Parte 8
Quando Linda e Donna chegaram em casa, era de tardinha. Donna preparou uma refeição rápida para as duas e Linda olhou, apreensiva, enquanto o sol se punha. Ela obedeceu Donna e tomou um novo banho, em seguida colocou pijamas novinhos. Era noite quando ela terminou, e Donna deu o remédio receitado pelo Dr. Lachen. Elas estavam assistindo à televisão quando o pai dela chegou em casa. Num reflexo, Linda correu para o quarto e enfiou-se na cama. Donna seguiu-a:
- Linda?
Ela estava debaixo das cobertas, tremendo. Donna sentou-se na cama, indagando:
- Linda, o que há de errado?
- Nada - mentiu ela, a voz abafada debaixo das cobertas - Está na hora de eu dormir. Você tem que ir para casa.
Donna sentiu imediatamente qual era o problema:
- Linda, por favor. Vá dizer olá para o seu pai.
- Não!
- Linda, isso é tão feio. E você é uma garota tão boazinha. Não fica bem.
- Não... Por favor.. Não me obrigue.
- Não, eu não vou. Não vou obrigá-la a nada que não queira fazer, Linda. Mas eu esperava que você percebesse que seu pai gosta de você. Ele foi ao tribunal brigar para ter você perto dele, comprou essa casa bonita, e deu a você tudo de bom, Linda. O jeito que você o trata não me parece justo. Por que não pensa sobre isso?
- Tá bom.
- Eu te vejo amanhã. Boa noite.
- Tá bom.
Linda não se moveu, e ouviu Donna e o seu pai falando, depois a porta se fechando. O som foi o sinal para Linda pular da cama e trancar a porta. Só que... a porta não tinha tranca! Provavelmente para evitar que ela se trancasse.
Bom, isso não me deixa escolha, certo?
Ela se protegeu debaixo da cama. Em cima da cama, ela estaria muito vulnerável. E ela não iria se deixar ficar tão vulnerável diante daquele homem. Depois ela pegou o cobertor e o travesseiro. Era melhor passar a noite toda dormindo debaixo da cama. E assim ela fez, com o sono leve, alerta para qualquer barulhinho.
A manhã seguinte foi muito parecida com a anterior, o dia passou mais ou menos da mesma maneira. Ela falou de novo com o Padre Mulcahey, e sentiu-se verdadeiramente abençoada. À noite, havia o terror de ser deixada só com o pai. Os dias pareciam se repetir. Na sexta-feira, porém, o terror cresceu. Linda ficou aterrorizada.
- NÃO!
- Linda, é um fim de semana. Tenho folga nos finais de semana.
- Então me leve junto, por favor. Eu ficarei bem quietinha. Não vou dar nenhum trabalho! Por favor!
A garota estava à beira das lágrimas, e Donna estava mesmo emocionada. Ela abraçou Linda e disse:
- Linda, me escute. Essa é uma excelente oportunidade para você se aproximar de seu pai. Eu não sei o que você se lembra de sua infância, Linda, mas eu tenho que dizer que ele sempre me pergunta sobre você, e sempre pareceu bem preocupado com sua saúde.
Linda tremia nos braços dela e choramingou:
- Eu tenho tanto medo, Donna, me ajude. Por favor.
- Eu vou falar com ele, tá bom? Mas você tem que vir comigo.
- Não!
- Eu não vou falar com ele sozinha, Linda. Quero que você veja a reação dele. Precisa entender que ele não ganharia coisa alguma se machucasse você. Precisa me prometer, está bem? Eu não vou falar com ele a menos que você esteja comigo, entende?
Linda assentiu, relutante. Ela estava com medo, mas talvez fosse um jeito de acabar com o tormento. Oh, como ela desejava poder estar de volta ao pequeno apartamento dela, jantando com seus amigos...!
Aquela noite foi ainda mais temerosa do que as outras. Linda tinha prometido não correr e se esconder quando o pai chegasse aquela noite. Ela manteve a promessa.
Stanley Renner entrou pela porta da frente, tirou o casaco e colocou a pasta na mesinha perto da porta ao saudar:
- Boa noite, senhoras. Acho que o outono vem mais cedo esse ano. Está começando a esfriar.
Linda não respondeu e sutilmente ficou ao lado de Donna, que disse:
- Boa noite, Sr. Renner. Nós já jantamos. Gostaria que eu arrumasse algo para o senhor?
Ele sentou-se numa poltrona na sala de estar e afrouxou o nó da gravata, dizendo:
- Não, Donna, obrigado. Tiveram um bom dia?
- Sim, obrigada. Er... Sr. Renner, preciso de sua ajuda.
- Sim, o que é?
- Parece que nossa garotinha não quer que eu tenha folga.
Stanley Renner olhou para sua filha. Linda se encolheu atrás de Donna. Ele manteve a voz cuidadosamente neutra:
- Como assim, Donna?
- Ela está com medo de passar o fim-de-semana sozinha. Na verdade, ela está com medo de passar o fim-de-semana com o senhor.
O homem assentiu, calado, e Linda manteve-se atrás de Donna, mas sem se agarrar à enfermeira. Os olhos verdes estavam concentrados no foco de seu medo. Stanley Renner suspirou e disse:
- Linda, eu sei que deve estar com medo. Não a culpo. Por isso, tenho sido paciente com você. Fiz coisas muito feias no passado. Mas, exatamente como você, também tenho um médico, e agora estou muito melhor. Eu me sinto tão bem que acredito ser capaz de tomar conta de nós dois. Por isso o juiz a mandou para cá. Para ver se podemos ser uma família de novo. Você deve saber que a decisão dele não é final. Então, por que eu arriscaria minhas chances de ser seu guardião permanente?
Fazia sentido, Linda teve que admitir. Não só isso: ele estava falando. Linda só lembrava da voz dele gritando. Ele também não tinha aquele cheiro horrível que ele costumava ter quando ela era pequena.
- Você entende o que eu estou dizendo, Linda? - O pai dela continuou - Eu não vou machucar você. Acredite nisso.
Ela não sabe onde encontrou forças para responder, de tanto medo que tinha, mas mesmo semi-escondida atrás da sua enfermeira, respondeu:
- Eu entendo.
O pai dela deu um sorriso (outra primeira vez) e Donna também, ao dizer:
- Linda, eu verei você segunda-feira. Agora seja uma boa menina. Vamos, vou dar seu remédio.
Linda começou a tremer de novo e os olhos se encheram de lágrimas. O pai dela sugeriu:
- Donna, por que você não me mostra onde estão os remédios e eu darei a Linda antes de ela dormir? Eu vou ter que saber onde estão de qualquer forma.
- Sim, Sr. Renner.
Linda observou enquanto a enfermeira explicava ao pai sobre a medicação dela. Logo depois, ela tomou sua pílula. Mal Donna saiu, Linda foi para o quarto e caiu imediatamente no sono.
Quando Linda tentou se levantar, ela não parecia se sentir bem. O pai dela veio vê-la, colocou a mão na testa dela e ela sentiu como se estivesse num sonho. Ele enrolou Linda nas cobertas e correu com ela para fora do apartamento. Depois Linda caiu no sono de novo.
Na outra vez que acordou, Linda tinha uma intravenosa na mão. Ela conhecia essas coisas porque tinha trabalhado no hospital. Agora ela estava num hospital de novo, mas como paciente. O pai dela estava ao lado da cama dela, e ele disse que estavam tomando conta direitinho dela. Sem uma palavra, Linda virou o rosto e adormeceu de novo.
Ela estava no seu quarto mais uma vez. O Dr. Lachen estava tomando o pulso dela, e Linda se sentia um pouco tonta. O doutor indagou:
- Olá, Linda. Como se sente?
- Estou com sono.
- Você reagiu à medicação. Vamos mudar para que isso não aconteça, tá bom?
- Está bem.
- Sabe, você pode sentir que está engordando um pouco, mas isso é natural, entende? É outro efeito do remédio.
- Sim, Dr. Lachen.
- Boa menina. Você não tem febre, e o pulso é forte. Eu vou pedir que fique na cama só se quiser. Gostaria de tentar andar um pouco?
Linda fez que não com a cabeça e indagou:
- Posso dormir mais um pouco?
- Sim, mas primeiro precisa comer alguma coisa. Está com fome?
- Não muita.
- Mas precisa comer de qualquer modo. Seu pai está fazendo uma sopa.
Ela comeu bem pouco, sem graça com a proximidade do pai, e depois voltou a dormir. Ela estava mesmo com muito sono, mas por algum motivo pensou em Ben. Era saudade. Depois o sono venceu-a e Linda não pensou mais.
No dia seguinte, Donna acordou Linda, e ela estava se sentindo melhor, mas já que o tempo não estava nada bom, elas decidiram passar o dia em casa. Linha reclamou que ela queria ver o Padre Mulcahey, e Donna prometeu que elas iriam no dia seguinte. Elas passaram o dia fazendo biscoitos e conversando. Linda logo se cansou e estava dormindo na hora em que o pai chegou.
Linda acordou na manhã seguinte sentindo-se descansada, e Donna ficou feliz. Ela sentia que Linda não estava mais tão triste como estava quando chegara. A garota estava mesmo ansiosa para ir à igreja, e o dia ensolarado ajudou para que a caminhada pelo parque perto da igreja de St. Michael fosse ainda mais agradável. Falar com o Padre Mulcahey era ótimo, porque ela contava a ele tudo sobre Ben e Ray, e seus outros amigos, como eles eram, o que faziam, e o quanto ela sentia falta deles. Cada vez que fazia isso, era como se estivesse perto deles novamente. Linda explicou de novo a situação para o Padre Mulcahey. Como sempre, ele pediu que ela voltasse de novo àquela mesma hora.
Uma rotina logo ficou estabelecida, e Linda começou a relaxar mais na presença do pai, até mesmo durante os finais de semana. Não que houvesse uma intimidade, mas ela até arriscava sorrir para ele. Ele parecia gostar, mas tinha olhos tristes. Tão tristes quanto os de Linda. Ela começou a imaginar o que tinha puxado da mãe. Ele nunca falava dela.
As visitas ao Padre Mulcahey ajudavam mais do que as consultas ao Dr. Lachen. Linda não conseguia confiar no médico, por mais que tentasse. Sentia saudades do Dr. Lennyard.
Então houve a surpresa.
Como sempre, o Padre Mulcahey deixou Donna na nave da igreja e levou Linda à sacristia. Era assim que eles faziam, e Linda sabia que eles não podiam usar os confessionários porque ela não era católica. Desta vez, porém, em frente à porta da sacristia, o padre parou e disse:
- Linda, eu tenho uma surpresa para você.
- Mesmo? Que surpresa?
- Ora, se eu dissesse, deixaria de ser surpresa. Mas você precisa me fazer um promessa. Isso é um segredo e tem que permanecer assim. Precisa prometer não contar a ninguém sobre isso, nem mesmo Donna.
- Por quê?
- Porque é um segredo muito secreto - Linda ficou espantada - Agora entre. Espero que goste da surpresa.
Apreensivamente, ela abriu a porta da sacristia e entrou no aposento. Havia alguém ali, um homem de costas. O homem se virou quando a porta se fechou. E Linda não podia acreditar em seus próprios olhos.
- Ray...!
Sem nem se dar conta, ela correu para os braços dele e quase o derrubou. Quando deu por si, ela estava soluçando nos braços dele, repetindo o nome dele, tocando nele. O italiano estava emocionado, também, e disse, em voz trêmula:
- Ei, garota. Está tentando estragar meu paletó, é?
Tentando parar de chorar, Linda conseguiu dizer:
- Ray, estou tão feliz de ver você...
Ele fez com que ela se sentasse no sofazinho da sacristia e sentou-se ao lado dela, dizendo:
- Estou vendo que está bem. Até ganhou peso. Ma vai ficar feliz de saber.
Linda disse, sem parar de tocá-lo:
- Sinto tanta falta dela. E de Frannie. De Maria e Tony e das crianças, também.
- Todos mandaram lembranças - sorriu ele - Eles também sentem sua falta.
- Onde está Ben?
- Ele está em Ottawa. Por isso não pôde vir.
O coração de Linda quase parou quando ouviu isso. Ela sentiu uma mão gelada apertando-lhe o peito, mas conseguiu indagar - num sussurro:
- Ele... voltou para o Canadá?
- Só por uns dias - disse Ray - Ele teve que extraditar um criminoso. Não pude esperar até ele voltar, porque o risco seria grande para o Padre Mulcahey. Se alguém descobrir, ele pode ficar encrencado. Devemos ter muito cuidado.
- Eu sei. Ray, você pode ir parar na cadeia!
- Só se alguém descobrir. E por falar nisso, aquela mulher é sua guarda-costas, ou o quê? Ela não deixa você em paz!
- Ela é minha enfermeira, Ray. Meu pai insiste que eu tenha uma.
- Você está bem? - Ray a encarou com atenção para indagar - Seu pai a tem tratado bem?
- Ele tem me tratado bem, Ray - tranqüilizou ela, ao ver os olhos verdes italianos cheios de preocupação - Ele disse que não arriscaria perder a ação pela minha custódia permanente.
- De qualquer forma, você sabe o que fazer, não? Lembra o que eu disse para você fazer?
- Eu lembro, Ray. Devo escapar dele, depois correr o mais rápido que puder e ligar para 911.
- E se isso não certo?
- Se não puder escapar, tenho que gritar o mais alto que puder para chamar os vizinhos.
- Essa é minha garota - Ray sorriu e abraçou-a de novo - Pena que não temos muito tempo.
Linda aninhou-se em seus braços:
- Gostaria de poder ir para casa com você, Ray.
