Parte 12

 

Linda certamente era muito grata pela companhia, mas ela achou estranho que Francesca a tivesse aporrinhado o dia inteiro apenas para levar Diefenbaker para uma longa caminhada e exercícios. Na verdade, Frannie tinha percebido alguns sinais em Linda há algum tempo. A esperta italianinha conhecia sua irmã "emprestada" o bastante para saber que ela queria falar, mas não se abriria para Ray por ser homem, ou para Ma. Talvez por vergonha. Maria também estava eternamente ocupada com as crianças, e talvez a moça precisasse de uma conversa entre irmãs.

Linda era incapaz de ser grosseira com Frannie. Mesmo que ela não estivesse interessada no exercício físico, ela disse a Frannie, enquanto caminhavam rumo ao parque:

- Obrigada pela ajuda, Francesca. Dief pode não apreciar isso, mas o exercício será bom para ela.

O lobo ganiu em resposta, e Linda disse:

- Isso não são modos, Dief. Com quem andou aprendendo isso? - Um latido curto - Ray? Oh. De qualquer modo, acredite em mim, algum dia, você agradecer a Frannie pelo que ela está fazendo.

O lobo a ignorou. A pequena italiana sorriu e disse:

- É tão bom ter outra irmã na casa. Quero dizer, pelo menos, uma que não esteja envolvida o tempo todo com bebês e gravidez. Amo Maria, sabe, mas eu gostaria de ter outra irmã com quem conversar outras coisas, sabe?

Linda se votou para ela, genuinamente preocupada:

- Frannie, tem algo errado? Precisa de ajuda?

Ela sorriu:

- Na verdade, Linda, era isso que eu estava querendo perguntar a você. Você nunca falou sobre o que aconteceu. É bom pôr as coisas para fora. Se quiser falar, eu estou aqui para ouvir.

Linda sentiu uma dor no coração ao ouvir as palavras de Frannie. A ausência de Fraser ainda doía muito, e parecia uma ferida tão recente e profunda que jamais iria se fechar. A moça não parou de andar, mas abaixou a cabeça e a voz de tal maneira que era apenas um murmúrio gaguejado, um esforço inacreditável para manter as lágrimas dentro do peito:

- Eu... É que... Quero dizer... Não tem muito... para dizer...

Frannie disse:

- Claro que tem. Se tivesse acontecido comigo, eu teria muito o que dizer. Por exemplo, como se sente? Tem raiva de Fraser? Eu estou tão desapontada com ele. E você?

Linda ergueu a cabeça e disse:

- Não, Frannie, não fique desapontada. Ele só fez o que achou certo.

- Ah, Linda, não me vem com essa. Dispensando você daquele jeito? Foi totalmente desnecessário. O mínimo que ele podia fazer era ter tentado melhorar as coisas. Entende o que eu quero dizer? Ele podia ter conversado com você, tentar salvar o que vocês tinham. Ele não fez isso. Ele só... desapareceu. Eu esperava muito mais dele.

- Entendo - Linda disse - Mas é que... Ele me disse que... não me agüentava mais... Ele não podia - Ela não podia terminar, então tentou de outro modo - Se era tão difícil para ele, então... faz sentido que ele quisesse terminar tudo o mais rápido possível.

Francesca começou a ficar assustada:

- Linda, ele brincou com os seus sentimentos. Ele fez você acreditar que se sentia de um modo que não se sentia. Não está com raiva dele?

- Não, não! Frannie, só o que eu quero é que ele seja muito feliz - disse Linda, sinceramente - Achei que eu pudesse... fazê-lo feliz. Está claro agora que não era assim que ele se sentia. Meus sentimentos não são importantes.

Agora sim, Francesca explodia:

- Viu, Linda? Por isso é que Fraser conseguiu se safar dessa. Você não luta por si mesma. Você tem direitos! Foi tratada muito mal, e não está percebendo isso.

Então, Linda não conseguiu mais conter as lágrimas, enquanto Francesca falava e falava. Até Diefenbaker estava andando e encostando sua cabeça na coxa de Linda, ganindo baixinho enquanto a moça chorava sem emitir um único ruído, o coração se desfazendo. Levou algum tempo, mas quando a irmã de Ray finalmente se deu conta de que Linda estava aos prantos, ela parou de falar e se assustou:

- Linda? Ai meu Deus, Linda, o que foi?

A moça tentou respirar e responder, sem conseguir encarar Frannie:

- Eu... É só... que...

- Ai meu Deus, Linda. Está me assustando! Primeiro procure respirar, depois pode falar. Respire, isso!

Linda obedeceu, e finalmente conseguiu balbuciar, entre as lágrimas:

- Eu... o magoei, Frannie... Era a última coisa que eu queria... mas foi isso mesmo que eu fiz... E o pior... é que eu nem... nem sei como fiz isso...

Elas tinham chegado ao parque, e Frannie fez Linda se sentar para então poder abraçá-la e deixar que chorasse. Linda realmente caprichou, chorando muito, às vezes até alto e sem se importar de fazê-lo em público. Frannie lhe deu lencinhos e esperou até que os soluços diminuíssem, antes de olhar para ela e sorrir, dizendo:

- Pronto. Está melhor?

Linda não queria mentir, mas tentou sorrir, os olhos vermelhos:

- Obrigada, Francesca. Desculpe-me.

- Desculpas? Por que está pedindo desculpas? Por ter sentimentos? Todo mundo tem sentimentos, Linda. Ficar guardando isso dentro de si não é bom.

- Eu só queria... entender...por que ele se foi...

- Talvez não seja para entender, Linda. Veja dessa maneira: agora você pode ser uma mulher independente, se quiser. Sabe, pode provar que pode ficar sozinha, se quiser. É esperta, muito capaz e também uma pessoa muito legal. Fraser foi um canalha, se quer saber. Nunca achei que ele fosse um canalha, mas isso ele foi.

- Não diga isso! - pediu Linda - Por favor. Não gosto de ouvir ninguém falando dele assim.

- Linda - Frannie tentou ser paciente - Fraser agiu como um canalha. Aceite isso, porque é verdade.

Linda indagou, abaixando a cabeça:

- Oh, não... Que será que eu fiz?

- Você acha que fez algo?

- Será que... - Linda estava encabulada, mas tinha quer perguntar - Você acha que ele... podia não estar se sentindo... Se sentindo... bom... satisfeito?

- Satisfeito?

- É - Linda estava vermelha - Sabe, sobre intimidade.

- Intimidade? Que está querendo dizer, Linda?

- Você sabe... sexo. Pode ser que eu não o estivesse... satisfazendo como ele queria. Ele podia achar que eu... deveria ser capaz de... fazer mais... ou diferente, não sei.

- Quem sabe? - Frannie deu de ombros - Ele poderia ter dito algo. E pelo que eu conheço de você, tenho certeza que jamais teria negado a ele qualquer coisa que ele quisesse.

- Não, claro que não. Mas mesmo assim...Talvez eu pudesse... ter tido mais iniciativa.

- É, pode ser - concedeu Frannie. - Mas ele podia ter dito alguma coisa, Linda. Ele não falou nada?

- Não. Na verdade, eu uma vez perguntei se nós... estávamos fazendo... direito.

- Direito?

Linda estava totalmente sem jeito:

- É, sabe, eu não tenho experiência, então não sabia se fazíamos tudo... de um jeito normal. Talvez outras pessoas fizessem sexo diferente de nós.

- Diferente? Linda, ninguém faz... exatamente igual.

- Não é isso - Linda apressou-se a esclarecer - Eu quero dizer.... freqüência. Sabe, quantas vezes... fazíamos sexo.

- Bom, existe uma freqüência média para essas coisas. Sei que é constrangedor, Linda, mas preciso perguntar: quantas vezes você e Fraser...?

Linda ficou ainda mais vermelha, mas respondeu:

- Geralmente, eram... er... de três a quatro vezes...

Frannie logo disse, tentando acalmá-la de uma vez:

- Ótimo, Linda, ótimo! Três a quatro vezes por semana é definitivamente dentro da média. Fraser não tinha do reclamar quanto a isso.

Linda empalideceu:

- Não, Frannie, você entendeu errado... Ah, meu Deus... Eu quis dizer... três a quatro vezes por dia.

Frannie deixou cair o queixo e sentiu o sangue correndo de maneira diferente. Agora era a vez dela ficar vermelha, notou. Então ela tossiu e tentou manter a voz firme ao tentar confirmar:

- Está dizendo... três a quatro vezes por dia? - Envergonhada e deprimida, Linda assentiu, de cabeça baixa. Frannie não resistiu a perguntar: - Todos os dias?

Começando a querer chorar de novo, Linda respondeu:

- Era diferente nos fins de semana. Às vezes nós...perdíamos noção do tempo... aí eu perdia a conta... Então era muito mais... - Linda não conseguia mais se segurar, de tão triste - Frannie, eu sou anormal!...Por isso ele me largou...! É tudo minha culpa, minha culpa!!!

Francesca colocou em seus braços a moça que ameaça desabar de novo em pranto e disse, a voz calma para tentar acalmar Linda:

- Linda, escute-me. Você está me falando de um relacionamento sexual que me parece ser muito saudável e cheio de amor. Não se preocupe com isso. Tenho certeza de que muita gente teria inveja disso, se soubesse. Fraser não podia reclamar mesmo de ter uma vida sexual pobre.

- Eu só queria fazê-lo feliz, Francesca - disse Linda, agarrada à irmã emprestada - Fico tão triste de saber que eu o magoei. Por que eu trouxe tanta dor a ele? Eu sou uma pessoa horrorosa por fazer isso!

- Não, Linda, você não é uma pessoa horrorosa. Pare de falar essas coisas sobre si mesma. O que aconteceu com você foi muito injusto. Todo mundo está tão surpreso e triste quanto você, acredite. Ray está totalmente revoltado.

Linda disse, alarmada e assustada:

- Ray disse que o mataria! Eu tive que implorar para ele não fazer isso! Frannie, por favor, não deixe Ray fazer isso.

- Não se preocupe, Linda, Ray não vai matar Fraser. Mas você está muito, muito triste. Triste demais, e isso não é bom. Precisa superar isso. Sei que dói, e que não é fácil, mas precisa fazer isso, Linda.

- Então me ajude...

- Tá, então eu vou ajudá-la. Você é minha irmã, não é? Primeira coisa a fazer é fazer você esquecer um pouco. Vamos ver. Às vezes, quando eu estou triste, eu vou apara a sorveteria do Del. Aí eu pego um grande milk shake de chocolate com cerejas e marshmallow por cima. É muito gostoso e me faz sentir bem. Então? Quer experimentar?

Linda limpou as lágrimas e disse:

- Tá.

Frannie apontou:

- É naquela direção, umas três quadras. Vamos lá. Venha, Dief.

As moças andaram pela rua, a tarde já avançando rapidamente, como sempre fazia na meia estação. Na frente da sorveteria, porém, elas tiveram uma surpresa.

- Oh, ótimo - disse Frannie, frustrada - Eles não deixam cachorros entrar.

Dief ganiu e parecia mais deprimido do que indignado. Linda explicou para o animal:

- Eu sei, e em teoria, claro que não se aplica a você, porque é um lobo, mas eu acho que eles também estavam pensando em lobos quando fizeram a placa. Desculpe, Dief.

O animal latiu, agora sim, indignado por ter sido comparado a um cachorro. Frannie perguntou a Linda:

- Você também quer um milk shake, não é? Eu vou lá dentro e pego para nós. Vocês podem esperar aqui. Sei que não vai deixar Dief sozinho.

Linda lembrou:

- Dief prefere algo com geléia.

Frannie olhou para o lobo com desdém e disse:

- Tá, totó, vou tentar me lembrar. Mas tem que tomar conta de Linda, tá?

O lobo latiu uma vez para concordar com o trato, e Frannie entrou na loja. Linda olhou em volta, para a rua na tarde bonita, e Diefenbaker sentou-se ao seu lado de maneira totalmente cheia de expectativa. O lobo sabia que comida estava a caminho, e estava feliz de ficar de guarda para receber o alimento.

De repente, algo num carro chamou a atenção do lobo e ele disparou rua abaixo, latindo. Linda ficou totalmente perplexa. Diefenbaker nunca se comportava assim.

- Dief! - Ela chamou - Diefenbaker! - gritou mais alto. - Dief, volte aqui!

Foi quando Linda se lembrou, envergonhada, de que o lobo era surdo, e não havia outro jeito de detê-lo, a não ser correr atrás dele. No meio da quadra seguinte, ela teve que parar, pois o tinha perdido de vista. Ela parou, meio sem fôlego, e suspirou, olhando em volta desolada:

- Oh, não!... Dief, onde está você?

Como se fosse um aviso, ela ouviu um latido num beco próximo à outra esquina, e foi naquela direção. Entrou no beco, chamando:

- Diefenbaker! Cadê você?

Ela andou mais uns passos para dentro do beco escuro e foi quando uma voz veio de trás:

- Seu cachorro não está aqui, moça.

Linda se virou, e viu dois homens caminhando em direção e ela, bloqueando a saída do beco. Ela sentiu um perigo no ar, o estômago revirou de repente e ela ainda disse:

- Então preciso procurá-lo. Obrigada, senhor.

Ela tentou passar por ele, mas o homem (aliás, um bem grande) colocou-se no caminho dela, dizendo:

- Deixe-me ajudá-la a encontrar seu cão.

- Obrigada, mas...

A chegada de um carro na boca do beco a interrompeu. Era um Mercury escuro, e Linda imaginou que aquele poderia ser o carro que chamou a atenção de Diefenbaker. Ela recebeu uma ordem irrecusável:

- Para dentro.

- Não, eu... Por favor - Linda sentia um pesadelo voltando - Por favor, senhor, eu imploro.

- Só entre, moça - Ele agarrou o braço dela com firmeza, não violência - Se entrar, não precisa ter medo.

Trêmula, Linda foi posta dentro do carro, e agora estava cercada por três desconhecidos que a estavam levando num Mercury de cor escura, sem que ela pudesse evitar. Eles sequer se incomodaram em colocar qualquer tipo de venda nela. A situação não parecia nada boa, e ela tremia tanto que não conseguia nem se segurar no carro, que corria rumo oeste. Linda tinha um milhão de perguntas, mas estava mais ocupada tentando não entrar em pânico. Além disso, não confiava que se pudesse falar, não iria revelar o quanto estava apavorada. Ninguém falou uma palavra.

Não pode se desesperar , Linda dizia a si mesma com firmeza. Procure pensar, Linda, aja com calma.

Linta procurou pensar em uma maneira de escapar. Não encontrou nenhuma. A próxima coisa em que pensou foi que não demorariam a perceber que estava sumida. Isso sim poderia dar certo. Quando Frannie percebesse que ela e Dief tinham sumido, ou quando Dief aparecesse sozinho...

Mas aí já podia ser tarde demais para Linda.

* * *

Era uma parte escura da cidade, e até o dia começava a ficar escuro, como que acompanhando os acontecimentos ao redor de Linda. Os dois homens levaram Linda para dentro de um prédio comercial, antigo e sujo. Deixaram o carro na garagem do prédio. Sempre em silêncio. No andar térreo, um dos homens a fez parar, e o outro entrou numa sala. Ela esperou no corredor, evitando olhar para o homem que estava ao seu lado, coração batendo com tanta força que ela pensou que fosse desmaiar.

A porta então se abriu e Linda sentiu o cutucão nas costas, o sinal para que entrasse na sala. No minuto que entrara, os dois homens foram para fora, fechando a porta atrás deles. Linda olhou para frente. Era um escritório comum. E ela não estava sozinha ali dentro.

- Olá, Linda. Não tenha medo.

Foi o mesmo que dizer o contrário.

Linda teve um choque muito grande ao reconhecer o homem à frente dela. Tentou colocar a maior distância possível entre ela e o homem, indo para trás. Ela pensou que o homem fosse amigo. Ele tinha dito que era um amigo.

- Eu lembro... Sei quem é você... Seu nome é Kowalski.

- Que bom que você se lembra de mim - Kowalski sorria, e Linda tremia - Eu não vou machucar você, Linda. Na verdade, eu a trouxe aqui para ajudá-la. Não precisa ter medo

Linda estava quase chorando ao homem louro de olhos azuis e voz engraçada, e gritou:

- Não...! Você mentiu! Fique longe de mim!

De repente, o homem não parecia mais tão sorridente e agarrou o braço dela:

- Não fale alto. Não sabe o quanto eu me arrisquei trazendo você aqui. Agora me escute - Intimidada, ainda mais trêmula, Linda se calou, olhos arregalados de medo daquele homem - Eu ajudei a trazer Vecchio, não foi? Precisa confiar em mim.

Quase sem ar, ela conseguiu indagar:

- Por que... me trouxe aqui... dessa forma?

Ele a soltou, explicando:

- Precisava de um disfarce. Esses caras não sabem o que eu sou de verdade. Acham que você é uma antiga namorada, portanto aja como uma.

Linda ainda não consegui confiar totalmente nele:

- Mas... o quê...?

Kowalski chegou mais perto de Linda. Como ela já estava contra a parede, ela não tinha como se afastar dele mais do que já estava. O homem louro disse, a voz mais gentil e mais baixa, para que ninguém o ouvisse além de Linda:

- Deixe-me explicar. Estou trabalhando disfarçado, e descobri muita coisa. Assim como ajudei Vecchio, acho que posso fazer algo por Fraser. Acho que você precisa saber disso, mas eu não tenho muito tempo - Aqui - Ele pegou um potinho do bolso - Coloque isso no rosto, perto dos olhos.

- O que é isso?

- Maquiagem. Sabe, eu disse a eles que você era uma namorada que precisava de uma lição.

De repente, sem aviso algum, ele pegou uma cadeira e a estilhaçou contra a parede com força. Linda gritou de susto, e Kowalski também berrou, alto para que os homens no corredor o ouvissem. Linda estava com tanto medo que tremia ainda mais, lágrimas escorrendo.

