Parte 4

 

Primeiro eram apenas pequenos movimentos e gemidos, que nem de longe o incomodavam. Mas Fraser sentiu algo errado quando Linda pôs-se a gritar, a gemer e a chutar:

- Não!... Afaste-se dele...! Não, Sr. Fraser!! Não!!!

- Linda! - Ele tentou contê-la, mas ela resistiu, ainda sem acordar - Linda, é só um pesadelo! Acorde!

De repente, os olhos delas se abriram como num susto grande, e ela levou alguns segundos imóvel, tremendo, tentando se lembrar quem era, onde ela estava e o que estava acontecendo. Nesses segundos, Fraser ainda segurava os braços e dizia, numa voz suave:

- Você teve um pesadelo, querida. Já passou. Está tudo bem.

Ela tremia, lágrimas em profusão se formando nos olhos dela:

- Era.. aquele homem...! Ele... Eu tentei!... Oh, Benny...! Desculpe, eu tentei...! Desculpe, Benny...!

Fraser a abraçou com força, enquanto ela chorava de maneira sentida, os soluços quase se transformando em convulsões. O corpo dela inteiro tremia, e Fraser pacientemente esperou que ela se acalmasse, sempre acariciando-a e dizendo que ele estava ao lado dela. Levou algum tempo, e era quase de manhã quando ela finalmente parou de chorar, enrolada no corpo dele, voltando a dormir de puro cansaço, sem paz ou segurança.

* * *

 Linda abriu os olhos, primeiro tentando lembrar o que era aquele corpo suave e quente ao lado do dela. Um segundo mais tarde, os lábios dela se abriram num sorriso, lembrando a noite que ela acabara de passar. Ela se virou e olhou para o lindo rosto de Ben. Sorriu e enrubesceu ainda mais quando viu que ele também a encarava. Ele puxou-a contra si e beijou-a. Depois encostou a testa na dela, sorrindo.

- Bom dia, Linda.

- Bom dia, Ben.

- Como se sente?

- Amo você.

- Também amo você. Mas ainda quero saber como se sente.

- Feliz. E faminta. Mas não quero me levantar.

- Então vai continuar com fome.

- Mas não quero perder nem um segundo de você.

- O que quer dizer?

- Quero dizer que daqui a pouco você vai ter que ir trabalhar, e não quero passar o resto do tempo com você cozinhando. Mas não quero que passe fome também. Não sei que o fazer.

- Eu sei.

- Sabe?

- Deve passar o dia na cama. E eu quero passar com você.

- Mas... seu trabalho -

- Direi que estou doente.

- Mentiria por mim?

- Você fez o mesmo por mim, e nem me conhecia.

- Aquilo foi diferente.

- Sim. E fez com que eu me apaixonasse por você.

Linda sentiu o coração dela estourar de amor, e sorriu, derretida:

- Oh, Ben...

Ele a beijou com paixão, trazendo o corpo dela ainda mais para junto do seu. Mas em seguida disse:

- É melhor eu ligar para o Consulado e dizer que estou doente demais para ir trabalhar.

- Tá. Então vou fazer café para você. Deve melhorar sua saúde.

Ele sorriu com a piadinha e se vestiu apressadamente, para sair atrás de um telefone público. Linda também colocou uma camiseta e calças folgadas para ir alegremente à cozinha. Cozinhou ovos, pegou o suco de laranja que gostava tanto e fez algumas torradas, agüentado os olhares esfomeados de Diefenbaker. Penalizada, Linda deu algo para o lobo comer. Ela estava quase terminando quando Fraser bateu à porta, e ela o deixou entrar, enquanto ele dizia:

- O cheirinho está no corredor.

- Entre - ela disse, voltando para a bandeja que arrumava - Podemos comer no quarto.

Então fizeram isso, e um pouco de suco ficou derramado na cama, enquanto eles riram, felizes. Fraser passou uma torrada com geléia para ela e disse:

- Adoro o jeito como você ri.

- Por quê?

- Não sei.

- Adoro seu sorriso. Essas... covinhas que aparecem perto de seus lábios... Também aparecem muito quando você e Ray estão conversando.

Ele confessou:

- Mas preciso dizer que também adoro sua comida. O que pôs nesses ovos?

- Nada.

- Não, sério.

- É verdade. Fiz com manteiga e pinguei leite fresco.

- Hummm. Adorei.

- Ben, tem certeza de que Dief não pode comer nada? Ele tem cara de quem está com fome.

- Ele sempre tem essa cara.

- Podemos passear com ele mais tarde, não é?

- Acho que sim. Mas terá que ser mais tarde, muito mais tarde.

- Por quê?

- Porque agora - Fraser andou de joelhos pela cama, dizendo - eu quero fazer amor com você.

Ele a tomou nos braços, e ela deixou que a língua dele viajasse entre o pescoço e o colo, onde a camiseta negou-lhe acesso à pele. Linda pulou da cama e disse:

- Espere. Deixe eu limpar a cama.

Ele não respondeu. Esticou-se para agarrá-la de maneira esfomeada, prendendo-a entre seus braços, beijando-a apaixonadamente, explorando-lhe o interior da boca com muito desejo, enquanto as mãos passeavam por baixo das roupas que ela usava. Então a boca dele voltou-se para o ouvido dela, sussurrando sensualmente:

- Não demore.

Linda estremeceu e saiu sem poder dizer palavra, catando a bandeja e utensílios, apressada para ir à cozinha. Não tinha chegado quando bateram à porta. Linda ficou imóvel.

- Linda, sou eu, Ray. Por favor, abra.

Linda quase entrou em pânico. E agora? Ela correu ao quarto, e Fraser deitou-se na cama:

- Eu ficarei aqui escondido.

- Não quero mentir para Ray.

- Então tem que contar para ele.

- Vou tentar dispensá-lo. Só fique quieto.

Ela estava nervosa quando abriu a porta. Ray entrou rapidamente, igualmente nervoso.

- Desculpe, Linda, eu sei que é cedo, e você deveria estar descansando, mas não sei o que fazer.

Ela se assustou:

- Ray, o que aconteceu?

O italiano começou a falar e gesticular sem esconder a apreensão, atabalhoadamente:

- É Fraser. Fui buscá-lo hoje para o trabalho, mas ele não estava em casa. Parei no consulado e disseram que ele está doente. Então voltei para a casa dele, ver se ele precisava de algo, mas ele não estava lá. Linda, ele está doente, e está por aí em algum lugar.

- Por favor, Ray, tente se acalmar. Está me deixando nervosa.

- Não sei o que fazer, Linda. Ele nunca fica doente. E agora ele sumiu!

Linda viu o estado em que o amigo estava e não teve coragem de mentir para ele. Falou:

- Ray, não se preocupe. Ele está aqui.

- Aqui?

- Ele passou a noite aqui. Acabei de fazer café para ele.

- Ele dormiu aqui?

- Sim, Ray.

O detetive parou de falar por dois segundos e depois correu ao quarto. Então viu o amigo na cama, debaixo das cobertas, olhando para ele. Na mesa de cabeceira, havia água e um odor fraco de suco de laranja.

- Benny, como você está?

- Olá, Ray.

O italiano tocou a testa do canadense e garantiu, parecendo genuinamente aliviado:

- Se você teve febre, ela já passou agora, Benny. Mas você não parece bem.

- Bom, avisei que estava doente, não foi?

- Vou levá-lo para casa - Ray decidiu, e começou a olhar pelo quarto, procurando as coisas dele. - Ma vai tomar conta de você.

- Realmente, Ray, não precisa -

- Shh! Não quero ouvir coisa alguma. Primeiro, você me deixa assustado até a raiz dos cabelos, e agora não quer se cuidar.

Fraser argumentou:

- Linda está cuidando bem de mim.

- Linda é um amor de garota e uma ótima amiga, mas se eu disser para Ma que você estava doente e eu não o levei para casa, ela vai me matar.

Linda finalmente falou alguma coisa:

- Ray, talvez removê-lo não seja o melhor a fazer.

Aquilo fez o italiano finalmente parar um pouco e encarar Fraser:

- Talvez você tenha razão. Ele precisa descansar.

- Tenho certeza de que só preciso de sono - disse Fraser - Linda foi gentil o suficiente para cuidar de mim, e ela trabalha num hospital, Ray. Ela sabe o que fazer. Assim você a ofende.

Ray disse:

- Linda, eu não quis dizer que você não trataria bem de Benny. Você certamente sabe o que está fazendo. Posso ver isso. Mas eu só -

Ela disse suavemente:

- Tenho certeza de que só está pensando em fazer o que é certo, Ray. Mas Fraser ficaria arrasado de incomodar sua mãe. Além disso, eu não quero arriscar que ele saia e pegue uma febre. Ele pode piorar ainda mais se sair agora, acredite em mim.

- Você pode ter razão, Linda - O detetive cedeu - Afinal de contas, você sempre pode me chamar se for algo mais sério, não é?

- Você sabe que eu chamaria, Ray.

- Então já sei: no fim do meu turno, passo aqui e levo Benny para casa. Assim, ele não precisará andar no frio. Depois tomo conta dele.

- Ray, isso é -

- Não tem discussão, amigão. Por isso somos amigos.

- Obrigado, Ray.

- E veja se dorme um pouco. Tá com uma cara horrível.

- Entendido.

Linda disse:

- Deixe-me levá-lo até a porta.

Ray saiu do quarto e Linda o seguiu até a porta. Lá ele parou e abraçou-a com força:

- Estou orgulhoso de você. Tomou conta dele tão bem que ele não quis sair.

Linda enrubesceu, mais devido ao embaraço de ter mentido para um amigo tão bom do que pelo elogio. Ray, claro, não tinha como saber disso. Ele beijou a testa dele com carinho e combinou:

- Eu trago o jantar, tá? Nós três podemos comer, e então eu levo Benny para casa. Aí você pode descansar. Calculo que você não tenha dormido bem.

- Bom, é verdade que ele não me deixou dormir. - Novo rubor.

