Parte 5
Como tinha acontecido no caso Carver, Linda provou ser mesmo uma excelente testemunha. Os registros do hospital sobre seus ferimentos e seu próprio depoimento agregaram mais evidências no processo contra Moreaux. A polícia, contudo, descobriu que tudo que Moreaux queria de Linda era um álibi para um assassinato, de uma fonte que iria incriminá-lo em outros crimes. Não foi fácil, mas o tenente Welsh em pessoa fez o que pôde para assegurar que Moreaux fosse para a cadeia. Ray continuou a trabalhar no caso, também, mas ele também fez questão de se assegurar que Linda ficasse na casa dele e todos os ferimentos receberam os ternos cuidados de Ma Vecchio. Frannie e Maria também ajudaram, mas Linda na verdade gostaria de poder ficar um pouco mais com Fraser. Sozinha.
Durante o tempo em que a moça estava de licença médica, o canadense passou o máximo de tempo possível com ela na casa dos Vecchio, e trazia Diefenbaker sempre que podia, o que era fonte certa de alegria para Linda. Por tudo isso, Ray estava grato ao amigo, pois ele ainda estava trabalhando duro no caso e não podia ficar tanto tempo com a garota.
Dr. Lennyard acompanhava tudo e veio visitar Linda pelo menos duas vezes, não para confortá-la, mas para ver se ela realmente corria o risco de ter uma recaída tamanha que a institucionalização seria necessária. Ela ficou abalada por alguns dias, os pesadelos voltando, mas todo o amor e dedicação de seus maravilhosos amigos provaram poder compensar a dor. Em menos de uma semana, ela voltara a sorrir. As crises de choro se tornaram menos freqüentes. E ela passava muito tempo na varanda, olhando a rua. Jamais sozinha, porém.
Linda também tinha visitantes. A Sra. Sorelli e duas outras enfermeiras estiveram ali por alguns minutos numa noite e a moça chorou de felicidade ao ver que alguém se preocupava com ela de verdade. Depois que o trio saiu, Ma Vecchio acariciou Linda, pois as emoções dela estavam mesmo misturadas. Isso geralmente significava que Linda iria ficar cansada rapidamente, e acordaria no meio da noite gritando. Como de fato aconteceu.
À medida que o tempo passava e o progresso de Linda era evidente, Fraser discretamente a encorajava a voltar para seu apartamento. Ele alegava que ela voltaria mais rapidamente para sua rotina e portanto ficaria logo mais capaz de lidar com o que tinha acontecido. Na verdade, o canadense esperava que eles pudessem conversar sobre o incidente sem nenhum dos amáveis mas barulhentos Vecchios por perto, e, claro, discutir sobre a relação deles.
Eventualmente, isso aconteceu. Linda voltou para casa, retornou ao trabalho e aos amorosos braços de Fraser. Mas nada podia ser o mesmo exatamente. Especialmente porque ela não dizia o que tinha acontecido. Ray ficou alarmado quando ela se recusou a falar sobre o que acontecera. O detetive tinha trabalhado antes com vítimas de estupro, e sabia o que esperar. O problema era que Linda realmente tinha se fechado sobre isso. Uma vez ele tentara levantar o assunto, e ela reagira muito mal, perdendo o controle e negando tudo. Por enquanto, ele decidira deixar as coisas como estavam, mas ele sabia que Linda seria uma espécie de bomba de efeito retardado até que ela desabafasse. Então Ray teve uma idéia. Já que Linda parecia mais confortável com Benny, Benny poderia tentar falar com ela sobre o assunto.
O polícia montada estava agradecendo a deuses de todos os credos pela decisão de Ray, quando ele foi ao apartamento dela naquela noite.
- Talvez você devesse ter um telefone.
- Não tenho dinheiro para isso, Ben - ela disse, sentando-se ao lado dele no sofá e servindo-lhe chá - Além disso, eu não posso comprar um: eu não tenho direitos civis.
Fraser olhou para Linda como se a moça tivesse ficado careca em um segundo. Ela explicou:
- Sou o que se chama uma pessoa tutorada. Dr. Lennyard tem sido meu tutor legal desde que eu deixei a instituição. - Algo nos olhos de Fraser deve ter deixado transparecer a dor que isso lhe causava. - Eu aprendi a viver com isso, Ben. Está tudo bem.
Ele tomou um pouco de chá e insistiu:
- De qualquer modo, eu não gosto que você fique sem telefone. Não é seguro.
- Mas você também não tem telefone. Eu chamo o consulado se algo surgir. Benny, não é por causa de um telefone que você está dizendo isso, não é?
- Linda, estou preocupado com você. Quero que fique segura. Depois do que aconteceu eu... - Linda desviou o olhar, o assunto ainda lhe trazia dor - eu me sinto culpado. Eu a magoei. Foi tudo minha culpa.
A garota se virou, indignada:
- O quê? Culpa sua? Como pode dizer isso, Ben? Você me ajudou tanto.
Ele a abraçou e disse:
- Foi minha culpa, Linda. Você quis dar seu corpo àquele homem por minha causa. Eu me sinto mal.
- Não se sinta assim, Ben. Foi minha escolha.
O canadense se livrou dos braços dela, erguendo-se para não encará-la. Em seguida disse, gravemente:
- Não diga isso, por favor. Assim só piora as coisas.
- Como pode ser?
Ele tentou explicar:
- Linda, você insiste que não foi estupro.
- Não foi.
- Você sabe o que é estupro, não sabe?
- Claro que sei. Estupro é fazer sexo com alguém que você não quer.
Fraser tentou pegá-la usando sua lógica:
- Então se ele não a estuprou, isso significa que você queria fazer sexo com ele. Não acha que isso me magoa?
- Não, Ben! - Ela tentou dizer, já em lágrimas, dando-se conta de que estava se contradizendo. - Não foi assim. Achei que você iria entender.
- Eu poderia entender se tivesse isso estupro. Eu poderia entender se você percebesse que ele a forçou a fazer sexo com ele. Mas se você diz que não foi assim que aconteceu, então isso quer dizer que você queria fazer sexo com ele. E também significa que meus sentimentos não têm qualquer importância para você.
Linda chorava silenciosamente, cabeça baixa. Como ela poderia ter feito uma besteira desse tamanho? Entre soluços, ela conseguiu dizer:
- Ben... eu amo você. Eu só pensei em você... o tempo todo que estava com aquele homem. Só você... era minha fonte de forças... para agüentar o que estava acontecendo... Precisa acreditar nisso...Se não acreditar... eu não sou digna de ser sua amiga...Por favor, Ben...
Fraser usava uma voz ríspida:
- Agora vai ter que me convencer disso.
Por dentro, ele estava dilacerado. Mas o único plano que em que pensou para fazer Linda dizer o que aconteceu era esse - assustá-la.
Ela sequer conseguia encará-lo, as lágrimas encharcando a face e o nariz rapidamente entupindo:
- Como posso convencê-lo?
- Diga o que aconteceu - ele pediu, usando uma voz mais doce e sentou-se novamente. - Você precisa tirar isso de dentro de você.
Ela não parara de chorar, mas conseguiu dizer:
- Na verdade, eu nem deveria estar tão chateada. Tudo era quase uma brincadeira de criança.
- Como assim?
- Ele queria que eu brincasse de escrava e senhor. Quando ele começou a brincar, ele era muito gentil e simpático. Tudo o que ele me pedia era para ficar sentada aos pés deles, trazer comida, essas coisas. Ele me chamava de sua escravinha linda, e eu até fiquei envergonhada. Achei que não teria problema. Além disso, eu só estava fazendo aquilo para evitar que ele usasse aquelas fotos suas que ele tinha me mostrado. Mas não demorou muito para ele ficar... violento.
- Que quer dizer?
Linda abaixou a cabeça, os olhos sem parar de jorrar lágrimas, e começou a torcer as mãos - nunca um bom sinal:
- Ele começou a me bater se eu não fizesse o que pedia como ele queria. Depois me batia sem qualquer motivo. Eu não podia reclamar. Depois ele... rasgou minhas roupas - Ela quase engasgou - e disse que se eu quisesse, eu poderia ir para casa, mas teria que enfrentar as conseqüências. Eu implorei para ficar.
Durante muitos minutos, ela tentou respirar, tossindo sem parar de chorar. Fraser a abraçou e ela choramingou, mais do que falando propriamente:
- Ele fez sexo comigo por um longo tempo. Depois ele colocou uma coleira no meu pescoço, e me levou até um quartinho que chamava de depósito de escravos. Eu não poderia colocar minhas roupas. Eu não poderia colocar qualquer roupa. Ele me deu uma camisa bem grande, branca para vestir. Eu só tinha permissão de usar aquilo, ele disse, porque assim seria mais fácil para ele... me usar quando quisesse. Nos dias seguintes, ele me bateu ainda mais forte, e me fez fazer coisas sexuais que eu nunca tinha feito antes. Eu não gostei delas, mas não podia reclamar. Algumas delas doíam muito, mas se ele me batesse, ficaria ainda pior. Às vezes doía tanto que eu ficava muito confusa, sem saber se aquilo era sonho ou realidade. Então geralmente eu desmaiava.