Kowalski fez uma pequena pausa na destruição para dizer a ela, sempre cochichando:

- Não temos muito tempo agora. Quero que escute com cuidado e se lembre. Só o que posso dizer é isso: lembra que Fraser gosta de pescar, não? - Linda assentiu, chorando, olhando-o com medo puro. - Bom, Vecchio era a isca. Lembre-se disso. Diga para alguém no distrito. Não se deixe enganar.

Então ele chutou a porta, gritando de novo, e Linda tentou fechar os ouvidos para não escutar, mas usou as mãos trêmulas para esfregar maquiagem escura perto dos olhos e também na testa. Assim, ela ficou com a aparência de quem tinha levado uns socos. Depois ela simplesmente escorreu pela parede como tinta rala, para então agarrar as pernas e apertá-las contra si, o medo maior do que podia se lembrar. Achou melhor não prestar muita atenção no mundo, ela estava quase decidida a não mais ver o mundo, mas se fechar em si mesma. Só esperava reter o recado e poder passá-lo para os policiais do 27o distrito.

Kowalski notou que ela estava apavorada demais para ser útil naquele momento. Pela primeira vez, ele pensou que podia ter cometido um erro. Um erro grave. A moça não estava preparada para aquilo.

- Merda - falou, baixinho - Eu vou tirá-la daqui.

Ele abriu a porta com violência, e gritou algo, mas Linda não estava prestando atenção, encolhida. Ela sentiu que alguém a erguia do chão, depois foi levada de volta para o Mercury escuro. Ela foi posta no assento da frente, e se viu de volta às ruas de Chicago na noite fechada, quando se deu conta de que desta vez só estavam ela e Kowalski no carro.

- Olha, Linda, desculpe - Ele disse - Eu não percebi... Não sabia... Eu lamento muito. Por favor tente se lembrar do que eu disse, tá? Pode ajudar na investigação.

Linda ficou em silêncio, já sem chorar e decidiu não olhar para o homem. Ela ainda não tinha certeza de que podia confiar nele. Ao lado dela, Kowalski xingava-se mentalmente pelo que tinha feito. Só queria ajudar, mas tinha aterrorizado a garota. E tudo por quê? Por uma meia-informação, uma coisa que estava camuflada num código que Vecchio e talvez outros dois detetives no distrito inteiro poderiam decifrar. Havia outros meios de passar a informação sem deixar a menina tão confusa, como ele tinha feito.

- Olha, Linda, eu vou levá-la o mais perto que puder do distrito, tá bom? Você deve ir para lá e dizer a eles o que eu lhe disse. Por favor, é importante.

Linda só assentiu, incapaz de dizer qualquer coisa. Ela só estava se concentrando em ter esperanças de que o pesadelo realmente iria acabar, que ele não estava fazendo uma brincadeira cruel com ela e que depois a levaria de volta a uma prisão qualquer.

Finalmente, Kowalski parou o carro perto de uma esquina e disse:

- Só posso vir até aqui sem me comprometer, Linda. Pode ir agora.

Ela abriu a porta e disse, muito baixinho, muito aliviada:

- Obrigada.

- Linda, me desculpe. Eu nunca quis assustá-la, nem magoá-la. Acredite.

Ela finalmente olhou para ele e quis saber:

- É mesmo amigo de Ben?

Os olhos azuis deles parecia brilhar na noite:

- Sim, eu lhe disse a verdade. Acredite em mim.

Linda assentiu e depois disse:

- Então obrigada de novo. Pela sua ajuda. Para Ben e para Ray. Desculpe se o assustei. Fiquei com medo.

Então Linda saiu do carro e andou pelas ruas de Chicago, em meio à chuva fina, sem olhar para trás nem esperar resposta. Linda estava tão confusa que tudo que ela podia pensar era em fugir de tudo. Ela sequer olhou a noite à sua volta. Ela andou meia hora na chuvinha e então se viu pingando em frente à porta de um conhecido distrito policial. Sentiu um calafrio na pele gelada sob as roupas molhadas. Ela entrou no distrito, e causou uma grande comoção:

- Linda! - O grito foi da policial Elaine Besbriss - Oh, meu Deus, Linda, você está bem?

Ela foi polida com a policial:

- Oi, Elaine.

- Meu Deus, Linda, você está gelada - Elaine colocou as mãos nos ombros de Linda e disse: - Eu vou pegar um cobertor lá na carceragem. Espere aqui.

Antes que Linda pudesse evitar de pingar no chão do distrito, Elaine já tinha ido. Do seu escritório, o tenente Welsh disparou para o salão dos detetives, parecendo preocupado.

- Linda, Santo Deus, tudo bem? Você está ferida!

Ela ergueu a cabeça para encará-lo.

- É só m-maquiagem, s-senhor. - Tentou sorrir e então se deu conta de que tremia, a voz gaguejava - Também estou m-meio gelada, senhor. Elaine f-foi p-pegar um co-cobertor.

- Venha para o meu escritório. Está mais quente lá dentro - Ele colocou os braços em volta dela ao levá-la ao seu escritório - Disseram que tinha desaparecido. Que tinha sido levada.

Linda disse, sentindo mais frio de repente:

- J-já aca-cabou, senhor.

O escritório de Welsh era mesmo mais quente. Ao menos era o que parecia a Linda, que se sentia mais e mais gelada. Ela se sentou, tremendo, no pequeno sofá. O tenente grandão gritou para o salão:

- Hernandez, mande Vecchio aqui imediatamente - Ele se virou para Linda - Ele está lá fora procurando por você.

Elaine entrou nesse momento, com um cobertor grande, e o colocou nos ombros de Linda, ao mesmo tempo trazendo também uma xícara de café e uma caixa de lenços de papel para a moça. Linda tremia, e respirava com dificuldade pelos calafrios.

- Eu estou bem. Ao menos estou agora... Mas fiquei confusa... Muito confusa... Ele disse que... era... o único jeito...E eu nem... o conhecia direito, mas aí.... Ele disse que podia ajudar....

O tenente olhou para Elaine e a policial gesticulou que não tinha a mínima idéia sobre o que Linda estava falando. Welsh sentou-se ao lado da moça confusa, colocou a xícara de café nas mãos dela e disse:

- Aqui, Linda, beba isso. Vai fazer bem...

- Sim, senhor. Obrigada, senhor. Acho que... fiquei cansada.

- Linda, sabe quem fez isso com você?

- Sim, senhor - ela respondeu - Foi aquele homem. O senhor o conhece. O nome dele é Kowalski.

- Kowalski? Mas porque ele faria algo assim, em primeiro lugar?

- Ele disse que era o único jeito, senhor - respondeu Linda - Ele disse que queria ajudar. Mas... ele me assustou... Então... ele me trouxe... para o final da rua... Algumas quadras... lá embaixo.

Welsh estava perplexo e Elaine também. Mas antes mesmo que qualquer um deles conseguisse fazer qualquer outra pergunta, Ray entrava correndo na delegacia. O movimento chamou a atenção de Linda, e ele a localizou na sala do tenente, para gritar:

- Linda!

- Ray!

O italiano invadiu o escritório de Welsh e a abraçou ferozmente, cheio de alívio e alegria, deixando que ela molhasse o seu terno. Linda fez um esforço muito grande para não chorar, mas não conseguiu. Estava muito alegre, e tudo o que ela conseguiu dizer, entre lágrimas, foi:

- Estou bem, Ray. Não estou ferida.

Welsh apontou para o rosto roxo de Linda e disse:

- Ela disse que Kowalski foi o responsável por isso. Resolva essa confusão, está bem? Vou pegar um café.

- Sim, chefe. Obrigada - Então ele ergueu a cabeça, ainda agarrado a Linda, e pediu: - Elaine, podia ligar lá para casa? Eles querem notícias.

- Claro, Ray, sem problemas.

Então o tenente saiu de sua própria sala, Elaine logo na sua cola. Ray sentou-se no sofazinho de Welsh e tomou as duas mãos de Linda nas suas, dizendo:

- Estávamos mortos de preocupação com você. Frannie viu você dentro de um carro e tentou segui-la.

- Eu estou bem, Ray. E o Dief?

- Apareceu logo depois, tentando pegar sua pista. A chuva apagou tudo.

Ela se jogou nos braços dele de novo:

- Estou bem... De verdade... Mas eu...estou... meio... assustada... Medo, Ray... Fiquei com medo...

Ray a abraçou de novo e deixou que ela tremesse em seus braços, as roupas encharcadas molhando as suas. O coração do italiano parecia finalmente ter encontrado um pouco de paz. Ele tinha passado pelo menos duas horas nas ruas, tentando descobrir para onde ela tinha sido levada, pensando no pior. Quando Linda finalmente ergueu a cabeça e assoou o nariz num dos lencinhos de papel trazidos por Elaine, Ray se sentiu mais confiante em perguntar:

- Está melhor agora?

- Sim, Ray - Ela fungou - Obrigada. Desculpe...

- Não tem problema - Ele beijou-lhe a testa - Podemos conversar agora?

- Tá.

- Primeiro me diga como foi que eles conseguiram pegar você com Dief por perto.

- Dief foi usado como isca. Alguma coisa chamou a atenção dele, ele correu, eu fui atrás dele, depois fui forçada a entrar num carro. Eles me levaram para algum lugar muito afastado. Lá encontrei Kowalski.

- Então você o conhecia antes de hoje?

- Sim, Ray - Ela assentiu - Ele tentou ajudar a encontrar você.

Aquilo era algo que ninguém tinha dito a Ray:

- Mesmo?

- Foi, sim. Ele veio aqui no distrito, um dia, tarde da noite. Disse que era amigo de Benny. Mas hoje... ele estava com aqueles homens...

- Ele estava com aqueles caras?

- Parecia ser até o chefe deles. Mas ele me disse que eles não sabiam quem ele era. Ele estava trabalhando disfarçado. Eu fiquei confusa, Ray...

- Por quê?

- É que... eu não sabia se podia confiar nele, Ray. Primeiro ele me disse que era amigo de Benny. Mas depois... ele mandou... aqueles homens... atrás de mim...

Ray fechou os olhos, revivendo nitidamente os tempos de seu trabalho disfarçado. Armando "The Bookman" Langostini tinha sido permanentemente exorcizado, mas Ray Vecchio ainda tinha pesadelos sobre aquela época.

- E depois o que ele fez, Linda?

- Ele mentiu para eles. Disse que eu era... uma antiga namorada...E que eu precisava... de uma lição - Ela fungou de novo, lembrando-se do medo - Ele fingiu que ... batia em mim...

Ray sentiu o pouco cabelo que tinha na base da nuca ficar de pé quando ouviu aquilo. Com cuidado, ele perguntou:

- Ele bateu em você, Linda? Kowalski bateu em você?

- Não - Ela disse, quase escandalizada - Não, Ray, ele não me bateu...Mas... eu fiquei com tanto medo... que ele pudesse... Ele gritava... Depois ele... me deu maquiagem... para parecer que... eu tinha sido espancada...

Ray reprimiu um suspiro de alívio e indagou:

- Por que ele fez isso? Quero dizer, por que ele fez os homens acreditarem nisso?

Linda enxugou algumas lágrimas e respondeu:

- Ele estava tentando enganar aqueles homens. Ele disse que queria falar com comigo sobre Ben.

- Benny? - Ray arregalou os olhos - Mas por quê? Ele sabe alguma coisa sobre Benny?

- Foi o que ele me disse, Ray, mas eu não entendo. Ele disse algo sobre a pescaria de Benny.

- Pescaria?

Linda olhou dentro do par de olhos verdes que a encarava e respondeu, frustrada:

- Foi isso que ele disse. Ele disse que Benny gosta de pescar e que você tinha sido a isca. Ele disse que era importante, Ray, por isso ele tinha armado tudo aquilo para me dizer isso. E eu não entendi.

Ray ficou quieto, encarando Linda. Ela sabia, pelo olhar na cara dele e pelo brilho nos olhos, que ele estava pensando. Ela achou melhor também ficar quieta. Então ele falou:

- Bom, agora não importa, Linda. Já passou. Vou ver se alguém leva você para casa. Precisa trocar de roupa o mais rápido que puder, senão vai ficar doente.

Ela se agarrou ao cobertor:

- Você não vem para casa, Ray?

- Preciso ver umas coisas aqui ainda. Mais tarde eu vou. Agora mesmo provavelmente Ma está esperando por você, fazendo uma sopa de galinha milagrosa. Se você a deixar esperando, sabe que ela vai se chatear, não sabe?

- Sei, Ray. - A moça o abraçou de novo - Obrigada.

- Eu ainda não sei, Linda, mas pode ser que estejamos devendo agradecimentos a Kowalski, também.

Linda não entendeu aquilo, mas ela estava cansada demais para argumentar, então ela só se enrolou ainda mais no cobertor e esperou pela carona que a levaria aos Vecchios. Tudo o que ela queria era esquecer aquele dia horrível.

Pena que era tarde demais para tomar o tal milk shake do Del...

* * *

Não era incomum que Ray Vecchio tivesse problemas para dormir, mas desta vez não era exatamente uma questão de insônia. O ruído suave do quarto de hóspedes não era suficiente para acordar ninguém, mas como ele estava decidido a ficar de olho em Linda 24 horas, foi logo alertado.

Ray saiu pé ante pé no escuro e alcançou o quarto, cuja porta jamais estava fechada. Ele e sua mãe tinham decidido manter a porta sempre aberta e a chave escondida, para Linda não poder se trancar lá dentro. Apesar das palavras de tranqüilidade do Dr. Lennyard, eles acharam que todos ficariam mais tranqüilos se tivessem total certeza de que Linda não poderia se ferir.

Quando Ray entrou no quarto, Linda estava sentada perto da janela, pernas abraçadas, os joelhos perto do peito, Dief ao seu lado. Ela chorava no maior silêncio, olhos fechados, os soluços abafados. Os ombros balançavam violentamente pela força de seu pranto. Ainda assim, ela mal produzia qualquer som. Ray sentiu o coração quebrar-se ao ver não só o quanto ela sofria, mas também que alguém pudesse estar em tanta dor tão perto dele e não fazer o menor ruído. Ele nem sabia que isso era possível.

Ela não tinha notado sua entrada, mas ouviu os passos de Ray quando ele atravessou o quarto para ir até ela. Linda ergueu o rosto, olhos verdes encontraram olhos verdes. Ray andou devagar e sentou-se ao lado dela, olhos sempre acompanhando. Ela deu de ombros e numa fração de voz, miou, explicando:

- Sinto tanta falta dele...

Ray chegou a sentir uma dor física no peito de tanta dor que sentia por Linda, e envolveu seus braços em torno dela. A moça sentiu o calor dele e não pôde evitar o choro que se seguiu à simples oferta de um ombro amigo. Ela chorou, chorou e tremeu nos braços de Ray, o corpo dela ainda fraco. Ray não pôde evitar que algumas lágrimas escapassem de seus próprios olhos. Linda sentia como se ela pudesse lavar a dor com as lágrimas, tentando curar a imensa ferida que tinha ficado no lugar de seu coração desde que Fraser a abandonara. Parecia a ela que isso nunca ia terminar.

Logo ela ficou cansada e ainda mais desanimada. Ela não largou de Ray, mas os soluços pareceram ser mais espaçados, as lágrimas menos intensas. Ela ergueu os olhos e tentou dizer:

- Oh, Ray... Desculpe... Seus pijamas estão molhados...

- Tudo bem. Não se incomode.

- Desculpe.

- Linda, você deveria estar dormindo.

- Não pude, Ray - Ela quase engasgou - Eu... sinto saudade...

- Eu sei, querida. Eu também sinto saudades dele. Quer falar?

Ela abaixou a cabeça:

- Eu não tenho certeza, Ray... Se eu falo, parece que... fica pior.

- Pior? Acha mesmo? - Ray perguntou gentilmente - Eu sei que dói muito. Acredite, Linda, eu sei.

- Eu não sei como fazer para melhorar, Ray...

- Por que não pensa só nos bons tempos? Nos momentos felizes?

- Só serve para me lembrar que não vai mais ter bons tempos, Ray. Nunca mais.

- Não pode fazer isso com você mesma, Linda - Ray se sentia arrasado - Precisa lutar contra isso, e eu estou aqui para ajudar. Acredite nisso.

- Eu não entendo, Ray. Por que ele falou daqueles planos? E também tinha o - Ela se interrompeu, os olhos arregalando, a pele ficando ainda mais pálida, mesmo que Ray achasse isso impossível - Oh, não.. Ray, socorro...

- O que foi, Linda?

- Eu esqueci, Ray - Ela tremia ainda mais - Oh, não!... Eu esqueci... O médico... Preciso ver um médico...

- Linda, fique calma. Por que precisa de um médico?

Ela começou a ficar agitada:

- O bebê. Ray, eu posso estar grávida. Fiz exames, mas os resultados... Não me lembro, mas preciso saber, Ray. E não sei o que fazer, eu...

- Linda, Linda -Ray tentou interrompê-la, chamar-lhe a atenção - Linda, está tudo bem. Não precisa se preocupar.

- Mas Ray...

- O Dr. Lennyard nos deu os resultados dos seus exames. Você não está grávida.

Ela parou para olhar dentro dos olhos dele com preocupação, a luz da rua no rosto de Ray, e confundiu-se:

- Como?

- Os testes foram todos negativos. Você não está grávida.

- Não?

- Não. Ele disse que tudo que você tem é um desequilíbrio hormonal, algo que pode ser corrigido com remédios. Você vai ficar ótima.

- Ah. Então eu não vou... ser mamãe, acho.

- Agora não, pelo menos. Vai ter muito tempo mais tarde.

- Eu não sei nada sobre isso, Ray - Linda não pôde encarar o amigo - Eu nunca... pensei em ter um filho que não fosse de Benny.

