Parte 10
Com a exceção da animada quinta-feira seguinte, quando dois casais se reuniram na casa de Linda e Fraser e conseguiram até estudar História Americana (de verdade), a vida começou a ficar bastante doméstica para Linda. Visitas regulares, trocas de receitas com a Sra. Mutchnik, apresentações aos comerciantes locais, como o dono do mercadinho e da farmácia, tudo isso passou a fazer parte da rotina dela, tanto quando as visitas ao CTI para conversas com os pacientes, uma prática que ela jamais abandonara. Nada agradava mais à moça o que uma noite quieta em casa com Fraser, com ou sem Ray, e normalmente à noite eles levavam Dief para uma volta, ou exercícios de caça, como Fraser fazia questão. Desacostumado à noção de encontros e romance, Fraser levou-a para dançar uma noite, por sugestão de Ray, e, embora Linda tivesse gostado, ela preferia a quietude da casa. Sim, os prazeres da quietude doméstica, tinha sido como Ray descrevera. Ela começava a achar que ele tinha total razão.
Escola também era outra grande consumidora das atividades noturnas dela, ou então Fraser ficava preso em algum trabalho de campana que Ray o levava. Em geral Ray sempre reclamava que não seria justo não levar Linda também, mas ela logo entendeu que havia coisas que Ray e Fraser precisavam fazer juntos, como amigos. Nessas ocasiões, quando ela não ficava em casa estudando, cozinhando para quando Fraser voltasse ou na Sra. Mutchnik, ela ia até North Octavia e visitava os Vecchios. Ela era sempre bem-vinda, e sempre havia algo a fazer na frenética casa de italianos.
Uma noite, Fraser voltou para casa correndo. Ele tinha estado no hospital para pegar Linda após o turno dela e tinha sido informado que Linda tinha ido para casa mais cedo. Mais cedo que o normal, por causa de um problema que não quiseram dizer. Resultado: ele correu até o apartamento. Quando chegou em sua casa, viu que havia alguém com Linda. Era uma mulher que ele não conhecia, sentada na mesa, uma xícara de café nas mãos trêmulas.
- Ben - disse Linda, assim que ele entrou -, ainda bem que chegou.
Ela parece nervosa, ele pensou, e ele sentiu o quanto aquilo o afetava.
- Essa é a Sra. Dulcenza, Ben, e ela está com um grande problema. Sra. Dulcenza, esse é Benton Fraser, ele é da Polícia do Canadá.
A mulher, entrada nos quarenta, assentiu para ele, e só então Benton se deu conta de que ela estava chorando. Ela também tinha um olho roxo, uma bochecha inchada e um lábio partido. Linda continuou:
- Ela estava no hospital, Ben, e precisava de ajuda. Espero que não se zangue, mas eu tinha que trazê-la para casa comigo. Ela não tinha para onde ir e precisa de um lugar para ficar.
Fraser tentou acalmá-la:
- Está tudo bem, Linda. Por que a Sra, Dulcenza não tem um lugar para ir?
- Ela está morta de medo do marido, Ben - explicou Linda. - Foi ele que fez isso com ela. Ela mal conseguiu tirar os dois filhos da casa antes que ele voltasse do bar. Ele bateria nas crianças, também.
Fraser suspirou e assentiu. Depois sentou-se à mesa e indagou suavemente:
- Sra. Dulcenza, onde estão seus filhos?
A mulher mal conseguia falar, soluçando, um forte sotaque latino:
- Eu deixei os dois com uma senhora muito bondosa da minha igreja. Eles estão a salvo, graças ao Senhor Jesus. Para mim, é tudo que importa. Eu sinto falta deles, mas aquele desgraçado não vai colocar as mãos neles.
O canadense foi muito cuidadoso ao fazer a próxima pergunta:
- A senhora quer dar queixa do que aconteceu, Sra. Dulcenza? - A mulher abaixou a cabeça, lágrimas rolando pelas faces - Eu pergunto porque se fizer isso, então há uma chance de podermos proteger a senhora e seus filhos de seu marido. Poderá ir para um abrigo, onde não precisará ficar longe de seus filhos, e terá proteção.
Ela caiu em prantos:
- Eu tenho tanto medo...
Linda aninhou a cabeça da moça contra o seu corpo, confortando-a. Quando a jovem senhora se controlou, Fraser procurou explicar:
- Sim, é natural que tenha medo. Também não quero pressioná-la a fazer algo que ache perigoso. Mas acho que está na hora de também deixar seu marido com medo. E não pode viver com medo para sempre. Ganhará total proteção do Estado, mas precisa pensar em dar queixa para que ele pague pelo crime que cometeu.
A mulher recebeu o apoio de Linda, Fraser usou seu charme e pura lógica para convencê-la a dar queixa, e os três foram com Diefenbaker para o 27
o registrar a ocorrência de perturbação doméstica e agressão. Uma assistente social explicou à Sra. Dulcenza tudo que iria acontecer dali para frente: eles tinham o registro no hospital da agressão, o marido seria preso, uma fiança seria fixada, e o caso iria para o juiz. Se ela quisesse entrar com o pedido de divórcio, o Estado também poderia ajudar nisso. Aquela noite ela provavelmente ficaria mais segura num abrigo do que em casa, para onde dois oficiais uniformizados já tinham ido a fim de prender o marido.A Sra. Dulcenza concordou em dormir no abrigo, e no dia seguinte iria ver os dois filhos. Quando ela ia com a assistente social, lembrou-se de Linda e correu para abraçá-la com força, emocionada, agradecendo muito, chamando-a de anjo. Linda ficou emocionada, e sentiu-se feliz. Fraser pensou que fosse estourar de tanto orgulho.
Ben e Linda resolveram comer um cachorro-quente na rua, e até Dief ganhou um pedaço, depois foram direto para casa, pois estava muito tarde. Era um noite de semana e Linda tinha aulas cedo na manhã seguinte, enquanto Fraser tinha que estar pronto para receber algumas delegações estrangeiras para um café da manhã formal.
No chuveiro, logo depois de uma rápida sessão de amor, Fraser acariciou o corpo molhado de Linda e beijou-lhe o ombro, dizendo:
- Você me deixou muito orgulhoso hoje, Linda.
- Mesmo? Como?
- O que você fez pela Sra. Dulcenza foi muito tocante.
- Eu não fiz nada que você mesmo não fizesse, Ben. Além do mais, eu fiquei com medo de trazê-la para casa sem consultá-lo primeiro. Mas não havia nada que eu pudesse fazer para ajudá-la. Eu a vi na sala de emergência, e ela parecia tão sozinha e apavorada. A Sra. Sorelli me disse que ela estava com tanto medo que não queria nem admitir ter sido espancada pelo marido. Quebrou meu coração, Ben.
- Fico feliz de ter podido ajudar. Ajudar pessoas faz bem, não faz?
- Sim, faz mesmo. Eu estou me sentindo muito bem, agora que sei que ela vai poder dormir segura.
- E nós também - disse ele, fechando a água - Já chega de brincar na água. Temos que levantar cedo amanhã.
- Sim, Ben - ela disse, pegando a toalha - Deixe-me secá-lo.