Fraser estava fazendo o máximo para manter o jantar no estômago e não mostrar a Linda como estava escandalizado com o que estava ouvindo. Tentando enxugar as lágrimas, Linda continuou:
- Eu tentei muito não odiar aquele homem, porque eu estava com medo de que ele machucasse você. Mas aí... - ela engasgou de novo - Eu vi...Só que eu... Eu estaria fazendo tudo aquilo alegremente se meu Mestre fosse você, Ben... Se você quiser, eu me tornarei sua escrava sexual.
O canadense imediatamente reprimiu o grito que achou que daria e falou, bem claramente e pausadamente:
- Linda, preste atenção: eu jamais, jamais, obrigaria você a fazer coisas humilhantes. Eu a amo demais.
- Eu o amo também, Ben.
Ele a abraçou com mais força para dizer a frase que tinha evitado a noite toda:
- Você sabe que tem que contar tudo isso à polícia, não sabe?
Ela se encolheu de medo e desvencilhou-se dos braços dele, evitando encará-lo:
- Mas... eu... Por favor...
Fraser tentou explicar:
- Linda, esse homem usou você. Não usou só seu corpo. Ele matou uma pessoa e com sua ajuda vai se livrar das acusações, porque você corroborou o álibi dele. Você o deixou livre em mais de uma maneira, porque ele também não vai conseguir ser preso nas acusações de estupro.
Linda começou a tremer e a chorar ainda mais alto:
- Desculpe... Eu sabia que ficaria zangado comigo... Fui muito má...! Fiz muito mal! Não mereço você!!
Fraser tentou se aproximar dela para dizer, com ternura:
- Ao contrário. Você não foi má, Linda, você foi boa, boa até demais. Você confiou naquele homem e ele mentiu para você. Você confiou nele e ele não merecia sua confiança. - Ela olhou para ele, fungando. - Eu não acredito em honrar promessas para gente que não tem idéia do que significa honra. Entende?
A moça acariciou as mãos dele, ainda fungando:
- Estou tão confusa, Ben. Estou tão cansada.
- Está bem, então vá dormir um pouco. Vai lhe fazer bem. Dief e eu vamos embora.
- Não quero que vá - pediu ela. - Por favor, não vá.
Foi um esforço de cortar o coração, mas Fraser disse o que precisava ser dito:
- Linda, nós não podemos... fazer - você sabe, aquilo. O médico disse que -
Ela assentiu de cabeça baixa, enrubescida:
- Sim, eu sei. Só que... não quero ficar sozinha.
Fraser sorriu:
- Então está bem. Eu fico no sofá.
Linda pensou em protestar, mas estava tão cansada que nem isso a fez discutir. Ela mal teve tempo de ir ao banheiro para uma chuveirada rápida e tomou o remédio antes de desabar na cama, já em sono profundo. Tão profundo que ela sequer se lembrou dos próprios gritos à noite, dos pesadelos que geraram os gritos, ou dos esforços de Fraser para acalmá-la.
* * *
Na manhã seguinte, enquanto ela esperava Ray apanhá-la, como de costume, Linda tomou uma decisão e fez os necessários arranjos. Fraser a tinha deixado de manhãzinha para ir ao próprio apartamento, tomar banho e trocar de uniforme. Aquilo deixou Linda livre e com muito tempo para fazer os necessários arranjos no trabalho. Quando ela entrou dentro do Buick Riviera, ela disse:
- Hoje você pode deixar Ben no Consulado primeiro, Ray. Preciso ir ao distrito.
Ela tentou não se intimidar com o olhar que os dois homens trocaram antes de Ray dizer:
- Está bem, Linda.
O trajeto foi feito em silêncio torturante. O canadense saltou no consulado como sempre, e trocou outro olhar com o amigo detetive antes de deixar Dief sair do carro. O veículo sequer tinha deixado a rua quando Ray indagou:
- Linda, tem algo que queira me dizer?
A moça estava de cabeça baixa e mexia as mãos nervosamente:
- Sim. Mas é uma coisa oficial, então tem que ser no distrito.
- Quer dizer, um depoimento.
- É, é isso aí.
- Linda, você sabe que pode confiar em mim, não sabe?
- Sim, Ray, eu sei.
- Por que está tão nervosa?
Ela encolheu-se, sem conseguir manter a voz firme enquanto as lágrimas começaram a traçar novos caminhos por seu rosto:
- Eu não espero que me perdoe, Ray. Por isso não pedi que me perdoasse. Como sempre, fui má, agi mal, e fiz tudo errado. Eu magoei você e Ben, os melhores amigos que já tive. Ben também ficou com raiva de mim. Eu desapontei você. Desapontei todo mundo no distrito. Preciso tentar consertar.
- O quê?! - O italiano estava pasmo. - Foi isso que Fraser disse a você?
- Não!! - Linda gritou sem perceber, depois conteve-se - Não.
Ela não agüentou e desabou em prantos. Ray suspirou:
- Acho que Benny lhe disse coisas que não são verdade, Linda.
Ela disse:
- Ben me disse que eu estava ajudando aquele homem a escapar. Ele mentiu?
Ray suspirou de novo:
- Não exatamente.
Ela ainda não conseguia encarar o amigo:
- Ele me disse que aquele homem me forçou a fazer coisas que eu não queria.
- É, e você disse que fez por que quis. Então não posso dizer que tenha mentido, também.
- Mas Ben me disse que se o homem impôs condições, então foram atos forçados. Coação.
- Isso é verdade,
- E se foi forçado, então foi... o que aconteceu foi... - Ela não conseguiu pronunciar a palavra.
- Sim, Linda, Foi estupro.
Linda olhou para o lado de fora da janela e continuou calada, lágrimas silenciosas escorrendo pelas bochechas. Ray suspirou, o estômago revoltando-se, desejando desesperadamente que houvesse algo que ele pudesse fazer para diminuir a dor de Linda. Só o que ele podia pensar era em chamar o psiquiatra, Dr. Lennyard, para ele poder dar um pouco de apoio a ela.
O tenente Welsh foi mais do que simpático com a garota, inclusive esperando até o médico chegar para começar o depoimento. O Dr. Lennyard não tinha objeção a que Linda desse uma declaração (aliás, poderia ajudar no processo de cura dela) e tornou-se uma testemunha do procedimento.
Foi um processo longo, árduo e penoso. Muitas vezes Linda desabou em prantos e ficava chorando por vários minutos. Mas ela jamais reclamou de cansaço, nem pediu para parar. Ela sequer tocou no sanduíche que a policial trouxera, tremendo o tempo todo.
As palavras dela alarmaram os experientes oficiais que a interrogaram. Linda não escondeu o menor detalhe das humilhações e degradações de que fora vítima. Depois de um tempo, estranhamente, ela passou a chorar menos. Era como se ela estivesse sedada (embora Dr. Lennyard tivesse considerado a possibilidade de dar um calmante a ela), ou como se ela estivesse contando a história de uma outra pessoa. Os oficiais explicaram a ela que ela poderia ter que repetir a história toda na corte, durante o julgamento. Ela entendeu.
Linda estava exausta quando acabou, no final do dia. Ray prontamente se ofereceu para levá-la para casa, mas dessa vez, Dr. Lennyard fez questão de fazer isso. A garota sequer respondia. Tudo o que ela queria fazer era tomar um longo chuveiro e ir para cama, cair num sono misericordioso que a fizesse esquecer aqueles horrores durante algumas horas. Foi o que aconteceu.
O psiquiatra deu a ela o dia de folga e isso combinado com a notícia de Ray sobre o depoimento dela propeliram Fraser até o apartamento dela sem demora. Ele a acalmou, a confortou e juntos andaram com Dief para uma caminhada. Fraser achou Linda mais em paz.
No dia seguinte, Linda voltou ao trabalho. Muitos dos colegas decidiram não indagar sobre a saúde dela. Linda diria algo quando estivesse pronta, pensaram. À tarde, ela recebeu um telefonema. Depois ela pediu à Sra. Sorelli para ser dispensada cedo, pois tinha uma consulta médica. A enfermeira-chefe pensou que se tratava do Dr. Lennyard e deu permissão para que ela saísse duas horas mais cedo.
Ray foi buscá-la no fim do turno, como se costume, e recebeu a resposta que ela tinha ido ao médico. O italiano indagou se Fraser sabia algo sobre isso. O canadense disse que não. Os dois foram conferir com a assistente do Dr. Lennyard. A moça disse que Linda só deveria aparecer ali na semana que vem, e ela não tinha chamado o psiquiatra aquele dia.
Os dois policiais enlouqueceram de preocupação. Ela também não estava em casa, nem na casa da senhoria. A mulher, aliás, não vira Linda entrar. A noite estava caindo rapidamente. Ray teve um insight e usou o telefone celular para ligar para sua própria casa. A mãe dele atendeu:
- Raymondo? Filho, que bom que ligou. Pode vir mais cedo hoje? Linda está aqui, parece muito chateada.
- Estou a caminho.
O Riv bateu um novo recorde para chegar ao 2629 da North Octavia. Fraser conseguiu entrar dentro da casa antes de Dief. Linda estava sentada no sofá. Imóvel. Ele indagou:
- Linda? Você está bem?
A moça estava de cabeça baixa (como sempre), mas respondeu:
- Eu estou ótima, Benton.
