Medita��o ou Desenvolvimento Mental
A finalidade do Budismo � reunir novamente o individuo � realidade que foi perdida de vista devido � nossa ignor�ncia em buscar a felicidade, pela qual ansiamos, onde ela n�o � encontrada, nas sombras e ilus�es da nossa pr�pria mente.

Falando da crescente influ�ncia do Budismo no Ocidente, o Dr. Graham Howe disse: �No decorrer dos trabalhos de numerosos psic�logos, descobriu-se que estamos muito pr�ximos do Budismo sem o saber; basta estarmos um pouco esclarecidos sobre a filosofia budista para compreender que h� 2.500 anos sabiam mais sobre psicologia moderna do que se possa imaginar. Desta forma, estamos redescobrindo a antiga sabedoria do Oriente.�

Desde centenas de gera��es estamos condicionados a �pensar� e atribuir ao intelecto o cetro das conquistas humanas, mas � evidente que a decorr�ncia de todo este passado acumulado, catalogado e esmiu�ado atrav�s da engrenagem puramente intelectual, mostra agora, principalmente nos tempos atuais, a completa fal�ncia quanto � solu��o dos problemas humanos fundamentais como o amor, a paz, o sexo, o �dio e as guerras. O conhecimento adquirido pelo ac�mulo da mem�ria da cultura, da especialidade e aprimoramento t�cnico nada mais � do que a capta��o superficial do assunto, do fato, da situa��o, do problema.

Os problemas urgentes que o mundo hoje enfrenta s� podem ser resolvidos pela aplica��o de leis morais e espirituais; mas primeiro temos de compreend�-las. N�o � bastante inventar regras para ajust�-las �s circunst�ncias e justificar nossas a��es, ainda que isto seja de fato, o que os homens t�m feito desde tempos imemoriais.  N�s devemos nos aproximar do grande mist�rio da vida com esp�rito de reverente investiga��o, escolhendo os melhores guias e procurando estabelecer, para nossa pr�pria satisfa��o, a Verdade, atrav�s de sua magnitude.

Vivemos dominados pelo apego e avers�o at� mesmo aos mais insignificantes objetos, assim como damos um valor absoluto �s mais relativas situa��es. Vivemos egoisticamente e, por conseq��ncia, dominados pela m� vontade e ressentimento quando vemos contrariados os nossos menores interesses. Sentimos �dio, ci�me, ansiedade, sem que tenhamos consci�ncia de que a nossa ignor�ncia faz deste modo um muro de lamenta��es. S�o dessas impurezas da mente que surgem todos os problemas humanos, como tamb�m a continuidade do desespero e da afli��o, devido � decad�ncia f�sica, moral e � morte.

No Budismo a compreens�o verdadeiramente profunda � conhecida pelo nome de �penetra��o� e consiste em ver as coisas na sua verdadeira natureza, sem nome nem r�tulos, sem conceitos. Essa penetra��o somente � poss�vel quando a mente est� livre de todas as impurezas, de todos os condicionamentos e a vis�o interior foi desenvolvida ao m�ximo por meio da medita��o. Sem medita��o n�o existe Correta Compreens�o.

O objetivo principal da medita��o consiste na contempla��o ou observa��o pura (vigil�ncia); compreender a vida e as coisas como elas realmente s�o, sem ver o bem, sem ver o mal; sem apego, se forem agrad�veis ou favor�veis; sem avers�o, se forem desagrad�veis ou desfavor�veis; enfim, sem condicionamentos, que s�o entraves � observa��o pura.

Atrav�s da pr�tica da medita��o, podemos desenvolver nossa mente, objetivando a purifica��o e a compreens�o da Verdade, e alcan�ar a perfei��o em vida. � a a��o vigilante da medita��o que permite ao homem libertar-se da influ�ncia da relatividade dos fatos e das coisas e penetrar na verdadeira natureza da exist�ncia, isto �, compreender que ela � impermanente, sem subst�ncia e, portanto, capaz de causar sofrimento �quele que, na sua ignor�ncia, se apega �s coisas, aos seres e � pr�pria vida. Uma vez libertado desta ilus�o b�sica e, portanto, da irrealidade do conceito do �eu�, que condiciona a no��o de perman�ncia e ego�smo, o homem se liberta da lei do carma e do ciclo sem fim dos renascimentos.

Gautama Buda esclarece:

Existem duas esp�cies de doen�as: a f�sica e a mental; no entanto, h� indiv�duos que t�m a felicidade de estarem isentos de doen�a f�sica durante um, dois, ou mais anos, ou mesmo durante o decorrer de toda a vida. Mas, bhikkhus, raros s�o aqueles que neste mundo est�o isentos, um s� instante, da doen�a mental, salvo aqueles que est�o livres de todas as impurezas da mente, isto �, os Arahants (�ser� perfeito).

A palavra medita��o substitui mal o termo original bhavana, que significa cultivo do desenvolvimento mental. Ela tem por fim libertar a mente do jorrar cont�nuo dos pensamentos, de toda esp�cie de impurezas e perturba��es, tais como: indol�ncia, preocupa��es, agita��es, d�vidas, m� vontade, ressentimento, �dio, desejo sensual etc., cultivar qualidades, tais como: a concentra��o, a aten��o, a vontade, a energia, a faculdade de analisar, a confian�a, a alegria, a calma, etc.; e, finalmente, levar o indiv�duo � mais alta sabedoria de ver as coisas tais como elas s�o, podendo alcan�ar a percep��o da Realidade �ltima, o Nirvana, que s� � atingido atrav�s da compreens�o supra-racional, ou vis�o interior, da qual qualquer descri��o transcende as limita��es do intelecto discursivo.

Medita��o da Plena Aten��o

No Budismo encontramos duas formas b�sicas de medita��o. A medita��o dirigida, em que n�s dirigimos a mente e a concentramos num determinado objetivo, � chamada medita��o de Tranq�ilidade (Samatha). Existem v�rios tipos desta medita��o onde a mente � sempre dirigida por sons, palavras, mantras, para um ponto, ou para um objeto, na observa��o da respira��o, ou numa linha de pensamentos como, por exemplo, na medita��o do Amor Universal.

