Parte 11

Prova de fogo

 

Com toda a coragem que podia, Linda foi ao médico no dia seguinte, e naquela mesma noite ela contou a Martha tudo sobre a conversa que tivera com Fraser. A amiga quis saber tudo que eles conversaram, e Linda estava muito feliz em falar para ela. Martha dissera estar muito feliz que as coisas estivessem indo tão bem para Linda. Na verdade, Martha até confessara que ela não estava pronta para fazer o mesmo tipo de compromisso com Ray. Para Linda, era natural. Ray e Martha se conheciam há pouco tempo, e esse tipo de relação deveria ser construído. Ao menos era o que ela sempre ouvira do Dr. Lennyard.

Numa noite em que Fraser estava com Ray numa outra tocaia, Linda saiu da escola preparada para ir sozinha até sua casa. Foi quando viu o pequeno carro de Francesca se aproximando. Era uma surpresa.

- Frannie?

- Oi, Linda. Meu irmão disse que você poderia precisar de uma carona.

- Obrigada, Francesca. Foi muito gentil - Linda olhou para dentro do carro, onde havia mais duas garotas - Mas você está com suas amigas. Eu só iria incomodar.

- Não mesmo. Vamos ter uma noite só de garotas. Quer vir junto? Afinal, amanhã é sábado. Vai trabalhar?

- Não, eu estou de folga no fim de semana.

- Viu? Benton também não está em casa, então por que não aproveitar e se divertir um pouco? Vem com a gente. Vai ser ótimo!

Linda pensou por um pouco, e então chegou à conclusão de que não havia motivo pelo qual não passar algumas horas com Frannie e suas amigas. Ela sorriu:

- Está bem, então.

- Ótimo! - Frannie se virou para trás para falar com as moças, enquanto Linda entrava no automóvel - Cindy, vem mais para cá. Linda está vindo com a gente. E Shantal, pegue o celular e avise Ray sobre a mudança de planos.

* * *

Ray estava mais do que irritado. Ele também estava envergonhado. Seu sangue italiano estava a ponto de entrar em ebulição quando ele bateu na porta do apartamento de Fraser. O canadense atendeu, surpreso:

- Ray? Aconteceu alguma coisa? Você acabou de me deixar aqui, e já são quase duas horas da manhã.

- Eu sei, Benny, e me desculpe por assustá-lo assim - Então ele começou a sibilar, tamanha a raiva que transpirava por todos os seus poros - Mas eu tinha que fazer isso pessoalmente, para ter certeza de que Frannie não iria esculhambar com isso também.

Fraser observou o trio entrar no apartamento, confuso:

- Francesca? Linda?

A diminuta italiana parecia completamente envergonhada, ao entrar abraçada a uma Linda que parecia bastante confusa. Francesca tentava dizer:

- Benton, eu lamento tanto... Desculpe...

Tentando disfarçar um risinho, Linda repetiu, com uma voz bem arrastada e fina:

- Benton, desculpe...

O canadense a olhou com atenção para os olhos verdes ausentes e semicerrados, as pernas que se trançavam. Depois seus sentidos agudos e treinados detectaram o cheiro de álcool na sua respiração. Antes que ele expressasse sua surpresa, Frannie se precipitou em dizer:

- Eu só descobri quando era tarde demais, Fraser. Foi tudo culpa de Cindy. Ela trocou o suco de Linda por alguma bebida. Ela só tomou três copos, mas já era tarde demais.

Fraser lembrou, a voz suave:

- Francesca, Linda não pode beber álcool por causa dos remédios que toma. Você sabe disso.

A moça parecia realmente se sentir culpada:

- É, eu sei, Fraser, mas eu só notei quanto já era tarde demais. Me desculpe, por favor. Eu lamento muito.

Ray disse:

- É, Benny, eu também sinto muito.

Benny viu os lindos olhos de Linda se tornarem cada vez mais verdes quando ela lançou um olhar para ele e disse, numa voz muito engraçada:

- Eu também sinto muito, Ben... Apesar de não saber por que estamos tão chateados...

Benny não pôde evitar um riso e disse:

- Ai meu pai.

Frannie ainda estava segurando Linda, porque a moça escorregava de seus braços, incapaz de se sustentar nas próprias pernas. A italiana disse:

- Eu me sinto tão mal, Benton. Foi um abuso de sua confiança, e eu deveria ter tomado conta dela melhor. Claro que eu também deveria saber o que Cindy estava aprontando, porque ela ficou insistindo com Linda a noite toda para falar sobre... bem, você sabe, vocês dois, e... Linda é tão gentil que não percebeu, mas sabe, eu, eu deveria -

Fraser a interrompeu com gentileza:

- Francesca, está tudo bem. Eu sei que você se preocupa com Linda. Você não deixaria isso ter acontecido se pudesse ter evitado.

- Eu queria tomar conta dela até isso... passar, mas Ray não me deixou.

Ray mal conseguia conter sua ira:

- Eu só pedi um favor bem pequeno: levar Linda para casa, e olha só o que aconteceu! Frannie, você queria esconder Linda lá em casa até ela se curar da bebedeira. Mais do que isso, você pensou que pudesse esconder isso de Fraser! Bom, lamento, irmãzinha...

Ela baixou a cabeça de novo:

- Ray, eu disse que sentia muito.

Com o rosto preocupado, a voz ainda engraçada, Linda disse, mal se mantendo em pé:

- Ray, você não deveria estar brigando com sua irmã. Você a ama muito, sabe disso.

- É, Linda, por isso é que ela precisa de uma lição - disse o detetive. - Venha, eu vou fazer café para você. A cafeína vai lhe fazer bem.

Fraser gentilmente retirou Linda das mãos de Frannie e disse:

- Sim... Ray, eu posso tomar conta de tudo daqui para frente.

Linda estava sorrindo, olhos quase fechando, quando caiu nos braços de Fraser:

- Sim, Ben... Toma conta de tudo....

- Tem certeza de que não quer ajuda, Benny?

O canadense mudou Linda de posição entre seus braços, para a moça ficar mais confortável, respondendo:

- Com certeza, Ray. Eu posso fazer isso. Eu sou um polícia montada.

Ray fez cara de desgosto:

- Pois ainda acho que Frannie deveria ficar aqui para ver direitinho em que tipo de encrenca os atos inconseqüentes dela puseram Linda.

Ben disse:

- Não, Ray. Além disso, Francesca parece estar bastante arrependida. Eu fico muito agradecido pelo cuidado que tiveram com Linda. Os dois.

Linda se meteu:

- É, Ray, obrigada... por tudo... E você também Franchesca... Francesca...

- Bom, então nós estamos indo - disse Ray, agora mais preocupado que antes - Frannie vai trazer os livros dela de manhã. E pode me chamar se precisar de qualquer coisa. Eu não sei que tipo de reação Linda pode ter por causa dos remédios, portanto se precisar ir para o hospital...

- Não, Ray - disse Fraser.- Pelo que Francesca disse, ela não bebeu uma grande quantidade de álcool, e deverá ficar um pouco... entusiasmada por algum tempo. Mas deve ser possível curar tudo com uma boa noite de sono. Eu já conversei com o Dr. Lennyard sobre isso.

- Está bem. Mas se precisar, pode ligar, Benny. A qualquer hora, tá bom?

- Obrigado, Ray. - disse Ben, sorrindo - Boa noite.

Linda jogou-se nos braços de Ray e sorriu:

- Por que não fica um pouco mais, Ray?... Você e Frannie podem ficar...

O italiano sorriu:

- Não, obrigado, Linda. Ma pode ficar preocupada. Agora vai descansar, tá bom?

- Tá bom, Ray. Obrigada. Boa noite, Ray. Boa noite, Frannie. Tchau!

Os dois irmãos saíram, e Fraser a ajudou a chegar até o quarto, enquanto ela dizia:

- Hummm... Não sei se quero dormir agora, Ben... Estou me sentindo tão leve... É tão bom...

Ele começou a retirar os sapatos dela, dizendo:

- Dormir vai lhe fazer bem, Linda.

Ela logo o puxou contra si, abraçando-o:

- Hummm. Você cheira tão bem, Benny... Adoro o jeito como você... cheira... Parecem maçãs com pinho...E o jeito que você... é macio...

Ben começou a desabotoar-lhe a blusa, dizendo:

- Linda, por favor. Você precisa dormir agora.

Ela ainda sorria de um modo tolo e descontrolado, tentando encostar os lábios dela nos dele, dizendo:

- Tá bom... mas eu quero você... agora...

Ele a encarou, um olhar quase divertido, garantindo:

- Eu não acho que você esteja em condições de coisa alguma agora.

Linda tentou se aproximar dele pela segunda vez, a voz ficando cada vez mais rouca e sensual:

- Você podia... fazer um teste... Experimentar... Podemos... fazer amor... agora mesmo - Ela tentava beijar a orelha dele, esticando a língua para cima, mas os olhos pesados se fechavam, e ela perdia o equilíbrio, mesmo sentada na cama - Não podemos...? Hum?

Fraser beijou-lhe a testa carinhosamente e disse:

- Isso não seria uma boa idéia agora.

Ela inclinou a cabeça, parecendo intrigada, as sobrancelhas arqueadas:

- Ué... Por que não?

- Porque eu sou um cavalheiro, e jamais tiraria vantagem de sua condição atual. Agora durma, meu amor. Nós conversamos mais tarde.

-Tá bom, Ben - Ela simplesmente deixou-se cair na cama, suspirando antes de murmurar: - Você cuida tão bem de mim, Benny. Eu tenho muita sorte por ter você... Amo você, Benny. Para todo o sempre...

- Eu amo você também, Linda. Amo você para sempre.

Claro que ela não ouviu isso.

Ben não dormiu aquela noite. Ele pegou uma cadeira da cozinha e a colocou no quarto, perto da janela de onde a luz da rua entrava para acariciar o corpo dela, adormecido na cama. A primeira intenção de Ben era pegar um livro para ajudar na vigília, mas ele não conseguiu. Durante horas, ele se sentou na cadeira e só a observou enquanto ela dormia, pensando o quão linda era ela. E precisava dele. Ele adorava tomar conta dela. Queria passar o resto da sua vida fazendo isso. Dief ficou ao lado dele.

O amanhecer estava a apenas alguns minutos quando ele ouviu um gemido comprido da cama. Linda tentava se apoiar nos cotovelos e chamou:

- Ben...?

Ele estava de pé e do lado dela antes que pensasse em se mexer. Ela choramingou:

- Eu não me sinto bem...

Era a dica que ele precisava para pegar o balde trazido da cozinha e colocar debaixo dela, enquanto ela esvaziava o estômago. Depois ele carinhosamente a limpou, e ela gemeu, com uma mão atravessada no estômago:

- Dói... Dói muito, Benny...

- Vai passar, Linda. Por que não descansa um pouco mais?

- Vou tentar... - Ela disse, tentando se ajeitar na cama - Por favor... não vá.

- Estou bem aqui. Descanse bem.

Ela suspirou e ainda gemeu:

- Acho que não vou conseguir dormir... nunca mais... Muita dor...

Menos de dez segundos mais tarde, ela estava adormecida. Fraser deitou ao seu lado, pensando que seria uma boa chance para descansar também.

Durante todo o fim de semana, Linda descobriu em primeira mão que abuso de álcool poderia ser uma experiência valiosa, uma que ela jamais gostaria de repetir. A moça ligou para Frannie e fez questão de eximir a italiana de qualquer responsabilidade no incidente. Mesmo que não tivesse sido culpa dela, Frannie se sentia responsável.

Nos dias seguintes, Linda teve que cuidar muito da alimentação, sob a supervisão de Fraser. Ela estava preocupada. Se estivesse grávida, o incidente poderia ter conseqüências no bebê, e Linda sabia disso. Esse era um dos motivos pelos quais ela mal podia esperar o resultado dos exames. Mal ela sabia que gravidez seria o último dos seus problemas em uma mera questão de dias.

* * *

Linda não sabia o que exatamente a tinha alertado para o perigo. Mas ela se lembrava do mau humor de Martha na aula noturna. E isso a intrigara.

- Tudo bem, Martha?

- É, acho que sim - A moça deu de ombros, e Linda ficou curiosa - Na verdade, não, Linda. Não estou nada bem. Desculpe eu lhe falar isso, mas eu estou muito aborrecida com seu amigo Ray.

- Ray?

- É. Ele me deu o bolo ontem à noite, e eu estou muito chateada.

Linda ficou muito intrigada. Não era do estilo de Ray. Mas ele não tinha aparecido para pegar nem ela nem Benny para o trabalho de manhã, então ela não o tinha visto o dia inteiro. Não sabia de coisa alguma.

- Tem certeza que ele não tentou ligar para você?