Ela me chamou de Benton. Não é bom, pensou Fraser. Em voz alta, só falou:
- Fomos buscá-la no fim de seu turno, mas você não estava lá, e as enfermeiras disseram que você tinha ido ao médico. Mas você diz que está ótima. Você mentiu?
- O médico me chamou à clínica para apanhar o resultado dos testes - Então ela abaixou a cabeça ainda mais - Você sabe, os exames de... AIDS.
Benny sentiu de novo a mão gelada apertando-lhe o coração. Cuidadosamente, ele indagou, sentando ao lado dela:
- Você os pegou?
- Sim.
- Quer falar sobre isso?
Antes que Linda pudesse responder, Ray entrou na sala feito um furacão:
- Linda, você está aí! Ficamos mortos de preocupação!
- Desculpe por isso, Ray - Ela parecia à beira das lágrimas. - Não quis preocupar você.
O italiano sorriu:
- Claro que não. Não é sua culpa se nós nos assustamos, pensando que você tinha desaparecido. Benny e eu somos dois idiotas, só isso.
- Não, vocês não são. Eu vim para cá porque... - Uma lágrima caiu pela bochecha dela. - Eu não queria ficar sozinha...
- O que aconteceu, Linda?
Fraser respondeu:
- Ela pegou o resultado dos exames de AIDS, Ray.
Uma sombra de dor enegreceu o rosto de Ray, mas ele tentou disfarçar para não apavorar a menina ainda mais. Ao invés disso, ele indagou:
- Linda, você está bem?
- Eu... - Ela engasgou, querendo chorar, mas não podendo, ou vice-versa. - Eu peguei os exames. Eu tinha me esquecido deles... - Ela chorou abertamente, soluçando. - Não me lembrava...
Incapaz de agüentar a dor em seu próprio coração, Ray a tomou em seus braços antes que Fraser tivesse uma chance. Ela chorou alto e choramingou:
- Sou tão boba... E tão medrosa...
Ele a consolou:
- Shhh... Está tudo bem. Tudo vai ficar bem, você vai ver.
Entre soluços, ela respondeu:
- Eu estou ótima. Ray, eu não tenho a doença.
O italiano a encarou nos olhos:
- Não tem?
- Não - ela confirmou - Eu estava com medo... E não percebi... o que tinha acontecido... Achei... Eu lamento...
- Está tudo bem, viu? - Ray olhou para Benny, que parecia um pouco agitado também. - Não se preocupe, Linda.
A moça chorou nos braços dele e então ele a levou para cama, para ela descansar um pouco. Fraser foi junto. Quando Linda adormeceu, Ray saiu do quarto e avançou para Fraser:
- O que você fez com ela?
- Eu?! - Fraser não entendeu - Eu mal pude falar com ela, Ray.
- Ela estava chateada. Aterrorizada!
- Eu não tive nada a ver com isso, Ray.
O italiano suspirou:
- Ao menos ela está segura. Eu odiaria se ela tivesse sido infectada - Fraser tremeu diante da perspectiva, mas não disse coisa alguma. O amigo o chamou: - Venha, eu levo você e Dief para casa.
- Não, Ray, obrigado, mas eu - Fraser respondeu - prefiro que Dief faça o exercício de andar até o apartamento.
- Está bem. Está bem, então. Até amanhã, Benny.
- Sim, Ah, Ray - Ele hesitou - Se algo... Quero dizer... No caso...
- Claro, Benny. Se ela precisar de alguma coisa, chamo você.
- Entendido.
* * *
Depois disso, Linda pareceu ficar menos angustiada. Ray ficou totalmente envolvido com os preparativos para o julgamento de Moreaux, e Fraser tinha mais tempo para passar sozinho com ela. Ela demonstrava estar bem menos traumatizada, embora ainda não tivesse encarado uma relação sexual depois da agressão. Fraser estava apavorado que ela ficasse assustada. Custou para que ela aceitasse carícias. Depois, ela voltou a beijar Fraser. Depois disso, o canadense estava mais confiante. Talvez ela tivesse mesmo superado aquele incidente horrível.
Na tardinha, após o trabalho, eles decidiram caminhar de volta ao apartamento de Fraser. O canadense sentiu que ela estava relaxada. Ela correu com Diefenbaker, e sorriu, e gritou alegremente como a garotita que tantas vezes parecia ser. Fraser sentiu o coração inchando diante da visão do sorriso dela, ou dos gritinhos dela, os últimos raios de sol deixando-lhe os cabelos dourados e os olhos verdes ainda mais brilhantes, enquanto Diefenbaker pulava sobre ela em plena rua. Linda era tão bonita para ele. Ela chamou-o para se juntar à brincadeira, ele apenas sorriu para ela. Ela correu atrás de Dief de novo.
Quando os três chegaram ao apartamento de Fraser, ela estava sem fôlego de tanto correr atrás do lobo. Ela tirou o casaco:
- Fiquei com calor.
Fraser ofereceu:
- Acho que vai querer um pouco de água, então..
- Adoraria, obrigada. Dief e eu nos divertimos.
O lobo deu um latido fino. Fraser passou a ela o copo, que tomou, observando:
- Ainda bem que você decidiu não brincar. Nessa túnica de sarja, estaria suando mais do que nós.
- Eu já estou quente o suficiente - ele disse - Está com fome? Posso cozinhar.
Ele foi ao closet e começou a tirar o cinto Sam Browne, que cruzava a túnica em três pontos, e Linda chamou:
- Ben, espere.
Fraser se virou para ela:
- O quê?
Ela pousou o copo na pia e entrou no closet, dizendo:
- Eu nunca aprendi a tirar esse cinto. Pode me explicar como é?
- Na verdade, é muito simples - disse ele - A fivela é retirada primeiro, e faz-se assim. Depois, essa tira precisa ser retirada, para que esse outro -
Linda colocou as mãos dela sobre as dele e seguiu os gestos:
- Então isso vai assim...? E depois deve ser hora...de tirar isso... Estou certa?
Fraser tentou manter sua postura e dignidade, mas a proximidade da moça estava fazendo seu corpo carente responder de acordo. Sua respiração se acelerou, e ele tentou manter a linha de raciocínio, dizendo:
- Sim, mas... o cinto só sai... se fizer... assim...
A voz de Linda também tinha mudado, e ela se aproximou de Fraser e tocou-lhe a túnica vermelha da Polícia Montada, indagando:
- Agora...o cinto saiu...?
Ele a olhou e disse, voz estrangulada:
- Sim...
As duas mãos dela estavam atarefadas desabotoando os botões dourados da túnica dela, enquanto o cinto Sam Browne caiu no chão do closet. Ben sentiu um ardor na virilha e tentou dizer:
- Agora... está até... no chão....
Timidamente, Linda ergueu a cabeça. Olhos verdes cheios de desejo encontraram olhos azuis cheios de paixão. Fraser usou de todo o cuidado para abaixar a cabeça e tocar os lábios de Linda com os seus. Os braços dele a envolveram, as mãos dela serpentearam para dentro da túnica e ela beijou-o com toda a paixão, causando nele uma torrente de desejo que o deixou rígido de paixão.
Sem fôlego, Fraser separou os lábios dos dela para olhar mais uma vez dentro dos olhos verdes. Eles estavam enevoados, silenciosamente pedindo a ele o que ele não queria negar. Linda sussurrou:
- Benny...
Dali para frente, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. A túnica dele ficou amontoada no chão, a blusa dela também. Entre beijos desesperados, peças de roupas começaram a voar pelo pequeno apartamento enquanto dois corpos nus entrelaçados tropeçavam a caminho da cama.
Linda parecia estar faminta pelo corpo de Fraser, e ela beijava toda pequena parte da pele dele exposta que os lábios dela podiam tocar, enquanto as mãos viajavam até a cintura dele. A boca dela encheu o pescoço dele de pequenos e rápidos beijos, e os dedos dela exploraram os pálidos mamilos dele com delicados toques, fazendo-o estremecer entre gemidos. Em segundos, era a boca dela nos mamilos, e os longos dedos envolveram a rígida masculinidade e Fraser já desistira de manter qualquer linha de raciocínio, sentido-se teso além da imaginação. Ele sabia que não poderia resistir muito tempo.
De repente, Fraser se separou dela, e ela ofegou, tentando manter a pele grudada na dele. Os braços dele a fizeram rolar de bruços e ele deitou nas costas dela, esfregando o órgão contra as costas dela, e as mãos puxaram os longos cabelos castanhos dela. Ela se contorceu e ele não pôde mais agüentar a dor em seus testículos - ele a entrou de forma vagarosa e impiedosa, o desejo falando mais alto. Enquanto ela era penetrada, gritava de prazer: o verdadeiro som de uma mulher apaixonada.
Linda estava tão excitada quanto ele, movendo o corpo para se unir ainda mais à rigidez de Fraser. Ele estava ajoelhado, sentindo os pelos púbicos dela contra seus testículos, usando as mãos para puxá-la contra si pelos quadris. Em segundos, eles encontraram um ritmo e sentiram a explosão - cedo demais para o que estavam imaginando, ambos gritando, carentes da ligação.
