Parte 7

 

Valores Familiares

 

A manhã estava cheia de atividades no pequeno apartamento de Linda. A moça estava na cozinha, preparando as batatas que tinha prometido levar para o almoço de sábado na casa dos Vecchio. Mas ela não estava sozinha. Fraser estava se vestindo para o evento e Ray terminava de ocupar o chuveiro, num bom banho quente, como gostava. Diefenbaker observava a movimentação de maneira bastante canina, e suspirou frustrado, pensando apenas que a comida deveria demorar.

Linda estava ficando cada vez mais tensa:

- Ben, eu preciso de ajuda. Você e Ray precisam ir ao supermercado. Agora.

- Calma, Linda. Não podemos comprar o que precisa no caminho para o almoço?

- Não, Ben! Eu preciso para preparar - A moça estava nervosa - E pode ir com calma. Levem Dief, também.

Ray, sempre elegante, dobrou o paletó e disse:

- Benny, ela não está brincando. É melhor irmos.

Fraser beijou a testa dela e disse:

- Não precisa se preocupar, Linda. Tudo vai ficar ótimo, como sempre.

Ela sorriu e beijou-o brevemente:

- Obrigada, Ben. Desculpe.

- Vamos voltar logo.

- Não precisam se apressar. Mas eu preciso de páprica doce. E refrigerantes para as crianças.

Ray já estava perto da porta e disse:

- Tranque a porta quando sairmos. Vamos levar Dief.

- Está bem.

Ben, o último a sair, ouviu o barulho da porta sendo trancada atrás dele. Depois apressou o passo para alcançar Ray e seu lobo.

* * *

Quase uma hora depois, eles voltaram. Mesmo quando tinham apenas posto o pé na escada, Dief começou a latir. Sabendo que o lobo geralmente não se comportava assim, a menos que algo estivesse errado, Fraser correu a subir as escadas, Ray no seu encalço.

A porta do apartamento de Linda estava escancarada. Não havia sinal de entrada forçada. Ray já estava de arma em punho, e silenciosamente fez um gesto para Fraser ir para trás. Em seguida, entrou com cuidado, apontando o revólver. Nada indicava que o intruso ou intrusos já tivessem saído, embora não houvesse qualquer ruído vindo do interior do apartamento.

A sala de estar estava uma bagunça só. Tudo parecia estar destruído ou esmagado. Havia uma mancha de sangue na parede, e Ray olhou para Fraser. O canadense parecia tenso e ligeiramente pálido. Ele adentrou ainda mais no pequeno apartamento.

Se a sala de estar estava bagunçada, então o quarto de Linda estava de pernas para o ar. Ray tinha visto aquele tipo de destruição antes: não era o tipo de estrago que alguém fazia ao procurar por dinheiro ou jóias. Era a mera satisfação de destruir, o impulso do vândalo de estraçalhar tudo que pudesse pôr as mãos.

A cama tinha sido virada de barriga para baixo, e jogada por cima do armário tombado. Havia roupas por todo o canto, algumas rasgadas, os pequenos objetos que Linda tanto amava jogados pelo chão, esmagados até virar pó.

E nenhum sinal de Linda.

Eles foram até a cozinha, onde as batatas que ela preparava estavam queimadas além do ponto de reconhecimento. Todo o mais parecia estar intocado.

Também não havia sinal de vida na casa.

Ray guardou o revólver e disse:

- Seja lá quem for, já foi. Vamos, temos que encontrar Linda.

Fraser ficou de joelhos e agarrou o focinho de Diefenbaker, ordenando ao lobo:

- Dief, encontre Linda. Encontre Linda.

O lobo pulou e saiu da cozinha, provavelmente devido ao cheiro de comida queimada. Sem seguida, voltou ao quarto de dormir. O animal pôs a literalmente cavar por baixo da cama, ganindo, depois latiu.

Com a ajuda de Ray, Fraser removeu a cama e o colchão e então ela apareceu: por baixo dos destroços, curvada numa bolinha, agarrada aos joelhos, incapaz de erguer o rosto, como um animal acuado, escondendo-se.

Ray deixou escapar, num sussurro:

- Oh, não.

- Linda - Fraser se aproximou, vendo o corpo dela cheio de hematomas e ferimentos, o cabelo despenteado - Linda, sou eu.

A princípio ela encolheu-se ainda mais, e gemeu quando a mão de Fraser tocou-lhe a pele. Depois ela olhou para ele. E o rosto dela estava cheio de feridas, um olho quase fechado, a boca sangrando. O pior era o medo indescritível que viu nos olhos verdes, arregalados e quase irreconhecíveis. Fraser esticou os braços, e ela olhou para eles por uns segundos, incerta sobre o que deveria fazer. Em seguida, vagarosamente, dolorosamente vagarosamente, Linda foi para os braços de Fraser. Ela estava seminua, o resto de roupas que ainda vestia em tiras.

Ray já tinha chamado 911, e viu os esforços de Fraser para tentar dar a ela qualquer sentimento de segurança.

* * *

Linda parecia totalmente ausente quando ela foi examinada no mesmo hospital onde trabalhava, o mais próximo de sua casa. Ela não pronunciou sequer uma palavra. Ela não falou com Ray, não falou com Fraser, mas agarrava-se ao canadense como se ele fosse uma espécie de bóia salva-vidas. Para que os médicos pudessem examiná-la, foi necessário que retirassem os dedos dela da pele de Fraser.

De acordo com a evidência achada no apartamento e no corpo de Linda, ela tinha sido espancada e selvagemente estuprada por apenas uma pessoa. Não havia fraturas, mas o olho tinha sofrido com os hematomas, e um lábio estava rachado. Relatório do corpo de delito confirmara apenas um agressor. Ou essa pessoa tinha enganado Linda para que ela abrisse a porta do apartamento, ou era uma pessoa que Linda já conhecia e deixou entrar. A moça não respondia sequer uma pergunta. Os apelos de Fraser caíram em surdos ouvidos.

O Dr. Lennyard foi chamado, pois Linda rapidamente se fechava num mundo interior, procurando a cura. Fraser tentou explicar a ela que se ela não pudesse responder ou tomar conta de si mesma, ela não ganharia alta e poderia até voltar para a instituição mental que um dia freqüentara. Esse era o maior medo de Linda: voltar para aquele lugar. Mas nem essa ameaça teve efeito positivo. Linda ainda estava muda.

Na manhã do segundo dia, ainda roxa e cheia de ferimentos, Linda levantou-se, pôs algumas roupas que achou no armário do hospital e apresentou-se para o trabalho como de costume. Quando as enfermeiras descobriram que o quarto dela estava vazio, chamaram o Dr. Lennyard, temendo que ela pudesse ter escapado do hospital. Mas o médico logo descobriu que ela estava limpando o centro cirúrgico, e ele achou que o trabalho poderia ajudar Linda a interagir mais com outras pessoas. Então ela voltou ao trabalho, mas ela ainda não tinha falado. E os outros dias se passaram assim.

Fraser e Ray (bem como a família de Ray) vinham visitá-la tanto quanto podiam, pois ela terminou internada. Foi então que a verdade apareceu.

Uma semana depois que Linda tinha sido agredida em casa, ela foi chamada ao consultório do Dr. Lennyard. Isso era algo que ela estava fazendo todos os dias, mesmo que continuasse muda. Portanto, não havia surpresa no fato em si. Mas ela não estava preparada para a surpresa que o bom doutor trazia.

- Linda, sente-se. Eu recebi uns papéis bastante perturbadores hoje. E eles lhe dizem respeito.

Linda o olhou de maneira inquisitiva.

- Parece que seu pai está requerendo sua custódia legal - disse o médico, observando atentamente a reação da moça. - Eu fui intimado. É um termo legal que significa que sou obrigado a ir a uma audiência. Parece que seu pai quer tomar conta de você.

- Não! Meu pai morreu... ele está morto!

Dr. Lennyard disse, uma expressão dura:

- Aparentemente não, Linda. Além disso, você ainda é menor perante o Estado de Illinois, então ele ainda tem poder sobre você. Se ele ganhar a custódia, você terá que viver com ele.

A garota reagiu energicamente:

- NÃO!!!!

O médico tentou dizer:

- Linda, por favor, escute.

Linda gritou e jogou-se no chão, para agarrar os joelhos e chorar, dizendo:

- Por favor, não... Não me obrigue... Por favor...

O doutor achou a reação violenta demais e chamou a enfermeira. Linda foi sedada e levada para seu quarto. O Dr. Lennyard, agradecendo silenciosamente que o hospital não tivesse uma ala de internação psiquiátrica, estava lá quando Fraser chegou ao final do turno no Consulado, sem saber de coisa alguma. O canadense não estava preparado para aquilo. O médico meneou a cabeça.