Martha parecia mesmo magoada:

- Claro que eu tenho. Eu comecei até a me preocupar quando vi que ele estava atrasado, então chamei a delegacia, e eles disseram que ele tinha saído cedo. Ele podia ter me avisado. Linda, desculpe, mas eu estou mesmo chateada. Se ele não queria mais sair comigo, bastava ele dizer. Eu ia entender.

Um estranho nó começou a se formar no estômago de Linda. Ela disse:

- Acho que você está entendendo tudo errado, Martha. Eu estou achando que é outra coisa, e juro que não estou gostando do que estou pensando. Tomara que eu esteja imaginando coisas.

- O que está pensando?

- Acho que... alguma coisa aconteceu.

- Alguma coisa?... - Martha arregalou os olhos: - Alguma coisa como o quê?

Linda fechou os olhos e suspirou:

- Ele é da polícia. Coisas ruins acontecem.

- Oh, não - Martha estremeceu - Não, tem que ser outra coisa. Linda, o que vamos fazer? Oh, meu Deus. Eu me sinto tão mal... E eu pensando que era outra coisa...

- Fique calma. - disse Linda - Vai ver que não é nada. Agora é a última aula. Vou falar com Ben. Talvez ele tenha visto Ray, e saiba o que aconteceu. A gente pode estar só imaginando coisas.

Fraser não tinha visto Ray nos últimos dois dias. Nem ninguém no distrito. Elaine contatou discretamente Francesca. Os Vecchios também não sabiam de coisa alguma.

Ray tinha desaparecido sem deixar qualquer pista.

A partir da constatação do sumiço de Ray, a vida de Fraser e Linda virou de cabeça para baixo. Fraser passava todo o seu tempo fora do Consulado ajudando Jack Huey e Tom Dewey, bem como os outros policiais que estavam no caso. Tinha sido um pedido do tenente Welsh. Já que Fraser estava ajudando Ray no caso que ele estava trabalhando, o canadense podia dar dicas aos demais detetives.

Quanto a Linda, ela e Diefenbaker praticamente se mudaram para a residência dos Vecchio em North Octavia. A mãe de Ray estava arrasada com o desaparecimento do filho, e mesmo tenho duas filhas, Linda sentiu que era necessária, nem que fosse meramente para dar apoio, como elas já tinham feito tantas vezes no passado por ela. Linda estava muito deprimida, e Fraser insistiu para que ela não perdesse nem as aulas nem o trabalho, para aliviar um pouco o estresse.

Durante três dias, Linda e Fraser imaginaram ter conhecido o verdadeiro sentido da palavra Inferno.

- Ben, por favor, vai dormir um pouco - Linda tinha um tom de súplica na voz, mas falou baixinho dentro da delegacia. Era perto das quinze para as quatro da manhã e ela silenciosamente pediu aos céus que a Mulher Dragão reconsiderasse o pedido de folga para Ben poder descansar - Quando encontrarmos Ray, você não vai poder ajudá-lo.

- Eu não posso. Tenho que descobrir mais sobre o homem que foi baleado semana passada. Você sabe, aquele que assustou tanto você. Ele estava envolvido nisso, de algum modo. Ele pode nos levar até Ray.

Linda pegou o rosto dele entre as mãos, viu os olhos fundos de olheiras, a pele pálida, e disse:

- Não está vendo que está no automático? Você não vai fazer seu trabalho bem, se continuar assim.

- Eu posso agüentar ainda mais do que isso. Por que você não vai para casa e tenta dormir um pouco? Diefenbaker pode levá-la em segurança.

- Ben, por favor - Linda estava quase em lágrimas - Eu também estou preocupada com você.

Ele se abraçaram, e Linda deixou algumas lágrimas caírem na jaqueta de couro de Ben. Ela não queria que ninguém na delegacia a visse chorando, porque pareceria que ela não confiava no trabalho deles. Aquilo não era verdade. Ela sabia o quanto todos estavam se esforçando e trabalhando para trazer Ray de volta.

Fraser sabia que Linda estava apreensiva, e ele queria aliviar um pouco da dor que ela tinha. Essa era a razão principal pela qual ele a mandava para a casa dos Vecchio todos os dias - eles poderiam ajudar a confortá-la. Quanto a ele, ele tinha que se concentrar em encontrar seu amigo.

Foi quando um grito se ouviu no distrito:

- Achamos uma pista!

Linda se assustou e Fraser correu até o detetive Dewey, que sorria de orelha a orelha. Welsh correu para fora do escritório, e o barulho também atraiu Huey e Elaine. Dewey logo explicou:

- Eles acharam o Riv! Um Buick Riviera verde, 1971, placas de Chicago Cook County, LCV 705. Uma patrulha ligou agora mesmo. Está perto do braço do rio, bem fora da cidade.

Jack Huey indagou:

- E o Ray?

- Ainda nada de Ray, mas já é um lugar para começar.

Welsh concordou:

- Dewey tem razão. E está na hora de apertar sua fonte. Jack, você o Vermelhão peguem um time de peritos e chequem o carro. Elaine, quero que você peça um dos uniformizados para levar Linda para casa.

- Não, tenente, obrigada - disse a moça - Eu gostaria de esperar. Quer dizer, se estiver tudo bem com o senhor. Posso lhe trazer um café.

- Claro que está tudo bem, Linda. Pode ficar o quanto quiser - Ele se virou para os seus detetives - O que vocês ainda estão fazendo aqui?

Huey se pôs de pé:

- A caminho, chefe.

Fraser beijou Linda rapidamente e pegou o Stetson antes de seguir Huey até a porta, Diefenbaker atrás dos dois. Linda os viu partir e tremeu, silenciosamente pedindo para que Ray fosse encontrado logo, enquanto Dewey voltava para o telefone, tentando encontrar mais algumas fontes ou informantes que fossem úteis.

Linda voltou da loja de café e entregou uma das três xícaras que levava para Elaine. A moça sorriu, cansada, e não disse coisa alguma, enquanto Linda só devolvia o sorriso. Linda foi entregar a xícara de Dewey quando ouviu Elaine inalar ruidosamente. A moça seguiu o olhar da policial, que estava de olhos arregalados grudados na pessoa que acabara de entrar no distrito.

Era um homem que Linda nunca tinha visto antes, um baixinho louro de roupas enjambradas, que parecia mais deslizar sobre o chão do que andar feito uma pessoa normal. O cabelo dele aparentemente era penteado para cima. Àquela hora da madrugada, ele usava óculos escuros. Obviamente muitas pessoas no distrito além de Elaine o conheciam, e parecia que a presença dele era mesmo inusitada. Ele se deu conta de que estava causando um pouco de sensação, mas não alterou o passo e foi para a mesa de Dewey, tirando os óculos.

Linda se deu conta de que estava encarando o homem, e isso não era polido. Então ela foi para a porta de Welsh e gentilmente bateu. Ela o ouviu berrando:

- Entre!

Ela obedeceu, de copo na mão:

- Com licença, senhor. Achei que gostaria de uma xícara de café. Ainda bem que aquela loja fica aberta a noite toda. Tem um capuccino sem cafeína e sem açúcar grande para o senhor.

Ele estava perdido em papéis, e mal olhou para ela:

- Pode deixar aí mesmo, Linda, obrigada.

Ele parecia cansado, ela notou. Então ela se aproximou, sorriu e disse, gentil:

- Nós vamos encontrá-lo, tenente. Eu sei que vamos.

Welsh a encarou, sentindo seu coração experiente quebrar diante da inocência da jovem. Vecchio podia estar morto àquela altura, e ele sabia muito bem disso. Cinco dias eram um período grande demais para sobreviver.

Ainda assim, pela porta aberta do seu escritório, Ray Vecchio entrou. Não o verdadeiro Ray Vecchio. O Ray Vecchio substituto. Welsh arregalou os olhos.

Linda percebeu que o homem que tinha causado uma sensação no distrito tinha entrado na sala do tenente. Nenhum dos dois falou nada a princípio. O recém-chegado olhou para ela, obviamente sem saber quem ela era, então ela abaixou a cabeça, desconfortável e disse:

- Se precisar de mais alguma coisa, tenente, pode pedir.

Ela se virou para ir embora, mas o homem estava na porta, bloqueando-lhe o caminho. Welsh ignorou Linda totalmente e se dirigiu ao recém-chegado:

- O que está fazendo aqui, Kowalski? Não sabe o quanto isso é perigoso?

A voz dele era estranha, líquida e fina, com um sotaque que Linda não conseguia identificar:

- Eu ouvi falar de Vecchio. Acho que posso ajudar.

- Sabe onde ele está? Ouviu alguma coisa?

- Ouvi sim - Ele olhou para Linda de novo - Nova ajuda civil?

- Quase isso - disse Welsh.

Linda sentiu que enrubescia:

- Desculpe-me, tenente Eu o deixarei a sós com seu amigo e vou esperar Benton lá fora.

O homem chamado Kowalski indagou:

- Está falando de Benton Fraser?

- Sim. Conhece Ben?

- Somos amigos, sim. Ouvi falar de você. Deve ser Linda.

- Sim, eu sou.

- Bom, Linda, me faz um favor, tá? Diga que eu disse oi.

- Direi, sim, senhor. Agora, se me der licença.

Linda saiu do escritório de Welsh, quase imediatamente se esquecendo do estranho, e se ofereceu para ajudar Elaine. Depois ela foi para o refeitório, tentando não pensar no que estava acontecendo. Mas foi inútil. A mente dela se recusava a pensar qualquer coisa, mas só queria acreditar que Ray estaria de volta em breve.

Sem sentir, ela terminou cochilando e acordou assustada. Depois ela pensou em ir buscar mais café para o tenente. Ela entrou no recinto, e o tal homem Kowalski não estava mais lá. Welsh mal falou com ela. Era quase de manhã e Linda se deu conta de que algo estava acontecendo na porta do distrito. Ela correu para lá.

Ben entrava pela porta adentro, logo atrás de Diefenbaker, e ele parecia exausto. Jack Huey os seguia, e também não estava em melhor forma. Linda sofria por ver o homem que ela amava tão preocupado, e não havia nada que ela pudesse fazer. Ela se aproximou dele e ele abanou a cabeça, desolado:

- Não encontramos nada.

O coração de Linda pareceu afundar.

Enquanto os detetives e policiais se acercavam deles, Huey disse:

- Era o Riv, mesmo, mas não havia nenhum sinal de Ray. Nem pistas, nada! - Ele chutou um armário, frustrado. Depois abriu o paletó e pôs as mãos nos quadris, suspirando - O carro tinha sido todo limpo. Não havia impressões digitais, nem fibras. Serviço de profissional.

Fraser acrescentou:

- Também não havia jeito de rastrear. Diefenbaker não pegou qualquer cheiro. Eu lamento.

Welsh suspirou e disse:

- Não foi sua culpa, Constable. Fez o que podia.

Linda resolveu tomar a iniciativa e disse, determinada:

- Tenente, eu vou levar Ben para casa agora. Ele precisa descansar um pouco, ou então não vai poder ser de qualquer ajuda. Podemos voltar mais tarde?

O velho policial assentiu:

- Claro, façam isso mesmo. Os dois precisam descansar. Por isso tomei a liberdade de chamar tanto o hospital quanto o Consulado. Estão os dois de folga.

Ben estava tão cansado que sequer protestou. Ele assentiu para o chefe de Ray e pôs seu braço em volta do ombro de Linda, depois que ela pegou o casaco e chamou Diefenbaker. Ambos se despediram polidamente e Linda sentiu algo estranho. Era uma sensação de perigo iminente, como se algum funeral estivesse para acontecer. Ela não gostou daquilo.

À tarde, depois que ambos tinham dormido um pouco, comido menos ainda e trocado de roupa, Ben voltou para o distrito. Linda comprou alguns alimentos e foi para a casa dos Vecchio, com a cabeça cheia. Ela sabia que teria de dizer à família sobre o Riv, que ainda estava detido como prova, mas que teria que ser resgatado. Contudo, a moça também tinha que dizer àquela gente que não havia qualquer nova prova sobre o paradeiro de Ray. Mais de cinco dias e eles ainda estavam totalmente perdidos. Não era preciso ser gênio para prever a frustração de todos os Vecchios. Como a frustração de todos na delegacia.

Linda estava tão distraída que não notou três homens a seguindo no caminho para a casa dos Vecchio. A cerca de duas quadras antes da casa, o caminho dela foi atravessado por um homem baixinho, atarracado, num terno marrom fino e cabelo liso vasto num rosto quadrado. A aproximação dele foi definitivamente polida e simpática:

- Com licença. Seu nome é Linda?

Ela parou de andar, olhando para o homem, depois reparando nos outros dois homens que o acompanhavam e respondeu, desconfiada:

- Sim, é meu nome. Eu o conheço?