Quando ele pôde pensar novamente, juntou-a delicadamente em seus braços, a cabeça dela descansando no ombro ele. Em segundos, sentiu um líquido no seu peito.
- Linda?
Ela estava chorando.
- Linda, você está bem?
Ela só assentiu. Sem fazer som.
- Por favor, Linda, fale comigo.
- Eu... eu... - Era muito difícil para ela, e ela precisou respirar fundo - Estou feliz, Ben... Pode ser bom...
Fraser não estava entendendo, e começava a ficar inquieto:
- O que pode ser bom?
- O amor... Pode ser bom de novo...Sabe, eu achei... estava com medo... poderia nunca mais ser... como tinha sido antes... você sabe, antes de...
O canadense sentiu dor em seu coração, pelo tanto que ela tinha sofrido, e prometeu:
- Eu jamais a magoarei, Linda.
- Obrigada. Eu tive medo, Ben - Ela se abraçou a ele com força, ainda tremendo - Se aquele homem soubesse o quanto você significa para mim... eu estaria perdida... Desculpe... Por favor, Ben, me perdoe...
Ele a beijou na testa, sorrindo:
- Tudo acabou, Linda. Em breve ele irá a julgamento e ficará longe de nossas vidas para sempre. Nunca mais o veremos de novo.
Fraser pôde sentir Linda estremecer em seus braços e depois indagar:
- Por favor, me abrace.
Ele fez exatamente isso. Linda sentiu como que um bálsamo de felicidade vindo do corpo quente dele, enquanto os braços fortes a envolviam, e ela imaginou que os dias horríveis teriam fim.
Até que aconteceu.
* * *
Começou da maneira mais inocente possível. Um dia normal de trabalho, apenas uma semana e meia depois da primeira audiência do caso Moreaux. Ray ficou preso no distrito, então Fraser apanhou Linda no hospital e ela o chamou para comer um pouco de bolo de carne. Dief, claro, era o mais entusiasmado com a idéia. Pena que Linda não tivesse tudo preparado. Iria demorar.
- Nesse caso, vou levar Dief para uma volta. Você se importa?
- Claro que não, querido. E pode demorar, porque isso ainda vai levar tempo para ficar pronto. Assim, os dois ficam com bastante fome e vão comer bastante. Bolo de carne não é minha especialidade.
- Aposto como vai sair ótimo - Fraser se inclinou e beijou-a com paixão - Até mais.
- Divirtam-se.
Linda ouviu a porta da frente bater e sorriu, satisfeita. Amava aquele homem, pensou, enquanto juntava o resto dos ingredientes para a mistura e olhou de novo o tempero cozinhando no fogo.
A campainha tocou. Tão cedo? Deveriam ter esquecido algo.
Abriu a porta, pronta para fazer a pergunta, mas as palavras morreram na sua boca.
- Oi, querida. Sentiu minha falta?
O homem sorridente que pronunciara aquelas palavras tão amorosas não era Benny. Era Moreaux.
Suprimindo um grito abafado, Linda teve o reflexo de tentar fechar a porta, negar acesso de sua casa àquele homem abominável. Mas ele era maior e mais forte do que ela, e conseguiu abrir a porta que ela tentava fechar, dizendo:
- Oh, adorável Linda. Isso quer dizer que vamos fazer alguns daqueles nossos joguinhos?
Pálida, ela correu para dentro da casa. Com um sorriso faminto, Moreaux a seguiu.
* * *
Ele deveria ter reconhecido os sinais. Mal entrou no edifício, Fraser sentiu o cheiro de queimado. Dief latiu - e isso era uma coisa que Dief nunca fazia. Só quando viu a porta aberta é que Fraser se alarmou, pois sabia que Linda jamais deixava a porta aberta, nem quando ele ia lá com Ray.
Ao entrar lá, suas narinas protestaram pelo cheiro de comida queimada vindo da cozinha. Mas Linda não estava lá. Um barulho abafado fez Dief correr para o quarto e em seguida um grito de dor masculino se ouviu. Em segundos, Fraser viu a cena. Dief estava em cima de um intruso derrubado no chão e Linda estava encolhida na cama, agarrada aos trapos que minutos antes eram suas roupas.
- Tire esse cachorro daqui!
Diefenbaker rosnou com ainda mais gana para o intruso. Ele odiava ser chamado de cachorro.
Fraser primeiro pegou o focinho de Dief e certificou-se de que o lobo visse seus lábios para ordenar:
- Dief, não o deixe sair.
O lobo latiu uma vez em confirmação e o canadense finalmente se virou para Linda, que tremia, encolhida, ainda na cama. Ele pegou o robe dela e cobriu-a com a roupa, dizendo:
- Vamos. Você ficará com a senhoria e eu vou chamar a polícia.
Mesmo ameaçado, por Dief, Moreaux ainda teve a coragem de dizer:
- Ei, querida, você mostrou para esse seu namoradinho aquele truque que eu ensinei?
Linda abriu a boca para gritar, mas nenhum som saiu, e ela só tapou os ouvidos com as mãos, encolhendo-se. Fraser disse ao homem, em voz baixa e ameaçadora:
- Diefenbaker pode estraçalhá-lo lentamente, senhor. Basta uma palavra minha. Quer que eu a diga?
Moreaux de repente perdeu o ar de sabichão e Dief rosnou baixinho, para lembrá-lo.
Fraser levou Linda para a senhoria e lá mesmo chamou Ray. O detetive estava mais do que imensamente satisfeito. Dessa vez suas preces tinham sido ouvidas, e Moreaux iria ficar muito tempo em cana. O tenente Welsh o elogiou pelo trabalho bem feito, e tudo isso graças a seus dois amigos. Nada mais lógico do que comemorar com eles a prisão do canalha chamado Moreaux.
E foi quando decidiram contar a Ray.
Não que eles tivessem planejado tudo com cuidado. Na verdade, Linda e Fraser só tinham discutido o assunto umas poucas vezes e então chegou o convite de Ma Vecchio para um de seus jantares. Sábado à noite seria o dia.
Linda dispensou a carona de Ray e chegou bem cedo à casa dos Vecchio, alegando que deveria ajudar um pouco na cozinha. Todos notaram que ela parecia nervosa, mas sabiam que ela falaria algo assim que se sentisse pronta para tal.
À mesa, Linda procurou se concentrar, apesar da multidão de barulhentos Vecchios. Ela fez seus olhos se grudarem aos de Fraser. Nos olhos dele, ela viu todo o encorajamento de que iria precisar.
- Sra. Vecchio, por favor. Há algo que Ben e eu gostaríamos de dizer à senhora e a todos também.
A mãe de Ray sorriu para a moça:
-Oh, bambina, me chama de Ma.
- Mas preciso mostrar respeito, Sra. Vecchio.
- Está bem - disse a senhora sorridente - O que quer nos contar?
- Ben e eu estamos... saindo.
Silêncio sepulcral caiu como uma bomba na mesa. Fraser e Linda, sentados um de frente para outro, pareciam beterrabas gêmeas, de tão vermelhos.
- O *quê*?!
- Estamos saindo. Er... namorando.
- Mas... E como...?
Francesca levantou-se da mesa raivosamente e saiu da sala de jantar. Linda olhou aquilo com dor. Ma Vecchio a chamou, e Ray disse:
- Ela não vai responder, Ma.
Linda se sentia uma miserável e traidora de uma família tão boa:
- Eu lamento. Acho que as notícias não são boas.
- Não - disse Ma - Estamos só um pouco surpresos, só isso. Você dois são pessoas muitas boas, e...
Ray interrompeu a própria mãe:
- Mas há quanto tempo isso vem acontecendo?
Fraser respondeu com sinceridade:
- Uns poucos meses, Ray.
- Uns poucos meses?! - O italiano gritou, braços no ar - Que bom que vocês finalmente se lembraram de me contar! Pensei que fosse seu melhor amigo, Fraser!
- E você é, Ray.
- E você - Ray olhou para a garota, olhos parecendo raios verdes de acusação - Eu a amo como uma irmã!
- Você sabe que você é o único irmão que eu já tive, Ray.
- Ray, por que está tão furioso conosco?
- Eu me sinto traído, tá bom? Me dêem um momento para me acostumar à idéia, tá bem?
- Nós podemos sair - disse Linda, envergonhada e à beira das lágrimas - É melhor eu ir para casa.
Era hora de Ma Vecchio interferir:
- Bobagem! Todos são amigos aqui, por isso parem com essa bobagem. Eu amo todos vocês como se fossem minhas próprias crianças. E dou a minha bênção. Quem se opuser a vocês, estará se opondo a mim. Mas se um de vocês magoar o outro, tentem se lembrar de uma coisa: somos uma família, e uma família sempre fica junto, não importa o que venha a acontecer. Bambina, venha cá.
Linda obedeceu, e a velha italiana a abraçou carinhosamente:
- Que você e Benito possam ser felizes juntos. Vocês merecem.
A moça não pôde evitar derramar algumas lágrimas nos braços da matriarca dos Vecchio. Foi então que o italiano se levantou e disse:
- Bem.. Eu... Olhem, acho bom ir tentar falar com Frannie. Ela vai superar isso.
Fraser disse:
- Ray, nunca quisemos magoar ninguém.