Na manhã seguinte, Linda foi às aulas de manhã e iria ao hospital à tarde. Naquele dia da semana, ela tinha tempo de ter um almoço com Ben, e às vezes Ray também se juntava a eles. Naquele dia, em particular, eles foram a um pequeno restaurante perto do distrito. O italiano comentou, divertido:
- Então, Linda, parece que dessa vez foi a sua vez de levar Benny para uma daquelas confusões que ele vive metendo a gente. Valeu, garota! Deixa ele provar um pouco do seu próprio remédio.
Linda não entendeu o motivo da animação de Ray:
- Do que você está falando?
- Eu ouvi dizer que vocês dois apareceram à noite no distrito, com aquela queixa de briga doméstica. Elaine me falou que dessa vez foi Linda quem trouxe para casa o cãozinho perdido.
Cãozinho?
- Está falando da Sra. Dulcenza?
- Isso aí - Ele sorria, os olhos verdes brilhando - Sabe, Huey já está até esperando você aparecer para organizar os arquivos também, Linda. Isso é o que Benny faria.
Linda quase o repreendeu:
- Ray!
O policial continuou, achando cada vez mais graça na situação:
- Parece que essa coisa canadense é contagiosa. Claro, meus genes italianos devem me deixar imune. De qualquer forma, Linda, ela tem suas vantagens. Sabe, eu tenho certeza de que se você se meter em mais umas cinco dessas situações estranhas tipo do Benny, então poderá pedir cidadania canadense.
Fraser o encarou, a face totalmente sem expressão, os olhos furiosamente azuis, intentos no famoso "olhar do Mountie". Linda sabia que isso era só fachada, e assegurou rapidamente:
- Ray só está brincando, Ben.
Tarde demais.
- Bom, Ray - disse o canadense - você é mesmo um homem de muita sorte. Estávamos pensando em levar a Sra. Dulcenza para dormir em sua casa. Lá tem um quarto para hóspedes, não tem?
O sorrisinho esperto apagou-se rapidamente do rosto do italiano:
- Fraser, estou avisando para nem pensar -
Foi interrompido por Ben, cada vez mais irônico:
- Tenho certeza de que sua mãe, como boa católica que é, não negaria abrigo a uma pessoa necessitada. Na verdade, se incentivada, ela poderia até ceder o seu quarto. Concorda, Linda?
A moça tinha um sorriso disfarçado quando respondeu:
- Conhecendo a Sra. Vecchio, eu tenho mais que certeza que ela convidaria a Sra. Dulcenza para a casa, Ben. Por falar nisso, eu vi alguns sem-teto a umas duas quadras do apartamento, reparou? Fico imaginando se a Sra. Vecchio não teria um coração extremamente generoso para abrigar essas pessoas e então -
Ray interrompeu:
- Tá bom, tá bom, eu entendi a mensagem! Puxa, a gente não pode nem brincar mais. Agora vocês são dois e eu sou apenas um!
Linda tinha um tom divertido quando indagou:
- Não conseguiu convencer Martha a equilibrar o placar?
À menção do nome da loura, a expressão de Ray mudou. Um sorriso radiante, o rosto dele se iluminou por inteiro e ele respondeu, sem jeito:
- Bom, eu tenho tentado. Mas ainda não acho que esteja na hora de convidá-la para sair.
Linda disse:
- Ray, eu acho que ela está interessada. E disposta. E esperando.
-Tá, tá, eu vou convidá-la. Satisfeita? - Ele abanou a cabeça - Meu Deus, é melhor Martha vir para o meu lado, ou eu estarei em grandes apuros.
Linda e Fraser riram da falsa crise do amigo, e a moça ergueu-se, dizendo:
- Lamento, rapazes, mas agora preciso ir. Têm planos para essa noite?
Eles responderam em uníssono:
- Campana.
- Tentem não trabalhar demais - Ela deu um beijo em Fraser - Vou tentar esperar acordada.
- Tenha um bom dia.
- Vocês também. Tchau!
Ela correu para o hospital e chegou em cima da hora. Ao receber o horário do dia, havia também uma mensagem da Sra. Sorelli. O Dr. Lennyard a esperava.
- Ah, Linda, fico feliz que tenha podido vir - disse o médico - Preciso perguntar uma coisa.
- Sim, senhor?
- Eu ainda estou envolvido nas audiências sobre o pedido de custódia e guarda que enfrentamos há alguns meses. Preciso de algumas informações sobre o homem que dizia ser seu pai.
Linda tentou manter o medo fora da voz, mas estremeceu:
- Informações?
- A polícia ainda não tem novas pistas sobre aqueles homens, Linda, e estão atrás de qualquer coisa. Lembra-se de qualquer homem que você não conhecia entrar na casa? Aquele homem recebia visitas?
Aquilo era fácil de lembrar.
- Absolutamente, doutor. Além do Dr. Lachen e Donna, ninguém mais ia àquele apartamento. Eu sei agora que depois eu tive uma enfermeira chamada Erica, mas eu não me lembro dela.
- Ela já foi investigada. Sei que conversamos um bocado, sobre isso, Linda, mas você deve entender que isso é importante para a investigação.
- Sim, doutor. - E ela arriscou indagar - Eles não encontraram aquele homem, não foi?
- Não, e nem conseguiram traçar o dinheiro que ele lhe deu, também. Como se sente?
Ela abaixou a cabeça e deu de ombros. Depois de uma pausa, a voz tremia quando ela respondeu, baixinho:
- Não posso fazer muita coisa. Não adianta muito pensar nisso. Eu só queria - Ela se deteve, investigando os próprios pés com atenção, incapaz de prosseguir.
- Só queria o quê, Linda?
- Eu só queria fingir que isso nunca aconteceu.
- Lamento - disse o médico - Sabe que não pode ser assim, não é?
Ela assentiu e suspirou. O médico disse:
- Bom, isso é tudo, Linda. Oh, eu também quero lhe falar sobre marcar um check-up com a Sra. Sorelli. Veja se ela pode marcar isso rapidamente. Sei que você não tem sentido os efeitos da droga há tempos, mas ainda acho melhor darmos uma molhada nisso.
- Sim, senhor. Obrigada, doutor.
Linda voltou ao trabalho tentando manter as lembranças afastadas. Aquelas coisas horríveis estavam no passado, e ela estava mais segura do que nunca. Ainda assim, havia a dor, ela pensou, enquanto limpava e esterilizava meticulosamente os instrumentos cirúrgicos e outros objetos no Centro Cirúrgico. Depois ela começou a limpar o chão e se deu conta de que ainda não tinha marcado o check-up que o médico tinha pedido. Era uma maneira de colocar os pés no chão. Ela tinha que olhar para frente, para o que acontecia à sua volta. Sim, viver o presente era definitivamente muito melhor do que morar no passado. Bastava olhar para a Sra. Dulcenza. Linda lembrou que ela também sofreu bastante, e agora estava tentando uma vida nova. A moça fez mentalmente a promessa de passar no abrigo após o trabalho, talvez levar alguma coisa que ela fosse precisava: roupas ou comida. Sim, ela tinha certeza de que Fraser não se importaria com aquilo.