- Confesso que isso também me tomou totalmente de surpresa, Constable.

- Eu pensei que ela não tinha família, que todos tivessem morrido.

Dr. Lennyard explicou:

- A mãe de Linda morreu, e o pai perdeu a custódia legal devido ao abuso físico e sexual a que submeteu a menina. Depois disso, ele simplesmente sumiu. Com o passar do tempo, presumimos que ele tivesse morrido. Foi como Linda veio parar nas mãos do Estado. A casa dela não era segura na época, e os problemas delas a deixaram na instituição. Ela está sob custódia do Estado até hoje porque ela ainda é menor, de acordo com as leis do estado de Illinois. Ela também não tem responsabilidade civil. Mas nesse exato momento, ela está terrificada. A volta do pai em si já seria um grande choque para ela, mas se além disso ele também conseguir tirá-la do tratamento...

- O que podemos fazer, doutor?

- Ajude-me a construir um caso jurídico. Precisarei de sua ajuda e do detetive Vecchio para salvar Linda.

- Farei tudo o que puder. Tem um advogado em mente?

- Já que a queixa é contra o Estado de Illinois, receio que serei obrigado a usar o advogado do hospital.

- Ele não é bom?

- Oh, ela, Srta. Weiner, é uma excelente profissional. Mas temo que a área dela não seja custódia de menores, se me entende. Precisarei de seu auxílio, Constable. Sei que se preocupa com Linda.

- Eu a amo, doutor. Farei qualquer coisa.

- Pode começar tentando acalmá-la? Não quero mantê-la na medicação o tempo todo, mas a verdade é que ela se descontrolou hoje.

- Farei o que puder.

Fraser entrou no quarto e Linda estava na cama, segurando as pernas. Fraser deteve-se. A posição era a preferida de Linda quando ela queria se distanciar do mundo. Ele arriscou chamar:

- Linda?

Ela se virou para ele:

- Ben? - Os olhos dela se encheram de água e desespero - Oh Ben, me ajude!

Ela se atirou nos braços de Fraser, que sentiu o quanto o corpo dela tremia de terror genuíno. Ele tentou consolá-la, e ela tentou explicar - tudo de uma só vez:

- Ele me disse para ficar quieta, Ben, e eu fiquei, eu fiquei caladinha, lembra que eu fiquei bem quieta, e depois pensei que era só um fantasma, mas agora ele voltou, Ben, e eu não sei o que fazer -

- Linda, Linda, Linda - fez Fraser, até que ela prestasse atenção a ele, os olhos verdes arregalados - Mais devagar, querida, eu não estou conseguindo entender. Quem pediu a você que ficasse quieta?

A garota respirou fundo e respondeu, ainda entre soluços:

- Meu... pai.

- Você o viu?

Ela assentiu e as lágrimas caíram de seus olhos, molhando a camisa de Fraser. De repente, ele teve um insight e indagou:

- Foi seu pai no apartamento aquele sábado, Linda? Foi ele quem machucou você?

Mais uma vez ela assentiu e soluçou alto, e então ele a abraçou, uma dor apertando-lhe o peito, dizendo mais para si mesmo do que para a moça terrificada:

- Não admira que não dissesse uma palavra. Ele era um fantasma.

- Ele me disse para não falar nada, nem uma palavra. - Linda chorava nos braços de Fraser - Eu obedeci direitinho, Ben. Por que ele está tentando me magoar assim?

- Linda, me escute - Ben a obrigou a encará-lo, a voz dele séria - Vamos fazer tudo para evitar que ele leve você. Está entendendo?

- Sim, Ben, mas...

- Precisa confiar em mim - ele a interrompeu, cada vez mais sério - Vou precisar de sua ajuda, Linda. Podemos derrotar isso juntos, querida. Mas precisa ter fé.

A moça ainda estava trêmula.

- Eu confio em você, Ben. De verdade. Mas -

- Então tudo vai dar certo. Temos uma luta à nossa frente, e preciso que você seja forte. Seja forte por mim. Mas vamos lutar juntos. Está bem?

Ela olhou para Fraser, encarando-o no fundo de seus olhos azuis, e disse:

- Eu te amo tanto.

O canadense se derreteu, mas disse:

- Também amo você, e vou lutar com qualquer um que tentar tirar você de mim. - A perspectiva de perder Fraser fez Linda estremecer e Ben a abraçou com força, sussurrando: - Não deixarei que ninguém tire você de mim, Linda.

- Morro de medo de perder você, Ben.

- Você nunca vai me perder. Entende isso? Nunca.

Linda levantou a cabeça só para olhar dentro dos olhos azuis dele, para ver o amor e o compromisso, a determinação que irradiavam. Quando ele tentou aproximar os lábios dos dela, houve uma batida na porta. Eles sorriram, envergonhados, e separaram-se, enquanto Linda chamava:

- Entre.

A Sra. Sorelli apareceu, trazendo uma bandeja, desculpando-se:

- Desculpe perturbar vocês, mas estou aqui a serviço.

Linda secou as lágrimas e tentou se levantar, dizendo:

- Tudo bem, Sra. Sorelli, só me dê uns minutos e estarei pronta para o trabalho.

A enfermeira-chefe sorriu e disse:

- Não, Linda, você entendeu mal. É o meu serviço. O Dr. Lennyard quer se certificar que você descanse essa noite. Ele já marcou uma hora para você ver o advogado do hospital amanhã. Precisa tomar essa pílula.

Linda obedeceu e indagou:

- Sra. Sorelli, não quer que eu faça o turno da madrugada? Eu já estou aqui mesmo.

- Não, nós já contratamos um temporário. Linda, a partir de agora, você tem ordens de descansar e não se preocupar com o hospital. Por favor, não me faça trazer uma injeção.

- Não, claro que não.

A enfermeira-chefe ajudou a moça a se enfiar debaixo das cobertas, e depois virou-se para Fraser, que estava ao lado da cama:

- Certifique-se de que ela descanse essa noite, por favor.

- Sim, senhora - respondeu Fraser -. Obrigado.

- Eu vou trazer outro sedativo logo após o jantar. Até lá, Linda, procure relaxar um pouco.

- Muito obrigada, Sra. Sorelli.

- E tente não se preocupar, tá?

Linda sorriu. A Sra. Sorelli devolveu o sorriso e depois fez o mesmo a Fraser, antes de sair. Linda indagou:

- Ben, se eu lhe pedir uma coisa, faria por mim?

Ele tomou a mão dela, beijou-a e respondeu:

- Sabe que sim.

- Não diga a ninguém o que aconteceu. Sabe, que eu vi o meu pai... e o que aconteceu. Por favor, não fale.

- O quê?

- Ele vai me separar de você se você disser o que eu lhe contei. E eu vou negar se você contar, Ben. Ele vai fazer isso, Ben, ele vai fazer. Não posso permitir.

- Linda, não acredito que esteja me pedindo isso. Não quer que ele seja preso?

- Ben, ele nos viu.

- Nós?

- Eu... você... e Ray...

Fraser fechou os olhos, frustrado, depois coçou a orelha, sem largar a mão de Linda. Demorou para ele dizer:

- Infelicidade...

Linda disse:

- Não sabíamos que ele estava nos espionando. Não temos culpa. Mas aconteceu. Por isso peço mais uma vez, Ben. Não diga nada.

O canadense fez a língua passear pelos lábios, inquieto, e disse:

- Você se dá conta de que poderemos perder a ação legal por causa disso? Linda, ele atacou você. Precisa pagar pelo fez. E ele não pode querer a custódia. Temos um processo em jogo. Poderemos perder se isso não vier à tona. Posso perder você, Linda.

- Por isso é que temos tanto em jogo. Ben, eu não estou disposta a arriscar você. Eu não posso. Eu farei o que quer que ele me diga para fazer.

Fraser se deu conta que os olhos dela estavam ficando mais pesados, e beijou-lhe a testa.

- Não se preocupe agora com isso. Por que não descansa um pouco?

- Não vá, por favor.

- Não vou sair. Pode ficar tranqüila.

Ele manteve suas mãos entre a dela até que ela adormecesse, sob efeito do remédio. O jantar chegou e ela beliscou um pouco, não muito. Então ela tomou novos remédios e reclamou, mas estava adormecida em questão de minutos. Contudo, mesmo com a medicação, o sono dela foi agitado. Ela acordou assustada, e jogou-se nos braços de Fraser pelo menos duas vezes.

Na manhã seguinte, Linda tomou um chuveiro rápido e colocou o vestido que a Sra. Sorelli lhe dera no último Natal para ir ao escritório da advogada no centro da cidade. O Dr. Lennyard a levaria, e ela sabia que Fraser não poderia ir, mas Ray talvez aparecesse. Ambos tinham o endereço da advogada.