- Poderia ter me chamado. De qualquer forma, volto mais tarde, tá bom?

- OK, Ray. Não se preocupe.

- Não estou preocupado. Sei que Benny está em boas mãos.

Ele sorriu para ela e saiu. Linda suspirou. Então Fraser a saudou com uma pergunta assim que ela entrou no quarto:

- Estou mesmo parecendo doente?

- Você disse que estava doente, não disse?

- Estou ficando doente de tanto querer você, Linda. Por favor - Fraser esticou o braço, mão espalmada num convite - Venha para a cama. Agora.

O coração dela disparou e ela pegou a mão dele, ajoelhando-se na cama enquanto Fraser envolvia os braços na diminuta cintura e levava o nariz à barriga dela, tentando inalar-lhe o odor do umbigo. Depois ele usou as mãos para tirar a camiseta dela e atacar os seios dela com a boca, fazendo-a curvar o corpo todo para trás. Antes que Linda se desse conta, ela estava nua e Fraser atacava-a com sofreguidão, o desejo mais acelerado do que o toque dele no corpo dela. Ela se ergueu, começando a despi-lo e sussurrando, enquanto mordiscava o lóbulo da orelha dele:

- Por favor... deixe-me...

Ele não se deu conta de ter respondido.

- O que quiser...

Ela o despiu das calças e cuecas, e ele nem bem tinha sentado na cama, ela atacou-lhe o peito com movimentos de língua, fazendo-o gemer. Então foi a vez do umbigo dele, enquanto a língua dela fazia círculos no local e rumava para baixo. Fraser jogou a cabeça para trás, fechando os olhos e deixando-se flutuar nas sensações que a língua de Linda trazia a seu corpo. Quando a boca dela começou a sugar gentilmente uma das esferas entre as pernas dele, Fraser sentiu o raciocínio lhe escapar por completo. A boca continuou e continuou a agir nas duas esferas, e ele gemia em êxtase. Finalmente a língua de Linda percorreu acima e abaixo o bastão quente e sussurrante, enquanto as mãos dela se concentravam nas coxas grossas e pálidas.

Linda estava tão excitada quanto Fraser quando ela o tomou inteiramente dentro de sua boca, e ele soltou um grito, sentindo-se todo envolto em calor e umidade e carinho. Precisou de todo o controle treinado na Polícia Montada para não gozar imediatamente. Mas a curiosidade foi mais forte e ele ergueu a cabeça para olhar para baixo, e viu a cabeça de Linda indo para cima e para baixo, as mãos delicadamente envolvendo-lhe o membro, os olhos quase suplicando-lhe em adoração: a visão foi tão excitante que o jogou a um clímax, fez com que ele chamasse o nome dela entre gemidos de prazer. Linda engoliu sofregamente todo o leite que jorrava da coluna de carne, e ela ordenhou o órgão até a última gota.

Enquanto Fraser ficava imóvel, nocauteado, ela fez sua língua viajar para cima, e começou a imprimir pequenos beijos por todo o peito dele, repetindo o nome como se fosse uma prece, dizendo o quanto o amava. Ele parecia quase adormecido, saciado, pondo-a em seus braços, o corpo quente dele embalando a alma de Linda.

Ela puxou as cobertas sobre ambos, pensando que Fraser quisesse dormir. Por uns minutos, ele acariciou as costas nuas dela. Depois a mão dele foi até o queixo dela e acariciou-lhe a mandíbula. Ele sussurrou o nome dela. Ela sorriu:

- Amo você.

- Não me deixou amar você.

- Não gostou do que eu fiz?

- Claro que sim. Não é isso. Quero fazer amor a você, Linda.

Ela enrubesceu, evitando-o o olhar dele, envergonhada. Ele sentiu o amor por ela aumentar enquanto ele tomou-a em seus braços:

- Viu? Você fica vermelha, e acho isso adorável. Você também é adorável de muitas outras maneiras. Eu quero você muito. Muito mesmo.

- Por quê?

- Você é muito estimulante. E também porque amo você. Isso, para mim, não é apenas uma relação inconseqüente.

- Sei que não. Mas não é disso que estou falando. Quero saber. Por que eu? Por que está aqui? Eu não sou... normal.

- Eu também não sou... um tipo padrão, Linda - insistiu ele. - Você poderia se apaixonar por qualquer um. Francesca tem lhe apresentado rapazes de sua idade.

- Mas eu sou... Ou melhor, eu não sou... - Ela parecia confusa - Quero dizer, eu estive numa instituição, Ben. Você precisa saber que eu tomo remédios, que eu tenho que ver o médico uma vez por semana, e que eu tenho que seguir regras bem estritas, se não eu vou voltar para lá.

- Eu sei de tudo isso, Linda. Por que está dizendo isso?

- Por que não quero magoar você. - Ela não olhava para ele. - Às vezes... Não consigo parar. Não sei como. Não posso me controlar. Fico muito assustada.

- Eu assusto você?

- Não - Ela o trouxe para mais perto - Não, você não me assusta. Mas você... toca em mim. Tocar... é diferente agora. Eu nunca soube que podia ser... assim. Quando eu era criança, passei um tempo num orfanato, mas eu era muito pequena, não me lembro... Logo depois, fui para a tal instituição. Ninguém me tocava, a não ser para me machucar. Me dar injeções...Antes disso, só meu pai me tocava... para... me bater... e fazer... coisas feias... comigo...

Com o coração em tiras, Fraser acariciou-a, beijando o ponto onde pescoço e ombro se juntam, dizendo:

- Isso agora passou. Eu só quero lhe dar prazer, Linda. Quero tocar você muito e lhe dar muito prazer.

- Por favor... faça aquilo de novo....

- Aquilo o quê?

- Você sabe... Aquela coisa que eu senti.

Fraser sorriu e disse:

- Seu pedido será o meu prazer, madame.

Ele investiu contra ela, tocando-a de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Ela até riu alto, sentindo cócegas e Fraser sentiu o coração inchando de amor, sem parar de beijar os seios dela para dizer, o sangue fervendo:

- Adoro... quando ri assim... solta e livre....

- Oh, Ben....

Ele se entusiasmou e aprisionou-a com o mero peso de seu corpo másculo, uma fome diferente o consumindo de modo inexorável. Em segundos, as carícias dele adquiriram uma cor de paixão e pura necessidade animal, enquanto sua masculinidade se enrijecia de maneira inequívoca. Fraser segurou os braços dela abertos sobre a cama e investiu contra o pescoço dela, fazendo sons de um animal no cio, o corpo dela totalmente subjugado à mercê dele. De repente, ele sentiu que ela tremia, o corpo todo em espasmos. Era muito diferente de excitação sexual, e ele olhou o rosto dela com cuidado. Os olhos estavam fechados, mas ela parecia em dor.

- Linda... O que houve?

Ela abriu os olhos - e eles estavam transbordando de lágrimas e pavor. Mas o coração de Ben realmente se partiu quando ela choramingou:

- Não posso... me mexer... Por favor... Não me machuque... Não me bata...

Dor lancinante atravessou o peito de Fraser quando ele se deu conta que ao prendê-la, ela imaginava estar sendo humilhada mais uma vez. Vagarosamente, ele liberou os braços dela e garantiu:

- Está tudo bem, Linda. Eu não vou machucar você.

Ao se ver livre, ela se encolheu para longe dele, confusa, chorando, choramingando:

- Ben... Desculpe... Eu não quis...Eu não... desculpe, Ben...

Fraser tentou confortá-la:

- Está tudo bem, querida. Tudo. Ninguém vai bater em você. Eu é que peço desculpas. Devia ter ido mais devagar. Eu te amo, Linda, jamais te machucaria.

Ela soluçou silenciosamente umas duas vezes, depois se jogou nos braços dele, chorando baixinho:

- Tive medo...! Desculpe...

- Está tudo bem, Linda. Estou aqui. Não vou deixar ninguém machucá-la.

Com cuidado para não prendê-la, Fraser a segurou gentilmente, acariciando-a, falando bobagens no ouvido dela, até que os soluços dela se espaçassem. Pouco tempo depois, ela parecia envergonhada:

- Eu pareço uma tola... Claro que você jamais me machucaria... Mas... eu..

- Não é tola. Ficou assustada. É natural, depois de tudo que passou.

- Desculpe, Ben - Ela parecia tão triste, e agarrou-se a ele - Devia ter confiado em você. Não me perdôo por ter tido medo de você. Mas... achei que podia lidar com isso. Não pude. Perdoe-me, Ben.

- Está tudo bem. Eu disse que esperaria por você. Você não fez nada errado, não tem do que se desculpar.

Ela sentiu que derretia por dentro e lágrimas voltaram aos olhos.

- Jamais vou poder agradecer por isso, Ben. Você é tão bom para mim. Ninguém jamais me tratou dessa maneira antes de você e Ray. Sou muito grata aos dois pelo que fizeram por mim.

Fraser disse:

- Falando nele, ele vai voltar à noite, não é?

- Ben, não gosto de mentir para ele.

- Nem eu. Mas não acho que agora seja uma boa hora para contar. Ele ainda está se sentindo responsável pelas coisas que Carver fez.

- Ray é tão bom. - Ela sorriu - Viu como estava preocupado com sua saúde? Ele quer que eu tome conta de você.

- Sim. Ele é um bom amigo.

- Temos sorte de ter um amigo assim. Eu não quero nada estragando nossa amizade.

- Nem eu. Ray foi meu primeiro amigo em Chicago e fez tudo que pôde para me ajudar a descobrir os assassinos de meu pai. Devo muito a ele.

- E Ray me deu você. Me deu a própria família dele. Não há nada que eu não faria por ele.

Ele a abraçou, brincando:

- Ei, assim fico com ciúmes.

- Não fique - ela ofereceu a ele os lábios, ele os tomou - Eu amo você.

Fraser viu o amor e o comprometimento nos olhos verdes dela e beijou-a com sofreguidão, explorando sua boca com a língua e seu corpo com as mãos. A proximidade de seus corpos nus fez com que ela sentisse o desejo dele renascendo entre as pernas e cutucando-a na virilha.