* * *
- Olá, Linda - O rosto da Sra. Dulcenza se iluminou num sorriso, esticando tanto o lábio machucado que quase abriu a ferida de novo - O que está fazendo aqui?
Linda olhou em volta, para o grande salão de camas comunitárias, cheias de mulheres de idades e raças variadas, algumas com filhos, antes de perguntar:
- Achei que poderia precisar de alguma coisa. Tudo bem?
- Sim, eu estou bem - ela respondeu. - Obrigada. Salvou minha vida.
Linda corou e sentou na cama, dizendo, enquanto revirava a bolsa e tirava pequenos objetos:.
- Olhe, achei que seus filhos também tinham vindo para cá, então eu trouxe esses carrinhos. Eles gostam de carrinhos? Eu sempre adorei esses brinquedos. Eu morria de vontade de ter coisas assim quando era criança, carrinhos ou casinhas de boneca. Onde eles estão afinal?
- Eu os deixei com aquela senhora que lhe falei. Pelo menos até que eu saiba o que vou fazer da minha vida. Eles estão bem, graças ao Senhor Jesus.
Linda suspirou e indagou:
- Então, o que está achando daqui?
- Não é tão ruim, na verdade. E aqui tem muita gente na mesma situação. Eu jamais poderia imaginar isso.
- Pelo menos não estará sozinha, aqui tem muita gente. E eu também falei com uma assistente social na entrada. Ela diz que tem muitos voluntários para entregar comida e coisas assim. Eu também trouxe alguma comida, e ela levou para a cozinha comunitária. A senhora ouviu sobre... er, seu marido?
- Disseram que ele foi preso. Mas tenho certeza que algum daqueles bêbados com quem ele anda vai pagar a fiança. Depois eu sei que ele vai procurar por mim.
- Se ele fizer isso, não estará sozinha. Está protegida aqui.
- A assistente social disse que ela me ajudaria até a encontrar um emprego, e assim eu poderei tomar conta de minhas crianças e achar um lugar para morar.
Linda sorriu:
- Isso é tão bom. Olhe, eu vou ver se o hospital precisa de novos empregados. Às vezes abrem-se vagas para temporários, e algumas delas viram vagas permanentes. Eu aviso se surgir alguma coisa, tá?
- Você é uma pessoa tão boa - A Sra. Dulcenza se jogou nos braços de Linda antes que a moça pudesse evitar. - Eu agradeço a Deus por ter posto você em meu caminho!
Penalizada, Linda deixou que ela chorasse por alguns minutos, e depois indagou:
- Está melhor?
- Sim. Obrigada.
- Bom, agora que está ajeitada, eu vou deixar que descanse um pouco mais. Vou tentar passar por aqui alguma outra hora - Linda se levantou, e o mundo pareceu flutuar um pouco. Ela cambaleou. - Ops, fiquei tonta. Acho que ficar sem jantar não foi uma boa idéia, afinal.
A Sra. Dulcenza indagou:
- Não quer descansar um pouco? Eu chamo seu marido para apanhá-la.
Cada vez mais tonta, Linda tentou dizer:
- Não, Ben não é meu... - Não conseguiu terminar, a tontura se transformando em enjôo - Oh, puxa.
- Linda? Linda, tudo bem?
Depois Linda sentiu a escuridão a cobrindo como se fosse uma espécie de manta cinza enquanto ela caía no chão lentamente.
* * *
- Bom, Benny, você vai me falar ou não?
Fraser encarou o parceiro da tocaia naquela noite.
- O que quer dizer, Ray? Falar o quê?
- O que quer que esteja aporrinhando você. Você tá bem? Linda tá bem? Você e Linda, tudo bem?
O canadense olhou para o colo no carro escuro e respondeu:
- Sim, Ray, estamos ótimos. Obrigado por perguntar.
- É a Mulher Dragão? Ela está pegando no seu pé?
- Na verdade, as coisas no Consulado estão indo bem.
Ray estava a ponto de perder uma paciência que jamais teve:
- Então o que é, Benny? Vai desembuchando logo!
Fraser ainda não tinha olhado para Ray.
- Eu... estive pensando, Ray.
O italiano levou os olhos para o teto:
- E aí todos os nossos problemas começaram...
- Linda não sabe, Ray. Eu nunca contei sobre... ela.
- Ela? Ela quem? - Grandes olhos italianos verdes de repente se arregalaram quando se deram conta do assunto. - Ah, não. Não quer dizer... ela, quer?
Fraser assentiu silenciosamente, e com grande esforço tentou explicar, enquanto Ray se mexia, desconfortável e inquieto.
- Não seria justo deixar de contar. Além disso, Ray, ela vê a cicatriz nas minhas costas. Eu sei que ela não pergunta para não me aborrecer, mas ela tem o direito de saber. Quero iniciar os procedimentos para o casamento, e creio que isso precise ser... esclarecido.
Ray suspirou, olhando para fora.
- Acho que tem razão, Benny. Mas precisa ir com calma. Victoria não é algo que você mencione durante o café, após um jantar.
- Eu sei, Ray. Você sabe que não é de meu feitio procrastinar as coisas assim. Não sei por que estou adiando isso dessa maneira. Deveria ter feito isso há algum tempo, eu sei....
O som eletrônico do telefone celular de Ray o impediu de responder, então ele tirou o aparelho do terno:
- Vecchio - Ele ouviu por um segundo, depois se virou para Fraser, e o canadense notou que ele tinha ficado pelo menos duas vezes mais pálido, olhos verdes esbugalhados - Já estamos a caminho. Obrigado, Elaine - Ele ligou o Riv. - Linda deu entrada na emergência do hospital há umas duas horas. É só que sabem.
Fraser sentiu seu coração se acelerando mais rápido do que o motor do Buick, e o carro zuniu pela rua afora, pneus cantando.
* * *
Linda ouviu cuidadosamente as ordens do médico, ainda sem saber direito como deveria se sentir. Ela não tinha nada de errado e sabia disso.
- Em resumo - continuou o médico -, isso pode ter sido só uma queda de pressão. Não há necessidade de mantê-la aqui por mais tempo, senhorita. Mas eu recomendaria novos exames. Por hoje, porém, quero apenas que tenha bom descanso e alimentação adequada.
- Sim, doutor. Obrigada - Ela olhou para a porta e um rosto canadense amado estava parado a encará-la cheia de preocupação, enquanto o médico saía da sala. Ela sorriu - Ben.
Antes mesmo que ela tivesse terminado de pronunciar seu nome, ele estava ao seu lado, a mão procurando a dela:
- Linda. Tudo bem? O que houve?
Ela parecia calma quando respondeu, e ele sentiu a preocupação dela em tranqüilizá-lo:
- Eu estou bem. Só desmaiei, mais nada. Felizmente, eu estava no abrigo com a Sra. Dulcenza, e a ajuda médica chegou bem rápido.
Fraser beijou os dedos dela e os olhos azuis dele a encararam cheios de dor:
- Lamento muito.
Ela sorriu de maneira ainda mais doce e ergueu a mão até que a palma encostasse suavemente na bochecha dele:
- Ben, não foi sua culpa.