- Claro que não, Benny. - Ele sorriu - Puxa! É estranho dois irmãos anunciarem que estão namorando.
Linda indagou:
- Então não está mais com raiva de nós?
O sorriso de Ray aumentou:
- Claro que não, Linda. Estou feliz por vocês dois, acho. É que eu só queria que vocês...sabe, que vocês me avisassem antes de fazer esse tipo de coisa.
Eles sorriram. Tudo está bem quando termina bem.
Ou então...
Nas semanas seguintes, Linda pensou que estava no céu. Ela saía muito com Ben, e Ray às vezes saía com eles. Depois disso, eles podiam ficar juntos, como sempre quiseram, desta vezes sem se preocupar em esconder de Ray. Às vezes, ela dormia no apartamento de Fraser ou ele passava a noite no dela, e eles sempre terminavam caminhando juntos para o trabalho, agora que o tempo permitia isso.
Linda até entrou no Consulado do Canadá para esperar Ben sair, e foi oficialmente apresentada à chefe dele, a famosa Mulher-Dragão, Margaret Thatcher, e ao Constable Turnbull. Apesar das constantes reclamações de Ray sobre a mulher, ela na verdade era uma mulher elegante e atraente. E tinha personalidade também. Quando a inspetora olhou para Linda, a moça involuntariamente se encolheu. Fraser riu disso quando soube mais tarde.
Os colegas de trabalho de Linda também ficaram muito surpresos com as notícias. Só a Sra. Sorelli sorriu de modo conspiratório para Linda, que ficou decididamente rosa-choque de tão corada. Fraser não entendeu o motivo.
Chamou a atenção de Linda que Ray parecia não ser mais o mesmo. Ela reparou que ele recusava os convites para sair, mas sempre oferecia caronas. Ele estava ficando mais triste e monossilábico. Linda sentia que algo faltava nos olhos dele, verdes como os dela. Uma luz dentro deles tinha morrido.
- Estou dizendo, ele não está bem.
- Linda, está exagerando.
- Talvez eu esteja - ela admitiu - Mas vamos falar com ele. Já faz tempo que não saímos com ele. Quase duas semanas. Isso, em si, já é estranho.
- Talvez tenha razão. Então, jantar?
- Minha casa, sábado, às oito. Diga a ele que não aceito não como resposta.
Levou algum tempo para convencer Ray a estar lá no sábado à noite. Mas ainda assim, ele estava lá, e Diefenbaker foi um dos mais efusivos a cumprimentá-lo, pois sentia falta do outro macho da matilha.
- Espero que você goste disso, Ray - disse Linda - Esse prato você nunca provou.
- Precisa de ajuda?
- Não, obrigada. Ben, veja se Ray vai querer o vinho.
O italiano se espantou:
- Vinho? Qual é a ocasião especial?
- Estamos jantando com nosso melhor amigo, Ray - respondeu Ben - É uma ocasião muito especial. Significa muito para nós.
Ray ficou envergonhado:
- Desculpe, gente. Sei que tenho estado meio distante, mas agora o julgamento de Moreaux foi marcado, então...
Linda disse:
- Ray, você não tem que justificar nada. Estamos felizes por ter você aqui. Se você pudesse, teria estado conosco mais vezes, sabemos disso.
Linda ficou com a impressão de que Ray estava um bocado nervoso, como se estivesse desconfortável. Ele brincou mais um pouco com Dief, e mudou de assunto rapidamente. Linda não insistiu no assunto. Durante o jantar, Ray elogiou muito a comida de Linda, e o jantar, e o vinho.
- Hummmmmm.... Linda, tem que dar a receita a Ma. Está ótimo!
- Ray, se quiser levar um pouco para casa, vai me ajudar a não entupir a geladeira. Mas quero um favor em troca da receita.
- Claro, Linda. Qualquer coisa.
- Pode me dizer o que tem incomodado tanto você?
Ele ficou pálido:
- O que quer dizer?
- Você está chateado há semanas, Ray. E não em estado conosco ultimamente. Sentimos saudades.
O italiano estava estranhamente envergonhado, e só o que disse foi:
- Eu sinto muito, eu... estou ocupado. Foi esse caso... e vocês sabem.
Fraser assentiu:
- Sim, nós percebemos. Por isso decidimos não dar a você ainda mais pressão do que já tinha. Mas você sabe que pode contar conosco, não sabe?
A mão de Linda esticou-se para carinhosamente cobrir a de Ray na mesa. Ele a retirou rapidamente. Depois se arrependeu.
Fraser notou que jamais vira Ray tão deprimido antes. Nem mesmo quando ele deu aquela terrível gafe sobre o assassinato do pai de Fraser, assim que eles se conheceram, anos atrás.
- Ray - insistiu Linda, delicadamente, e Fraser reconheceu o tom de voz que ela usava para os pacientes na UTI - Nós somos seus amigos. Podemos ver seu sofrimento. Queremos ajudar.
Ele saiu da mesa, e evitou o olhar dele, indo à janela e dizendo:
- Tudo ficará bem, Linda. Só... me dêem um tempo. Aí posso... ajeitar tudo.
- Se houver qualquer coisa que Ben e eu pudermos fazer para ajudar - Linda se ergueu da mesa - ficaremos felizes em ajudar. Sabe disso.
Ela colocou a mão no ombro dele, gentilmente. O gesto o fez tremer violentamente, e ele gritou, ríspido:
- Não me toque!
Linda deu um passo para trás, assustada, na verdade terrificada. Ben a segurou gentilmente, Ray imediatamente se arrependeu do que fizera.
- Oh, Deus, Linda... Desculpe... Por favor... Que fui fazer?... Eu não queria gritar daquele jeito. Por favor... perdoe-me, Linda...
Ela tentava conter as lágrimas, mas a voz estava falhando:
- Eu não quis... aborrecê-lo, Ray...Desculpe.
Totalmente quieto até então, Fraser controlou a voz para manter a raiva e ódio fora dele:
- Ray, acho que é melhor você ir embora.
- Benny, eu... - Ray começou a dizer, mas desistiu - Você está certo. Acho melhor eu ir.
- Não! - Linda se desvencilhou dos braços de Fraser e disse, resoluta - Você não vai sair daqui. Quero uma explicação, Ray.
Ele não podia encará-la:
- Desculpe, Linda, mas não posso explicar.
- Algo tem que ter acontecido, Ray - Ela estava convicta - Você é um irmão para mim, e você jamais me trataria assim. Eu fiz alguma coisa para você? Ben o aborreceu?
- Não, Linda, não - Vocês são meus amigos. Eu estou confuso, só isso. É meu problema. Vocês não têm nada a ver com isso. Vou ter que resolver tudo sozinho.
Fraser quis saber:
- Ray, isso é porque eu e Linda estamos namorando?
Ray ficou ainda mais pálido sob a pele oliva:
- O quê?
- Você me ouviu. Tudo ia bem até Linda anunciar que estávamos saindo. Achamos que você estava aborrecido por causa do caso Moreaux, mas não era, era?
Linda indagou:
- É verdade, Ray? Você não nos aprova?
Ray deixou os ombros caírem em desgosto e não conseguiu olhar para eles;
- Não, Linda, não desaprovo vocês, tá bom? Mas eu... me apaixonei por você. Estou me sentindo assim há tempo. Não agi a esse respeito porque tinha medo de assustá-la e afastá-la de mim. Então descubro que você dois têm "agido" a esse respeito... Senti-me um idiota completo. Devia estar feliz por vocês dois, não é? Quero dizer, eu gosto dos dois de verdade. Não menti sobre isso. Você são meus melhores amigos. Eu vivia chateando Benny por causa de mulheres, para ele encontrar uma para ele, e ele vai e encontra a melhor delas. Vocês dois foram feitos um para o outro. Eu acho isso de verdade. Mas eu me sinto mal, porque eu estou magoado. Eu não devia estar, mas estou. Lamento. Queria ser um homem mais... sei lá, mais nobre. Mais amigo de vocês, também. Desculpem. Eu não mereço vocês. Sinto muito.
Ele pegou o paletó Armani e disse:
- Obrigado pelo ótimo jantar, Linda. Adorei. Boa noite.
Ray saiu antes que qualquer um dos dois pudesse impedi-lo. Fraser olhou para Linda, que estava com os olhos cheios de lágrimas e pediu:
- Vá atrás dele, Ben. Seu amigo precisa de você.
Ele sorriu e a beijou com paixão, antes de dizer:
- Amo você.
- Eu também amo você. E amo Ray, também. Diga isso a ele.
- Direi. Toma conta de Dief? - Ela assentiu. - Eu ligo amanhã.
- Vá logo!
Fraser saiu correndo, e Diefenbaker foi até os pés de Linda, ganindo. Como se adivinhasse que ele estava reclamando, Linda se agachou e pediu ao lobo:
- Dief, me ajude. Preciso tomar uma decisão. Não posso fazer isso sozinha desta vez.
O lobo olhou-a, orelhas em alerta. Ele estava mais do que decidido a ajudar, mas não sabia como. O problema é que Linda também não sabia.
* * *
Na manhã seguinte, Linda levou Dief ao Consulado bem cedinho. Ben não tinha chegado ainda para o trabalho, e o outro oficial, chamado Turnbull, a atendeu. Ela estava embaraçada:
- Eu não posso levar Diefenbaker para o hospital. Questão de saúde pública...