- Pensou em se casar com ele?

Linda quase sorriu:

- Nós falamos sobre isso. Lembro que... uma vez... Ele disse que poderíamos ir morar no Canadá. Com ou sem um bebê... Ele disse - Ela começou a chorar de novo - Disse que... iríamos envelhecer juntos...

Ray a apertou mais contra si, e ela tentou com muito esforço não chorar mais, mas algumas lágrimas insistiram em escapar, mesmo com os olhos fechados. Ela disse, sem poder erguer a cabeça:

- Eu fui uma boba, Ray... Acho que ainda acredito em tudo que ele me disse... Não posso acreditar... no que está acontecendo... Às vezes acho que isso tudo é um pesadelo... Queria que fosse...

- Linda, isso não é para sempre. Dói agora, e vai doer um pouco mais de tempo. Mas isso não vai ser sempre assim. Um dia vai doer menos, você vai ver. Precisa acreditar nisso. Confie em mim, querida.

Linda olhou para ele, devotada:

- Eu confio em você, Ray. Sou muito grata a você.

- Não precisa, Linda. Somos amigos. E agora precisamos fazer com que você durma um pouco, está bem?

Um ganido baixo veio do lado e Ray riu:

- Viu? Até a bola de pelos concorda comigo.

- Eu também sou muito grata a você, Diefenbaker.

O animal colocou o focinho no joelho de Linda, e ela acariciou o pelo branco macio. Ray disse:

- O remédio que você está tomando deveria estar ajudando no seu sono também. Por que não funcionou? Acho que vou ligar para o Dr. Lennyard. Ele pode mudar o remédio mais uma vez.

Linda fungou antes de responder:

- É que leva algum tempo para começar a fazer efeito, Ray. No mínimo uma semana, e eu só tomei umas poucas pílulas até agora. - Ray olhou para ela, intrigado, e a moça deu de ombros, constrangida - Eu tomei remédios assim minha vida toda, Ray. Eu sei como eles funcionam.

Ele sorriu:

- Você é muito esperta, sabia? Agora vamos ver se dorme um pouco.

- Tá.

Ray ajudou-a a ir para a cama, os músculos dela doendo de tanto tempo encolhida. Ele a colocou na cama e a cobriu com carinho. Quando ela estava bem acomodada, ele indagou, tirando o cabelo da testa dela:

-Você vai tentar dormir?

- Sim, Ray, eu vou.

- Quer que eu fique aqui até conseguir?

- Não precisa, Ray. Vai dormir. Você vai trabalhar amanhã, não vai?

- Isso mesmo. Agora tenha uma boa noite. Dief vai tomar conta de você daqui para frente, não é, Dief?

O lobo deu um pequeno "woof"e Linda sorriu para ele. Então Ray se inclinou para beijar a testa dela, a cruz de ouro que levava no pescoço batendo no nariz dela.

- Boa noite, querida.

- Boa noite, Ray.

* * *

Levou algum tempo até que a Sra. Vecchio notasse que Linda ficava muito ansiosa no final do dia. Primeiro ela imaginou que fosse o remédio, mas em seguida a italiana esperta viu qual era o problema real. Linda estava esperando Ray chegar do trabalho. Quando ele se atrasava por algum motivo, Linda ficava agitada e tentava esconder isso de todos. Muito discretamente, Linda então perguntava à Sra. Vecchio se Ray estava a caminho, ou por que ele estava atrasado, ou o que o fazia se atrasar.

- Eu não sei, filhinha - sorriu a Sra. Vecchio aquela noite, enquanto as duas preparavam o jantar na cozinha, a voz cuidadosamente preparada para soar como se nada houvesse acontecido - Mas não precisa se preocupar. Ele é um policial, você sabe que ele trabalha muito.

- Sim, eu sei. Mas ele vai voltar hoje?

- Claro. Não quer ligar para ele? Ele vai gostar de ouvir sua voz.

- Não, eu não quero atrapalhar Ray no seu trabalho. Eu só... - Linda enrubesceu, depois balançou a cabeça. - Não, é bobagem minha.

- O que, bambina? - incentivou a mãe de Ray - Pode me dizer.

- É que... às vezes.. eu tenho tanto medo, Ma.

- Medo? De Ray se ferir, é isso?

- Não - Linda parecia mesmo muito magoada - Medo de que ele também não volte nunca mais.

Os olhos de Linda brilhavam de tantas lágrimas, e Mamma largou os vegetais que cortava para abraçá-la com carinho. A moça estava tremendo.

- Não, bambina. Não tenha medo. Raymondo jamais faria uma coisa dessas.

Fraser também não. Mas ele fez.

Linda não conseguia aceitar isso.

O incidente todo terminou quando Linda subiu correndo as escadas e se jogou no cama do seu quarto, chorando até cair no sono de tão cansada. A Sra. Vecchio suspirou em desespero, olhando o sono intranqüilo de sua filha adotada.

* * *

Ray Vecchio chegou em casa mais tarde aquela noite, se sentindo um pouco mais feliz do que de costume. Verdade seja dita, ultimamente os colegas de trabalho o evitavam como se ele tivesse a peste ou alguma outra grave doença contagiosa, de tão mal-humorado que ele tinha se tornado desde que o polícia montada sumira. Mas aquele dia era diferente.

Desde o minuto em que ele pôs o pé dentro de casa, pôde sentir a tensão engrossando o ar. As crianças de Maria estava terminando de jantar sozinhas, mesmo que Linda adorasse dar de comer a eles. Ele beijou os sobrinhos e sobrinhas, perguntando pela Tia Linda. As crianças responderam que ela tinha ido dormir cedo. Ele ficou intrigado.

A mãe dele desceu as escadas, e Ray observou que ela estava com os olhos vermelhos. Estivera chorando. O coração dele se apertou.

- Mãe?

- Oh, Raymondo, graças a São Genaro que você está em casa, filho.

Ela o beijou nas bochechas, realmente aliviada em vê-lo. Ele sentiu a apreensão dela e indagou:

- Ma, o que houve?

- É Linda, caro. Eu não sei mais o que fazer. Pobre bambina...!

- Onde ela está?

- No quarto. Ela está muito triste. Muito, muito triste. Poverina.

Ai, droga.

- Aconteceu alguma coisa, Ma?

- Raymondo, hoje ela me disse que tinha medo que você também nunca mais voltasse. Ela estava com muito medo, caro. Parecia tão triste, a pobrezinha.

Ai, droga.

- Eu vou falar com ela.

Ele correu escada acima e bateu suavemente no quarto antes de abrir a porta suavemente. Linda estava sentada na cama, Diefenbaker deitado em cima do colo dela. Ela não olhou para Ray.

- Olá, Linda.

Ela não ergueu a cabeça e continuou a acariciar o lobo, dizendo muito baixinho:

- Oi, Ray.

- Mamãe me disse que você não estava se sentindo muito bem. Posso fazer alguma coisa?

- Ray...

- Sim?

Linda inspirou fundo, e tentou de novo:

- Ray... Acho que... preciso de uma coisa...

- Qualquer coisa, Linda. Pode dizer o que você precisa, e eu vou buscar para você. Não interessa se é legal ou perigosa, você sabe que eu vou conseguir qualquer coisa que você precise.

- Obrigada, Ray.

- É para isso que servem os amigos. Sabe do que é que precisa?

Ela estava chorando de novo:

- Acho que... preciso voltar... para a instituição.

- Como é? - Ray sentiu o coração querendo pular para fora do peito, tamanho o susto - Linda, o que está dizendo?

- Por favor, Ray, me leve de volta para o hospício. Por favor.

Havia algo muito errado ali. Para começar, Linda jamais pediria isso. Voltar à instituição onde ela tinha crescido era o maior de todos os medos dela, e era um sinal terrível que ela estivesse pedindo aquilo. E ela também jamais usaria a palavra hospício. Ray inspirou fundo e indagou, a voz calma e doce:

- Mas por que está me pedindo isso, Linda? Não gosta daqui? Só não me diga que está dando trabalho ou incomodando, porque não é verdade.

- Não é isso, Ray... é - Ela não pôde continuar, as lágrimas caíam sobre o pêlo de Diefenbaker.

- Linda, eu não vou fazer nada até me dizer direitinho o que está acontecendo e por que está me pedindo isso.

Por mais alguns segundos, Linda soluçou baixinho, deixando mais lágrimas caírem sobre o lobo, a quem ela não parava de acariciar. Ela ainda não tinha encarado Ray, nem erguido a cabeça. Simplesmente não conseguia. Depois, ela conseguiu dizer, aos prontos:

- Ben não vai voltar, Ray... Não posso mais agüentar....viver sem ele... Eu sou muito grata por tudo que está fazendo... Sua mãe... Todo mundo... Eu... agradeço muito...Mas não vê que é inútil? Mais cedo ou mais tarde eu vou voltar para lá, Ray... Eu sei que sim... Minha vida inteira vai ser assim... Sem ele... E minha vida acabou desde que ele se foi... Não posso mais...

- Não diga isso, Linda - Ray tentava bravamente conter as lágrimas. Ele nunca tinha visto Linda tão triste antes. - Por favor, Linda, não diga isso.

- É tudo minha culpa, Ray - Ela continuou, as lágrimas derramando - Ben deixou isso muito claro. Eu o magoei, e eu... não sou... Eu não sirvo para viver no mundo fora, Ray... Eu pertenço àquele lugar... Gente feito eu deve ir para lá e ficar lá... Ben tinha razão... Todo esse tempo, eu pensei que pudesse fazê-lo feliz... Eu queria tanto isso... Mas eu estava errada, agora vejo que tenho que voltar, Ray... Por favor...

- Linda, por favor...

Linda não ouviu a voz de Ray e continuou, agora mais calma - perigosamente conformada com as terríveis palavras que pronunciava a um Ray aterrorizado:

- Se você tiver alguma vontade de ir me ver lá, eu ficaria muito feliz, Ray. É meu único amigo, e tenho muito orgulho disso. Mais cedo ou mais tarde, eu sei, você não vai mais aparecer, mas tudo bem, porque você tem sua vida também. Mas a minha vida é lá, Ray... E eu só confio em você para tomar conta de Diefenbaker...

- Não, Linda, não, não!! - Ray ergueu a voz, irado, e Linda encolheu-se de medo, Dief começou até a rosnar para protegê-la. Ray se controlou com esforço. - Desculpe ter gritado, Linda. Não queria assustá-la. Mas está totalmente errada por pensar essas coisas, por favor, me escute.

Ela ainda não o olhou para ele, e disse:

- Viu, eu o irritei. Como pode dizer que estou errada? É só o que eu faço. Coisas erradas.

- Vai me escutar?

- Claro, Ray.

- Então preste atenção, tá bom? Eu tenho novidades, e quando eu disser quais são, vai ver que está totalmente errada. Primeiro, deixe eu explicar que eu não tinha muita certeza do que estava acontecendo, então eu não quis lhe dar falsas esperanças. Só por isso eu não contei antes. Não é que eu estivesse querendo esconder coisas de você, entende?

Como ele não estava fazendo muito sentido, Linda confessou:

- Não estou muito certa, Ray.

- Tá, então só preste atenção, depois pode me perguntar o que quiser. Tá bom?

- Tá, Ray.

- Tá, olha só - Ele pronunciou as palavras de forma bem devagar e cuidadosa - Eu tenho quase certeza de que Fraser foi forçado a abandonar você.

- Ray, isso não é -

- Escute - ele interrompeu - Só me escute, tá? Eu sei o que ele disse para você, e eu tenho quase certeza de que ele não falava a sério quando disse todas aquelas coisas horríveis. Linda, eu estou investigando isso. Acho que Victoria está por trás de tudo isso.

- Quem?

- Victoria. Benny contou sobre ela, não contou?

- Não tenho certeza. Quem é ela?

Ray suspirou e disse:

- Benny me disse que contaria a você sobre essa mulher. Ela esteve na vida dele, uma coisa terrível. Ele a colocou na cadeia.

- Oh - disse Linda - Sim, ele falou. Agora eu lembro. Mas ele nunca falou o nome dela, só isso. Você... - ela engasgou - Você acha que ele está com ela?

- Sim - Ray disse, e logo explicou - Mas não pelas razões que você pensa, Linda. Ela provavelmente forçou Benny a ir com ela. Ela é mesmo... terrível.

- Ele podia ter se recusado a ir, Ray.

- Linda, você não a conhece. Benny falou para você que ela me fez atirar nele?

- Ele me disse. Você... ainda sente muito por aquilo, não é?

- É, sinto sim. Mas parece que Benny nunca contou a história toda.

A moça se lembrou daquela madrugada na cozinha, na qual os dois se abriram, se confortaram, se acariciaram... Foi quando Fraser tinha falado da mulher que ela agora sabia se chamar Victoria.

- A culpa foi minha. Falar sobre isso parecia machucar tanto Ben que eu pedi que ele parasse. Prometemos nunca mais tocar nesse assunto.

- Bom, você precisa se lembrar que ela armou para nós dois, me fez prender Fraser, atirou em Diefenbaker, e depois eu tive que hipotecar a casa para pagar a fiança de Benny, e ele ia fugir com ela, se eu não tivesse atirado nele. Em resumo, é isso aí. A bala... ainda está lá.

Linda disse em voz suave, colocando a sua mão no braço de Ray:

- Eu sei, Ray. Sei que você ainda se culpa por tudo.

- Então você sabe que ela não é uma boa pessoa. Pois parece que ela encontrou novos parceiros no crime. Aquele assassinato que Benny e eu estávamos investigando levou a uma nova pista sobre um cara já condenado. Então eu soube que alguém dentro da penitenciária poderia estar envolvido também. E estava. O nome era Charles Carver.

Carver! Linda estremeceu ao ouvir o nome. O homem, antes preso por Ray, tinha usado o nome do detetive para atrair Linda. Depois ele a tinha raptado e torturado. Fraser a tinha localizado e ajudou a salvá-la.

Ray viu o terror nos olhos dela, depois pegou a mão da moça e indagou, numa voz suave:

- Tem mais, Linda, tem muito mais. Tem certeza de que quer ouvir?

- Sim - disse ela, o coração acelerado - Por favor, Ray.

- Aparentemente Carver tinha alguns amigos comuns com um outro conhecido nosso, um cavalheiro com o nome de Moreaux - Os olhos de Linda se arregalaram - Esses amigos comuns começaram a aparecer mortos antes que eu pudesse falar com eles.

Linda fechou os olhos, um clarão na memória trazendo a lembrança de quando Moreaux a raptara durante cinco dias, brutalizando-a repetidamente. A voz dela era baixa:

- Ray... Esse Moreaux... é o mesmo...?

- Sim, Linda, ele é o mesmo, sim.

- Por quê, Ray? Por que eles... fizeram aquelas coisas...?

Ray se sentou mais perto dela e não largou de sua mão, tentando controlar a ira que ele estava sentindo há semanas e não podia compartilhar:

- Pelo que pude descobrir nos últimos tempos, seu nome, endereço, horários e suas atividades estavam no caderninho de todo marginal do lado sul e oeste. Alguém estava dando o seu nome para esses caras fazerem de você o que quisessem. O dono daquele bordel clandestino onde você ficou seis semanas confessou na minha cara quando perguntei a ele. Ele me disse também que... qualquer um que usasse você era recompensado.

- Recompensado? Por quem? - Linda estava começando a se apavorar - Quem faria uma coisa dessas?

- Tudo aponta para Victoria. O nome dela apareceu ligado àquela batida que fizemos há uns dois anos. A que eu saí ferido e me levou ao hospital quando nos conhecemos, lembra?

Linda sorriu, pela primeira vez em muito tempo, ao lembrar os tempos felizes de conhecer Ray e Ben.

- Claro que sim.

- Naquela batida, foi preso um parente de Jolly, o antigo parceiro de Victoria. Daí veio a conexão Canadá. Isso e Moreaux, claro, que também é canadense. Deve ter sido aí que você chamou a atenção dela.

- Mas... isso faz muito tempo, Ray, quase dois anos. Isso vem acontecendo... há tanto tempo assim?

- O dono do bordel deu um bom serviço. Disse que ela tem gente seguindo você há muito tempo. As coisas ficaram bem mais fáceis quando Victoria se ligou a um intermediário da máfia, há mais de um ano. Ela provavelmente...também inventou o esquema todo de produzir um pai para você, a fim de batalhar sua custódia, embora o verdadeiro objetivo fosse realmente produzir um bebê e vendê-lo. O preço para um bebê branco e saudável no mercado negro pode ser de milhares de dólares. Ainda mais com os seus olhos, os traços de Benny... O preço pode ser bastante tentador.

Aquilo machucou Linda mais do que qualquer outras das terríveis coisas que Ray dissera antes. O bebê... dela e de Fraser... Perdido... Vendido por alguns milhares de dólares...

Durante alguns momentos, ela não conseguia ouvir nada, e o mundo girou violentamente. A última coisa de que ela se lembra foi seu nariz fazendo contato direto com o pelo alvo de Diefenbaker, e a voz de Ray chamando seu nome, mas ficando cada vez mais e mais distante.

* * *

Linda estava nos braços de Ray quando o mundo parecia ter desacelerado ao seu redor. Ela olhou em volta. Aparentemente, tinha desmaiado por alguns segundos. Os olhos verdes de Ray a encaravam cheios de preocupação, e Dief a cheirava nas orelhas e no pescoço.

- Linda?

- Ray?

- Vou chamar o médico.

- Não precisa. Tudo bem, já passou - Dief pôs-se a lamber o rosto dela, e a voz dela carecia tanto de firmeza quanto de convencimento, e Dief ganiu. Ela insistiu - É verdade, estou bem.

- Pode se sentar?

- Claro - Ela tentou, e parou um pouco para ver se o mundo ainda girava. Não girava - Viu?