- Eu deveria estar com você.
- Você não poderia adivinhar, Ben. Além do mais, já ganhei alta. Não precisa se preocupar. Já estou indo para casa.
- Ray veio comigo. Ele nos leva para casa.
- E quanto ao trabalho de campana?
- Estava meio parado de qualquer maneira, então não houve prejuízo - Ele beijou a testa dela. - Olhe, eu vou esperar lá fora.
Linda trocou de roupa e eles foram para casa. Linda sentiu que Fraser parecia muito sensível com relação a ela. Ele poderia se tornar bastante protetor por causa do desmaio, mas ela tinha uma forte sensação de que havia algo que ele não estava contando. Ainda assim, ela jamais perguntaria o que o perturbava. Ele certamente diria quando achasse que era a melhor hora. Ela não o pressionaria.
Na manhã seguinte, Fraser a levou para o hospital e fez questão de que ela falasse tudo sobre o desmaio da noite passada com a Sra. Sorelli. Linda marcou os exames que o Dr. Lennyard já tinha pedido e sabia que demoraria alguns dias até que os resultados dissessem alguma coisa.
Fraser apareceu para pegá-la no final do dia e estava muito inclinado a pedir que Linda não fosse à escola naquela noite. Mas ele sabia o quanto ela gostava das aulas e dos companheiros, então provavelmente comparecer às aulas faria bem. Ele e Diefenbaker foram ao bar do outro lado rua, Chandler's, esperaram pacientemente até o fim das aulas e depois de dar adeus a Martha, os três foram a pé para casa naquela noite.
Após o jantar, Fraser lavou a louça e olhou longamente enquanto Linda folheava os livros, debruçada na mesa da sala. Ele indagou:
- Vai estudar hoje?
- Preciso revisar algumas coisas. Em algumas semanas teremos provas finais, e preciso me preparar.
- Eu tinha expectativa de que fosse para cama mais cedo - Ele beijou o ombro dela - Teríamos mais tempo...
O toque foi tão inesperado e sensual que Linda não pôde evitar estremecer levemente. Ele continuou a tocá-la, e mais e mais, e ela esqueceu os livros e se virou para abraçá-lo, o coração disparado, sangue quente elevando a temperatura de locais secretos em seu corpo.
- Ben...
Ele a beijou de maneira impetuosa, puxando-a para mais perto de si, mantendo os lábios firmemente nos dela, usando o mero peso do seu corpo masculino para fazê-la sentar na mesa, as mãos afastando livros e cadernos, alguns deles caindo no chão. O barulho perturbou Diefenbaker, que olhou para cima, depois ganiu baixinho e pôs o focinho entre as patas de novo, imaginando se aqueles dois algum dia iriam sair do cio.
Linda estava quase deitada de costas, um cotovelo a mantendo erguida para que ela não desgrudasse os lábios dos de Fraser. Ele usou as mãos gananciosas para diligentemente retirar todas as roupas delas, enquanto ela tentava fazer o mesmo, usando as mãos para abrir-lhe a calça jeans e sensualmente agarrar o volume em sua cueca, um volume que parecia crescer a cada minuto. Os dois ofegavam, já suavam um pouco, havia gemidos, e Fraser segurou-lhe delicadamente os seios com as duas mãos, para levá-los aos lábios já inchados, inclinando-se cada vez mais sobre ela. Linda levou a cabeça para trás, tonta de desejo.
A língua de Fraser parecia fogo líquido na barriga dela, e o cotovelo falhou, fazendo-a deitar totalmente na sala de jantar. As mãos dele agora estavam nas coxas dela, e ele se curvou ainda mais para beijar a pele suave à sua frente, abrindo-lhe as pernas, sentindo o aroma da excitação dela. Ela se abriu para ele como uma flor, ele usou a língua experiente para estimular-lhe o delicado botão de seu prazer, provocando reação instantânea em Linda.
Então ele se sentou na cadeira, puxando-a pelas pernas até que elas estivessem bem diante dele, e então jogou ambas por sobre os ombros, os pés dela balançando nas suas costas, e a cabeça dele precisamente no lugar onde as duas pernas se uniam ao tronco, quase dentro do cerne de seu ser. Linda se sentiu indefesa, totalmente à mercê dele, o que a excitava imensamente. Quando a boca dele tocou-a no ponto de maior impacto do corpo, ela sibilou, depois ergueu os quadris, em seguida as mãos dela agarraram a cabeça dele. A língua dele foi impiedosa. Fraser lambeu, sugou, bebericou seus sucos e mordiscou-a, e ela estava totalmente fora de si.
Hiperexcitada, Linda sentiu o toque sensual abandoná-la, e sentiu também o corpo dela ser arrastado até que as pernas dela estivessem totalmente para fora da mesa, pés tocando o chão. Quando ela pensou respirar um pouco, renovar o oxigênio, braços fortes a viraram de bruços sobre a mesa, as nádegas espalhadas e o interior úmido tomado por um Fraser impossivelmente rijo. Ela gemeu tão alto que poderia jurar ter sido um grito, e ser preenchida daquele modo rude e urgente geralmente significava que Fraser estava extremamente excitado, e ela sabia que o fim não demoraria. Esse pensamento a levou para além das fronteiras, e ela podia sentir o fogo se espalhando em suas veias, não uma vez, mas duas, enquanto Fraser movia o pênis pulsando dentro dela. Ela ofegava, e sentia que ele também estava no fim.
Linda estava errada.
Sem aviso, Fraser se separou dela e mais uma vez ela teve o corpo virado, agora de costas, e tentou não gritar com a impetuosidade dele. Isso foi impossível quando ela foi puxada e atravessada no ombro dele, carregada como um saco de batatas por alguns segundos até ser depositada sem qualquer cerimônia na cama. O coração dela ainda estava acelerado, ela suava e a excitação voltava a borbulhar dentro dela assim que ela olhou para o rosto de Benny. Ele estava de quatro, sobre ela, os olhos azuis semicerrados cintilando de puro desejo ao encará-la, nua, sem fôlego, à sua mercê. Ele exalava paixão animal por todos os poros, e Linda estremeceu ao se dar conta disso.
Não levou mais do que três segundos, e ele já estava novamente unido a ela, o mundo rodopiando ao redor deles. Linda já estava pronta para Ben, o seu Ben e ela sempre estaria pronta para ele, e ele sentiu-se perdido dentro dela, mexendo-se freneticamente, sem controle, sem rédeas, aumentando o prazer para ambos. Linda não percebeu que começava a chamar o nome dele:
- Oh, Ben!... Benny!
Juntos ele voaram e Linda reparou que alguém gritava o nome de Ben enquanto ela tinha um orgasmo selvagem e furioso, ainda mais intenso do que os anteriores, excitada por sentir a essência de Benny jorrando para dentro dela, como um pináculo para a união perfeita entre eles, corpo, mente e alma. Quando Fraser desabou ao lado dela, ela concluiu que os gritos tinham sido dela.
Isso mudava tudo.
Oh, não.