Então ele pegou os seios dela com as mãos e usou a boca para acariciá-los delicadamente, enquanto Linda pôs a cabeça para trás, oferecendo-lhe a garganta. Ele mordiscou gentilmente a pele delicada do pescoço e ela tremeu - desta vez de desejo. Mais um beijo apaixonado acompanhado pelas mãos talentosas dele passeando pela pele macia e ela estava ofegando. Ela olhou para Fraser.

Os olhos azuis dele brilhavam de desejo e ela viu-se afogando dentro deles, um fogo crescendo-lhe no meio das pernas. Os corpos nus se entrelaçaram e Fraser separou-lhe as pernas delicadamente, enquanto mordiscava o lado esquerdo do pescoço, causando pequenos arrepios ao corpo de Linda. Lentamente, ele começou a escorregar para dentro do corpo dela, sentindo cada sensação ao ser recebido dentro dela, envolvido pelo corpo dela. Ele queria ficar para sempre dentro dela. Os dois corpos viraram um.

Linda sentiu como se estivesse a ponto de gritar. Na verdade, teria gritado, se ela tivesse alguma voz. Ela sentia cada centímetro de Fraser dentro dela, e era uma sensação pela qual ela teria morrido alegremente. Quando ele começou a se mexer, as sensações só cresceram. Ela ouviu um gemido crescendo, e surpreendeu-se ao notar que vinha de sua garganta. Então, mesmo ofegante, incapaz de se mexer, de pensar, ela tentou avisar:

- Ahhh... É... muito... Oh... Eu vou... Eu vou...!

As frases entrecortadas, os gemidos e a voz carregada enlouqueceram Fraser e ele se perdeu em sensações, movimentando entusiasticamente dentro dela. O corpo dele entrou em convulsão de repente, e Linda sentiu mais uma vez o jorro que ele despejava dentro do corpo dela. Aquilo precipitou uma estranha reação dentro do próprio corpo dela. Linda pôde sentir a sensação crescendo dentro de si, como um vulcão, tão quente que chegava a ser de cor branca, pronto para entrar em erupção. Ela tentou agarrar-se a Fraser, mas aquela sensação de fogo branco tomou conta dela mais uma vez, e de novo ela gritou o nome dele, mergulhando num mundo de delícias, o corpo dela dissolvendo-se de dentro para fora, enquanto ela tentava recuperar o fôlego nos braços dele.

Ela se ajeitou nos braços dele, sentindo-se segura e feliz. Ela também se sentia cansada, o sono vinha chegando. Linda sentiu Fraser beijando-a delicadamente e ela respondeu ao beijo. Ela estava tão feliz que as lágrimas estavam se juntando nos olhos novamente:

- Eu amo você tanto...

Fraser a beijou e nada disse, apenas sorrindo de um jeito que fez Linda derreter-se. Então ela disse:

- Queria que esse momento jamais acabasse. Eu estou tão feliz. Você é tão bom para mim...

- Linda, eu amo você. Você é tão cheia de vida, tão viva. E você é linda - ela enrubesceu, desta vez num tom de rosa bem profundo e desviou o olhar dele, sorrindo envergonhada, enquanto ele continuava - Seu corpo é surpreendente. Mas você é mais do que isso. Lembro-me daquele baile no consulado.

- Eu adorei aquilo. - Os olhos dela brilhavam - Eu fiquei tão orgulhosa por você ter me levado.

- Queria que você pudesse ver o brilho em seus olhos, Linda. Eu já estava apaixonado por você. Mas quando eu vi o modo como você estava quando eu a levei, fiquei entusiasmado. Não era à toa que todos olhavam para você. Estava tão linda. Outros homens estavam olhando para você, e eu... fiquei com ciúmes.

- Eu estava com tanto medo naquela noite - lembrou Linda, ainda ruborizada. - Lembro-me de ter ficado muito feliz quando você me salvou de todas aquelas pessoas.

Ele acariciou o rosto dela:

- Eles estavam a seus pés, Linda. Tomados por sua beleza.

- Tudo era tão novo A música, as pessoas em roupas tão bonitas...Você foi tão gentil comigo. Fiquei tão excitada que nem dormi direito. Ainda há tantas coisas que não sei. Há muitas coisas que me espantam, e outras que eu ainda nem vi.

- Quero lhe mostrar tudo. Adoro o jeito que você sorri quando algo a espanta. Quando você conheceu Dief, eu lembro que você ria desse jeito. O sol batia no seu cabelo, a neve estava fresca, o ar estava limpo. Quase parei de respirar, Linda. Você estava tão... perfeita.

- Assim fico envergonhada, Ben - Ela viu os cílios compridos se moverem na direção dela, e adquiriu um tom mais alegre e jocoso na voz. - Mas eu ainda amo você e quero tomar conta de você, como prometi a Ray que faria. Afinal, você está mesmo doente. Você precisa dormir e eu tenho coisas a fazer.

Ela se mexeu, mas Fraser a deteve.

- Aonde vai?

- Preciso me refrescar, depois tenho que alimentar você e Diefenbaker antes que Ray chegue. Adoraria ficar com você por minha vida inteira e jamais ter que deixar essa cama, mas o dever me chama. Vai ficar chateado?

- Claro que sim. Posso fazer companhia?

- Não precisa, Ben. Pensei que quisesse dormir um pouco.

- Quero ficar com você, Linda. Quero desfrutar de todo o momento com você, porque não sei quando poderemos ficar juntos assim novamente.

- Espero que possamos fazer isso muitas vezes.

- Não até contarmos a Ray.

- Tenho medo disso.

- Que ele não aprove? Mas ele gosta muito de você, e é meu amigo. Por que não aprovaria? E por que precisaríamos da aprovação dele, para começar a conversa?

- Ele é nosso amigo, Ben - lembrou Linda - Eu quero que ele aprove a gente. É importante para mim. Além disso, ele é seu amigo. Não quero ficar entre vocês dois. Jamais deixarei isso acontecer. Nunca. Eu farei o que for preciso para não separar vocês dois ou ficar entre vocês.

- Você não vai ficar entre ninguém. - Ele riu - Somos adultos. Ray vai entender.

- Espero que sim. Agora levante.

Rindo, abraçando-se e beijando, eles conseguiram chegar ao banheiro. Linda entrou no chuveiro e molhou-se toda, estremecendo a princípio, depois acostumando-se à água tépida. Fraser a agarrou pela cintura, saboreando a pele sedosa e molhada escorregando por entre as mãos, depois pôs-se debaixo do chuveiro, jogando para o lado o cabelo escuro, para poder invadir a boca dela, água caindo feito uma cascata nos dois. Amorosamente, Linda pegou uma esponja e começou a lavá-lo, uma carícia de amor marcada por linhas de bolhas de sabão nas costas largas e nos membros perfeitos. Então ele se pôs de joelhos na banheira e pediu a ela que fizesse o mesmo - usando apenas os olhos azuis.

Linda pôs xampu no cabelo sedoso dele com extremo cuidado e ele fez o mesmo com ela, entre muitos beijos molhados e milhares de carícias escorregadias. O cabelo dela estava limpo, Fraser a puxou contra si e ela sentiu a ereção dele cutucando-a, enquanto os movimentos do corpo dela provocavam pequenas ondas na pequena banheira onde os dois estavam se desfrutando. Gentilmente, ele levou-a a sentar-se no colo dele e ela montou-o enquanto ele se sentava, a rigidez dele penetrando-a, mas nos termos dela, com o ritmo dela. Primeiro desajeitada, mas em seguida obtendo um ritmo, Linda sentiu Fraser a preenchendo, o movimento revolvendo a água com tal força que provavelmente estava deixando o banheiro totalmente encharcado. Ainda assim, Linda não podia parar de se empalar em Fraser, ouvindo os gemidos dele a excitarem mais e mais, até que um jato quente de esperma a penetrou fundo e o corpo dela convulsionou-se antes de desmoronar sobre o de Fraser, as mãos cruzadas atrás da nuca dele como único apoio. Fraser tentou limpar os olhos das lágrimas que ele não sentiu se formando. Aquela moça era tão boa para ele...

A próxima coisa que ele sentiu foram lábios delicados por todo o seu rosto, depois mexendo-se para o pescoço, para o peito. Depois ela sorriu e pregou-lhe um belo beijo nos lábios, indagando, marota:

- Eu já lhe falei que amo o senhor, Constable?

Ele entrou na brincadeira, dizendo alegremente:

- Não, enfermeira-assistente, não nos últimos 9,8 minutos.

Ela fingiu estar escandalizada:

- Como pude ser tão relapsa? Se vier comigo, policial, talvez eu possa pensar num jeito de remediar isso.

Eles se ergueram divertidamente, mas quando Linda secou o corpo de Fraser, a atitude dela era de respeito, quase de adoração, ele notou. As mãos dela se espalharam por todo o lugar, como se seus dedos pudessem saborear os peitorais, os bíceps, as coxas, as costas dele. Até detalhes, como a pele atrás das orelhas ou entre os dedos dos pés, foram minuciosamente enxutas. E ele também a enxugou amorosamente, beijando cada parte da pele perfumada, fresca, limpa e doce. Fraser não conhecia muitas mulheres, mas o corpo de Linda, mesmo sem ser particularmente extraordinário, estava começando a se impregnar em sua memória. Breve, ele seria capaz de passear com as mãos por toda ela e causar-lhe prazer sem sequer precisar abrir aos olhos ou acender as luzes.

- Hmmm - Ele fez, enquanto os lábios dele passeavam, para cima e para baixo na pele delicada do pescoço dela, provocando tremores por todo o corpo dela... - Eu poderia passar o dia todo fazendo isso... Na verdade, estivemos fazendo isso o dia todo...

Linda deu um risinho alto, solto, e o coração de Fraser se derreteu, então ele simplesmente se precipitou em beijá-la até que ambos perdessem o fôlego. Nos braços dele, Linda ergueu os olhos para olhá-lo e sussurrou:

- Assim você pode me fazer chorar de novo.