- Tá, eu acredito em você. Mas agora é melhor você descer. Mamãe vai ficar preocupada se não for jantar. E tudo o que eu disse... É melhor tentar não pensar muito no que nós conversamos.

Linda segurou o braço dele:

- Ray... tem mais, não tem?

O italiano olhou dentro dos olhos dela e viu que eles exigiam a verdade, não alguma mentira, mesmo que fosse piedosa. Ele suspirou:

- Sim, tem mais. Mas podemos falar amanhã. Também seria bom se isso não vazasse. O caso ainda está aberto, não tem ninguém preso, e podemos assustá-los. Além do mais, está na hora do jantar. Não se deve pensar essas coisas durante o jantar. Ma diz que faz mal à digestão.

Linda choramingou:

- Ray, eu não estou com fome.

- É mesmo? Bom, eu não tenho nada a ver com isso. Tente convencer Ma, veja só o que vai acontecer - Ray se ergueu da cama - Venha, Dief, vamos lá para baixo e deixar essa linda dama retocar a maquiagem...

Linda olhou o lobo e o homem saírem do quarto e suspirou profundamente. Ela ainda estava meio tonta com o que tinha sido informada. Nunca, mesmo em suas fantasias mais loucas, ela poderia ter imaginado metade das coisas que Ray dissera. Ela precisava pensar naquilo com muito cuidado, mas no momento, ela deveria se concentrar em jantar. Mamma Vecchio levava as refeições muito a sério, e Linda não queria deixar Ma triste.

* * *

Ray evitou o assunto no dia seguinte, mas mesmo que não falassem naquilo, Linda sentiu algo mudando dentro de si. Ela esperou até estar sozinha com o detetive e anunciou:

- Eu quero ajudar. - Ray a encarou, e ela acrescentou - Quero ajudar na investigação. Acho que podemos conseguir ajuda. Externa.

- Do que é que você está falando?

- Aquele estranho encontro que eu tive com aquele homem chamado Kowalski, semana passada, agora começa a fazer sentido. Talvez ele possa nos ajudar.

Ray tentou explicar:

- Olhe, Linda, pode ser perigoso para ele. Eu já trabalhei disfarçado, sei dos riscos. Não queremos expô-lo dessa maneira. Além disso, agora o caso se concentra mais em uma localização. Um lugar onde possam estar mantendo Fraser.

- Acha que poderemos achá-lo?

- Vai depender se Fraser quer ser resgatado, Linda - dsse Ray, com sinceridade - Ele pode estar numa situação que não pode sair. Quem sabe o que aquela cobra fez com ele? Ela provavelmente está ameaçando você, e foi por isso que eu trouxe você para minha casa em primeiro lugar. Claro, você não podia saber disso tudo, se não Fraser podia ficar em perigo. E ele ainda pode, portanto, temos que agir como se nada tivesse acontecido.

Linda arregalou os olhos.

- Eu não sabia que a investigação era secreta.

- Parece ser coisa grande, Linda - explicou Ray - Coisa grande geralmente significa negócio alto e muito dinheiro envolvido. Os riscos são astronômicos. Precisamos ter cuidado. É para sua proteção. Nem as pessoas no distrito estão sabendo.

- Acha que ainda estão vigiando a gente?

- Ninguém sabe com certeza, Linda. Mas não estão sendo óbvios. Como eu falei, pode ser que ainda a estejam seguindo, e então podem estar onde menos esperamos.

- Faz mais de três semanas desde que ... - Linda abaixou a cabeça, ainda em choque, sem poder falar - desde que eu vim para cá. Podem ter desistido de me vigiar.

- Talvez, mas podem ter deixado alguns espiões plantados. Eu tenho quase certeza de que alguém ainda vigia a casa. Precisamos tomar muito cuidado, porque não sabemos os riscos para Fraser.

Esse argumento era um que sempre convenceria Linda. Ela se jogou nos braços de Ray de repente, o coração em brasas, e sentou no seu colo:

- Ray, eu... me sinto estranha... Desde que você me contou, me sinto... er... me sinto...como... como...

Ele arriscou:

- Como se quisesse acreditar que tudo vai ficar bem, mas está com medo de acreditar porque se as coisas não funcionarem como você acha que deveriam, então você acha que vai morrer de tanta dor?

Linda arregalou os olhos e olhou para ele:

- Isso mesmo!... Como...? Como sabe?

- Por que é exatamente como eu me sinto também.

Ela achou que o coração iria explodir. Encostou a cabeça nos ombros de Ray, abraçando-o apertando, as lágrimas de gratidão rolando suavemente:

- Estou feliz que esteja aqui, Ray. Agradeço por ser meu amigo. Amo você.

- Eu também, ragazza.

- E o que vamos fazer, Ray?

- Eu tenho uma idéia - Linda ergueu a cabeça para ver olhos de jade brilhando ao olhar para ela - Você e eu podemos ir falar com o Dr. Lennyard, para ele autorizar sua volta ao trabalho. Assim que você começar a se movimentar mais, essas pessoas vão precisar se expor mais, se ainda estiverem com idéias de molestar você. Então poderemos agarrá-las. Claro, isso pode ser mais perigoso para você e o nosso bom doutor pode ter objeções.

- Podemos convencê-lo, Ray.

- Sim, eu acho que podemos. Mas isso vai depender muito de você.

- Eu?

- Precisa provar para o Dr. Lennyard que pode dar conta, Linda. - Ray disse de maneira extremamente séria, totalmente diferente do seu jeito relaxado e calmo - Tem estado muito deprimida, precisando de cuidados. Agora mesmo estava falando em voltar para o hospício. Se continuar com isso, não vai conseguir convencer o médico.

Linda sentiu-se muito envergonhada:

- Desculpe, Ray, mas eu...Sabe, é que eu estava...

Ele a interrompeu gentilmente, pegando as mãos dela entre as mãos longas e elegantes dele:

- O que eu quero saber agora é isso: ainda pensa assim? Ainda quer voltar para a instituição?

- Não, Ray - ela disse, firme - Não se houver qualquer chance de Ben... ficar ao meu lado.

Ray sorriu com gentileza e beijou-lhe a bochecha:

- Vamos fazer essa chance real, Linda. Prometo a você que vou fazer tudo o que eu puder para isso acontecer.

Linda deixou que ele a envolvesse em seus braços, sentindo o amor a cobrir como um cobertor, fazendo-as sentir-se segura e protegida naquele abraço. Mais do que isso, ela sentiu dentro de si que estava confortada pela possibilidade de Ben voltar para ela mais uma vez.

* * *

Estranhamente, convencer o Dr. Lennyard a deixar Linda voltar ao trabalho levou menos tempo do que Ray tinha pensado inicialmente. Independente de qualquer ligação com a investigação do detetive, o psiquiatra já estava pensando em devolver Linda ao seu trabalho como uma forma de terapia capaz de tirá-la da depressão profunda em que se encontrava. Depois que Ray saiu, o médico pediu que Linda ficasse alguns minutinhos para que ele pudesse examinar os sentimentos dela sobre a nova situação. Linda confessou os pensamentos que teve em retornar para a instituição, explicando em seguida que tudo tinha mudado, e admitindo que ela estava apavorada por ter esperanças. Dr. Lennyard considerou que as reações eram perfeitamente compatíveis com as circunstâncias e pareceu satisfeito. Em seguida, Linda foi enviada à Sra. Sorelli, que não só estava feliz por ver a moça, mas também fez questão de encaixá-la no turno da manhã, começando em alguns dias.

Ao sair do hospital, Linda tentou não pensar que alguém poderia estar vigiando-a. Ao invés disso, ela pensou em algo que o Dr. Lennyard tinha mencionado: os sentimentos em relação a Victoria. Linda sequer conhecia a mulher, que tinha sido o primeiro amor de Ben. Linda não podia pensar em Victoria como rival, pois Ben repetidamente dissera que tudo entre eles tinha terminado. Linda sinceramente não sentia ódio, raiva ou ciúme por ela. Mas Linda estava triste e magoada porque havia uma pessoa que sequer a conhecia, mas que queria tanto mal a ela.

Antes que Linda se desse conta do que fazia, ela estava em frente ao seu prédio, o prédio onde ela e Ben moravam. Em movimentos lentos, ela cuidadosamente subiu as escadas, e tentou abrir a porta, o coração querendo saltar do peito. Estava aberta, pois Ray a tinha arrombado para salvá-la da morte certa quando ela estava desnutrida, sozinha e semiconsciente. Ela estremeceu ao lembrar aquilo.

Foi muito difícil para Linda olhar todas as suas coisas e lugares onde ela conhecera tamanha felicidade, agora abandonados e desertos. Tudo estava do mesmo jeito que ela tinha deixado. Lágrimas vieram aos olhos, mas ela arriscou tocar alguns dos objetos, como o sofá onde eles tinham feito amor tão apaixonadamente. Em poucos minutos, ela descobriu que não suportava memórias do sofá e fugiu dele, andando para fora da sala de estar e indo parar no quarto. Linda olhou para a cama, e uma coisa estranha aconteceu: a cabeça dela começou a girar, o peito estava doendo, as têmporas estavam latejando de dor, os joelhos tremiam, e ela cambaleou, tonta, para dentro do armário, antes que os olhos se turvassem.

Não foi muito esperto, concluiu Linda, ao se ver frente a frente com uma túnica de sarja vermelha dolorosamente familiar. Chegando perto dela, ela ainda podia distinguir aromas familiares. O cheiro de Fraser estava impregnado na roupa, Linda podia reconhecer o odor com os olhos fechados, como estavam naquele momento. Ela não conseguiu mais suportar a dor e caiu de joelhos no closet, em prantos, o coração despedaçado.

Durante longos minutos, Linda chorou, soluçou e se desesperou. Alguns longos minutos se passaram antes mesmo que ela parasse de chorar para se dar conta de que a jaqueta tinha ido parar nas suas mãos, e ela tinha passado os braços amorosamente em volta dela como se pudesse fazer isso com o dono. Quando ela foi capaz de respirar novamente, Linda voltou a ficar de pé e pendurou a jaqueta no seu lugar. Na prateleira de cima, havia um Stetson reserva e, num impulso, ela tirou-o de lá, ouvindo algo cair no chão quando ela tinha tirado o chapéu. Repreendendo-se por ser tão desastrada, ela pensou que deveria ser alguma fivela de reserva do cinto Sam Browne.

Agachando-se com cuidado dentro do armário apertado e escuro, Linda notou que era uma pequena caixa, de veludo azul, similar àquelas usadas para guardar medalhas e condecorações militares. Ela sabia que Ben tinha sido condecorado antes, mas não lembrava ter visto aquela caixa azul, e nunca soube que ela estava no closet antes. Hesitante, abriu-a.

Não havia medalha alguma lá dentro. Era um anel de ouro, muito delicado. Linda o tirou da caixa, curiosa, e o colocou na palma da mão. Havia uma inscrição no anel. Ela leu: "Seu para sempre, BF".

Para Linda, era tudo que ela esperava. Uma prova. Uma evidência palpável de que Fraser não tinha planejado abandoná-la, de que ele não tinha sido sincero ao falar todas aquelas coisas horríveis para ela naquela noite no Chandler's, que ele jamais quis mentir para ela, e que ele sempre a amou.

Antes que ela pudesse impedir, ela já tinha posto a pequena caixa no bolso do casaco e corrido. Ela tinha voado para fora do apartamento, depois se despencado escada abaixo e decolado pelas ruas de Chicago numa carreira que nem ela mesma tinha muita certeza do motivo. Os pensamentos dela corriam muito mais do que seu corpo. Quando finalmente seus músculos se cansaram, ela diminuiu o passo, a menos de três quadras da residência dos Vecchio.

Como um foguete, Linda subiu as escadas e entrou em seu quarto, encolheu-se num canto da sala. Diefenbaker estava lá, sempre ao seu lado, e ela abraçou o lobo. O animal a farejou, farejou, e farejou, depois ganiu, sentindo o cheiro de Fraser. Linda sabia que Dief estava tão triste quanto ela, mas dessa vez era uma tristeza diferente. Tinha um gosto estranho de alegria misturado a ela.

- Bambina? - Mamma Vecchio entrou, mas Linda escondeu o rosto dela - Cara, onde está? Que houve?

Linda tentou esconder as lágrimas e dizer:

- Nada. Eu corri até aqui. Estou cansada.

A Sra. Vecchio reconheceu o tom de voz de Linda. Era com aquela voz que Linda se fechava e não dizia nada do que se passava em seu coração. A italiana saiu do quarto por alguns minutos, depois voltou com as mãos cheias.

- Trouxe um suco. Precisa repor as energias se correu tanto. Venha, querida. Não vou aceitar um não como resposta.

Linda reconheceu o tom de voz da Sra. Vecchio. Era com aquela voz que a mãe de Ray sinalizava que não se deixaria enganar. Além do mais, quando ela ameaçava com comida, era porque a coisa era séria. Então, Linda foi para a cama e bebeu o suco. Então Ma Vecchio beijou-lhe a testa e disse:

- Descanse um pouco, bambina. Eu chamo para o jantar, está bem?

- Obrigado, Ma. É a melhor Ma do mundo.

Linda viu o sorriso crescer no rosto da velha italiana antes que ela deixasse o quarto. Linda pensou, pensou, pensou. Diefenbaker subiu na cama também, e os dois terminaram dormindo. Depois a porta se abriu, e Linda acordou assustada.

- Desculpe - disse Ray - Eu não queria assustá-la. Volte a dormir.

- Não, tudo bem. Eu esperava por você - Ela se levantou e tirou a caixinha do bolso do casaco - Eu queria mostrar isso para você.

Ray pegou a caixinha nas mãos, depois tirou o anel e leu a inscrição. Aí toda a cor pareceu ter sido drenada de seu rosto mediterrâneo.

- Oh, meu Deus - ele murmurou - Onde achou isso?

- No armário lá de casa, escondido atrás do Stetson de reserva. Achei por acidente.

- Ai meu pai.

Linda sentiu o coração dela pulando do peito:

- Ray, você sabia alguma coisa sobre isso?

Ray suspirou, fechando os olhos, depois disse - os olhos verdes cheios de tristeza:

- Benny me disse que estava querendo acelerar os procedimentos do casamento. Ele mencionou inclusive um anel específico que queria comprar para o noivado. Era para ser... uma surpresa, Linda.

A menina tinha seus olhos na cor exata de duas grandes esmeraldas quando indagou:

- Ray, isso não é uma... evidência?

O policial ficou perdido:

- Evidência?

- De que ele não queria ir. De que ele foi forçado a ir.

Ray suspirou e quase desistiu de responder, mas sabia que não podia fugir da verdade. Então respondeu, com uma voz gentil:

- Talvez não, Linda. Talvez só indicasse que numa determinada altura, ele pensou em si mesmo como "seu para sempre".

Linda entendeu o que Ray deixou de mencionar: que Ben podia ter mudado de idéia depois disso e tê-la abandonado de livre e espontânea vontade. Como, aliás, Ben tinha deixado bem claro para Linda.

A moça abaixou a cabeça, desanimada, os olhos perderam muito do seu brilho inicial. A voz dela soou fraca e desanimada até para ela mesma:

- Eu entendo, Ray. Perdoe por ter causado tanto desconforto a você.

- Não me magoou, Linda, você só magoou a você mesma. Linda, por que foi ao apartamento?

Ela não tinha resposta para aquilo. Ela só se lembrava de ter chegado lá. Linda manteve a cabeça baixa, incapaz de encarar Ray. As lágrimas rolavam pela face, a dor no peito era muito grande.

Ray suspirou:

- Bom, é melhor falarmos disso depois. Afinal, o jantar já vai sair mesmo. Ma vai querer vê-la lá embaixo, tenho certeza. Então, você tem que ter uma cara mais alegre, Linda. Se vai mesmo voltar ao trabalho, vai precisar lutar contra essa depressão, Linda.

Linda olhou para ele e disse, parecendo muito mais determinada:

- Eu estou fazendo isso por Benny. Eu vou conseguir.

- Não precisa fazer uma coisa que vai magoá-la só porque acha que é o que ele iria querer. Você tem sentimentos, e eu não quero vê-la ainda mais magoada do que já está. - Ele se aproximou dela e disse - Olhe, eu não devia dizer isso, mas... Nós temos um plano alternativo.

- Alternativo?

Ray deu de ombros:

- Se nada acontecer quando você voltar a trabalhar, podemos tentar uma outra coisa para ver se eles se manifestam. Mas é tipo o último recurso, então não fique muito animada.

- O que é, Ray?

Ele chegou perto dela, e disse, em voz bem baixa:

- Podemos fingir que você morreu.

Olhos verdes feito jade se arregalaram até ficarem grandes como pérolas ao olhar os dele. Ray esclareceu:

- Por favor, não diga coisa alguma. Provavelmente não chegaremos a fazer isso, e a mera idéia ainda causa muita... controvérsia, para dizer o mínimo. Welsh não quer nem ouvir falar nisso.

- E como isso seria feito, Ray?

- Espalharíamos o boato de que você... cometeu suicídio.

Linda inspirou fortemente, escandalizada, e mal conseguiu retrucar:

- Ray, eu nunca... Quero dizer, eu jamais...!

Ele se apressou a dizer:

- Sabemos que não, Linda, acredite. Mas as pessoas que estamos perseguindo podem não saber disso e acreditar que você seria capaz de um ato desesperado assim. Poderíamos enganá-las.

Linda se jogou nos braços de Ray:

- Eu nunca faria uma coisa dessas, Ray. Benny jamais me perdoaria.

Ray beijou o topo da cabeça dela com carinho e garantiu:

- Como eu disse, é perda de tempo discutir isso. Provavelmente não será feito. Só que, agora, você vai jantar, tá bom? Portanto, faça o favor de ir colocando um sorriso nesse rosto e ir descendo. Sabe que não pode escapar de Ma.