Na sala de espera da Srta. Weiner, Linda se sentia extremamente desconfortável, e Dr. Lennyard sorriu para ela, tentando confortá-la, enquanto esperavam ser chamados. Finalmente a porta do escritório se abriu e uma loura perto dos cinqüenta anos chamou:

- Linda Lyme?

- Sou eu.

- Pode entrar.

O Dr. Lennyard fez menção de entrar com Linda, e a moça disse:

- Eu falarei com Linda sozinha, se não se importa.

Depois de um momento de hesitação, a moça entrou no escritório. Havia milhões de livros nas prateleiras e tudo parecia ser feito de madeira. A loura sorriu para ela e ofereceu uma cadeira.

- Sente-se, Linda, por favor. É um prazer conhecê-la.

- Sim, senhora.

Linda estava intimidada. A advogada sentou-se à mesa e sorriu para ela.

- Linda, eu chamei você sozinha porque quero saber sua versão da história toda. Você entende o que está acontecendo?

Ela assentiu, respondendo:

- Meu pai quer obter minha custódia. Isso significa que ele ficaria responsável por mim e que provavelmente eu não teria mais os cuidados do Dr. Lennyard.

- Muito bem, você entendeu tudo direitinho. Quero que entenda uma coisa, Linda - disse a Srta. Weiner - Às vezes posso parecer meio dura com você, mas é só porque eu quero ganhar essa causa, tá? Eu li sua ficha, e sei que passou por maus bocados. Farei tudo o que puder para que isso não volte a acontecer.

A moça assentiu, quase chorando, e disse:

- Obrigada.

- Não, não me agradeça até isso tudo ter acabado. Agora, precisamos trabalhar. Você me parece ser muito esperta. Também é encantadora. Se eu sugerir que você preste testemunho, você teria objeções?

Linda pensou, depois achou melhor ter certeza de ter entendido a pergunta:

- Quer dizer, eu teria que falar com o juiz?

- Isso mesmo. É possível também que tivesse que responder às perguntas do outro advogado. Você se sentiria desconfortável?

- Ben estaria comigo?

A advogada anotou o nome, depois respondeu:

- Você estaria sozinha, Linda. Mais ou menos como está agora: sozinha, respondendo perguntas de uma pessoa estranha, mas haveria mais gente olhando, só isso.

Linda inalou ruidosamente e assentiu:

- Sim, posso fazer isso.

- É, tenho certeza de que pode, Linda - A Srta. Weiner sorriu - Vou recomendar que testemunhe, então. Você duvida que esse homem seja mesmo seu pai?

Ela estremeceu, depois abaixou a cabeça e respondeu:

- Não.

- Não quer viver com ele, quer? - Linda meneou a cabeça. - Por quê?

- Tenho medo.

- Medo.

- Ele costumava bater em mim. Bater muito. Dr. Lennyard disse que durante anos suspeitaram que eu tivesse estrago cerebral de tanto que ele me batia. Mas eu não tenho, não.

- Então, Linda, por que você tem um tutor?

- Porque não posso tomar conta de mim.

- Não vejo por que não. Você trabalha, mora sozinha e tudo.

- Mas só sob a supervisão do Dr. Lennyard. Eu sei que tudo isso é só uma experiência, e que eu posso ter que voltar à instituição de novo.

- Gostaria de voltar à instituição?

- Não, senhora. Gosto de morar aqui fora. Eu sigo as regras. Tomo meu remédio e trato as pessoas com cortesia.

A Srta. Weiner pegou um papel e começou a andar pelo escritório, lendo a folha. Linda ouviu o barulho do El passando a alguns andares abaixo. A advogada disse:

- Bom, a petição que seu pai deu entrada acusa o Estado de negligência enquanto tratando você e menciona pelo menos três ocasiões em que você foi raptada e agredida - Ela ergueu a cabeça e repetiu, como pergunta - Agredida?

Linda sentiu o rosto se aquecendo. Se ela tivesse um espelho, teria visto que estava vermelha:

- É tão injusto! Não foi culpa do Dr. Lennyard! - A advogada observou-a com atenção, e Linda procurou se controlar, dizendo. - Desculpe, eu perdi o controle. Não acontecerá de novo.

- Por que disse que é injusto, Linda?

- Porque não foi culpa do Dr. Lennyard. Foram acidentes. Não, não é essa a palavra correta.

- Mas eu entendi o que quer dizer. E quem é esse policial, o detetive Vecchio?

- Ele é meu amigo. Eu o conheci no hospital.

- Ele parece trazer um bocado de encrenca para você. E esse tal Fraser também.

- Eles são meus amigos! - Quando deu por si, Linda tinha gritado de novo, e ficou envergonhada - Oh, desculpe. Mas é que eles são meus amigos. Jamais me machucariam.

- Como eu disse, eu posso ser um pouco dura com você, mas não é porque quero deixá-la triste. Só estou dizendo o que eles podem dizer na corte. Eles podem tentar confundi-la, então podem dizer que Dr. Lennyard não está tomando conta de você como devia.

- Isso seria uma mentira.

- Mas eles podem fazer isso. Vejo que é mesmo uma garota esperta, então podemos evitar isso. Sim, Linda, acho que eu acho que temos uma boa chance de vencer esse caso. Falando nisso, por que seu nome é diferente do de seu pai?

Linda ficou confusa:

- Não sei do que está falando.

- Seu nome é Lyme, não é? Mas ele é Stanley Renner.

A moça não sabia explicar.

- Eu não sei. Desculpe, não sabia que o nome dele era Stanley Renner. A última vez que o vi... eu tinha cinco anos...

- Podemos trabalhar nisso mais tarde, Linda. Agora que eu já a conheço, estou bem convencida de que podemos ganhar esse caso. Teremos outras reuniões como essa antes que o caso vá a julgamento. Agora eu preciso falar com o Dr. Lennyard. Poderia chamá-lo, por favor?

- Claro.

Linda saiu do escritório e disse ao Dr. Lennyard para entrar. Ela estava na sala de espera há menos de 10 minutos quando Ray invadiu o local, ofegante:

- Cheguei tarde?

- Não - Linda sorriu. - Sente um pouco, respire.

Ele obedeceu, depois esperou que ele falasse. Ray logo perguntou:

- Ainda está esperando?

- Eu já falei com ela. Ela diz que temos chance de ganhar.

- Mesmo?

- Hmhm. E eu serei chamada a testemunhar.

- Ela quer que você testemunhe?

- Sim. Ela diz que eu posso fazer isso.

- Claro que pode. Você é uma garota muito esperta. Ela viu isso logo de cara.

Linda sorriu, sentindo-se mais confiante. Ela não mencionou que a advogada insinuou que o italiano a metia em encrencas. A moça estava feliz com o mero fato de que ele tinha podido vir, e o abraçou, agradecida.

- Obrigada por vir.

- Ei, garota, não tem problema. Somos amigos, certo?

- Certo, Ray.

Linda sorriu, contente, e aninhou-se em Ray. Eles esperaram o Dr. Lennyard sair do escritório. A Srta. Weiner ficou intrigada ao ver Linda abraçada ao homem. O Dr. Lennyard apresentou:

- Srta. Weiner, este é o detetive Ray Vecchio, o bom amigo de Linda.

- Oh, ele é o detetive Vecchio? Que conveniente ter vindo. Pode entrar também.

- Desculpe, madame, mas eu tenho um compromisso. Mas acho que posso aparecer amanhã, se estiver bem.

- Faça isso, Sr. Vecchio. E traga o seu amigo, o Sr... - ela olhou o papel e disse. - Fraser.

- Está bem - Ele se virou - Ei, doutor, tudo bem se eu levar Linda para tomar um sorvete?

- Ela precisa estar de volta ao hospital às sete.

- Ela vai estar. Quer uma carona para lá?

- Para falar a verdade, quero, sim, obrigado.

- Ótimo -Ray guiou Linda e ainda se virou para dizer - Até amanhã, Srta. Weiner.

Linda terminou o dia saindo com Ray no finalzinho da tarde em pleno centro de Chicago, e depois na residência dos Vecchio, onde ela foi paparicada. Depois eles saíram para tomar sorvete na Avenida Michigan, onde Fraser os encontrou. Linda estava esfuziante. Dief e ela correram pelo Park Lincoln, e depois Fraser e Ray a levaram de volta para o hospital.

Linda entendeu por que Fraser não podia ficar aquela noite. Ele precisava de sono, e a superiora dele estava exigindo muito. Ela lhe deu um beijo de despedida, depois deu outro em Ray, de gratidão. Quando recebeu as pílulas para dormir, ela se prometeu que a primeira coisa que faria de manhã era ter uma boa conversa com o Dr. Lennyard.

