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N�o podemos evitar, quando o conhecemos pessoalmente ou o vemos na pantalha televisiva, simpatizarmos de forma automaticamente emp�tica com ele. N�o cultiva um semblante carregado e circunspecto, antes pelo contr�rio, nem se arroga um distanciamento de superioridade moral ou intelectual t�o comum em tantos que, aos mais diversos n�veis, n�o ombreiam com a sua estatura j� nem sequer de cl�rigo mas t�o simplesmente de ser humano.
Lembra-nos, talvez, mais que um avozinho de cabelos brancos, um simp�tico tio de sorriso af�vel, sabedor e de verbo f�cil, que nos incita a princ�pios aparentemente comezinhos mas que, porventura devido a essa mesma simplicidade, s�o quotidianamente menosprezados por muitos de n�s e cuja observa��o faria grande diferen�a na nossa vida de todos os dias. Mas o jornalista � pessoa avisada e n�o se deixa levar por impress�es epid�rmicas. Aqui e ali, por uma eventual deforma��o profissional, na inten��o de o confrontar com algumas mat�rias mais esconsas, escolhe alguns temas para o efeito, armadilhando, ainda que de forma n�o acintosa, meia d�zia de perguntas mais acres, considerando o destinat�rio: F�tima, as dificuldades do celibato, as isen��es fiscais dos cl�rigos, o prazer da tourada, a conviv�ncia com o poder, a �vida social� de que alguns o acusam, etc.
V�tor Mel�cias gosta deste exerc�cio e faz gala em prodigalizar um sem-n�mero de opini�es que escapam, frequentemente, � mais avan�ada ortodoxia (passe a contradi��o) que caracteriza a Igreja portuguesa. Ele sabe-o e gere com prud�ncia a sua rebeldia face � letargia das institui��es, desde logo daquela a que pertence. Quase sempre tem as ideias arrumadas e gosta de exercitar o verbo, que frequentemente redobra com conceitos que lhe s�o caros e noutro qualquer poderiam soar a lugares-comuns. Mas s�o os seus, aqueles que defende e em que acredita, porfiadamente.
Considera que a quest�o do casamento dos padres ou a da ordena��o de mulheres s�o assuntos menores que deveriam h� muito estar resolvidos, e se cuida que o uso de preservativo, em determinados contextos, � um imperativo moral, se estivesse no seu lugar, j� teria resignado das fun��es de sumo pont�fice desempenhadas pelo actual papa, mas n�o deixa de contrapor, como que para restabelecer algum equil�brio, que a homossexualidade � uma forma n�o natural de relacionamento, que a elimina��o injustificada de qualquer forma de vida � como no aborto ou na eutan�sia � � pecaminosa, que os s�mbolos religiosos ou o pr�prio hino nacional t�m lugar no sistema de ensino, ou ainda que os pr�mios de lotarias ou os vencimentos dos futebolistas deveriam estar sujeitos a uma taxa social.
Se tivesse sido contempor�neo de Malatesta ou Bakunine, Mel�cias poderia ter enveredado pelo anarquismo, n�o fosse a vertente ateia daquela doutrina, tal a sanha com que parece querer expurgar a sociedade do papel omnipresente do Estado, ou pelo menos desejaria remet�-lo  � forma mais homeop�tica poss�vel.
Gosta da vida e tem dela uma aprecia��o positiva, n�o obstante reconhecer as enormes chagas que pustulam a que apelida de casa comum da Humanidade. Reconhece tenta��es, mas a elas contrap�e as convic��es; deleita-se com uma canja de pombo mas farta-se e regozija-se se lhe servirem um bacalhau com gr�o; priva com os poderosos mas f�-lo para advogar as causas dos desfavorecidos; ama Cristo mas convive prazenteiramente com Maom� ou Sidarta (vulgo Buda).
O padre V�tor Mel�cias � um aristocrata, no bom sentido, ressalve-se aqui alguma contradi��o, da Igreja. � detentor de uma forma��o acad�mica exemplar, domina v�rios idiomas (deixa ami�de zonzos os destinat�rios das suas asser��es em latim) e causa engulhos aos mais ac�rrimos e por vezes ac�falos detractores da Igreja, ao postular no��es �ticas e morais, tanto ao n�vel dos princ�pios como do mais terreno pragmatismo, que t�o depressa v�o ao arrepio dos mais tradicionais c�nones eclesi�sticos como n�o se enquadram nas ideias preconcebidas que o vulgacho atribui aos sacerdotes.