- Estamos trabalhando nisso, Linda. Lembre-se disso, tá bom? Agora não podemos fazer muito, e você pode achar que nós nos esquecemos de você, mas isso não é verdade. Estamos trabalhando duro e fazendo de tudo para trazê-la de volta. Mas isso precisa ser feito de acordo com as regras, entende?
- Entendo, Ray. - Ela sorriu e acariciou o rosto dele - Eu tinha até esquecido como você cheirava bem.
Ele riu e disse:
- Você passou tempo demais com Benny.
- Ray, ele está bem? Tenho sentido tanto a falta dele.
O italiano deixou o sorriso cair e disse:
- Ele também se sente só sem você, Linda. Tem sido duro para ele. Ele sente como se tivesse abandonado você na hora que você mais precisava.
- Não, não é culpa dele!
- É o que eu tento dizer a ele. Mas Benny... Você sabe como ele é.
Linda começou a chorar de novo.
- Sinto tanta saudade dele, Ray. Por que não posso vê-lo?
- Sabe o que o juiz disse. E Benny ainda não sabe desse esquema que montamos com o Padre Mulcahey. Foi o padre Biehn que montou tudo. Quem sabe ele vem numa outra vez?
- Não sei se ele viria, Ray. Seria desrespeitar a lei.
- Linda, talvez Fraser queira arriscar. Seria difícil para ele desrespeitar a lei, mas, quando eu disser a ele que estive com você e que falei com você, talvez ele possa aceitar. Mas é melhor você não esperar. Se formos pegos...
- Não vamos ser! Eu não vou falar nada! Nem uma palavra. Prometo, Ray - Ela o abraçou de novo - Você está tomando conta de Diefenbaker?
- Sim.
- Então não se esqueça de dar cenouras para ele. Ele precisa das vitaminas para o pêlo. E não se esqueça que o tenente Welsh gosta do capuccino dele descafeinado. Elaine cortou o cabelo como ela queria?
- Como eu vou saber?
- Frannie deve ter comentado.
- Não, ela não falou, ou eu não ouvi, Linda, mas pode ficar tranqüila. Vou dizer a todos que falei com você.
Ela se lembrou de repente:
- Recado importante: diga ao Dr. Lennyard que eu estou com um médico novo. Ele mudou o remédio, mas eu não sei o nome, e aí eu fui parar num hospital. Mas agora estou bem.
- Qual é o nome do médico?
- É aquele que estava na audiência:. Lachen.
- Vou levantar a ficha dele.
- Acho que não é culpa do médico, Ray. Foi só a medicação. Eu reagi mal. Acontece.
- Está bem, Linda. Mas não baixe a guarda.
Nesse momento, eles ouviram uma batida na porta. Ray disse:
- É o sinal do Padre Mulcahey. É melhor você ir agora.
Linda se atirou nos braços dele:
- Amo você, Ray.
- Também amo você, garota. Eu vou tentar trazer Benny, OK?
- Por favor, faça isso. Diga a ele que eu o amo.
- Eu vou dizer. Agora vá, antes que a coisa complique.
Linda relutantemente saiu da sacristia e foi recebida pelo Padre Mulcahey, com um sorriso:
- Espero que tenha gostado da surpresa.
Ela não pôde se conter e abraçou o padre também, em prantos. Ele disse:
- Agora, Linda, se é assim que você vai se portar, eu não poderei mais preparar nenhuma dessas surpresas. Você gostaria de mais, não gostaria?
Ela assentiu e tentou conter as lágrimas. Depois disse:
- Desculpe. Eu só...
- Sim, eu sei. Mas é melhor irmos. Sua amiga está esperando.
Ele a levou para o lugar onde Donna esperava e Linda enxugou as lágrimas. O Padre Mulcahey sugeriu:
- Devia trazer seu pai também, algum dia. Aos domingos temos missa.
Donna disse:
- Eu acho que vou sugerir isso mesmo, padre. De novo, muito agradecida por sua atenção para com Linda.
- Ela é uma garota adorável. E vem à igreja com mais regularidade do que muitos dos meus paroquianos.
A enfermeira indagou:
- Pronta, Linda?
A garota assentiu e, num impulso, abraçou de novo Padre Mulcahey, agradecendo:
- Muito obrigada.
As duas moças saíram da igreja e Linda olhou em volta da quadra. Não havia sinal do Riv. Ou Ray já tinha ido embora pelos fundos, ou ele tinha escondido o carro.
Ver Ray tinha sido uma daquelas bênçãos dúbias. Por um lado, tinha sido ótimo vê-lo, tocá-lo. Ela sentia tanta saudade dele! Por outro lado, a visita tinha lembrado a ela o quando ela sentia falta não só de Ray mas também de Benny, Dief, e de seus amigos. E ela não podia falar nada a ninguém. Donna observou apenas que Linda estava mais quieta aquele dia, mas não pôde identificar o motivo.
Vozes altas acordaram Linda na manhã seguinte. Pé ante pé, ela abriu a porta do quarto e ouviu o pai gritando com Donna. Agindo por puro instinto, ela correu de pijama e tudo e usou o próprio corpo para proteger Donna, gritando com raiva para o pai:
- Não machuque Donna!
A enfermeira tentou acalmá-la:
- Não, Linda, está tudo bem! Tudo bem!
Com o corpo tremendo de raiva e medo, Linda indagou à amiga, sem tirar os olhos do pai:
- Ele a machucou? Eu não vou deixar que ele a machuque!
Donna virou Linda, para que ela a ouvisse e disse:
- Linda, escute. Eu não estou ferida. Seu pai e eu só estávamos tendo uma discordância sobre uma decisão que ele tomou a seu respeito.
- Sobre mim? - Linda olhou para o pai, que não fez qualquer esforço para manter a conversa.
- Ele quer que você pare de ir a St. Michael.
Linda quase entrou em pânico e virou-se diretamente para o homem, os olhos cheios de dor e mágoa:
- Não posso ir à igreja? Por quê? Não entendo!
O pai dela disse:
- Linda, você não está indo lá por motivos religiosos. Não é justo para os padres, que têm sido tão gentis em falar com você. mesmo que você não seja da religião deles.
- Eu estou indo lá por razões religiosas sim - insistiu ela, quase em lágrimas. - Falamos de Deus e essas coisas. O Padre Mulcahey até disse que eu era quase uma... uma... uma paroquidana.
- Paroquiana - corrigiu Donna.
- Bom, seja lá como for, eu não sou católico - lembrou Stanley Renner - Além disso, você está dizendo a esse padre coisas que o Dr. Lachen deveria saber. Não é função dele.
Linda agora passara a implorar:
- Por favor, por favor, deixe eu ir lá! Por favor, deixe-me fazer isso!
- Você não deve ir mais lá e isso é final - Ele disse severamente - E lembre-se disso: se você tentar ir para lá, eu saberei. Porque eu sei o que aconteceu lá antes, e eu tenho meios de saber o que vai acontecer.
Aquelas palavras fizeram Linda parar, petrificada, olhos arregalados. Ela correu para o quarto, aterrorizada até o último fio de cabelo ao perceber que o pai dela sabia que ela tinha falado com Ray na igreja. Ela chorou demais aquele dia, e recusou-se a sair do apartamento, também recusou-se a falar com Donna, choramingando que não era justo. Donna também não entendeu muito o que se passava, mas ela segurou Linda e abraçou-a, tentando acalmá-la.
Mas Linda estava fora de controle, além de qualquer consolo. A única esperança que ela tinha de ver Fraser tinha sumido no ar, bem como sua amizade com o Padre Mulcahey. Ela valorizava a amizade com o religioso porque era totalmente separada de tudo que o pai dela lhe dera. Ela se sentia livre falando com o padre. Mas agora tudo tinha terminado. O pai dela sabia o que ela tinha feito, e não daria qualquer refresco para ela. Ele parecia saber de tudo, parecia estar em todos os lugares, parecia que nunca iria deixá-la em paz. Se Linda imaginava que antes as coisas tinham sido ruins, dali para frente seriam ainda piores, com ele vigiando tudo que ela fazia. A perspectiva fazia a garota chorar ainda mais de desespero. Eventualmente, os soluços foram diminuindo, e de noitinha Linda rendeu-se ao cansaço, emocionalmente exausta de chorar o dia todo.
A enfermeira observou a garota ficar cada vez mais quieta após aquele episódio. A introspecção de Linda piorava à medida que as semanas passavam. Donna notou que a garota começou a ganhar muito peso, e perder algumas habilidades físicas básicas. Ela tentava estimular Linda a fazer exercícios, sem sucesso. De repente, Linda estava incapacitada de fazer tarefas que sempre fizera. Logo, Donna notou que ela também não conseguia mais manter a higiene pessoal. Falar com ela a esse respeito só resultava em lágrimas. Era claro para a enfermeira que a medicação tinha um papel muito importante na retração de Linda. Depois Linda começou a apresentar sinais de confusão mental. O que antes era ocasional tornou-se habitual: às segundas-feiras Linda geralmente estava doente demais para deixar a cama.
Em pelo menos duas ocasiões Donna tentou alertar o Dr. Lachen do que acontecia, como a profissional encarregada do cuidado de Linda. As sugestões e observações dela encontraram uma resistência férrea e na última vez que isso acontecera, Donna decidiu que a melhor estratégia no momento era uma retirada discreta. Ela podia retomar o assunto mais tarde. Portanto, ela pegou Linda na sala de espera e tomou um táxi para casa. Elas não pegavam mais nem o El nem o ônibus. E não era apenas por causa da neve que começava a castigar Chicago, mas também porque caminhar cansava Linda rapidamente, de tão gorda que ela tinha ficado. Caminhar pelo bairro também era um programa que tinha ficado perdido, pela mesma razão.
Naquele dia, assim que elas chegaram em casa, Donna deu banho em Linda, certificou-se que ela comera todo o jantar (ela não fazia mais aquilo sozinha), e deu a ela o remédio antes de colocá-la na cama. Ao ver Linda dormir, Donna sentiu uma dor em seu coração por tudo que a garota estava passando. Ela tinha se afeiçoado a Linda naqueles poucos meses, e agora estava ficando preocupada com a saúde da garota.
Na manhã seguinte, quando Donna chegou ao apartamento, viu que a chave tinha algum problema. Ela não conseguia abrir a porta. Ela tocou a campainha e quando o Sr. Renner abriu a porta, ela explicou:
- Desculpe, Sr. Renner, mas parece que minha chave tem -
Ele a interrompeu:
- Entre, Donna, por favor.
Ela entrou e encontrou uma outra moça no apartamento, mais ou menos de sua idade. Tinha um uniforme de enfermeira. O Sr. Renner disse:
- Donna, essa é Erica, e a partir de hoje ela será sua substituta. Eu agora vou lhe pagar o resto do salário desse mês, mais o do mês que vem e um abono de Natal, e aliviá-la de todos os deveres sobre minha filha.
Donna não entendeu direito:
- Espere. Está me demitindo?
- Acredito ter dito exatamente isso.
- Mas por quê? Achei que gostasse de meu trabalho.
A voz de Renner era imperturbável e neutra:
- Você se tornou um risco. Está questionando os métodos do médico que eu escolhi e o remédio que ele prescreveu. Como saberei se você realmente vai dar à minha filha a medicação que o médico dela receitou? E se você decidir que o remédio fará mal a Linda e não der o que ela precisa? Eu não permitirei isso.
- Mas Sr. Renner, eu jamais -
Ele a interrompeu de novo:
- Donna, quero que saiba que sou muito grato a você pela sua dedicação à minha filha. Ela gosta muito de você.
- Sr. Renner, eu não -
- Pode ir agora, Donna - Não era agressivo, mas a ordem estava clara - Mas por favor não volte. Temo que Linda possa ficar agitada se a vir.
Donna o encarou e viu apenas determinação nos olhos claros, que não tinham qualquer semelhança com a doçura dos de Linda. Então ela suspirou e disse:
- Sim, senhor. Lamento tê-lo desagradado. Eu só pensava em Linda. Por favor, veja que ela caminhe com regularidade. Ela reclama, mas precisa do exercício.
- Eu tomarei conta dela, Donna. Obrigado por tudo.
- Diga adeus a ela por mim, por favor. Vou sentir falta dela.
- Adeus, Donna.
A enfermeira deixou o prédio de apartamentos com o distinto sentimento de estranheza. Ela sabia que não tinha feito nada de errado para Linda, mas ainda assim havia algo errado sobre a coisa toda. Talvez aqueles amigos que Linda vivia falando pudessem saber de alguma coisa. Como era o nome daquele amigo? Ray... Vecchio, algo assim. Na polícia. Talvez eu possa encontrá-lo.
* * *
Só os anos de treinamento numa das melhores forças policiais de todo o Hemisfério Norte fizeram com que ele se mantivesse imóvel à espera de ser chamado para dentro do consultório. Fraser viera assim que o pedido do Dr. Lennyard tinha sido recebido no consulado.
- Constable Fraser, obrigado por vir. Mas achei que iria querer ser o primeiro a saber.
- Dr. Lennyard, o que houve? Sua mensagem não foi muito informativa.
- A Srta. Weiner acaba de receber uma ligação do advogado do Sr. Renner. Eles querem antecipar a audiência de Linda e retornar a custódia dela ao Estado.
- Não entendo.
- Estão desistindo de Linda. Aparentemente o pai dela disse ter confiado nas pessoas erradas e o médico deu para ela o tratamento errado.
- Já sabíamos disso - lembrou Fraser - Aquela antiga enfermeira dela nos disse que ela estava piorando a cada dia. E isso foi antes do Natal.