 

O psiquiatra a encarou com toda a seriedade no consultório, enquanto a moça não apresentava qualquer sinal de intimidação ou de hesitação. Linda estava mesmo bem segura do que queria. Mesmo assim, o Dr. Lennyard achou melhor perguntar:

- Por que está me pedindo isso, Linda?

A moça corou de maneira violenta e respondeu:

- Não vou mentir para o senhor. Sinto falta de minha privacidade. E como não estou trabalhando mesmo, posso descansar em casa. Sabe que eu vou tomar toda a medicação que me passar.

- Linda, você sabe que em circunstâncias normais, eu não faria qualquer objeção a isso. Mas as circunstâncias não são normais. Eu preciso que você esteja disponível com uma antecedência bem curta. Então vou atender seu pedido, mas com uma nova norma. Deve vir assim que eu a chamar.

- Claro, doutor. Eu sempre fiz isso.

O Dr. Lennyard disse:

- Eu sei, Linda. Mas com essa ação legal, há muita coisa em jogo. Essa experiência que você tem, de ter sua casa e sua vida, pode ser negada a outros pacientes, gente que como você não tem dano cerebral.

Dano cerebral, corrigiu-se Linda mentalmente. Não estrago cerebral. Em voz alta, ela disse:

- Isso seria horrível, doutor.

- Vamos ter que voltar ainda essa semana para o escritório da Srta. Weiner, portanto esteja preparada.

- Sim, doutor.

- Está bem, Linda, vá em frente. Ah! - Ele rabiscou um pedaço de papel e entregou a ela - Vá até à farmácia e mande fazer esses comprimidos. Tome dois deles por dia, após as refeições, como sempre. Se tiver dificuldade em dormir, me chame imediatamente.

- Está bem. Obrigada, Dr. Lennyard.

A moça entrou em casa depois de três semanas e não sentiu qualquer diferença. Na verdade, havia uma sutil diferença: o toque de Mamma Vecchio em deixar tudo em ordem, mesmo sem saber quando Linda voltaria a sua casa. Depois ela entrou no quarto, sentiu que havia pequenas coisas faltando. Coisas que tinham sido quebradas, violadas, vandalizadas. Quando entrou, ela se lembrou de tudo: o ataque, a mão na sua boca impedindo que gritasse, o peso daquele homem sobre você, as coisas que ele dizia...

Quando Linda deu por si, estava no chão, agarrada a uma almofada, chorando. Então ouviu uma batida na porta.

- Linda?

Era a senhoria. Ela viu a moça chorando e levou-a para sua casa, onde lhe deu chá e consolou-a. Também disse que Linda era bem-vinda a qualquer hora, se precisasse de qualquer coisa, mesmo que fosse apenas para conversar. Linda disse que estava um pouco triste, mas ela deveria acordar outra pela manhã.

À noite, Fraser apareceu. Dief foi entrando no apartamento, depois o canadense, parecendo preocupado:

- Fui ao hospital. Disseram que tinha vindo para casa. Tudo bem?

- Sim - mentiu ela, levando-o ao sofá - Eu não queria ficar no hospital, já que não estou mais doente.

- Bom. Estou pensando em tirar alguns dias do Consulado. Podemos ficar juntos.

Ela disse:

- Odeio ver você ficar desleixado no trabalho por minha culpa, Ben.

- Não, Linda, eu tenho uma licença chegando. Sei que você vai precisar de mim na época da audiência.

- Você sabe quando vai ser?

- Não, mas se a advogada já está tão envolvida, não deve demorar. Talvez seja antes de Thanksgiving.

Linda estremeceu:

- Por mim, está ótimo. Podemos terminar com tudo isso de uma vez. Ben, estou com medo.

Ele a envolveu em seus braços e ela se sentiu segura, protegida. Depois o cheiro dele penetrou suas narinas enquanto ela punha o ouvido no peito dele, ouvindo-lhe o coração batendo. Ele disse:

- Farei tudo que puder para protegê-la, Linda. Eu amo você.

- Só me abrace, Benny. Por favor. Eu me sinto protegida quando você me abraça.

Então ele obedeceu, beijando o topo da cabeça dela, depois a testa, depois o nariz, e finalmente os lábios, e eles mergulharam num beijo apaixonado e quente, até ambos estarem ofegantes e seus olhos embaçados de desejo. Diefenbaker resolveu se aninhar debaixo do sofá, prevendo que aquilo iria durar a noite toda. De repente, Ben a ergueu em seus braços e a levou até o quarto, Linda sentindo o coração saltando do peito em antecipação.

Lá ele a colocou na cama e deitou-se ao seu lado. Ambos se esqueceram completamente do lobo embaixo do sofá. Fraser murmurou:

- Deus, você é linda.

- Ben, por favor, me beije. Por favor.

Ele obedeceu. E no fim, ele estava tão cheio de desejo que se despiu, enquanto ela acariciava o corpo dele e também retirava suas roupas. Depois ele pediu:

- Querida, por favor, feche os olhos e deixe-me amá-la.

- Quero amar você - insistiu ela, excitada - Ben, eu quero você.

- Não, Linda - disse ele, sorrindo e beijando todo o pescoço dela - Hoje é a sua vez. Dessa vez não vai conseguir me distrair. Quero fazer você gritar de prazer. Concorda com o que eu quero fazer?

Ela acariciou o peito perfeito dele, ainda mais excitada, e respondeu:

- Farei tudo o que quiser que eu faça, Ben. Eu amo você.

Fraser beijou-a com tamanho ímpeto que Linda pensou que fosse desmaiar de pura falta de oxigênio. Em seguida os lábios experientes passaram a passear por todo o peito dela, os seios, o pescoço, carícias que a deixaram quase sem fôlego, enquanto as mãos dele foram para a cintura delicada. Os lábios desceram para a barriga reta dela, e foi a partir daí que Linda começou a perder o controle. Em questão de minutos, a língua dele estava na parte interna das coxas de Linda, e ela gemia alto. Ela precisou exercer todo seu controle quando Fraser decidiu usar sua boca na sua umidade, no âmago de seu ser. A língua hábil fez Linda ter sensações que ela jamais imaginou possuir. O pensamento racional estava totalmente fora de questão, e se Linda tivesse qualquer sombra de fôlego, ela bem que estaria gritando.

Quando ela pensou que não lhe restava outro caminho a não ser explodir em êxtase, a língua sumiu. Ofegante, Linda mal conseguiu erguer a cabeça. Foi então que ela sentiu algo que a deixava à beira das lágrimas toda vez: Fraser a penetrava, sua virilidade a preenchendo todos os vazios. Ela jogou a cabeça para trás, gemendo e estendeu os braços, procurando abraçar o amante e puxá-lo mais para dentro de si. Não havia necessidade. Fraser já estava concentrado na tarefa, e ele se deitou sobre ela, estimulando-lhe o clitóris enquanto ele mordiscava-lhe os seios. Ambos estavam próximos do ponto de ebulição.

Na verdade, foram os gritos de Linda ao atingir seu orgasmo que fizeram Fraser estremecer de prazer e despejar sua semente no corpo de sua amada. Ambos permaneceram deitados um nos braços do outro, ofegantes, os corpos nus e suados desacelerando lentamente. Fraser teve o cuidado de não esmagar Linda sob seu corpo volumoso e a tomou contra si. Assim adormeceram. Linda se sentiu amada, segura e mais acariciada do que já tinha sido.

Ao longo de duas semanas, a rotina dela consistia em esperar por Fraser (que viria com ou sem Ray) e sair à noite, bem como pelo menos dois jantares semanais com os Vecchio. Ela também apreciava a intimidade com Fraser. Não era só o sexo, mas as coisas mais importantes, as conversas e as carícias. Linda cada vez mais conseguia expressar seus sentimentos por ele.

Durante o dia, havia alguns poucos lugares para ir. Na maioria das vezes, ela se dedicava a coisas corriqueiras, como compras no mercadinho do bairro, ou ia às consultas com o Dr. Lennyard, ou aos compromissos com a Srta. Weiner, quando não os dois, porque o dia da audiência se aproximava rapidamente. Uma das vezes que ela foi ao escritório da Srta. Weiner, ela ficou surpresa:

- Ben?

Ele estava na sala de espera da advogada, sentando com seu uniforme ao lado do Dr. Lennyard. Ele se ergueu quando Linda entrou, e tinha seu chapéu Stetson na mão.

- Er... Linda, olá.

- Eu não esperava encontrá-lo aqui - ela confessou. - Não devemos dar o testemunho juntos no dia da audiência.