Linda beijou-lhe a bochecha mais próxima, sentindo-se feliz por dentro. No período de maior dor que podia se lembrar em toda sua vida, ela estava alegre por poder contar com o melhor amigo que ela jamais tinha tido.

* * *

Voltar ao trabalho foi uma das melhores decisões que Linda poderia ter tomado. Não apenas ela entrou rapidamente na velha rotina de trabalho, mas também ela sentiu que seu humor melhorou terrivelmente, a depressão parecendo bem menor, cada vez mais distante. Em tempo recorde, ela estava de volta à faxina de maneira alegre e dedicada. As estrelas de seu dia sempre eram o Centro Cirúrgico e a Unidade de Terapia Intensiva. Era ótimo para ela poder falar com os pacientes comatosos novamente. Parecia que ela tinha muito o que falar a eles.

Além dessa, uma outra rotina nova terminou sendo estabelecida, pois Linda terminou não se mudando da casa dos Vecchio. A decisão de ficar foi da moça. Ela pediu à Sra. Vecchio, que concordou com satisfação e Ray vibrou com a idéia. Ele temia que voltar ao velho apartamento a jogasse na depressão da qual Linda parecia estar saindo. Na verdade, Linda tinha plena consciência de que não tinha condições de voltar ao apartamento. Ela tinha saído de lá fazia um mês (parecia anos, para ela), mas ela ainda se sentia muito vulnerável. Ela ainda pensava em Ben, ainda chorava quando se lembrava do quão feliz tinha sido por quase seis meses. A breve visita que ela fizera lá quando encontrara o anel tinha sido prova suficiente disso. Viver lá sozinha era impensável.

Todos os dias, de manhã, Ray a levava ao hospital, e sempre que podia, ele a pegava ao fim do dia. De vez em quando Linda ia ao 27o distrito e se inteirava da investigação. O aspecto mais irritante de todo o caso era a virtual inexistência de prova de que Fraser estava sendo preso contra a vontade. Não havia evidência física de rapto, só amplos indícios de que alguém tinha estado vigiando Linda durante muito, muito tempo.

Um desses indícios podia ser algo que Ray vinha evitando falar com Linda, mas ela provavelmente iria ajudá-lo muito se soubesse: o envolvimento de Martha naquilo tudo. Cada vez que pensava naquilo, Ray se sentia meio doente. Mas ele teria que confrontar Linda com a verdade mais cedo ou mais tarde.

Então seria mais cedo, aparentemente.

Linda estava ficando muito intrigada com o comportamento de Ray naquele dia. Tudo que ela pedia era para ajudar na investigação, coisa que ela sempre fazia. Dessa vez, ela tinha até conseguido ser dispensada do trabalho mais cedo, e gostaria de passar o tempo extra fazendo exatamente aquilo, ajudando na investigação. Só que desta vez, o detetive usava toda sua tenacidade italiana para insistir que ela não fosse.

- Não, Linda, você não pode ir. Eu posso dar um jeito nisso sozinho.

- Claro que pode fazer sozinho, Ray, é o seu trabalho, e você o faz muito bem. Eu só queria ajudar.

De costas para ela, Ray continuou a guardar arquivos no armário ao lado de sua escrivaninha (coisa que ele nunca fazia) enquanto dizia:

- Entendo, Linda, mas preciso falar com suspeitos. Alguns deles podem ser perigosos. Já discutimos isso antes. Está ficando tarde, a noite está chegando, e você não deveria estar fazendo isso uma hora dessas.

Linda o encarou longamente, e ele evitou olhar para ela, nervoso. Então Linda indagou:

- Ray?

- O quê?

- Está mentindo para mim?

Ray parou de fingir que estava arrumando arquivos e fechou os olhos, com um longo suspiro. Depois ele se virou para ela e assentiu, dizendo:

- Sim, eu estou. É que tem uma coisa que eu não lhe disse. Na verdade, estava evitando dizer. Achei que, como você não tinha voltado para a escola, não saberia. Podia ser poupada de saber.

- Saber o quê?

Ele deu de ombros:

- Martha saiu da cidade assim que Fraser desapareceu.

Linda não entendeu do que Ray falava:

- Eu não sabia disso. E daí?

- Daí que andei fazendo umas perguntas, e agora preciso interrogar a irmã dela, Laurie. Mas muita coisa me faz acreditar que Martha se aproximou de você para poder vigiá-la sem levantar suspeitas.

- Me vigiar? Como assim me vigiar?

- Vigiar, Linda: saber seus passos, os seus horários, o seu relacionamento com Fraser, a sua ameaça de gravidez - enfim, fazer parte da sua vida e não parecer que a está espionando.

- Martha é minha amiga. É isso que amigos fazem. - Linda estava confusa - Martha é minha amiga, Ray!

- Disso eu não tenho certeza.

- Mas... por que ela faria algo assim? - Então, num piscar de olhos, Linda encontrou a resposta para sua própria pergunta - Oh, não... Não, Ray, não pode ser!

Ray parecia deprimido em diversas formas, e sentou-se ao lado de Linda, cujos olhos verdes pediam ajuda:

- Eu temo que sim, Linda. Provavelmente Martha se aproximou de você para informar quem deseja machucar você. Tem também uma chance de que Martha tenha ajudado a me raptarem. Eu devia ter suspeitado antes.

- Ray, ela é minha amiga. Quero dizer, era, eu acho. Vocês estavam até saindo.

- O que provou ser bem conveniente na hora de me raptarem, acredite. Ela deve ter ajudado a armar tudo.

Linda colocou a memória em ação:

- Quando você sumiu, ela disse... que você tinha dado um bolo nela. Vocês tinham marcado de sair e faltou sem avisar nada. Foi assim que soubemos que você tinha sumido. Depois, quando estávamos todos preocupados, ela não quis ver sua família nem foi ao hospital comigo para ver você. Ela disse que não agüentaria, que era muito difícil para ela... Achei que fazia sentido, mas agora... Oh, Ray, eu sinto muito.

Morto de pena, Ray acariciou o rosto de Linda, dizendo:

- Sabia que você iria ficar chateada. Eu também fiquei quando comecei a descobrir isso. Não queria acreditar, sabe? Mas agora preciso encontrá-la, Linda. Ela pode saber onde Fraser está.

- Disse que estava indo falar com Laurie, não é? - Ele assentiu - Pode me levar também? Quero ir junto.

- Por quê?

- Ray, eu preciso. Por favor.

O detetive olhou para a moça, viu o desapontamento explodindo nos olhos verdes. Estava mais do que estampado no rosto de Linda que ela jamais tinha imaginado tamanha traição. Ele suspirou:

- Tá bom, pode vir. Mas eu farei todas as perguntas, eu vou dizer tudo, tá bom? Você vai ficar bem quietinha, promete?

- Prometo, Ray. Não vou falar uma palavra.

- Assim é que vai ser. Venha, vamos embora.

Os dois pegaram o Riv, Dief e foram embora. Como era final da tarde, Laurie ainda estava no seu escritório. Ela recebeu o casal assim que eles saltaram do elevador, e parecia feliz em vê-los.

- Olá, gente. Que surpresa em ver vocês.

- Laurie - cumprimentou Ray - Tem um minuto?

- Claro.

- Estamos procurando Martha.

- Ela saiu da cidade. Pensei que soubessem.

- Sim, sabemos - continuou ele - Na verdade, estamos tentando localizá-la Ela deixou algum endereço?

Laurie sempre se lembrava de Linda como uma pessoa bastante amável e simpática. Naquele momento, porém, a garota estava quieta, evitava olhar para ela e parecia triste. Laurie sentiu algo no ar:

- Não, lamento, Ray. Martha não deixou nenhum endereço comigo. Tem alguma coisa errada?

Ray disse:

- Acho que sabe que tem algo errado, Laurie. É bom saber também que essa visita é oficial da polícia, não social. E agora, podemos conversar?

Algo nos olhos de Laurie pareceu dar-lhe um rosto diferente e muito mais velho, notou Linda. A irmã de Martha olhou para os lados, suspirou e convidou:

- Venham para o meu escritório.

Ela guiou os dois para um dos pequenos aposentos e colocou café nas mãos de Ray antes de dizer:

- Olhem, na verdade, não posso dizer muita coisa, porque estou no escuro. Sei que Martha está com problemas. Ela precisou sair da cidade. Acho que está fugindo, mas não tenho certeza porque ela não me contou nada.

- O que ela disse?

- Quando ela partiu, ela só me disse isso, que tinha que sair da cidade Mas eu sabia que ela estava em apuros muito antes disso. Eu tentei conversar sobre isso com ela várias vezes, mas ela sempre me dizia que era melhor se eu não soubesse o que estava acontecendo. Ela se sentia muito mal. Especialmente por causa da garota.

- Que garota?

- Linda. Ela terminou se afeiçoando a Linda. Sem que ela percebesse, eu a ouvia no telefone, às vezes, quando ela pensava que eu estava fora de casa ou ocupada demais. Ela falava com alguém e sempre insistia que não queria fazer aquilo, que Linda sairia magoada.

Ray anotava as informações cuidadosamente, enquanto perguntava:

- E havia muitos telefonemas assim?

- Bom, como eu disse, Martha procurava escondê-los de mim. Mas eu ouvi muitos, sim. Às vezes eu a ouvia cochichando ao telefone tarde da noite. Depois de um tempo, eu cheguei à conclusão de que ela estava sendo vítima de uma extorsão ou chantagem, ou algo assim. Eu não sei por que nem quem estava fazendo aquilo, eu juro, Ray. Precisa acreditar em mim.

Ray finalmente foi um pouco mais doce com ela:

- Ninguém a está acusando de coisa alguma, Laurie. Só estamos querendo encontrar Martha. Ela pode saber onde Fraser está.

- Oh, meu Deus, Fraser também está em apuros? Eu sinto muito. Espero que Martha esteja bem. Queria tanto poder ajudá-la.

- Estará ajudando, se nos disser tudo o que sabe - insistiu Ray. - Que mais pode dizer?

- Não muito. Ela arrumou suas coisas rapidamente, não disse nem se viria pegar o resto das coisas mais tarde... Só o que ela dizia era que você estava bem, Ray, e agora ela podia se mandar. Ela parecia muito aliviada em saber que você estava bem.

- Laurie, você se lembra de meu encontro com Martha? Da noite em que ela e eu tínhamos ficado de sair?

- Sair?

- Linda me disse que Martha reclamou que eu faltei ao encontro. Tínhamos marcado de sair e eu não apareci. Achei que ela teria comentado alguma coisa com você.

Laurie pareceu surpresa:

- Ela jamais reclamou de coisa alguma para mim. Ela nem me falou desse encontro em particular.

Ray suspirou:

- Então ela nunca esperou que eu fosse aparecer. Ela sabia que iam me pegar.

- Eu não quis acreditar - disse Laurie, e parecia devastada - Mas acho que ela estava envolvida no seu sumiço. Eu sinto muito, gente, sinto mesmo. Sei que provavelmente não acreditam em mim, mas eu acho que Martha não queria fazer nada dessas coisas. - Então ela arregalou os olhos - Oh, meu Deus!

- O que foi?

Laurie parecia excitada:

- Eu me lembrei de algo que agora me parece fazer sentido. Num dos telefonemas, ela mencionou uma gravidez, ou possibilidade de gravidez. Pensei que fosse dela, mas agora acho que ela se referia a Linda.

Os olhos verdes de Linda se arregalaram de medo e surpresa. Ray quis saber:

- O que ela disse?

- Ela disse que a gravidez não era certa, mas parecia ser provável. E que havia uma chance de machucarem Linda para preveni-la de ter o bebê, se ela fosse confirmada. Talvez arranjar um... acidente. Oh, Linda, eu... lamento tanto.

Linda reprimiu um grito e Ray tocou em sua mão para confortá-la. Ao mesmo tempo, ele passou um cartão para Laurie e disse:

- O caso está com a polícia. Fraser está desaparecido, e Linda quase morreu. Você tem razão, Laurie, Martha deve estar em apuros. Então se você puder ajudar a nós e a sua irmã, por favor, ligue para mim.

Ela pegou o cartão e falou, com muita sinceridade:

- Eu ligo, sim. Não se preocupe.

Eles se levantaram e Laurie disse, dessa vez dirigindo-se diretamente à garota que chorava silenciosamente:

- Linda, eu realmente sinto muito. E eu tenho certeza de que Martha também sente. Ela gosta de você.

A moça apertou a mão de Ray e deixou uma lágrima cair pelo rosto, dizendo em voz baixa:

- Obrigada.

Ray levou Linda para fora do escritório e achou melhor dar uma parada num pequeno café perto de Art Institute, na avenida Michigan, a fim de que Linda pudesse se refazer do choque. Ray se sentia usado por Martha, mas Linda certamente estava ainda mais deprimida que ele. Felizmente, ela parecia disposta a falar sobre o assunto.

- Eu confiava nela, Ray, eu até fiz confidências - dizia Linda, mais olhando para o capuccino do que efetivamente tomando-o - Eu falei para ela sobre a gravidez antes mesmo de contar a Ben.

- E vocês nem me falaram. Quando o Dr. Lennyard me falou que os exames mostraram que você não estava grávida, fiquei surpreso de saber que nem tinham me dito.

- Soubemos junto com o seu desaparecimento, Ray - explicou Linda - Não houve tempo. Provavelmente Martha coletou todas essas informações ao mesmo tempo e entregou tudo para Victoria.

- Faz sentido. Victoria pode ter calculado que Benny apressaria o casamento por causa do bebê e então se sentiu pressionada a agir o quanto antes para impedir isso, tanto o bebê quanto o casamento. Ela me usou como instrumento de pressão, forçando Benny a abandonar você.

- Mas tudo isso só foi possível porque Martha a informava de tudo. É difícil aceitar isso, Ray.

- Eu sei, Linda - Ray tinha uma voz amargurada - Teve uma época que até pensei em... ir adiante com ela, sabe. Pensei que poderia levá-la para jantar um dia lá em casa, apresentá-la para mamãe, essas coisas.

Linda viu a cabeça de Ray baixando e o coração dela se derreteu pelo amigo, querendo que ele se sentisse melhor:

- Oh, Ray...

Ele se ergueu e deu de ombros, os olhos verdes brilhando com lágrimas:

- Ah, pronto. Tem coisas que não devem acontecer, não é? - Ele sorriu e apontou um dedo direto no nariz dela alegremente - Mas você e Benny, mocinha, vocês dois precisam acontecer, eu tenho certeza. E eu não vou deixar aquela bruxa separar vocês dois. Ela terá que me matar para conseguir o que pretende.

- Ray, não diga isso! - Linda parecia assustada - Se ela é tão má, ela pode mesmo tentar matar você. Antes não fez isso porque precisava mantê-lo vivo para convencer Ben, mas agora...

- Não se preocupe. Estraguei os planos dela da primeira vez que veio a Chicago, e posso fazer de novo.

Linda estava tentando não chorar:

- Oh, Ray... Acha que vamos conseguir trazê-lo de volta?

Ele brincou:

- Com você ajudando? Claro, é só uma questão de tempo. - Ele sorriu e Linda se sentiu confortada com o gesto. Depois ele ficou sério - Olhe, como a investigação é secreta, não podemos fazer qualquer estardalhaço, mas isso não significa que não tem um monte de gente lá no distrito ajudando. Pode acreditar, Linda. Muita gente lá gosta muito de Benny e de você. Eles sabem também o quanto Benny ama você. Linda, ele ama você. Muito. Acredite nisso.

Ela tentou conter as emoções no seu peito respirando profundamente, como que se nutrindo do amor que via Ray mostrar a nela. Só depois ela finalmente pôde dizer:

- Obrigada, Ray. Muito obrigada.

Ele sorriu e disse:

- Não tem de quê. Mas termine logo esse capuccino senão vamos nos atrasar para o jantar.

* * *

Aquela quinta-feira não parecia ser em nada diferente de qualquer outra quinta-feira para Linda. Ela chegou ao trabalho no seu horário habitual, o Centro Cirúrgico e a Terapia Intensiva apareciam no seu horário do dia, e tudo parecia ser normal e sem imprevistos. O turno dela estava para terminar, quando ela recebeu um recado para aparecer na estação das enfermeiras no terceiro andar. Samantha explicou:

- Tem um telefonema para você.

- Sem recado?

- Não, é o Ray. Ele parecia muito nervoso, e não quis deixar recado. Ele quer falar com você imediatamente e disse que era uma emergência.

Coração acelerado, Linda pegou o telefone com mãos trêmulas:

- Ray?

- Linda! - ele exclamou e Linda notou que a voz dele estava mesmo alterada - Linda, me escute, e escute com atenção. Não tenho muito tempo. Estou agora mesmo no Hospital Público. Benny foi encontrado e ele está ferido.

Linda sentiu os joelhos dela se dobrarem, e as pernas ameaçavam deixar de sustentá-la. A voz dela quase sumiu:

- Meu Deus...Ray...

- Ele está bem! - Prevendo a reação de Linda ao saber que Fraser estava ferido, Ray gritou - Linda, Linda, ele está bem. Você me ouviu? Benny está bem.

Ainda tonta, Linda conseguiu forças para responder:

- Ouvi, Ray. Ele está mesmo bem?

- Ele levou um tiro, está fora de perigo, mas ele acha que você pode estar.

- Eu? Que tem eu?

- Ele acha que você pode estar em perigo, Linda.

- Mas por que eu estaria... - Ela logo deduziu - Oh, não. É... Victoria?

- Isso mesmo. Acabei de falar com Welsh e ele está despachando uma unidade agora mesmo para pegá-la aí no hospital. Vamos protegê-la, Linda, vamos escondê-la e depois -

Linda o interrompeu:

- Ray, eu preciso ver Benny.

- Depois, Linda. Agora precisa esperar a unidade. Isso é sério, Linda.