O homem de cabelos e olhos castanhos era mesmo bem baixinho, notou Linda. Ele sorriu, e os olhos quase se fecharam quando ele fez isso:

- Na verdade nunca tive o prazer, mas acredito que conheça alguns amigos meus. Eu costumava ser amigo de Ray Vecchio. Crescemos juntos nesse bairro. Eu ouvi o que aconteceu com ele. Er.. Podemos andar juntos?

Ela indagou:

- É amigo de Ray?

- Eu disse que éramos amigos quando crianças. Aqui - ele se ofereceu - deixe que eu levo suas compras.

Na verdade, ele fez um gesto rápido a um dos homens que estavam com ele (um grandão de terno escuro) e ele retirou as sacolas das mãos de Linda, de maneira gentil. Eles começaram a andar rumo à casa dos Vecchio. Linda ficou grata pela ajuda:

- Obrigada, senhor. Posso perguntar como sabe quem eu sou? Nunca o vi na casa de Ray.

- Você é a garota do polícia montada. Mora com Fraser.

Linda arregalou os olhos:

- Conhece Ben, também?

- Ele e Ray são como unha e carne, não são? - O homem vinha falando - Além disso, ele me ajudou há algum tempo. Eu tive um problema e ele me ajudou. Eu nunca esqueci.

Linda sorriu:

- É o que Benny faz de melhor. Ele ajuda as pessoas.

- Eu gosto muito do seu polícia montada, senhorita. Acredite, eu devo a ele, e eu o ajudaria, se ele precisasse. Por isso é que eu quero pedir um favor.

- Um favor?

- Sim. Poderia por favor mandar uma mensagem para a Sra. Vecchio?

- A mãe de Ray? Claro.

O homenzinho passou a falar bem claro e pausado, para que ela ouvisse claramente:

- Eu gostaria que dissesse a ela que eu não tenho coisa alguma a ver com o que aconteceu a Ray. Eu também sou italiano, sabe, e eu sei que essas coisa são duras numa mãe italiana de sangue puro. Diga a ela que eu lembro de como os outros tiras queriam que ele me prendesse pela morte de minha irmã, mas Ray não deixou isso acontecer. Eu nunca esqueci isso tampouco, por isso eu quero que ela tenha certeza absoluta de que nada do que está acontecendo com o filho dela é minha culpa.

Linda estava confusa. Ele não era amigo de Ray?

- Desculpe, moço, mas não estou entendendo.

- Posso repetir tudo para você, querida, mas o importante é que você entregue a mensagem. Quero que saibam que eu não tenho nada a ver com o sumiço de Ray.

- Se é o que quer que eu faça, eu faço, mas não entendo por que não pode falar para ela o senhor mesmo. Disse que era um amigo antigo de Ray. Tenho certeza de que a Sra. Vecchio vai ficar contente de ver o senhor, se quer mostrar seu apoio à família.

- Não, querida, você não ouviu o que eu falei. - Ele sorriu. - Eu disse que Ray e eu crescemos juntos e éramos amigos quando crianças. Depois nós nos separamos.

- Mesmo? Eu não compreendo por que...

Ele a interrompeu, explicando:

- Meu nome é Frank. Frank Zuko.

Linda empalideceu na hora, reconhecendo o nome. Frank Zuko era o mafioso do bairro e ele e Ray tinham uma história. A história, claro, envolvia Fraser.

Zuko notou a reação dela e parou de caminhar com um suspiro. Depois ele fez um sinal para o outro homem para devolver as sacolas de compras e disse:

- Acho que é aqui que nossa conversa se encerra.

Linda recebeu as compras e se deu conta de que a casa de Ray estava a menos de cem metros de onde eles tinham parado. Ela agiu por um impulso:

- Espere, Sr. Zuko. Olhe, eu não sei o que aconteceu entre o senhor e Ray, e isso não é mesmo da minha conta. Mas se não tem mesmo nada a ver com o que aconteceu, então eu preciso lhe pedir que nos ajude a encontrar Ray. Tenho certeza de que conhece pessoas que podem ajudar. E estamos mesmo precisando de toda a ajuda que pudermos.

Zuko a encarou, como se pudesse descobrir mais sobre a moça só olhando para ela. Ele notou:

- Você está mesmo preocupada com ele, não está?

- Todos nós estamos, Sr. Zuko. Nós amamos Ray.

O mafioso olhou para os lados, suspirou, e depois disse:

- Está bem, vamos combinar o seguinte. Vou fazer algumas perguntas por aí. Ver se alguém sabe de alguma coisa. É o melhor que posso fazer. Só para deixar claro, estou fazendo isso pelo polícia montada - Ele sorriu - E por você também.

Linda retornou o sorriso:

- Eu agradeço muito, Sr. Zuko. De todo o coração.

- Boa garota.

Foi quando Linda ouviu a voz de Francesca:

- Linda! Linda, venha já para dentro!

Linda olhou para cima. Frannie estava na varanda da casa, de mãos nos quadris, parecendo pronta a desferir um ataque mortal contra Zuko, lasers mortais saindo de seus olhos. Linda ficou embaraçada e disse:

- É melhor eu ir agora. Mas não se preocupe, eu vou dar seu recado para a mãe de Ray.

- Fico lhe devendo, Linda.

Linda correu para entrar dentro da casa, enquanto Zuko e seus homens iam embora, sob os olhares furiosos de Francesca. A italiana se voltou para Linda, ainda irritada:

- Por que você estava falando com aquele canalha, Linda? Não sabe quem ele é?

- Eu não sabia quem ele era, Frannie. Mas ele se apresentou para mim - Linda parecia intimidada - Ele disse que poderia ajudar a achar Ray. Eu não quero recusar nenhuma ajuda.

Frannie fez cara de nojo:

- Provavelmente ele está envolvido nisso até o pescoço. Escuta o que eu estou dizendo, Linda: é melhor ficar longe dele e da gente dele. Ele é uma cascavel. Ray iria ficar furioso com você se soubesse disso.

Linda suspirou e colocou as compras na cozinha, mudando de assunto para não discutir com Frannie:

- Onde está Ma?

- Lá em cima. Finalmente ela concordou em dormir um pouco.

- Isso é bom.

Como se ouvisse, a voz da Sra. Vecchio se ouviu lá em cima.

- Francesca, Linda está aí?

As moças se olharam, e Linda respondeu:

- Estou aqui, Ma. Trouxe manjerona fresca e orégano verde. Quem sabe isso ajuda no seu molho tão especial.

A velha italiana desceu as escadas e disse:

- Você é mesmo uma boa moça, mia bambina. Aqui, deixa eu lhe mostrar como se deve tratar uma boa escarola.

- Ma, não precisa fazer isso agora - disse Linda - Por que não sobe e descansa mais um pouco?

- Eu não vou me deitar agora, cara. Eu não quero.

Linda sentiu que a mãe de Ray tentava com muito esforço reter suas lágrimas. A moça decidiu mudar de estratégia:

- Ma, eu... Eu... Puxa, eu estou tão envergonhada.

- O que houve, bambina?

- Ma... Será que... podia me ajudar...?

- Pode me falar qualquer coisa, sabe que sim.

Frannie disse, consternada:

- Linda, estamos aqui para ajudar você.

Linda abaixou a cabeça. Ela não gostava de mentir, mas ela queria falar com a Sra. Vecchio sozinha. A experiente Mamma italiana sentiu o desconforto da moça, e disse:

- Francesca, cara, eu também vou precisar de alecrim para o molho da pasta. Podia me buscar um pouco lá no supermercado? Tem que ser fresco, e com as folhinhas bem resistentes. Quanto mais escuras, melhor.

Frannie encarou as duas de modo suspeito. Mas não havia nada que ela pudesse fazer, então ela suspirou, resignada, e disse, erguendo os braços:

- Claro, Ma. E vou demorar bastante, também.

Assim que ela saiu, a Sra. Vecchio fez Linda se sentar à mesa da cozinha e indagou, na sua voz mais maternal:

- Agora me diga, bambina. O que a perturba?

- Eu tenho algo para falar...

- Para falar para mim?

- É, alguém me pediu para lhe dar um recado.

A Sra. Vecchio a encarou e indagou:

- Isso tem alguma coisa a ver com Frankie Zuko carregando suas compras há alguns momentos?

Linda arregalou os olhos. Ma Vecchio sempre a impressionava de tão esperta:

- A senhora viu aquilo?

- Eu estava no meu quarto, e vi você na rua. Sabe, Frankie e Ray um dia foram amigos. Mas depois...

- Eu sei, Ma, o Sr. Zuko me disse. Ele me pediu para lhe dizer que ele não tem nada a ver com o desaparecimento de Ray. Ele disse que sabia que estaria muito triste, mas não seria culpa dele. Ele também disse algo sobre a irmã dele, que Ray o ajudou quando ela morreu, algo assim. Eu não entendi direito essa parte.

Linda viu que os olhos da Sra. Vecchio se enchiam de água e ela abraçou a velha mãe com carinho, deixando que ela chorasse as lágrimas que vinha reprimindo do resto da família. Linda chorou também. As duas se abraçaram por um bom tempo, compartilhando a dor. Então a Sra. Vecchio disse:

- Então, na verdade, você não tinha nada para dizer.

- Ah, mas eu tenho, sim.

- Tem?

- Eu queria perguntar algo.

- Então pode perguntar, bambina.

- Eu pedi ao Sr. Zuko para ajudar a encontrar Ray, Ma. Só que agora eu estou me perguntando se Ray vai ficar bravo comigo por causa disso. Eu só queria ajudar.

Ma Vecchio sorriu para a garota e enxugou o resto de suas lágrimas:

- Tenho certeza de que ele não vai se importar com isso. E se ele falar alguma coisa, eu o farei ter certeza de se arrepender por ter dito.

- Que bom, Ma. Mal posso esperar para vê-lo em casa de novo.

Ma Vecchio abraçou a menina contra o peito, a voz trêmula.

- Eu também não, cara. Eu também não.

* * *

Após passar mais uma noite nos Vecchio enquanto Fraser estava com a polícia, Linda foi ao trabalho e notou que aquilo realmente a ajudava a não pensar em Ray o dia inteiro. Então ela se atirou no trabalho, e falou com os pacientes da Terapia Intensiva, explicando porque ela estava ausente aquele tempo todo. Fraser ficaria o dia inteiro no Consulado, pondo em dia a papelada diplomática. Depois do seu turno, o canadense iria ao distrito, Linda sabia.

À noite, ela estava na escola, para deixar Fraser tranqüilo, e reparou que Martha estava inquieta. Linda tentou acalmá-la, dizendo apenas:

- Nós vamos encontrá-lo, Martha. Não se preocupe.

A moça disse:

- Olhe, Linda. Eu não agüento mais isso. Desculpe, mas não sei lidar com isso tão bem quanto você.

- Do que é que você está falando?

Martha parecia bem nervosa, e Linda estava ficando angustiada. A moça tentou explicar:

- Você mesma falou, Linda. Ele é um policial e coisas assim acontecem com policiais, certo? Bom, não posso viver minha vida assim. Eu lamento. Gostaria de poder, gostaria de ser uma pessoa mais compreensiva, ou simplesmente uma pessoa melhor, sei lá. Acho que é preciso ser uma mulher especial para ser mulher de um tira, sabe? E eu não sou assim. Acho que é melhor eu terminar tudo e esquecer o Ray.

Linda estava penalizada ao ver o sofrimento da amiga:

- Oh, Martha... Eu sinto tanto...

- Sim, eu também sinto muito. Eu mal posso lidar com as más notícias, e não posso sequer dar apoio à família dele. Eu sou uma pessoa tão horrível.

- Não, Martha, não. Eu sei que você se preocupa. Você pode não saber lidar com isso, mas não é totalmente insensível. O mero fato de você se sentir mal já é uma indicação.

- Oh, Linda - a moça disse, quase às lágrimas - Eu gostaria de ser uma amiga de verdade para você...

- Você é, Martha - O sinal de entrada soou - Agora vamos. Tente se concentrar na aula, tá? Isso ajuda.

Elas tiveram aulas de Matemática e Gramática. No meio de uma explicação sobre verbos, um papel para Linda chegou do escritório da escola. Continha duas mensagens urgentes. Uma era de Fraser, pedindo que encontrasse com ela no Chandler's durante ao intervalo entre as aulas. A outra mensagem era do detetive Jack Huey, e eram notícias muito aguardadas. Dizia que Ray tinha sido encontrado, estava vivo e no hospital. Não tinha mais detalhes.

Linda não ouviu mais nada do que o professor disse pelo resto da aula, o coração dela quase falhando, entrando em um ritmo definitivamente taquicárdico, tão alto que ela quase podia ouvi-lo nos ouvidos. Ray estava vivo, Ray tinha sido encontrado, Ray estava ali!!