Turnbull foi muito simpático:
- Pode deixar o lobo aqui, Srta. Linda. Entregarei ao dono pessoalmente.
- Obrigada - Ela se ajoelhou e acariciou-o - Agora seja bonzinho, Dief. Não dê trabalho ao Constable Turnbull.
O lobo ganiu um pouco e ela o abraçou, tentando conter as lágrimas.
- Adeus, Dief. Jamais o esquecerei. - As orelhas do lobo se ergueram, e ela enxugou as lágrimas com as mãos, ficando em pé e dizendo ao policial: - Agradeço muito sua ajuda.
- Não é problema, senhorita.
- Obrigada de novo, Constable Turnbull.
- Pedirei ao Constable Fraser que ligue para a senhorita assim que ele chegar.
- Não será necessário, obrigada. Tenha um bom dia.
Linda foi direto para o hospital, e passou mais tempo do que o de costume com os pacientes comatosos, pedindo conselhos a eles. Mas a decisão dela já tinha sido tomada. Era a única possível.
* * *
Aquela noite, Fraser foi ao hospital apanhá-la e sentiu algo errado. Linda não estava feliz, como sempre. A primeira pergunta que ela fez a ele foi:
- Ray veio com você?
- Não, ele... ele não apareceu no Consulado.
- Ah. Que pena.
- Por quê?
- Queria vê-lo. Nós... nós temos que falar, Ben.
- Eu sei. Eu falei a ele para - Ele interrompeu-se e olhou ao redor, procurando por alguma coisa na rua, e então apontou - Ah, ali está.
Linda virou a cabeça na direção que Ben apontava e viu um Buick Riviera verde conhecido apontando na curva. Ray estava com Diefenbaker.
- Essa porcaria de lobo não saiu do meu pé hoje o dia inteiro. Vamos, eu dou uma carona para vocês.
A carona foi totalmente constrangedora, mas quando chegaram ao apartamento de Linda, ela pediu:
- Ray, podia subir um momento? Preciso lhe dizer algo.
- Linda, por favor, não -
Ela o interrompeu, e isso era algo que ela nunca fazia.
- Por favor, Ray. Não vai demorar. Você também, Ben, por favor.
Relutantemente, ele estacionou a Riv e subiu, acompanhado por um polícia montada pra lá de envergonhado e seu lobo. Linda sentiu o coração pesado, sabendo que ela teria que fazer o que tinha que ser feito. Ela ofereceu bebidas aos dois homens e disse:
- Não sei como vou dizer isso a vocês.
Ray tentou aliviar o sofrimento dela:
- Linda, se isso é algo sobre o que eu disse ontem à noite, então você não precisa...
- Ray, eu tomei uma decisão - ela ergueu a voz, e então as lágrimas vieram ao rosto dela à mesma medida que as palavras saíam de sua boca. - Eu sempre disse a Benny que eu jamais iria interferir na amizade de vocês, por isso demoramos tanto a dizer que estávamos saindo juntos. É algo que eu não posso aceitar. Não serei o motivo para terminar uma amizade tão bonita como a de vocês. E eu também me dei conta de que poderia ter me apaixonado por você da mesma forma que me apaixonei por Ben, Ray. Não o amo mais do que amo você, e isso não é justo para nenhum dos dois. Acho que é melhor não nos vermos mais.
O choque teve a intensidade de um raio.
- Linda, por favor -
- Ray, não tente me convencer. Foi muito difícil tomar essa decisão, mas está feito. Nunca serei feliz sabendo como você se sente a meu respeito, ou sabendo que estraguei a amizade de dois grandes amigos. Isso é muito difícil para mim, porque... vocês são os únicos amigos que eu jamais tive... - Ela soluçou - Ficarei muito triste, mas ao menos vocês dois ainda serão amigos.
Fraser manteve a cabeça baixa ao ouvir tudo aquilo, e nem tentou reagir. Ele ficou imóvel, na verdade. Não podia acreditar no que ouvia. Ele a amava tanto. Linda se virou para ele:
- Benny, não sei como dizer isso. Serei sempre grata por tudo que fez. Jamais o esquecerei, enquanto viver. Também quero que saiba que eu o amo muito. Mas não posso ficar com você sabendo como Ray se sente. Sei que você também jamais ficará totalmente feliz se seu amigo estiver triste. Ray fingiria que tudo está bem só para não nos magoar, mas eventualmente vocês dois brigariam. E seria tudo por minha culpa. Odiaria ser o motivo disso. Você é uma alma nobre e rara, Ben. Não quero que fique triste e amarga. Agora você poderá sofrer um pouco, mas logo alguma outra moça vai aparecer, eu tenho certeza. Eu também vou sofrer, mas essa é a única maneira, Ben.
Ray disse:
- Não, Linda, há outras maneiras. Está errada. Tudo isso é culpa minha.
Ela chorava, mas não esmorecia:
- Não, Ray, não é culpa sua. Aconteceu conosco, e somos amigos o suficiente para saber que esta é a solução. Esperava que vocês respeitassem minha decisão. Peço que não insistam, nem me procurem. Eu nunca fiz parte de suas vidas antes, então vocês terão como retomar a antiga amizade. Desculpe por causar a vocês todo esse trabalho.
Fraser disse, uma voz irreconhecível;
- Nada disso é culpa sua, Linda. Não vejo por que está fazendo isso.
- Benny, por favor - Ela choramingava, coração aos pedaços. - Não torne isso ainda mais difícil do que já é. Não sei como vou lidar com isso, mas preciso que vocês dois se tornem amigos de novo, agora que eu estarei fora dessa equação. Por favor, Ben, prometa-me isso.
A resposta dele foi:
- Eu amo você.
Ela abaixou a cabeça, incapaz de encará-lo.
- Eu também amo você, Ben, mas esse não é o ponto aqui.
Ray disse:
- Isso é ridículo, Linda. Sabe que eu posso jamais querer ver Benny porque ele me fez perder você completamente?
- É precisamente isso que estou tentando evitar, Ray - disse Linda - Se os dois me perderem, então não há motivo para brigas.
Benton repentinamente se ergueu e disse, a voz estrangulada:
- Por favor, eu preciso de ar.
E saiu porta afora. Ray indagou:
- Viu o que fez? Ele está magoado!
- Ele precisa de um amigo, Ray - Ela implorou, os olhos cheios de dor - Por favor, seja amigo dele agora. Pode me odiar o quanto quiser, mas por favor seja amigo dele agora. Não o deixe se isolar das pessoas.
O italiano suspirou:
- Você o ama, não é?
- Muito mais do que a mim mesma - ela disse, em lágrimas.
- É, você provou isso.
Então ele saiu atrás do amigo, o lobo também o seguiu. Linda caiu de joelhos no chão, vendo os dois homens de sua vida abandonando-a.
* * *
Não era exatamente como se ela tivesse voltado ao que era antes. Mas todos notaram que Linda de repente se tornou tristonha. A ausência de Fraser em buscá-la após o trabalho fez os colegas de trabalho perceberem que o rompimento dos dois era uma conclusão mais do que óbvia. Mas havia mais do que isso. Ela estava mesmo deprimida, chorando muito e até em prantos quando pensava que ninguém estava vendo. Embora ela não tivesse faltado sequer um dia de trabalho, era como se ela estivesse num outro planeta. Além disso, ela dificilmente falava com as pessoas, até mesmo os seus amigos pacientes na UTI. Ela perdeu peso rapidamente e as grandes bolsas escuras embaixo dos olhos denunciavam a falta de sono.
Pelo menos, ela falava com o Dr. Lennyard. Mas não muito. Na primeira semana, ela estava em choque total, e até perdeu a consulta. A Sra. Sorelli tentou falar com ela. A Sra. Vecchio veio vê-la, e Linda não parou de chorar nos braços dela. Elas nem conversaram, porque Linda não tinha condições, a Sra. Vecchio achou melhor simplesmente colocá-la para dormir quando ela se cansou de chorar.
Linda não sabia em que mais pensar. Ela tinha ido ao Céu e agora estava de volta ao Inferno. O que poderia ser mais cruel do que aquilo?
À noite, ela sonhava com Fraser, e acordava quase feliz - até lembrar que ele não era mais parte de sua vida, e jamais voltaria a ser. Ela até pensou em pedir ao Dr. Lennyard para mandá-la de volta ao hospício. O mundo lá fora tinha sido muito perverso com ela, para não dizer que ela tinha sido abertamente ridicularizada por todos nos hospital como "a louquinha de estimação". Então ela pensou em ser internada de novo. Mas aí ela se deu conta de que a dor não pararia e outros tipos de tormento surgiriam, então ela decidiu continuar ali.
Pouco sabia Linda que ela jamais tinha estado sozinha totalmente. Incapaz de simplesmente deixá-la ir, Fraser a seguia todos os dias. Ele decidiu esperar um pouco antes de procurar Ray de novo - estava muito confuso para encarar o amigo de novo. Enquanto isso, Fraser a "acompanharia" todas as noites até ela chegar em casa. Nos finais de semana e dias de folga dela, o polícia montada ficava de tocaia. Ele nem sequer sabia por que fazia isso. Mas não podia parar de fazê-lo.