Linda quase se desesperou:

- Ray, por favor.

- Mais tarde, Linda. Vocês terão todo o tempo do mundo depois. Não adianta insistir, eu não vou mudar de idéia.

Ela suspirou:

- Tá bom. Só deixa eu falar com o Dr. Lennyard.

Ele a interrompeu:

- Não temos tempo para isso. Linda, precisamos tirar você daí agora mesmo. Está muito vulnerável e sem proteção nesse momento. Tudo o mais, incluindo Fraser, pode esperar. Ele não está indo a lugar nenhum, e acredite em mim, não vai querer subestimar Victoria. Ela pode ir atrás de você.

Linda ainda não respirava direito de tanta emoção, e só conseguiu concordar com ele:

- Tá bom, Ray.

- Boa menina. Agora espere a unidade. Vejo você logo.

- Amo você, Ray. Diga a Ben que eu o amo muito.

- Claro que digo.

Linda colocou o telefone no gancho e Sam tinha um copo de água preparado para ela. A moça ignorou a oferta e disse, ainda trêmula:

- Sam, poderia me fazer o favor de dizer à Sra. Sorelli que eu preciso sair cedo? É uma emergência.

- Claro. Eu ouvi o que aconteceu. Fraser está bem?

- Ray diz que sim, mas ele levou um tiro. Sam, pode me fazer o que pedi?

- Claro. Vá tranqüila. Se puder, dê lembranças a Fraser.

Ela sorriu:

- Obrigada, Sam. Você é mesmo uma amiga e tanto.

Linda praticamente voou escada abaixo para o vestíbulo. Logo deu de cara com uma policial uniformizada que parecia estar procurando alguém na recepção. Linda nunca a tinha visto antes, mas é que ela tinha mais contato com os detetives, não com os oficiais uniformizados. A moça não teve dúvidas em ir até a policial:

- Oi, está procurando por mim?

A moça de cabelos compridos se virou para ela e indagou:

- Você é Linda?

- Sim. Me avisaram que viria, não sabia que seria tão rápida.

- Mesmo? Ninguém me disse que você sabia que eu estava vindo.

- Falei com Ray - A moça olhou para ela, e Linda esclareceu - O detetive Vecchio me avisou.

- Ah, bom. Então está tudo bem. Se estiver pronta, podemos ir. Temos que ir rápido.

- Por quê?

- Enquanto eu vinha, ouvi um despacho de que você pode estar em grande perigo. Vamos!

A princípio, Linda temeu que a policial pudesse ser falsa, um disfarce para que ela fosse com uma estranha. Mas quando ela viu um carro patrulha parado bem em frente à entrada do hospital, ela se sentiu segura. A oficial disse:

- Vá no banco de trás. Estará mais segura lá, em caso de... ataque.

Linda obedeceu e viu que o banco de trás era o lugar onde os criminosos eram transportados. Assim, não havia trincos nas portas, os vidros eram reforçados e cobertos com uma grade de aço. Seria mesmo difícil alguém conseguir resgatá-la de lá. Linda mal via a policial, que já estava com o carro-patrulha nas engarrafadas ruas de Chicago. Linda indagou, olhando para a rua:

- Para onde estamos indo?

- Para uma casa-forte. É assim que chamamos esse lugar protegido. A localização é secreta. Meu parceiro já está lá, esperando por nós.

- Não podemos ir para o hospital primeiro?

- Hospital?

- Ben foi ferido. Preciso vê-lo.

- Não pode chegar perto dele - avisou a oficial, de maneira séria - Seria estúpido, eles estariam esperando por você. É muito perigoso.

- Por favor, oficial... oficial... - Ela sorriu, encabulada. - Eu nem sei seu nome.

A moça sorriu pelo retrovisor e sugeriu:

- Por que não me chama apenas de Elizabeth?

- Ótimo - Linda também sorriu - Elizabeth, por favor, eu o amo. Ele foi separado de mim e agora está ferido. Não sabe como isso me faz sentir. Preciso vê-lo. Só uns minutinhos, por favor.

Elizabeth disse, ainda sem se virar:

- Olhe, Linda, acredite em mim. Eu sei exatamente como é ter alguém que se ama tanto ser tirado de você. Mas nesse caso... lamento, mas não há nada que eu possa fazer.

Linda suspirou, e o rádio do carro-patrulha chiou com alguma mensagem que a moça nem se esforçou para prestar atenção, olhando para fora da janela enquanto trafegavam por Chicago. A oficial, porém, parecia ter pensado no que Linda pedira, e quis saber:

- Diga-me, Linda: você realmente ficou muito mal quando ele foi tirado de você?

- Sim. Bom, na verdade, eu não sabia disso na época. Quero dizer, só mais tarde eu soube que ele tinha sido tirado de mim. Primeiro eu pensei que ele tinha me deixado.

- E como você se sentiu?

- Pensei que eu fosse morrer - confessou Linda, estremecendo só de lembrar - Na verdade, eu quase morri.

- Mas como soube que ele não tinha mesmo abandonado você?

- Porque meu amigo me disse, e ele não me mentiria. Além do mais, agora Ben está de volta. Por que quer saber, Elizabeth?

- Só estou pensando - a policial deu de ombros - Ele poderia ter ido embora para sempre, e você nunca teria certeza. Puxa, você tem mesmo sorte, moça.

- Não - corrigiu Linda, com um sorriso - Minha sorte é ter Ben.

Elizabeth sorriu, ainda olhando pelo espelho retrovisor:

- Ah, eu conheço esse sorriso. É amor de verdade, não é? Aquele que a gente sabe que é para a vida toda, não é?

Linda até ficou vermelha e concordou:

- É sim. Amor de verdade. Vamos nos casar assim que tudo isso passar.

Elizabeth ainda sorria ao afirmar:

- Ah, não vão, não.

Linda achou que não tinha ouvido direito.

- Como disse?

- Falei que vocês não vão se casar. Sabe, Linda, isso nunca vai passar.

- Eu não estou entendendo, Elizabeth.

- A propósito, Linda, está falando o nome da rainha errada.

- Rainha? Do que está falando?

- Eu menti, Linda. Meu nome não é Elizabeth - ela sorriu - Eu tenho o nome de outra rainha da Inglaterra. Uma do século 19. Pode adivinhar qual é?

Linda pensou, tentando se lembrar das aulas de História. Quando conseguiu, ela empalideceu.

- Oh, não. Victoria...!

* * *

Olhos verdes se arregalaram com o que ouviam.

- Como assim?

- Uma policial já tinha saído com ela. Foi a informação que obtivemos na recepção do hospital. Depois chegou um despacho de que um carro-patrulha tinha sido roubado, seus ocupantes mortos.

Ray fechou os olhos, desesperado.

- Obrigado.

Ele fechou o telefone celular, encostou a cabeça na parede e internamente começou a discutir consigo mesmo por uns 15 segundos, suspirando longa e profundamente. Foi todo o tempo que teve para tomar uma decisão. Ao seu lado, Fraser se mexeu na cama do hospital:

- Ray? O que houve?

Ray olhou longamente para o amigo no leito rodeado de aparelhos. Ele sabia que Fraser só tinha sido arranhado por uma bala ao fugir dos capangas de Victoria. Não só ele estava para ser liberado mas também estava inquieto para ver Linda o quanto antes. O ferimento já tinha sido tratado, e o médico tinha recomendado apenas descanso. Portanto, Ray sabia estar diante de um polícia montada em plenas condições físicas, um particularmente teimoso e ansioso para ver sua namorada. As chances de que Fraser pudesse ser enganado eram mínimas.

Como esperado, Benny insistiu:

- Ray?

Ray suspirou de novo e chegou a um veredicto. O único possível, claro. Ele se aproximou do amigo e teve que controlar a voz para dizer;

- Benny, acho que tenho más notícias.

* * *

Linda olhou em volta do carro-patrulha buscando encontrar uma saída para talvez tentar controlar o pânico no seu estômago. Não havia jeito de escapar, nem de esconder. O lugar tinha sido feito para prender criminosos e evitar que escapassem. Que chance ela teria sequer de pensar em fugir de um lugar assim?

Victoria riu-se baixinho, ainda dirigindo:

- Não, não tem lugar nenhum para fugir, Linda. Agora podemos nos dedicar a nos conhecermos melhor. Eu estava ansiosa para finalmente encontrá-la.

A moça tremia, intimidada até a raiz dos cabelos. Ela mal podia perguntar:

- O que você quer de mim?

- Ora, só quero conhecê-la - disse a mulher mais velha. - Ouvi falar tanto de você. Minha curiosidade a seu respeito crescia a cada dia.

Linda sentia como se o mundo se fechasse sobre ela. Além disso, o peito doía, o ar parecia não conseguir entrar nos pulmões, mesmo que ela não estivesse tonta. Aquele era o pior pesadelo que ela podia ter imaginado, depois de perder Ben. Simplesmente não podia estar acontecendo.

- O gato comeu sua língua? - A moça não respondeu, ainda em choque, e Victoria perdeu o sorriso sarcástico, a voz adquirindo nítidos tons de rispidez - Eu aconselho que não tente resistir. Ben pode ter escapado, mas ainda há muitos meios de torturá-lo se você não cooperar. Entendeu? Quero que me responda!

Linda fechou os olhos, lágrimas se formando neles mesmo fechados, e disse, em desespero silencioso:

- Eu vou cooperar, Victoria.

* * *

A porta foi arrombada sem cerimônia, muitos gritos dados, e em questão de minutos, havia policiais em todo o armazém velho e fedorento. A localização tinha sido fornecida por Fraser, que rapidamente se pusera de pé e saíra do hospital assim que soubera do desaparecimento de Linda. Ele sabia que o tempo era essencial. Contudo, a construção para a qual tinha trazido duas equipes inteiras de policiais e um time de ataque parecia vazia. Ray estava inconformado de não haver viva alma:

- Benny, tem certeza de que esse é o lugar?

- Ray, esse é o lugar onde fui mantido prisioneiro - insistiu o canadense - Mas aparentemente, não era o único lugar que tinham.

No fundo esquerdo do prédio, havia uma pequena construção, como um escritório do lugar. Ali encontraram ampla evidência de que o lugar servira de base de operações e alojamento. Eram dois quartos apenas com camas, e um deles Benny conhecia muito bem. Ali ele tinha sido mantido, trancado, num lugar sem janelas, depois de ter se recusado a cooperar com Victoria. Por todo o lugar, havia latas de comida espalhadas pelo chão, e evidência de comida entregue a domicílio. Os tiras andavam em meio às latas e restos com cuidado, para não destruir provas.

Fraser olhou em volta e disse:

- Esses restos indicam não mais do que cinco pessoas. Combina com o que vi. Victoria tinha no mínimo mais três cúmplices.

Um dos detetives disse:

- Então agora só tem dois. Achamos um corpo no canto direito. Ainda está quente.

- Alguém chame o legista. - pediu Ray, olhando em volta enquanto o resto dos policiais se espalhava por todo o lugar - Eles saíram mesmo correndo. Isso aqui está uma bagunça. Que sujeira.

Então ouviram um grito no outro lado do imenso prédio, e correram para lá. Havia um outro corpo perto da porta, um cheiro forte de tinta. Ray abanou a cabeça, desolado:

- Ela não deixa testemunhas mesmo...

- Encontramos isso - disse um dos tiras, apontando para pingos de tinta branca por todo o chão - Parece estar por todo o lugar aqui perto dessa saída..

Fraser se agachou perto da evidência, depois encostou a tinta com a ponta dos dedos e ficou olhando para eles, observando a sua consistência. Ray quase esperava que ele encostasse a língua nos dedos sujos. Mas ele não fez isso.

- A tinta é velha, mas obviamente foi usada recentemente - disse o canadense - É um tipo muito particular de tinta. Muito inflamável e.... - Fraser se interrompeu subitamente.

Ray apontou adiante para o chão:

- Olhe, um rastro de pneus. Veículo grande. Obviamente um caminhão. Talvez mais de um.

Huey disse, vindo de trás deles:

- É, eles saíram correndo mesmo. Tem uma geladeirazinha portátil ali atrás, e está cheia de comida, comida boa e pronta. Não faria sentido deixar isso para trás.

Fraser ergueu a cabeça, os olhos azuis brilhando em alarme:

- Precisamos evacuar o prédio. Ray, esse lugar está todo minado. Há uma grande possibilidade de haver uma ou mais bombas aqui.

- Benny, como é que...?

O canadense já está correndo direto para o lugar do grande armazém onde ficavam os aposentos, gritando:

- Para fora! Todo mundo para fora! Bomba! Chamem o esquadrão de bombas!

Ray correu para alcançá-lo, enquanto os mesmos tiras que tinham inundado o lugar agora espirravam para fora aos montes. Tudo teria ido com a perfeição de um relógio suíço se um deles não tivesse tropeçado num das latas de comida espalhadas pelo chão - as latas que continham bombas incendiárias. A explosão, em si não foi muito grande, mas ela imediatamente levou fogo à tinta extremamente inflamável. Línguas de fogo corriam atrás de tiras em disparada, com um polícia montada a liderá-los até que eles conseguiram chegar ao lado de fora do imenso armazém em chamas.

Já estava formado um genuíno tumulto, e ainda ia ficar pior, com os bombeiros, peritos, legistas e esquadrão de bombas. A confusão de protocolo e depoimentos seria atordoante. Fraser sabia disso quando se virou para Ray, que tinha as mãos na cabeça, exasperado:

- Ray, eu sei para que essa tinta é usada.

O italiano sentiu sua paciência evaporar como gelo no sol do deserto. Ao sair do hospital com Fraser, ele estava certo de que poderiam resgatar Linda rapidamente, pois uma ação rápida era a única chance dela. Agora ele não tinha tanta certeza de que conseguiriam esse objetivo, e Fraser parecia não fazer sentido algum:

- Aquele prédio está pegando fogo, Fraser! - gritou, gesticulando os braços como um sinalizador de pista de aeroporto - Acabaram de tentar matar a gente, não sabemos onde Linda está e você fica falando de tinta?!?!

Fraser jamais deixou-se afetar pelo temperamento explosivo do amigo. Naquele momento, especialmente, ele não podia se concentrar nos sentimentos de Ray. Ele tinha que se concentrar em encontrar Linda, ou teria que se defrontar com seus próprios sentimentos, o que era demais para ele naquele momento.

- Ray - disse muito baixo e extremamente controlado -, me escute. Eu sei para onde eles levaram Linda, Ray, graças à tinta. E se nós não nos apressarmos, podemos jamais encontrá-la. Aquela tinta é para pintura de cascos de barcos. Se eles tiverem ido para as docas do porto que fica no lago, poderão ter fugido a essa altura. Só saberemos se formos lá agora.

Olhos verdes o encararam cheios de emoção por uma fração de segundo. Ray imaginou que Welsh gostaria de interrogar os dois, colher cada pedaço de informação e pista naquele momento, enquanto ainda estava quente. Na fração seguinte, o italiano percebeu que Linda estaria perdida e Victoria fugiria pela segunda vez se ele não se apressasse.

Welsh que danasse.

Mais uma vez Ray voltou a gritar, os braços para o ar:

- Mas o que você está esperando, Jesus Cristo?! Vamos!!!

Os dois correram até o Riv, já sabendo que não seria boa idéia tentar esperar por reforços. Além disso, não adiantaria. Eles tinham que fazer isso por si mesmos.

* * *

Linda estava mais do que apavorada. Não apenas ela estava num ambiente totalmente estranho, mas ela também tinha a impressão que Victoria não tinha boas intenções para com ela. Ela se sentou na cadeira que lhe apontaram dentro da cabina apertada de um pequeno barco no Lago Michigan, um que cheirava fortemente a tinta fresca. Mas Linda ainda conseguiu agradecer aos deuses pelo fato de não estar nem amarrada nem drogada. Ela poderia estar encarando algo assim em seguida, mas naquele momento, o máximo que tinha que agüentar era a presença de sua captora.

- Você é tão vítima - disse Victoria, com desprezo, interrompendo os pensamentos de Linda - Não foi à toa que Ben caiu por você. Ele sempre teve um fraco pelo tipo digno de pena, com esse olhar de cachorrinho perdido. Sabe que cada palavra que ele lhe disse naquele barzinho fui eu quem o instruiu? Ele tinha uma escuta no ouvido. Um aparelhinho muito útil. Além disso, eu tinha dois microfones escondidos. Um no corpo de Ben, outro na mesa. Também tinha uma pessoa no bar com uma arma apontada contra você o tempo todo. Se ele tentasse avisá-la do que estava acontecendo, eu finalmente a veria morta, ali, no meio daquela gente no bar. Teria valido a pena, também.

Linda não respondeu. Nem ergueu os olhos. Ela não sabia o que fazer.

- Não se preocupe - continuou Victoria - Eu não tenho intenção de matá-la, nem de machucá-la. Eu já fiz diversas tentativas com você e você sobreviveu a todas, então acho que não vale a pena me incomodar. Não se você se comportar, claro. Você disse que iria cooperar. Ainda está disposta?

- Sim - disse Linda, tremendo - Sim, eu vou cooperar.

- Então nós vamos nos dar muito bem. Você percebe, claro, que você nunca mais vai ver Ben novamente em sua vida, não é?

Linda sentiu seus olhos se enchendo de lágrimas, o coração se fechando dentro do peito com as palavras cruéis, mas ela finalmente assentiu. Victoria suspirou antes de continuar:

- Ah, Linda, Linda... Você provavelmente não faz idéia de quantas vezes eu estive em condições de fazer você morrer. Teria sido tão fácil. Aí então Ben saberia de verdade o que é dor, dor mesmo, como a que ele me deu durante anos a fio. Você sabia que eu estava por trás de cada acidente que você sofreu?