- Espero que dessa vez seja de alegria.

- Ou de felicidade - A palavra pronunciada, mais o olhar que ela lançou para ele, fizeram o coração do canadense derreter de novo. - Felicidade inacreditável.

Ele a beijou de novo, com tanta paixão quanto podia, e depois Linda disse:

- Venha, está na hora de comer. Melhor colocar uma roupa.

Linda pegou o resto das frutas e começou a fazer alguns sanduíches, enquanto Fraser dava água para Diefenbaker. O lobo parecia mais interessado no que a moça estava fazendo.

- Melhor fazer uma refeição leve. Ray ficou de trazer o jantar.

- Muito gentil da parte dele.

- Bananas, laranjas, ameixas e maçãs. Isso e um sanduíche. Gostou?

- Adorei. Adoro frutas frescas.

- Sim, eu também. Dief, lamento, amigo, mas para você só sanduíches.

Como se entendesse, ele ganiu baixinho. Linda parecia mesmo penalizada e tentou acariciá-lo.

- Lamento muito, Dief. Não planejamos isso, então não tenho comida para você. Desculpe. Vou tentar deixar sempre um pouco de ração na cozinha daqui para frente tá bom?

O lobo estava alerta, orelhas de pé, e ela riu-se antes de abraçar o animal, acariciando-o. Fraser abanou a cabeça:

- Pronto, conseguiu. Você e Ray vão estragá-lo totalmente.

- Eu adoro Dief - Ela lavou as mãos e começou a passar as frutas para ele. - Também estou com sede. Quer suco?

- Não, obrigado. Acho que esse é o melhor dia da minha vida.

- Certamente é o meu - ela confessou - Mas gostaria de não ter que mentir para Ray.

- Também não gosto disso, e não faço isso normalmente. - ele admitiu abertamente - Mas entendo que haverá uma reação. Na família também.

- A família? Acho que eles não se importariam. Por que diz isso?

Fraser parecia constrangido:

- Talvez... Quero dizer... Francesca pode...

Linda empalideceu:

- Oh, não. Eu me esqueci de Frannie...! Acha que ela vai nos odiar?

- Ela pode se sentir... traída.

A moça abaixou a cabeça e evitou olhar para ele por um minuto. Fraser a encarou, e viu que ela parecia estar pensando com esforço. Então ela chegou a uma decisão, porque ergueu a cabeça e pôs-se a descascar uma ameixa:

- Bom, eu amo Frannie como uma irmã, mas não posso desistir de você. Lamento por ela.

Desta vez Fraser riu-se alto. Linda não entendeu por quê. Mas quando ela viu a risada dele tão solta, relaxada e totalmente o contrário da postura certinha e compenetrada que ele sempre tinha, o coração dela se derreteu, e ela esqueceu o que queria perguntar. Ela comeu o resto da refeição no colo dele - a pedido dele. Então ela levou-o de volta para cama - nu, é claro.

Mas Linda foi sutil, dizendo a ele que sentia a tensão no corpo dele e ofereceu-se para dar uma massagem. Ela começou pelas costas, a princípio sem saber direito o que fazer, apenas imitando o que vira outros fazendo, com amor nas mãos. Ela ouvira falar tanto daquilo que quis experimentar. Era mesmo de encher o coração ver a confiança que Fraser tinha nela, mesmo com o passado dela dentro do hospício, como a enfermeira Cheryl não perdia oportunidade de falar.

Fraser estava deitado de bruços, os braços esticados ao lago do corpo. Os longos dedos dela se mexiam entre os ombros dele, e ele gemeu, mexendo a cabeça para sentir os músculos se distendendo. Linda se assustou:

- Tá doendo?

Ele mal gemeu como resposta:

- Não... está ótimo. Por favor, não pare.

- Está bom. Mas precisa relaxar.

Foi o que ele fez, e Linda colocou toda sua ternura ao tocar seu amante. Ela provavelmente enrubesceria se ouvisse a palavra. Jamais poderia ter imaginado que ela teria alguém a quem pudesse chamar de amante com tamanho carinho e dedicação. Aquela realidade era totalmente insólita para ela.

Concentrando-se totalmente em suas mãos, já que ela não tinha qualquer tipo de óleo para perfumar o corpo de Fraser, Linda acariciou as vastas costas, as pernas perfeitas e as nádegas irrepreensíveis, bem como os pés e dedos. Depois ela pediu que ele se virasse e foi recompensada com uma visão de tirar o fôlego: Fraser estava tão relaxado que os olhos estavam fechados, e ele parecia estar adormecido, o corpo todo rosado com as massagens dela, como se fossem pétalas de rosa dispostas num chão de mármore branco ou marfim perfeito. Como um anjo.

Lutando contra as lágrimas por ver uma visão do paraíso, Linda massageou o corpo dele com amor e extrema ternura, evitando o local mais fogoso de todo o corpo dele. Mas o fato de ela não ter tocado o local não impediu que o corpo de Fraser reagisse às carícias de suas mãos, e ela pôde ver o magnífico membro se erguer para a visão mais espetacular que ela teve na vida. Ela enrubesceu e voltou a massagear as coxas dele, e ele gemeu, seu corpo respondendo ao toque amoroso.

Linda não contou tempo em caprichar na massagem da parte interna das coxas dele, libidinosamente, e então ela mexeu o próprio corpo dela para chegar mais perto de seu objetivo. Desta vez, ela não evitaria as partes mais íntimas dele. Muito, muito gentilmente Linda usou os longos dedos para acarinhar as duas lindas esferas, enquanto a outra mão dela explorava a virilha dele. Fraser se contorceu e gemeu enquanto a respiração dele falhava, à mercê das carícias íntimas de Linda. Ela continuou explorando, e logo a mão dela estava passeando por toda a superfície da volumosa ereção dele, explodindo em sensações novas e levando-o quase aos píncaros do prazer.

Fraser não pôde evitar um grito quando ela o tomou na boca - de uma vez só. Então a língua dela moveu-se pela parte de baixo do cajado rígido, e depois pela parte de cima. Em seguida, ela usou uma mão para esticar o membro enquanto a língua dela se envolvia na ponta rosa convidativa. O órgão pulsava e tremia quando ela aplicou um pouco de sucção, e Fraser tentava não enfiar-se para dentro da boca dela. A cabeça dele girava e o modo como ela estava lambendo a sua outra cabeça era algo que ele sequer havia imaginado. Se alguém tivesse descrito isso a ele, ele teria pensado que se referia a uma forma exótica de tortura. Mas era puro prazer. E era quase insuportável de tão bom. Ele ficava mais e mais duro à medida que Linda sugava e lambia e chupava e estocava e puxava e o enlouquecia. Mas quando ela abrigou toda a masculinidade dele em sua boca de uma vez só pela segunda vez, ele não pôde mais se conter e gritou o nome dela, espirrando sua doce ambrosia na boca dela. Mais uma vez, Linda sugou tudo avidamente, engolindo e também beijando o membro flácido só por puro amor.

Fraser perdeu totalmente a noção de espaço quando sentiu as cobertas em seu corpo e alegremente deixou-se levar pelo sono merecido. Linda estava tão feliz que chorou um pouco, procurando não acordá-lo. Depois ela saiu sorrateiramente para a sala, vestindo novamente o abrigo e camiseta. Ela queria dar a seu amante a maior oportunidade de descansar possível.

Não foi muito, no final de contas. Linda começou a fazer um suco de laranja quando ouviu uma batida na porta. Dief chegou a rosnar. Mas ela abriu a porta e Ray apareceu cheio de sacolas.

- Oi. Espero ter tudo aqui.

- Shh. - alertou Linda - Ben está dormindo.

O italiano abaixou a voz e indagou:

- Como ele está?

- Acho que melhorou desde que você o viu, Ray.

- Oh, pobrezinha. Você parece cansada. Fraser pode ser bem irritante e teimoso às vezes. Ele deu trabalho?

Ela sorriu, mas não pelo motivo que Ray imaginou, e respondeu:

- Não, ele não me deu trabalho. Ele tomou banho e dormiu. Acho que a febre sumiu.

- Ótimo. Bom, aqui eu trouxe um pouco da sopa milagrosa da mamãe Vecchio e massa. Ma pediu para não demorarmos. Ela ficou preocupada com Benny.

- Sua mãe é muito gentil, Ray. - disse Linda sorrindo e colocando um pouco de suco num copo, antes de ajeitar numa bandeja - Venha, ele precisa tomar muito líquido.

Ela bateu à porta fechada do quarto e chamou:

- Ben? Ray está aqui e eu tenho suco.

A voz que Linda amava respondeu:

- Por favor, entre.

Ela obedeceu e Ray veio logo atrás dela, e Fraser se sentou na cama, enquanto Linda colocava a bandeja no colo de Fraser e o policial saudava:

- Ei, amigão, como está?

- Ótimo, Ray - Fraser disse, e Linda lhe passou o suco. - Sinto-me muito bem.

- Posso ver. Cama boa, enfermeira bonita. Cara, você está mesmo com tudo.

Linda enrubesceu e Fraser também, e rapidamente bebeu um pouco do suco. Linda sugeriu:

- Talvez você queria se juntar a nós para jantar, Ben. Ray trouxe um pouco da sopa de Ma Vecchio para você. Tem a reputação de ser milagrosa.

Ray completou:

- Tem também um pouco de massa, se tiver disposição.

Ele terminou de beber o suco e disse:

- Está bem. Só vou me vestir.

Linda pegou a bandeja e saiu do quarto. Enquanto aquecia as guloseimas trazidas por Ray, ela sentiu estar cozinhando com amor por Fraser e pelo amigo italiano. Ela amava os dois e sabia disso.

O resto da noite passou rapidamente, enquanto eles comeram e Ray levou Fraser para a casa dos Vecchio. Linda foi para cama cedo, e dormiu totalmente à noite, e desta vez, parece que os sonhos ruins passaram rápido, antes que ela acordasse chorando ou gritando, como costumava acontecer.