Quando o sino soou, ela disparou da cadeira e correu até Martha, quase às lágrimas.

- Eles o encontraram!!

- O quê?

- Encontraram Ray! Ele está vivo!!

Martha pareceu abismada:

- Oh, Linda!!

As duas se abraçaram, e ambas choraram. Então Linda se separou da amiga e disse, ainda excitada:

- Benny deve estar me esperando ali no restaurante. Talvez ele me leve até o hospital agora mesmo!

- Tem certeza de que ele está lá?

- Ele ligou para o escritório da escola. - Ela mostrou a nota - Venha, vamos!

Martha jamais tinha visto tamanha alegria nos olhos de Linda antes, barrando talvez a vez em que ela e Fraser tinham decidido morar juntos. A moça correu pela rua afora até o bar quase pub e Martha notou que Fraser estava no lugar habitual deles, já esperando. Linda chegou-se até ele, incapaz de esconder sua excitação:

- Você ouviu? Ouviu, Ben?

Ele não sorria e livrou-se dos braços dela:

- Vejo que já soube sobre Ray.

- E nós vamos agora mesmo para o hospital, não é? Digo, foi por isso que você veio, não foi?

Martha reparou que Fraser a encarava, chapéu na mão, uma mochila e o saco de dormir no banco do reservado. Então ela sabia que era preciso dizer:

- Er... Eu falo com vocês depois.

Fraser disse:

- Muito agradecido, Martha - A moça se virou para ir embora, e ainda ouviu - Linda, sente. Temos que conversar.

Então Martha foi para o reservado do outro lado da sala. Ela observou o casal à distância, enquanto cumprimentava outros colegas de turma. Dez minutos ou menos se passaram, o sino estava para soar e chamar para o resto das aulas. Martha não sabia se Linda iria, pois tinha ouvido Linda dizer que esperava ir com Fraser para o hospital. Ela olhou para a mesa dos dois. Fraser se ergueu, colocou o chapéu e carregou suas coisas, indo embora. Linda se ergueu da mesa, segurando os livros, e parecia ter perdido toda a animação de repente.

Martha se viu obrigada a ir até ela.

- Linda? Tudo bem?

Tudo que a moça disse foi:

- Vamos voltar. As aulas já vão começar.

Até a voz parecia diferente, viu Martha. Estava baixa. Ela perguntou:

- Mas... eu pensei que você fosse ao hospital ver Ray.

- Eu vou. Depois da aula. Benny me pediu para não faltar às aulas.

- Ele está indo para o hospital?

O sino tocou naquele momento, e Linda se virou para sair do Chandler's, atravessar a rua e voltar à escola o quanto antes, para não ter que responder à pergunta de Martha.

* * *

Francesca foi a última a chegar ao hospital, porque ela tinha ficado detida numa parte distante da cidade e não estava em casa quando a boa notícia chegou à residência dos Vecchio. A caçula da família estava possessa por causa disso, mesmo aliviada porque seu irmão finalmente tinha sido encontrada. Os últimos seis dias tinham sido um pesadelo.

Mas uma coisa preocupava Francesca: ninguém falava coisa alguma sobre a condição dele. E se Ray estivesse muito doente? Ou pior, muito ferido? Deus, por favor, não deixe que ele tenha vindo de volta para nós só para morrer...

Quando ela caminhou na direção portas automáticas do setor de emergência, ela deu de cara com o detetive Jack Huey parado na calçada. Ela mudou de rumo e indagou:

- Onde está ele? Cadê o Ray, Jack?

- Frannie, calma.

- Onde está o meu irmão?!

- Segundo andar, quarto 215. Eu só saí para fumar um cigarro.

- Como ele está, Jack? Oh, meu Deus, ele está ferido? Ele vai viver?

- Eles ainda o estão examinando, Frannie.

Ai meu Deus Ai meu Deus Ai meu Deus

- Mas parece que ele vai ficar bom.

- Ah, graças a Deus!

- Sua família está lá em cima. Perguntaram por você.

Ela correu:

- Valeu, Jack!

Francesca subiu as escadas o mais rápido que podia. À esquerda, encontrou um grupo de pessoas já bem numeroso, e uma enfermeira que tentava controlá-los. Coitada, ela quer controlar Vecchios? Boa sorte, pensou Frannie, sorrindo.

Ela se aproximou deles e Maria a assegurou que Ray estava totalmente fora de perigo, mas estava muito desnutrido e desidratado. Ele também tinha sido severamente drogado. Os médicos disseram que ele teria que ficar internado pelo menos mais três dias antes de poder andar. Frannie olhou para dentro do quarto. Ma estava com ele, e Linda estava ao lado do doente inconsciente. Por alguma razão, Frannie achou que Linda parecia ainda pior do que aparentava quando Ray estava desaparecido. A caçula dos Vecchio entrou no quarto, e beijou a testa da sua mãe antes de se virar para examinar Ray. Com cuidado.

Ele estava inconsciente, uma intravenosa no dedo indicador e um respiradouro no nariz característico. Frannie notou que ele tinha sido limpo e barbeado, e a pele dele tinha um tom cinza terrível, com manchas roxas na testa. Ela estremeceu. Então seus olhos chegaram perto de Linda. Francesca pôde observá-la atentamente. A moça estava em transe, olhando para Ray, segurando-lhe a mão. Linda tinha lágrimas que não paravam de descer pelas bochechas e ela mal respirava, mas não parecia lutar para ter ar. Ela sussurrava algo para Ray, algo que Frannie não pôde ouvir.

A Sra. Vecchio delicadamente guiou Frannie até a porta.

- Linda pediu para ficar com Ray até ele acordar.

- Mãe, ela não parece nada bem. O que ela tem?

- Ela ficou muito preocupada quando Raymondo sumiu.

- Todos nós ficamos, mãe, mas agora tudo está bem.

- Sim, mas você sabe que Linda é... sensível e especial.

- E onde está Fraser?

- Ah, outra coisa que quebrou o coração dela - disse mamãe Vecchio, sensibilizada - Ela disse que ele teve que partir, de repente. Ele mal pôde dar adeus.

Frannie logo tirou conclusões:

- Aquela inspetora...! Não tinha hora pior! Eu juro, mãe, aquela mulher odeia Fraser!

- Linda disse que fazia questão de explicar isso ao seu irmão pessoalmente assim que ele acordasse.

Foi aí que Linda ergueu a voz, em prantos:

- Oh, Ray!...Ray!

O detetive tinha os olhos semi-abertos e apertava a mão de Linda suavemente, um sorriso desmaiado. Ela tentou sorrir, as lágrimas ainda a rolar, enquanto Ray tentava falar. Linda tentou acalmá-lo na cama:

- Não, não fale nada, Ray. Agora está tudo bem. Você vai ficar bom. Toda a família está aqui, eu também, e Ben teve que partir, mas me pediu para dizer que está muito feliz que você esteja bem.

Ray tentou sorrir e Linda pareceu se iluminar. Uma enfermeira entrou e tentou afastar Linda.

- Lamento, senhorita, mas o médico precisa examiná-lo, agora que ele está acordado.

Linda assentiu e tentou limpar as lágrimas, enquanto falava com Ray:

- Eu volto, Ray. Amo você.

Ela foi levada até o corredor. A porta do quarto foi fechada para que o médico e a enfermeira pudessem fazer seu trabalho. Linda chegou-se à Sra. Vecchio:

- Ma, eu preciso ir agora. Dief está sozinho. Mas não queria deixar Ray.

- Não se preocupe, bambina. Vamos cuidar dele.

- Diga a ele... - Ela não podia mais falar e tentou de novo - Diga a ele que eu... - Ela começou a chorar de novo - Oh, Ma...!

A Sra. Vecchio a pôs nos braços com ternura e disse:

- Sim, sim, nós sabemos. Agora vá tranqüila, bambina. Descanse um pouco, e coma bem. Faça o que eu estou dizendo, eh? Não discuta.

- Ma, eu quero cuidar de Ray...

- Tem muita gente para cuidar dele. Agora vá tomar conta de si mesma.

Linda assentiu, ainda chorando, e saiu. Ray estava seguro, Ray estava seguro, era tudo que importava. Agora Linda tinha que ir para casa. Diefenbaker dependia dela.

* * *

A batida na porta era tão insistente que Linda não conseguiu voltar aos seus sonhos. Ela se ergueu da cama com dificuldade, cambaleou do quarto para a sala, tendo ao lado de si um ansioso Diefenbaker, que acompanhava seus mínimos movimentos. Ela não tinha sequer certeza de estar realmente acordada, mas as batidas na porta continuaram. Ela não pôde falar, mas destrancou a porta.

Linda viu apenas um clarão vermelho. Na porta dela, estava alguém usando o uniforme de sarja vermelha da Real Polícia Montada do Canadá. O mesmo alguém também usava um chapéu Stetson. O cérebro prejudicado de Linda não pôde suportar a visão, por mais breve que tinha sido. Os joelhos falharam, dobrando-se. Parecia que seu nome estava sendo chamado, mas ela não podia ter certeza.

Ela já estava no chão, os sentidos rapidamente fugindo dela.

- Srta. Linda?

A primeira coisa que Linda sentiu foi um nariz lupino gelado e molhado no pescoço dela, e ela não podia se mexer durante um segundo. Depois disso ela ouviu o nome dela ser chamado por uma voz grossa, bem distante. Depois havia o cheiro de chá de camomila. Ela abriu os olhos, e a visão se juntou aos seus sentidos. A voz parecia bem próxima agora.

- Srta. Linda? Pode me ver?

Linda mexeu os olhos com dificuldade e reconheceu o rosto acima do dela:

- Turnbull...?

- Sim, senhorita, sou eu. Oh, minha rainha. A senhorita está bem?

- Sim, Constable. Desculpe se...eu o assustei...

- Por que não toma um pouco de chá?

Ela se ergueu e sentou-se no sofá, para onde obviamente Turnbull a tinha levado. Ela também estava coberta com uma colcha que ele deveria ter tirado do armário. Turnbull passou-lhe uma grande xícara de chá e tomou conta para que ela não derramasse o líquido quente. Ela tomou um gole e fez uma careta:

- Eu não... - devolveu a xícara a ele - Obrigada...

- O que aconteceu, Srta. Linda? - Ele parecia muito preocupado - Devo levá-la a um hospital?

- Oh, não - Ela apressou-se em dizer, sem qualquer firmeza - Claro que não. Muito obrigada, mas... Eu só.... É que eu não tenho me sentido muito bem... Sim, estou um pouco doente. Mas estarei ótima, Constable.

Dief latiu, e parecia discordar. Turnbull ofereceu mais chá:

- Aqui, tome mais um pouco.

Ela recusou, as mãos trêmulas:

- Não, obrigada. Obrigada de novo. Constable, posso perguntar o que faz aqui?

Ele enrubesceu e parecia constrangido:

- Na verdade, eu estou... quero dizer, vim numa missão oficial. A inspetora Thatcher está preocupada. Constable Fraser não tem ido ao Consulado há dias. Ela soube do Detetive Vecchio, então sabendo da ligação entre os dois ela disse estar disposta a fazer uma concessão, o que seria inédito, mas ele não deixou qualquer mensagem, nem recado...

Linda fechou os olhos pesadamente:

- É tudo minha culpa, Turnbull. Na verdade, Ben nem viu Ray. Ele me pediu para explicar pessoalmente à Inspetora que ele precisou partir de repente, e eu estava esperando melhorar, mas... Bom, eu...

Turnbull a interrompeu:

- Eu entendo, Srta. Linda. Claro que não podia sair da casa nessas condições. Obviamente, sem telefone também ficou difícil relatar a mensagem. Explicarei à inspetora, ela vai entender. Tem certeza de que não quer ir ao hospital? Parece estar precisando de um médico.

- Eu estou medicada, obrigada, Constable. É muito gentil.

- Posso fazer qualquer coisa para ajudar? Talvez precise comprar remédios, ou coisa assim.

- É muito gentil, Constable, mas não será necessário - Linda começou a ficar cansada - Claro, Diefenbaker apreciaria água fresca. Eu não estou em condições de abrir a geladeira por causa da febre. O senhor se importaria de...?

- Claro que não. Fico feliz em ajudar.

O canadense alto de cabelo escovinha foi à cozinha e renovou o prato de água de Dief. O lobo sequer se mexeu, permanecendo o tempo todo ao lado de Linda. A moça também não se mexeu, mas era porque ela lutava em se manter consciente.

Turnbull voltou e foi recompensado com o sorriso fraco de Linda, a pele dela pálida ao extremo.

