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"Cidadão Hearst ...
O magnata da imprensa americana não foi o modelo perfeito de Orson Welles para o 'Cidadão Kane'
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Ao filmar Cidadão Kane, Orson Welles fez com William Randolph Hearst o mesmo que Homero havia feito com Ulisses e Shakespeare fez com Ricardo III - usou a liberdade de criação artística para tornar seu modelo um personagem mais dramático, e em conseqüência seu tempo mais grandioso e impressionante.
E uma vez que deu ao seu personagem o nome de Charles Foster Kane, em vez de chamá-lo pelo nome verdadeiro, pôde tomar com ele liberdades que Homero e Shakespeare jamais ousaram com as suas criaturas.
Isso fica muito claro ao longo da leitura de The Chief - The Life of William Randolph Hearst, lançado nos EUA, que não é o que se costuma chamar uma biografia autorizada. As fontes que o autor David Nassaw utilizou para completar esse caudaloso e detalhado estudo de vida, para revelar de corpo inteiro o gigante egoísta e criativo que foi Hearst, tão demonizado por seus inimigos quanto adorado por admiradores e companheiros de trabalho, foram variadas e exaustivas. Hearst tinha defeitos incuráveis e admitidos até por ele próprio, sendo um deles sua incapacidade quase física de ouvir um "não", e o outro sua compulsão para acumular antigüidades e toda espécie de quinquilharia.
A biografia de Hearst por David Nassaw é escrupulosa na análise das causas e efeitos que teceram a existência do magnata. Como não é fácil separar o Chefe, como era chamado Hearst até pelos filhos, do Kane da ficção na obra de Welles, Nassaw sacode o leitor na cadeira para que ele não confunda as coisas. Lembra desde logo que assim como Ulisses não matou na volta de Tróia nenhum gigante Ciclope, e o rei Ricardo III não tinha a corcunda que Shakespeare lhe confere, também William Hearst não morreu sozinho e amargurado entre seus objetos de arte na casa fabulosa de Xanadu, chamada no mundo real de San Simeon.
Coube a David Nassaw, professor de História na City University of New York, libertar o Chefe histórico do fantasma de Kane, irmão siamês literário que o verdadeiro Hearst conheceu e imediatamente odiou, segundo seus amigos muito mais pelas inverdades que atribuía ao modelo do que pela visão anticapitalista e anti-americana de sua vida, projetada por Welles. Nassaw teve acesso ao imenso arquivo de Hearst pensando em estigmatizar essas diferenças.
A partir daí, o mundo de grandiosidade e poder que durante seis décadas irradiou de William Randolph Hearst, inundou a mesa do biógrafo, e ele utilizou esses milhões de dados com sobriedade e sentido de oportunidade.
Com eles pôde traçar perfis, evocar relações, ressuscitar crises e momentos de felicidade. De começo, o biógrafo nos mostra uma carta do jovem Willie ao pai, comunicando com a displicência de um garoto inteligente sua intenção de no futuro "tentar fazer alguma coisa em jornal e política". O pai George, minerador rico e mais tarde senador em Washington, aprovou com orgulho a sobriedade do menino, mas não pareceu muito impressionado com aqueles planos.
Willie, pelo visto, levou a promessa muito a sério. Em dezembro de 1935, a revista Fortune fez um balanço para seus leitores dos sucessos acumulados pelo empresário e magnata da imprensa William Randolph Hearst nas últimas décadas. Sua coleção de arte era então calculada em pelo menos US$ 20 milhões (um quarto de bilhão de dólares, em moeda de hoje), e suas fazendas, minas, vinhedos e ativos fixos eram avaliados em US$ 30 milhões e mais cerca de US$ 41 millhões em imóveis. Naquele período de tempo, Hearst transformara-se no dono da maior cadeia de jornais, no maior colecionador de arte e no maior corretor da história americana. Por tudo isso era chamado "o Chefe".