- Sim, e depois do que aconteceu... - Dr. Lennyard evitou mencionar a tentativa de Fraser de trazer a garota de volta. Ele quase fora preso, acusado de tentativa de rapto, e ameaçado de deportação - Bem, parece que agora o Sr. Renner está extremamente arrependido de tudo que fez e quer consertar as coisas.
- Faz quase seis meses. A ordem judicial ainda está de pé.
- Vou me encontrar com a Srta. Weiner e pediremos permissão para ir ao apartamento ver Linda. Na presença do advogado, claro.
Fraser olhou para o psiquiatra, que abanou a cabeça antes mesmo que ele abrisse a boca:
- Antes que peça, não, eu lamento, mas não pode ir.
- Eu calculei que não. - Ele abaixou a cabeça - Poderia me dizer como tudo saiu?
- Eu ligo para o consulado.
- Obrigado, Doutor.
- Vamos trazê-la de volta, Constable. Não vai demorar. Confie nisso.
Fraser sorriu para ele, assentiu e saiu do consultório, Diefenbaker seguindo-o. O lobo estava preocupado com seu parceiro humano e ganiu. O cheiro de Linda estava registrado nas narinas lupinas, e ele podia sentir os pensamentos de Fraser voltado para ela. Ele estava ficando ansioso.
Ao menos agora Fraser parecia mais controlado. Ele reagira muito mal à separação forçada e por um tempo ficou ainda mais retraído do que o normal. Ray tinha que se esforçar para trazê-lo de volta ao mundo exterior. Quando Ray lhe disse que tinha visto Linda e falado com ela, Fraser entrou em parafuso. Depois eles foram falar com o padre Mulcahey. O padre não tinha boas notícias. Ele tinha ficado surpreso ao receber a visita de dois cavalheiros estranhos no bairro avisando que por decisão do pai, Linda não iria voltar à igreja. Jamais. Durante a visita dos dois homens, o padre sentiu o tom de ameaça presente no ar.
Foi aí que Fraser realmente perdeu o controle. Ele tentou arrombar o apartamento do Sr. Renner para levar a garota de uma vez por todas. Fora preso, mas depois Renner retirara a queixa. Fraser quase se viu no meio de um processo de deportação. Só tinha sido solto sob a supervisão da Inspetora Thatcher e um compromisso formal de ver o Dr. Lennyard - profissionalmente. Era como uma terapia, e ajudara a mitigar a dor. Até aquele chamado do psiquiatra, que reacendera suas esperanças de ver Linda.
* * *
Duas semanas mais tarde, o canadense estava sentado no salão de audiências, ansiosamente girando sem parar o Stetson em suas mãos. Seu coração certamente devia estar numa taxa de batimentos considerada estressante pelos cardiologistas. Ray o fez parar com o movimento do chapéu pondo gentilmente uma mão em seu braço. Depois ele disse, com uma voz gentil:
- Não vai demorar agora, Benny.
Fraser deu um sorriso nervoso. O coração dele parecia querer pular do peito. O juiz continuava a falar e falar sobre valores de família, mas Fraser não conseguia ouvi-lo. Toda sua atenção estava concentrada no homem que o encarava. Stanley Renner parecia muito diferente da última vez que Fraser o vira.
Não admira. Durante meses, Ray tinha se dedicado a uma investigação nas horas vagas sobre o pai natural de Linda. Parecia que depois de anos de bebedeira e de pequenos delitos pelo país afora, no momento, ele era contador para uma família mafiosa da parte oeste de Chicago. Mas não tinha jeito de provar. O médico que Linda estava freqüentando também tinha sido uma opção da máfia. O Dr. Lachen tinha algumas acusações de negligência pendente contra ele no conselho de medicina.
Todas aquelas informações tinha sido levadas ao Juiz Renyolds, mas nem assim ele tinha mudado de idéia sobre a custódia de Linda. Só agora, dois meses depois, e com a admissão de Stanley Renner de que ele tinha falhado ao cuidar da filha, a situação poderia ser remediada. No final os seis meses determinados pelo Juiz Reynolds terminaram se passando do mesmo jeito.
Naquela manhã, na corte, Stanley Renner dissera ao juiz que estava muito triste pelo que tinha feito, mas ele confiara nas pessoas erradas. De acordo com ele, o Dr. Lachen (que tinha desaparecido, aparentemente fugido do país) tinha feito coisas ruins com Linda, e ele sentia que não tinha sido um bom pai para ela. O juiz foi severo com o velho homem, falando sem parar sobre os valores familiares e como era importante para Linda experimentar isso. Quase em lágrimas, Stanley Renner respondeu que Linda não estava em condições de experimentar coisa alguma. O juiz disse que veria isso por seus próprios olhos antes de decidir qualquer coisa, e ordenou ao meirinho que trouxesse a Srta. Lyme.
O coração de Fraser quase parou. Aquele era o momento pelo qual ele esperara. Linda estava ali e ele finalmente poderia vê-la!
A animação sumiu quando ele viu Linda ser trazida numa cadeira de rodas sem mostrar sinal de vida nos seus lindos olhos verdes, agora apagados. Ela estava obesa e vestida de uma maneira que normalmente não estaria, o cabelo estava mais curto do que Fraser jamais a tinha visto. A cadeira de rodas era puxada por uma enfermeira de uniforme tradicional, e ela colocou Linda perto do juiz. A moça não reagiu. Foi chamada à exaustão e sequer ergueu a cabeça.
Stanley Renner cochichou com sua advogada e ela com Ms. Weiner, e ficou estabelecido com o juiz Reynolds que Linda não tinha condições de prestar testemunho. O juiz estava assombrado;
- Como isso pôde acontecer? Há seis meses, eu falei com uma jovem à beira da socialização. Independente, ativa e esperta. Agora ela mal escuta seu nome...! Parecem duas pessoas diferentes!
- Ela não pode falar, Meritíssimo - disse a advogada de Renner, constrita - A medicação que ela tem tomado a impede de fazer isso.
- Sr. Renner - disse o juiz, quase rosnando -, como isso foi acontecer?
- Eu lhe disse que tudo foi minha falta, Meritíssimo. Eu confiei nas pessoas errada, acreditei no que diziam e eles fizeram isso à minha garotinha. - O homem pareceu estar à beira das lágrimas - Eu não posso me perdoar, senhor. Ela era tão ativa, tão esperta, e agora, por minha culpa...
Ele fechou os olhos e não pôde terminar a sentença. O juiz virou-se para a outra parte e indagou:
- O Estado está pronto a tomar responsabilidades pela moça?
A Srta. Weiner se ergueu:
- Sim, Meritíssimo. Já fomos alertados com antecedência pelo Sr. Renner sobre as condições de Linda e estamos prontos para removê-la.
O juiz suspirou e depois meneou a cabeça, dizendo:
- Estou me segurando aqui, senhoras e senhores. Sr. Renner, se não fosse pelo seu aviso antecipado a essa corte a respeito da condição de Linda, eu o indiciaria agora mesmo por abuso e negligência com relação a uma pessoa incapacitada. Aviso que ainda poderei processá-lo por qualquer dano que essa moça possa vir a ter em conseqüência do seu péssimo julgamento. Em seis meses, o Estado deverá me apresentar um relatório e diagnóstico médico da condição de Linda. Se qualquer dano permanente à saúde dela for encontrado, então eu o farei conhecer a lei a fundo, Sr. Renner.
O homem parecia bem intimidado:
- Sim, Meritíssimo.
- O Estado tem agora custódia da Srta. Linda Lyme, que deve ser retirada da guarda de seu pai natural. Contudo, ele pode visitá-la em intervalos periódicos. Os dois advogados devem organizar um cronograma de acordo com a conveniência das partes. Repito mais uma vez, Sr. Renner: se Linda apresentar qualquer dano permanente, o senhor será processado, e o Dr. Lachen será arrolado como co-responsável. Caso encerrado.
Mal o meirinho ordenou que todos se erguessem, Fraser correu para o lado de Linda. Stanley Renner observou a cena enquanto saía discretamente da sala de audiências. A moça estava na cadeira de rodas, cabeça abaixada, olhando para o próprio colo, alheia ao mundo lá fora. O Dr. Lennyard pegou uma lanterna do bolso, ergueu a cabeça dela e examinou-lhe as pupilas, depois pegou os braços dela e xingou baixinho. Ao seu lado, Ray quis saber:
- Como ela está?
O psiquiatra suspirou pesadamente e respondeu:
- Ela está fortemente drogada, não só sedada. Eu terei que interná-la no hospital psiquiátrico.
Fraser imediatamente pediu:
- Não. Por favor. Ela implorou que não a internassem. Ela não queria isso.
- Eu lamento, Constable, mas eu não tenho escolha - disse o médico - O estado dela é... inacreditável. Além disso, ela precisa de extensos exames. E não creio que esteja muito consciente nesse exato momento. Ela precisa se internar.
Ray disse:
- Mas tínhamos preparado tudo para que ela não precisasse ir para um lugar assim.
- Tentarei limitar a estada dela no hospital ao mínimo possível. Mas nesse momento, ela precisa de intenso tratamento médico. Assim que ela começar a responder ao tratamento, eu a tirarei.
Fraser apareceu todos os dias que pôde durante as três semanas em que Linda permaneceu na ala psiquiátrica. Ela estava catatônica na maior parte do tempo, dormindo muito e virtualmente sem reconhecer qualquer um. Médicos lhe davam exercícios para que não perdesse movimento dos membros, e também estimularam-na a falar. Duas semanas mais tarde, ela começou a mastigar a própria comida, e o Dr. Lennyard considerou aquilo um bom sinal. Os olhos dela pareciam menos distantes. Ela reconheceu as pessoas à sua volta, os olhos acompanhando os movimentos das enfermeiras e visitantes. Quando ela foi capaz de verter lágrimas, ainda que sem emitir qualquer som ou mudar sua expressão facial, o Dr. Lennyard sabia que era hora de fazer os preparativos de sua alta.
* * *
Ao ser liberada para voltar para casa, Linda ainda precisava de cuidados de 24 horas por dia. Ela voltou para o antigo apartamento (a senhoria tinha guardado o imóvel a pedido de Fraser), e Donna concordou em trabalhar seis dias por semana por uma fração do que ela cobraria normalmente, mas não as noites. Um rodízio foi montado para isso - Ray, Fraser, a Sra. Vecchio e Frannie estariam com ela durante as noites da semana. Aos sábados, Ray e Fraser se mudavam para até a manhã de segunda-feira, quando Donna assumia. Comida e lavanderia eram cortesia da casa Vecchio.
De modo dolorosamente vagaroso, a moça começou a responder ao tratamento. Linda rapidamente recuperou habilidade de locomoção. Cada pequena vitória era comemorada. Donna a elogiava, e à noite, Fraser também faria a mesma coisa. Depois ela verteria lágrimas, mas seu rosto ainda estava ausente de qualquer emoção.
Quando ela recuperou total habilidade de locomoção, Donna a levava para caminhar. A vizinhança era bem diferente daquela de seu pai, mas sempre que o tempo permitia, Donna tomava um táxi e levava Linda para o Lincoln Park. Nem mesmo a natureza conseguiu arrancar uma resposta mais rápida de Linda. Ela ainda não falava nem demonstrava qualquer emoção.
Outros progressos vieram de maneira inesperada. Sozinha, Linda ia ao banheiro quando precisava. Ela também pegava frutas na cozinha. Donna reparou que Linda faria essas coisas quando ninguém estava por perto, ou quando Donna estava ocupada longe dela. De acordo com o Dr. Lennyard, esse era um bom sinal, e uma espécie de recado para que a deixassem ter mais autonomia.
Contudo, todos consideraram um evento espetacular uma noite em que Fraser a colocava para dormir, e ela estendeu o braço, colocando a palma de sua mão na bochecha dele, com carinho. Tocar não era algo que ela fazia facilmente, e Fraser sorriu para ela. Então ela disse, alto e claro:
- Ben.
Ele pensou que fosse explodir. Ele a abraçou forte e chorou. Depois ele sentiu algo molhado em seu peito. Linda também chorava.
Durante semanas, aquela foi a única palavra que ela pronunciou. Ela só falava "Ben", e só para ele, só quando os dois estavam sozinhos.
Tudo aquilo era tão doloroso para ele. Ver Linda naquele estado o arrasava. O Dr. Lennyard explicou que era uma indicação clara que ela tentava colocar uma âncora para a realidade. Eles estavam finalmente vencendo a medicação que tanto mal fizera a ela.
Assim que Linda começou a ter locomoção, ela passou a ir regularmente ao Dr. Lennyard, ao invés de o médico vir vê-la. O contato com o mundo exterior era extremamente importante, ressaltou o psiquiatra. As duas moças pegariam o El ou um ônibus, ou raramente um táxi, para ir até o consultório. Se o tempo permitisse, Donna preferiria que elas caminhassem de volta para casa, parando para tomar sorvete ou fazer um lanche.
À noite, diferentes pessoas tomavam conta de Linda, que não reagia. Todos foram orientados por Dr. Lennyard sobre como agir e Donna também deu-lhes noção de enfermagem. A Sra. Vecchio disse que tudo era muito parecido a tomar conta de uma criança pequena. E era bem verdade.
Depois que Linda falou sua única palavra, Fraser recebeu autorização de trazer Diefenbaker para o apartamento. Linda não reagiu enquanto Dief alegremente lambia-lhe o rosto, pulando no seu colo e colocando o focinho perto da mão dela. Contudo, ela acariciou o pelo macio do lobo quando Fraser virou-se de costas. Depois ela se inclinou na direção de Fraser e aninhou-se no peito dele, suspirando:
- Ben...