- Obrigada por tudo, Turnbull. Se puder ser gentil o bastante para dizer à inspetora que eu insisto em vê-la pessoalmente assim que eu melhorar...

- Com certeza - Ele disse - E a senhorita saberia dizer quando Constable Fraser voltaria?

Linda ficou ainda mais pálida.

- Não, eu não... não sei responder a isso, Constable Turnbull - Ela suspirou, exausta - Agora, se puder... por favor...

Turnbull finalmente percebeu o desconforto dela.

- Claro, Srta. Linda. Lamento ter lhe tomado esse tempo. Por favor, descanse bem. Desejo-lhe uma recuperação rápida.

- Eu fico muito agradecida. De verdade, Constable.

- Poderá trancar a porta depois que eu sair?

- Sim, eu só preciso... recuperar as forças... O médico também está a caminho - mentiu ela - Obrigada por tudo.

- Fico feliz em poder ajudar. Estimo suas melhoras, senhoritas.

Turnbull saiu balbuciando votos de melhoras e quando ele finalmente se fora, Linda suspirou, exausta. Depois ela se levantou do sofá, trancou a porta e se arrastou até a cama. De novo.

* * *

Ray Vecchio era um indivíduo extremamente irritado quando estacionou seu Buick Riviera em frente ao apartamento de Fraser e Linda. Ele estava enfurecido com seus amigos, pois eles nem tinham aparecido enquanto ele se recuperava do seqüestro. Ray ainda tentou se convencer de que não tinha sido uma recuperação penosa ou longa: ele ficara dois dias no hospital e mais três em casa até que seu corpo tivesse se livrado das drogas que seus raptores tinham usado. Mas isso não era desculpa para que nem Ben nem Linda tivessem aparecido. Eles também não tinham deixado uma única mensagem ou recado por telefone. Ray jurava que eles eram amigos mais fiéis do que aquilo. Bom, ele sabia que Benton tinha viajado, mas e Linda? Qual era a desculpa dela?

Ele subiu os degraus e bateu na porta do apartamento. Sem resposta. Ele bateu de novo, mais forte. Mesmo resultado. Ray decidiu ir por um caminho diferente. Armou seu sorriso italiano mais charmoso e bateu na porta ao lado.

- Srta. Mutchnik? - Chamou, assim que a porta se abriu - Lembra-se de mim?

- Claro - disse a mulher sorridente - É o detetive amigo de Ben e Linda. Como vai?

- Bem, obrigada. Olhe, Sra. Mutchnik, estou ficando preocupado. Faz um tempo desde que tive notícias dos dois, e agora parece que não tem ninguém em casa. A senhora sabe de alguma coisa?

- Na verdade, meu jovem, sabe que eu também estou começando a me preocupar? Parece que Ben teve que sair da cidade na semana passada, e eu não soube de Linda desde então, mas eu tinha certeza de que ela não tinha ido viajar com ele. O que me preocupa é que eu acho que ouvi o pobre cachorro no apartamento. Ele pode estar com fome.

Ray não gostava do que estava ouvindo. Ele agradeceu à Sra. Mutchnik, procurou acalmá-la, e decidiu que era hora de um pouco de ação. Voltou ao apartamento do casal e bateu com força, gritando:

- Tem alguém aí dentro? Linda! Abra a porta!

Finalmente uma resposta. Era um latido alto. Ray estava surpreso:

- Dief? Dief, é você?

O latido se tornou insistente, e mais alto. Ray nem pensou duas vezes. Ele deu alguns passos para trás e chutou a porta, arrombando-a.

Dief estava pulando com insistência, latindo para ele, e o detetive perguntou:

- Dief, você está sozinho aí, rapaz?

Diefenbaker não parou de latir, ainda pulando. Ray finalmente se deu conta de que os latidos eram algo que Dief normalmente não fazia. Ray correu para dentro da casa e foi direto para o quarto. Havia uma figura imóvel estatelada na cama. O coração de Ray quase parou.

Oh meu Deus.

Linda estava deitada de costas, aparentemente adormecida. Ele se aproximou com cuidado. Ela estava respirando. Ray não deixou de percebeu que a pele dela parecia acinzentada, as bochechas afundadas, os lábios sem cor. Ele tentou chamar:

- Linda?

Ela jamais respondeu, e Ray também achou que ela não responderia. Ele se sentou na cama e tentou abrir os olhos dela, viu a dilatação das pupilas. Ao tocá-la, notou que ela estava fria, a respiração era rala e irregular. Ray não notou, mas o coração dele estava acelerado, e Dief gania, arranhando as patas dianteiras no chão, como se pedisse ajuda.

- Ai meu Jesus - murmurou Ray, afastando as cobertas e tentando localizar qualquer ferimento em Linda, até agora inconsciente. Não havia ferimento. Mas as mãos delas estavam quase fechadas, agarradas a uma das túnicas vermelhas de Fraser. Ray não gostava do que estava pensando.

Durante o exame, Linda gemeu e se mexeu, mas não acordou.

Ray correu para a cozinha e pegou um pouco de água. Ele reparou que tudo parecia intocado, como se não tivesse havido qualquer atividade ali há dias. As tigelas de Diefenbaker estavam no chão, ao lado do fogão como sempre, mas estavam vazias.

Ai meu Deus.

O italiano voltou rapidamente para o quarto e colocou Linda sentada, para tentar forçar um pouco de água nos lábios dela. A maior parte do líquido escorreu pelo queixo e pescoço, mas ao menos ela acordou. Ou quase.

- Oh...

- Linda - insistiu Ray - Linda, fale comigo.

Ela tentou abrir os olhos, mas ela estava muito fraca. Foi um esforço e tanto. Finalmente ela fixou o olhar tempo o bastante para reconhecê-lo:

- Ray...?

- Sim, Linda, sou eu. Linda, por favor, me diga: o que houve?

- Estou doente, Ray...

- Isso eu percebi. Por que não chamou?

- Eu estava... na cama...

- Linda, você está tremendo. Tem febre também. O que houve?

Ela fechou os olhos, suspirando:

- Eu fiquei cansada... Estou cansada, Ray...

- Não, você está fraca, é diferente. Onde está Fraser?

Ela não respondeu. Ray sentiu que tinha atingido um ponto sensível:

- Você falou que ele teve que viajar. O que você sabe sobre isso? Para onde ele foi?

Linda olhou para o lado, e Ray ficou cada vez mais convencido de que aí estava a explicação de tudo. Normalmente, ele teria poupado Linda da dor. Mas a situação era diferente. Ele tinha que pressioná-la.

- Linda, você tem que me dizer. Fale comigo, Linda, por favor.

Ela pareceu se contorcer:

- Ele viajou, Ray... Ele não voltou...

- Sim, eu sei - Ray inspirou, controlando a ansiedade para não dar um grito com ela - Mas onde ele está?

Linda começou a chorar:

- Eu... não sei...

Um calafrio percorreu a espinha de Ray.

- Linda, fale comigo. Se não falar comigo, vou colocar toda a polícia de Chicago atrás dele. Algo aconteceu com ele, não foi? Ele levou um tiro, foi morto, o quê? Tem que me dizer!!

Ela disse, as lágrimas caindo livremente pelas bochechas, a voz sumida:

- Ele foi embora.. Ele partiu...

- Sim, sim, eu sei disso. Ele partiu, você disse antes. Mas eu preciso saber -

Então Linda explodiu:

- Ele me deixou!! - E ela afundou a cabeça entre as mãos, soluçando e repetindo - Ele me deixou, Ray!.. Ele me deixou! Para sempre!!

Ray jamais tinha visto tamanho desespero em Linda antes, mesmo nos momentos mais difíceis que ela tinha passado. Instintivamente, ele a abraçou, e ela mergulhou no peito dele, tremendo, chorando alto, lavando uma dor tão profunda quanto a ferida que a tinha provocado. Ray também podia sentir seu temperamento italiano começando a ferver. Ele jamais imaginou que pudesse sentir tamanha fúria e ira por seu melhor amigo (seu ex-melhor amigo, ele corrigiu), e pensou em matar Fraser assim que pusesse os olhos nele novamente. Na verdade, pensou nisso com ardor.

- Não! - Linda ergueu a cabeça, os olhos verdes tingidos de vermelho, inchados - Não, Ray! Por favor, não o mate!

Ele tinha falado em voz alta?

- Então fale comigo, Linda. Ele disse por que ele estava indo embora?

- Ele disse - Ela engasgou e soluçava terrivelmente - que não... me amava... Que tinha se... cansado de mim... Nunca tinha me amado... Amava outra pessoa... Do seu passado... Sempre a amou...

As palavras e a mágoa que Ray ouvira na voz dela estilhaçaram seu coração latino, e ele falou algumas palavras em italiano que não constam do dicionário, dessa vez bem baixinho. Na sua cabeça, ele tentou não imaginar quem seria "a outra pessoa do passado" que Linda tinha mencionado. Sem poder se controlar, começou a tremer. Aquela cobra... Tudo que ela precisa fazer é chamar e ele vai atrás dela feito um cachorrinho...

Primeiro, ele procurou afastar esses pensamentos, e voltou sua atenção para Linda, pegando as mãos dela entre as suas e dizendo, sinceramente:

- Oh, Linda... Eu sinto tanto...

- Ray - Ela se aninhou entre os braços dele, ainda sem poder controlar os soluços e o choro - Ray, se ele... não me amava... por que ele disse... que me amava?... Eu... teria... entendido...

- Linda, ele disse para onde estava indo?

Ela negou com a cabeça, ainda em prantos:

- Não... Ele deixou... os uniformes... Disse... que eu podia... ficar com eles... e com Dief... Eu lamento... Ray... Não pude.. Então eu não consegui... Não pude... Ray, eu...queria, mas...não pude...

Ele tentou acalmá-la:

- Linda, tente se acalmar. Respire primeiro. O que você não pôde?

- Eu não pude... ver você... Ray... No hospital... Eu queria... mas fiquei doente... Eu sinto tanto...

Ray se lembrou de como se sentia assim que chegara ao prédio e se sentiu culpado por ter ficado com raiva dela, mas tentou afastar aquilo:

- Não precisa. Você tinha outras coisas em que pensar.

Ela soluçou em silêncio durante uns instantes, depois reclamou:

- Estou cansada... Ray, eu tentei... esquecer... Mas eu fiquei... tão cansada... Tão cansada, Ray...

Ele beijou a testa dela e disse:

- Olha, Linda, é melhor descansar um pouco. Eu preciso cuidar de umas coisas, mas volto já, tá bom?

- Tá.

Ela deitou-se na cama, agarrada à jaqueta de sarja vermelha como um cobertor. Ray esperou um pouco até que os soluços dela diminuíssem, depois saiu do quarto. Pegou o telefone celular que estava no bolso de seu paletó e discou o número do hospital.

Levou muito tempo e muita conversa para convencer o Dr. Lennyard que, apesar do seu estado, Linda poderia ir com ele para a casa dos Vecchio. O psiquiatra diagnosticou que ela estava em estado de pré-choque e severa desidratação, por estar há uma semana sem comer ou beber coisa alguma. A inatividade era a razão principal de Linda não estar tendo complicações renais ou parecidas, bem como o calor gerado pelo lobo, que aparentemente não a largara esse tempo todo.

Em seguida, Ray ligara para sua casa e alertara sua mãe do que acontecera com Linda. Ao saber que a menina estava seriamente doente e não podia tomar conta de si mesma, então ela iria morar com eles uns tempos, a italiana começou os preparativos. O quarto de hóspedes estaria pronto para quando ele chegasse com a pobre bambina.

Ray também não se esqueceu de falar com a Sra. Mutchnik, explicou o que acontecera e depois voltara à casa de Linda para oferecer um pouco de água a Diefenbaker. O pobre lobo provavelmente também estava sem água ou comida há tanto tempo quanto Linda. Bom, ele teria que esperar até chegar à casa dos Vecchio para ser alimentado.

O próximo passo era preparar algumas roupas dela para serem levadas. Quando Ray entrou no closet, viu mais dois uniformes de Fraser. Ele limitou-se a abanar a cabeça, tentou não pensar naquilo, ou o sangue dele iria ferver de novo. Todo esse tempo, Ray tinha que fazer um esforço e tanto para não pensar no que teria realmente acontecido a Fraser. O detetive estava tendo dificuldade em acreditar que ele tinha simplesmente abandonado Linda, saindo como um canalha qualquer no meio da noite. Mas Linda não teria mentido sobre aquilo, claro que não. Fraser realmente tinha feito isso. Muita gente iria se desapontar com ele. Pior que isso, parecia que Victoria tinha voltado para a vida dele. Ray sabia o que aquilo significava: desgraça, angústia e sofrimento para todos os envolvidos. Se é que existe o mal puro e encarnado, é aquela mulher, pensou Ray, desgostoso.