Então houve aquela noite fatídica. Provavelmente uma quarta-feira, embora Fraser estivesse tão deprimido que mal se dava conta dos dias.
Naquela, de todas as noites, ele estava sem Diefenbaker, que estava aos cuidados do seu "tratador" ocasional, Willie Lambert. Naquela noite, Fraser viu o homem se aproximando de Linda, e ela caiu nos braços dele, inconsciente. Alarmado, Fraser sentiu que Linda podia estar sendo assaltada ou coisa ainda pior, e adiantou-se ao ver o homem arrastando Linda para o carro. Fraser não viu um segundo homem vindo por trás dele. Houve uma breve briga, um terceiro homem se enfiou na altercação, que resultou num Fraser bastante machucado e inconsciente jogado num beco escuro. Quanto a Linda....
* * *
- Onde você disse que ele foi encontrado?
- Num beco, a algumas quadras do hospital - respondeu Ray - Era perto da casa de Linda.
- Pensei que você tivesse dito que eles não estavam mais namorando - lembrou a inspetora Thatcher.
- Não estavam, mas eu não o via há quase duas semanas. Não posso dizer com certeza.
- O que ela disse?
- Ninguém a viu desde que ela saiu do trabalho há dois dias. Podiam estar juntos.
- E o lobo?
- Estava com o vizinho.
A mulher estava a ponto de perder a paciência (jamais uma de suas características mais marcantes) com o detetive italiano que ela particularmente mais detestava em todo Departamento de Polícia de Chicago.
- Detetive, pode me dizer alguma coisa que ajude a esclarecer um pouco o porquê de meu Constable assistente de ligação ter sido encontrado semimorto num beco de Chicago?
Ray olhou para ela e disse, a voz suave:
- Ele já está fora de perigo, Meg.
Mais do que o que ele disse, foi o modo como pronunciou as palavras que pareceram derreter um pouco da tensão na Inspetora, e ela suspirou, dizendo:
- Obrigada, detetive.
Durante cinco dias, Fraser continuou inconsciente, seus ferimentos cicatrizando muito bem. Ray ia vê-lo tanto quanto podia, embora ele estivesse tentando investigar o que tinha acontecido. Uma coisa o deixava nervoso: o sumiço de Linda. Ninguém sabia para onde ela tinha ido, por que saíra sem dizer palavra, sem pegar suas coisas, sem sequer se despedir. Bem no íntimo, Ray tremia toda vez que um corpo era pescado do fundo do Lago Michigan.
Fraser finalmente acordou. E confirmou os piores medos de Ray: Linda tinha sumido, não tinha fugido. Aparentemente fora raptada, embora já tivessem se passado mais de oito dias e nenhum resgate tinha sido pedido. O canadense se sentia culpado pelo que tinha acontecido, achava que tinha falhado com ela. Ray tentou animá-lo, dizendo que eles tinham pensado até o pior, porque a moça estava muito deprimida e poderia estar a ponto de se machucar. A informação de Fraser a respeito dos homens que a levaram confirmara que não era esse o caso. Todos esperavam que ela agüentasse (estivesse onde estivesse) até que eles pudessem pegar os caras que tinham feito isso com ela. A torcida realmente era grande.
Desejar era infinitamente mais fácil do que fazer. As semanas se passaram e eles não tinham qualquer pista do paradeiro dela. Ela podia estar morta, pelo que sabiam. Ray se tornou irritadiço, Fraser ficou ainda mais introspectivo. A Sra. Vecchio tentou ao máximo não perder as esperanças para não aborrecer o filho. Ela podia sentir o sofrimento de Ray. Mas também sofria. Além de gostar um bocado da moça, ela tinha sido praticamente a última pessoa a ter visto Linda, sem contar os colegas do hospital.
Fazia quase nove semanas, antes que o tenente Welsh recebesse um chamado do seu amigo, o tenente Westrum, do 21º Distrito. Uma das equipes de Westrum tinha realizado uma batida numa quadrilha de prostituição, e uma moça fechava com a descrição de Linda. Mas a moça tinha sido encontrada praticamente morta, então Westrum disse esperar que não fosse a moça sumida.
Mas era. Ray não podia acreditar no que leu nos relatórios dos policiais, muito menos no que os detetives do 21º disseram para ele. Ela era mantida em cárcere privado, o que explicava as profundas feridas nos pulsos e tornozelos. Durante mais de dois meses, Linda tinha sido servida literalmente como uma guloseima sexual para a quadrilha toda e mais alguns clientes especiais. Havia evidência física de estupro em massa e práticas sexuais violentas. A cela onde ela estava era tão escondida que eles quase não a localizaram durante a batida, e Linda teria sido abandonada, poderia ter morrido de fome sem ninguém descobrir. Os policiais também disseram que ela não reagiu quando eles a libertaram.
Quando Ray a encontrou, ela estava no tratamento intensivo. O Dr. Lennyard tinha estado com ela e dissera que ela continuava inconsciente, as feridas sendo tratadas, inclusive as internas. Fraser chegou alguns minutos mais tarde, e precisou ser contido por dois enfermeiros (grandes) para não invadir o local de tratamento intensivo. Eles falharam. Ninguém conseguiu parar Fraser. Ele a viu - viu os lábios inchados, o rosto pálido, o cabelo gosmento por falta de trato. Havia danos internos, e as gengivas sangravam. Ele ficou de guarda na UTI por três dias inteiros, até que ela acordou. Bem, quase.
Linda ficou catatônica. Fraser estava com o coração despedaçado, mas não podia mostrar a ela. De qualquer modo, Linda dificilmente repararia. Ela estava totalmente isolada do mundo exterior. Às vezes ela deixava os olhos fechados, e não via nada além do seu mundo interno. De acordo com o Dr. Lennyard, o prognóstico não era nada bom.
Aliás, o médico tinha feito uma descoberta extraordinária, graças aos minuciosos exames pedidos pela equipe do hospital para descartar algo mais sério com Linda. Depois de refazer os exames três vezes e arrumar uma briga com os diretores do hospital, o Dr. Lennyard indagou a Fraser, de maneira franca:
- Há quanto tempo esteve com ela?
- Perdão?
- Linda está grávida. Preciso saber se há uma chance de ser seu filho. Quero que saiba que estou considerando um aborto.
Fraser estava sem palavras. Jamais imaginara algo assim.
- Mas...
- Na presente condição, ela não pode tomar conta de uma criança. Mas existe uma chance de que o bebê seja seu, Constable, e gostaria de saber sua opinião. O senhor entende, claro, que eu tenho total responsabilidade legal sobre Linda.
O canadense mal conseguia articular seu pensamento.
- Doutor... Eu amo Linda. Se houver uma chance de que o bebê seja resultado nesse amor, eu fico interessado em mantê-lo. Não sei ainda sobre o pedido de custódia, mas minha primeira opinião é que ele deva nascer, se não ameaçar a vida de Linda.
O médico assentiu, pensativo.
- Entendo, Constable Fraser. Por favor, tenha em mente que eu posso acreditar que o melhor para Linda seja não levar essa gravidez a termo.
- Entendo - disse Fraser, ainda chocado - Obrigado, doutor.
Ray chegou em seguida, e encontrou Fraser quieto e pensativo. A amizade dos dois tinha sido renovada durante o episódio. Mais uma vez Linda os unira. Eles vinham diariamente ao hospital, e a viam juntos. Não havia competição - apenas amor genuíno.
- Benny, está tudo bem?
- Estou bem, Ray.
Com Benny, era sempre uma questão de fazer a pergunta certa.
- Linda está bem?
- Ela está... grávida, Ray.
Ray engoliu em seco.
- Oh, Benny.
- O bebê pode ser meu.
- Acha que é?
- Existe uma chance.
- Você quer que seja?
- Acho que sim.
- Benny, seja lá o que decidir, pode contar comigo. Sabe disso, não sabe?
- Obrigado, Ray. Mas não é minha decisão.
- Bom, a decisão não pode ser de Linda - disse Ray - Ela não está em condição de decidir, Benny.
- Temo que seja do Dr. Lennyard. Ele é o tutor legal dela. E ele acaba de me dizer que ele está considerando aborto.
- Aborto? - Católico, Ray ficou escandalizado - O quê? E por quê?
- Pode ser o melhor para a saúde de Linda.
Os dois ficaram em silêncio. Ray ainda tentava absorver a notícia. Então ele se lembrou de perguntar:
- Você está bem, Benny?
- Sim, Ray.
- Você quer esse bebê, não quer?
- Sim, eu gostaria de ter o bebê, sim. Eu gostaria ainda mais de ter um filho de Linda. Mas pode nem valer a pena sonhar, Ray.
- Claro que vale a pena, Benny. Você pode ser papai. - Ray sorriu e Benny o encarou, olhos arregalados - Pode ser que você venha a ter um Fraserzinho.
Antes que Fraser pudesse responder, a enfermeira saiu do quarto dela nesse exato momento e disse:
- Vocês podem entrar agora.
- Muito agradecido.
Eles passaram muito tempo com ela. Ray se certificava de que ela tinha companhia constantemente, chamando tantos voluntários quanto podia encontrar. No distrito, muitos gostariam de ir, mas ficavam chocados ao ver o estado de total inércia de Linda.