A moça ergueu o olhar, assustada. Ray estava investigando aquilo, junto com a polícia e eles não tinham conseguido provas, só indícios. Agora a mulher confessava abertamente. Linda estava estarrecida:

- Não!...Não pode ser verdade... Não todos eles!...

Victoria parecia bem à vontade e quase orgulhosa ao falar das coisas horríveis que fizera:

- Bom, acho que tem razão. Afinal, eu não tive coisa alguma a ver com aquele assalto no El - garantiu - Mas foi isso que me deu a idéia, assim que eu soube que você estava se engraçando com Ben e aquele italiano horrível. No final, as coisas saíram melhor do que eu planejei. Depois disso, foi só uma questão de tempo até encontrar as pessoas certas para os meus planos, deixar que soubessem onde você morava e trabalhava, até sugeri o que podiam fazer com você. Claro, jamais sugeri que a matassem. Mas fui meticulosa. Primeiro, mandei emissários a todo marginal que tivesse algo contra Vecchio ou Ben, oferecendo a chance de uma vingança - por seu intermédio. Carver foi o mais inteligente deles. Depois forjei as fotos de Ben, e as dei para Moreaux, com seu endereço. Ele disse depois que se divertiu muito. Fico agradecida, Linda, que você tenha facilitado tanto as coisas para que ele tivesse muito prazer com toda a situação.

Linda estremeceu, o estômago parecia se revirar ao pensar em tudo que tinha passado nas mãos daqueles dois homens terríveis. A reação dela fez Victoria rir-se.

- Vejo que ainda tem boas lembranças do que aconteceu. Sabe, foi depois de Moreaux, que eu pude vender o seu nome para um empresário paralelo que dirigia um clube social muito especial. Eu não esperava que você fosse sair dali com vida. Dois meses e você sobreviveu. É, nessa eu tenho que dar o braço a torcer. Você me surpreendeu.

Nesse momento, uma batida na porta a interrompeu, e Victoria abriu. Um homem colocou a cabeça dentro da saleta, e cochichou algo no ouvido de Victoria. Ela respondeu tão baixinho que Linda não pôde ouvir o que era, e depois o homem saiu. Victoria se virou para ela e anunciou:

- Vamos partir logo. Ouvi dizer que você nunca saiu de Chicago em sua vida. Bom, daqui para frente, você vai viajar muito, Linda. O que acha? Não vai ser emocionante?

A garota estava tendo mesmo muitos problemas para se controlar. Ela queria gritar, chorar, mas não ousava contrariar Victoria. Aquela mulher lhe inspirava um terror imenso. Ela tentou suplicar:

- Por favor, não... Eu preciso... de remédios...

Victoria assentiu, concordando:

- Oh, sim, eu lembro. Mas eu vou tomar conta de você direitinho, Linda. Sabe, eu conheço um médico que sabe tudo sobre o seu caso, e eu tenho certeza de que ele vai cuidar muito bem de você - Então ela exclamou, de maneira teatral - Oh, mas o que eu estou dizendo? É claro que você conhece o bom doutor! É o seu médico favorito, Linda, o Dr. Lachen, lembra-se dele?

Os olhos de Linda se arregalaram, e ela quase pode sentir o sangue fugindo de suas faces. Deus, o pesadelo parecia cada vez pior e pior...

- Não, por favor... Por favor, não!

Victoria sorriu e disse:

- Não, Linda, não precisa se preocupar, querida - Ela sorria, e Linda parecia ainda mais assustada ao ver aquilo - Desta vez ele não precisa dar a você qualquer uma daquelas drogas horríveis da outra vez. Mas na verdade, isso me lembra de algo que precisamos discutir. Sua vida vai mudar daqui para frente, Linda. Ainda assim, eu quero que você mesma faça a escolha de como ela vai mudar.

Linda não entendeu:

- Escolha?

A mulher concordou:

- Claro. Pode escolher entre vir comigo e com as pessoas para quem trabalho ou se estabelecer em algum lugarzinho calmo. Deixe explicar como isso vai funcionar. Se escolher vir comigo, podemos nos divertir muito. Viajamos muito, e podemos ganhar dinheiro de várias maneiras. Você pode nos ajudar a ganhar dinheiro. Vamos a todos os lugares, é uma vida muito excitante, Linda, uma que você nunca teve. Mas eu entendo que você possa ficar desconfortável com isso, e possa preferir se estabelecer num lugarzinho calmo e pacato, afastado de tudo e da cidade grande onde cresceu. Imagine: uma vida regrada, muito organizada e tranqüila. Posso arrumar o que você quiser.

Linda não falou uma palavra, apenas olhou para a outra mulher. Os olhos da moça brilhavam de puro medo. Victoria disse, a voz totalmente neutra e enganosamente calma:

- Claro, em qualquer uma dessas duas vidas, não haveria Ben. É uma condição para você permanecer viva. Se ele a procurar, você foge, e eu posso arrumar um lugar onde ele não a encontre. Se eu encontrar você com ele, ele vai morrer, e eu vou deixar você viva para passar o resto da sua vida sabendo que a culpa da morte dele é sua e só sua. - Linda sentiu uma lágrima escorrer sem que ela pudesse evitar. Victoria parecia sensibilizada. - Ora, não é motivo para isso, Linda. Uma outra vida não é tão ruim, não é mesmo? Significa um começo fresco. Uma nova identidade, uma nova chance. Não é uma alternativa cheia de promessas e potencial?

Linda tentou dizer:

- Mas... eu...

Foi interrompida:

- Claro que eu não espero que escolha agora, claro. Mas deixe-me dizer algo que pode ajudá-la a decidir, algo que você gostará de ouvir, tenho certeza. Você não só vai ter um médico todo seu, mas eu também posso arrumar para você ter de volta a sua criança. Gostaria disso?

Os olhos da moça ficaram impossivelmente grandes:

- Minha... criança?

- Sim, aquela que você teve quando vivia com o homem que eu contratei para ser seu pai. Eu não tenho certeza de que você se lembra da criança em si, mas eu sei que a informação sobre o bebê chegou até você. Você sabe que teve uma criança, não sabe?

- Sim, eu - Linda estava quase sem fôlego - Meu... bebê...

- Eu ganhei muito dinheiro com seu bebê, mas agora posso arrumar para que o casal que o adotou desapareça completamente - Victoria falou de maneira totalmente fria - Gostaria que eu fizesse isso?

- Meu...bebezinho...

Victoria riu-se alto:

- Oh, não Linda, certamente não é mais um bebezinho. Tem mais de um ano de idade agora. Está quase andando, é uma criança linda. Gostaria que você pudesse conhecer. Tenho certeza de que adoraria isso.

Linda não pôde mais agüentar e caiu em um choro quieto e sentido, o coração sangrando profusamente. Fingindo ter piedade, Victoria disse:

- Ah, mas eu vejo que o assunto ainda é delicado. Você não o superou totalmente. Se isso a faz tão infeliz, Linda, eu vou ter que parar de falar nisso e esquecer o assunto totalmente. Nunca mais mencionarei isso novamente..

- Não! - Linda reagiu por impulso e até se levantou de um pulo - Por favor, não faça isso. É filho de Ben!

- Sim, eu sei, Linda. Vejo que aquele homem que contratei e que terminou me traindo lhe contou tudo sobre a criança. Depois que ele conseguiu escapar de mim, eu olhei a polícia tentar em vão localizar a criança. Eu nem vou lhe dizer se é menino ou menina. Mas posso dizer uma coisa: é uma criança lindíssima! Claro, sendo filho de Ben não se poderia esperar menos do que perfeição. Mas os olhos... são absolutamente maravilhosos. Não sei a criança puxou os olhos dele ou os seus. Sempre tive trabalho para distinguir isso. Gostaria que pudesse ver por si mesma. E você vai poder ver, Linda. Mas só se eu quiser isso, entende? Ter seu filho de volta tem um preço, e quero saber se você estará disposta a pagar o meu preço.

Soluçando infinitamente, a dor em seu peito demais para suportar, Linda estava rapidamente começando a perder o controle de suas emoções. Ela se deu conta de que Victoria tinha tudo sob controle, e que Linda teria que deixar tudo o que ela considerava mais caro para trás, condenada a viver a vida toda, a partir dali, sujeita à vontade mesquinha daquela mulher, sem jamais poder ver Benny novamente, como se fosse refém por toda a vida...

E havia também a dor adicional que Victoria estava tão feliz em infligir a Linda: a dor de mencionar o bebê desaparecido. Era tortura oferecer a criança em troca de uma vida inteira sem Benny.

A atenção de Linda se voltou para um barulho familiar do lado de fora. Um motor de carro, um ruído particular e conhecido ao qual ela terminou se acostumando. Mesmo durante seu pranto mais dolorido, o coração de Linda começou a bater mais rápido. Era o Riv! Ray estava lá fora!

Linda se descontrolou.

Aos gritos, ela arremeteu seu corpo contra Victoria, derrubando-a no chão e correndo para a porta da pequena cabina. Enquanto Linda lutava para sair dos aposentos confinados daquele barquinho do lago Michigan, havia gritos (de Victoria) e tiros (aparentemente de todos os lugares). Linda finalmente chegou ao deck do barco e olhou para as docas. Lá ela viu Ray e Fraser correndo pelo pier, bem perto do barco. Então ela gritou, ainda de dentro do barco:

- Ray!!! Ben!!!! Aqui!!!

Aí os tiros aumentaram, e alguns vinham de trás e de cima da cabeça de Linda, do deck superior, e ela se abaixou por puro instinto. Quando Linda ergueu a cabeça para ver o que estava acontecendo, ela não podia acreditar no que via nas docas. Benny parecia ter sumido do pier, e Ray estava caído no chão. Ele não se mexia.

Ai meu Deus ai meu Deus

Linda gritou a plenos pulmões:

- NÃO! Ray!!!!!!

Petrificada pelo choque e pelo horror, Linda não detectou o movimento por detrás de si, e só se deu conta tarde demais que estava sendo agarrada por Victoria. A mulher a usava como escudo, apontando algo para a garganta da mocinha, e sibilou em seu ouvido:

- Diga a eles que saiam para fora ou eu mato você.

Linda nunca soube de onde veio a voz para avisar:

- Saiam! Ela vai me matar se não saírem!

Não demorou 10 segundos. Do lugar protegido de onde estava, Ben saiu com as mãos para cima. Victoria se reposicionou, deixando Linda exatamente entre ela e o polícia montada, e gritou:

- Não chegue perto! E eu quero ver todos os policiais!

Ben parou onde estava e disse, ainda de mãos para o ar:

- Não há mais ninguém. Ray e eu viemos sozinhos. Por favor, deixe-me vê-lo.

- Não se mexa! - avisou Victoria - Eu mato Linda. E por mim, Vecchio pode sangrar até morrer. Ele me atrapalhou os planos uma vez e merece isso! Eu devia tê-lo matado quando tive chance!

Ben tentou se mexer, dizendo:

- Victoria, por fav-

Ela ameaçou com mais força:

- Eu já disse que eu a mato!

Ben se deteve. Depois voltou a pedir:

- Deixe-a ir, Victoria. Você não a quer. Sua briga é comigo.

Victoria sorriu, com desprezo:

- Ben, que coisa mais cliché. E você está errado. Eu a quero, sim. Você está perdido para mim. Eu perdi você para ela, e eu não sei lidar muito bem com a perda. Eu a quero sim, para que você possa sofrer.

- Victoria, por favor!

Linda apenas podia tremer quando ouviu o desespero na voz de Ben e sentiu que o que estava em sua garganta não era o cano frio de uma arma, mas sim a pressão fina de uma agulha. Ainda mantendo a moça contra seu corpo, Victoria advertiu:

- Não se aproxime, Ben. Eu tenho uma coisa muito especial nessa agulha. Não vai matar sua preciosa Linda imediatamente, não, mas vai matá-la. Lenta, gradualmente, sem volta. Enquanto ela estiver morrendo, você vai estar olhando, e não poderá fazer nada.

Ele umedeceu os lábios com a língua e disse:

- Não vai escapar.

- Não? Pois veja só isso! - Ela riu e olhou para cima, antes de gritar - Já vamos partir, capitão!

Linda tremia de medo, mas o corpo dela começou a falhar quando ouviu o motor do barco sendo ligado. Ela tentou se concentrar em olhar Benny, sabendo muito bem que poderia ser a última vez que o via...

Benny advertiu:

- Victoria, você não tem como fugir. O lago Michigan é muito bem patrulhado, você não vai conseguir alcançar o Lago Huron e de lá chegar a Toronto mais rápido. Não é esse seu plano de fuga?

Ela riu suavemente:

- Não tente me fazer falar sobre meus planos, Ben. Além disso, eu certamente poderei fugir se tiver uma boa vantagem.

- E o que faz você pensar que eu lhe darei essa vantagem?

- Ela.

Mal pronunciou essas palavras, Victoria enfiou a agulha e seu conteúdo no pescoço de Linda, e a garota gritou, mais de susto do que de dor. Então a mulher mais velha chutou Linda para fora do barco, desafiando:

- Hora de tomar uma decisão, Ben! Ou você vem atrás de mim, ou tenta salvar sua preciosa Linda! Mas tem que ser rápido, Ben! - Ela gritava - Estamos zarpando, capitão! Todo vapor à frente!

O pequeno barco pintado de branco logo começou a se mover rumo às profundezas do grande lago que banhava Chicago. Ben correu para o corpo de Linda, que estava espalhado no chão da doca. Ele a tomou em seus braços:

- Linda!

Ela abriu os olhos e disse, firme:

- Eu estou bem, Benny... Mas e Ray? Benny, e Ray?!

Ambos se ergueram e correram para o lugar onde Ray ainda estava deitado no chão, ainda imóvel e desacordado. Ben ajoelhou-se ao lado dele, moveu o corpo, então abriu o casaco para localizar as feridas. Não havia feridas. Benny abriu o terno elegante, depois a camisa de seda, com pelo menos dois buracos de bala. Debaixo dela, estava um colete à prova de balas. Ele tinha usado o equipamento para a batida no armazém vazio e não tinha tido tempo de tirá-lo. Isso tinha salvado sua vida.

Linda sentiu uma onda de alívio a percorrer seu corpo:

- Oh, graças a Deus...!

O italiano abriu os olhos finalmente e conseguiu focalizá-los nela:

- Linda...?

- Sim, Ray, sou eu - Ela acariciou o rosto dele - Como se sente?

Ele tentou se sentar e contorceu-se de dor:

- Ai! Isso dói!

Ben olhou para trás e viu que o pequeno barco estava se afastando rapidamente do pier, ele quase não conseguia ver Victoria a encará-los ao longe. O canadense resolveu agir. Pôs a mão dentro do casaco de Ray e de lá tirou o telefone celular:

- Vou chamar os paramédicos.

Ray tentou se erguer e, cheio de caretas, disse:

- Não, Benny, eu vou ficar bem.

Linda ofereceu-se para apoiar o italiano, que logo se pôs de pé e tirou o colete. No abdômen e peito, havia pelo menos três manchas roxas que pareciam bem doloridas. Linda lembrou:

- Ray, você está machucado. Precisa ir a um médico, a um hospital.

- Não, eu estou ótimo. Não precisa chamar ninguém.

- Linda tem razão, Ray - lembrou Ben - Deixe-me chamá-los.

Ray insistiu:

- Não, Benny, não precisa. Já falei!

Foi quando Linda falou, numa voz diferente e meio sufocada:

- Ray... deixe Benny chamar os paramédicos. Por favor.

Imediatamente os dois se viraram para ela, que tinha um olhar estranho no rosto, chamando:

- Linda?

Ela não pôde responder imediatamente, olhando para frente com um olhar vazio no rosto. Então as pernas dela falharam, e se não fossem os reflexos rápidos de Benny, ela teria ido ao chão com um suspiro mudo. O canadense a deitou no chão, gentilmente, e indagou:

- Linda, diga-me o que está sentindo.

Linda tentava não se apavorar, e respondeu, intrigada, segurando o braço dele, enquanto ele a segurava em seus braços:

- É estranho, Ben... Não sinto muito...Só uma.. sensação...

Ray não entendia:

- O que é isso, Benny?

- Victoria injetou alguma espécie de droga no corpo de Linda. É mortal, e tem ação lenta. Não tenho a mínima idéia do que seja.

- Já estou chamando os médicos.

Ray estava nervosamente tentando discar os números no seu próprio celular, mãos trêmulas. Ben tentou acalmar Linda:

- Os médicos chegarão rapidamente, Linda, não se preocupe. Eles vão descobrir o que tem de errado com você. Tudo vai dar certo.

Linda tentou sorrir, encarando Ben e erguendo a mão para acariciar seu rosto:

- Eu... senti tanto sua falta, Ben...

Ele pegou a mão dela, beijou-a com grande ternura e garantiu:

- Eu também senti saudades, Linda. Tudo ficará bem agora. Acredite.

Lá atrás, Ray indicava que conseguira falar com 911. O braço livre dele ia para cima e para baixo, a voz era alta, dois fortes indicadores do baixo nível de paciência do italiano.

- Benny - Linda começou a se agitar - Victoria...!

- Ela se foi, querida. Ela não vai mais nos ferir. Acredite, ela não vai mais fazer isso.

- O bebê, Ben...! Ela sabe onde está o bebê... Nosso bebê - Linda não chorava, mas a voz dela parecia ir definhando rapidamente. - Victoria sabe...

- Shhh - Fez Ben, acariciando-a, tentando controlar suas próprias emoções para não deixar Linda nervosa - Linda, é melhor você tentar descansar um pouco, tá bom?

Ray se ajoelhou ao lado de Linda e avisou:

- Eles chegarão logo - Ele olhou para a moça e sorriu - Ei, ragazza, como é que você está?

- Nada bem, Ray... - Ela tinha dificuldades em respirar, e falar era muito difícil - Estou ficando... com frio...