A pequena valise que ele fez já estava no Riv e ele voltou para pegar Linda. Ela parecia estar adormecida, mas não tranqüila, e ele tentou acalmá-la:

- Tá bom, Linda, lá vamos nós.

Ela se mexeu, mas não acordou, quando ele arrancou os dedos dela da túnica de sarja e a envolveu num cobertor, sem deixar de reparar que ela parecia pesar quase nada. Tinha perdido mesmo muito peso. Ela jamais recuperou a consciência, e gemeu um pouco. Então Ray olhou para o chão e chamou o lobo:

- Vamos lá, totó.

Dief o seguiu fielmente, e Ray colocou Linda no banco de trás, o lobo indo no banco da frente do Riv pela primeira vez. Em Chicago, a tarde caía e a temperatura também.

* * *

À distância, alguém chamava seu nome. Linda estava se sentindo muito confusa, mas de repente algo a aqueceu, e ela quase se sentiu feliz. Ela chamou:

- Benny...

Por um momento muito breve, um instante fugidio, Linda pensou que ele estivesse vindo. Mas então o nome dela foi chamado de novo, e de novo, sempre com muito carinho. Ela lutou para abrir os olhos antes de escorregar para o mundo líquido que a chamava. Então a voz pareceu próxima.

- Linda, por favor, mia cara.

Linda pareceu reconhecer a voz:

- Sra. Vecchio?

A italiana sorriu e encarou-a:

- Olá, bambina...

Linda olhou em volta e viu que não estava mais em casa. Reconheceu o quarto de hóspedes da casa dos Vecchios Ela fez uma careta, sem saber como tinha chegado à casa:

- Como foi que eu... vim para cá?

- Raymondo a trouxe porque você não podia tomar conta de si mesma - A italiana a acariciava na testa, e Linda se sentiu tão confortada com um gesto tão simples. - Isso foi ontem, e você não tinha acordado esse tempo todo.

Ela lutou para se erguer nos cotovelos, o mundo girando:

- Oh, não... Eu não quero... incomodar...

- Nem tente - Ma Vecchio advertiu gentilmente - Está tudo bem, e você não vai incomodar. Mas precisa comer alguma coisa. Precisa ser leve. Seu estômago não vai conseguir suportar se não for.

Linda não queria comer. Mas a Sra. Vecchio não tinha criado quatro filhos sem saber como lidar com crianças que não queriam comer, então ela conseguiu fazer Linda engolir algumas colheradas, depois deixou que ela descansasse um pouco mais. Comer forçava Linda a ir ao banheiro, e a obrigava a levantar, bem como fazia grande parte do corpo dela trabalhar internamente. O metabolismo todo de Linda, que tinha ficado totalmente fechado durante dias, começava a responder no mesmo dia.

- Ei - A porta do quarto se abriu e Linda viu Ray sorrindo para ela - Como você está?

Ela quase sorriu, e Ray ficou doído de ver os olhos dela sumidos em meio à pele e ossos que tinham sido o rosto radiante dela quando sorria. Ela deu de ombros:

- Acho que estou melhor.

- Você parece melhor - mentiu ele - Posso entrar?

- Por favor, Ray - Ele obedeceu e sentou-se na cama dela - Como você está?

- Eu? Vou voltar à delegacia em dois dias.

Linda não estava muito interessada em lidar com seus próprios problemas e indagou:

- Ray, posso fazer uma pergunta?

- Claro que sim.

- Eu queria saber. Ninguém me disse o que aconteceu com você. Você sumiu, ficamos todos tão preocupados, mas eu ainda não sei o que aconteceu. Quem fez aquilo?

Ele abanou a cabeça:

- Não se tem uma pista. Eu estava indo para me encontrar com Martha, quando vi o que parecia ser alguém tentando arrombar o Riv. Eu gritei, o cara fugiu, eu corri atrás, e então alguém de repente me derrubou. Fui drogado e depois disso só me lembro de ter acordado no hospital, olhando para você. Eles me acharam por uma dica anônima de um telefone público. A pessoa que deu a dica estava 100% certa. O Riv já tinha sido achado antes, totalmente limpo.

- Mas você não foi ferido, não é? Disseram que você estava bem.

- Não, não fui ferido, só drogado e abandonado. Disseram que eu tinha ficado dias só à base de drogas. Meu corpo estava muito dolorido.

- Ficamos tão preocupados - Linda estremeceu. - Todo mundo no distrito ficou. Você precisava ver o quanto Ben trabalhou para -

De repente ela parou, a dor no peito voltando, as lágrimas mais uma vez a congestionar seus olhos e nariz. Ela abaixou a cabeça. Ray pegou a mão dela:

- Está tudo bem. Pode falar.

- Sei que você está com raiva dele, Ray. Mas ele foi seu amigo. Ele tentou achar você de tudo que foi jeito, Ray - disse ela - Ele fez tudo o que podia.

- Eu já calculava tudo isso. Jack tinha me dito no hospital. Claro, naquela ocasião, todo mundo pensava que ele tinha ido a uma viagem a serviço do Consulado.

Aquilo fez Linda dar um pulo:

- Oh, meu Deus! Consulado...! Eu... eu deveria ter ido ver a inspetora Thatcher...! Eu prometi a Turnbull que iria pessoalmente. Isso é importante.

Ray disse:

- Bom, você não pode ir ainda. Está muito fraca. Olhe, posso ligar pessoalmente para a Mulher Dragão e pedir para ela vir até aqui. Assim está bom?

Linda assentiu, encabulada:

- Suponho que... sim. Eu... tinha um papel para dar a ela... Mas eu perdi...

- Um papel?

- Ben me deu o papel antes de... ir embora - Ela ainda não podia dizer as palavras - Eu estava meio confusa, então...acho que perdi. Não me lembro direito o que era... Ele me disse, mas eu... esqueci...

Ray disse:

- Linda, sei que isso é difícil para você, mas preciso saber. Precisa me dizer exatamente o que aconteceu. Como foi que aconteceu? Onde foi isso? Vocês brigaram? - Linda abaixou a cabeça, as lágrimas já rolando. Ray insistiu: - Linda, lamento ter que pedir isso. Mas eu preciso saber. Não estaria perguntando se não fosse importante. Acredite em mim.

Ela assentiu, e Ray achou melhor trazer a caixa de lenços de papel para perto dela. Ela suspirou:

- Tá bom, Ray.

 

Linda estava muito animada naquela noite quando entrou no Chandler's, o barzinho gorduroso que ficava em frente à escola noturna. Ray tinha acabado de ser encontrado e Fraser estava ali, o que provavelmente significava que Linda iria perder a última aula para poder visitar o detetive no hospital para onde ele tinha sido levado. Ainda não havia muitos detalhes sobre a libertação de Ray, e Linda estava extremamente curiosa. Ela estava tão excitada que mal podia se controlar. Chegou perto de Ben quase pulando:

- Você ouviu? Ouviu, Ben?

Ele não sorria e livrou-se dos braços dela:

- Vejo que já soube sobre Ray.

- E nós vamos agora mesmo para o hospital, não é? Digo, foi por isso que você veio, não foi?

Fraser não estava sorrindo, e Linda viu a mochila dele no outro banco do reservado.

Martha reparou que Fraser a encarava, chapéu na mão, uma mochila e o saco de dormir no banco do reservado. Então ela sabia que era preciso dizer:

- Er... Eu falo com vocês depois.

Fraser disse:

- Muito agradecido, Martha - A moça se virou para ir embora, e ainda ouviu - Linda, sente. Temos que conversar.

Martha foi para o reservado do outro lado do bar, conversar com seus colegas. Fraser esperou até que a moça tivesse saído e Linda estivesse sentada para dizer:

- Vim avisar que estou partindo.

O rosto dele estava fechado, Linda notou. E ela não conseguiu se lembrar de jamais tê-lo visto assim antes. Linda se surpreendeu:

- Partindo? Para onde?

- Ainda não sei.

- E quando vai voltar?

- Não vou voltar - disse a voz seca - Estou deixando você.

Linda parou de falar e a boca dela permaneceu ligeiramente aberta por alguns segundos. Antes que ela tivesse uma chance sequer de balbuciar, Fraser continuou a falar:

- Isso - tirou um envelope do casaco e colocou na mesa - é minha carta de demissão da RCMP. Quero que a entregue pessoalmente à Inspetora Thatcher na primeira oportunidade. Também estou deixando Diefenbaker, para que você tome conta dele.

Linda olhou para o envelope, incapaz de acreditar no que seus ouvidos lhe traziam. Ela olhou para o rosto de Ben, procurando localizar algum traço de brincadeira ou piada. Não havia nenhum. Também não havia o mínimo sinal de compaixão ou ternura. Ele estava sério, e aquilo fez com que a espinha dela produzisse tremores em série:

- Ben...? - A voz dela falhou - Ben... Por favor, fale comigo...

Ele suspirou, parecendo entediado:

- Olhe, meu primeiro impulso foi simplesmente sair, sem dizer coisa alguma. Isso era o que eu gostaria de ter feito, porque evitaria uma cena. Não quero nenhum escândalo. Não me implore para ficar, não tente me fazer mudar de idéia. Tomei minha decisão e não quero qualquer ceninha. Se você fizer uma, eu saio nesse exato minuto.

Os olhos de Linda se arregalaram, e a cabeça dela começou a entrar em parafuso. Ela não acreditava no que acontecia, nem na pessoa em sua frente, um estranho total, frio e insensível.

Mas Ben tinha dito que não queria escândalos. Ela conseguiu (sem saber de onde) juntar energia para indagar:

- Por quê...?

Mais uma vez, ele suspirou, e evitou encará-la:

- Não sei como tem coragem de me fazer essa pergunta. Eu percebi que não amo você. Eu jamais amei você. Só estava perdendo meu tempo, e não quero continuar assim. - Ele parou, deu um meio sorriso - Claro, você foi uma trepada interessante, mas agora não posso mais agüentar você por perto. Você me faz mal.

Nunca, jamais, Linda tinha ouvido palavras tão terríveis de Ben. Pior ainda, ela nunca tinha visto tanto rancor ou raiva na voz que ela tanto amava. Antes mesmo que ela se desse conta, lágrimas já corriam pela face dela, e ela parecia se encolher na cadeira:

- Eu... sinto muito, Ben.

Talvez ele nem estivesse tentando, mas Fraser não evitou a expressão de nojo e desgosto ao falar:

- Agora é tarde para isso. Não sei o que me fez acreditar que eu poderia sequer gostar de você. Talvez essa sua doença seja contagiosa, e eu fiquei infectado por algum tempo. Mas agora posso ver as coisas com clareza. Você é uma doida esquisita, e seu lugar é no hospício, de onde nunca deveria ter saído. Não admira que você não entendesse por que eu estava com você. Você mesma vivia me perguntando isso, sempre dizia que era doida, e estava certa. Além do mais, descobri que amo outra pessoa. Aquela de quem lhe falei. Ao menos, ela é normal. Eu sempre a amei.

Linda tinha a cabeça abaixada, envergonhada, sentindo cada palavra que ele pronunciava atingi-la como se fosse uma chicotada. Ela conseguiu dizer:

- Eu... nunca quis magoá-lo, Ben... Acredite... Por favor... Precisa acreditar... Jamais quis magoar você...

- E você não vai mais fazer isso comigo. Você vai ficar longe de mim, entendeu? Não procure por mim, não tente me seguir. Você me ouviu?

Nada de escândalo, ela repetiu. Ela sentiu que era uma outra pessoa usando o corpo dela para falar:

- Sim... Eu lamento ter causado tanta dor, Ben. Gostaria... de corrigir isso...

- Quero que você diga a Ray que eu gostaria de ter dito adeus a ele também, mas por sua causa, eu não vou poder fazer isso. Por sua causa, Linda. - Aquilo teve uma dor toda especial no coração dela - Ray é um bom amigo, e vou sentir falta dele. Diga isso a ele.

- Sim, Ben.

- Você vai descobrir que deixei alguns uniformes no apartamento. Não vou voltar para pegá-los. Não alimente qualquer esperança de me ver novamente. Não pretendo voltar jamais para Chicago, mas se eu algum dia fizer isso, não me procure, porque eu nunca mais quero ver você novamente. Você pode nem estar pensando em me procurar, mas se eu suspeitar que está e se eu a vir por qualquer motivo, eu vou interná-la num piscar de olhos, entendeu?

Ela assentiu, fungando, o coração dela sangrando em profusão:

- Sim, Ben, eu entendi.

- Finalmente. Como sempre, você demora para entender as coisas. Agora preciso ir. Perdi mais tempo do que pretendia com você. E já perdi tempo demais da minha vida com você.