Fraser acordou, e sentiu o corpo quente de Linda próximo ao seu, o rosto dela voltado para longe dele. Ele beijou o ombro nu diante de si, e pareceu ter ouvido um soluço. Chamou:
- Linda?
Ela não se virou, mantendo o rosto ainda afastado dele e respondeu, em voz chorosa:
- Sim, Ben?
Ela estava chorando. O coração dele quebrou em mil pedacinhos, esfacelando-se, porque ver Linda chorando era algo que sempre o magoava demais. Tentando esconder a dor, ele indagou:
- Linda, meu bem, o que houve?
- Eu lamento, Ben - Ele podia sentir o esforço que ela fazia para conter as lágrimas. - Desculpe. Por favor, tente me perdoar.
- Perdoar?
- Pelo que eu fiz. Eu não faço mais, nunca mais faço. Por favor, não... não me castigue. Não me bata, Benny, por favor, não me machuque.
Ele estava em alerta vermelho total, e disse:
- Linda, por favor, olhe para mim. Eu nunca vou machucar você. Nunca, entende? Por que acharia isso?
Linda virou-se lentamente, lágrimas escorrendo por todo o rosto, olhos brilhando de tanto chorar, quase sem poder respirar. A visão partiu o coração de Benny pela segunda vez.
- Eu fiz uma coisa muito feia - Ela olhava para baixo, incapaz de encará-lo, aterrorizada - Nem mesmo você pode me perdoar.
Ele a abraçou e indagou, tentando manter a voz neutra:
- O que você fez, Linda?
Ela demorou a responder, as lágrimas rolando até criar coragem:
- Eu... eu fiz barulho - Ela choramingou - Desculpe, não pude me controlar, Benny. Por favor, tente me perdoar. Eu gritei sem querer, Ben, foi sem querer.
Durante alguns segundos, Fraser a abraçou, sem entender o que a terrificava tanto. Ela chorava baixinho e tremia intensamente. Quando a resposta chegou, atingiu-o como uma tonelada de pedras.
Nos momentos de maior paixão, Linda tinha gritado o nome dele. Ele se lembrava de ter ouvido aquilo com orgulho por ter sido capaz de fazê-la perder o controle assim, de excitá-la tanto. Mas isso deve ter, de alguma maneira, ativado lembranças de todos os abusos que sofreu. Seus agressores provavelmente a ordenaram que ficassem bem quieta o tempo todo, para que eles não fossem pegos. Se ela gritasse, mesmo de prazer, ela provavelmente seria punida fisicamente. Na mente de Linda, amor era algo para ser feito em silêncio, ou então significava punição severa. Era uma mensagem de seu inconsciente, e ainda iria demorar para mudar isso.
Ela chorou durante algum tempo, e ele envolveu-a em seus braços, tentando consolá-la, sempre assegurando-a de que estava tudo bem, e que ela não tinha feito nada de errado. Lentamente, ela se cansou de chorar e tentar respirar, finalmente soluçando menos, até finalmente cair no sono, exausta. Naquela noite, ela se mexeu bem mais do que de costume, Fraser notou. Com tempo, ele pensou, ela superaria mais esse trauma.
Foi por isso que ele mais uma vez adiou a decisão de contar a ela sobre Victoria. A mulher tinha afetado Fraser profundamente, e era justamente por causa de Linda que ele agora sabia que seus sentimentos em relação a Victoria sequer chegavam perto de amor. Com Linda, ele sentia um senso de paz, de complemento, de pertencer. Com Victoria, ele sentia ebulição, angústia e uma escuridão inenarráveis. Abraçando Linda para mais perto de si, Fraser indagou-se se ele sequer tinha conhecido o que era o amor até a garota aparecer na sua vida. Claro que ele tinha sabido o que era ser atraído a uma outra pessoa antes, principalmente propulsionado pelo medo da solidão. Linda era bem diferente. Era como chuva no deserto, curando-o quando ele se sentia seco e rachado. Aliviando-o, curando-o, consolando-o e nutrindo-o. Como ele precisava dela.
Dando-se conta de que Linda agora era necessária em sua vida, Fraser olhou para a figura adormecida em seus braços, estudando as características de sua face, agora imersas em serenidade e tranqüilidade. Sim, ele sabia que ainda tinha que falar a ela sobre Victoria, e talvez ela ficasse magoada. Mas isso poderia esperar um momento mais propício, ele pensou, sem tirar os olhos dela. Mais do que isso, ele a adorou em silêncio por mais tempo do que se deu conta. Se ela estivesse acordada, ele pensou, teria feito amor com ela mais uma vez.
* * *
Na manhã seguinte, ao dar um beijo de despedida em Fraser, Linda não mostrava havia qualquer sinal da tensão que sentira naquela noite. Ray apareceu para apanhá-los cedinho, mas a moça tinha aulas de manhã e decidiu sair um pouco mais tarde e ir sem os rapazes. Depois da aula, ela preferiu ir para casa almoçar antes de ir ao hospital. Foi então que viu uma surpresa à sua porta:
- Sra. Vecchio?
A italiana mais velha ergueu-se das escadas onde estava sentada para abraçar Linda:
- Olá, bambina.
- A senhora está bem? Aconteceu alguma coisa com as crianças, ou com Frannie?
- Estamos todos bem - ela disse - Só vim fazer uma visita. Sinto falta de você e Benton.
- Por favor, entre. Eu ia almoçar.
Linda abriu a porta e deixou a mãe de Ray entrar, desculpando-se:
- Não temos tido muitas visitas, mas é que ainda não temos um sofá e essas coisas.
- Tudo bem - a italiana sorriu - No começo do meu casamento, eu também enfrentei dificuldades. Não éramos ricos, e ainda não somos. Não há vergonha nisso.
- Posso oferecer alguma coisa? Café, uma xícara de chá? Ah, vai ficar para o almoço, não é, Sra. Vecchio?
- Só me chamar de Ma.
- Tá bom... Ma. Por que não se senta aqui, na mesa?
- Precisa de ajuda com o almoço?
- Claro que não. Hoje é minha convidada, e não precisa fazer nada. Exceto, talvez, companhia para mim.
O mãe de Ray obedeceu, olhando discretamente a casa antes de perguntar:
- Benton também almoça em casa?
Linda já estava na cozinha, mexendo com as panelas:
- Não, nós normalmente nem almoçamos aqui. Foi mesmo uma sorte termos nos encontrado. Eu odiaria pensar que deixaria a senhora esperando horas sem ninguém aparecer.
- Eu arrisquei - Ela sorriu - Não precisa se sentir culpada.
- Frannie diz que devemos ter um telefone. Ela provavelmente tem razão, mas Ben e eu fomos criados sem telefone, e não estamos muito acostumados com isso.
A mulher mais velha olhou ao redor com olho clínico e disse:
- Você está feliz - Linda a encarou, assustada que ela tenha notado isso em tão pouco tempo. A italiana deu de ombros - A gente vê isso. Sinto como se fosse sua mamma, Linda, e conheço as minhas crianças. Sei que está feliz.
Linda sorriu, enrubescida:
- Sim, Ma. Estou muito feliz.