Apesar de assumir frisadamente a sua condi��o de franciscano, com tudo o que isso acarreta de comedimento, desprendimento e d�diva pessoal, tem como fito superior a aplica��o dos seus talentos em prol de quem deles necessita, pelo que n�o enjeita nem se co�be de integrar os elencos directivos seja de uma institui��o banc�ria, dos seguros ou dos bombeiros, de ter lugar em Bruxelas em sede do Conselho Econ�mico e Social, da Confedera��o Internacional das Miseric�rdias, ou ainda de ter desempenhado as in�meras fun��es que,
de forma extensa mas n�o exaustiva, enumero nas p�ginas finais.
Deveria o nosso conhecido P.e Mel�cias remeter-se � mais estrita condi��o de frade V�tor Lopes, mais um franciscano em recolhimento introspectivo e frugal que n�o mais aproveitaria se n�o a si pr�prio, em termos pessoais e eventualmente espirituais? Ou ser� que todos ganhamos em contar com o judicioso V�tor Mel�cias a exercer um apostolado em que a sua mais-valia poder� aproveitar, com grande benef�cio, aos que necessitam de uma voz ousada e competente, cordata mas sem subservi�ncias, para fazer vingar os pontos de vista que denunciam as suas car�ncias?
A resposta poder� e dever� ser dada por aqueles que ele visa nesse apostolado.
Os detractores n�o deixar�o de lhe apontar a mediatiza��o de que � alvo e a que jovialmente se presta, ao mesmo tempo que insinuam que ter� um comportamento mais de rela��es p�blicas das institui��es por que passa do que de um frade franciscano � cativos que est�o ainda de formas medievas e autistas de servir o transcendente e o Homem.
Os que o apreciam e com ele se identificam exaltar�o e subscrever�o a forma desempenada como aborda as quest�es, a operacionalidade com que faz desenvolver estruturas, nas mais diversas �reas, que sem refutar a alma que habita o corpo cuidam das mais elementares car�ncias deste, para que, ent�o, possa louvar o seu criador.
Ao leitor cabe formular uma opini�o, para cujos alicerces espero que este livro possa ter contribu�do. Sobretudo ao servi�os dos valores, �nico argumento com que consegui atra�-lo a anuir e a colaborar neste trabalho.                                                                                                                                       
                                                                                                                                                     
Lu�s Guimar�es
M e l � c i a s,  o  H u n o?
  Dizia-se de �tila, o Huno, que por onde o seu cavalo passava nunca mais crescia a erva. Em contraste, pode dizer-se que por onde passa o padre V�tor Mel�cias tudo floresce, a come�ar pela alegria e pela amizade.
    Ele � de facto a encarna��o da alegria de viver. Mas n�o � uma alegria que decorra da contempla��o narc�sica de si pr�prio e dos seus � xitos, mas sim da rela��o com os outros, na amizade e na permanente doa��o de si pr�prio.  Dizia-se de �tila, o Huno, que por onde o seu cavalo passava nunca mais crescia a erva. Em contraste, pode dizer-se que por onde passa o padre V�tor Mel�cias tudo floresce, a come�ar pela alegria e pela amizade.
    Ele � de facto a encarna��o da alegria de viver. Mas n�o � uma alegria que decorra da contempla��o narc�sica de si pr�prio e dos seus � xitos, mas sim da rela��o com os outros, na amizade e na permanente doa��o de si pr�prio.
  Uma alegria que ele vive na f�, uma f� t�o aut�ntica quanto esclarecida, limpa das teias de aranha com que tantas vezes � adulterada e que se projecta com uma tal limpidez que estou seguro de que muitos dos que o conheceram ou conhecem a ele devem a sua pr�pria f�, face �s ang�stias e �s d�vidas dos tempos presentes.  Homem da Igreja, sacerdote de dedica��o exemplar, o padre V�tor Mel�cias nunca renunciou a express�o da cidadania, ao compromisso c�vico com a sociedade a que pertence, sem liga��es de car�cter partid�rio, mas entregando-se a uma intensa interven��o p�blica em nome da Justi�a, da Paz e da Solidariedade, com exemplar empenhamento.
O seu trabalho nos bombeiros, � frente da Uni�o das Miseric�rdias ou, sobretudo, como comiss�rio para Timor-Leste deixa a marca indel�vel em tudo por onde passa.