Ela desenvolve a concentra��o e leva o meditante � calma, � tranq�ilidade, � serenidade que s� perdura pelo tempo limitado da dura��o da medita��o sentada, mas n�o penetra a Doutrina, isto �, n�o penetra a Verdade sobre o nosso ser. Esta forma de medita��o j� existia antes de Gautama Buda e n�o est� exclu�da do campo da medita��o budista. Todos estes tipos de medita��o, chamados medita��o de Tranq�ilidade, s�o v�lidos, mas o disc�pulo n�o deve ficar apenas na tranq�ilidade. Neste tipo de medita��o, o meditante ganha paz interior e calma tempor�ria, que � prazerosa e agrad�vel, superando o turbilh�o do mundo. Mas apegando-se a este est�gio, n�o indo al�m, � que est� o mal-entendido: tomar como objetivo ganhar tranq�ilidade, quando no o �.

Antes de sua ilumina��o, o pr�prio Buda havia praticado este tipo de medita��o sob a dire��o de v�rios mestres iogues, alcan�ando os mais altos estados da mente; por�m com isto n�o havia alcan�ado a liberta��o completa, nem a vis�o sobre a Realidade �ltima. Considerava esses estados uma forma de �permanecer feliz�. Insatisfeito, pelo seu pr�prio esfor�o e tenacidade descobriu outra forma de medita��o, a da Plena Aten��o (Satipatthana), tamb�m chamada medita��o moment�nea.

A medita��o de Plena Aten��o, pela introspec��o, desenvolve o autoconhecimento e a vis�o interior ou intuitiva � Vipassana (Vipasyana, em s�nscrito) �, ou seja, penetra��o e vis�o da natureza das coisas n�o s� na medita��o formal sentada, como em todas as horas e atividades. � um m�todo anal�tico, baseado na aten��o, na tomada de consci�ncia, na vigil�ncia e na penetra��o, que conduz � completa liberta��o da mente, � Sabedoria, � realiza��o direta da Verdade, ou Nirvana.

A Vis�o Interior resume-se na frase: �Sede atentos!�, o que quer dizer, em Aten��o, sati, isto �, observar as coisas atentamente, profundamente, detalhadamente, e estar plenamente consciente de tudo o que se passa no Aqui e Agora, tanto na medita��o sentada, como em p�, caminhando, trabalhando, etc. Essa medita��o de Plena Aten��o � a Correta Concentra��o Budista � Samadhi �, que pode ser aplicada na vida cotidiana, condi��o indispens�vel para prosseguir no Caminho.

O objetivo fundamental da medita��o budista � a introspec��o, desenvolver o autoconhecimento, que s� pode ser cultivado quando existe a tranq�ilidade, a concentra��o e a equanimidade, portanto, estes dois tipos b�sicos de medita��o se completam. Sem concentra��o, n�o existe Sabedoria.

Desenvolvimento da Vis�o Interior (Vipassana)

O essencial em qualquer m�todo de medita��o, � a capacidade de concentra��o baseada na aten��o que requer a focaliza��o da vontade que est� atr�s de toda a��o, tanto f�sica como mental. � �bvio que o pensamento concentrado � o que n�s temos de mais importante. � por meio dele que organizamos nossa vida, dirigimos nossa vontade, empreendemos boas ou m�s a��es, acertamos ou erramos no que estamos fazendo.

Assim como o interesse desenvolve a aten��o, tamb�m � verdade que a aten��o desenvolve o interesse. Quem se d� ao trabalho de prestar um pouco de aten��o volunt�ria a qualquer objeto, em breve achar� nele alguns pontos de interesse. Descobrir�o rapidamente coisas que antes n�o eram vistas, nem suspeitadas.

Hamilton diz: �Um ato de aten��o, isto �, um ato de concentra��o parece ser t�o necess�rio para termos consci�ncia de qualquer coisa, como uma certa contra��o da pupila � condi��o indispens�vel � vis�o. A aten��o �, pois, para a consci�ncia, o que a contra��o da pupila � para a vis�o; ou, a aten��o � para o olho da mente, o que o microsc�pio ou telesc�pio s�o para o olhos do corpo.�

Butler acrescenta: �Geralmente se diz que a condi��o de g�nio n�o pode ser infundida por meio da educa��o, mas este poder de aten��o concentrada, que � pr�prio a todo grande inventor como uma parte do seu dom, pode ser, com toda a certeza, aumentado quase indefinidamente por meio de resoluta pr�tica.�

Beattie lembra: �A for�a com que alguma coisa impressiona a mente est� geralmente em propor��o ao grau de aten��o que se lhe presta. Al�m disso, a grande arte da mem�ria � a aten��o, e as pessoas que n�o prestam aten��o t�m sempre m� mem�ria.�

Plena Aten��o � a atitude de estarmos constantemente despertos, bem atentos sobre o momento que estamos vivendo, ou melhor, em cada momento de consci�ncia, o que significa mantermo-nos vigilantes a tudo que pensamos ou fazemos, atos ou palavras: na rotina cotidiana de nosso trabalho, na nossa vida privada, p�blica ou profissional. Pense, por um momento, nas conseq��ncias advindas, se cada um de nossos atos fosse executado com uma aten��o consciente de cada movimento, sentimento e pensamento.

A medita��o formal sentada, que veremos adiante, � apenas um exerc�cio, mas o objetivo � estarmos plenamente atentos ao que ocorre a cada segundo, em todos os momentos mentais que surgem e desaparecem em nossa mente. Caminhando, de p�, sentado ou deitado, olhando em volta, quando vestindo, falando, ou em sil�ncio, comendo, bebendo, ou exercendo as fun��es naturais, a qualquer coisa que fizermos devemos ter plena consci�ncia da a��o, a cada momento; em outras palavras, devemos viver no momento presente �o aqui�, e na a��o presente �o agora�. Isto n�o significa que devamos renunciar a pensar no passado ou no futuro; pelo contr�rio, pensaremos neles relacionando-os com o momento presente e com a a��o presente.

Observamos freq�entemente pessoas comendo e lendo ao mesmo tempo. Parecem ser t�o ocupadas, que nem sequer t�m tempo para comer. Temos a impress�o de que fazem as duas coisas ao mesmo tempo, mas na realidade n�o fazem nem uma, nem outra coisa corretamente. Suas mentes est�o tensas, agitadas, perturbadas e n�o desfrutam do que est�o fazendo. Esta � a raz�o de muitos se sentirem infelizes e descontentes com o momento presente e com seu trabalho. Conseq�entemente, s�o incapazes de se entregarem por inteiro ao que aparentemente est�o fazendo.