- Bom. Muito bom. Eu tinha que ver isso com meus próprios olhos. Perguntei a Raymondo se vocês estavam felizes, tanto você quanto Benton, mas sabe como os homens são. Além disso, eu queria vir pessoalmente.
- Queríamos convidá-la em breve - Ela corou - Quando comprássemos o sofá.
Mamma Vecchio sorriu:
- Não precisa ficar envergonhada. O lugar é bom. Bom espaço. A cozinha é muito boa, e isso é muito importante num lar, bambina, lembre-se sempre disso.
- Ela é de bom tamanho, não é? E é bem clara, bem arejada, também. Muitas janelas.
Ela olhou para o ambiente:
- Mas umas cortinas poderiam alegrar ainda mais o ambiente. Acho que posso mostrar uma das velhas cortinas que eu aposentei na última primavera. Estão em excelente estado. Apareça lá em casa um dia, e eu mostro.
Linda sorriu e olhou em volta:
- Obrigada. Nunca pensei nisso, cortinas.
O almoço com a Sra. Vecchio foi mesmo muito agradável e para alívio de Linda não houve mais qualquer referência a "viver no pecado" dessa vez. Linda sabia que a italiana tinha ótimas intenções, mas antes que se desse conta, ela estaria sendo aconselhada a pressionar Fraser a marcar um casamento. A última coisa que Linda queria era pressionar Fraser.
À tarde, Linda começou a fazer os exames que o Dr. Lennyard tinha prescrito, e depois foi dispensada mais cedo. Aquilo lhe deu muito tempo para preparar uma boa refeição quando Benton chegou. Ele também chegou mais cedo.
O cozido estava fervendo e Linda estava ocupada com outra panela, cheia de batatas, e não se deu conta de Fraser se aproximando. Dief entrou na cozinha, e ela virou-se para ver o canadense parado na porta da cozinha.
- Olá, Ben - Ela sorriu - Chegou cedo.
A voz dele estava estranha e ele não sorriu de volta:
- Você está ocupada. Vai demorar?
- Não, só -
- Ótimo - Ele a interrompeu - Estarei esperando você no outro quarto. Por favor, venha assim que puder.
- Ben? O que houve?
Ele já saíra da cozinha, e Linda ouviu a porta do quarto desocupado se fechando. O coração dela afundou pesadamente. Ele certamente estava perturbado.
Para começar, a aparência dela estava mudada. Ele estava pálido, meio sem fôlego, e provavelmente estava trêmulo. Talvez estivesse doente. Linda se assustou.
Ai meu Deus.
Perdendo completamente o apetite, Linda terminou rapidamente as batatas e certificou-se de que o cozido estava pronto, então apagou o fogo. Depois ela foi para o outro quarto, hesitante, sem saber direito o que iria encontrar lá. Ela bateu na porta e abriu-a, chamando:
- Ben?
Estava bastante escuro. As luzes estavam apagadas e as janelas fechadas, por isso não havia fresta de luz. Os olhos dela não estavam acostumados à escuridão, e tudo parecia um breu. Além disso, o coração dela parecia pesar cada vez mais até a voz dele surgir de repente, no escuro:
- Não acenda a luz.
Instintivamente, Linda foi na direção da voz quase irreconhecível de Ben, indagando:
- Benny, o que -
Antes que ela pudesse terminar a sentença, sentiu uma mão forte tomá-la e houve uma breve confusão. Quando Linda se deu conta, ela tinha sido imprensada de frente para a parede, e ela mal tivera tempo de ter o impulso de levar as mãos ao rosto antes que ele fosse espatifado. O corpo nu de Ben estava quase cobrindo o dela, as bochechas dela sentindo o concreto frio e a voz dele, ainda mais rouca do que antes, ordenava diretamente no ouvido dela:
- Não tenha medo.
O coração de Linda disparou. Usando nada mais do que seu peso, Ben a deixara totalmente imóvel, pregada contra a parede. Linda podia ouvir a respiração forte dele na nuca, as inalações ruidosas contra seu cabelo, a voz irreconhecível:
- Eu preciso... ter você... Ter você agora... por favor...
Enquanto ele falava, as mãos já escarafunchavam a blusa dela, tentando livrá-la da roupa ofensiva. Ao contrário do modo como ele sempre tocara em Linda, dessa vez os movimentos de Fraser eram aflitos, bruscos e rudes. Enquanto era despida, Linda se deu conta de que estava nas mãos de um homem que não podia se dar ao luxo de cortejá-la corretamente. Ele exigia ser satisfeito. Imediatamente. Levado aos limites do desejo, ele estava quase enraivecido por não ter a pele dela imediatamente disponível para que ele a tocasse, a arrebatasse. À medida que ele a aliviava de suas roupas, ele instantaneamente cobria cada parte exposta de pele com sua língua, mãos, pernas ou até mesmo seus quadris.
Quando Linda se deu conta do nível de desespero de Fraser, recebeu uma dose de desejo despejada como um soco em seus recessos mais profundos. Segura pelo corpo masculino forte e poderoso, ela podia fazer pouco além de se contorcer e tremer, as mãos para cima na parede, a parte baixa das costas sentindo o cutucão sólido da masculinidade orgulhosa de Fraser. Ela gostaria de passar as mãos nele, mas não havia jeito de Fraser sequer ouvi-la. Bom, para que ele pudesse ouvi-la em primeiro lugar ela tinha que ter voz ou pelo menos algum pensamento coerente. Não era o caso.
O canadense tremia todo em cima dela, o corpo dele pressionando-a tanto que era como se eles pudessem se fundir num só. A língua quente e experimentada estava nos ombros dela, os dentes brancos mordiscando suas orelhas, as mãos na cintura dela, e sua parte mais masculina cegamente tentava encontrar a entrada para a união mais íntima entre os dois corpos. Linda procurava mover os quadris para trás e para cima, tentando ajudá-lo, tão excitada quando ele, com a intenção de separar as pernas sem perder o equilíbrio. Se Fraser não a tivesse escorando contra a parede, ela provavelmente já teria escorrido como um líquido ralo. Em minutos, Linda tinha se elevado a um nível de desejo que se igualava ao de Fraser.
Ou não.
Geralmente, a essa altura, Fraser estaria gemendo, às vezes sussurrando o nome de Linda como se fosse um mantra. Agora, porém, ele rosnava, dentes trincados, respiração tão entrecortada que Linda temia algum tipo de ataque. Os quadris dele se moviam freneticamente contra ela, roçando o inchado pênis contra ela, as mãos tinham conseguido chegar até o peito e agora amassavam-lhe os seios. Ela se contorcia, buscando recebê-lo dentro de si.
Quando o desejo físico de Fraser se aproximou do já úmido abrigo íntimo no centro de Linda, ela sentiu as pernas se liqüefazendo. Mas quando Fraser finalmente conseguiu entrar nela, fazendo-a sentir cada centímetro de seu órgão hiperentumescido, ela pensou que poderia uivar mais alto que Dief. Então ele se retirou, não totalmente, somente para depois empurrar de novo, com mais força, aumentando o prazer de ambos. E ele repetiu a operação mais uma vez, e outra, mais rápido, com mais e mais força, agora grunhindo, os quadris se acelerando e os dela respondendo,
Pelo ritmo que tinham estabelecido, nenhum dos dois iria demorar muito. Linda sentia que todos os nervos dela tinham terminações em puro metal incandescente, um capaz de queimá-la de dentro para fora. Fraser, agora reduzido a pouco mais do que uma bomba-relógio, podia sentir a grande explosão se armando, a voz aumentando mais do que Linda jamais ouvira.