Fraser realmente parecia extremamente embaraçado:

- Eu sei, mas estou aqui por... um outro assunto.

Linda ficou intrigada, mas não pôde falar nada, porque a porta da Srta. Weiner se abriu e ela pôs a cabeça para fora. Ao ver Linda, a advogada sorriu:

- Que bom que chegou, Linda. Por favor, entrem. E estou falando com todos os três.

Linda entrou no escritório com a distinta sensação que havia algo acontecendo que ela não sabia. Se esse fosse o caso, aparentemente ela saberia de tudo em breve. Ela viu Fraser e o Dr. Lennyard entrarem. E os instintos dela estavam certo. Assim que estavam todos instalados e sentados, a Srta. Weiner disse:

- Então, Sr. Fraser, o senhor está dizendo que tem um modo de encerrar essa ação.

- Não, madame. Eu simplesmente argumentei que eu gostaria de discutir uma opção que pode nos livrar dessa ação judicial.

- Seja lá o que for, Constable, desembuche.

Ele pareceu enrubescer e pigarreou antes de dizer:

- Bem, madame, se ajudar de qualquer maneira, eu ficaria mais do que feliz em me casar com Linda.

Por um minuto ou mais, o silêncio na sala era tamanho que uma mosca teria soado como um jato supersônico. Fraser esperou até que a notícia fosse bem assimilada. E foi a advogada quem quebrou o silêncio:

- O quê?!

Era a deixa que Fraser estava esperando para argumentar:

- Eu entendo que ela precisa da permissão do Dr. Lennyard, porque ele é o tutor legal, mas uma vez casada, pelo que eu entendo, ela estaria emancipada do ponto de vista legal, e então o pai dela não poderia mais interferir em sua vida. Não haveria sequer custódia para ser disputada.

O Dr. Lennyard disse:

- Não pode falar sério.

- Falo muito sério - insistiu o polícia montada - Além disso, eu amo Linda. Casar com ela seria apenas uma questão de tempo. Estou apenas... apressando as coisas um pouco, pode-se dizer.

Linda estava pálida, chocada com o que ouvia. O Dr. Lennyard lembrou o canadense:

- Casar com Linda não lhe daria custódia legal sobre ela.

- Não, claro que não, nem é esse meu objetivo - concordou Fraser - Mas Linda passaria a ter total responsabilidade sobre si mesma, quero crer.

Linda estava intrigada:

- Responsabilidade? Eu deixaria de ter um tutor?

Fraser disse:

- Se entendo a coisa corretamente, é exatamente isso que aconteceria. Você seria responsável por seus próprios atos.

A advogada precipitou-se em dizer:

- Linda, espere um minuto antes de chegar a conclusões precipitadas. Estamos apenas explorando as possibilidades.

A moça estava ficando esperançosa:

- Mas pode ser feito? Pode ser verdade?

A Sra. Weiner sorriu tristemente e disse:

- Lamento estragar sua festa, pessoal, mas isso faria mais mal do que bem.

O Dr. Lennyard disse, azedo:

- E também não me parece ser a coisa mais ética a ser fazer.

- O Dr. Lennyard tem razão - concordou a advogada - Um casamento tão próximo da audiência ia parecer uma maneira de escapar da lei. Os juízes dificilmente aprovam este tipo de conduta.

Fraser argumentou

- Não se eu amá-la.

A mulher sorriu:

- Boa tentativa, Constable.

Fraser insistiu:

- É a verdade. Eu a amo.

A Sra. Weiner apertou os olhos ameaçadoramente na direção dele e disse, de maneira bem áspera:

- Então está apaixonado, Sr. Fraser? Deixe-me dizer-lhe algo que descobri sobre o senhor e que a outra parte também pode ter descoberto: suas relações profissionais com seu oficial superior estão ficando bem ruins, não? Uma certa inspetora Thatcher neste momento não é sua maior fã.

O canadense não se intimidou:

- Isso não tem relação alguma a ver com o fato de -

A advogada interrompeu-o aos gritos de acusações duras:

- Não tem relação alguma?! Eu vou lhe dizer qual é a relação, moço! A mencionada inspetora está pronta para despachar seu traseiro de volta para o Yukon, e você não tem como impedi-la. Você quer ficar nos Estados Unidos, mas não pode. Aí você se encontra com Linda, uma garota boazinha, mas com capacidade intelectual limitada. Que pena que ela não seja rica. Mas ela tem algo melhor: cidadania americana. Ela também é até bonitinha, presa fácil, e se você fizer tudo direitinho, pode terminar casado com ela e dono de um reluzente cartão de cidadania americana. Em três meses, você diz que ela teve um recaída, leva a esposinha para uma instituição mental qualquer - pública, claro, porque você não gastaria dinheiro com ela - e a abandona lá para morrer, e você entra com uma ação de divórcio com base em instabilidade mental. Com um bom advogado, você está totalmente livre e documentado para viver legalmente nos Estados Unidos. Nada mal, não é?

O canadense estava totalmente vermelho. Punhos fechados sobre os joelhos, mandíbulas trancadas de ira, Fraser se controlou ao máximo para não explodir de ódio, e mal conseguiu falar, com os dentes trincados:

- Isso é absurdo. Eu jamais...

A Sra. Weiner o interrompeu, com a expressão mais doce:

- Claro que jamais faria isso, Constable. Mas esse tipo de argumento é exatamente o que vai enfrentar se o senhor se casar com Linda tão repentinamente. Lamento.

Linda estava encolhida em sua cadeira, calada. Fraser indagou:

- Linda, tudo bem?

Ela parecia aterrorizada. Ergueu a cabeça para ver Fraser, os olhos cheios de dor, e então se virou para a advogada:

- É assim que vai ser na audiência?

Os três se entreolharam. A Sra. Weiner disse:

- Linda, eu não vou mentir para você. Sim, pode ser assim. Lamento dizer isso. Já conversamos antes, e você sabe que eles podem vir com muita agressividade. Ainda está disposta?

Linda olhou para a advogada e respondeu:

- Farei o melhor que puder, Sra. Weiner.

A advogada sorriu e olhou para o Dr. Lennyard, que deu um sorriso confiante. Fraser abaixou-se para beijar as mãos de Linda entre as suas, e observou a moça ficar com as faces cor de rosa. Demonstrações públicas de afeto ainda a envergonhavam muito.

Quase 20 dias mais tarde, a audiência se realizou. A Srta. Weiner já tinha avisado Linda de que ela deveria chamar o juiz de Meritíssimo e que antes da audiência ela ficaria separada de todas as outras testemunhas. Para que ela não ficasse sozinha, Frannie concordou em ficar com a moça numa salinha até que ela fosse chamada a depor. Linda estava muito nervosa e a caçula dos Vecchio passou a falar sem parar sobre maquiagem, cosméticos, roupas e várias outras coisas para que elas não pensassem no que iria acontecer na sala de audiências.

Então Linda não estava esperando quando um oficial de justiça veio buscá-la. Frannie a abraçou, desejou-lhe boa sorte e o oficial a levou até o salão. Assim que ela ultrapassou as grandes portas, ela viu um homem mais velho numa cadeira alta (provavelmente o juiz) em frente a uma mesa. De um lado da mesa, estavam a Srta. Weiner, o Dr. Lennyard, do outro estavam um casal e o pai dela. Atrás da mesa, no fundo da sala, havia algumas cadeiras, e lá estavam Fraser, Ray, a Sra. Sorelli e quatro outras pessoas que Linda não conhecia. A atenção dela foi distraída pela voz de um homem:

- Você pode se sentar aqui, Linda - Ela se virou, e viu que o juiz falava com ela - Não tenha medo.

Ela sentou-se, obediente, e obviamente ela deveria estar transparecendo todo o seu nervosismo, porque a primeira coisa que o juiz disse foi:

- Linda, isso é apenas uma conversa, então não precisa ficar nervosa. O tribunal precisa avaliar você para poder tomar uma decisão. Entende o que isso quer dizer?

- Sim, er... - Ela hesitou - Eu... Desculpe, eu esqueci o que devo dizer ao senhor. É Sua Alteza?

Algumas risadas abafadas se ouviram na sala, e o juiz sorriu suavemente, antes de dizer:

- Pode me chamar de senhor ou de juiz Reynolds.

Ela estava tão aliviada que sorriu e decidiu que seria melhor evitar olhar para outro lugar que não fosse o juiz e disse:

- Sim, senhor. Obrigada, senhor.

- Linda, você sabe por que está aqui?

- Sim, senhor. O senhor precisa me avaliar para poder decidir se eu devo continuar meu tratamento com Dr. Lennyard ou se eu devo ser entregue ao meu pai natural.