Os homens, habitualmente, n�o vivem seus atos no presente, mas os vivem no passado, ou no futuro, Parecendo fazer qualquer coisa aqui, nesse mesmo momento est�o distantes nos seus pensamentos, nos seus problemas e preocupa��es imagin�rias, perdidos freq�entemente nas lembran�as do passado ou arrastados nos seus desejos e especula��es sobre o futuro. Somos, portanto, criaturas do passado, produto do ac�mulo de emo��es, experi�ncias, registros do que foi.

Ao desafio presente, por que reagimos com o condicionamento de nossas experi�ncias anteriores e conclus�es do passado? � que n�o vemos o que � real, verdadeiro e novo. Que � o real e verdadeiro? Ser�o os condicionamentos, o passado, o que n�o existe mais, ou o que pensamos ser? O que pensamos e� o que pensamos, nada al�m disso, O futuro n�o chegou e quando chegar, tornar-se-� presente. Assim, onde estar� o que � certo, real e verdadeiro? Decerto que estar� aqui e agora na nossa frente, mas n�s n�o temos a apreens�o desta realidade, a consci�ncia dela.

O primeiro passo para a paralisa��o do pensamento conceitual � cortar a cadeia de conceitos e palavras associadas que inundam nossa mente. Devemos sustar nova invas�o mantendo a concentra��o no presente, naquilo que �. A vida verdadeira � o momento presente, e n�o as lembran�as de um passado que passou nem os sonhos de um futuro que ainda n�o chegou. Aquele que vive no momento presente, vive a vida real e � o mais feliz dos seres.

Num famoso verso, Gautama Buda disse:

N�o corras atr�s do passado,
N�o busques o futuro,
O passado j� passou.
O futuro ainda n�o chegou.
V�, claramente, diante de ti o Agora.
Quando o tiveres encontrado,
Viver�s o tranq�ilo e imperturb�vel estado mental.

Certa vez perguntaram ao Buda por que seus disc�pulos, que levavam uma exist�ncia simples e calma, tomando uma s� refei��o por dia, eram t�o radiantes. O Mestre ent�o, respondeu: � Eles n�o se arrependem do passado, n�o se preocupam com o futuro, vivem no presente, por isso est�o felizes. Preocupando-se com o futuro e arrependendo-se do passado, os tolos ficam ressecados, como os juncos verdes cortados, ao sol.

Esta consci�ncia vigilante de nossas atividades consiste em viver o momento presente no pr�prio ato. De um modo geral vivemos na ignor�ncia da realidade que nos faz viver dominados pelos apegos, ressentimentos, m� vontade, preconceitos, �dio, orgulho, lamenta��o, desespero e outros condicionamentos.

Somente vivendo com plenitude o momento que passa, consciente de todas as viv�ncias, ser� poss�vel seguir o conselho de todos os Budas: �Evitar o mal, fazer apenas o bem e purificar a mente�, pois a observ�ncia sobre o nosso processo mental nos dar�, cada vez mais, auto-conhecimento e, por seu interm�dio, nos libertamos de todos os pensamentos negativos, passando a perceber a imperman�ncia de todas as coisas; nos libertando de todos os desejos e apegos e, pela gradativa purifica��o mental, iremos nos purificar fisicamente, pois a mente s� reflete beneficamente sobre o f�sico, dando-nos mais sa�de, alegria e felicidade. Hoje � de conhecimento geral que grande n�mero de doen�as respirat�rias, circulat�rias, digestivas, cut�neas etc. tem, habitualmente, origem ps�quica ou mental, estudadas pela medicina psicossom�tica.

Medita��o nos Quatro Fundamentos da Plena Aten��o

Para a conscientiza��o dos fen�menos psicof�sicos que invadem nossa mente e para interromper a continuidade do sofrimento (Dukkha), Gautama Buda ensinou um m�todo pr�tico, descrito no seu discurso sobre o Estabelecimento da Plena Aten��o, Satipatthana Sutta, cujo objetivo consiste em sugerir um meio, um caminho que permita a compreens�o da verdadeira natureza das coisas, fazendo observar que vivemos num mundo ilus�rio ou irreal, isto �, num mundo que n�o existe como n�s o percebemos.

Este m�todo denomina-se �Medita��o de Plena Aten��o�, �Vigil�ncia�, ou �Observa��o Pura� e equivale a vivermos plenamente o momento que passa, o instante presente, o �aqui� e o �agora�, conscientemente. Esse discurso � considerado o mais importante que o Mestre pronunciou sobre o desenvolvimento mental � medita��o. As diferentes escolas de medita��o budista, na sua ess�ncia, est�o todas baseadas nesse discurso, como por exemplo o Zazen-Gui, manual chin�s de medita��o no Budismo Zen.

A pr�tica desta medita��o n�o depende de est�mulos exteriores. Nada h� de esot�rico ou misterioso; n�o s�o necess�rios c�nticos, s�mbolos visuais, ou queima de incenso; os objetos e temas da medita��o est�o ligados a fen�menos naturais, que se baseiam nos Quatro Fundamentos da Plena Aten��o, como se segue:

1. Na aten��o no corpo -kaya-: na respira��o, na postura, nos movimentos.

2. Na aten��o �s sensa��es -vedana-: agrad�veis, desagrad�veis e indiferentes.

3. Na aten��o da mente -citia- (estados de consci�ncia): desejo, sono, raiva, sensualidade, tristeza etc.

4. Na aten��o aos objetos da Doutrina �Dharma (ou Dhamma) - (Verdade sobre nosso ser).

Aqui s� descreveremos como, na pr�tica, se executa esta t�cnica.

Aten��o Sobre o Corpo

Exerc�cio de Concentra��o na Respira��o

O Buda recomenda, para desenvolver a concentra��o, a conscientiza��o do ar inspirado e do ar expirado como um dos m�todos mais populares e pr�ticos: �Esta concentra��o obtida pela aten��o no movimento respirat�rio, quando desenvolvida e praticada com persist�ncia, � pacificadora e sublime e leva a um estado de felicidade sem m�cula e duradoura, no qual ser� banido imediatamente e neutralizado qualquer pensamento indesej�vel e mal�fico no momento preciso em que surja.�

Devemos praticar este exerc�cio de concentra��o s� quando feito deliberadamente pela vontade, e quando o tempo lhe for pr�prio. Para praticar este exerc�cio, � absolutamente necess�rio que fiquemos sentados naturalmente, numa posi��o confort�vel, por�m eretos e sem encostarmos em nada, a cabe�a no prolongamento da coluna, as m�os superpostas descansando descontra�das sobre as coxas. A posi��o sentado no ch�o de pernas cruzadas com as plantas dos p�s voltadas para cima nas coxas opostas, � maneira dos iogues, n�o � essencial, por�m prefer�vel, pois prepara o meditante para permanecer sentado por horas prolongadas, sem esfor�o.