Fraser urrou ao mesmo tempo em que Linda pôde sentir o jato quente do leite de Fraser entrando dentro de si, a sensação de preenchimento total a jogando para o outro lado e a fazendo ver pontos brilhantes de luz através dos olhos fechados. O escaldante líquido quente que um dia tinha sido seu sangue chegou ao ponto de fusão e por um momento, o corpo dela espasmou e ela não viu mais nada, enquanto as pernas falhavam.
Linda não sabia quanto tempo tinha ficado sem sentidos, mas acordou quando a temperatura em seu corpo começou a baixar. Ela estava nos braços quentes de Fraser, e os dois estavam deitados no topo da arca que pertencera a Bob Fraser. Era a única mobília do quarto.
Benny sentiu o corpo dela se mexer e a abraçou com força:
- Linda, por favor, me perdoa.
Ela beijou o braço dele:
- Perdoar você?
- Eu... não pude me controlar. Estou tão envergonhado. Não se assuste.
- Não se envergonhe, Ben.
- Nunca fiquei tão descontrolado antes. Assustei você. E... eu usei você. Não consegui sequer me concentrar no consulado. Eu a queria tanto. A tarde toda, pensando só em você. Não consegui sequer trabalhar. Só pensei em você. A inspetora ficou tão desgostosa que me dispensou mais cedo. Então vim para casa e aí eu vi você... Não sei o que deu em mim, eu... eu... Me desculpe.
Linda se virou para ele e acariciou-lhe o rosto, buscando os olhos azuis para assegurar, murmurando:
- Shhh, Benny, está tudo bem. Por favor, não se sinta mal.
- Você podia ter se assustado. Eu... quase fiquei... violento.
Ele evitou olhar nos olhos verdes que o encaravam com amor e confiança. Linda disse, buscando-lhe os olhos azuis:
- Ben, eu sei que você jamais vai me machucar. Você mesmo disse isso. Eu não tive medo (Uma mentirinha só, pensou Linda). Eu amo você e confio em você com minha vida.
Fraser a arrebatou para um beijo longo e apaixonado, um que derreteu as dúvidas e que o fez amar ainda mais essa garota que confiava nele totalmente, apesar de tudo que acontecera com ela.
Ele sentiu que ela tremia e indagou:
- Está com frio?
- Sim - ela respondeu - Mas eu poderia ficar assim para sempre. Não quero sair daqui.
- Não quer sair de cima do baú do meu pai?
- Na verdade, eu falava de sair dos seus braços.
Ele sorriu, beijou-a rapidamente e lembrou:
- Mas o jantar vai esfriar. E agora estou ficando com fome. Vamos, eu a ajudo.
Linda gritou quando Fraser a ergueu nos braços e depois deu uma risada do jeito que ele mais amava ao ser carregada até o armário. Eles se vestiram e Diefenbaker balançou o rabo, feliz, sabendo que daquela vez o jantar finalmente estava a caminho.
* * *
- Você tem certeza? - A voz de Martha mostrava toda preocupação da moça - Eu sei que ele nunca se atrasa. Eu posso esperar com você.
Linda suspirou. A rua ficava mais vazia e mais escura à medida que os estudantes iam saindo da escola, depois da última aula da noite. Ela tentou sorrir:
- Sua irmã vai se preocupar se você se atrasar, Martha. Eu sei que Ben vai aparecer a qualquer minuto. Eu iria sozinha, mas pode ser que ele apareça e a gente se desencontre, e isso o deixaria muito preocupado.
- Não quer ligar para ele?
- Não temos telefone, você sabe. Eu estarei bem.
- No meio da rua, nessa temperatura e a essa hora em Chicago? De jeito nenhum. Você vem comigo. Vamos até o escritório de Laurie e nós a levamos para casa.
Linda esticou o pescoço e, da esquina, viu um Riv verde bem conhecido vir em sua direção. Ela apontou, aliviada:
- Eu disse que não havia necessidade. Viu? Ele até trouxe Ray.
Os dois saíram do carro, e Ray foi logo dizendo:
- Linda, me desculpe tê-la deixado esperando. Foi tudo culpa minha. Eu me atrasei.
- Tudo bem, Ray. Verdade. Sei que deve ter tido uma boa razão.
Martha disse, tentando não parecer irritada:
- Eu já ia levá-la comigo. Quase nós nos desencontramos.
- Linda, desculpe, me desculpe mesmo - insistiu Ray.
- Não precisa, está tudo bem.
Fraser trazia a cabeça baixa, rodando o chapéu entre as mãos, mas Linda pôde pescar um brilho nos olhos dele. Ela foi para os braços dele:
- Sério mesmo, Ben, está tudo bem.
Ray continuou:
- Venha, Martha. Nós lhe damos uma carona até o escritório de sua irmã.
- Não, não é necessário, detetive.
- Pode me chamar de Ray.
- Ray, está tudo bem. Eu posso andar.
- Eu insisto.
Linda disfarçou um risinho, ao ver Ray entrando no seu padrão de comportamento estilo "conquistador", tentando se aproximar de Martha e empurrou Benny para o Riv:
- Então é melhor irmos logo. - No assento de trás, um conhecido focinho lupino a saudou - Oi, Dief. Como vai meu lobo favorito?
- Woof!
O grupo se ajeitou e a ida para o escritório de Laurie, irmã de Martha, foi relativamente sem incidentes, enquanto Linda olhava com interesse a interação entre Ray e Martha. Ela estava tão distraída com os dois que nem reparou na expressão dos olhos de Ben, cada vez mais maliciosa.
E a atitude do canadense pouco antes de Martha saltar surpreendeu Linda.
- Martha, se você não tiver planos para sábado, Linda e eu adoraríamos que você viesse jantar conosco. - Ele se virou para ela - Não adoraríamos?
Era em dois dias! Mas Linda tinha bons reflexos e respondeu sem hesitar:
- Claro que sim, Ben. Adoraríamos, Martha.
Aquilo também pareceu pegar Martha desprevenida.
- Bom, não, na verdade eu não tenho planos.
- Ótimo. Às oito está bom?
- Claro. Obrigada.
Ray se adiantou:
- Precisa de carona? Posso apanhá-la.
Parecia que Martha tinha ficado sem desculpas aquela noite. Ela respondeu:
- Adoraria.
Ray pareceu radiante e eles combinaram os detalhes. Depois, quando ele deixou Benny e Linda em frente ao apartamento, ele estava todo animado. A garota indagou:
- Tem certeza de que não quer entrar, Ray? Posso fazer café.
- Não, obrigado, Linda. Preciso levantar cedo, se é que vou querer aprontar um terno para o jantar com Martha no sábado. Além disso, Ma está esperando vocês dois amanhã à noite, não se esqueçam. Só me diga depois como foi, Benny.