De manhã, ela tomou uma decisão. O rosto dela parecia denunciar a sua determinação, porque quando ela chegou ao hospital, a amiga Samantha indagou:

- Linda, tudo bem?

- Sim, obrigada, Sam. Por que pergunta?

- Você parece... - A moça hesitou - pronta para alguma coisa. Olhe, eu soube do que aconteceu a você. Fico feliz que esteja bem.

- Obrigada, Sam. Mas preciso falar com a Sra. Sorelli. Sabe onde ela está?

- Terceiro andar, acho.

- Muito agradecida.

Pela primeira vez, Linda caminhou pelos corredores do hospital sem seu uniforme verde ou uma camisola de paciente, e com o coração assobiando. Por um minuto, ela encarou os conhecidos de trabalho, a quem lançava um sorriso tímido e ficou a imaginar. Será que eles sabem? Será que eles podem dizer só em me ver? Podem ver que sou uma pessoa totalmente diferente? A felicidade parecia estar estampada em seu rosto. Ela sentia isso.

- Linda! - A Sra. Sorelli a saudou de forma bem ruidosa, bem italiana. - Como está?

- Bem melhor, obrigada, Sra. Sorelli.

- O CDC me ligou de Atlanta. Disseram que você teve muita sorte que a toxina e o antídoto tenham sido encontrados a tempo. Sentiu algum efeito colateral?

- Não, senhora. Estou bem.

- Isso é bom. Você parece bem.

- Obrigada. Sra. Sorelli, eu estava pensando. Precisa que eu volte para o trabalho imediatamente?

- Não, não de verdade. Gostaria de ter mais alguns dias de folga?

- Não realmente. É que eu estava pensando em outra coisa. Seria muito ruim para a senhora se eu trocasse de turno?

- Trocasse de turno?

- Sim. Eu procurava uma oportunidade para trabalhar de dia.

- Bem, Linda, isso pode demorar um tempo. Eu precisaria encontrar alguém que quisesse pegar o plantão noturno. Você sabe que eu vou ter que relatar isso ao Dr. Lennyard.

- Eu mesma posso fazer isso. Na verdade, eu estou indo para falar com ele agora mesmo.

A enfermeira olhou para a moça com cuidado e indagou:

- Linda, está tudo bem?

- Estou ótima, Sra. Sorelli.

- Posso perguntar por que quer trocar de turno de repente? Parecia satisfeita com o horário noturno.

Linda enrubesceu:

- É que... Se eu continuar trabalhando de noite e dormindo de dia, não teria muita oportunidades de... er... sair.

- Sair?

- Sim, senhora - Linda parecia um pimentão. - Sair.

- Com seu namorado?

- Sim, senhora.

- Fico feliz por você, Linda. Muito mesmo. Podemos conhecer seu misterioso namorado?

- Bom... Sim... talvez...Será que a troca demoraria muito?

A enfermeira sentiu a ansiedade da moça e sorriu:

- Acho que não, Linda. Ouvi dizer que o Sr. Bertelski poderia se interessar pelo emprego. Eu vou falar com ele, e depois digo a você como tudo saiu.

- Eu agradeço, Sra. Sorelli. E também agradeço por sua ajuda a respeito do... er... outro assunto. As dicas provaram ser muito úteis.

A enfermeira mais velha não pôde evitar enrubescer também e disse:

- Estou à disposição, Linda. Sabe quando poderá voltar ao trabalho?

- Amanhã à noite, no meu horário normal. Agora tenho que ir ver o Dr. Lennyard.

- Linda, se precisar de mais alguns dias de licença, não hesite em vir falar comigo.

- Obrigada, mas acho que não será necessário. Estarei de volta amanhã, Sra. Sorelli.

- Até lá, então, Linda. E aproveite o resto de sua folga para descansar bastante.

Ela não teve tempo para isso. No minuto que ela entrou no consultório do Dr. Lennyard, Linda foi indagada sobre todos os tipos de informação sobre a toxina do Sr. Carver, coisas que ela realmente não sabia. Depois ela disse que queria trocar de turno e o assunto foi Fraser, e tudo que ele significava para ela. Dr. Lennyard disse estar feliz por Linda estar tão alegre e disposta a perseguir a relação com o canadense. Linda se sentia meio insegura, pois havia muitas coisas das quais ela não fazia nem idéia. O psiquiatra perguntou muito sobre os sentimentos de Linda em relação a Fraser, em relação ao relacionamento em si e sobre o futuro. Linda não podia responder muito além do fato de ter um amor enorme por Fraser e que sentia o peito arder toda vez que ela se dava contar de que ele era... dela. Lennyard não estava muito inclinado a entrar em detalhes, mas ele fez Linda pensar muito. Ele sempre tinha esse efeito sobre ela.

Ela pegou a receita para o remédio que tomava e logo após aviá-la decidiu ir ao distrito, onde foi recebida com entusiasmo por um bando de tiras a quem chamava de amigos. Logo um grupo pequeno deles a cercava e ela se sentiu enrubescendo quando viu a dedicação e carinho de todos que perguntaram por sua saúde. Então Elaine Besbriss indagou a ela sobre a saúde de Fraser:

- Na verdade, foi isso que vim saber. Ray levou-o para casa e eu -

Nesse momento, Ray Vecchio saiu do escritório do tenente Welsh e sorriu quando a viu.

- Linda, tudo bem?

- Ótimo, Ray. Vim saber sobre o Sr. Fraser.

- Não se preocupe, garota. Benny está totalmente recuperado e de volta ao consulado desde esta manhã. Parece que seus bons cuidados o recuperaram em tempo recorde - Ela enrubesceu ao lembrar sobre os "bons cuidados" que ela proporcionara a Fraser. - Ei, está quase na hora do almoço. Quer comer algo?

- Sim, eu poderia comer algo.

- Ótimo. Vou falar com o tenente.

Elaine se aproximou de Linda novamente, desta vez com uma voz baixa e tom decididamente cheirando a conspiração:

- Muito bem, Linda, garota de sorte! Quando quiser nos brindar com uma descrição de Benton quando dorme, ou de seu corpo fora daquele uniforme de sarja vermelha, por favor não hesite em me chamar.

A cor vermelha voltou à pele da moça quando ela decidiu-se por inspecionar o chão do distrito, gaguejando:

- Oh, bem, eu, é que, sabe -

Elaine tentou aliviar a tensão:

- Foi só uma brincadeira, Linda. Estou apenas brincando com você pode ter dormido na mesma casa com aquele deus de alabastro. O contigente feminino do distrito está muito orgulhoso de você, sabia?

- Mas eu não dormi - disse Linda, inocente como sempre - Não quando o Sr. Fraser estava na minha cama.

Elaine não pôde se conter:

- Viu? É disso que estou falando! Parabéns, garota!

Linda desejou ardentemente que ela tivesse tido uma educação religiosa para poder rezar pedindo que Ray voltasse logo e a livrasse da brincadeira bem-intencionada. Seu salvador, porém, veio na forma de um gentil e grandalhão tenente Welsh:

- Srta. Linda, que prazer em vê-la.

- Obrigada, senhor - disse Linda, e Ray ficou a seu lado - Também é muito bom vê-lo.

- Fico contente ao ver que está totalmente recuperada.

- Sim, senhor. Obrigada por sua preocupação.

- De nada. Eu ainda quero que me diga onde fica a loja que tem o capuccino que trouxe para mim semana passada. Sabe, aquele descafeinado, sem açúcar?

- Oh, sim, senhor. Eu acho melhor levá-lo até lá. Embora não seja longe daqui e não seja precisamente uma confeteria, pode ser mesmo difícil de encontrar.

- Ótimo. Fica combinado, então. Vecchio, cuide bem de nossa mocinha.

O italiano disse:

- Sem problemas, chefe, está tudo sob controle - Então ele se voltou para Linda - Vamos?

Linda seguiu-o para fora da 27ª delegacia e abanou ainda no caminho:

- Até mais tarde, tenente. Adeus, Elaine.

Eles deram adeus, e Ray indagou:

- Você não está trabalhando hoje, está?

- Não, eu só tenho que me apresentar ao trabalho amanhã à noite.

- Ótimo, então temos tempo. Que tal uma bela refeição?

- Parece ótimo, obrigada.

- O Riv está logo aqui.

No restaurante, Linda ainda não parecia convencida sobre a saúde de Fraser:

- Ray, tem certeza de que Fraser está mesmo bem?

- Claro que sim. Eu não disse que estava?

- Então é outra coisa que está chateando você, Ray. Você nunca faz um almoço longo. Sempre é um lanche rápido. Se mudou, é porque tem algo perturbando você.

- Ah, uma menina que sabe observar os outros - Ray suspirou - Tem razão. Algo está me chateando, mas não é Benny, e sim meu trabalho.

- É um caso?

- Sim, um caso. Tem esse homem, escorregadio mesmo, e ele sempre se livra da lei. Agora eu estou trabalhando com o FBI, e eles só querem o impossível.

Linda se impressionou:

- Nossa, Ray. O FBI está trabalhando com você?

O italiano estava tocado com a excitação sincera da menina:

- É, mas eu tenho certeza de que eles não ficaram tão entusiasmados. De qualquer modo, eu não devo incomodar você com meus problemas de trabalho.

- Você sabe que eu não me incomodo, Ray. E se houver algo que eu possa fazer para pegar esse cara, basta me dizer, tá bom?

Ray ficou mesmo emocionado.

- Você é um amorzinho, sabia? Quero levá-la a um restaurante novo. Pena que Benny não pôde vir. Eu o chamei, mas ele disse que não podia.

- Por quê?

- Ele me disse que a Mulher-Dragão queria que ele zerasse toda a papelada do Consulado. Ele vai ter que ficar trabalhando até tarde.

- Oh, que pena. Mas ele vive dizendo que a oficial superior dele tem um nome e ele é Meg Thatcher.

- Eu sei - Ray sorriu de modo perverso - Eu adoro implicar com ele.

- Ray, você é impossível.