Uma das condi��es essenciais � a ren�ncia, durante o tempo em que ficarmos sentados. Renunciaremos a todos os desejos por mais intensos que eles se apresentem, ou seja, renunciaremos ao desejo de buscar, de possuir capacidades extraordin�rias atrav�s da medita��o, de escolher ou selecionar intelectualmente, assim como de dar uma dire��o proposital � concentra��o da mente. Isto trar� liberta��o mental.

Renunciar tamb�m significa a aus�ncia completa de esfor�os, no sentido de conseguir essa liberta��o, de compreender o significado das coisas e a raz�o da vida. Portanto, quando meditamos, devemos faz�-lo com a mais despreocupada das inten��es, com a naturalidade de um descanso � sombra de uma �rvore depois de uma longa caminhada, como escutar o canto dos p�ssaros, ou apreciar uma paisagem com prazer. Sem inten��es, sem medos, nem pressa, ficaremos apenas como observadores da nossa mente e do nosso corpo, sem avers�o ou apego �s sensa��es ou pensamentos agrad�veis, desagrad�veis e indiferentes que nela apare�am.

Desta forma, em nenhum instante dirigiremos a nossa mente, nos manteremos como se estiv�ssemos sentados � margem da correnteza mental; mantendo os olhos semicerrados ou fechados, permaneceremos apenas como expectadores de para onde o pensamento se dirige. O pretexto, freq�entemente utilizado, de n�o termos um momento sequer para a pr�tica da medita��o consciente n�o passa de um subterf�gio da mente para dissimular o nosso apego ao tempo em ocupa��es, aparentemente mais importantes, quando n�o for o caso de torpor mental.

Respiramos normalmente e naturalmente. Nossa mente deve se concentrar unicamente na inspira��o e na expira��o, isto �, como o ar entra e sai pelas narinas (como sensa��o f�sica produzida pelo toque do ar nas narinas, e n�o no conceito de respira��o). Nossa respira��o pode ser, ora profunda, ora curta; isto n�o tem nenhuma import�ncia. Continuamos respirando normalmente. O importante � que, quando as respira��es forem profundas, tenhamos consci�ncia de que respiramos profundamente e, quando forem curtas, tenhamos consci�ncia do ato. Nossa mente deve estar totalmente concentrada na respira��o, de forma a tomar plena consci�ncia desses movimentos e das mudan�as do ritmo.

Ao iniciar esta concentra��o na respira��o, temos logo a surpresa de constatar que nossa mente � invadida por id�ias, pensamentos, lembran�as, ru�dos, coceiras, etc., aparentemente incontrol�veis. Desta forma, podemos observar como nossa mente � intranq�ila, presa de est�mulos e rea��es emocionais permanentemente condicionadas, desencadeadas pelo contato moment�neo da nossa mente com o mundo exterior, atrav�s dos sentidos.

� uma busca cega, incessante, insaci�vel por satisfa��o. Isto n�o � realidade, mas um sonho desperto, uma seq��ncia de conceitos e fantasias do nosso mundo repleto de in�meras formas identific�veis, reconhec�veis pelos nomes relacionados �s imagens conceituais � nossa volta. O conhecimento da Realidade nos escapa e n�s, inexplicavelmente, n�o fazemos o menor esfor�o para disciplinar nossos pr�prios pensamentos. Por pregui�a, por indiferen�a, ou por centenas de pretextos, costumamos assistir ao desenrolar dos acontecimentos mais desagrad�veis atribuindo aos outros os nossos trope�os e a incapacidade de compreender as raz�es do erro. Por comodidade, deixamos a mente desatenta e sem rumo.

Vivemos de sonhos, fantasias, especula��es in�teis. Diariamente somos abalados por medos, apegos e avers�es, ang�stias, insatisfa��es e procuras. Mesmo quando come�amos a perceber a maneira como nossos pensamentos nos iludem e atormentam, sem concentra��o, o jorro dos pensamentos recome�a novamente agitando e entristecendo-nos a todo instante, o que nos lembra sermos iguais a fantoches movidos por cord�es num teatro de marionetes.

Assim, ao iniciar o treino de concentra��o na respira��o, para o praticante n�o desviar sua aten��o da concentra��o e n�o se envolver ou participar de pensamentos, ru�dos, etc. que ocorrem durante a medita��o, alheios a sua concentra��o, poder� utilizar o que se chama de �r�tulo mental�, ou �nota mental�, que, como o pr�prio nome indica, serve para designar aquilo que ocorre no momento, na mente. Ent�o, fixando a mente no movimento do ar passando pelas narinas, provocado pela respira��o, rotulamos: �entrando�, �saindo�.

Outras coisas que ocorrem no corpo tamb�m s�o objeto de observa��o e de autoconhecimento. Percebendo o corpo inclinado e querendo corrigir a posi��o, observaremos sempre, em primeiro lugar, a inten��o � a inten��o de mover, e depois o corpo movendo � depois rotular �inten��o�, �inten��o�; a seguir, �movendo�, �movendo� e colocamos o corpo na posi��o correta. Desta maneira, n�o movemos o corpo de uma maneira cega e autom�tica. O objetivo � evitar qualquer tipo de automatismo e desenvolver a Plena Aten��o gradativamente e a correta compreens�o.

A qualquer movimento que se fa�a, observe-se sempre a inten��o, depois o movimento do corpo, e outras coisas que ocorrem no corpo. Percebendo que vamos engolir saliva, rotular �sentindo, sentindo� e, em seguida, ao se preparar para engolir, rotular �preparando�; ao engolir, rotular �engolindo�; quando, ent�o, novamente voltarmos a aten��o � respira��o, isso ser� feito com qualquer objeto que surgir na mente.

Se insistirmos praticando este exerc�cio no m�nimo duas vezes por dia, de prefer�ncia de manh� e � noite, durante 10 a 20 minutos de cada vez, aos poucos nossa mente se concentrar� unicamente na respira��o e assim se realizar� este tipo de concentra��o. Ao fim de algum tempo, poderemos experimentar esta fra��o de segundo em que nossa mente estar� totalmente concentrada na respira��o, momento em que os ru�dos n�o perturbam mais, a mente n�o fica invadida por pensamentos e o mundo exterior n�o existe mais para n�s.