Fraser era outro que também ficava com ela todo o tempo livre que tinha. Dief ficava muito tempo no estacionamento do hospital. Uma vez Fraser conseguiu contrabandear o lobo para dentro do quarto dela, esperando obter o mesmo efeito que conseguira numa ocasião anterior. Não teve sorte. Dief lambeu, babou e até mordiscou o braço dela. Linda sequer piscou.
Dr. Lennyard acompanhava atentamente qualquer pequeno progresso que ela tinha, ou seja, nenhum. A gravidez aparentemente evoluía bem. O problema era que Linda era alimentada por via intravenosa, e aquilo poderia ser ruim para o bebê. Ainda assim, se um aborto tivesse de ser feito, teria que ser logo. Não havia muito tempo restante.
Numa noite sem qualquer característica particular, Fraser estava sozinho com Linda, contando uma estória inuit e pensou ter ouvido um barulho abafado. Ela parecia gemer. Fraser segurou a mão dela e estava fria. Ele chamou a enfermeira. Ela foi gentil com ele, mas ele notou que ela parecia achar que ele estava exagerando. Então ela tomou a mão da paciente, e depois o pulso. A paciente suava também. E quando a enfermeira ergueu as cobertas para verificar a sonda, ela descobriu que havia sangue na cama. Muito sangue.
O alarme foi acionado e Fraser teve que ficar de lado, enquanto ela era levada. Tudo que ele podia fazer era observar, angustiado.
* * *
Ray chegou assim que pôde quando Fraser falou sobre a cirurgia de emergência. Era cerca de quatro horas da madrugada.
- Como ela está?
A cara de Fraser era de puro desespero silencioso.
- Eles ainda não sabem. Ela sangrava em profusão.
- O que aconteceu?
- Parece que ela estava perdendo o bebê. Os médicos iam tentar salvá-los. Qualquer um dos dois.
O italiano ficou desfigurado.
- Ela pode morrer?
Olhos azuis se fecharam em desespero:
- Pode, Ray.
O italiano empalideceu, olhos verdes esbugalhando:
- Oh, meu Deus, Fraser... Meu Deus.- Ele olhou em volta - Onde estão os médicos? Tem alguém aqui que possa falar conosco? Quanto tempo vai durar? Quem pode dizer? Com quem você falou? Quando foi isso?
- Ray, fique calmo.
- Ficar calmo?! Linda está à beira da morte e você quer que eu me acalme, Benny?!
- Isso não está ajudando Linda. Vamos esperar até o fim da cirurgia.
Relutantemente, o italiano rosnou mais um pouco, mas sentou-se, ao lado do amigo. E tentou acalmar-se, repetindo:
- Vai dar tudo certo, Benny. Tudo vai ficar bem.
Duas horas mais tarde, Ray descobriu que as coisas não iam ficar bem. Linda perdera o bebê e iria ficar algum tempo na UTI. E lá ela ficou, dessa vez sem uma enfermeira que falasse com ela, na hora do coma.
Depois, ela foi transferida para um quarto. Mas ainda não havia qualquer sinal de que ela estava se recuperando da catatonia. Ainda assim, seus amigos não desistiram dela.
Num dia claro, eles descobriram que não tinha sido em vão.
A enfermeira estava trocando o IV quando Linda abriu os olhos. E pela primeira vez, havia sinal de reconhecimento neles. A enfermeira arriscou, só para não perder o costume:
- Olá, Linda. Pode me ouvir, querida?
Os olhos tentaram fechar, as pálpebras batendo:
- Sim...
- Como se sente?
Linda mexeu a cabeça (Ela está se mexendo!, pensou a enfermeira), olhou para a enfermeira e choramingou, ainda meio grogue:
- Estou cansada...
- Então talvez seja melhor descansar um pouco mais. Tá bom?
A moça puxou as cobertas para o pescoço e disse, sonolenta:
- Tá. `Noite.
Então ela fechou os olhos. A enfermeira tentou não gritar de triunfo.
* * *
Linda olhou em volta quando acordou, e viu que era dia. Lá estava ela - sozinha num quarto de hospital. Ela não tinha a mínima idéia de por que estava num hospital. O IV estava doendo no pulso. Ela tentou se levantar para escovar os dentes e se livrar do gosto ruim, mas que surpresa - ela caiu no chão daquela cama alta. Ela se assustou tanto que soltou um grito.
Uma enfermeira entrou e exclamou:
- Oh, meu Deus!
Ela teve que chamar um enfermeiro para carregar Linda de volta para cama. A garota estava embaraçada até o último fio de cabelo por dar tanto trabalho.
- Desculpem. Minhas pernas... elas não agüentaram.
A enfermeira usou sua voz de paciência para sorrir e explicar:
- Isso acontece com pessoas que passam muito tempo na cama, como você.
- Eu passei muito tempo na cama?
- Você não sabe disso?
Linda suspirou, mas sentiu o coração acelerado:
- Não me lembro de muita coisa, para falar a verdade.
A enfermeira disse:
- Você esteve muito doente, Linda. E na verdade, tínhamos a esperança que você nos dissesse o que aconteceu.
Linda fechou os olhos e depois sacudiu a cabeça:
- Tudo está muito confuso. Desculpe.
Com um sorriso, a enfermeira ajeitou os cobertores de Linda e disse:
- Está tudo bem. Vou chamar o Dr. Lennyard. Que tal?
- Bom. Diga-me: eu fui...internada de novo? Sabe... numa clínica ou instituição para... para...
A enfermeira percebeu o que ela queria dizer e garantiu:
- Não, Linda. Está num hospital regular. O mesmo onde trabalha.
A moça sorriu e ajeitou-se na cama, enquanto a enfermeira saía. Logo depois, ela teve uma conversa muito estranha com o Dr. Lennyard. Ele disse que ela estava na hospital fazia quase nove semanas, depois de ser raptada e ficar sumida por mais ou menos dois meses. Ela tinha sido encontrada em péssimas condições físicas e mentais, e eles tiveram medo de complicações ainda maiores. Linda ficou muito surpresa ao ouvir todas aquelas coisas, porque ela não se lembrava de nada daquilo. Na verdade, ela tinha dificuldades até em se lembrar de qual era a última coisa da qual se lembrava.
Logo em seguida, o médico falou a palavra mágica: "instituição". Aquilo deixou Linda agitada ao extremo, e ela implorou ao médico para não levá-la de volta àquele lugar, pois ela seria uma boa menina, e faria tudo o que ele pedisse, mas que ele não a levasse de volta àquele lugar. O Dr. Lennyard tentou acalmá-la e disse que havia uma chance muito pequena de ela voltar à instituição, mas ele ainda não tinha tomado qualquer decisão àquele respeito. Linda continuou a implorar, e o médico a achou muito agitada. Ele prescreveu um sedativo.
Portanto, ela estava adormecida quando Fraser recebeu a esperada notícia. O Dr. Lennyard disse ao canadense que ela provavelmente estava bloqueando todas as más lembranças e podia sequer estar ciente da gravidez. Então Fraser decidiu ficar ao lado dela durante toda a noite. Embora não acordasse, Linda se mexeu muito durante a noite. Era manhã quando ela acordou. Os límpidos olhos verdes dela brilharam de alegria quando ela reconheceu a pessoa a seu lado, mas ainda assim, ela arriscou, como se tivesse medo de que estivesse vendo uma alucinação:
- Ben?
Olhos azuis se viraram e dançaram só para ela. Linda se derreteu toda por dentro.
- Bom dia, Linda.
- Bom dia. Não sabia que estaria aqui. Eu tentaria ter acordado antes.
- Precisa descansar. Como está?
- Estou feliz que esteja aqui, Ben - Ela sorriu, enrubesceu e olhou para baixo. O coração dele estava a ponto de explodir. Ela quase sussurrou. - Amo você.
Ela pegou a mão que retorcia a ponta do cobertor:
-Também amo você, Linda.
- Disseram que eu estou no hospital há muito tempo.
- É verdade. Você foi raptada. Eu vi tudo.
- Viu?
- Deviam ser três, no mínimo. Tentei impedir, mas eles me bateram muito. Desculpe, Linda. Eu falhei com você.
- Acabou de dizer que eram em maior número, Ben. Não podia ter impedido. Ainda bem que nada de mais grave aconteceu com você.
Fraser não mencionou ter estado inconsciente por cinco dias. Só perguntou:
- Pode se lembrar de alguma coisa disso?
- Não - Ela parecia calma - Não sei o que aconteceu comigo.
- Talvez seja melhor se descansar um pouco mais - Linda viu que ele claramente queria mudar de assunto. - Dr. Lennyard disse que você ficou agitada.
Ela abaixou a cabeça:
- Ele pode querer me levar de volta para a instituição, Ben. Se ele fizer isso...
Ele a interrompeu suavemente:
- Eu não deixarei que ele faça isso. Não posso perder você, Linda... Não de novo.
- Oh, Benny...
Os lábios se tocaram, primeiro hesitantes, depois com mais paixão, mais carência. Fraser sentou na cama dela e a abraçou enquanto ela chorava baixinho nos braços dele, como antes. A medicação a dominou e ela dormiu de novo.