O detetive tirou seu casaco e Benton ajudou-o a enrolar Linda nele, depois improvisou um travesseiro para a cabeça dela no chão frio. O italiano disse:

- Pronto, Linda, olha só o que eu quero que você faça. Não precisa nem falar, tá bom? Só mova a sua cabeça quando eu perguntar, tá bom?

Ela murmurou, uma careta de dor no rosto:

- Ray... eu não consigo... me mexer...

O italiano tentou controlar o sentimento de pânico que parecia brotar em seu estômago, a dor pelas feridas no seu corpo totalmente esquecida diante da rápida deterioração do estado de Linda. Ele encarou Ben, que ainda segurava a mão de Linda e explicou:

- Precisa continuar falando, Linda. O que Ray quer é que você não caia no sono, tá bom?

Ela tentou respirar, a voz cada vez mais baixa:

- Cansada... Benny...

- Sim, Linda, sei que está cansada, e vai poder descansar em breve, mas agora é importante que você fique acordada. - Ben podia sentir o desespero se alastrando por seu corpo, enrijecendo seus músculos, e ele implorou, sem poder largar a mão dela - Faz isso? Faz isso por mim, querida, por favor?

Linda tentou puxar um pouco de ar pela boca, os olhos já perdendo o foco, e agora francamente sussurrando:

- Amo você, Benny...Para todo o sempre...

Ele beijou a testa dela e disse, a voz falhando:

- Também amo você, Linda... Amo você para sempre...- Ele acariciou o rosto empalidecido, lutando contra as lágrimas - Preciso de você, Linda. Por favor, fique comigo.

Linda tentou sorrir, mas sentiu uma onda de frio e teve um calafrio. Ela tentou puxar mais ar, e não pôde respirar. Ben não conseguiu controlar o pânico:

- Linda? Linda, amor, por favor, fique comigo, tá bom? Só fique com a gente.

Ela não conseguia falar, e os olhos lutavam para ficar abertos. Ben chamou de novo:

- Linda? Linda, querida, olhe só. Ray está aqui também. Preste atenção em mim, querida, por favor, Linda, por favor! - Os olhos dela se fecharam um pouco, e depois pararam de se mover. Ela ficou imóvel. Benny sentiu o coração acelerando - Linda! Linda, olhe para mim! Linda!!!

Enquanto ele buscava freneticamente por qualquer sinal de movimento no rosto dela, Ben não percebeu a sirene que chegava perto. Ele ainda estava agarrado ao corpo imóvel de Linda enquanto Ray gentilmente pediu que ele se afastasse para que os paramédicos pudessem fazer seu trabalho.

Ben se sentia como se estivesse fora do corpo, enquanto respondia às perguntas dos médicos e dos policiais, ainda nas docas, os olhos sem jamais perder contato com Linda enquanto ela era posta numa maca e depois numa ambulância. Foi quando ele invadiu a ambulância e exigiu ser levado para o hospital com ela. Depois de passar mais de um mês de puro pesadelo sob as garras de Victoria, ele pensou que a pior parte de seu ordálio tinha terminado.

Ele estava errado. Aquilo era apenas o começo.

 

* * *

FINAL INTERATIVO

 

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Se você prefere um final definitivo para a história, um capaz de encerrar essa história toda, então não precisa fazer nada. Só continue lendo adiante.

 

* * *

Linda foi mantida viva por mais quatro horas, e só com assistência médica. Quando ela chegou ao hospital, a maior parte de seus grandes sistemas metabólicos já estavam afetados. A seringa de Victoria não continha exatamente veneno, e sim um poderoso coquetel de drogas que conseguiram desligar a maior parte do sistema nervoso central, bem como um paralisador muscular semelhante aos utilizados pelos hospitais psiquiátricos para pacientes em surto psicótico, a chamada "camisa-de-força química". Combinando essas substâncias com drogas como Rorhypnol, usada no golpe conhecido como "boa noite, Cinderela", o coquetel resultou em paralisia total de pulmões e rins, sobrecarregando o coração e dando um verdadeiro curto-circuito em seu cérebro. Até que os médicos conseguissem descobrir tudo que se passava no corpo de Linda, a moça estava em coma, além de qualquer chance de recuperação.

Ela morreu sem jamais recobrar a consciência, nem testemunhar a intensa e silenciosa dor que acometeu Ben. O clã Vecchio inteiro correu para o hospital assim que Ray os chamou, mas não a tempo de fazer coisa alguma além de dar apoio a Ben e Ray. Ao final de todas aquelas horas de espera, o resultado foi arrasador. Os dois amigos estavam devastados com a morte de Linda.

- Benito?

Ele se voltou na direção da voz, um movimento totalmente automático, ainda sem se dar conta de que sentia alguma coisa. O corpo dele experimentava uma espécie de anestesia, o mundo todo se movia em câmera lenta desde que ele vira Linda entubada na ambulância.

- Benito, caro - a Sra. Vecchio tentou de novo - Benito, o Dr. Lennyard disse que tomaria conta de tudo por aqui. Agora vamos, por favor.

- Eu... eu... - Ele tentou resistir, mas não sabia sequer por quê - Acho melhor ficar...

- Caro - disse ela, suavemente - Não há nada que possa fazer. Precisa descansar. Por favor, figlio mio.

- Não, obrigado - Benton disse, surpreendido pelo tom firme da própria voz - Mas eu preciso ficar. Não quero deixá-la.

A Sra. Vecchio suspirou. Ela sabia o que ia pela mente dele e pediu:

- Bambino, por favor, vamos sentar. Venha se sentar comigo.

Eles acharam um banco ali mesmo no hospital longe dos demais Vecchios que choravam a perda, Ray abraçado a uma Frannie inconsolável, e Tony estava com Maria. Jack e Elaine, do 27o, tinham ficado depois que o tenente Welsh voltara para a delegacia. A mãe de Ray mostrou-se firme e falou:

- Benito, tem uma coisa que preciso lhe dizer. É muito sério, e preciso que você me ouça com muita atenção.

- Sim, senhora.

- Escute-me: não é culpa sua - Ben estava chocado não só pelas palavras dela, mas também pela determinação na voz dela - Precisa saber que tudo que está acontecendo não foi você que fez.

Ben evitou o olhar dela e disse:

- Ela morreu por causa de uma mulher do meu passado. Alguém que já tinha feito coisas que... Bom, não preciso dizer o que ela fez.

- Eu sei. - A Sra. Vecchio batia a mão de maneira compreensiva no braço dele - Eu sei o que ela fez a você, a Linda e ao meu Raymondo. Eu também conheço você, Benton. Você vai se convencer de que tudo isso foi sua culpa, e que o que aconteceu a Linda foi por sua causa. Não, Benito, caro mio, tudo foi por causa dessa mulher. Foi culpa dela, Benito, não sua. Não foi você que fez isso com Linda.

- Eu... - A voz dele falhava - Eu tentei... protegê-la...

A mãe de Ray tinha a voz suave e compreensiva, como se falasse a uma criança, sabendo que Ben estava tão frágil quanto uma criança, naquele momento:

- Claro que tentou, carissimo. Você amava Linda muito, todo mundo sabe disso. Ela também sabia. Quando ela descobriu que você tinha ido com essa mulher horrível para protegê-la, ela teve certeza de seu amor. Mesmo quando ela imaginou que você a tinha abandonado, ela jamais deixou que ninguém o criticasse, nem falasse mal de você na frente dela. A confiança dela em você era inabalável. Se ela confiava tanto em você, por que você também não pode confiar em você mesmo?

Ben estava de olhos fixos nos pés, os ombros caídos, sentindo-se velho, cansado e desgastado. Ele simplesmente se recusava a acreditar no que estava acontecendo. E ele não tinha respostas para a Sra. Vecchio.

* * *

O funeral foi lindo. Era difícil acreditar que tudo tinha sido organizado por Tony, já que nenhum outro Vecchio estava em condição de assumir a tarefa. Foi uma cerimônia ecumênica. O Padre Biehan recebeu um pedido especial do Padre Mulcahey para auxiliar a cerimônia.

O que mais espantava as pessoas era o número de participantes. Para uma pessoa que sequer tinha família, Linda teve um funeral dos mais concorridos. Havia uma amostra bastante colorida de uniformes e bandeiras. Estavam lá o clã Vecchio completo, os Mutchniks, as senhoras Robinson mãe e filha, a equipe do hospital, policiais de diversos distritos, a maior parte do quadro do Consulado Canadense em Chicago, e até mafiosos - sim, uma pequena entourage de Zukos. Esse último grupo resolveu se manter a uma distância respeitável, mas não foi convidado a sair.

O dia também estava danado de bonito. Na verdade, tão bonito que era um crime conduzir uma cerimônia tão dolorosa num dia como aquele, pensou Ray, ao lado de sua mãe. Do outro lado da Sra. Vecchio, Benton Fraser tinha um rosto impassível, o uniforme vermelho brilhante impossivelmente impecável. Todos os Vecchios tinham os proeminentes narizes patrícios vermelhos de tanto chorar.

Fraser, o viúvo, não verteu sequer uma lágrima. Ele não tinha feito isso até o momento, passando por tudo numa espécie de distância emocional desde o momento em que Linda tinha sido declarada morta. Ele tinha a impressão que todas as coisas aconteciam à volta dele, não com ele. Como num filme estranho. Era a única explicação de como ele tinha conseguido ficar sem dormir desde o início de tudo aquilo ou de como ele conseguira atravessar o começo da investigação policial do caso: ele respondeu racionalmente a todas as perguntas sobre Victoria, as atividades criminosas, o que ele tinha visto e ouvido durante o mês que tinha passado nas mãos dela.

O Dr. Lennyard também parecia terrivelmente devastado. O médico jamais parecia ter tido qualquer envolvimento emocional com a moça, mas em sua morte ele revelara como na verdade tudo isso tinha sido apenas uma atitude profissional de sua parte. Na sua opinião, Linda era uma boa paciente e uma boa moça. Ela merecia deixar essa vida de uma maneira mais digna, pensou o psiquiatra. Ele a vira nas horas ruins e nas horas boas. O único consolo do médico era que Linda havia conhecido a verdadeira felicidade por um período limitado de sua vida atribulada e nem sempre feliz. Em nome de Linda, o Dr. Lennyard era profunda e eternamente grato ao homem estranho, quieto e imóvel vestido de uniforme vermelho que se postava respeitosamente diante dos dois padres, alheio ao mundo, olhos fixos no caixão fechado em frente ao púlpito.

Quando todas as palavras foram ditas e os dois sacerdotes encerraram a cerimônia, havia muitos olhos vertendo lágrimas entre os presentes. Benton pegou duas flores, deu uma delas a Ray e juntos os dois puseram as flores no topo do caixão de Linda. Ben acompanhou, de olhos fixos, o ritmo lento que acompanhou o caixão terra adentro, sem ouvir a multidão fungando ao seu redor.

O canadense não se mexeu até um toque gentil de uma mãe amorosa alcançar seu braço.

- Vamos, bambino. Vamos embora.

Ele não olhou para a Sra. Vecchio.

- Eu... Por favor, eu... Eu gostaria de ficar um pouco mais, se não se importa.

- Claro que não, caro mio. Fique o tempo que precisar.

Fraser manteve os olhos grudados na cova fresca enquanto as pessoas silenciosamente se retiravam do cemitério, algumas silenciosamente dando-lhe tapas de conforto nas costas, outros tocando-lhe os braços demonstrando simpatia e apoio. Ele não pôde encarar nenhum deles. Ele não podia encarar o mundo. Tudo que sua mente tinha procurado desde que aquele pesadelo começara era uma resposta. Como ele iria continuar sem ela? Linda tinha se tornado parte tão importante de sua vida que ele não conseguia nem começar a pensar no que ele iria fazer dali por diante.

- Você irá em frente, filho - disse uma voz familiar atrás dele. - Você vai seguir em frente, jamais vai desistir e vai fazer seu trabalho. É isso que os Frasers fazem.

- Vá embora, pai.

O fantasma de Robert Fraser não arredou pé do lado de seu filho enlutado, e dedicou-se, por um momento, a observar a cova fresca.

- Pobre moça. Ela não era tão forte quanto sua mãe, mas ela era uma boa moça, filho.

Fraser suspirou. Ele pensou que seu pai tinha ido embora para sempre, para a vida após a morte, já que ele não tinha aparecido em tanto tempo. Mas naquele momento ele não tinha forças para lidar com o pai morto. Cansado, ele suspirou e pediu:

- Pai, me deixe sozinho, por favor.

- Lamento, filho - Fraser Pai sacudiu a cabeça discordando frontalmente - Não posso fazer isso. Isso é exatamente o que você quer e eu não posso fazer isso.

- Por quê? - Fraser Filho se virou para ele, repentinamente irritado e impaciente - Por que não pode fazer isso por mim? Eu olhei enquanto você definhava quando a mamãe morreu. Por dias, você não falava, você nem se barbeava, pai! Não pode entender o que estou passando?

- Sim, posso. Posso entender melhor do que você se lembra. É por isso que não posso fazer o que você quer que eu faça. Não posso deixá-lo sozinho, filho. Você precisa se recompor, Benton.

- Bom, não é tão fácil - disse ele, mal contendo a irritação - Eu... Eu quero...

- Eu sei o que você quer - disse Bob Fraser - Quer sair e caçar aquela mulher até os confins da terra. Quer pegá-la pelo que ela fez a Linda.

- Sim - disse Ben suavemente, uma maneira enganosamente suave para tamanha ira - Sim, eu quero isso mesmo.

- Mas não vai fazer isso. Eu conheço você, Benton. É teimoso, mas não vai fazer isso. Não vai conseguir caçar Victoria da mesma maneira que não conseguiu caçar Gerrard. Eu o ensinei bem.

Ben deixou sua cabeça cair contra o peito, derrotado. Seu pai estava absolutamente correto. Ele não podia sair atrás de Victoria, a não ser se fosse para trazê-la à justiça. Qualquer coisa além disso seria impensável para ele.

- Então - disse o fantasma de seu pai -, se não é sua raiva contra aquela mulher que o está segurando aqui, então com certeza é outra coisa. Não é?

Uma dor intolerável e impensável lancetou-lhe o peito, perfurando o coração de Benny. Ele soluçou alto e deixou-se cair de joelhos junto ao túmulo de sua amada. Então ele segurou os próprios braços, em prantos, os ombros sacudindo.

A intensidade da sua dor devastou seu pai. Não era uma cena bonita de se ver, pensou Bob Fraser com amargura. Nenhum pai deveria ver o filho chorando a morte de sua nora. Mas Benton precisava daquilo. Ele não tinha chorado até aquele momento, mantendo todas as emoções represadas dentro de si como os Fraser sempre faziam. No além, Bob Fraser tinha aprendido que aquela característica específica da família não era necessariamente benéfica. Então ele deixou o filho chorar. Durante muito tempo, Ben fez isso. Logo o pranto se tornou amargurado.

- Eu falhei com ela, pai... Linda confiou em mim e eu falhei... Agora ela está morta...!

- Não tem culpa da morte dela, filho.

- Eu achei que pudesse protegê-la... Eu fui orgulhoso, teimoso e egoísta, achando que podia protegê-la... Eu prometi a ela que ninguém a machucaria... Prometi que ela não sofreria mais, e ela sofreu, pai... Por minha causa...

Bob Fraser tinha a voz suave:

- Está sendo duro demais consigo mesmo.

Ben não podia parar, ainda de joelhos, sem jamais encarar o pai:

- Eu acreditei que podia fazer isso, pai. Fui tão arrogante. Eu só... não queria que ela sofresse nunca mais. Eu não podia suportar que ela sofresse ainda mais, pai. Eu queria deixá-la livre de toda a dor. - Ele esfregou o polegar na sobrancelha - Eu deveria ter resistido a Victoria no momento em que ela ligou para o Consulado dizendo que tinha raptado Ray. Eu jamais deveria ter concordado em ir com ela.

- Nesse caso o ianque estaria morto - lembrou Fraser Pai - A morte dele teria sido mais fácil para você? É isso que está dizendo, Benton?

- Não! - Benny sacudiu a cabeça - Não, claro que não. Eu deveria... Eu deveria...

O pai não o deixou terminar:

- Fez o que achou ser o mais certo. Seu amigo foi salvo, e ele pegou o rastro de todo o mal que essa mulher estava causando. Com tempo, ele teria resolvido tudo, mesmo que você não tivesse conseguido escapar dela. Ele até que não é um mau policial para um ianque.

- Eu não fui... rápido... Achei que tinha tempo, mas Victoria já tinha Linda... - Benton abaixou a cabeça, a voz estrangulada pela dor e remorso - Pai, como eu vou me perdoar enquanto eu viver?

- Precisa se perdoar, filho, porque não fez nada errado. Sei que acha que falhou com ela e que tudo é sua culpa, mas não é verdade. Além disso, nada disso vai trazer meu neto de volta.

Benton ergueu a cabeça e olhou para o pai pela primeira vez, surpreso. O polícia montada veterano deu de ombros, sem ficar constrangido:

- Bom, é nisso que você tem pensado, não é? No bebê. Aquela mulher sabe onde está a criança. Isso passou pela sua cabeça.

Benny se ergueu, limpou os joelhos lentamente, sem dizer uma palavra. Longos minutos se passaram até seu pai dizer, de maneira suave.

- Então, do modo como eu vejo a coisa, filho, você tem duas maneira de encarar isso: ou você encerra isso aqui e agora, ou você não encerra isso. Talvez essa seja a maneira como as coisas devam terminar.

- No fim?

- Isso mesmo, filho.

Os dois Frasers se entreolharam e trocaram um olhar suave. Havia tantas palavras embutidas naquele olhar que eles não sentiam necessidade de pronunciar mais qualquer sílaba. Afinal, acima de tudo, eles eram Fraser.

E um outro Fraser estava lá fora, em algum lugar, pensou Benton.

 

FIM

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