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1. A semente


“Esta Festa, como todas aquelas que visam
 a glorificação do trabalho, contribuirá, sem dúvida,
 para o melhoramento da produção da uva.”

Celeste Gobbato 
no discurso de abertura da exposição de 1931


Penduradas em armações de madeira e estendidas sobre mesas, também de madeira, as uvas ilustravam o cenário do salão principal do Recreio da Juventude, no centro de Caxias do Sul, na manhã de domingo de 8 março de 1931. Junto a cada variedade, havia folhas de papel, com nomes que os viticultores tinham ouvido algumas vezes, mas com os quais não estavam familiarizados. Escritas a mão, de forma legível,  palavras como Seibel, Concord, Cabernet Sauvignon, Cabernet-franc, Moscatel Italiano, Moscato Espanhol, Dolcetto, Trebbiano, as denominações das variedades viníferas e das castas européias que a exposição tentava divulgar. No alto da mesma folha, o nome do evento, em letras tipográficas: Festa da Uva.
O grande número de variedades deixou Joaquim Pedro Lisboa otimista, naquela manhã de sol de um verão quente e seco, que havia afetado a produção de uvas de Caxias do Sul e a colheita de grãos de todo o Rio Grande do Sul. Naquela hora, contudo, Lisboa não pensava no tempo nem na crise provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, que afetava a indústria e tornava quase impossível obter um empréstimo. Naqueles minutos em que aguardava pela inauguração, Lisboa também não se importava com a construção do Empire State Building, de Nova York, concluído em 1931 e que até 1971 seria o edifício mais alto do planeta.
A preocupação de Lisboa, ansioso após a missa dominical, não ultrapassava sequer um palmo da fronteira do município; limitava-se a um quarteirão no centro da cidade. Na sede do Recreio da Juventude, onde hoje se localiza o Círculo Operário Caxiense, ele aguardava a inauguração da chamada Festa da Uva, sem saber que o evento se transformaria na maior festa da Serra Gaúcha no século XX. Com um sorriso no rosto, recebeu o prefeito da cidade, Miguel Muratore, e outras autoridades. Com satisfação maior, conferia a chegada de produtores de uva dos distritos caxienses para a mostra. De diferentes localidades, eles lotaram o salão principal do clube e se deslumbraram com as novas variedades viníferas, que estavam sendo desenvolvidas pela Estação Experimental de Viticultura e já tinham sido adotadas pela Granja Santo Antônio, dos Irmãos Maristas de Garibaldi, e por alguns produtores, como o caxiense Ludovico Cavinatto.
 Os moradores da pequena mas crescente zona urbana da cidade também prestigiaram a exposição e passaram várias horas daquele dia no Recreio da Juventude. Com tanto atropelo de pessoas, Joaquim Pedro Lisboa e os demais integrantes da comissão organizadora se reuniram às pressas, à tarde, e decidiram prolongar o evento por mais um dia, a segunda-feira, para tentar alcançar o objetivo da exposição: convencer os agricultores a trocar a variedade Isabel, plantada nos quatro cantos da Serra Gaúcha, por uvas mais nobres, de origem européia, que garantiriam um vinho de muito melhor qualidade.
 Tentar melhorar a qualidade do vinho foi a principal razão para Lisboa, um coletor estadual de impostos e membro do Instituto do Vinho, batalhar pela organização de uma exposição. Colocar um vinho delicioso na mesa do consumidor não era meta exclusiva dele. Celeste Gobbato, diretor da Estação Experimental, e os governos municipal e estadual tinham a mesma preocupação de Lisboa: quebrar a teimosia, naquela altura histórica, dos viticultores, que insistiam em plantar a variedade Isabel devido à resistência às pragas e a boa adaptação ao clima da região.
 Para compreender o surgimento e o conseqüente sucesso da Festa da Uva, que movimenta milhões de reais e atrai milhares de turistas a cada edição, convém voltar ao século XIX. Convém retornar ao processo da imigração italiana, que trouxe o progresso ao Nordeste do Rio Grande do Sul, uma região inóspita e até então habitada por indígenas.