Este r�pido momento ser� uma experi�ncia t�o grande, t�o cheia de alegria, de felicidade e calma, que teremos o desejo de prolong�-lo. Mas isto n�o estar� ainda ao nosso alcance. Por�m, continuando na pr�tica desse exerc�cio regularmente, a experi�ncia se reproduzir� repetidas vezes e, progressivamente, por per�odos mais longos.

Chega o momento em que a respira��o torna-se mais fraca, a ponto de tornar-se impercept�vel, instante em que desaparece a pr�pria aten��o na respira��o. Esta nova experi�ncia prolongada pela pr�tica desenvolve o poder de concentra��o, que pode levar, com o tempo, � realiza��o da supraconsci�ncia � dhyana.

A pr�tica de concentra��o na respira��o nos trar� benef�cios imediatos e nos tornar� mais calmos, tranq�ilos, o sono mais profundo, o trabalho cotidiano mais eficaz e nossa sa�de f�sica se beneficiar�. Mesmo nos momentos em que nos sentirmos nervosos ou impacientes, se praticarmos este exerc�cio apenas 2 minutos, comprovaremos que ele nos acalmar�, nos apaziguar� imediatamente e teremos a impress�o de despertar de um sono reparador.

Chegando ao t�rmino da medita��o, devemos observar a inten��o de levantar. Ao levantar, devemos manter a vigil�ncia em cada um dos movimentos desta seq��ncia, nos m�nimos detalhes como prepara��o dos membros, o mover das m�os e dos p�s, soerguimento do peso do corpo, esticar-se, e assim por diante. Os movimentos devem ser lentos; estes movimentos, executados no ritmo normal, perturbariam a continuidade da aten��o; devemos nos comportar e movermos de modo a n�o interromper a seq��ncia da concentra��o. Logo a seguir, poderemos continuar o exerc�cio da medita��o no caminhar.

Pr�tica de Concentra��o no Caminhar

O praticante deve procurar um lugar tranq�ilo, onde possa caminhar livremente sem ser perturbado: um simples quarto, corredor, ou jardim, O essencial � caminhar simples, natural e lentamente. Ao caminhar, a aten��o deve estar concentrada no movimento das pernas e dos p�s.

Ao atingir o fim do caminho, h� necessidade de voltar-se e caminhar em dire��o contr�ria. Temos consci�ncia disso quando faltam poucos passos para alcan�ar o limite do caminho; neste caso, devemos  apenas observar a inten��o, de modo a evitar a meia-volta autom�tica. Devemos observar mentalmente todos os pormenores, identificando todas as fases do giro, at� a retomada do caminhar lento de volta. V�rias vezes temos a tenta��o de olhar para alguma coisa, impulso este que deve ser simplesmente observado como qualquer coisa que distrai a aten��o no caminho; observar o fato sem se deter em detalhes, voltando imediatamente a aten��o para os movimentos  do caminhar. N�o h� necessidade de for�ar a mente a voltar aos passos. Logo que a concentra��o � restabelecida, a mente por si pr�pria dirige-se a isso.

O controle dos sentidos � descrito no Budismo na observa��o: �naquilo que se v�, ver somente o visto; naquilo que se ouve, somente o ouvido; no que se pensa, somente o pensado; mesmo no caminhar, somente o caminhar�. Assim, na pr�tica da concentra��o, vendo um objeto, n�o devemos ser cativados pela sua forma, ou detalhes; o mesmo deve ser feito em rela��o aos outros sentidos.

Quando a mente est� agitada, a marcha automaticamente torna-se mais r�pida; se, pelo contr�rio, sonolenta, mais vagarosa; e quando a mente volta � tranq�ilidade, a marcha segue um ritmo normal lento. Em nenhuma ocasi�o deve-se ter a preocupa��o de regular a marcha, mas simplesmente observ�-la.

Em certas ocasi�es, quando por motivos pr�ticos n�o for aconselh�vel andar vagarosamente, recomenda-se a marcha normal. Isso pode ser praticado na rua, sem despertar aten��o. O importante � que estejamos com a mente concentrada no caminhar, obrigando-a a abandonar sua habitual e incessante atividade dispersa.

Aten��o �s Sensa��es

A sensa��o nunca � separada do corpo; a qualquer sensa��o que ocorre no corpo, a mente � atra�da para aquele objeto. Ouvindo um som de qualquer natureza, rotular �ouvindo, ouvindo�, e assim por diante, at� a sensa��o desaparecer, retomando, o praticante, sua aten��o para com o movimento do ar durante a respira��o. Se surgir uma sensa��o dolorosa, coisa comum �s pessoas n�o habituadas � imobilidade da medita��o, observaremos a dor, anotando �sentindo, sentindo�, mas evitaremos mudar a posi��o, observando, j� neste caso, a inten��o de nos acomodarmos melhor, bem como a avers�o que a dor nos traz.

Se sentirmos uma coceira, ela ser� observada apenas como sensa��o, recebendo o r�tulo mental �sentindo, sentindo�, sem que, no entanto, deixemos de observar o desejo de co�ar. Est� claro que, se uma dessas sensa��es atinge n�veis insuport�veis, nada nos impede de movermos algum membro, contanto que estejamos conscientes disto, observando primeiro a inten��o. Ent�o, surge uma inten��o de mover o bra�o; depois, movimentamo-nos vagarosamente, observando cada movimento detalhadamente, com a nota mental correspondente, �movendo, movendo�; quando a m�o tocar o ponto que incomoda, observar o contato �tocando, tocando�, observando sempre o surgimento, o aumento de intensidade, o declinar e o desaparecimento da sensa��o. Observando, logo a seguir, o voltar do bra�o para a posi��o primitiva.

Logo que a sensa��o foi satisfeita, fixar a aten��o para o objeto principal da contempla��o, o toque de ar �entrando e saindo� pelas narinas. Quando perceber que vai tossir, dar o r�tulo mental �sentindo�, ou �inten��o�. Ao tossir, dar o r�tulo mental �tossindo�; quando sentir uma sensa��o de frio ou calor, uma rajada de vento, �sentindo, sentindo�. Quando perceber ru�dos abdominais, dar o r�tulo mental correspondente �ouvindo�, ou �sentindo�, conforme tenha chegado esta sensa��o � mente pela porta da audi��o, ou do corpo, na id�ia t�til. Ao sentir a respira��o nas narinas, dar o r�tulo mental �entrando�, �saindo�, �entrando� �saindo�.