Ele beijou o topo da cabeça dela e a segurou em seus braços. Dief ganiu baixinho, e Linda estremeceu. Fraser a colocou na cama, e depois contou-lhe uma fábula inuit. Ele podia ver que os olhos dela sorriam, antes de cair no sono, murmurando bem baixinho:
- Ben...
* * *
Mais dois relatórios e Ray Vecchio estaria saindo dali. Ele poderia deixar o distrito mais cedo de tarde e era uma chance de estar com Linda e Donna. Assim fariam mais exercícios de fisioterapia. Ray gostava de ajudar e a enfermeira notou que Linda também parecia apreciar os esforços dele, então encorajava-o a ajudar a aplicar os exercícios sempre que podia. Portanto, Ray Vecchio era um homem apressado naquela tarde. Ele datilografava furiosamente, correndo contra o relógio. Então o telefone da sua mesa tocou.
- Vecchio.
- Estou procurando por um Ray Vecchio.
- Já achou.
- Espere um pouco. Alguém quer falar com você.
Ray não entendeu o que estava acontecendo e perguntou:
- Alô? Quem está falando?
Ele ouviu uma voz familiar:
- Ray. Ajuda.
Ele quase perdeu a voz, mas se recuperou a tempo:
- Linda? Linda, o que aconteceu?
- Donna doente.
Isso não é nada bom, ai meu Deus, pensou Ray. Nada de pânico.
- Linda, onde você está?
- Hospital.
- Olhe, não se mexa, tá bom? Eu vou já para aí. Pode dar o telefone para aquela outra pessoa?
- Não.
- Aquele homem foi embora?
- É.
- Linda, pode colocar uma outra pessoa no telefone?
- Tá.
- Então faça isso, querida.
Um pouco depois, Ray ouviu uma voz masculina:
- Alô.
- Cara, aqui é a polícia. Qual é o seu nome?
- Dr. Martin Henke. Quem está falando, por favor?
- Detetive Ray Vecchio. Olhe, doutor, o senhor está com uma moça traumatizada bem a seu lado. O nome dela é Linda. Ela mal consegue falar. Estou indo buscá-la, mas preciso que tome conta dela até eu chegar. Pode fazer isso?
- Pois não, detetive.
- Que hospital é esse?
- Cook County.
- Beleza! Dê-me 30 minutos. Já estou a caminho e procuro pelo senhor, Dr. Henke.
O primeiro impulso de Ray foi sacar sua arma assim que entrou na sala de emergência do hospital de Cook County. Era caos total, com pessoas entrando e saindo, outras esperando. O detetive se apresentou no balcão e perguntou à atendente:
- Por favor, estou procurando o Dr. Henke.
Ela apontou para um médico que corria atrás dele:
- Você o achou.
Ray correu atrás do homem, um louro nos seus quarenta anos, e disse:
- Dr. Henke? Ray Vecchio!
Sem parar de caminhar, o outro homem sorriu e voltou a enfiar o rosto numa prancheta médica:
- Olá, detetive. Prazer. Se me der licença, tenho uma emergência.
Ray o seguia em meio aos corredores cheios e disse:
- Tudo bem, doutor, eu só vim buscar Linda. Onde ela está?
O Dr. Henke não parou nem para entrar na sala de exames:
- Ela está segura, detetive. Mas precisamos conversar. Espere por mim, tá bom?
Então a porta se fechou e Ray ficou do lado de fora, ainda sem saber onde Linda poderia estar naquela confusão. Ele começou a ficar angustiado e impaciente. Ele voltou ao balcão de informações.
- Oi, estou procurando por uma moça chamada Donna. Ela provavelmente passou mal na rua, e estava com uma outra moça, uma bem confusa.
A enfermeira perguntou:
- Fala de Linda?
Ray estava assombrado que a moça a conhecesse:
- Ela mesma. Pode me ajudar?
- Claro que sim. Donna está na Sala 2, mas não pode vê-la agora. Linda está em avaliação, mas deve sair em breve.
- Avaliação?
- O Dr. Henke ordenou. Achei que soubesse disso.
O italiano estava perdendo a paciência:
- E o que posso fazer?
- Pode esperar bem aqui. Mas não posso autorizar sua entrada ali.
Ray explodiu, impaciente:
- Ótimo! Só não me deixe apodrecer aqui!
As palavras deles nem tinham terminado de desaparecer no ar quando outra enfermeira veio para ele e sorriu antes de indagar, numa voz calma e controlada:
- O senhor é o detetive Vecchio? Venha comigo, por favor.
- Não consigo uma resposta - ele disse, seguindo-a, mas ainda aborrecido - Será que alguém pode me dizer o que aconteceu com Donna e Linda?
A enfermeira ignorou as reclamações dele e respondeu:
- Donna está medicada. Parece que ela teve uma queda de pressão na rua, desmaiou e alguém chamou 911. Linda chamou pelo senhor.
Ray empalideceu ao seguir a moça:
- Oh, não. Como elas estão?
- Como eu lhe disse, Donna está sendo medicada e Linda foi avaliada pela equipe do Sr. Henke, e parece que ele está considerando pegar o caso dela.
- Equipe?
- Ele é o nosso fisioneurologista-chefe.
- Linda já tem um médico. Ele é um psiquiatra.
- Pode falar com ele sobre isso mais tarde - Ela abriu uma porta. - Ali está ela. Pode falar com ela.
Ray entrou numa sala de exames e viu Donna deitada, com um belo conjunto de intravenosa sendo retirado por um enfermeiro. Ela o viu parado à porta e chamou:
- Detetive Vecchio?
- Donna, está bem?
- Estou ótima agora - Ela parecia embaraçada. - Não sei o que houve. O médico quer que eu faça alguns exames. Meu marido está a caminho.
- Precisa de alguma coisa?
- Quero saber o que aconteceu a Linda. Eles a levaram para o hospital, foi a última vez que eu a vi.
Ray tranqüilizou-a:
- Ela está ótima. Ela me telefonou.
A moça parou de massagear o pulso dolorido pela intravenosa e encarou Ray, espantada:
- O quê?!
Ele assentiu, sorrindo o dia inteiro:
- Isso mesmo. Ela falou comigo pelo telefone. Chamou meu nome.
Donna estava tão surpresa que pediu a Ray para lhe contar a estória toda com detalhes. Depois ela pediu que ele repetisse tudo. O fato de que Linda tivesse falado apenas palavras esparsas não a impressionou. Donna estava muito animada. Era um sinal muito bom da recuperação de Linda.
Quando a enfermeira disse a Ray que ele podia ver Linda, ele quase abandonou Donna sem sequer dizer adeus. Mas quando ele disse que esperaria o marido dela chegar, a moça sorriu e disse que ela ficaria bem, porque o marido dela estava mesmo para chegar a qualquer momento. Então Ray correu para ver Linda.
Ela estava na sala de recreação da ala pediátrica A equipe do Dr. Henke achou que ela poderia reagir ao estímulo das crianças. Estavam errados. Na sala, decorada com bichinhos e papel de parede colorido e alegre, meia dúzia de crianças entre idades de 4 e 8 brincavam sentadinhas numa mesa. Linda estava deitada no canto da sala, num colchãozinho obviamente destinado a uma criança muito menor do que ela. Mas ela estava encolhida numa bolinha de qualquer modo, e o corpo dela estava todo no colchãozinho. Os ombros de Ray caíram, ao ver o estado desanimado dela. Então ele se empertigou e entrou na sala. Ela estava de olhos fechados, parecia dormir. Ray a chamou com gentileza:
- Linda? Linda, querida, sou eu: Ray.
Ela abriu os olhos, depois olhou para ele. Não havia expressão em seu rosto, mas os olhos delas mostraram que ela o tinha reconhecido. Então ela chamou o nome dele:
- Ray.
Era a primeira vez que ela pronunciava o nome em vários meses. Ray sentiu um embrulho na garganta. Depois ele acariciou o cabelo dela com ternura e sorriu:
- Oi, querida. Como se sente?
Ela pronunciou outro nome, ainda sem se mover. Mas os olhos dela brilhavam quando ela disse:
- Donna.
Ray sentou-se no chão ao lado dela e disse:
- Donna está muito melhor agora. Eu acabei de falar com ela. Ela estava doente, mas o médico tratou dela e ela vai ficar boa. Eu quero saber como você se sente.
Linda olhou para ele intensamente, piscou e depois indagou, com firmeza:
- Donna grávida?
Ray estava assombrado, mas tentou não revelar essa impressão, dizendo, tão calmamente quanto podia:
- Não sei nada sobre isso, Linda. O médico não disse coisa alguma sobre isso - Ele hesitou, mas depois insistiu - Eu quero saber sobre você. Pode me dizer?
Os olhos dela pareceram perder um pouco da luz que tinha segundos antes, e ela suspirou:
- Cansada. Casa.
Ray se mexeu desengonçadamente pelo chão para beijar a testa dela e disse:
- Eu sei, Linda. Vou tirar você daqui, tá bom?
- Tá, Ray.
Em seguida, Linda abraçou os joelhos, encolheu-se, fechou os olhos, e não os abriu mais, ficando imóvel. Ray ouviu um sussurro atrás de si:
- Tem jeito, detetive.
Assustado, ele se virou para ver o Dr. Henke ao seu lado. O médico disse, chamando-o para o lado de fora:
- Há quanto tempo ela tem estado assim?
- Não sabemos com certeza - confessou Ray - Foi a primeira vez que ela falou em meses.
- Você é irmão dela?
- Ela não tem família.
O Dr. Henke sorriu, e os olhos dele pareceram brilhar. Depois disse:
- Oh, sim, ela é mesmo Linda. - Olhando a expressão confusa de Ray, ele disse: - Oh, eu provavelmente devo explicar. O caso dela sempre me interessou muito. Eu tenho acompanhado através de congressos médicos e papers científicos que o Dr. Lennyard escreveu. Eu até me transferi para Chicago para acompanhar o caso de perto.
Ray estava impressionado.
- Então a conhece.
- Sim, pode dizer que sim. Como disse, apenas através de papers científicos. Jamais imaginei que ela poderia ter tamanha recaída. Eu soube sobre a disputa judicial pela custódia com o pai dela.
- Foi mesmo? Pensei que tivéssemos conseguido manter os jornais afastados do caso.
- Sim, mas não a comunidade científica. O caso de Linda é único. Profissionais de diversas áreas o acompanham. Acho que posso ajudá-la.
- O que propõe?
- Terapia. Fisioterapia pode fazer diferença na condição mental dela.
- Sim, Donna (a enfermeira dela) tem feito isso com ela. Mas a condição mental dela é temporária.
- Ela precisa de atenção profissional.
- Doutor, não temos condição. - suspirou Ray. - Todos ajudamos a cobrir as despesas do apartamento onde ela mora, e Donna cobra apenas uma fração do que normalmente cobraria. Este tipo de tratamento é caro.
- Eu sei. Por isso estou oferecendo tratamento gratuito. Só o que teria de fazer seria trazê-la aqui.
Ray hesitou:
- Não se ofenda, mas eu preciso ver isso com o médico dela primeiro. Ele tem a custódia dela. De qualquer forma, agradeço a oferta. Podemos ir agora? Ela ficou cansada.
- Claro. Só pense na minha oferta. Ela ainda está de pé.
- Agradeço, doutor. Por tudo.
Depois de certificar-se de que Donna tinha a família cuidando dela, Ray levou Linda para casa e a colocou na cama. Ele tentou estimulá-la a conversar, mas ela estava mesmo cansada, e só o que fez foi assentir silenciosamente a tudo que ele dizia. Depois foi dormir. Ray contou a Fraser o que tinha acontecido, e o canadense quase teve um ataque. Ray teve que assegurar que tudo estava sob controle.
No dia seguinte, Donna estava de licença, e Ray levou Linda para sua casa, onde sua mãe tomaria conta dela. Era um belo dia, portanto a Sra. Vecchio levou Linda para o jardim. Ela ficou na varanda, olhando as crianças de Maria brincando no jardim. Sua capacidade de falar parecia ter relação com as pessoas, pois às vezes ela parecia ter medo de falar com muita gente por perto. Várias vezes a Sra. Vecchio tentou chamar a atenção mostrando coisas brilhantes para ela. Linda não reagiu, sequer sorriu. A italiana beijou a testa da garota, coração em pedaços, depois entrou na casa para preparar o almoço.
As crianças pararam de jogar e foram para perto de Linda, que estava sozinha no portão. As crianças de Maria eram verdadeiros Vecchios: curiosos e brilhantes. Fizeram muitas perguntas a Linda, e a garota tentou responder como podia.
- Por que você está assim? Antes você era diferente.
Linda pensou e depois respondeu:
- Eu estou doente.
Foi a primeira sentença completa dela. Mas isso não significava nada para os filhos de Maria, então eles continuaram com as perguntas:
- Você foi ao médico?
Linda assentiu. Ela sempre fazia isso nas perguntas tipo "sim" ou "não".
- Isso pega?
Linda fez que não e o menorzinho se aproximou dela.
- Você é bonita.
Ela sorriu e estendeu a mão para a criança, que pegou e começou a brincar com os dedos dela. Lágrimas caíram pelas bochechas de Linda. A criança, com cerca de três ou quatro anos, subiu no colo dela e levou as mãozinhas gordinhas até as faces de Linda, limpando as lágrimas da moça:
- Não chore. Você vai ficar boa. Aí a gente vai brincar. Quer brincar comigo?
Linda assentiu, ainda chorando. As duas crianças mais velhas correram de volta para a casa, procurando novas brincadeiras. O pequenino bocejou, depois se ajeitou nos braços de Linda, querendo ficar confortável.
- Tô cansado. Conta uma estorinha?