- Sim, Ben. Eu... - Ela queria dizer alguma coisa, mas não sabia o que podia falar que não o irritasse ainda mais. Ele certamente estava com muita raiva dela. - Eu... lhe desejo... boa sorte. Posso... fazer alguma coisa mais por você?

- Sim. Saia da minha vida. Para sempre.

Aquilo a fez sentir um punhal cravado no fundo de sua alma.

Ele pegou o Stetson e ajeitou a mochila nas costas, bem como o saco de dormir. Ele parou o que fazia só para adverti-la mais uma vez, os olhos azuis cruéis ao extremo:

- Não tente me seguir. Volte para a sua aula de retardados, e fique longe de mim, longe da minha vida. Vai se arrepender se não fizer como eu disse.

Os olhos de Fraser em Linda a recortaram como se fossem raios laser. Estranhamente, quando ele arrumou o chapéu na cabeça e se virou para ir embora, ela não derramou uma lágrima. O mundo todo estava girando ao contrário, a cabeça dela latejava e as paredes pareciam se fechar sobre ela. Mais estranho ainda, não parecia doer tanto. Feridas profundas nunca começam com muita dor, ao contrário de pequenos arranhões e cortes com papel.

Então Fraser saiu. Linda não acreditava no que via.

Isso não está acontecendo. Isso não é verdade. Não pode estar acontecendo.

Martha viu Fraser saindo e se viu obrigada a ir até Linda, que parecia extremamente distraída, pegando seus livros e erguendo-se da mesa:

- Linda? Tudo bem?

Tudo que a moça disse foi:

- Vamos voltar. As aulas já vão começar.

Até a voz parecia diferente, notou Martha. Estava baixa. Ela perguntou:

- Mas... eu pensei que você fosse ao hospital ver Ray.

- Eu vou. Depois da aula. Benny me pediu para não faltar às aulas.

- Ele está indo para o hospital?

Linda não respondeu à pergunta de Martha, e voltou para a sala de aula. Ela fez tudo, exatamente tudo, exatamente como Fraser pedira que ela fizesse.

 

Ao fim de seu relato, Linda estava enroscada nos braços de Ray, chorando abertamente no quarto de hóspedes da casa dos Vecchio. O italiano estava ainda mais magoado com tudo que tinha ouvido da moça. As coisas que Fraser dissera a Linda eram inacreditáveis. Ele quase pensou que Linda poderia mesmo estar mentindo. Mas ele sabia que Linda não mentiria a ele sobre o que tinha acontecido.

Ray deixou Linda chorar um pouco, e depois quis saber;

- Por que você ficou na sua casa, Linda? Você quase morreu de fome.

- Eu... - Linda assoou o nariz num lencinho de papel, tentando respirar melhor. - Eu queria... sentir o cheiro dele... O cheiro... ainda está na casa... na cama... nos uniformes... nos travesseiros... E depois... depois... eu comecei a ficar confusa... e sentia frio, Ray, tanto frio... Eu sinto falta dele, Ray...!

- Sim, eu também sinto falta dele. Mas agora é bom você tentar descansar um pouco. Ainda está fraca.

Ela fungou alto e assentiu, cansada demais para protestar, os olhos vermelhos, a cabeça novamente latejando. Diefenbaker (que estava sempre ao lado dela) ganiu baixinho quando Ray a colocou de novo na cama e a cobriu com as cobertas. Depois ele disse:

- Eu vou trazer um pouco de suco.

- Não, obrigada, Ray.

- O médico disse que precisa tomar - ele insistiu com gentileza - É como remédio, tá? Precisa tomar.

Ela faria qualquer coisa que Ray dissesse para ela, mesmo que não quisesse. Então ela assentiu, e ele saiu do quarto. Ela agarrou as pernas e caiu no choro. Diefenbaker subiu na cama e se enfiou debaixo das cobertas. Linda estava feliz que o lobo estivesse ali. Cansada como estava, ela o abraçou com força, seu coração partido de alguma forma mais confortado só pelo apoio moral que o lobo lhe dava.

* * *

No dia seguinte, Linda recebeu uma surpresa inesperada. Na verdade, ela recebeu duas visitas naquele dia, mas a primeira era verdadeiramente uma surpresa. Ela tentou se ajeitar na cama assim que viu quem era, toda a cor fugindo de suas faces.

- Ai meu Deus, inspetora Thatcher... Eu lamento tanto...

- Por favor, não se sente, Srta. Lyme - A mulher elegante e bem-vestida parecia mais gentil do que Linda se lembrava, quando ela se sentou perto da cama de Linda - Me disseram que você ainda estava muito fraca, mas estava aflita para falar comigo.

- Fico honrada que tenha vindo, inspetora - disse Linda - Eu deveria ir ao Consulado, mas não pude.

- Sim, o Constable Turnbull me disse que tem uma mensagem do Constable Fraser.

Linda estava tão vermelha quanto podia, em sua pele ainda pálida:

- Na verdade, inspetora, ele me entregou um papel, mas... eu acho que o perdi. Lamento muito.

A inspetora sorriu, e pela primeira vez, Linda sentiu que era um sorriso verdadeiro, não um sorriso diplomático, um treinado para qualquer tipo de ocasião diplomática, social ou policial.

- O detetive Vecchio me disse que era uma carta de demissão. Como Fraser nunca voltou ao trabalho, a demissão dele será automática depois de passado um certo período de ausência. Mas pode ser um meio.

Linda não entendeu.

- Um meio?

- De salvar a carreira dele.

- ????

- Srta. Lyme, pode não ter se dado conta, mas na verdade pode ter ajudado Fraser, e muito, ao perder a carta de demissão.

- Verdade?

- Sim. Veja, se tivesse me dado a demissão, ele estaria fora da RCMP em questão de dias. Mas agora ele apenas está ausente sem licença. Para todos os propósitos práticos, ele apenas sumiu, e não sabemos o que aconteceu com ele. Podemos considerá-lo desaparecido.

Linda ainda não entendia o que se passava.

- Mas nós sabemos o que aconteceu com ele. Ele foi embora, inspetora.

- Não do modo como eu vejo a coisa. Ele deixou o seu lobo e seus uniformes. Quem pode dizer se ele não tencionava voltar? Ou se ele foi embora de livre e espontânea vontade?

- Eu posso, porque ele me disse - Mas então finalmente Linda entendeu - Mas não devo fazer isso, não é?

O sorriso de Thatcher se abriu ainda mais.

- Agora está entendendo.

- Mas inspetora, isso não é...

- Meus superiores estão em Ottawa, Srta. Lyme. Longe demais para alguém se importar. Com a reputação de Fraser, eles não vão se importar mesmo.

- Por favor, me chame de Linda - pediu a moça - Não gosto que me chamem pelo outro nome.

- Então deve me chamar de Meg.

Linda se sentiu espantada, mas obedeceu:

- Certo... Meg.

- Como eu dizia, estando tão longe, meus superiores também teriam dificuldade em verificar o que realmente acontece. Com a demissão, Fraser iria perder todos os benefícios dos quase 20 anos de dedicação à força.

Linda abaixou a cabeça:

- E a culpa é toda minha. Eu não me dei conta do mal que causei a ele. Eu realmente não sei fazer nada direito.

Foi a vez de Meg Thatcher não entender:

- Do que está falando, Linda?

- Ben... Quero dizer, Constable Fraser - Ela se corrigiu - Ele partiu por minha causa. Ele disse que eu o magoava.

- Você o magoava? Como pode ser? Vocês pareciam bem, e ele dava a impressão de estar muito contente.

- Na verdade, eu não sei, mas tudo é minha culpa - Meg se deu conta de que a moça tinha ficado muito, muito amargurada. - Mas fico muito feliz de que eu o esteja ajudando. Se eu puder fazer qualquer coisa pela senhora, inspe - quero dizer, Meg - por favor, me diga. Posso limpar todo o Consulado, ou sua casa, lavar seu carro. Qualquer coisa.

Meg sorriu:

- Não vai ser necessário. Estaremos de olho em qualquer notícia sobre Fraser. Se ele tentar deixar o país, podemos pegá-lo. Aí você poderá vê-lo.

- Não, por favor, não faça isso! - Linda implorou, assustando a canadense. - Ele me pediu especificamente que jamais o visse de novo, nem jamais o procurasse. Por favor, ele parecia muito sério sobre isso. Não quero aborrecê-lo mais do que já fiz, de modo algum. Por favor, me diga que não fará isso.

A inspetora assumiu a máscara da diplomata ao assegurar:

- Está bem, Linda. Deixe eu lhe dizer o que podemos fazer. Podemos simplesmente seguir com o plano e tentar ajudar Fraser. O que acha?

Linda estava ansiosa para ajudar:

- Está bem. Muito, muito obrigada. Obrigada, mesmo.

- Não, Linda, eu é que tenho que agradecer por salvar a carreira de Fraser. É uma carreira que vale a pena salvar.

Linda tentou sorrir, e então a inspetora saiu. Mas não antes de ter uma longa e sincera conversa com Ray.

A segunda visita que Linda recebeu foi a do Dr. Lennyard, no final do dia. Essa foi muito dolorida. O psiquiatra viu que Linda estava à beira de uma severa depressão. Eles conversaram por uns 40 minutos e àquela altura Linda já tinha chorado tanto que estava exausta. O médico pediu que ela descansasse, e desceu as escadas, onde Ray o esperava ansioso, sua mãe ao lado. O Dr. Lennyard anunciou:

- Ela está dormindo agora. Precisa do descanso. Posso falar com vocês um minuto?

Mamma Vecchio os fez sentar na sala de estar enquanto ela servia café para o doutor e Ray. Dr. Lennyard suspirou e Ray confessou:

- Estamos muito preocupados, doutor. Não sabemos o que fazer.

- O que têm feito até o momento parece muito bom. Eu não estava muito certo de ter feito a coisa certa ao deixá-la aqui ao invés de levá-la para o hospital. Normalmente, numa situação assim, eu já a teria internado. Agora estou convencido de que ficar aqui será bom para ela.

Ray se permitiu um pequeno suspiro de alívio. O psiquiatra sacudiu a cabeça:

- Mas não vou mentir para vocês. Linda está a ponto de uma imensa regressão em seu processo. O fato de ela não ter se fechado num estado catatônico e de estar cercada por pessoas compreensivas que a amam muito são os dois únicos aspectos positivos de toda a situação. Ela tem sorte em ter vocês, ou ela já teria voltado para a instituição a essa altura.

Ma Vecchio se benzeu e disse:

- Não deixaremos que isso aconteça, senhor doutor. Ela é da família.

O Dr. Lennyard apreciou o bom café que tinha nas mãos e disse:

- Linda está mais do que deprimida, Sra. Vecchio. Ela sente culpa, ódio e impotência. Ela não se permite sequer sentir raiva pelo que Fraser fez, e redireciona a raiva para si mesma em forma de culpa. A auto-estima dela nunca foi muito alta e nesse exato momento, parece estar estilhaçada. Pelo que me contou, detetive Vecchio, o modo como o policial Fraser rompeu o romance foi sob medida para os traumas de Linda. Parecia que ele sabia exatamente onde doeria mais para Linda e atacou justamente esses pontos.

Ray disse:

- Ela disse à inspetora Thatcher ser culpada pelo que está acontecendo. A inspetora ficou muito espantada.

- Sim, repare que ela está começando a soar como autodestrutiva. Aquela semana inteira que ela passou sozinha, sem comida ou bebida, pode ser considerada uma forma inconsciente de suicídio.

Ma Vecchio murmurou, fazendo o sinal da cruz:

- Santa Maria Madre Dio.

O médico apressou-se a completar:

- É altamente improvável que ela tente algo contra sua vida diretamente. Então, assim que ela esteja forte o bastante para sair, eu recomendo caminhar, brincar com as crianças da casa. Eu vi a dedicação dela ao tomar conta do lobo, então ela deve ser encorajada a fazer isso. Mais tarde falarei com ela sobre voltar ao trabalho. Por agora, ela pode se considerar sob licença médica.

- Então - Ray queria saber - devemos falar sobre o que aconteceu? Ou evitar falar disso?

- Não, evitar o assunto pode atrasar o processo. Ela precisa lidar com o que aconteceu. Sei que é duro para Linda, mas ela precisa em primeiro lugar se dar conta de que não foi culpa dela. Ela não vai ouvir a princípio, e será muito difícil. Precisarão ter paciência. Eu não recomendaria levá-la ao apartamento, a menos que ela peça explicitamente para ir lá. Pode ser um sinal de que ela está pronta para lidar com isso.

- Eu vou amanhã pegar mais roupas dela - anunciou Ray - mas pode ser uma boa idéia primeiro lavá-las.

- Por quê?

- Ela diz que pode sentir o cheiro de Fraser nas roupas, na cama, em todo o lugar. Acho que ela está exagerando, mas com Benny a gente nunca sabe.