- O que acha disso, Linda?

- Estou muito nervosa sobre isso, senhor.

- É mesmo?

- Sim. Eu estou... apavorada.

- Por que está apavorada, Linda?

- Eu não me lembro muito do tempo em que morava com meu pai, senhor, exceto que eu vivia triste e com medo. Eu era muito pequena quando me tiraram dele. Não quero mais viver com medo e triste.

- Acha que é isso que vai acontecer se for morar com ele?

- Acho que sim, senhor.

- Linda, você já teve uma família?

- Eu era muito pequena para me lembrar disso.

- Não acha que seria bom ter uma família?

Linda não parecia nem um pouco animada com a idéia:

- Não sei, senhor. Como disse, eu nunca tive uma. Mas agora gosto de minha vida.

O juiz consultou alguns papéis na sua mesa e disse:

- Aqui diz que você tem uma permissão especial do seu médico para ter uma emprego, e você vive num pequeno apartamento, fora do hospício. Isso é verdade?

- Sim, senhor, e eu tomo minha medicação todos os dias.

- Isso é mesmo muito bom, Linda. Sua superiora diz que seu trabalho é muito bom.

- A Sra. Sorelli é uma pessoa muito bondosa, Juiz Reynolds.

- E você tem passado por maus bocados ultimamente. Seu nome tem aparecido em relatórios policiais e algumas ocorrências.

Linda tinha a resposta na ponta da língua:

- Coisas assim acontecem numa cidade grande como Chicago, senhor.

O juiz a olhou e ela sorriu candidamente para ele. Mas ele não esqueceu a pergunta:

- Então você não acredita que isso é uma conseqüência de sua amizade com o Constable Fraser ou com o detetive Vecchio?

- Claro que não, senhor juiz. Eles jamais fariam qualquer coisa para me ferir. Tenho certeza disso. São os melhores amigo que eu já tive.

- E quem toma conta de sua saúde?

- É o Dr. Lennyard.

- Não, eu quero dizer todos os dias.

- Sou eu. Tomo meu remédio todos os dias.

- Sozinha? E se você se esquecer?

- Eu não me esqueço. O Dr. Lennyard foi bastante específico sobre isso. Eu sei que tenho que seguir as regras, senão eu posso voltar para a instituição.

- Não quer voltar para lá, não é mesmo?

- Não, senhor.

- Não gosta de lá?

- Os remédios que eles dão me deixam tonta. Aí não posso cuidar de mim mesma. Eu gosto de poder cuidar de mim mesma. Não quero ser um fardo para ninguém.

O juiz Reynolds sorriu e disse:

- Você é muito simpática, Linda, e acho difícil acreditar que seja um fardo. Agora o oficial de justiça vai levá-la para uma cadeira lá atrás. Pode ficar sentada lá.

- Obrigada, senhor.

Ela foi levada para o fundo da sala, e ao andar, evitou encarar o pai. Nervosa, ela se sentou entre Ray e Fraser. O canadense segurou as mãos dela, que estavam suadas, e ela percebeu o quanto precisava que ele a tocasse, para se assegurar de sua força e seu apoio.

Em seguida, mais duas pessoas foram chamadas. Uma delas foi a Sra. Sorelli, e a outra, um médico que Linda nunca tinha visto antes. O nome dele era Lachen. Linda sequer ouviu o que eles disseram.

Ray abraçou Linda, e sorriu para ela. De repente, o Juiz Reynolds falou uma coisa que Linda não conseguiu ouvir. Depois disso, todo mundo se levantou, enquanto o juiz saía da sala. Linda se ergueu também e cochichou para Ray:

- O que aconteceu? O que ele disse?

- Que a sentença vai ser pronunciada em breve - Ray olhou para ela e beijou-lhe a cabeça - Vai acabar logo.

- Ótimo - disse Linda - Quero ir para casa.

Todos se sentaram novamente. Fraser estava quieto, e Linda notou que ele movia o polegar na sobrancelha. Ele não fazia aquilo sempre.

Ele está preocupado, pensou Linda. Então ela pegou as duas mãos dele dentro das dela e ele olhou nos olhos dela. Estavam cheios de amor e confiança, e ele sentiu um peso na garganta. Linda disse:

- Eu te amo, Ben. Eu te amo mais que todo o sempre.

Emocionado demais, Fraser só pôde abraçá-la e beijar o topo da cabeça dela, dizendo:

- Eu te amo também, Linda.

Eles ficaram juntos, abraçados, alheios aos olhares furiosos que atravessavam o salão, vindos do lado do pai dela. Ela descansou a cabeça no amplo peito de Fraser, silenciosamente rezando para que tudo terminasse logo, como Ray tinha previsto. Todos esse sofrimento iria valer a pena, se o pai dela pudesse ser afastado para sempre.

Então o grito do meirinho a devolveu à realidade:

- Todos de pé!

Linda sentiu o seu coração acelerando, quando viu o Juiz Reynolds voltar ao recinto. Ele voltou devagar ao seu assento, e só depois de suspirar fundo, disse:

- Por favor, sentem-se - Quando todos tinham parado de se movimentar, ele suspirou mais uma vez e disse - Sabem, esse caso não é muito comum. Estamos falando da custódia de uma pessoa crescida. Eu poderia prolongar isso por bastante tempo, pedindo exames de diferentes médicos, avaliações de assistentes sociais e essas coisas. Mas acredito que nada disso faria bem a Linda. E o interesse dela é a única coisa que me preocupa. Portanto, eu vou direto ao ponto, rápido e rasteiro. Acho que o Dr. Lennyard e sua equipe fizeram maravilhas por essa moça. Linda parece ser inteligente, esperta e motivada. Está apresentando uma capacidade de socialização excepcional para uma pregressa de um hospício do Estado. Por isso é que eu decidi que uma maior convivência com sua família natural só traria benefícios adicionais à sua condição. É decisão dessa corte que seja concedida ao requerente custódia temporária de sua filha, de exatos seis meses, não prorrogáveis. Ao final desse prazo, uma avaliação será feita para tornar a custódia permanente ou não. Os antigos guardiães legais estão absolutamente proibidos de se aproximar dela. Visitas não serão permitidas, para que Linda experimente uma vida familiar verdadeira. Esta corte punirá severamente qualquer abuso, desobediência ou violação a essas regras. - Ele bateu o martelo - A sessão está encerrada.

Parecia a Linda que as coisas estavam se mexendo como num pesadelo. A realidade virou líquida. A Srta. Weiner imediatamente se ergueu e disse:

- Meritíssimo, eu gostaria de encaminhar um apelação!

O juiz já estava descendo do banco quando respondeu:

- Então use os caminhos legais, Srta. Weiner.

Linda se virou para Fraser, que estava branco feito uma folha de papel:

- Não estou entendendo, Ben. O que ele disse?

Fraser olhava para frente, um pouco sem reações, enquanto todos na sala se mexiam e Ray tremia todo. Linda podia ver que algo muito ruim estava acontecendo, mas ela ainda não sabia dizer exatamente o quê. O italiano tinha os olhos verdes cheio de dor quando respondeu:

- Linda, nós perdemos.

Ela ficou chocada.

- O quê?! Ben, Ben, o que... Benny, não pode...

O canadense se virou para ela, e a voz dele parecia alquebrada:

- Linda, por favor, querida, tente se acalmar.

Ela começou a ficar com medo, com muito medo:

- Diga que não é verdade, Ben... Por favor...

De repente, tudo ao redor dela parecia se fechar, as paredes como se curvavam para cima dela e ela não podia ouvir direito o que Ben dizia. Mas ela tentava prestar atenção. Só não acreditava nas palavras que ele pronunciava.

- Benny, o que está dizendo? Que eu tenho que ir com... eles?

- Temo que sim, Linda - Ele parecia devastado. - Eu farei tudo o que puder para reverter a situação.

Lágrimas começaram a cair pela bochechas dela:

- Ben, eu não quero ir.

Fraser estava certo de poder ouvir seu coração se partindo dentro do peito, diante do mero som do pedido de Linda. Ele a pôs em seus braços e disse:

- Precisamos ser fortes, Linda. Por favor. Foi a ordem do juiz.

Ela começou a chorar, sem nem se dar conta, as palavras abafadas no peito dele:

- Eu te amo, Ben!

- Eu também te amo, Linda. Nunca duvide disso.

Uma voz masculina estranha disse:

- Vamos embora, Linda.

Fraser pôde sentir o corpo de Linda estremecendo ao som da voz e olhou em volta. O pai dela, Stanley Renner, estava acompanhado de uma moça desconhecida e de um oficial de polícia. Fraser tentou se separar de Linda, dizendo, com uma voz paciente, como se falasse com uma criança:

- Linda. Linda, por favor. Você tem que ir agora.