Esperança e trabalho

O primeiro grupo de colonizadores chegou à Serra Gaúcha em 1875. Os italianos saíram de Olmate, província de Milão, no dia 8 de fevereiro. Cruzaram o Oceano Atlântico de navio e desembarcaram em Porto Alegre em maio. No dia 20 daquele mês, se instalaram em Nova Milano, hoje distrito de Farroupilha e, na época, parte de Nova Palmira, uma das novas colônias criadas entre o rio Caí e os campos de Vacaria. Em setembro, colocaram os pés e se instalaram em Campo dos Bugres, hoje Caxias do Sul. 
A chegada dos 110 italianos à Serra foi um dos primeiros resultados, embora tímido, de uma política de incentivo à imigração no Brasil do Império. O ingresso de estrangeiros estava se esgotando, como apontam dados relatados em artigo de Duminiense Paranhos Antunes na publicação “Caxias do Sul, a Metrópole do Vinho”. Entre 1859 e 1875, apenas 12.563 imigrantes entraram no Rio Grande do Sul, a maioria alemães (8.412) e um número reduzido de italianos (729), misturados a grupos de outras nacionalidades. A decisão do governo alemão da época de restringir a saída de seus habitantes afetou drasticamente a vinda de estrangeiros ao Estado, a ponto de em 1874 só 580 pessoas terem ingressado no Rio Grande do Sul. No ano seguinte, o número caiu ainda mais, para 315. 
O ano de 1875, porém, ficou registrado na história como o início de um novo período, marcado por grandes levas de imigrantes vindos do Norte da Itália. O fluxo de estrangeiros se devia, na maior parte, à política de incentivo da época, que tentava atrair as pessoas oferecendo lotes de terra e criando uma perspectiva de vida melhor do que a que levavam na Europa. Lá, passavam dificuldades, fome. Aqui, não sabiam ao certo o que iriam encontrar, mas tinham a esperança de um futuro melhor, mais promissor.
 A partir de 1876, o ingresso de vênetos, lombardos, tiroleses e trentinos começou a se intensificar. Nesse ano e em 1877, o fluxo de imigrantes foi grande, embora não existam dados precisos sobre o período. Entre 1878 e 1881, houve uma pequena queda, sucedida por um “boom” na vinda de estrangeiros. Em 1885, por exemplo, 7.600 italianos chegaram ao Estado; em 1889, 9.440; e em 1892, 7.523. De 1875 a 1914, calcula-se que 74 mil italianos se mudaram da Europa para a Serra Gaúcha.
 A segunda onda imigratória no Estado – a primeira foi de alemães, que chegaram no início do século XIX – trouxe o desenvolvimento à região. Os 440 mil habitantes que viviam no Rio Grande do Sul em 1870 ocupavam, principalmente, a região de Porto Alegre, o Sul do Estado (portugueses), os vales dos rios Caí e dos Sinos e a região de Santa Cruz do Sul (alemães). Aos italianos coube a tarefa de se embrenhar nas matas da Serra e cultivar uma área pouco propícia à agricultura.
 Houve progresso desde o início, apesar das naturais dificuldades. Em 1885, Caxias do Sul já contava com uma população de 13.818 pessoas. Um ano antes, havia sido emancipada do regime colonial, quando passou a se chamar Santa Tereza de Caxias e pertencia ao município de São Sebastião do Caí. Em 26 de junho de 1890, por decreto do general Cândido Costa, governador da Província, foi elevada à condição de município. A emancipação se justificava. Na época, Caxias do Sul contava com mais de 15 mil habitantes e era um centro próspero.
 Quem foram esses imigrantes que, em tão pouco tempo, trouxeram a prosperidade à região? Quando o governo de Dom Pedro II começou a incentivar a imigração na segunda metade do século passado, tentou atrair famílias, e não solteiros, muitas vezes aventureiros. Se tivessem filhos, melhor ainda, tanto que os casais recebiam uma contribuição extra por filho.
 Vindos do Norte da Itália, em especial da região de Veneza, esses imigrantes tinham duas virtudes: eram bons negociantes, uma herança histórica que data da Idade Média, e ótimos trabalhadores. Oficialmente, eram agricultores, como exigiam as normas para imigração, mas eram igualmente ótimos artesãos. Com suor e esforço, venceram as barreiras da região e criaram uma economia agrícola, no início, de subsistência e, mais tarde, altamente rentável.
O aumento da produção e a chegada de novos imigrantes transformaram rapidamente a vida na região, em especial em Caxias do Sul. No início, a moeda corrente era o próprio produto, tal como ocorria nos primórdios da Idade Média na Europa. Raramente havia excedente. O milho, a principal cultura no começo da colonização, era quase todo consumido em casa. Dele se fazia a farinha, base para a polenta, presente na mesa do agricultor no café da manhã, almoço e janta; e a ração, alimento de vacas, porcos. O que sobrava era trocado por outro produto com um vizinho ou na vila.
A evolução, no entanto, foi rápida. Em poucos anos, os agricultores passaram a cultivar, além de milho, trigo, uva, feijão, entre outros itens, e a vender o excedente. Em vez de outros produtos, passaram a receber dinheiro. De acordo com a professora Vânia Beatriz Merlotti Herédia, no livro “Processo de Industrialização da Zona Colonial Italiana”, a colônia “passou a ser um local de intenso comércio com o desenvolvimento da zona urbana e com a instalação de uma série de oficinas e pequenas indústrias”.
Segundo dados de 1892, citados por Paranhos Antunes no livro “Caxias do Sul, a Metrópole do Vinho”, existiam no município 10 serralheiros, dois moinhos a vapor, 50 moinhos hidráulicos, sete curtumes, sete fábricas de cerveja, três de licores e uma de gasosa, três fábricas de chapéus, 14 ferrarias, oito marcenarias, 25 sapatarias, 26 alambiques e três teares, entre outros negócios. A cidade contava ainda com inúmeras casas de comércio. 
Inicialmente, esse comércio era local. Depois cresceu, virou regional e se tornou estadual. Ainda nos anos 80 do século passado, os comerciantes de Caxias do Sul começaram a fazer negócios com os colonizadores alemães da região do Vale do Caí e de Porto Alegre e passaram a escoar os produtos em excesso pelo portos fluviais de São Sebastião do Caí e de São João de Montenegro. “Os canais de comércio estavam delineados pelos alemães e os italianos puderam colocar seu excedente econômico sem grandes problemas”, relata Vânia Herédia. Em 1900, Abramo Eberle e Antônio Pieruccini fizeram, em viagens célebres, a primeira venda de vinho e graspa em São Paulo. Eberle foi pelo mar e Pieruccini por terra, em jornadas que demoraram meses e abriram caminho para as exportações.
O comércio resultou no acúmulo de riqueza por parte de um pequeno, mas crescente grupo de pessoas. Para defender seus interesses, eles criaram em 1901 a Associação Comercial. A entidade batalhou e colocou o município na rota do comércio entre Porto Alegre e os Campos de Cima da Serra Gaúcha. O resultado garantiu mais progresso à região. Em 1910, ano da elevação de Caxias do Sul de vila à condição de cidade, foi inaugurada a estrada de ferro, ligando o município a Porto Alegre. Viagens que antes duravam dias podiam, agora, ser feitas em seis horas. Mais: era possível escoar a produção de forma fácil, rápida e barata. Três anos depois, em 1913, veio a energia elétrica.

