�o em long�nquos mundos. Respirando o ar, j� mantemos contato com o Universo.

Um s�bio de verdade sempre se eleva, n�o se apegando ao nome e forma; mas provocar um imprudente e irrefletido desequil�brio na Natureza n�o deve ser ocupa��o de um s�bio! *

Contra Exibi��es dos Poderes Ps�quicos

Conta-se que, atrav�s das pr�ticas do ioga, Devadata � conseguira desenvolver grandemente os poderes ps�quicos. Certa vez, um Maraj� ofereceu uma rica ta�a de ouro incrustada de pedras preciosas ao homem que pudesse alcan��-la sem subir no topo do bambu, onde estava pendurada. Vieram muitos jogues, magos e faquires para tentar a prova. Em v�o invocaram os seus poderes ocultos. Sabendo do que se passava, Devadata resolveu competir. Sentou-se no ch�o, perto do Maraj�, e concentrou toda a sua for�a mental. E o povo assombrado viu que Devadata, aos poucos, ia-se elevando no ar. E, assim, levitando, conseguiu obter a ta�a sem subir no bambu. Contente com a fa�anha, Devadata foi procurar Gautama Buda e narrou-lhe o ocorrido. Buda sorriu e respondeu serenamente:

� De que valem estes poderes, meu filho? Nada significam para o teu progresso espiritual. S�o apenas demonstra��es v�s.

Indignado, Devadata irritou-se com a resposta de Buda e abandonou-o. Foi para a cidade e come�ou a pregar contra ele. Mas este continuou sereno e deixou Devadata entregue ao seu pr�prio destino.

Certa tarde, quando Devadata caminhava pela floresta junto com um de seus disc�pulos, de repente caiu em areias movedi�as. Apesar de toda a sua clarivid�ncia, n�o viu o perigo e, desesperado, come�ou a afundar.

O disc�pulo correu para salv�-lo, mas nada conseguiu. E Devadata morreu colhido pelas areias movedi�as.

Quando um Disc�pulo de Buda Deixa de o Ser

Na esta��o das chuvas, muitos disc�pulos se estabeleceram na comarca de Vriji, desolada pela fome. Um dos disc�pulos prop�s aos seus irm�os que se elogiassem mutuamente perante o povo dizendo: �Este monge � um santo, teve vis�es celestes, possui faculdades sobrenaturais e pode fazer milagres.� E os alde�es dir�o: �Certamente � uma felicidade que estes santos var�es venham entre n�s na esta��o da chuva. Deste modo o povo nos dar� oferendas de boa vontade e n�o sofreremos fome.�

Quando o Buda soube disto, mandou que Ananda reunisse todos os disc�pulos e disse-lhes:

� Dizei-me, � disc�pulos, quando � que um disc�pulo deixa de o ser?
Sariputra respondeu-lhe:
� O bom disc�pulo n�o deve quebrar o voto de castidade; se o quebra, n�o � disc�pulo de Sakyamuni.

O bom disc�pulo n�o deve tirar a vida a nenhum ser inofensivo, nem sequer a de um verme, formigas ou outros insetos.

O bom disc�pulo n�o deve vangloriar-se de virtude, nem de nenhuma qualidade sobre-humana, O disc�pulo que, por ego�smo ou proveito pessoal, se envaidece de possuir faculdades extraordin�rias, de ter vis�es celestes, ou de agir por meio de milagres, n�o � disc�pulo de Sakyamuni.

� Assim, � disc�pulos, n�o vos deveis valer de feiti�os nem de ora��es, porque s�o in�teis, j� que tudo est� regido pela lei do carma. Quem tenta fazer milagres, n�o compreendeu a doutrina do Tathagata. 

Gautama Buda n�o diferencia o mundo f�sico do ps�quico ou astral; ambos s�o produ��es mentais. O ps�quico � o resultado da a��o mental, tendo a mesma seq��ncia do mundo f�sico em rela��o s nossas faculdades dos sentidos. Assim, os fen�menos ps�quicos s�o manifesta��es da consci�ncia por meio da mat�ria; tanto faz que estes fen�menos se manifestem na mat�ria do corpo f�sico, como do ps�quico e ps�quico-sutil, ou seja, astral e mental.

No Budismo todos os planos da consci�ncia s�o forma��es mentais, sempre ligadas �s percep��es dos fen�menos objetivos ou subjetivos; n�o h� diferen�a de princ�pios entre os dois modos de ver e observar.

O artista puro, que trabalha por amor � sua obra, est� algumas vezes mais firmemente colocado no verdadeiro caminho de que o ocultista que imagina haver apartado de si o interesse pr�prio, por�m que, em realidade, apenas alargou os limites da experi�ncia e do desejo e transferiu os seus interesses � coisas relacionadas � sua maior expans�o de vida.

Cresce como a flor, inconscientemente, mas ardendo em �nsias de entreabrir sua alma � brisa. Assim � como deves avan�ar, abrindo a tua alma ao eterno. Mas h� de ser o eterno o que deve desenvolver a tua for�a e a tua beleza, e n�o o desejo de crescimento. Porque, no primeiro caso, florescer�s com a beleza da pureza, e, no outro, te endureces com avassaladora paix�o da import�ncia pessoal. . . (Luz no Caminho, Mabel Collins.)
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