Aquilo confundiu Linda. Ela conseguiu juntar umas sentenças e o pequenino começou a brincar com o cabelo dela, só parando quando ele estava totalmente adormecido nos braços dela. Linda também estava cansada, mas ela acariciou o cabelo da criança com amor. Depois, ela foi cuidadosa ao se levantar da cadeira e entrar na casa com o pequeno adormecido nos braços. A Sra. Vecchio pareceu alarmada quando viu o pequeno Tony nos braços de Linda, mas então ela sorriu e indagou:
- Gostaria que eu tomasse conta dele agora?
Linda assentiu com ênfase, aliviada. A italiana pegou a criança com cuidado e disse a Linda:
- Por que não se senta agora? O almoço está quase pronto.
- Está bem.
Surpresa com a resposta, Sra. Vecchio quase deixou cair o próprio neto. Mais tarde, no almoço, ela descobriu, pelas crianças, que elas tinham falado com Linda, e que ela tinha contado uma estorinha para o pequeno Tony dormir.
Também durante o almoço, Ray apareceu em casa só para ver como as coisas estavam indo. Os olhos de Linda brilhavam de modo diferente quando Ray entrou na sala de jantar e ele se sentou ao lado dela, dizendo:
- Oi, Linda, só passei para ver como estava indo. Está tudo bem?
Linda assentiu. Os olhos verdes dela estavam maiores, voltados para ele, quase suplicantes. Ray sentiu que havia alguma coisa que ela obviamente queria dizer, mas não queria ou não podia dizer. Ele se limitou a sorrir para ela, e então ela pegou aos mãos dele e disse:
- Ray.
Ele lutou contra o impacto das palavras, mas conseguiu dizer:
- Sim, Linda.
Ela inspirou ruidosamente, depois segurou-se, espremeu as mãos dele e com grande esforço, disse, numa voz pausada e firme, os olhos cheios de lágrimas:
- Você é Ray.
O sorriso dele poderia ter iluminado toda a cidade de Peoria por um mês inteiro, os olhos faiscavam de felicidade. A voz dele falhou quando ele falou:
- Sim, Linda. Eu sou Ray.
Então ela sorriu.
Ray não pode se conter e a abraçou. Ele nunca imaginara que fosse tão difícil voltar para o trabalho após o almoço.
Era a vez de Fraser passar a noite com Linda. Ela o recebeu com um sorriso e ele derreteu por dentro. Mas ela estava tão cansada depois de ter passado o dia fora que foi dormir logo após o jantar. Fraser sorriu e a colocou na cama. Ela sorriu de volta, sonolenta e chamou:
- Ben.
Em seguida, ela adormeceu.
Mas a noite não foi nada calma. Os incidentes dos últimos dois dias realmente tinham exaurido a moça e isso também no aspecto mental. Linda ficou agitada, e acordou várias vezes, ofegante, tremendo, chorando, às vezes gritando. Ela não falaria, e só se acalmava quando Fraser a abraçava e dizia que ela estava tendo pesadelos, e que ele não deixaria nenhum mal acontecer. Ela o abraçava com força. Ele foi para cama com ela e a segurou. O som do coração de Fraser provou ser muito calmante e Linda adormeceu, ainda soluçando um pouco. Fraser também soluçava. De alegria. Poder ter Linda novamente nos braços era quase o céu para o canadense.
Donna veio cedinho de manhã, ansiosa para ver Linda depois de todas aquelas aventuras. A enfermeira estava bem de saúde, mas naquele momento ela estava curiosa para ver por si mesma como Linda poderia ter ligado para o amigo detetive do hospital. Ela entrou no quarto de Linda de maneira animada:
- Bom dia!
E quando Donna abriu a cortina para deixar o sol entrar, viu o casal enroscado na cama, e o coração dela quase parou de choque. Linda mal se mexeu, mas Fraser levantou-se num pulo e logo se deu conta do que a enfermeira estava pensando. Donna correu para fora do quarto, enrubescida, e Fraser saiu atrás dela.
- Não, por favor! Por favor!
Ele encontrou com ela na sala. A enfermeira estava quase chorando de raiva quando se virou para ele e indagou, tentando manter a voz baixa para não acordar Linda:
- Como você pôde?! Pensei que gostasse de Linda! Que se preocupasse com ela...!
- Por favor, escute. Não é nada do que está pensando. Nada aconteceu. Ela estava chorando e eu só...
- ... estava tirando vantagem dela! - acusou a moça, encolerizada - Eu vi! Não pode negar!
Uma terceira voz veio da porta:
- Donna!
Ambos se viraram para ver Linda, de pijama, parada na porta. Ela disse, num esforço grande, parecendo muito preocupada e chorando:
- Ben não machuca. Não!
Donna foi para perto dela e disse:
- Não, Linda, Fraser não me machucou. E eu não o machuquei também. Você está machucada?
Ela abaixou a cabeça, intimidada. Donna suspirou e indagou:
- Não precisa ter medo de me dizer, Linda. Fraser machucou você?
A garota ergueu a cabeça e disse, chorando:
- Não! Não machuca!
Donna a abraçou e disse:
- Shh, está tudo bem. Por que não espera por mim no quarto, está bem? Estarei lá logo.
Linda ergueu a cabeça, os olhos ainda vermelhos de chorar, mais verdes que nunca e lançou um olhar para Fraser. Depois ela foi para o quarto, como pedido. Donna aproximou-se de Fraser e disse:
- Olhe, eu lamento, eu...
Fraser a interrompeu:
- Está tudo bem. Foi uma conclusão... válida.
- Sei que se preocupa com Linda. E tem sido um amigo inestimável. Eu não estava pensando direito. Por favor, me perdoe, Fraser.
- Não houve estragos - disse Fraser, tentando sorrir - E Linda reagiu bem a tudo, não acha?
- Sim. Ela está reagindo. Ela até fala.
- Não muito. Ela logo se cansa. Mas ela estava melhorando - Fraser suspirou e tentou afastar o embaraço no ar. - É melhor eu ir para o Consulado agora.
- Eu preciso tomar conta de Linda. Então é melhor esquecermos tudo, que tal?
- Entendido. Por falar nisso, está tudo bem com você? Ray me contou o que houve.
- Eu estou ótima, obrigada. Mas precisamos falar sobre minha saúde, embora não agora. Seria bom se o detetive Vecchio e o Dr. Lennyard pudessem estar presentes também.
- Posso tentar arranjar uma reunião no final de semana. O que acha?
- Deve estar ótimo.
- Ótimo. Até lá.
Fraser saiu e Donna tentou fazer Linda falar, mas a garota estava ainda mais quieta do que de costume. Felizmente elas tinham uma consulta com o Dr. Lennyard. Dessa vez ele teria uma surpresa. E não tinha nada a ver com o fato de Linda ter melhorado de uma maneira mais rápida do que qualquer um poderia prever.
Na verdade, o Dr. Lennyard ficou fascinado com a aventura das duas e pediu a Donna para contar e recontar todas as peripécias delas, começando na estação do El e depois no Hospital Geral Cook County. Só depois que ele ouviu todos os detalhes ele chamou Linda.
Dr. Lennyard estava certo de que essa sessão seria diferente. Ele sentiu que a garota estava mais alerta a cada dia. O médico era muito observador e Linda tinha uma linguagem corporal peculiar, que ele conhecia melhor do que ninguém. Os olhos dela estavam ficando mais expressivo, os movimentos mais coordenados. Habilidades da fala, porém, poderiam demorar um pouco mais. Poderia requerer terapia especial, fonoaudiólogos ou outros profissionais da área, mas era possível.
Ele a recebeu com um sorriso.
- Linda, entre. Ouvi falar que você esteve bem ativa esses dias. Quer me contar?
A garota sentou-se, encolhida como sempre. Então o telefone tocou. Era algo sem precedentes.
Linda pareceu entrar em pânico e o Dr. Lennyard não escondeu sua contrariedade. Ele apertou o comunicador:
- Mildred, eu já disse que -
Ele foi interrompido:
- A culpa foi minha, doutor - A voz era do Sr. Renner. - Por favor, precisa me deixar me entrar. Agora.
O médico obviamente estava surpreso e foi até a porta. O Sr. Renner entrou, fechou a porta e disse, seriamente:
- Eu estou saindo. Tinha que avisar vocês.
- Como assim?
- Estou indo embora. Eu finalmente consegui sair - O homem velho estava visivelmente perturbado - Na minha idade, sabe... - Ele tentou chegar perto de Linda. A moça se encolheu ainda mais, apavorada. - Eu precisava pedir que me perdoasse, Linda. Eu fui forçado a fazer aquelas coisas.
Dr. Lennyard indagou:
- Que coisas, se posso perguntar?
- Eles apenas a usaram - O homem parecia enojado - Eu não pude dizer nada antes, mas agora tenho proteção. Não sou o pai verdadeiro de Linda. Meu nome não é Stanley Renner. Nem sei se ele está vivo.
- O quê? Mas -
- Tudo foi falso, exames, documentos, tudo. As provas de DNA que apresentaram no tribunal para ganhar a custódia foram forjadas. A história dela é muito fácil de ser "remaquiada", se entende. Mas o veredicto do juiz foi uma bênção. Tudo estava pronto, e eu fui contratado para representar o papel. Só que eu não sabia que Linda era uma pessoa tão legal. Eu me sinto péssimo.
- Mas por que se dar ao trabalho? E quem?
O homem anteriormente conhecido como Stanley Renner pareceu envergonhado e suspirou:
- Linda foi agredida poucas semanas antes que eu aparecesse dizendo ser o pai dela. Ela foi estuprada. Eu fiz isso, fingindo ser o pai dela e ameacei Linda a jamais contar. O que ninguém sabia era que ela ficou grávida. O tempo passou e ela não estava engordando, mas tinha um bebê crescendo dentro dela. Não acho que Linda tenha sabido disso, e esse era o papel do Dr. Lachen no esquema, drogá-la tanto que ela jamais saberia o que ele aconteceu. Quando Donna começou a fazer perguntas sobre a saúde de Linda, ela teve que ser demitida. A criança foi vendida. E agora descobriram que sou estéril. Isso significa que o bebê provavelmente é do namorado dela, aquele canadense boa pinta. Achei que gostariam de saber.
O Dr. Lennyard estava chocado e Linda começou a chorar alto, histérica. O doutor chamou a enfermeira, mas Linda resistiu, e o homem escapuliu no meio da confusão. E jamais foi encontrado. Mais tarde, o Dr. Lennyard encontrou no seu escritório um envelope contendo 20 mil dólares em notas pequenas e usadas. Depois o dinheiro foi entregue à polícia, mas jamais conseguiu traçar a origem do dinheiro.
Linda precisou ser sedada e o Dr. Lennyard a internou num hospital. Ela estava inconsciente quando os testes começaram. Um foi feito assim que ela chegou, na sala de emergência. Os outros demoraram mais tempo. Mas não havia qualquer dúvida. Do nível de hormônios e outros exames, eles confirmaram que ela tinha sustentado uma gravidez havia pouco tempo.
Ray encontrou Fraser no hospital, mas ele já tinha sido informado de tudo pelo Dr. Lennyard e uma investigação policial completa já estava sendo conduzida. Ray - como todos os que conheciam Linda - estava chocado e irado, mas no momento a maior preocupação era com a saúde dela. Linda estava piorando, e precisava ser sedada constantemente, pois acordava aos gritos, rasgando as intravenosas.
Durante dias, ela lutou contra a morte sem ter qualquer motivo físico para isso, só o choque emocional, a desistência de viver. O Dr. Lennyard decidiu que ela não deveria ser deixada sozinha, e novamente uma força-tarefa foi formada. Fraser fez a maior parte do trabalho, com Donna ajudando durante o dia. A enfermeira se sentia culpada, pois ela descobriu estar grávida. Como Linda tinha previsto, de alguma estranha maneira.
Fisicamente, ela melhorou um pouco, saindo do estado histérico para o catatônico na semana seguinte. Parecia que todo o progresso anterior tinha se perdido totalmente. Ela tinha revertido ao estado de não ver, não se mover, não responder. Dia e noite. Fraser estava frustrado. Ray estava perto do ponto de ebulição.
Linda recebeu visitas de virtualmente o hospital inteiro e de todo o 27º distrito do Departamento de Polícia de Chicago, além da totalidade do clã Vecchio. Frannie renderia Fraser durante algumas noites, e também a jovem Srta. Robinson, ex-paciente do hospital que tinha se afeiçoado a Linda após ter saído de um coma e conhecer a ligação da moça com sua mãe. Os pequenos Vecchios (os filhos de Maria e Tony) viviam perguntando quando Tia Linda voltaria. As crianças fizeram desenhos para Linda e Frannie vivia mostrando as coloridas folhas de papel para a figura imóvel e ausente na cama.
Dr. Lennyard estava muito intrigado com as reações de Linda. Embora as drogas dadas pelo tal Dr. Lachen ainda estivessem no corpo dela, o psiquiatra esperto sabia que a falta de resposta dela se devia mais a seu estado psicológico do que efetivamente qualquer elemento químico em seu corpo. Aquilo se provou verdade quando ela começou a piscar, por puro reflexo. Ela estava alerta, mas tão dentro de seu próprio mundo que ela não reagia ao mundo externo. Para forçar a cooperação dela, ele mandou suspender a alimentação parenteral. As incômodas peças intravenosas foram retiradas.
Durante dois dias, Linda passou fome e sequer tomou água, mas no terceiro dia, fraca e distante, seus lábios se abriram. Ela não podia ser alimentada por canudo (não tinha força para sugar), mas Donna tinha toda a paciência do mundo ao alimentá-la de colher. Uma refeição (sempre sopa) demorava quase uma hora. Em alguns dias, os lábios de Linda se abriam e fechavam espontaneamente para comer. Os olhos dela também pareciam mais alertas e brilhantes.