O cultivo da uva

 Esses italianos, ótimos para trabalhar e negociar, também eram bons de copo e adoravam o vinho há séculos. Quando pisaram aqui, trataram logo de começar a cultivar as mudas de uva que traziam na bagagem. A experiência não deu muito certo. As uvas nobres que costumavam plantar na Itália eram vulneráveis às doenças e pragas locais e acabaram morrendo rapidamente.
 A solução veio com os colonizadores alemães. Em contato com moradores de Feliz, eles conseguiram mudas Isabel, variedade trazida ao Rio Grande do Sul em 1840, dos Estados Unidos, e plantada inicialmente na Ilha dos Marinheiros, em Rio Grande, pelo comerciante Thomas Messinger. A principal qualidade dela era a resistência a doenças e pragas.  O vinho feito com a Isabel não era muito bom, mas a rusticidade fez a variedade estar na maior parte dos parreirais gaúchos antes mesmo de os italianos pisarem aqui.
 A Isabel foi trazida para a Serra por Tomaso Radaelli, que adquiriu algumas mudas da família Noll, de Feliz. Segundo o historiador e jornalista Mário Gardelin, alguns dos parreirais centenários nascidos dessas uvas ainda existiam até recentemente em Nova Milano, interior de Farroupilha, e “produziam excelente fruto”. De Nova Milano, a variedade se espalhou rapidamente pelas localidades vizinhas.
 O cultivo de uva se intensificou na Serra Gaúcha e transformou-se, em poucos anos, na principal fonte de riquezas da região. Da fruta, os imigrantes e seus descendentes produziram o vinho e começaram a vendê-lo para outras regiões do Rio Grande do Sul ainda no século passado. No começo deste século, passaram a abastecer também São Paulo e Rio de Janeiro, os dois principais centro econômicos e políticos da época.
 Conscientes de que a Isabel não era ideal para a produção do vinho, as autoridades procuraram colocar à disposição dos viticultores variedades viníferas, as chamadas castas européias que estavam sendo desenvolvidas no Estado ou eram importadas de outros países, como Uruguai. Em 1913 foi criada, em Caxias do Sul, a Estação Experimental, com a atribuição de descobrir quais culturas eram mais viáveis na Serra. A ordem era não restringir as pesquisas à uva, mas foi mais ou menos isso que ocorreu. A Estação acabou, com o tempo, se especializando na produção de variedades finas, ideais para a produção de vinho.
O problema, todavia, era convencer o produtor a deixar a Isabel de lado e optar pela variedade nova. Em 1928, com o objetivo de regular a produção e melhorar a qualidade da uva, as cantinas criaram o Instituto Riograndense do Vinho, órgão que reunia apenas as indústrias. Estimulados pelo governo, os viticultores formaram várias cooperativas em 1929. Nessa queda-de-braço, o setor vinícola e Caxias do Sul acabaram ganhando.