Ela estava soluçando, e a moça desconhecida a abraçou com carinho, tentando acalmá-la com palavras de pura meiguice, sem conseguir parar o choro. Linda não acreditava que estava sendo levada, e olhou por cima do ombro da moça, procurando Fraser e chamando:

- Ben! Ben!

Fraser chamou:

- Linda!

Ray o deteve e disse:

- Nós vamos trazê-la de volta, amigão.

Do lado de fora do salão de audiências, a moça desconhecida levava Linda, quando as duas foram interceptadas pelo doutor chamado Lachen, que disse:

- Olá, Linda. Acho que vai precisar de algo para se sentir melhor.

Uma injeção! Ela se desesperou, tentando escapar, mas estava fortemente segura e a agulha se enterrou na sua pele, e ela gritou ainda mais alto, mas a droga finalmente começou a agir, amolecendo-a. Se ela estivesse acordada, teria visto o olhar de seu pai para Fraser e Ray, avisando entre dentes:

- Ouviram o juiz. Se tentarem chegar perto dela, eu mando os dois para a cadeia. Agora ela é minha.

Algo na voz dele fez Ray ter ímpetos de pular sobre o homem, e Fraser teve que detê-lo antes que a situação se degenerasse num legítimo arranca-rabo. Enquanto isso, o corpo inconsciente de Linda estava num carro que a levaria para o seu novo e indesejado lar.

* * *

Linda se sentia muito mal quando acordou. Havia um gosto estranho na sua boca.

- Olá, Linda.

Ela pulou ao som da voz inesperada. Era aquela moça desconhecida que a amparara no tribunal, e agora a estava olhando com imensos olhos marrons. Ela sorriu para Linda:

- Desculpe, não queria assustá-la.

- Quem é você?

- Sou Donna. Vou tomar conta de você daqui para frente. Como se sente?

- Meu estômago... dói.

-Tome - Ela pegou um copo com leite que estava ao seu lado e deu para a garota - Isso deve aliviar o estômago.

Linda pegou o copo e sorveu o líquido olhando para a mulher, que parecia ser apenas um pouco mais velha do que ela mesma. Ela devolveu o copo, dizendo:

- Obrigado, Srta. Donna.

- Não precisa me chamar de senhorita, Linda. Somos amigas. Quero tomar conta de você bem, porque é isso que os amigos fazem.

Linda decidiu pensar naquilo depois. Olhou em volta:

- Onde estou?

- Na sua nova casa, Linda. Esse é seu quarto novo. Gosta dele?

Linda quase não acreditou no que estava ouvindo. Tudo aquilo era dela? Havia uma mesinha de cabeceira, uma penteadeira maravilhosa, uma cômoda graciosa, bichinhos de pelúcia em lindas prateleiras e cortinas bonitas emoldurando a janela que dava para um parque. Linda jamais tivera coisas assim antes. Ela estava envergonhada:

- É muito bonito.

Donna estendeu a mão para Linda e chamou:

- Venha, deixe-me mostrar-lhe a casa.

A moça seguiu a sua nova amiga naquele estranho lar. Era um apartamento com uma linda sala de estar, uma sala com uma televisão, uma cozinha ampla, depois o quarto do pai dela com um banheiro só para ele e ainda outro quarto para hóspedes, além do quarto de Linda. Era imenso, comparado ao apartamento de quarto e sala onde Linda morava. Ela tinha a impressão de que poderia se perder ali dentro. Havia tantas coisas bonitas ali, e tudo era tão novo para ela. Linda também notou que o pai dela não estava em casa. Perguntou:

- Não tem ninguém em casa?

Donna respondeu:

- Na maior parte do dia, estaremos sós, eu e você, pois seu pai está trabalhando nesse horário. Mas podemos sair, caminhar e fazer muitas coisas juntas. À noite, seu pai estará em casa.

Linda não pôde evitar estremecer. Donna indagou:

- Está com fome?

- Não, na verdade, eu...

- Ah, duvido. Você não comeu nada o dia todo.

Donna cozinhou para Linda, e a garota percebeu que estava mesmo faminta. Depois, Donna sugeriu:

- Que tal um banho quente, Linda?

- Bom, mas eu não tenho roupas.

- Tem um armário cheio de roupas no seu quarto. São todas suas.

Ela ficou sem fala, e terminou indo para o banho. Ela sempre pensou que a banheira fosse para pessoas doentes. Então, ela percebeu: Donna a tratava como se ela estivesse doente.

- Eu não estou doente.

- O quê?

- Eu disse que não estou doente. Posso tomar conta de mim mesma.

- Posso ver que sim. Mas é para isso que eu fui contratada. Não acha que é legal ter ajuda?

- Sim, mas eu não preciso.

- Seu pai precisa trabalhar, Linda. Você ficaria sozinha o dia todo. Pense em mim como uma companhia.

Linda enrubesceu:

- Eu costumava fazer companhia a uma senhora. Mas era só meio período. Ela era uma senhora muito bondosa.

Donna sorriu:

- E você é uma boa garota. Agora vamos nos secar e talvez possamos andar um pouco. Assim você conhece o bairro. O que acha?

Não demorou para Linda descobrir que Donna era uma ótima companhia. Caminhar pelas quadras perto do prédio também era muito agradável. A vizinhança era totalmente diferente daquelas a que ela estava acostumada, com parques, criancinhas brincando e muitas árvores, esquilos e pássaros trinando. Era um festival para os seus sentidos.

As duas logo voltaram para casa, e Linda olhou em volta. Tudo era tão diferente, tão novo. Parecia a ela que ela estava sendo apresentada a um mundo totalmente novo. Só que... ela não pertencia a esse mundo.

- Com licença.

E correu para o quarto que eles lhe disseram que era seu.

- Linda! - Donna sentiu algo errado e foi atrás da garota - Linda, tudo bem?

Ela encontrou a garota encolhida numa bola, no canto do quarto, chorando sem emitir nenhum som, as lágrimas já encharcando-lhe as faces. A enfermeira sentiu pena da garota, e aproximou-se dela com extremo cuidado e carinho:

- Oh, Linda... Está tudo bem, Linda. Tudo bem... Está com medo, né? Pode chorar. Mas eu não quero lhe fazer mal. Não precisa ter medo de mim.

Linda se deu conta de que estava sendo muito rude com Donna, que tinha sido tão boa com ela. Oh, ela iria magoar Donna e era injusto.

- Desculpe - ela soluçou, tentando parar de chorar, mas não conseguia - Eu não quis... Mas os meus amigos... eu sinto saudades...

- Oh, Linda, eu lamento tanto. Claro que está com medo e com saudades deles. Quer que eu a abrace?

A garota não respondeu, mas também não fugiu quando sua enfermeira a envolveu nos seus braços ali mesmo, no chão. Ela tentou fazer Linda falar, para que ela parasse de chorar. Mas a garota só chorou, e isso durante um longo tempo, antes que se sentisse cansada. Aí os soluços começaram a se espaçar. Donna indagou:

- Quer comer algo, Linda? - Ela abanou a cabeça, negando - Talvez só um sanduichinho. O que diz?

- Não, por favor. Não vá.

A garota ainda estava em seus braços, sentindo-se quase acariciada. Mas havia um vácuo em seu coração, e parecia que nada iria preencher aquilo, de tantas saudades que sentia de Fraser, Ray e todos. Ela também sentia-se cansada, e viu que a noite caía. Donna colocou-a na cama e disse:

- Olhe, vou trazer seu remédio agora, tá? Deve ajudar você a descansar.

Linda não respondeu. Ela tomou a pílula e sentiu gratidão por poder cair num sono misericordioso que evitaria um pouco a dor da solidão.

Quando Linda acordou, era noite alta. Tudo estava escuro e ela saiu da cama com cuidado, abrindo a porta do quarto devagarinho. A casa toda estava às escuras, então ela calculou que deveria ser muito tarde da noite. Ela estava com muita fome, mas tinha medo de ir à cozinha pegar algo para comer. Vencendo o medo, ela andou pé ante pé pelo corredor, mas um barulho vindo do quarto do pai a fez fugir de volta para seu quarto e esconder-se debaixo da cama, tremendo. Assim ela ficou, tremendo, pensando no quanto tinha saudades de Ray e Fraser, e terminou adormecendo de novo.

O barulho da porta abrindo a acordou de supetão. Já era dia.

- Linda? - A voz era de Donna.

Ela saiu de debaixo da cama, encolhida.

- O que está fazendo aí? - indagou Donna. - Caiu da cama?

Envergonhada, Linda fez não com a cabeça e a enfermeira disse:

- Acho que está bem. Você dormiu bem?