Sobre seu sucesso como diretor de jornal, basta lembrar o caso do The Examiner, que quando ele tomou em suas mãos tinha 15 mil leitores, e 30 anos depois havia aumentado para 20 milhões. Na condição de Chefe, ele ditou com rigor a linha editorial de suas publicações, e não abriu mão disso um único dia em sua vida. Hearst nunca falava de seu pai. Gostava de pensar em si mesmo como resultado de geração espontânea, o que até certo ponto era verdade. Uma vez observada sua ascensão, já não parecia mais tão descabida a frase que gostava de repetir: "Eu me inventei a mim mesmo".
Jornalismo sonolento Aos 24 anos, ajudou o pai a convencer-se de que devia ter um jornal, e colocar à sua frente alguém tão confiável quanto um filho. Quando o senador George Hearst adquiriu o San Francisco Examiner, Willie disse-lhe numa carta que ia acabar com o "jornalismo sonolento" da costa do Pacífico.
Anos depois, Phoebe, mãe de Willie, queixou-se ao marido que o rapaz estava gastando dinheiro demais no jornal, mas George parecia bem satisfeito com a cobertura política que o menino dava de sua atuação parlamentar e do seu partido.
Em 1897, o American Humorist, publicado por Hearst aos domingos, lançou a moda das histórias em quadrinhos, com algumas tiras que ainda são populares mais de um século depois. Yellow Kid, Os Sobrinhos do Capitão, Little Nemo, Mutt e Jeff, Maggie e Jiggs (Pafúncio e Marocas) são algumas delas. Mais tarde, já nos anos 30, vieram os heróis "sérios", como o Fantasma, Madrake, Super-homem e Buck Rogers. Em Nova York ele conheceu Millicent Wilson, uma dançarina de 16 anos, do Brooklyn, e se apaixonou por ela. Por volta de 1920, Hearst tinha vários jornais e lidava com cinema.
Em 1926, Hearst passou as férias da Califórnia, em vez de na Europa, na época em que sua mansão, San Simeon, estava em obras. Casado com a antiga moça do Brooklyn, tinha agora cinco filhos e todos se instalaram em tendas venezianas armadas perto dos andaimes da casa suntuosa em construção. Hearst mandara acomodar no Hotel Hollywood, em Beverly Hills, a atriz Marion Davies, sua protegida, que estava sempre acompanhada da mãe e da irmã. E porque adorava cinema, fez pequenos filmes com a mulher Millicent em San Simeon.
Quanto a Marion, resolvera fazer dela uma grande atriz, e para isso vinha atuando como produtor não oficial dos seus filmes, às vezes tendo como diretor Adolph Zukor, a quem impunha o aproveitamento artístico da amiga.
Somente à Paramount ele dava US$ 30 mil mensais para esse fim, transferindo depois essa mesada diretamente para Zukor. A própria atriz, Hearst um dia presenteou com uma casa de praia em Santa Mônica, logo depois freqüentada por grandes nomes do cinema na época, como Douglas Fairbanks, Mary Pickford, Harold Lloyd e Norma Shearer. Em 1934, Hearst montou um musical fabuloso, Going Hollywood, estrelado naturalmente por Marion Davies e tendo no elenco Bing Crosby.
Antes da 2ª Guerra, os jornais de Hearst publicaram artigos - e pagaram por eles muito bem - a colaboradores tão famosos quanto Mussolini, Hitler e Goering. Millicent, mulher de Hearst, de passagem pela Europa, negociou a publicação de uma série com Mussolini, pessoalmente. Hitler, impontual e aparentemente desinteressado, não chegou a aceitar a proposta. Mas com os acontecimentos se precipitando na Europa depois que os nazistas chegaram ao poder, William Hearst perdeu o interesse por aqueles exóticos colaboradores e liberou seus jornais para criticá-los moderadamente.