    O momento exaltante para Portugal e para a nossa pr�pria dignidade no fim do ciclo colonial, a independ�ncia de Timor-Leste, teve no padre V�tor Mel�cias um dos principais, se n�o o principal, dos nossos protagonistas.
    Mas, acima de tudo, o que a n�s, os que temos ser seus amigos, marca � afinal o Ho-mem integral, o sentido e o significado da Vida e que permanentemente nos aponta o Bem.
    Nenhuma biografia, nem mesmo esta, com todo o ineg�vel talento do seu autor, o poder� alguma vez descrever, porque n�o � poss�vel fixar em palavras a exalta��o da Vida e a plena express�o do Bem.
                                                                                                                                                                           
A n t � n i o   G u t e r r e s
A minha interven��o
aquando da apresenta��o
As primeiras vezes que conheci pessoalmente o padre V�tor Mel�cias foi a partir de uma ou outra entrevista que lhe fiz para os jornais onde ent�o trabalhava � que agora sou, contra vontade, um mero jornalista off line, delapidador do Or�amento de Estado �  mas agora tive, com este livro, o privil�gio de com ele privar e o ouvir, durante algumas horas.
E se, tal como o pintor ou o fot�grafo, por exemplo, n�o se realizam plenamente se n�o tornarem p�blica a sua obra, tamb�m eu, mero escrevinhador, n�o poderia guardar para a vida ef�mera das p�ginas de um jornal ou revista as opini�es recolhidas e por si manifestadas acerca de temas t�o diversos, e por vezes controversos, como os ora aqui vertidos.
Esta � uma particularidade que caracteriza e define este livro, bem como os demais que venho publicando, j� que tamb�m aqui n�o se lhe pretendeu conferir um cariz sobremaneira biogr�fico, longe disso.
Pelo contr�rio, desde o in�cio foi minha inten��o trazer frei Mel�cias para �reas sobre as quais o p�blico, em geral, n�o est� habituado a ouvi-lo discorrer � o que n�o ter� sido f�cil nem talvez plenamente conseguido, t�o prol�fera que � a sua abrang�ncia intelectual.
Do mesmo modo n�o foi tarefa f�cil conseguir o seu anuimento para esta iniciativa e introduzir-me na agenda, sempre sobrecarregada, do cl�rigo, do presidente de assembleias-gerais, do v�rtice da Uni�o das Miseric�rdias, do comentador televisivo � sei l� que mais, basta ver o seu recheado curr�culo nas p�ginas finais do livro!
Importava, pois, tirar o maior partido das hist�rias e das ideias por si explanadas, o que eventualmente n�o ter� sido conseguido sempre com total sucesso, mas ainda assim creio que podemos nestas p�ginas ficar a conhecer com maior profundidade o seu pensamento sobre temas como, nomeadamente, o papa e a situa��o da Igreja no mundo e entre n�s, bem como sobre F�tima ou sobre a simbologia religiosa nas escolas, mas igualmente a sua perspectiva sobre outras cren�as e movimentos religiosos, a interrup��o da gravidez e a eutan�sia, a homossexualidade e a adop��o. Ou ainda, e naturalmente, sobre as quest�es com que os bombeiros portugueses se t�m confrontado, sobre o papel das Miseric�rdias hoje como desde a sua cria��o, o papel social da empresas e muitos outros temas.
Deambul�mos apenas um pouco pelo seu passado mais distante � j� que, como disse, n�o se tratar de uma biografia, n�o foi esse o intuito nem terei compet�ncia para tanto. Aflor�mos os seus tempos de inf�ncia e juventude, desde aqueles em que, com alguma mal�cia, tentava furtar-se aos corriqueiros trabalhos rurais, at� �s suas incurs�es jornal�sticas, pelos bombeiros e pela banca, as suas rela��es com Ant�nio Guterres ou Marcelo Rebelo de Sousa, no seu per�odo acad�mico e quando integrava os movimentos de reflex�o e de contesta��o ao Estado Novo � feita ami�de e de forma lesta � frente da pol�cia de choque.
Claro que tivemos de falar de desporto, dos brilharetes e des�nimos nacionais, dos paral�mpicos e do Sporting (n�o, n�o estou a estabelecer qualquer rela��o entre ambos!...), de tourada � nem agora, se bem que, convenhamos, haja  por a� cada chiquelina  e estocada na s� pr�tica desportiva!... � enfim, falou-se de Timor, falou-se dos des�gnios deste pa�s e dos homens e mulheres que o integram.