Fatos Que Podem Ocorrer Durante a Medita��o

Em certas ocasi�es, t�o logo se verifiquem alguns progressos na pr�tica da medita��o, pode acontecer que o praticante se surpreenda balan�ando o corpo para a direita e para a esquerda, o que n�o deve ser motivo de preocupa��o. Entretanto, ele n�o deve procurar sentir nenhuma satisfa��o nisso, apenas observar o fato.

Se aparecem tremores, sensa��es dolorosas, impress�o de engasgo, ou de asfixia, sensa��o de calor ou de frio, algum estremecimento ou arrepio que passa pelas costas, ou mesmo pelo corpo inteiro, apenas observar os fatos. Essas diferentes sensa��es n�o devem preocupar, s�o fatos comuns e sempre presentes em n�s. Como a mente, em condi��es habituais, est� atenta a est�mulos de maior interesse, essas sensa��es passam desapercebidas. Com o desenvolver da contempla��o, as faculdades mentais tornam-se mais claras e temos melhor consci�ncia destas sensa��es. Prosseguindo firmemente na contempla��o, estas sensa��es observadas aos poucos cessam. Se o praticante vacila, parando a medita��o devido a estas impress�es, nunca se libertar� delas.

Durante a medita��o, pode acontecer que sobrevenha a sensa��o de estarmos, por alguns instantes, fora do corpo e voltarmos, depois de conclu�do o exerc�cio. N�o se aconselha cultivar esta sensa��o, por�m, quando ocorrer, observar o fato e n�o se assustar.

Em alguns casos, pode acontecer a percep��o de fen�menos ps�quicos, tais como vis�es, sons ou vozes, odores etc. Esses fen�menos surgem devido ao ac�mulo de impress�es, desde a inf�ncia ou vidas passadas, guardadas no arquivo da mem�ria, no subconsciente, podendo vir � tona (ao consciente). No Budismo todos os fen�menos e estados mentais, at� os mais sutis e elevados, s�o analisados e observados da mesma forma que os fen�menos do plano f�sico; eles surgem e passam, s�o cria��es da mente do pr�prio indiv�duo. O importante � a observa��o com equanimidade, analisando e observando esses sem medo e sem apego; somente deste modo poder� surgir a compreens�o desses fen�menos e o autoconhecimento.

Aten��o nos Estados de Consci�ncia

Sabe-se que somente um pensamento aparece de cada vez num determinado momento, apesar de a mente, desatenta, n�o conseguir separ�-los com precis�o. Assim, quando a mente entra em contato com um objeto de pensamento ou um objeto dos sentidos, podemos estar vigilantes desse contato. Se a mente s� capta uma coisa de cada vez, e estando a percep��o bem desenvolvida, os pensamentos de apego e m� vontade n�o poder�o aparecer simultaneamente, naquele determinado momento.

Gautama Buda comparou a mente � impress�o que d� um macaco inquieto, pulando de galho em galho, em busca do fruto que o satisfa�a, atrav�s da infind�vel selva de eventos condicionados. A futilidade e a irrealidade inerentes a tal modo de exist�ncia s�o evidentes logo que o indiv�duo principia a ver claramente.

Assim, ficaremos como espectadores da nossa mente, sem facilitar a chegada ou dificultar o aparecimento de pensamentos e sensa��es agrad�veis desagrad�veis e indiferentes. Como a mente est� em constante contato com um �objeto de pensamento�, ou um �objeto dos sentidos�, em todos os instantes constantemente nela aparecem sentimentos como apego, m� vontade, ressentimento, raiva, etc. � evidente que, se uma pessoa encontra-se com a mente condicionada, � consequentemente arrebatada por sentimentos como esses; al�m de permitir a continuidade do sofrimento que a� se origina, � incapaz de distinguir o bem do mal, o certo do errado, o verdadeiro do falso.

Sendo assim, o problema � como neutralizar o aparecimento de sentimentos, tais como: lembran�as, ressentimentos, m� vontade, apego, etc., quando a mente entra em contato com um desses objetos. Temos a tend�ncia de buscar satisfa��o em tudo. Por esse motivo, estamos sempre predispostos a acolher pensamentos que nos d�o satisfa��o, e rejeitar os que nos desagradam. Tudo contemplaremos sem apego e sem avers�o.

Desta forma, podemos observar que as id�ias e pensamentos, como nascem, morrem. A imperman�ncia � a lei a que tudo est� sujeito neste mundo. No fluir da mente, na correnteza da vida, nada fica, como folhas mortas que passam nas �guas de um rio.

Os pensamentos surgem dos cinco sentidos e da pr�pria mente. Assim, temos:

- a vis�o, que depende diretamente dos olhos e da forma dos objetos, os condicionadores da consci�ncia visual;

- a audi��o, que depende diretamente do aparelho da audi��o e das vibra��es sonoras, os condicionadores da consci�ncia auditiva;

- o olfato, que depende diretamente do aparelho olfativo e dos odores, os condicionadores da consci�ncia olfativa;

- o paladar, que depende diretamente do aparelho gustativo e dos sabores, os condicionadores da consci�ncia gustativa;

- o corpo e o tato, que dependem diretamente do revestimento cut�neo e mucoso e dos objetos tang�veis, os condicionadores da consci�ncia da corporalidade e da t�til;

- e, finalmente, o sentido da mente, dependendo da pr�pria mente e dos objetos mentais, id�ias e pensamentos, os condicionadores da mente pensante, que identifica os pensamentos por imagens e por palavras.

Observando os pensamentos nas portas dos sentidos, no caso da medita��o formal sentada, a �nica que ir� funcionar � a porta da audi��o. Os olhos est�o fechados, ou semi-abertos, o olfato sentindo algum odor, o paladar n�o vai funcionar porque n�o estaremos comendo. Ent�o, a porta da audi��o estar� aberta; a qualquer som rotular �ouvindo, ouvindo� e t�o logo ele passe, voltar � observa��o do ar �entrando e saindo�. Se for um tipo de som que perdure por mais tempo, rotular duas ou tr�s vezes mais, procurando n�o dar aten��o e voltar � contempla��o do corpo no ar �entrando e saindo�.