Vindimas e feiras

 Ao arrojo, árduo trabalho e agudez para o comércio, os imigrantes italianos acrescentaram os hábitos de celebrar, cantando suas vitórias, e de mostrar os produtos que desenvolveram no Rio Grande do Sul. Após e durante a colheita da uva, eram comuns as festas da vindima. 
Não há informações precisas sobre essas celebrações, mas elas ocorriam em diferentes localidades, sustenta Mário Gardelin. Ele escreve: “Por volta de 1900, em Caxias, ornamentaram-se os animais, atrelados a carretas, carregadas com pipas. A cena foi retratada (numa fotografia). Há também uma cesta de carregar uva. Nos fundos, destaca-se uma pessoa, com um grande lenço branco no pescoço, seguramente um ‘pica-pau’, isto é, partidário do governo. O importante é a legenda: ‘A Festa do Vinho’. É um indício seguro de que momentos de celebração estavam associados à vitivinicultura.” 
Gardelin também cita outro evento, realizado nos dias 24, 25 e 26 de fevereiro de 1913, em Garibaldi,  que chama a atenção pelo nome: Festa da Uva. Organizada pelo intendente  do município – o equivalente a prefeito hoje em dia –, coronel Afonso Aurélio Posto, tinha um objetivo claro: divulgar Garibaldi e os produtos que o município produzia.
 Sobre essas vindimas, não há dados confiáveis. Sabe-se apenas que iniciaram ainda no século passado, logo após a chegada dos imigrantes italianos. Na maioria dos casos, restringiam-se a uma localidade e tinham também um componente religioso. Antes de celebrar, era preciso agradecer a Deus pelas dádivas. Rezavam e bebiam com fervor.
Sobre as feiras, no entanto, há mais informações. A primeira, organizada em 1881, foi chamada de “Exposição Agroindustrial” e realizada em duas salas da Diretoria de Terras e Colonização, na esquina da Avenida Júlio de Castilho com a Rua Marechal Floriano. A uva, o vinho e a graspa já estavam lá, embora dividissem espaço com milho, trigo e produtos desenvolvidos por pequenas empresas, como enxadas, arados e foices utilizados pelos agricultores.
Entre 1881, seis anos após a distribuição dos primeiros lotes de terra, e 1925, ano da comemoração do cinqüentenário da imigração, foram realizadas 10 feiras. A segunda ocorreu em 1884 e foi sucedida pelas edições de 1886, 1890, 1891 e 1898. No século XX, foram realizadas exposições em 1913, 1918 e 1925. A última, segundo a professora e pesquisadora Cleodes Piazza, da Universidade de Caxias do Sul, “foi a grande deflagradora” das festas da uva da década de 30.
A exposição de 1925 ocorreu no quartel do 9º Batalhão de Caçadores, na Avenida Rio Branco. Além de Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Garibaldi, Farroupilha, Alfredo Chaves (hoje Veranópolis) e Antônio Prado participaram da mostra. Exibiram produtos agrícolas e industrias e celebraram os 50 anos da imigração com a inauguração de um obelisco na entrada do Parque Centenário, em homenagem aos pioneiros. Uma rústica de sete quilômetros integrou a programação. Em 24 minutos, Júlio Adami Filippini, percorreu ruas entre as avenidas Rio Branco e Júlio de Castilho e ganhou a prova.
No começo, essas feiras tinham uma repercussão local e, se muito, regional. O deslocamento era difícil e as estradas, ruins. Ninguém se aventurava de Porto Alegre a Caxias para conferir uma feira, dadas as péssimas condições de deslocamento. A viagem durava dias. Com as melhorias no sistema de transporte – o trem, vale lembrar, chegou à Serra em 1910 e estradas e pontes estavam sendo construídas pelo governo estadual para promover o desenvolvimento –, tornou-se mais interessante organizar eventos para divulgar os produtos da região.

(Segue)

Esta página foi desenhada por Luiz Carlos Erbes
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