Quando viajou para a Itália na primavera de 1934, Hearst havia dito aos repórteres no cais que esperava encontrar-se com Mussolini, e que gostaria também de ver Hitler, se pudesse. A perseguição aos judeus na Alemanha já havia começado, e a orientação de Hearst aos seus jornais era a de noticiar tudo, inclusive criticando o boicote germânico aos negócios dos judeus no mundo. Naquele ano, o então presidente do Reichstag, Hermann Goering, teve alguns artigos publicados nos jornais de Hearst, recebendo US$ 1 mil por artigo. Hearst falou rapidamente com Hitler em Berlim, quando o ditador lhe disse que não permitiria que os judeus tomassem dos alemães a sua indústria.
O jornalista respondeu: "Pensei que a indústria não pertencesse a ninguém, além dos seus proprietários."
Os jornais da cadeia Hearst sempre defenderam os imigrantes judeus atacados por uma parte da imprensa americana. E quando começaram as perseguições na Alemanha, Willie comentou numa entrevista: "Ochs, do New York Times, defende os judeus porque é judeu. Nós não somos e defendemos os judeus porque acreditamos na democracia e nos direitos humanos."
O Chefe voltou de sua viagem periódica à Europa, em 1936, a tempo de votar no seu candidato à presidência, o governador Landon. No dia seguinte, Roosevelt foi reeleito com votação consagradora para o cargo. Conta-se que alguém a mando de Hearst telefonou para a Casa Branca a fim de dizer que o jornalista estava muito feliz com o resultado das urnas. Um senador provocou, da tribuna do Senado: "Já? Ainda é muito cedo para aderir." Mas havia outros problemas desabando sobre a cabeça de Hearst - as dívidas que ele não podia mais adiar nem renovar.
Somente à Canadian Paper Mills suas empresas deviam US$ 78 milhões (o equivalente a quase US$ 1 bilhão, hoje). A bancos e financeiras deviam US$ 39 milhões, com vencimento em 12 meses. Hearst sempre dera um jeito, nos últimos 20 anos, mas agora as portas se fechavam todas. A revista Time, velha concorrente, prometia contar tudo sobre as dívidas muito em breve. O Chefe e sua companheira, Marion Davies, recolheram-se a San Simeon, onde não iam há nove meses, para "fazer cinema", depois de quatro filmes com Marion que foram fracassos de bilheteria. Bernard Shaw não deu autorização para filmarem seu Pigmalião. O nome de Marion e sua carreira, bem como a de Hearst como produtor não oficial, chegavam agora a seu ponto final.
Um potentado oriental Em setembro de 1940, a cronista social Louella Parsons, amiga da família de Orson Welles, contou à família Hearst que o ator e diretor estava filmando a vida do Chefe. Dois advogados dele assistiram ao filme em sessão privada e ficaram assustados. Hedda Hopper falou sobre sua reação ao ver o Cidadão Kane ainda sem os cortes finais: "Era cruel, desonesto, caricato".
Apesar da guerra judicial, o filme estreou no Radio City Music Hall, enquanto Hearst mergulhava no silêncio da sua mansão californiana. Mas o filme não fez o sucesso esperado por Welles, uma vez que era inteligente demais para as grandes platéias acostumadas à rotundidade de Hollywood. No final de 1942, a RKO tirou-o de exibição, com um prejuízo confessado de US$ 150 mil.
Em 1945, terminada a guerra na Europa, William Randolph Hearst saiu do exílio voluntário e reassumiu seu império. Seu mundo era agora composto de 17 jornais, quatro emissoras de rádio, nove revistas na América e três na Inglaterra, uma agência telegráfica e outra jornalística, além de um suplemento dominical encartado em vários jornais. Após a rendição do Japão, ele voltou novamente a San Simeon, porque começava a sentir o peso da idade.
Em 1947 teve problemas de coração mas se recuperou. Vivia na sua casa fabulosa como um potentado oriental, e recebia visitas como um grande estadista.
Hearst morreu em agosto de 1951, aos 87 anos, na casa que deu para Marion Davies em Beverly Hills. A esposa Millicent tinha 70 anos e vivia muito bem com seus 15 netos, 13 bisnetos e dois tetranetos. O lucro anual do império ia por volta de US$ 17 milhões.
Lisboa, Luiz Carlos - O Estado de São Paulo -
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