Com um papo gostoso assim, eles comeram e apreciaram a companhia mútua, como sempre. Linda imaginou, mais uma vez, que era mesmo uma bênção ter amigos assim.

As semanas seguintes foram bastante movimentadas para Linda, com tantas mudanças em sua vida. Ela conseguiu mudar de horário e levou quase duas semanas até que ela se acostumasse a dormir de noite novamente. Na verdade, as noites dela ficaram ainda mais compridas, mas ela não se importava. Ocorria que ela e Fraser tinham que se encontrar escondido de Ray, geralmente após o trabalho - às vezes ele ia para casa dela, outras vezes ela ia para a dele. Sexo não era obrigatório, mas era constante. Linda ainda se espantava do jeito que as coisas eram, que um homem bonito e maravilhoso como ele pudesse ter se apaixonado por ela. Ela não podia estar mais feliz. Pela primeira vez em toda a sua vida, ela sorria bastante, e estava positivamente brilhando de tanto amor que exalava.

Acompanhando de perto das essas mudanças, Benton Fraser também começara a descobrir os tesouros e alegrias da intimidade e da companhia. Ele costumava ser ainda mais solitário que seu lobo, e de repente aquela garota doce estava abrindo um mundo totalmente novo para ele. Fraser mal podia acreditar na solidão e frio em que vivera toda sua vida. Parecia a ele que Linda tinha sido ainda mais solitária. E isso tudo mudara. Juntos, eles se descobriram um ao outro e os dois juntos.

Nos intervalos, eles tinham a companhia fiel e constante de Ray Vecchio. O italiano estava mais do que disposto a apanhá-los para irem ao trabalho ou pegá-los depois, já que os três terminavam os turnos mais ou menos no mesmo horário. Depois de chegarem em casa, o casal se esgueirava para se encontrar às escondidas, ou inventava desculpas, para poder ficarem juntos de maneira íntima sem magoar o amigo.

Terminou que o tal caso com os federais estava consumindo muito do tempo livre de Ray. Fraser e Linda tinham mais tempo para se curtirem que normalmente seria o caso. Mas mentir para Ray era algo que nenhum dos dois gostava. Falar a verdade para o amigo italiano ainda era um assunto que eles discutiam vivamente, mas ainda tinham dúvidas em assumir o relacionamento.

Claro que nem Linda nem Fraser podiam saber que em breve falar para Ray ou para a totalidade de Vecchios sobre o romance seria a última de suas preocupações.

* * *

- Fala. É Vecchio.

- Oi, Ray.

- Linda? Tudo bem?

- Sim, Ray. Escute, eu só queria avisar que o hospital está fazendo uma semana de prevenção contra infecções e essas coisas. Estarei trabalhando até muito tarde.

- A semana toda?

- Sim. Mas ele darão transporte, então não se preocupe em me pegar, está bem?

- Tudo bem, princesa. Cuide-se, hein?

- Obrigada, Ray. Até logo.

* * *

- Consulado Geral do Canadá, Consulat Général du Canada.

- Constable Fraser, por favor.

- Um minuto, s'ìl vous plaît.

- Sim?

- Ben, sou eu. Desculpe incomodá-lo no trabalho, mas tenho más notícias.

- O que houve?

- O hospital está fazendo uma semana especial de prevenção a infecções e eu terei que trabalhar a mais nessa semana inteira. Desculpe.

- Não é sua culpa, Linda. Mas sentirei sua falta.

- Eu também terei saudades, Ben. Eu... lamento.

- Eu entendo. Não se preocupe.

- Eu amo você.

- Eu também - foi tudo que Ben pôde dizer. - Por favor me chame se precisar de algo.

- Obrigada. Tchau.

* * *

No fim do quinto dia, Benton Fraser decidiu fazer uma surpresa a sua garota e foi ao hospital apanhá-la ao final do turno. Com a sarja vermelha, chapéu Stetson e coração inchado, ele foi à mesa do andar e reconheceu a enfermeira chamada Samantha. Ela sorria para ele:

- Olá, policial.

- Olá, enfermeira.

- Então, o senhor devolveu nossa garota em segurança após a tal semana de prevenção?

- Perdão?

- Aquela sua semana de prevenção - ela disse - Linda nos disse que o senhor e seu amigo detetive a levaram essa semana numa viagem devido a essa programação.

Fraser sentiu como se uma mão escura e fria esmagasse seu coração com um prazer mórbido em ver sua dor.

- Tive a impressão de que o hospital é que estava tendo uma semana de programação especial para evitar infecções.

- Quem lhe disse isso?

- Linda.

- Quando?

- No começo da semana.

- Então ela não está com o senhor agora?

- Não falei com ela desde então. Ela não está aqui?

A enfermeira ficou tão branca quanto seu uniforme:

- Ela teve licença a semana inteira porque ela estava com vocês dois. Não entendo. Onde ela pode estar?

Fraser não tinha tempo a perder com perguntas inúteis, mas a gentileza sempre esteve presente:

- Por favor, poderia usar seu telefone?

- Claro.

Ele discou para a polícia.

* * *

O pé dele já estava no ar para chutar a porta, mas o telefone celular tocou dentro do paletó. Ray Vecchio gesticulou para o time de policiais e se afastou para atender o telefone:

- O que é?!

- Sou eu, Ray. Desculpe, é uma emergência.

- Fraser, agora não posso!

- Linda sumiu, Ray. Há dias ninguém a vê. Preciso de ajuda.

Ray sentiu a preocupação na voz do amigo e suspirou:

- Verei isso assim que eu puder, Benny.

- Eu sei, Ray.

O detetive fechou os olhos por uma fração de segundos, tentando se concentrar na tarefa à frente. No momento, pegar Moreaux era sua prioridade. Depois de tantos meses e das últimas semanas de inferno, parecia que ele finalmente iria pagar por tudo que tinha feito e pelo que fizera Ray passar.

Assentiu para o resto do time e um outro detetive bateu à porta do apartamento, dizendo:

- Abram a porta! É a polícia!

O próprio Moreaux atendeu à porta, colocando um robe e dizendo:

- Se não tiverem um mandado, eu entro com queixa.

Ray o empurrou, dizendo:

- O mandado tá lá atrás, canalha. Agora vamos.

- E qual a acusação?

- Suspeita do homicídio Gonzalez.

Moreaux riu:

- Esquece. Eu tenho um álibi. Tinha alguém comigo aquela noite.

- A noite toda?

- A noite toda. _ Um risinho.

- Então ela vai ter que ir à delegacia contar essa história direitinho.

- Você não vai gostar.

Algo no modo como o cretino falou aquilo inquietou Ray, mas ele pediu a um policial:

- Revistem tudo.

Foi quando a voz de Jack Huey soou no final do corredor:

- Er... Ray, posso falar com você?

O italiano foi até o colega, que estava em frente à porta de um dos cômodos, apontando para baixo. Ray abaixou-se e viu, debaixo de uma cama, num quartinho pequeno e escuro, uma figura acocorada. A princípio pensou que era alguém dormindo, mas os tremores no corpo escondido o fizeram ver que o fugitivo estava acordado. Se era alguém tentando se esconder, não estava fazendo isso muito bem, pensou. O detetive gesticulou e dois policiais uniformizados retiraram a pessoa.

Era uma mulher, na verdade uma menina, de corpo frágil e franzino, que estava com uma camisolinha fina, as mãos amarradas e os olhos vendados. O corpo estava coberto de hematomas roxos. Quando tiraram a venda, viram que havia mais ferimentos no rosto. Mas também viram que a moça era Linda. E ela estava em choque.

Imediatamente, antes que alguém pudesse detê-lo, Ray correu atrás de Moreaux, mas ele já tinha sido levado para o carro-patrulha. Linda se encolhia ao toque dos policiais, mas não resistia. Apenas chorava silenciosamente. Alguém colocou um cobertor sobre ela, retirou as amarras das mãos e chamou uma ambulância. Ray decidiu ir para o hospital, e fez questão que ela fosse levado para o St. Luke's, não para o hospital onde ela trabalhava.

Esperou quase uma hora calado, silencioso, assustado. Ela estava sendo tratada, e pelo olhar de enfermeiros e médicos a coisa não era nada boa. Benny havia dito que ela sumira durante dias. Durante dias, ela tinha sofrido. Como Moreaux tinha posto as mãos nela? E por quê?

O médico se aproximou dele com uma ficha, indagando:

- Você é o policial que a trouxe?

Ray se levantou imediatamente:

- Sim, mas estou aqui como amigo. O que aconteceu?

- Bom, ela está bem machucada. Repetidamente foi espancada, torturada e violentada. Cortes físicos mais profundos estão infectados e fizemos curativos para esses. Não há fraturas. Fizemos exames, e podemos afastar definitivamente a gravidez. Mas o resultados sobre doenças sexualmente transmissíveis, incluindo AIDS, vão demorar pelo menos uma semana.

Ray engoliu em seco. Pensara nisso. O médico continuou:

- Você disse que é amigo.

- Sim.

- Muito amigo?

- Muito amigo, sim.

- Então precisa saber. Nada de intimidade por pelo menos quatro semanas, para dar tempo aos tecidos se recomporem. Ela toma alguma medicação?

- Sim, acho que sim.

- Nesse caso, ela tem um médico ou terapeuta, certo?

- Tem, sim, Dr. Lennyard.

- Vai querer chamá-lo. Ela está muito abalada.

- Ela pode prestar depoimento? Precisamos disso.

O médico pensou, depois disse:

- Pode perguntar a ela e ver por si mesmo. Venha comigo.

Ray o seguiu até uma outra sala, uma enfermaria. Localizou Linda deitada numa das camas. Ela estava alheia ao mundo, olhando para uma cortina de pano, lágrimas rolando silenciosamente por suas bochechas. O detetive olhou para o médico, que o gesticulou e incentivou a ir até ela. Com cuidado, Ray chegou perto da cama e colocou-se no campo de visão de Linda.

- Linda.