Na semana seguinte, Donna recebeu a bandeja com o prato de sopa e aproximou-se de Linda, dizendo, como sempre, enquanto a enfermeira colocava a comida:
- Olha que bom, hoje é sopa de ervilha. Veja que bonito, Linda, temos uma linda sopa toda verdinha hoje. Vamos tentar não derramar hoje, tá bom?
A garota balançou a cabeça, olhando para Donna. A enfermeira do hospital ficou de boca aberta. Era o primeiro sinal de resposta de Linda. Donna deu um severo olhar para a outra moça, que rapidamente saiu do quarto. Tentando aparentar uma calma que não sentia, Donna voltou-se para Linda novamente e indagou:
- O quê, Linda?
Então a voz veio, fraca e alquebrada:
- Não...
- Não o quê, Linda? - insistiu Donna, tão corriqueira que podia ter irritado o Papa - Lamento, mas não estou entendendo. Você quer derramar a sopa?
Linda suspirou, como se estivesse frustrada e repetiu - com mais firmeza:
- Não.
Donna precisou colocar a bandeja no aparador, por que ela estava tremendo de emoção e não queria que Linda notasse.
- Linda, querida, você parece mesmo determinada, mas ainda não sei o que está tentando dizer. Vou tentar adivinhar, está bem?
A garota pareceu mais aliviada e assentiu. Donna chegou perto dela e disse gentilmente, como se falasse com uma criança:
- Não consegui ouvir, Linda. Está querendo dizer que não quer derramar a sopa?
Linda meneou a cabeça, Donna podia ver que era um esforço para ela.
- Não quer sopa de ervilha?
Os olhos de Linda brilharam como poucas vezes nos últimos meses, quando ela pronunciou:
- Não sopa.
- Você não quer sopa? - Linda assentiu, e Donna quase deu uma risadinha - Está bem, então vou ver o que posso arrumar para o almoço. Mas lembre-se: se não quer sopa, vai ter que mastigar, Linda. É um passo grande. Tem certeza de que está pronta para ele?
A moça assentiu de novo, olhos implorando por comida. A expressão dela partiu o coração de Donna, e ela pegou a bandeja e disse:
- Está bem, então você espera aqui e eu vou falar à enfermeira para trocar o menu, tá bom?
Quando ela voltou ao quarto, Linda estava adormecida, exausta pelo esforço, e só acordou à noite, quando todos souberam da aventura. Em alguns dias, ela diria algumas palavras esparsas. Mas não muitas. Ela começou a se alimentar melhor, os movimentos melhoraram, e ela passou a ir ao banheiro sem a ajuda de Donna. Dr. Lennyard arriscou enviá-la de novo para sua casa, com um cuidado de 24 horas por dia muito semelhante ao que ela tinha antes do incidente.
Com o dinheiro deixado pelo homem que conheceram como se fosse Stanley Renner, Dr. Lennyard abriu uma pequena conta de poupança em benefício de Linda. Era um tipo de fundo de emergência. É que Linda estava se recuperando bem, mas se demorasse muito, o bebê de Donna estaria para nascer e Linda iria precisar de uma outra enfermeira - obviamente alguma que gostaria de ser paga integralmente. O dinheiro seria útil ao menos para isso. Caso contrário, ela precisaria ser internada de novo. Essa era uma opção que o Dr. Lennyard faria tudo para evitar.
Uma das coisas que ele fez foi entrar em contato com o Dr. Henke para saber se ele ainda estava de pé com sua oferta de tratamento gratuito para Linda. Sim, ele estava, mas exigia que Linda ficasse internada e que o Dr. Lennyard se afastasse totalmente do caso. Aparentemente, o famoso neurologista não queria dividir os créditos por seus progressos. Isso iria requer outra briga legal pela custódia da jovem. Linda estava sob custódia do estado de Illinois, não do município de Cook. A tentadora oferta do Dr. Henke transformou-se num autêntico presente de grego.
Embora Linda estivesse muito pior do que a primeira vez que voltara para casa, dessa vez, ela se readaptou com muito mais facilidade. Suas habilidades de movimento melhoraram enormemente, mas a fala ainda estava muito comprometida. Ela tentava se comunicar com freqüência, e se os esforços demorassem muito ela se sentiria tão frustrada que ela chorava quietinha, soluçando até o sentimento passar.
Todos os dias, fosse no sol, na chuva, neve ou granizo, Linda andava. A senhoria sempre aparecia, e a moça sorria para ela, reconhecendo-a. Ela também adorava a companhia de Ma Vecchio, e de Frannie. Quando Francesca trazia as crianças, Linda ficava muito excitada, como se também fosse uma garotinha. Eles brincariam o dia todo juntos, e Donna notava que Linda ia para cama mais cedo aqueles dias, e dormia melhor.
Linda já estava apta a fazer um número de tarefas sem qualquer supervisão, e outras sob olhar de Donna. A maior parte das tarefas de autohigiene, como tomar banho, tomar ducha, escovar os dentes ou ir ao banheiro, ela já podia fazer sozinha. Comer com garfo e faca ainda era um pouco complicado, mas a colher ela manejava bem. Só que ela se recusava a tomar qualquer sopa, especialmente as verdes. A lição da sopa de ervilha tinha sido muito bem aprendida.
Donna e Linda trabalhavam duro todos os dias. Como se brincasse com a moça, Donna exercitava seus músculos, e tentava estimulá-la a desenhar figuras, como as crianças Vecchio faziam com ela. Exercícios físicos (especialmente os de coordenação motora fina) eram o melhor para Linda. Não apenas ela gostava, mas também começava a fazê-los bem.
Embora a fala estivesse aquém do que ela tinha conquistado antes, a linguagem corporal dela melhorava a cada dia. Ela ria, e sorria para as pessoas de quem gostava. Ela sabia os nomes deles, e sua memória aumentava. Um dos exercícios mentais consistia em Donna contar estórias para ela e depois perguntar a Linda sobre elas. Muitas dessas estórias eram providenciadas pelo Dr. Lennyard, interessado em saber se ela estava evitando memórias ruins ou coisa parecida. Eles logo descobriram que Linda também estava expressando seus sentimentos. Esse era um excelente aspecto nos relatórios de Donna ao Dr. Lennyard, a quem elas visitavam pelo menos uma vez por semana.
A força tarefa ainda estava ativa e agora o quarto de Linda tinha duas camas - uma para ela, outra para seu acompanhante noturno. Na maioria das noites em que Fraser ou Ray estavam lá, porém, Linda preferia dividir sua própria cama. Na verdade, ela pedia isso. Ela chamava os homens pelo nome, depois se aninhava com eles. Ela também acariciava ambos com toques amorosos, suaves e delicados, os olhos arregalados, a respiração entrecortada, mas jamais se atrevia a ir adiante. Tanto Ray quanto Fraser comentaram isso um com o outro, porque não sabiam o que fazer a respeito. Fraser contou o que se passava ao Dr. Lennyard. O psiquiatra disse que isso era exatamente o que estavam pensando: ela sentia falta de intimidade. Porém, ela não estava pronta para sexo, a menos que pedisse. Especificamente e explicitamente. Ainda assim, lembrou o médico, era importante que Linda estivesse confortável e se sentisse bem, para construir a confiança passo a passo. Ou seja, ir com calma, se a ocasião surgisse.
Tudo o que ela disse foi:
- Ben.
Fraser estava colocando Linda na cama, um livro já separado para lhe contar uma estória. Ele a olhou nos olhos, imensas amêndoas verdes faiscando adoravelmente para ele. Ele sorriu:
- Sim, Linda?
Ela disse:
- Amor. Eu.
Embora não parecesse, Fraser imaginou que fosse uma pergunta:
- Claro que eu a amo muito, Linda. - Ele se sentou na cama perto dela e beijou-lhe a mão com ternura - Eu a amo muito. Você sabe disso.
Linda empurrou as cobertas para o lado e aproximou-se dele. Depois repetiu, mais devagar e firme:
- Não. Ben. Por favor. Amor. Eu.
Fraser a encarou, e estava intrigado:
- Eu ainda não entendo, Linda. O que você está tenhmphhmp -
Não pôde terminar a sentença, pois lábios determinados cobriram os seus e Linda o beijou com sofreguidão, tomando o canadense totalmente de surpresa. O corpo dele automaticamente respondeu ao estímulo, mesmo que o cérebro dele estivesse em alerta. As mãos de Linda rapidamente foram até a camisa dele e ele a agarrou pela cintura. Foi quando ele estava sem fôlego que interrompeu o beijo, olhou para ela e indagou:
- Linda, tem certeza sobre isso?
Ela assentiu e jogou-se de novo sobre ele, buscando outro beijo e ele a deteve, olhando dentro dos olhos dela para indagar:
- Não está fazendo isso por mim, está? Porque eu posso esperar até você estar pronta, Linda. Eu esperarei o que for necessário. Você entende?
Os olhos dela logo se encheram de lágrimas de gratidão e ela disse, profundamente emocionada:
- Amor você, Ben.
- Eu também amo você, Linda. Só não quero machucá-la.
- Não machuca, Ben. Só amor. Amor eu. Por favor.
- Está mesmo pedindo?
Sorrindo, Linda chegou ainda mais perto do corpo dele, e a mão dela gentilmente agarrou o volume na frente da calça jeans dele, e ela assentiu, enquanto a boca dela tomou a dele e os dois se jogaram na cama, mãos e bocas explorando um ao outro com sofreguidão. Roupas voaram e as carícias do foreplay ficaram esquecidas. Fraser não deixou que nem uma parte da pele de Linda ficasse sem um beijo ou carícia, especialmente quando ele enfiava a língua no âmago da feminilidade dela ao mesmo tempo em que ela amorosamente envolvia o pênis dele em sua boca, fazendo-o derramar sua semente em questão de minutos. Depois ela se ergueu para recebê-lo em seus braços, mesmo que ele estivesse quase adormecido e sussurrou no ouvido dele sem parar:
- Amor você amor você amor você amor você amor você amor você
Linda estava feliz. Parte das coisas confusas tinham desaparecido da cabeça dela e ela alegremente deixou-se cair num sono reparador, nos braços de seu amante. Ele a puxou mais para perto e ela se sentiu segura e amada. Ela só queria que a cabeça dela cooperasse um pouco mais.
Os dias seguintes se passaram estranhamente. Linda se sentia diferente a cada dia. Na maior parte do tempo, ela entendia muito pouco das palavras que as pessoas falavam para ela. Ela prestava uma atenção danada ao que diziam, mas o significado ficava perdido, de alguma forma. Ela não falava muito porque ela não sabia o que dizer. Então ela ficava calada.
Mas havia momentos em que ela se sentia mais presente. Ela entendia melhor. Era como se, nessas horas, um véu invisível fosse levantado de sua mente, e ela podia ver o mundo com clareza. Nessa ocasiões ela falava com firmeza, perguntava coisas, e se mexia melhor.
As sentenças ficavam maiores à medida que o tempo passava. Donna estava ficando maior, e Linda sabia que ela ia ter um bebê. Linda nunca, jamais, falava sobre o bebê. Para o Dr. Lennyard, era porque isso lembraria Linda de que ela já tinha tido um bebê e ele tinha sido roubado dela sem ela sequer saber.
Mas Ray tinha coisas para falar a esse respeito. A estória que o homem tinha dito no consultório do Dr. Lennyard foi checada e rechecada pelo Departamento de Polícia. A investigação estava oficialmente aberta, mas a verdade é que eles não tinham qualquer pista. O bebê jamais foi encontrado, qualquer traço da criança cuidadosamente apagado provavelmente pelo médico, que cuidou dos certificados de nascimento e coisas assim. O homem que eles conheceram como Stanley Renner tinha certamente desaparecido da face da terra, protegido pela Máfia, e tinha coletado uma grande quantidade de dinheiro, eles tinham certeza.
Dr. Lennyard sentia Linda menos traumatizada. Em algumas poucas sessões eles até tinham conseguido conversar um pouco. A menção do bebê a jogaria numa violenta recaída. Ela chorava e se encolhia numa bolinha, chorando durante horas até cair em sono profundo, de tão exausta. Mas essa era a exceção. Normalmente ela estaria muito bem.
Linda ficou tão melhor que pediu para voltar ao trabalho. Ela disse que sentia falta das pessoas do hospital. Com a aprovação do médico, Donna levou-a ao hospital para uma visita. As amigas dela, Samantha e Barbara, deram-lhe as boas-vindas, e ela ficou tocada pela amizade que a Sra. Sorelli demonstrava. Alguns outros colegas não estavam mais lá, a Srta. Crystal era um deles. Linda disse que queria voltar e esperava permissão do Dr. Lennyard. Seus amigos pareciam muito contentes em ver a moça. Ela também não pôde esconder um grande sorriso.
Donna recebeu também muitas mensagens de agradecimento de Linda quando voltou para casa. E Linda foi para cama cedo aquela noite, com um sorriso de contentamento. Ela recebeu seu acompanhante noturno com um sorriso terno. Ray notou que ela não teve qualquer pesadelo aquela noite. Parecia que a vida finalmente estava dando um refresco para Linda. Ela bem que precisava, pensou o italiano.
Mal sabia ele o que estava se desenhando no horizonte.
* * *
- ... E aqui estão suas passagens aéreas, Constable. Suas reservas estão feitas e deverá acompanhar o julgamento até o final. Ottawa quer esse criminoso extraditado estritamente de acordo com as regras, para que ele não se livre da lei por causa de pequenas brechas técnicas, entendeu?