Mas igualmente reafirmou, nos encontros que mantivemos (ou n�o fosse ele um religioso), a sua f� no primado da Vida, a sua cren�a quase tel�rica na bondade do Homem, sublinhando que para a fazer emergir h� que criar os mecanismos correspondentes em que ela possa ser aplicada, ao inv�s de � e tantas vezes isso acontece � ser delapidada em ac��es que n�o t�m uma base estruturada e estruturante, por forma a acudir eficazmente aos mais  necessitados.
V�tor Mel�cias prodigaliza um sem-n�mero de conceitos e valores que escapam, frequentemente, � mais avan�ada ortodoxia (passe a contradi��o) que caracteriza a Igreja portuguesa. Ele sabe-o e gere com prud�ncia a sua rebeldia face ao conservadorismo das institui��es, desde logo aquela a que pertence.
Enquanto comunicador tem as ideias arrumadas e gosta de exercitar o verbo, que frequentemente ilumina com aforismos que lhe s�o caros, aqui e ali polvilhados das correspondentes sintetiza��es em latim, ideias e conceitos que s�o os seus, ancorados em valores perenes mas adaptados ao momento actual � s�o aqueles que defende e em que porfiadamente acredita. Representam, afinal, o ADN moral e primordial do ser humano como hoje o conhecemos, mesmo quando embotado pelo ego�smo e a ego-centraliza��o dos nossos tempos.
Bem, n�o podia deixar de terminar sem agradecer a disponibilidade manifestada por pelo padre V�tor Mel�cias, n�o tanto em aten��o a este escrevinhador mas pela sua entrega face ao interesse que iniludivelmente tem para o p�blico conhecer com maior profundidade outras facetas do seu pensamento em t�o diversificadas mat�rias. E, principalmente, dar testemunho de valores e princ�pios que lhe s�o queridos, diria mesmo que estruturam o seu car�cter e pensamento, o que nos faz sentir em sintonia e grande proximidade fraterna com este homem.
Tamb�m uma palavra de agradecimento ao Eng.� Ant�nio Guterres � apesar de por compromissos inadi�veis no estrangeiro ter sido obrigado a desmarcar a sua presen�a � por ter respondido afirmativamente ao meu convite para prefaciar este livro, dando o seu testemunho da grandeza de alma deste � pe�o desculpa pela ousadia a ambos, mas penso agora poder diz�-lo - nosso amigo comum.
Igualmente agrade�o � Dr.� Maria de Bel�m, por ter acedido a fazer um breve intr�ito n�o tanto ao produto aqui hoje formalmente apresentado mas por debruar com a sua aprecia��o e amizade o perfil desta grande figura que aqui nos reuniu.
Last but not the least, os meus agradecimentos s�o extensivos aos Livros do Brasil, na pessoa do Dr. Souza Pinto, pela aposta mais no meu trabalho do que na escolha do visado, que esse � �bvio e dela n�o carece, bem como aos franciscanos do Semin�rio da Luz, que desprendidamente nos cederam este magn�fico audit�rio para o lan�amento.
Enfim, e se me � permitida uma breve nota final em direc��o ao futuro, depois de Fernando Pessa, Hermano Saraiva, Vitorino de Almeida, Ant�nio Calv�rio e V�tor Mel�cias, o meu pr�ximo livro centrar-se-� na figura e obra de Jos� Vilhena, humorista, caricaturista, pintor e escritor, que teve o seu apogeu nos anos subsequentes a Abril de �74 e cujo labor em prol da lusitana gargalhada, apesar da provecta idade, se espraia j� desde a d�cada de 50 at� aos nossos dias. E, se dela estamos necessitados!...
Por agora, quanto �s Confiss�es de um Franciscano espero que vos mere�a uma indulgente aprecia��o, sabendo de antem�o que a obra n�o faz a devida justi�a ao visado.
Pegando na interroga��o com que o P:e Mel�cias inicia o primeiro cap�tulo, �Senhor, o que queres afinal de mim?�, n�s antecipamo-nos e ousamos responder: que continue como at� aqui, enfrentando os poderosos, mesmo se para isso tem de se mover no seu seio, para que o sup�rfluo que entesourem possa ser distribu�do por quem at� do essencial est� necessitado.
Obrigado a todos pela vossa presen�a, que muito me honra e pela qual vos fico, sem mais palavras, agradecido e penhorado.
(Excertos)
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