Os pensamentos surgem de duas maneiras principais: por imagens ou por palavras. Ao ver mentalmente alguma coisa, um lugar, uma pessoa, uma situa��o, um objeto, rotular esta viv�ncia dizendo mentalmente �vendo, vendo�. Com este simples rotular, o pensamento � cortado, este fluxo � podado; t�o logo esse pensamento passe, voltar � observa��o do corpo no ar �entrando e saindo�.

Outras vezes, o pensamento surge por palavras, ent�o nos falamos mentalmente; neste caso, observar o pensamento e rotular �pensando� ou �falando, falando� (o nome que se d� � secund�rio, o importante � ter consci�ncia daquilo que est� ocorrendo no momento). Ao vermos mentalmente uma pessoa falando, a nota mental poder� ser �vendo�, ou �ouvindo�, conforme a impress�o mental predominante.

Quando a mente pensante surge por interm�dio de palavras, daremos a nota mental �pensando�. Muitas vezes, surge um pensamento por palavras em forma de di�logo, merecendo, ent�o, a nota mental �falando�. Ao ouvir mentalmente, um som, uma m�sica, rotular esta viv�ncia como �ouvindo, ouvindo�, ou �pensando, pensando�.

Quando a mente se desviar da observa��o do toque do ar nas narinas, acompanha-la para onde ela for. Suponhamos que apare�a um pensamento de qualquer natureza, uma lembran�a, uma d�vida, uma fantasia. Este pensamento deve ser observado somente como um pensamento, sem apego, se for agrad�vel, e sem avers�o, se for desagrad�vel. Que fique bem clara a nossa posi��o de observador, e n�o de juiz da nossa mente.

Assim, qualquer que seja o pensamento, dever� ser ele observado com equanimidade, como se o observ�ssemos de fora, sem rea��o subjetiva, como um s�bio observa um objeto. N�o devemos observ�-lo subjetivamente como �meu pensamento�, mas objetivamente como �um pensamento�. � necess�rio n�o esquecer a id�ia ilus�ria do eu, e n�o observar o pensamento como: �eu estou pensando�. Muitas vezes, um pensamento traz consigo emo��es ou sensa��es agrad�veis, desagrad�veis e indiferentes � alegria, medo, ang�stia, d�vida, ou perplexidade. Assim sendo, observaremos tamb�m o sentimento que surgir. Podemos, ent�o, observar como o pensamento surge com clareza, se n�o for perturbado pela avers�o, e como desaparece com facilidade, se n�o for retido pelo apego.

Desta forma, a medita��o budista consiste no desenvolvimento do poder de concentra��o da mente para o que � chamado �acuidade�, pela exclus�o de todos os objetos externos, ou conceitos relacionados.

Neste objetivo, a aten��o � despojada de todas as eventuais associa��es mentais; o bra�o que � erguido deixa de ser �meu bra�o�, o corpo que est� de p�, sentado ou deitado, n�o � mais �meu corpo�. � justamente o objetivo de uma contempla��o impessoal. Por esses meios a mente � vigiada, posta sob controle completo, separada de todas as falsas interpreta��es e paix�es que ela engendra.

A mente, de fato, torna-se despersonalizada, contempla as sensa��es f�sicas e mentais, conforme prov�m do exterior, soltas e sem envolvimento. Somente quando esse processo de despersonaliza��o mental est� completo � que a mente se torna capaz de perceber a realidade que se acha al�m das formas sempre mutantes. Ela ent�o torna-se um instrumento afiado, temperado para o gume do fio da navalha com a qual corta firme os la�os da Ignor�ncia.

Para colocar o caso de um outro modo, a mente, que at� este ponto esteve construindo, momento-a-momento, o cont�nuo de sua ilus�ria concep��o de personalidade, subitamente quebra a seq��ncia daquela atividade; n�o est� mais atada a ela e imediatamente penetra numa nova esfera de conhecimento. Quando isso acontece, a cadeia de causa-e-efeito, a qual est� ligada pelas rea��es emocionais e intelectuais, � quebrada; ent�o, n�o h� mais carma enraizado no desejo, e, por isso, nenhuma proje��o na dire��o do futuro da Samsara.
A incessante roda de nascimentos e mortes chega a um fim na frase budista: �o fogo das paix�es est� extinto�, e assim o Nirvana � alcan�ado.

Os estados de consci�ncia surgem devido a n�o se ver com clareza a Realidade. Quando procuramos ver o que nos levou a um determinado estado de consci�ncia e quando perceberemos a realidade, a luz vir� e este estado de consci�ncia cessar�.

Assim, toda vez que a mente for a um estado de consci�ncia, poderemos observar que sempre houve desejo, ignor�ncia e ilus�o por uma determinada coisa, e a mente foi a um estado de consci�ncia. O desejo nos leva a pensamentos do passado; � o desejo quem busca, no fundo do subconsciente, todo o arquivo da mem�ria, imagens, sons, lembran�as e, ent�o, nossa mente vai � saudade, � tristeza, ao medo. Muitas impress�es e traumas que arquivamos quando crian�a surgem novamente determinando associa��es de id�ias e pensamentos, e a mente vai aos mais diferentes estados de consci�ncia sem sabermos o porqu�.

Se algu�m, numa noite escura, passando por baixo de uma �rvore, julga ver perto do seu rosto uma serpente pendurada num galho, se assusta e d� um salto para tr�s; logo depois, uma luz se acende e a pessoa v� que era uma corda que estava pendurada, e n�o uma serpente. Esse algu�m se assustou e teve medo porque n�o estava vendo realmente a verdade, estava tomado de ilus�o e ignor�ncia devido � escurid�o. Da mesma forma, o medo aparece na nossa mente porque n�o vemos com clareza a realidade, devido � escurid�o da ignor�ncia. O medo, como todos os estados de consci�ncia, surge por condi��es e passa por condi��es.

Na medita��o o que vier � mente sistematicamente, temos que observar e rotular imediatamente. A compreens�o de determinadas situa��es ou estados de consci�ncia surgir� da vis�o intuitiva, quando a mente n�o estiver dirigida, porque toda vez que tentarmos dirigir a mente para determinado assunto, iremos dirigi-la baseados nos nossos condicionamentos e a mente ficar� deformada. Ent�o rotulando, rotulando, de um momento para outro, aflora a verdadeira solu��o; a�, rotulamos e compreendemos superando uma s�rie de problemas.