- Sim, senhora.
- Você ficará fora o tempo que precisar. Traga consigo um termo de condenação - ou liberação, se for o caso. Eu quero entregue a mim pessoalmente. Entende?
- Sim, senhora - respondeu Fraser à Inspetora Thatcher, ao receber os papéis. Então ele examinou os papéis e se deu conta - Er, Senhora, desculpe, mas deve haver algum engano. Essas passagens são para um avião que sai daqui a três horas.
A oficial superior lentamente ergueu a cabeça para encará-lo com olhos que se assemelhavam a raios laser de ódio. A voz dela era baixa e ameaçadora:
- Não há qualquer erro, Constable. Eu já tomei a liberdade de manter seu lobo com o Constable Turnbull e chamar-lhe um táxi para levá-lo até O'Hare. Estará aqui em 45 minutos, e este é o tempo que tem para ir ao seu apartamento e arrumar sua bagagem. Mas eu recomendo fortemente que comece a se mexer. Ou vai perder o avião.
Ele gaguejou;
- S-sim, senhora. Obrigado, senhora.
Fraser se mexeu nervosamente pelo Consulado. Sua maior preocupação era que essa noite ele estava escalado para tomar conta de Linda e precisava achar Ray para avisá-lo. Fraser ligou para o celular de Ray, e estava fora de área. A casa dos Vecchio estava ocupado. E estava muito tarde para ligar para o consultório do Dr. Lennyard.
O canadense começou a suar muito, e as duas horas se tornaram as piores de sua vida. Depois ele precisou esperar mais uma para fazer o check-in, e tentou ligar de novo. Nada. Depois entrou no avião, em duas horas estava em Ottawa, depois passou pela alfândega e já era tarde da noite quando ele conseguiu falar com Ray. Ainda no aeroporto internacional de Ottawa.
- Ray?
A voz estava sonolenta do outro lado da linha.
- Sim?
- Ray, sou eu.
- Fraser? - Ray pareceu alarmado - O que houve?
- Ray, eu lamento, não pude entrar em contato mais cedo.
- Você está bem? Fraser, você não parece bem.
- Estou preocupado, Ray. Não pude falar antes com você. Não estou com Linda.
O cérebro de Ray finalmente parecia ter começado a trabalhar - um pouco:
- Espere aí. Você deveria estar com ela.
- Sim, eu sei, mas não estou - A voz dele era puro desgosto - Desculpe, Ray. Isso tudo é minha culpa.
O italiano indagou cuidadosamente:
- Tudo bem, Fraser. Só me diga: quem está com Linda?
- Não sei, Ray. Ninguém, suponho, já que você foi a única pessoa com quem consegui falar, e só agora.
- Ai, não - O italiano já estava de pé e mudando de roupa - O que aconteceu com você, Fraser?
- Estou no Canadá.
- O quê?!
Suspirando, Fraser olhou ao redor do aeroporto, que tinha bem pouca gente no meio da noite, o rosto demonstrando remorso e preocupação.
- Não pude evitar, Ray. Foi uma missão de emergência. Tive que extraditar um criminoso às pressas.
O italiano torceu o nariz:
- Bem às pressas mesmo.
- Na verdade, menos de uma hora Ray. De qualquer modo, eu lamento muito. Tudo é culpa minha. Eu não consegui falar com ninguém e a Inspetora Thatcher não me deixou pegar outro avião.
- Claro, amigão. Eu deveria saber que a Mulher-Dragão estaria envolvida nisso de algum modo. E pare de dizer que a culpa foi sua.
- Fale com Linda, Ray. Diga o que aconteceu. Não a deixe sentir abandonada. Eu jamais faria isso.
- Não se preocupe, Benny. Eu vou falar com ela agora mesmo. Pode ficar tranqüilo. E o Dief?
- A Inspetor Thatcher o mandou para o Constable Turnbull.
- Oh, pobre lobo. Vou ver se Turnbull entrega Dief para mim. Quanto tempo você vai ficar?
- Até o fim do julgamento. Uma semana, talvez mais.
- Tudo bem, Benny, não se preocupe, tomaremos conta de seu lobo e de Linda. Tudo está sob controle.
- Por favor, Ray. Vá falar com Linda. Ela está sozinha.
- Estou indo, estou indo! Tchau, amigão.
Ray desligou o celular e correu para o apartamento de Linda, enquanto o sol começava a se levantar em Chicago, como sempre, do lago para a cidade. Quando ele estacionou perto do prédio, ele viu Donna entrando. Ele tinha esperança de poder chegar antes dela. Droga. Ela me venceu.
A enfermeira sorriu para ele quando o viu correndo até ela, na calçada escorregadia e cheia de neve.
- Olá, detetive.
- Donna, bom dia.
- Não é meio cedo para uma visita? Linda deve estar dormindo.
- Sim, bem, na verdade eu -
Ela o interrompeu:
- Oh, parou aqui para dar uma carona a Fraser? Isso é tão atencioso.
Ray suspirou e decidiu não mentir mais:
- Donna, Fraser não está ali dentro.
- Ah, não?
- Ele precisou ir subitamente para o Canadá a trabalho. Eu só descobri há alguns minutos. Fraser me ligou de Ottawa.
- Então quem está com Linda?
- Acho que ninguém.
Donna suspirou, irritada. Esse tipo de coisa poderia causar um dano grave a Linda. Tentando controlar a ira, disse:
- Bom, já está feito. Agora o importante é controlar os danos. Ela pode estar com medo. Vamos entrar com cuidado.
Usando a chave de Donna, eles abriram a porta e entraram dentro do apartamento. Tudo parecia normal. Estava quieto.
A porta do quarto de Linda estava fechada, e Donna abriu-a cuidadosamente. Linda não estava na cama. Ray pensou em puxar o revólver. Como fazia toda manhã, Donna entrou e chamou, tentando parecer alegre:
- Bom dia, Linda!
Uma cabeça sonolenta apareceu, vinda de debaixo da cama.
- Donna.
A enfermeira suspirou de alívio, Ray também. Então Donna indagou:
- Você caiu da cama, Linda?
- Não. Eu estava sozinha.
- Estava sozinha?
Linda sentou-se na cama, dizendo:
- Eu esperei, mas ninguém veio. Então eu comi uma maçã e fui para a cama. Depois eu me levantei de noite e ainda não tinha ninguém. Então fui para debaixo da cama.
Donna indagou:
- Você se sente segura debaixo da cama, Linda?
- Ninguém pode me ver debaixo da cama - disse ela. - Eu faço isso quando tenho medo.
- Você estava com medo?
- Não muito - Ela se chegou até Donna e abraçou-a com força - Estou feliz de que esteja aqui. E trouxe Ray. Isso é bom.
Ray se sentou na cama e disse, o rosto realmente em dor:
- Linda, lamento que ninguém tenha vindo ficar com você essa noite, Linda. Surgiu um imprevisto.
- Tudo bem, Ray. Eu não tive medo.
- Se acontecer de novo, você pode ficar com a senhoria. Você sabe disso.
- É mesmo - A garota sorriu - Boa idéia, Ray.
- Ótimo - Ele sorriu também, aliviado - Eu vou ligar para Fraser e dizer que tudo está bem.
- Onde ele está?
- Ele teve que ir para o Canadá, Linda.
Ela reagiu estranhamente - parecia apavorada:
- Para sempre?
- Não, Linda, não, só por uns dias. Ele queria que eu dissesse a você que vai ficar com saudades.
- Oh, eu terei saudades dele também. Quando ele vai voltar?
- Ele ainda não sabe. Mas ele ficará fora alguns dias.
Donna disse:
- Podemos contar o tempo até ele voltar, Linda. O que você diz?
Linda sorriu e bateu palmas de tão contente. Ray disse:
- Muito bem, moças. Vocês merecem um café da manhã especial dos Vecchio. Fiquem preparadas que eu vou servir as duas, minhas senhoras.
Linda deu um risinho alto e beijou a bochecha dele.
- Obrigada, Ray. Eu amo você.
Ele a beijou de volta e sorriu;
- Eu também amo você, querida. Agora seja uma boa menina para Donna.
Juntas, elas fizeram a cama de Linda, enquanto Ray preparava café da manhã para três. Durante o dia, ele consultou Donna por telefone e de noite chegou com uma grande surpresa para Linda.
- Diefenbaker!!
O lobo correu para a menina e ela abraçou o animal, que lambeu todo o rosto dela. A garota riu-se e caiu no chão, e o lobo brincou ainda mais com ela. Linda e Dief se espojaram no chão por um tempo e a menina indagou:
- Ele pode ficar, Ray? Por favor, deixa ele ficar.
- Ele está aqui para ficar, Linda - disse Ray - Fraser me pediu para trazer Dief para você tomar conta dele.
- Eu? Eu não posso tomar conta de Dief, Ray. Eu preciso de gente que tome conta de mim.
- Benny diz que não confia em mais ninguém para tomar conta de Diefenbaker. E eu sei que você pode fazer isso. Donna pode ajudar durante o dia e eu estarei aqui de noite. Benny precisa de sua ajuda, Linda. Vai ajudá-lo?
A garota continuou a fazer carinho atrás das orelhas de Diefenbaker, expressão séria. Depois disse, solenemente:
- Eu faço qualquer coisa que Ben me pedir.
Ray conteve lágrimas de orgulho e pigarreou, dizendo:
- Ótimo. Eu já trouxe ração e o cobertor dele. Onde quer que ele fique? Na cozinha ou no quarto?
- Quarto.
-Tá bom, mas depois não vale reclamar que o quarto está cheio de pelos de lobo.
Durante toda a semana, Linda realmente tomou conta de Diefenbaker, e o episódio de ficar uma noite inteira sozinha impressionou muito o Dr. Lennyard. Ele começou a achar que a hora de Linda voltar ao trabalho poderia estar chegando. Ele consultou Donna a respeito na consulta semanal. Outro fator a considerar era que a gravidez de Donna avançava normalmente, e Linda já requeria cuidados diferentes. O psiquiatra propôs à enfermeira que ela passasse as noites com Linda. Ela não gostou muito, mas disse que iria consultar o marido.
Elas tomaram o El para casa, e dentro do trem Linda indagou:
- Donna, eu estou melhorando?
A enfermeira respondeu:
- Ora, claro que sim. Tenho certeza de que o Dr. Lennyard lhe disse isso.
A garota assentiu:
- Sim, ele falou. Mas eu gostaria de poder viver minha vida. Você vai ter seu bebê para cuidar em breve, e não vai mais poder tomar conta de mim.
- Eu não vou abandoná-la, Linda. Somos amigas.
- Eu sei. Mas eu poderia tentar ficar sozinha mais tempo. Para poder cuidar de mim eu mesma, sabe?
- Você falou isso para o Dr. Lennyard?
Ela meneou a cabeça:
- Não sabia se ele ia ficar bravo comigo por dizer isso. Ele poderia ficar com raiva de mim.
Donna lembrou:
- O Dr. Lennyard é um homem muito justo. Se você falar com ele de maneira polida, tenho certeza que ele vai responder também de maneira polida. Além do mais, posso ir com você, se preferir.
A menina olhou para os seus pés, antes de dizer:
- Meu pai não era.
- Não era o quê?
- Justo. Ele ficava bravo se eu tentasse ficar longe dele. Ele me batia muito.
- Mas aquele homem não era seu pai.
- Não estou falando dele. Estou falando do meu pai.
Donna ficou em silêncio uns minutos. Linda ainda estava de cabeça baixa. A enfermeira indagou:
- Você ainda tem medo, Linda?
A moça assentiu, sem poder erguer a cabeça. Penalizada, Donna a abraçou e Linda chorou silenciosamente no peito dela durante alguns minutos. Depois elas tinham que saltar.
Para um pesadelo.
Donna e Linda desviaram-se do caminho para parar numa delicatessen e comprar doughnuts para Ray (e algumas para Dief poder "roubar"), a pedido da moça. Assim que elas puseram o pé na loja, Donna sentiu algo no ar. Havia três adolescentes de aparência suspeita perto da caixa, e o atendente parecia pálido demais. Donna ainda tentou dizer:
- Oh, Linda, é melhor voltar. Acho que esqueci o cachecol no trem.
Antes que Linda pudesse lembrar a Donna que ela tinha saído de casa sem cachecol ou que a enfermeira pudesse tirar a menina da loja, um dos meninos apontou uma arma para elas e chegou perto das duas, dizendo:
- Não, não vão sair. Uma mulher grávida sempre dá um bom refém. Pra dentro! As duas!
Era um assalto, reconheceu Linda. Ela se lembrou de que Diefenbaker provavelmente as protegeria, só que ele estava na casa dela, e elas não podiam pegá-lo. Donna abraçou Linda com força e disse, quando as duas eram levadas para perto do caixa:
- Por favor, não a machuque. Ela está doente.
O outro rapaz indagou:
- O que é que ela tem? Ela parece ótima para mim. Está mentindo!
Linda ficou irritada e disse ao jovem:
- Ela não é mentirosa! Eu acabo de vir do médico!
- Linda!
- Você falou a verdade.
- Mas ele não acreditou em mim. Agora por favor fique quieta.
O rapaz com a arma riu:
- A garota é bem esquentadinha. Vocês são o quê, irmãs?
Donna segurou Linda de modo protetor e disse:
- Ela é minha filha.
Os olhos de Linda se arregalaram, mas então ela se deu conta de que Donna estava mentindo para os rapazes porque eles eram muito maus e talvez pudessem ser enganados.
- Parece que ela não sabia disso - notou o rapaz - Está mentindo agora?
- Eu nunca disse para ela - Donna estava tremendo - porque eu tinha medo da reação dela.