A princípio, pensou que ela não tivesse ouvido e chegou mais perto da cama, mas antes de abrir a boca para chamá-la de novo, ouviu um gemido fraco:

- Ray...

Ela tentou se erguer para chegar junto dele, mas ele sentou na cama:

- Não, Linda, está tudo bem, tudo bem - Ela já tinha se enroscado no corpo dele, chorando - Tudo bem, vai ficar tudo bem.

Ela parecia agitada e só pediu uma coisa:

- Não conte a Benny. Por favor, Ray!

- Ele está preocupado com você, Linda. Eu também.

- Não conte a ele, por favor! - Os olhos inchados dela imploravam - Por favor, Ray...

- Está bem, fique tranqüila.

- Oh, Ray....

Durante muito tempo, ela ficou apenas ali, chorando abraçada a ele, e Ray nada pôde fazer além de tentar consolá-la, sofrendo. Depois, ele conseguiu que Linda fosse liberada. Pegou as requisições médicas para os remédios que ela tomaria e explicou que precisava levá-la à delegacia. Obediente, ela aquiesceu.

Nada parecia fazê-la parar de chorar.

Linda entrou na delegacia e passou por todas aquelas pessoas que ela conhecia. Viu que a olhavam, mas ela mal via um passo à frente. Chorava demais.

Na sala de interrogatório, havia uma policial feminina com ela. Trouxeram chá para tentar acalmá-la, e Ray resolveu acompanhar o depoimento na sala contígua. O próprio tenente Welsh, que tinha se afeiçoado muito a Linda, resolveu conduzir o interrogatório. E ficou surpreso logo nas primeiras perguntas.

- Não, Linda, você não entendeu. Estou indagando quando ele te raptou.

- Ele não me raptou - disse Linda, em voz firme e chorosa. - Não fui raptada.

- Então ele a atraiu para um lugar ou para o apartamento?

- Não, eu fui ao apartamento porque quis. Ele me deu o endereço e eu fui até lá um dia depois do trabalho.

- Mas ele a mantinha presa ali, Linda.

Chorando, aos prantos, ela insistiu, trêmula:

- Não, eu estava livre para sair!

- Linda, o quarto foi encontrado trancado. Você estava amarrada. Era cárcere privado.

Ela titubeou, mas respondeu:

- É que eu sou sonâmbula. Posso me machucar se sair sozinha.

Welsh jurou que jamais tinha visto alguém pior em mentir antes. Teve que lembrá-la, docemente:

- Linda, lembre-se que está sob juramento.

- É verdade, eu sou sonâmbula. Pode perguntar a Ray. Ou ao Sr. Fraser. Eles sabem disso!

Welsh disse:

- Linda, sei que é uma boa moça, mas tenho que perguntar: Moreaux lhe deu algum presente?

- Presente?

- Sim, algum presente para você ir até a casa dele. Ele ofereceu?

- Não, senhor.

- Ele lhe ofereceu dinheiro?

- Não, tenente. Eu fui até lá porque eu quis.

- Sabia que suas palavras estão deixando livre um homem acusado de já ter matado três pessoas?

- Não sei disso, senhor.

- Como conheceu Moreaux?

- Ele me ligou para o hospital um dia. Me convidou para ir até sua casa. Eu fui, só isso.

- Linda, podemos pegá-lo por agressão e lesão corporal grave. Basta dizer que ele bateu em você. Isso não pode negar, Linda. Temos os relatórios médicos.

Foi aí que ela tremeu. Chorou mais, mas insistiu, vendo sua história fazer água por todos os lados:

- Foi um acidente...

Ray abanou a cabeça, olhando atentamente a menina pelo vidro. Viu as mãos trêmulas, os olhos assustados e as palavras firmes. Os fatos não batiam. Era uma equação que não fechava.

Tem alguma coisa errada nessa história toda...

 

Benton Fraser entrou no distrito sentindo-se realmente mal. Durante a noite toda ele estivera tentando refazer os últimos passos de Linda. Em vão. Justo dele, um dos melhores rastreadores da Polícia Montada. Parecia que ela tinha feito um belo trabalho em obter cinco dias de vantagem antes que qualquer um pudesse descobrir que ela tinha sumido.

O pessoal no hospital confirmou a versão de Samantha. A senhoria tinha sido avisada de que ela precisara viajar de repente com os dois policiais. O Dr. Lennyard também tinha recebido uma mensagem semelhante.

Linda não tinha falado com ninguém em pessoa, exceto com Ray e Fraser. Era óbvio que se qualquer um dos dois recebesse uma mensagem desse quilate, eles investigariam. Todas as mensagens tinham sido ou faladas pelo telefone ou recebidas por mensageiro. Isso significa que ela podia estar fora de Chicago quando tivessem sido entregues. Àquela altura ela podia muito bem estar fora do estado ou em qualquer lugar do mundo. Ele tinha que Ele recebeu a informação de que o detetive estava numa sala de interrogatório. Ele bateu à porta.

- Entre!

Fraser abriu a porta:

- Desculpe interromper, Ray, eu estou a caminho do trabalho e - Linda?!

Ray viu Benton Fraser empalidecer diante da visão de Linda na sala de interrogatório, ainda envolta num cobertor, encharcada em lágrimas, toda ferida e cheia de hematomas. Pela primeira vez, o polícia montada estava sem palavras:

- Você a achou... Mas... O que.. Ela foi ferida? Ela está bem? Ray, o quê..?

Ray sentiu que o amigo estava realmente perdido e guiou-o até a cadeira mais próxima, dizendo:

- Benny, sente aqui um momento.

Durante longos minutos, Benton Fraser ouviu as palavras que Ray pronunciava, sem poder acreditar nelas. Assim que Ray parou de falar, ele se levantou, dizendo:

- Tenho que falar com ela.

Ray só conseguiu pará-lo quase na porta, dizendo:

- Ei, ei, calma, amigão! - Fraser se deteve, mas os olhos azuis brilhavam de maneira que Ray nunca vira antes. O italiano estremeceu um pouco e tentou acalmá-lo. - Olhe, agora Linda precisa de descanso. Vou levá-la para casa. Ma já está avisada. Deixe que ela descanse e depois vamos saber o que aconteceu. Quando ela puder falar, Benny.

Sem esconder o esforço que fazia para se controlar, Fraser abaixou a cabeça, assentindo. Depois pediu:

- Ligue para o Consulado, se alguma coisa acontecer. Se precisar de alguma coisa, Ray, pode ligar.

- Ela vai estar lá em casa, Benny. Vamos cuidar bem dela.

- Eu sei - disse o canadense. - Você me liga mais tarde?

- Sim, claro. Agora pode ir trabalhar.

- Está bem - Olhou para Linda pelo vidro. Ela parecia tão sozinha, tão carente. - Posso...? Preciso... falar com ela...

Ray disse, com sinceridade e dor:

- Melhor não, amigo. Mais tarde, ela estará em condições de vê-lo.

A contragosto, Fraser assentiu e obedeceu. Mas só Deus poderia saber o quanto lhe custava deixar Linda naquele estado. Imaginava que ela poderia piorar e entrar num estado de aguda introspecção.

Ray viu o amigo deixar a sala e apreendeu-se. Jamais vira Fraser naquele estado de nervos. Mas até que fazia sentido. Sim, ele era amigo de Linda, e ele também era seu amigo. Lembrou-se da apreensão que sentiu quando levou um tiro e Fraser ficou três dias e três noites de plantão do lado de fora da UTI, até Linda deixá-lo entrar.

Quando finalmente Linda foi liberada pelos policiais, ela parecia exausta. Ray a levou até o Riviera, depois recebeu ordem de voltar, porque o tenente queria falar com ele. Foi uma discussão rápida, começando com "O que há de errado com Linda?" e terminando com "Sim, você está fora do caso e isso é final!". Quando Ray voltou para o carro, Linda tinha adormecido.

 

O clã dos Vecchio já tinha tudo pronto para recebê-la quando chegaram. O barulho foi tanto que acordou a moça antes mesmo que Ray a pegasse no colo. Acomodada no quarto de Francesca, Linda se desculpou com Mamma Vecchio pelos trajes, mas Ray disse que a irmã emprestaria algumas roupas enquanto ela estivesse ali. Ela pediu desculpas a Ray, ele disse que não fizera nada de errado. Ela pediu novamente que ele não contasse nada a Benton, e Ray disse que ele saberia mais cedo ou mais tarde, mas que ela não deveria se preocupar com aquilo. O médico recomendara repouso e já havia até uma visita para ela. Era o Dr. Lennyard.

O bom médico saiu da casa dos Vecchio sem conseguir nada além de provocar mais choro em Linda. Ela apenas pedira desculpas, mas não podia falar. E ficou muda, chorando silenciosamente.

Ma Vecchio trouxe uma sopa para ela, que recusou delicadamente. A italiana sentou-se na cama, deixando a bandeja de lado e indagando:

- Bambina, pode falar comigo. Quer conversar?

Linda apenas usou a cabeça para negar e disse, tentando conter as lágrimas:

- Todos querem conversar comigo. Não tenho nada para dizer. Não entendo.

Ma Vecchio pegou as mãos de Linda e disse:

- Todos gostam de você, Linda. Estão preocupados, só isso. Agora tome seu remédio.

- Ma... - Linda hesitou, sem poder encarar a mãe de Ray, lágrimas rolando mais do que antes - Ma, por favor... Fique aqui... Só um pouco...

A italiana experiente disse:

- Claro, bambina. Mas eu sou velha, e as minhas costas doem. Posso me encostar na cama?

- Tá.

Linda se afastou para que ela pudesse se ajeitar na cama e logo se viu abraçada por dois fortes braços italianos, e uma voz suave disse:

- Fico aqui até você dormir. Está bem?

Tanto amor, tanta compreensão e aceitação deixaram Linda com um nó grande na garganta, e ela se deixou afundar no peito de Ma Vecchio, chorando copiosamente. Ela nem viu a porta entreabrir-se e Ray observar a cena, mas a mãe gesticulou para que ele se fosse. A velha italiana acariciou Linda e falou palavras doces para a garota, enquanto ela soluçava. Muito tempo depois, ela cansou de chorar e adormeceu, sob as carícias da Sra. Vecchio. A italiana só saiu da cama dela quando os soluços ficaram espaçados.