O sono � um dos obst�culos � medita��o. A mente evita ser observada, porque est� habituada a ficar solta, pulando de galho em galho, como um macaco na selva. � pr�prio da natureza da mente buscar sempre prazeres nas portas dos sentidos, na vis�o, na audi��o, no olfato, no paladar, no tato e na pr�pria mente. Quando tentamos tirar a mente do seu habitat natural, ela usa de todos os subterf�gios para nos tirar da medita��o. Como um peixe fora da �gua, treme, anela e faz todo esfor�o para voltar � �gua.

A aten��o sobre a mente � a contempla��o do estado mental do momento presente. Durante a medita��o a mente poder� estar com desejo, apego, saudade, tristeza, sensualidade, deprimida, cansada, distra�da, em d�vida, dispersa, sonolenta, inquieta, irritada, col�rica. Todos estes estados de consci�ncia que surgem devem ser observados apropriadamente, sem apego ou avers�o, com os r�tulos mentais espec�ficos correspondentes: �deprimida�, �distra�da�, �saudosa�, �col�rica�, etc.

Pela simples observa��o de como surge e passa aquele pensamento, ganhamos tranq�ilidade e compreens�o, isto �, sabedoria. Este tipo de medita��o � chamado Vipassana (introspec��o).

O sentido desta medita��o � observarmos aquilo que �, sem nenhum condicionamento; o que vem � tona no momento; observar e rotular � a �nica maneira de ganhar autoconhecimento. A �nica maneira de conhecer a mente, de conhecer os pensamentos e ver esta inteira��o mente-corpo, corpo-mente � atrav�s da observa��o, entrando neste nosso laborat�rio, que temos � m�o e n�o sabemos como usar.

Nesta medita��o viveremos no aqui e no agora, no momento presente; e apenas no momento presente � que est� o Real porque o passado j� passou e o futuro ainda n�o chegou; quando temos contato com o agora � que vemos o Real e que podemos compreend�-lo. Ent�o, aquilo que ocorre no momento na mente, n�s observamos rotulando.

Na vida cotidiana, por exemplo, suponhamos que, por falta de plena aten��o, estejamos col�ricos, dominados pela m� vontade e pelo �dio. Resulta curioso e paradoxal que a pessoa col�rica n�o tenha realmente consci�ncia de que est� col�rica. Por�m, no instante em que se torna consciente da presen�a desse estado na sua mente, come�a a controlar-se e a apaziguar-se. Devemos examinar a natureza dessa c�lera e como ela surge e desaparece. O importante � tamb�m n�o pensar �estou col�rico�, ou �minha c�lera�, mas ter consci�ncia (o estado da mente col�rica e permanecer atento a este fato, isto �, observar e examinar de um modo objetivo a mente dominada pela c�lera.

No caso espec�fico da c�lera, n�o transform�-la em mansuetude, mas, sim, dela estar plenamente consciente. Havendo o apercebimento puro e simples do fato, aquilo que � se extingue. N�o � preciso, necessariamente, que desejemos essa extin��o e nos esforcemos para isso. Tal desejo e esfor�o longe de conduzirem � extin��o, impedem-na.

Dif�cil � o apercebimento pronto, que nos condiciona, mas, no momento em que nos apercebemos desses condicionamentos, eles podem cessar e ser destru�dos. Esta � a atitude que se deve adotar no tocante a todos os estados mentais (sentimentos, emo��es, etc.).

�� o conhecimento do obst�culo o fator que libera, e n�o o esfor�o para dele nos livrarmos. � s� quando se compreende a sua limita��o que o pensamento limitado deixa de existir.� (Krishnamurti.)

Quando nenhum pensamento ou sensa��o surgir na mente, voltamos novamente nossa aten��o para a respira��o, at� que, com a concentra��o natural a que a mente vai sendo submetida � observa��o pura, menos pensamentos surjam. Quando isso acontecer, eles aparecer�o com muita clareza.

Do mesmo modo, podemos comparar a mente a um lago cuja superf�cie est� continuadamente encrespada pelas ondas; s� poderemos ver o fundo quando a agita��o cessar e, conseq�entemente, a �gua se tornar clara e transparente. Assim, nossa aten��o vai ficando concentrada unicamente no ato de inspirar e expirar o ar pelas narinas, nada mais, at� que chegue o momento em que desaparece a pr�pria aten��o na respira��o. Somente ent�o podemos dizer que a nossa mente est� come�ando a ficar concentrada e tranq�ila.

O r�tulo mental � apenas um auxiliar usado para facilitar, controlar e estimular a Plena Aten��o; evita que sejamos levados pela sucess�o de pensamentos e isola-nos dos pensamentos, n�o permitindo que nos identifiquemos com eles, O r�tulo mental, sendo tamb�m um pensamento isolado do turbilh�o de pensamentos, faz com que nos transformemos em mero observador neutro de tudo o que ocorre na mente, sem julgar, aceitando a verdade da viv�ncia que est� sendo vivida.

Al�m da nota mental espec�fica, pode-se empregar a express�o �e da�...�, que muito auxilia o praticante a n�o se envolver nos diferentes assuntos que surgem na mente, tais como: pensamentos, lembran�as, sensa��es de qualquer natureza etc.; por�m deve-se ter o cuidado de n�o utiliz�-la como express�o de indiferen�a. Por exemplo, se durante a medita��o surgir uma lembran�a, observar o fato apenas como lembran�a, anotando �e da�...�, prosseguindo a aten��o na respira��o, como j� foi explicado.

O r�tulo mental, al�m do que j� foi dito, tamb�m chamado guarda da mente, � a arma para que n�s tenhamos a permanente vig�lia, o permanente alerta e faz com que a energia surja. Um simples observar, sem nenhum nome ou r�tulo, daquilo que ocorre no momento, e acabamos ficando sonolentos, perdendo-nos com facilidade. O r�tulo mental evita que a mente se perca e vagueie indo a estados negativo de consci�ncia � raiva, tristeza etc. T�o logo observamos e o fluxo passa e, pelo simples observar, vamos ganhando autoconhecimento; percebemos como tudo surge e passa.

Quanto mais contemplamos o surgir e o desaparecer dos pensamentos, tornamo-nos conscientes de sua exist�ncia e de sua natureza espec�fica. A influ�ncia dominadora que o pensamento exerce sobre n�s torna-se cada mais fraca e de escravos dos nossos pensamentos passamos a senhores.
Continua��o...
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