Linda estava ficando confusa.
- Estorinha linda, mas não dou a mínima. Agora larga a pestinha - o jovem agarrou o pulso de Donna, puxando-a - Você vem com a gente, gravidinha.
Linda sentiu o rosto se esquentar e ela se jogou na frente do rapaz:
- NÃO! Solta ela!
Donna gritou:
- Linda, não!
Uma arma foi apontada para o rosto de Linda, e o rapaz disse:
- Quer morrer, mocinha? Eu vou te dar um motivo para morrer agora mesmo!
Donna tremia, mas estava protegida pelo corpo de Linda, que disse para o jovem, determinada:
- Fraser me ensinou que a única coisa pior do que viver sem razão é morrer sem motivo.
Aquilo confundiu o rapaz:
- E o que isso quer dizer?
- Eu não vou deixar que leve Donna. Eu vou protegê-la.
- Linda!
- Então você vai morrer!
- Talvez. Mas não sem um motivo. E você?
Irritado, o rapaz ergueu a arma para o rosto de Linda, e viu a determinação nos olhos verdes. Ele pareceu hesitar diante daquilo. À distância, uma sirene de polícia começou a soar.
- Cara, a cana!
- Vamos!
- Vamos sair daqui!
Dois dos adolescentes saíram correndo da loja de doces, e o terceiro ainda estava apontando a arma para Linda, que não se mexeu. O rapaz grunhiu:
- Aí está seu desejo de morrer, mocinha!
Linda deu um pulo para proteger Donna com seu corpo, e ouviu um grande barulho que parecia ser do lado da orelha dela, ao mesmo tempo que as duas iam para o chão. Então Linda ergueu a cabeça, e perguntou:
- Donna, você tá machucada?
- Não... - Ela tremia e achou melhor ficar sentada no chão - Acho que não...
Linda se virou e perguntou para o moço na caixa:
- E o senhor?
- Estou bem, obrigado.
- Então chama um médico, a polícia, ou alguém! Minha amiga precisa de ajuda!
Ele entrou para dentro da loja, e Donna tentou acalmar a moça:
- Linda, eu só estou assustada. Está tudo bem.
- Você vai pro hospital, Donna.
Os policiais levaram as duas e ela pediu que eles chamassem Ray até o hospital. Depois Linda reconheceu o hospital para onde foram levadas. Era o local onde ela trabalhava. Levou algum tempo para ela convencer o pessoal de plantão que daquela vez quem precisava de ajuda era Donna, não ela.
Donna foi levada para uma sala de exames e Linda ficou do lado de fora, sentada, ansiosa por notícias. Uma das novas enfermeiras passou a mão no cabelo dela, dizendo:
- Ela vai ficar boa, você vai ver.
- Eu sei. Obrigada.
- O que há com seu cabelo?
- Eu não sei - disse Linda, sem pensar muito - Está molhado, mas não está chovendo nem nevando.
- Ai meu Deus - disse a enfermeira, que de repente ficou pálida e puxou Linda - Venha comigo, querida.
A garota seguiu-a, mas reclamou:
- Preciso mesmo ir? Preciso esperar Donna e Ray.
- Acredite em mim, querida, você precisa de mais ajuda do que ela - E gritou para a mesa onde ficavam as enfermeiras - Tem um Código Azul aqui!
Código Azul. Linda já tinha ouvido aquilo antes. Era um código de emergência, e se referia a procedimentos. Fazia muito tempo , mas ela se conseguiu lembrar o significado das palavras. E ela ficou espantada:
- Tiro de arma de fogo? Eu não levei tiro nenhum.
A enfermeira fez Linda deitar numa maca, dizendo:
- Talvez seja só uma ferida leve, mas está sangrando. Por isso seu cabelo está molhado. É sangue.
Foi a vez de Linda dizer:
- Ai meu Deus.
Samantha entrou na sala de exames para onde Linda tinha sido levada e anunciou:
- Linda, aquele detetive seu amigo está aqui. Quer que ele fique com você?
Linda adoraria aquilo, mas ela se lembrou de que tinha uma outra pessoa que precisava de companhia mais do que ela, e então disse:
- Alguém precisa ficar com Donna. Ligar para o marido dela.
- Donna e o bebê estão ótimos - garantiu Sam - O médico já a liberou nesse instante. Agora é com você que estamos preocupados. Seu amigo quer entrar.
-Tá bom. Sam, eu estou mesmo ferida?
- Só o médico vai dizer, Linda.
Um homem diferente entrou na sala de exames e se apresentou, consultando uma prancheta:
- Oi, você é Linda? Eu sou o Dr. Roberts. Parece que você tem um galo na cabeça. Vamos olhar melhor isso, tá bom?
Ela olhou para o homem e instintivamente se encolheu, chamando baixinho:
- Sam...
- Sim, Linda?
- Ajuda.
Não houve tempo. Quando o médico chegou perto dela, Linda gritou e resistiu ao toque dele:
- Não! Não me toque!
O médico ficou espantando, e Ray, ao ouvir o grito de Linda, invadiu a sala:
- Linda!
- Ray! Socorro, Ray!
Ela se agarrou ao italiano, tremendo de medo, e o médico disse:
-Vamos ter que sedá-la. 100 mg de triptilamina.
Linda ouviu aquilo e gritou ainda mais alto:
- Ray, não deixe! Não deixe eles levarem o bebê!
Ray não entendeu, mas tentou acalmá-la enquanto eles aplicavam a injeção:
- Linda, está tudo bem, eles são amigos. Agora você precisa relaxar.
- Ray, eles vão levar o bebê! Não deixe! - Ray não entendia, mas ela continuava a se debater, mesmo quando a droga já a relaxava - Eles vão levar o bebê embora, Ray! Não deixe, Ray! Não deixe eles levarem o bebê. Não deixe. Por favor, Ray. Ray...
Então em segundos, o corpo dela relaxou todo, e ela perdeu a consciência sem jamais se desgrudar do paletó de Ray. Só assim puderam cuidar do ferimento na cabeça.
* * *
Alguém estava tocando a cabeça dela. Depois o toque foi embora. Linda abriu os olhos e sentiu-se desorientada por uns segundos, mexendo-se na cama. Depois ela sentiu, mais do que propriamente viu, uma sombra se mexendo para perto dela. Linda encolheu-se, apavorada:
- Não!
Seu reflexo foi puxar as cobertas e enfiar-se embaixo delas, sentindo dor na cabeça ao fazer o movimento. A enfermeira disse:
- Linda, sou eu. - Ela deu uma espiada e viu a mesma enfermeira que a atendera antes. Estava num quarto de hospital. A moça sorria para ela. - Está tudo bem. Não vou machucar você.
De repente, Linda se lembrou por que estava apavorada:
- O bebê.
- Que bebê, Linda?
- O bebê de Donna.
- Está tudo bem com o bebê de Donna. E com ela também. Como se sente?
Linda olhou em volta, o coração batendo um pouco mais lento, mas ainda acelerado. Então ela indagou:
- Cadê o Ray?
- Ele foi para casa - respondeu a moça - Mas tem um outro amigo seu do lado de fora, esperando até você acordar. O nome dele é Fraser.
O rosto inteiro de Linda se iluminou com um sorriso:
- Ben está aqui? Ele voltou?
- Sim. Ele ficou a noite toda, enquanto você dormia. Quer vê-lo?
Ela assentiu e depois tocou o ponto que lhe doía na cabeça, espantada por encontrar um pedaço de pano:
- O que é isso?
- Uma bandagem. Havia um ferimento na sua cabeça. Um ferimento a bala.
- A... bala...? Um... tiro? Eu levei um tiro?
A enfermeira assentiu:
- Foi, mas foi só um arranhão. O exame foi bem minucioso, mas não tem nada de grave. Não tem nada para você se preocupar.
Linda estava ficando confusa e com medo, e se encolheu na cama. A enfermeira acariciou seu cabelo e perguntou:
- Você quer que seu amigo entre agora?
- Sim, por favor. Obrigada.
- De nada, Linda.
Fraser entrou, e tinha uma expressão de cansaço no rosto. Mas seus olhos brilharam ao ver o rosto de Linda. Ela não pôde conter suas emoções e caiu em prantos quando ele sorriu para ela:
- Oh, Ben...
Ele a segurou em seus braços e a enfermeira disse, sorrindo:
- Eu vou sair agora.
Como se alguém tivesse percebido que ela tinha ficado no quarto.
Linda chorou nos braços de Fraser, e ele se sentou na cama, esperando que ela desabafasse todo o seu medo. Era tão bom o sentimento de estar nos braços de Ben de novo, sentindo o calor dele, ouvindo o coração dele bem pertinho do ouvido. Era tão calmante. Linda chorou muito, por toda dor que sentia e coisas que não conseguia entender. Então ela começou a soluçar, sem chorar. Depois de um longo tempo, ela disse, tocando o peito dele.
- Sua camisa... ficou molhada... Desculpe...
- Está tudo bem - Fraser sorriu - Como está?
- Minha cabeça ainda dói um pouco. - Ela o abraçou de novo e desta vez sorriu - Estou feliz que esteja aqui.
- Senti sua falta.
- Também senti a sua, Ben. Como foi sua viagem?
- Tudo bem. Obrigada por tomar conta de Diefenbaker.
- Oh, eu me esqueci de Dief! Onde ele está?
- Com a mãe de Ray.
- Desculpe-me - Linda olhou para ele e ela estava ficando com medo - Mas eles me puseram para dormir. Eu não queria dormir, mas eles me deram uma injeção. Eu pedi para eles não fazerem, mas eles não me ouviram, Ben. Eu tive tanto medo, Ben, tanto medo...
Ele a acalmou antes que ela começasse a chorar de novo:
- Agora está tudo bem. E você está boa agora. Por que não queria dormir, Linda?
- Eu não sei, Ben - A garota olhou para ele e parecia honestamente confusa - Eu ficava pensando que isso era ruim. Havia esse médico. Ele era um médico bom e legal, mas... eu não queria que ele me tocasse. E nem mesmo sei por quê. Estranho.
- Mas dormir lhe fez bem. Precisava descansar. Ray me disse que estava nervosa.
- Sim, eu estava. Estava preocupada com Donna, Ben.
- Donna me disse que você salvou a vida dela.
Linda enrubesceu até ficar totalmente rosa-choque.
- Não é verdade. Eu só queria protegê-la.
- E conseguiu. Ela está muito grata e orgulhosa pelo que você fez.
- O bebê dela está bem?
- Sim, ela e o bebê estão ótimos. Ela ficou um pouco com você, depois foi para casa.
Linda disse:
- Ben, você devia ir para casa também. Parece cansado.
- Não, não estou. Quero ficar com você.
Ela sorriu, agradecida. Em seguida, ela olhou dentro nos olhos azuis e sorriu ainda mais. Ele se inclinou para ela, e capturou os lábios dela com os seus, num beijo apaixonado. Linda envolveu-se no corpo de Ben, e sentiu os efeitos da droga tomando conta dela. Ela não pôde evitar um bocejo e ficou embaraçada.
- Desculpe. Foi aquela injeção. Deixa a gente com sono.
- Então durma um pouco mais - Ele acariciou-lhe o queixo delicado com as mãos quadradas e grandes - Eu ficarei aqui, bem do seu lado. Não se preocupe.
Ele beijou-lhe os lábios, depois a manteve em seus braços, e Linda adormeceu, sentindo-se segura e aquecida por dentro.
* * *
Gradualmente a vida retomou seu ritmo normal. Linda eventualmente se livrou completamente da droga que o Dr. Lachen lhe dera e retornou ao seu trabalho no hospital. Donna teve uma linda menininha. Enquanto isso, Ray e Fraser desfrutavam de Linda, às vezes juntos, desinibidamente.
Para Linda, era como uma bênção dupla. Ela ficava orgulhosa e feliz em se doar ao seu melhor amigo e ao homem que amava. Fraser acreditava ser uma dádiva que a mulher por quem tinha se apaixonado, mesmo após tudo que tinha passado em mãos criminosas e até nas do próprio pai, ainda tinha dentro de si tamanho amor que pudesse compartilhar com ele e com seu melhor amigo, praticamente seu irmão. Ray ainda estava mais do que lisonjeado que seus dois irmãos adotados o aceitassem dentro de seu círculo da maneira mais íntima, mais profunda. A união entre os três se fortalecia a olhos vistos, uma abundância de amor, afeto e carinho.
Eles conversavam muito a esse respeito. Linda não sabia muito das coisas, e os dois tiveram que explicar a ela que aquele tipo de relacionamento não era comum nem bem aceito. Ao contrário do que Ray tinha imaginado, dos três, o detetive era o mais reticente em conversar sobre o assunto, suas próprias inseguranças e valores familiares o deixando em desvantagem. Estranhamente para o italiano, Fraser, a quem ele sempre achava retraído e talvez até reprimido, era completamente blasé sobre o que acontecia. No fundo, o canadense acreditava que aquilo era apenas mais uma forma de expressão de carinho e amor. Ele não era muito bom com palavras, mas aceitava aquela forma de exprimir os seus sentimentos de maneira que surpreendia até a si mesmo.
Linda achou que a vida finalmente a estava tratando bem. Ela descansou a cabeça no peito de Fraser e deixou-se ser ninada pelo mero som de seus batimentos cardíacos. Era o som mais calmante do mundo. Nada poderia ser tão acalentador quando o coração do seu amante batendo perto de seus ouvidos enquanto o corpo dela era seguro por fortes braços masculinos. Era o paraíso na Terra. Ela tinha intenção de aproveitar ao máximo.
Mas os que a queriam impedir de obter seu objetivo jamais deixaram de estar à espreita.