- Acredite, Raymondo, ela pode sentir o cheiro dele, sim - disse a Sra. Vecchio gentilmente - Quando seu pai morreu, o cheiro dele ficou na casa durante meses.

- Sua mãe tem razão - disse o Dr. Lennyard. - O processo que Linda está passando é muito semelhante ao luto pela perda de um esposo. Foi muito súbito para ela, e aparentemente não houve qualquer aviso. Também houve a tensão pelo seu desaparecimento. Foi muito para ela de uma vez só. Especialmente devido ao fato de ser bastante possível que ela talvez ainda acredite estar grávida.

Ray sentiu que o queixo dele estava encostando na mesa. Ma Vecchio levou as mãos à boca, olhos arregalados.

- Madonna!.. - fez ela.

- Mas... ela não falou...! - completou Ray. - Ninguém falou! Meu Deus, ela... está...?

O Dr. Lennyard apressou-se em dizer:

- Não, não ela não está grávida, detetive. Os sintomas que ela apresentava eram indicativos, mas os exames mostraram apenas um desequilíbrio hormonal. Pode ser corrigido com remédios. O médico que a examinou me enviou a receita.

Ray quis saber:

- Falando nisso, doutor, não seria bom alguma coisa também para essa tristeza dela? Ela está nervosa.

O médico concordou:

- Eu vou passar uma medicação. É leve, mas necessária. Vou querer vê-la uma vez por semana, também.

Ray assentiu e disse:

- Obrigado por tudo, doutor. Eu gostaria de agradecer mesmo. Sei que tivemos nossas diferenças no passado, mas...

O Dr. Lennyard o interrompeu, erguendo-se:

- Detetive, é amigo de Linda. Agora ela precisa mais de amigos do que de médico. Eu não sou estúpido de negar isso. Vocês têm meus números, e podem me chamar a qualquer hora do dia ou da noite. Aqui está a receita do remédio. Ela deve tomar uma pílula por dia nos primeiros quatro dias, depois toma duas.

Mamma Vecchio disse:

- Obrigada, dottore. Fique certo que vamos cuidar bem de nossa bambina.

- Oh, eu tenho certeza, Sra. Vecchio. Boa noite.

Ray levou o médico até o carro e fez mais perguntas sobre a condição de Linda, algumas que ele não queria fazer na frente da mãe. Quando o médico foi embora, Ray ainda pensava nas respostas que obtivera.

Linda estava muito fraca. Movimentos bruscos a deixavam tonta, então ela só se locomovia lentamente. Ela não agüentava ficar em pé muito tempo também, então ela preferia não se aventurar muito para fora do quarto, ao menos por enquanto. Não que ela estivesse muito interessada em coisa alguma. Ela mal se importava se estivesse viva ou morta, mas ainda se sentia com forças suficientes para ser gentil com seus anfitriões. Era só por causa dos Vecchios que ela fazia todo aquele esforço para comer e andar.

Ela se sentia exausta aquela tarde, então ela ficou na cama, deitada, imóvel, Dief a seus pés em cima da cama. O lobo se revelou uma companhia constante e leal, bem como um guardião atento. Linda sabia, mas não podia imaginar totalmente, quantas vezes Diefenbaker lhe tinha salvado a vida nos últimos dias.

De repente, o lobo ergueu a cabeça e rosnou bem baixinho, mas o som saiu alto no quarto silencioso. Linda ergueu a cabeça e perguntou:

- Dief, o que é?

O animal fez um woof rápido e Linda adivinhou:

- Você quer ir para fora?

Estranho, porque a porta sempre ficava meio aberta ou encostada.

Sem esperar pela resposta do lobo, Linda se ergueu lentamente da cama para abrir a porta para ele. Ao invés de voar para o andar de baixo como sempre fazia, Diefenbaker saiu do quarto e começou a latir para a escada. Curiosa com a reação do animal, Linda saiu do quarto. No alto da escada, Fraser a encarava.

Linda não levou a visão a sério. Não podia ser verdade. Era a imaginação dela, mais uma vez, um outro truque que a mente dela gostava de fazer geralmente à noite, quando ela pensava que ele estava deitado com ela, na cama, esquentando suas costas geladas. Ela quase podia sentir os braços fortes e quentes a abraçando por trás. Mas era só sua imaginação, uma memória que persistia em ficar em seu corpo.

Ela se limitou a voltar para o quarto, sentindo-se ainda mais triste do que antes. Ela deu as costas àquele fantasma na escada sem pensar duas vezes. Cansada, ela deixou-se cair na cama, e teve que fazer um grande esforço para não chorar. Ela ainda sentia que toda a dor em seu peito jamais iria embora, apesar de tudo que Ray e Ma lhe diziam. O Dr. Lennyard também já tinha dito que logo o remédio iria fazer efeito, e ela iria se sentir melhor. Não parecia.

- Linda.

Ela ergueu a cabeça. A visão a tinha seguido para dentro do quarto. Ela olhou para a imagem de Fraser, uma dor física a lhe cortar o peito. Ela estava tão fraca que não conseguiu nem gritar com o fantasma, pedir que a deixasse em paz. Fraser atravessou o espaço da porta até a cama e sentou-se ao lado dela. Por um momento, a moça ficou em dúvida:

- Você é... real?

Ele parecia devastado.

- Linda, por favor. Fale comigo.

Linda não podia acreditar em seus olhos. - Ben?

- Sim, Linda, sou eu. - Os olhos azuis dele estavam cheio de água, o rosto enrugado, a pele pálida ainda mais branca de pura angústia - Eu voltei, Linda. Voltei para você.

- Mas...

- Eu menti, Linda - Ele disse suavemente - Eu não posso viver sem você. Por favor, me aceite de volta. Se não me aceitar, eu vou... Eu acho que vou morrer.

- Oh, Ben...

Linda não se lembrava de ter se movimentado, mas ela sentiu ser abraçada por dois braços fortes e calorosos, e logo estava soluçando no peito dele, a dor sendo lavada em lágrimas.

- Eu lamento muito, meu amor, eu lamento tanto - disse Ben, a voz cheia de emoção - Eu disse coisas horríveis para você, e eu não sei o que me deu, mas agora já acabou. Já passou, eu estou aqui, e eu amo você demais.

- Benny... Eu senti tanto a sua falta.

- Eu também senti muito a sua falta, querida. Você é a melhor coisa que me aconteceu e não sei como pude tratá-la daquele jeito. Ray acabou de me dizer que você salvou minha carreira na Polícia Montada.

Linda ficou constrangida. - Eu... só... Na verdade... foi um... acidente.

- Você me salvou. Eu me sinto tão mal por tudo que aconteceu, Oh, Linda, eu te amo tanto. Será que poderá me perdoar algum dia pelo que fiz? Eu sei que só faz duas semanas, mas deve ter sido muito difícil. Você deve ter ficado muito magoada. E eu vou compensar você por tudo, querida, eu juro. Prometo a você, meu amor, confie em mim. Por favor me aceite de volta.

Como ela poderia sequer pensar em não aceitá-lo?

- Benny...

Mas algo chamou a atenção dela na porta. Havia uma mulher ali, uma mulher muito bonita, de pé, olhando para os dois totalmente em silêncio, olhos brilhando. Ben pareceu estremecer ao vê-la ali. Ele se separou gentilmente de Linda, e virou-se para a mulher, a voz tão seca que poderia ter sido usada num martini:

- O que você quer? Vá embora daqui.

- Eu não posso fazer isso, Ben - A voz da mulher era tão linda quanto ela. Tão quente quanto os olhos atraentes e cintilantes que olhavam com desejo para Ben - Sou a mulher de sua vida. Não pode negar isso.

- Eu cometi um erro. Vá embora. Você pertence ao meu passado.

Os olhos de Linda se arregalaram. Então aquela era a misteriosa mulher da vida de Ben. Ela era realmente muito bonita, poderia ser uma modelo ou atriz, com aqueles cabelos compridos e nariz torneado. Linda não tinha chance comparada à beleza dela. Não era à toa que Benny tinha se apaixonado por ela. Ela era linda.

E perigosa.

- Por favor vá embora. Eu não quero mais vê-la. Nunca mais.

A mulher encarou Linda, depois se voltou para Ben novamente e disse:

- Nesse caso... Eu lamento, meu amor.

Ela sacou uma arma.

Linda reagiu num impulso e pulou da cama, jogou-se na frente dele em câmera lenta, do jeito que essas coisas sempre parecem acontecer em sonhos, gritando:

- BENNY!!

Então um ruído alto perfurou-lhe os ouvidos, e ela não conseguiu ver mais coisa alguma, mas a voz continuou gritando, chamando o nome de Ben sem parar...

A voz dela foi abafada por uma outra, que agora chamava seu nome sem parar, e o corpo trêmulo dela parecia estar envolvido por braços fortes. Era uma confusão grande, sensações e barulhos que se confundiam e Linda não conseguia distinguir nenhum deles. Ela finalmente reconheceu as palavras:

- Linda, acorde! É só um pesadelo, Linda! Linda, acorde!

Um dos ruídos parou: a voz dela que chamava Ben sem parar. Ela estava ofegando, sentada na cama, o corpo dela totalmente encharcado de suor, Ray de pijamas tentando acordá-la, outros membros do clã Vecchio logo atrás deles, tudo contribuindo para uma grande comoção no meio da noite.

Então... tudo tinha sido só um sonho.

Envolvida em suas próprias emoções, Linda ainda não tinha se dado conta inteiramente daquele fato, e tentou explicar, ainda agitada:

- Ben...! Ela ia atirar nele!... Ele estava aqui, Ray!... Estava aqui...!

- Foi só um sonho, Linda - Ele a acariciava - Foi um sonho mau. Já passou.

- Eu pude senti-lo...! - Linda estava tão angustiada, o rosto dela pálido que parecia feito de cera, os olhos imensos, as lágrimas escorrendo pelo pescoço - Eu pude senti-lo, Ray...!

Ray limitava-se a abraçá-la:

- Shh.... Vai ficar tudo bem, Linda, vai ficar. Procure se acalmar, tá bom?

- Ray... - Ela afundou no peito dele, agarrando-se a ele - Eu o senti comigo, Ray...!

- Não, Linda. Já passou... Foi só um sonho...

- Eu sinto tanta falta dele...! Oh, Ray... Como vou... Como vou viver sem ele?

Para isso Ray não tinha resposta.

Maria gentilmente passou um pano no rosto dela, e Ma Vecchio colocou um copo de água na mão dela, enquanto Ray a ajudava a beber. O coração dela ainda estava acelerado, e ela mal podia respirar corretamente, os soluços a fazendo engasgar. Ray rapidamente enxotou o resto da família Vecchio para fora do quarto, e Diefenbaker finalmente pôde chegar perto de sua protegida.

Não havia muito que Ray pudesse fazer a não ser tentar acalmá-la, e fazê-la voltar a dormir. Levou tempo, claro, primeiro até ela respirar normalmente de novo. Ray ficou com ela em seus braços, acariciando-lhe as costas da mesma forma como já tinha feito antes com seus sobrinhos e sobrinhas quando eram bebês. Mais tarde, Linda estava semiadormecida, agarrada a Ray como se sua vida dependesse disso. Ele terminou passando o resto da noite no quarto dela, olhando-a dormir e até cochilando um pouco. Felizmente, Linda conseguiu descansar um pouco aquela noite. Ray, ao contrário, estava ficando cada vez mais inquieto. Mas ele estranhamente estava esperando reunir fatos, primeiro, para só depois começar a agir.

Os dias que Linda passou na casa dos Vecchio começaram a se prolongar mais do que a moça pensou inicialmente. Ela ficou mais forte em poucos dias, e o novo remédio a ajudou um pouco, embora ela ainda estivesse muito calada e chorasse muito. Mas ela era incapaz de recusar qualquer pedido dos Vecchio.

Em questão de dias, ela se viu ajudando Ma com as tarefas de casa, e também tomando conta das crianças, fazendo coisas simples como pondo-os para dormir ou olhando-os brincar lá for para que não se afastassem da casa. Dief era uma companhia constante, e Frannie também a ajudaria a andar com Diefenbaker quando Ray não podia.

Tirar Linda de casa para um programa noturno levou mais tempo do que Ray imaginou a princípio, mas eventualmente ela concordou. Eles foram ao cinema, e Ray viu que Linda tentava esconder as lágrimas durante o filme. Como a fita era uma comédia, era óbvio que ela não estava prestando a mínima atenção. Ele ficou arrasado, mas guardou silêncio. Eles voltaram para casa, e Linda agradeceu de forma tão polida pela atenção de Ray. Ela estava ficando extremamente dependente do italiano.

Próxima parte

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