Duas horas mais tarde, gritos ecoaram pela casa toda. A comoção foi grande, e uma multidão de Vecchios entrou no quarto de Linda. Mas ela não estava na cama. Maria e Francesca saíram a procurar no andar de baixo, e Ma foi ao banheiro. Mas Ray, que também fora acordado com os gritos depois de trabalhar a noite toda, sabia onde procurar. Ele entrou debaixo da cama, onde Linda estava, encolhida e tremendo. Com uma voz suave e baixa, ele assegurou para ela, sempre gentil:

- Foi só um sonho, Linda. Está tudo bem. Não precisa ter medo. Já passou.

Ela continuou a chorar silenciosamente, mas deixou que ele a retirasse de debaixo da cama. Depois ele a abraçou carinhosamente e ela desabou em prantos, o corpo todo tremendo. Os demais Vecchios foram silenciosamente encorajados a saírem do quarto enquanto ele a abraçava. Ray apenas a abraçou. Linda não precisava de mais nada. Apenas o abraço. Ela dormiu de novo. Também acordou gritando outras duas vezes, mas Ray estava lá.

No final do dia, Fraser apareceu na residência dos Vecchios, Diefenbaker a tiracolo. Ray jamais o vira tão preocupado. Depois percebeu que ele mesmo também jamais estivera tão preocupado antes. Nem por Fraser, que era seu melhor amigo. Talvez porque o canadense era muito versátil e sabia sair de encrencas. Mas Linda era emocionalmente muito frágil, e não sabia se defender como um polícia montada.

Por isso, apesar de ter sérias restrições a que Linda fosse incomodada, Ray não teve coragem de negar o pedido de Fraser para vê-la. Mas o italiano não daria o braço torcer.

- Vou ter que perguntar a ela primeiro, Benny - impôs. - Se ela não quiser, nada feito.

- Entendido. Por que acha que ela negaria?

Ray hesitou, pois não queria mencionar o fato, mas terminou contando:

- Ela pediu que não lhe dissesse nada. Não me disse por quê.

Fraser mordeu o lábio inferior e abaixou a cabeça, assentindo. Murmurou:

- Entendo.

- Mas eu quero ir junto, Benny. Preciso estar presente.

- Se ela quiser assim, tudo bem. Preciso falar com ela, Ray.

- Ela não me disse coisa alguma. Também estou no escuro, Benny. E tenho a impressão de que Moreaux ainda está rindo de nós.

Subiram ao quarto e Ray entrou, após uma batidinha na porta. Ela estava acordada.

- Oi, Linda. Como está?

- Bem, obrigada, Ray.

- Er, Linda, acho bom avisar o que está vindo por aí. Ma está preparando uma pasta e dessa vez ela não vai ouvir desculpas. Você vai ter que comer. Lamento.

Ela tentou sorrir:

- Sua mãe é muito gentil, Ray.

- Olhe, Linda, Benny está aí - Ray teve a impressão de que ela estremeceu - Quer ver você. Ele está muito preocupado. Mas eu não deixo ele entrar se você não quiser vê-lo. Você... está com medo de Benny, Linda?

Ela fez que não com a cabeça, ainda baixa.

- Sei que vocês têm se visto pouco, mas ele é seu amigo. Vocês brigaram? Ele foi descortês com você?

- Não! - Linda enrubesceu - Ele sempre foi muito gentil comigo. É que... eu... - As lágrimas rolaram sem que Linda quisesse. - Eu... o decepcionei, Ray...!

Ela caiu em prantos, e Ray não entendeu coisa alguma.

- Linda, eu não estou entendendo coisa alguma. O que você fez?

Entre soluços, ela disse:

- Eu... desapontei Benny... Ele... é meu amigo...! Aquele homem....ele... me enganou...! Benny... vai ficar .... zangado comigo!

- Homem? - repetiu Ray, e de repente os olhos verdes se arregalaram. - Fala de Moreaux? - Ela assentiu com a cabeça, soluçando, e Ray indagou - Mas o que tem Moreaux com Benny?

- Benny....vai ficar... zangado...! Eu... fui má...!

Ray inspirou, para ganhar paciência, e garantiu:

- Linda, Benny não vai ficar zangado com você. Eu garanto que não. Mas precisa me falar sobre Moreaux. O que ele tem a ver com Benny?

- Ele... me disse.... que iria prejudicar Benny... Tinha fotos... de que ele estava aceitando dinheiro... Ia mostrar à chefe de Benny... Ele iria ser preso... levado para o Canadá... Nunca mais... poderia voltar...

- Linda, preste atenção. Isso são mentiras. Benny jamais faria isso, você sabe.

Ela se agarrou a Ray, tremendo:

- Ray... Eu não queria... Não queria...! Mas eu fiz... Ray... Eu fiz tudo...que ele quis...! Eu não queria...!

- Shhh, minha linda. Eu sei que não queria. Precisa dizer isso para Benny.

Ela se agarrou mais ainda a ele:

- Estou com medo, Ray...!

- Eu disse que Benny não vai ficar zangado com você.

- Não, Ray! Não dele! Daquele homem...! Ele disse... Ele pode... Ele vai -

Ray sorriu, e não era um sorriso bonito:

- Tomara que ele tente, Linda. Aí vamos poder pegá-lo por tudo que ele fez a você.

Ela finalmente largou dele e olhou nos olhos dele, e pela primeira vez, ele viu esperança nos olhos esverdeados dela:

- Vai mesmo?

- Se você contar o que sabe e se ele tentar alguma coisa, vamos poder pegá-lo, sim. Não se preocupe. Posso chamar Benny? Ele deve estar ansioso.

Linda olhou para o chão, mas já calculava que não teria como adiar essa conversa. Melhor que fosse agora. Ela assoou o nariz, enxugando as lágrimas, e assentiu. Ray indagou, por precaução:

- Quer que eu fique junto? - Ela assentiu novamente, e ele disse: - Tá bom.

Logo em seguida, a porta se abriu e o canadense entrou. Mas o lobo dele tomou a dianteira, e Linda fez festa em Diefenbaker, enquanto Ray se sentava na cadeira no canto do quarto. Benny sentou na cama e indagou:

- Olá, Linda. Como se sente?

- Melhor, Benny - ela disse, em voz chorosa - Benny, me desculpe.

- Por quê? Linda, você não fez nada de errado.

- Eu... devia... - Ela começou a chorar. - Desculpe, eu...

Ele pegou as mãos dela e disse:

- Linda, tenho certeza de que você fez tudo o que achou certo. Só fiquei preocupado, como Ray ficou, e todos que conhecem você também.

Aquilo emocionou tanto a menina que ela se jogou nos braços dele, aos prantos:

- Oh, Benny...! Mas foi ele... !!! Aquele homem...!

- Como você o conheceu?

Ela não largou dele:

- Ele... ligou para o hospital... um dia. Disse que era um amigo... E que tinha fotos... em que você aparecia... aceitando dinheiro... Dinheiro sujo.... Aí ele disse que... não tinha decidido o que fazer com as fotos... mas como eu era amiga sua, talvez eu pudesse ajudar...

Fraser sentiu o estômago se revoltando e olhou para Ray. Ele fez um gesto pedindo que Fraser incentivasse a moça a continuar:

- E o que você fez?

- Eu fui até ele... Ele me mostrou as fotos... Eu falei que... você jamais faria isso... Ele insistiu... Disse que você seria preso...levado para o Canadá... E eu nunca mais o veria...! Fiquei com medo!.... Benny, eu tive medo...!

- Tudo bem, Linda. - Ele a acariciou, beijou-lhe a testa, coração em tiras. - Tudo bem.

- Ele perguntou se eu podia ajudar... Eu disse que... faria qualquer coisa... para ajudar você, Benny... Ele disse que ele... era sozinho... Perguntou se... eu queria bancar... a namorada dele... Só por alguns dias...

Ray se mexeu nervosamente na cadeira, incomodado com o que ouvia. Linda chorava, e soluçava, mas não parava de falar, agora disposta a revelar tudo:

- Eu disse sim... Ele me pediu que... dissesse a você que o hospital... ia me exigir...turno dobrado... Depois fui obrigada a ligar para o hospital... dizer que tinha uma viagem de emergência... Assim que eu fiz isso... ele voltou a dizer... que eu tinha escolha... Que eu podia ir embora quando quisesse...! Oh, Benny...!

Linda se apertou em Benny, que cuidadosamente tentava se controlar para poder consolá-la:

- Tudo bem, Linda. Já passou....

- Ele... sempre dizia... que eu podia ir embora... Toda vez que eu... resistia...! Mas ele... começou a fazer... coisas!!... Eu não queria, Benny!... Me desculpe...! Por favor, Fraser... Me perdoa...E ele não me deu... as fotos....

Fraser apertou-a em seus braços com carinho, e procurou olhar para Ray, mas o italiano tinha as mãos na cabeça, e balançou-a, desgostoso com o que ouvira. Linda chorava aos prantos, pedindo perdão a Fraser. Diefenbaker, sentindo o estresse pelo qual os membros de sua matilha passavam, subiu na cama e ofereceu-se como cobertor lupino para aquecer Linda.

Por sua vez, a moça cansou-se de chorar, mas não conseguia desgrudar de Fraser, a exemplo do que fizera antes com Ray e sua mãe. Então enroscou-se no colo dele, que a cobriu com um cobertor e com Dief. Os soluços logo se espaçaram e em seguida Fraser gesticulou a Ray, e os dois juntos ajeitaram a moça na cama. Dief resolveu ficar mais um pouco servindo de almofada.

Os dois amigos deixaram o quarto escuro e desceram pesadamente para a sala, onde a família já estava esperando com o jantar na mesa. Mas nenhum dos dois tinha estômago, mesmo para a deliciosa comida de Ma Vecchio.

 

Próxima parte

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