- Sim, obrigada.

- Bom. Temos um dia bem movimentado à frente, então por que não escolhe uma roupa para poder tomar um banho antes do café?

-Tá.

- Quer que eu escolha a roupa para você?

Isso é uma bobagem, pensou Linda. Eu não estou doente e não sou uma criança. Não gosto de ser tratada assim. Mas não valia a pena brigar só por causa disso.

- Não, obrigada. Eu posso escolher minhas roupas.

- Ótimo! Enquanto isso, eu faço o café.

Linda fez como lhe pediram. Depois, limpa e vestida, ela entrou na cozinha, onde podia ouvir Donna preparando o café. Linda estava com tanta fome que começava a sentir o estômago doer. Mas assim que pôs o pé na cozinha, ela se deteve.

O pai dela estava sentado à mesa, com uma xícara de café na mão e o jornal do dia na outra. Ele a olhou e disse:

- Bom dia.

Ela começou a tremer. O primeiro impulso dela era correr, mas não havia lugar seguro. Ela olhou para Donna, silenciosamente implorando por socorro, os olhos se enchendo de água. Mas ela se deu conta de que ele morava ali, então era claro que ela teria que se encontrar com ele mais cedo ou mais tarde. Ela tinha se esquecido disso.

Por que não poderia ter sido mais tarde?

- Pode se sentar, Linda - disse Donna, sem perceber a angústia da garota - Já está quase pronto.

Ela se sentou o mais longe do pai quanto foi possível, sequer ousando olhar para ele, mantendo a cabeça baixa o tempo todo, a respiração curta, os olhos aflitos. Donna a serviu de ovos quentes, dizendo:

- Espero que goste dele como eu preparei.

- Obrigada.

- Vou pegar suco de laranja. Você gosta?

- Sim, por favor.

- Ótimo.

Linda atacou sua comida, e por alguns poucos minutos ela conseguiu esquecer a presença de seu pai a poucos centímetros dela. Mas ele se encarregou de lembrá-la, dobrando o jornal e dizendo:

- Lamento, não posso ficar mais. Donna, certifique-se de falar com o Dr. Lachen sobre o que conversamos.

- Sim, Sr. Renner.

- Tenham um bom dia, meninas.

E saiu. Linda estava aliviada, claro, mas estava intrigada, porque o homem pareceu quase simpático. Contudo, ela achou melhor não fazer comentários. Depois ela ajudou Donna a limpar a cozinha e as duas saíram.

Elas pegaram o ônibus e foram até o centro da cidade. O coração de Linda começou a acelerar assim que o veículo entrou na Wabash, pois aquele era um lugar conhecido para ela. Talvez ela pudesse se encontrar com algum conhecido, alguns de seus amigos, com sorte...

Donna interrompeu seus pensamentos:

- Essa é uma viagem que vamos fazer com freqüência, Linda. Estamos a caminho do consultório do Dr. Lachen.

- Dr. Lachen? Mas... eu tenho... meu médico.

- Seu pai quer que ele tome conta de você daqui para frente. Seu pai só quer o que é melhor para você.

Permita-me discordar.

Linda abaixou a cabeça, porque não queria discutir com Donna. Ela já tinha sido rude com Donna uma vez, duas vezes seria imperdoável. Donna era uma moça muito boa com ela.

Quando chegaram lá, Linda esperou um pouco na sala, depois foi levada para falar sozinha com o tal Dr. Lachen. Era o homem que lhe dera a injeção no tribunal, no dia audiência. Assim que ela o viu, ela inspirou fortemente, assustada e instintivamente congelou de medo. Ele riu-se baixinho:

- Vejo que se lembra de mim. Relaxe, Linda, eu não vou lhe dar qualquer injeção. Lamento por aquilo, mas precisa compreender que você precisava ser acalmada. Espero que não haja nenhum ressentimento.

Linda achou melhor não responder. O médico continuou:

- Como foi seu primeiro dia com seu pai? Pode me falar.

- Eu conheci Donna - respondeu a garota. - Ela é legal.

- Que bom que você e Donna estão se dando bem. Que mais pode me dizer?

Ela tinha que dizer. Então ela disse, mesmo sabendo que ela seria petulante:

- Eu sinto saudades de minha casa, de meus amigos, meu trabalho.

- Oh, aposto que sim. E fico feliz que tenha me dito, Linda. Afinal, é uma reação natural. Agora podemos falar sobre isso com sinceridade. Tem perguntas?

Linda não pôde se segurar:

- Quando vou voltar para casa? Quando poderei ver meus amigos? Quanto tempo mais tenho que ficar com ele?

- Vá com calma - O doutor estava sorrindo, e Linda percebeu que não gostava do sorriso dele. - Você deve ficar com seu pai porque o juiz mandou que ficasse. Você entende isso, não é? - Ela assentiu - Você também entende que seus amigos podem ficar em grande perigo se tentarem vê-la, não?

- Por quê?

- O juiz foi muito claro quando a isso. Eles não podem ficar perto de você. Se desobedecerem, eles podem ir parar na cadeia, e você não quer isso, quer?

Linda arregalou os olhos e ficou pálida, imaginando Fraser e Ray atrás das grades, então fez que não com a cabeça, bem enfática.

- Foi o que pensei - disse o médico - Então, parece que eu e você teremos que obedecer às ordens do juiz. Significa que você ficará com seu pai por pelo menos seis meses, e eu serei seu médico daqui por diante. Sei que está acostumada a tomar seus próprios remédios, mas acho que por agora seria melhor deixar a enfermeira cuidar disso, está bem?

Linda tentou não soar como reclamação quando respondeu:

- Está bem.

- Ótimo. Acho que vamos nos dar muito bem, Linda, posso ver que sim. Precisa confiar em mim completamente. Se tiver qualquer problema, pode falar comigo. Estou aqui para ajudar você. Entende isso?

- Sim, senhor.

- Boa menina. Agora pode trazer Donna?

Linda fez o que lhe era pedido com uma sensação ruim em seu estômago. Ela esperou até Donna falar com o médico, depois as duas moças saíram e Linda experimentou uma coisa que poucas vezes fizera: passear de dia pelo centro de Chicago. Elas almoçaram fora, e o tempo todo Linda ainda tinha uma esperança secreta de que elas encontrassem algum de seus amigos. Não teve essa sorte.

Desta vez elas tomaram o El para voltar parte do caminho. Elas ainda tinham quase duas quadras para andar quando Donna disse:

- Achei que seria melhor se caminharmos bastante esses primeiros dias para você conhecer o bairro.

- É muito legal aqui - disse Linda - Muitas coisas.

- E parques. Podemos nos divertir bastante.

Linda notou um prédio de pedra com uma arquitetura característica.

- Aquilo é uma igreja?

Donna esticou o pescoço e disse:

- Sim, é St. Michael's . Você é católica?

- Não, mas meu amigo Ray é. Ele diz que costumava ir à igreja quando tinha um problema. Ele dizia que falar com um padre o ajudava.

Donna convidou:

- Venha, vamos até lá.

Linda ficou impressionada quando entrou na igreja. Era tão linda e tão grande por dentro. Donna cochichou:

- Nunca esteve numa igreja?

- Ray me levou a uma, uma vez, mas ele estava num caso. Não ficamos muito tempo. Temos que cochichar?

Donna assentiu:

- Não só é um sinal de respeito, mas também há muito eco aqui. Faria muito barulho.

- Oh. - Linda chamou - Donna?

- Sim, Linda.

- Você se importa se eu falar com um padre?

A enfermeira pareceu ficar intrigada pelo pedido inesperado. Mas então ela suavizou sua expressão e disse:

- Claro que não. Venha, acho que podemos achar um ali, perto dos confessionários.

Acharam. Ele era um homem alto chamado Padre Mulcahey, que levou Linda para a sacristia e explicou a Linda que ela não poderia ser ouvida em confissão, porque ela não era sequer católica, nem batizada, nem essas coisas. Linda disse que estava tudo bem, que só o que ela queria era falar, porque ela sentia saudade de seus amigos, e não havia nada que ela pudesse fazer, porque então eles seriam presos, e ela temia o que o pai dela pudesse fazer, e na verdade, ela morria de medo do pai.

Uma vez que entendeu do que a garota falava, Padre Mulcahey ajudou muito. Linda chorou um pouco, mas quando ela deixou a sacristia, 30 minutos mais tarde, ela se sentia muito melhor. Donna a abraçou, agradeceu muito ao Padre Mulcahey, e elas saíram. Linda gostou da conversa e expressou seu desejo de conversar com o padre mais vezes. Era uma gota de alívio no que parecia ser um oceano de desespero.

 

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