- Está bem, Ray, boa noite. Vamos, Diefenbaker, estamos entrando.
O lobo correu para fora e Linda indagou, enquanto o Riv partia:
- O que Ray estava falando, Ben?
Fraser apressou-se em abrir a porta para ela e respondeu:
- Nós nos atrasamos hoje porque eu queria fazer uma surpresa para você.
Linda entrou no apartamento intrigada e quando Fraser acendeu as luzes, ela sentiu um friozinho na barriga ao olhar para a sala de estar. No centro da peça, estava um sofá usado, em perfeito estado. Não era muito grande, nem pequeno demais, o suficiente para acomodar três pessoas confortavelmente.
Era a última coisa que Linda esperava na terra.
- Oh, Ben...! - Ela enlaçou o pescoço dele com os braços - Um sofá!... Você comprou um sofá!
Ele a abraçou apertado e disse:
- Ray me ajudou a trazê-lo para casa antes que você chegasse da escola. Por isso nós nos atrasamos.
Ela sorriu e acariciou o rosto dele, olhos cheios de amor, e viu a intensidade da emoção dentro dos dois pequenos olhos azuis que tanto amava. Então ela sussurrou:
- Amo você, Ben. Obrigada.
- Então não está chateada?
- Por que eu iria ficar chateada?
- Porque eu comprei sem consultá-la. Sei que prometi a você que faríamos tudo juntos, mas se eu fizesse, bom, daí não seria uma surpresa, seria?
- Claro que não estou chateada, meu querido. Foi muito gentil de sua parte. Amo você.
Ela o beijou e sentiu que ele se entregava ao beijo. De repente, Ben a levou pela mão para a nova mobília da casa, mostrando:
- Também pode virar uma cama, se necessário. Então eu pensei que mais tarde poderíamos querer comprar um sofá novo, e esse ficaria no outro quarto, que então se tornaria um quarto de hóspedes.
Linda não pôde evitar dar um sorriso maroto:
- E a julgar pela sua disposição ao convidar Martha essa noite, parece que vamos começar a ter um montão de convidados e hóspedes, começando sábado.
O sorriso de Fraser caiu e ele começou a gaguejar:
- Bom, eu... Você não gostou que eu tivesse convidado os dois para jantar? Eu... Desculpe, eu...
- Claro que não é isso, Ben. Eu adorei, e estava planejando mesmo fazer isso algum dia desses. Talvez Ray e Martha possam se acertar, se... dermos um empurrãozinho.
Ele a encarou, os olhos sorrindo de maneira peculiar:
- Não sabia que tinha jeito para casamenteira - Então ele a agarrou pela cintura - É surpreendente.
Linda sorriu enquanto sentia a língua dele fazer cócegas em seu pescoço e mal pôde respondeu:
- Nem eu. Er, Benny... Oh, Benny...
Ele se deteve e procurou ver o que se refletia nos olhos verdes, os olhos azuis safira sorrindo:
- Então... que acha de "inauguramos" o novo sofá?
Ela usou o polegar para acariciar a mandíbula dele e também sorriu para responder:
- Na verdade, Ben, eu preferia que não fizéssemos isso.
Fraser não conseguiu evitar o desapontamento:
- Oh. Bom, eu... Está bem, eu só...
Era a vez de Linda de exibir o sorriso malicioso:
- Eu quis dizer não agora. Sabe, podíamos... criar alguma expectativa para "inaugurar" o sofá. Ficaria mais excitante. O que acha?
As palavras dela trouxeram de volta um sorriso àqueles lindos lábios canadenses, e ele sussurrou:
- Isso pode ser uma excelente idéia.
Linda jogou a cabeça para trás e riu-se de uma maneira que excitava Ben demais, então ele a apertou ainda mais contra o corpo dele já em chamas. Eles se beijaram desesperadamente, explorando um ao outro, já desabotoando cintos e camisas antes de irem tropeçando para o quarto. Dief ganiu, já sabendo que o jantar sairia atrasado. De novo.
* * *
Jantar entre os Vecchios sempre era uma experiência para Linda. Havia barulho, havia calor humano, proximidade e sempre coisas novas para aprender. A moça era uma estudante ávida, e ela geralmente se comportava de maneira impecável, respondendo pacientemente às perguntas das crianças, conversando com Francesca e sendo atenciosa com a mãe de Ray e a irmã Maria. Até o distante Tony, marido de Maria, estava se acostumando ao jeito calado de Linda, assim como eles todos tinham se acostumado ao jeito de Benny.
Aquela noite, porém, Linda não podia concentrar sua atenção nos amáveis anfitriões. Parecia que ela só tinha olhos para Ben. Aos olhos dela, naquela noite ele estava particularmente magnífico, mesmo de jeans, uma camisa creme e jaqueta de couro. Ela estava sentada em frente a ele na mesa de jantar, e pelo menos duas vezes ela se pegou perdida em pensamentos, encarando-o com um fantasma de sorriso, enquanto Ray estava falando. Com esforço e sorte, ela conseguira responder ao amigo coerentemente. Mas o coração dela estava voando alto, batendo fundo. Ela estava apaixonada por Ben, um sentimento que parecia crescer a cada dia, e pior: aparentemente tinha escolhido aquele preciso momento para armazenar todo o desejo que sentia por ele.
- Mia bambina - Mamma Vecchio definitivamente chamou a atenção dela -, quer mais pasta?
Antes mesmo que Linda pudesse responder, o prato dela estava cheio novamente. A garota sorriu de qualquer modo, e a Sra. Vecchio pareceu ficar feliz ao ver sua comida apreciada. Talvez, pensou Linda, isso ajude a manter minha mente afastada de outras coisas, coisas que no momento são muito impróprias.
Os olhos dela, porém, pareciam estar grudados em Fraser. O sangue dela estava correndo como cascata pelo corpo, e o fluxo parecia ir direto para as orelhas, fazendo tamanho barulho que ela não conseguia se concentrar.
Fraser notou que Linda o olhava, e a princípio imaginou que ela queria lhe dizer algo. Em seguida, ele se deu conta de que estava sendo paquerado. O pensamento de que Linda flertava com ele criou uma onda de puro desejo que o deixou com a cabeça um pouco leve e aérea. O sentimento não ia embora, e Benton tentou ser discreto ao notar o jeito como o pulôver de lã dela lhe moldava o corpo, ou como ela se movia graciosamente quando se ofereceu para ajudar a tirar a mesa após o jantar.
Enquanto o canadense seguia seus movimentos, os olhos azuis encontraram com os olhos verdes de Ray. O italiano sorria, sabendo perfeitamente que o amigo estava apaixonado. Benton enrubesceu quando notou o amigo encarando, e arriscou outra olhadela para Linda, que acabava de vir da cozinha para a sala de jantar. Ela o estava olhando de novo, e os olhos verdes dela brilhavam. O desejo de Fraser crescia mais forte a cada minuto e estava quase deixando-o tonto. Era o mesmo que já tinha acontecido uma vez no Consulado, e o resultado tinha sido não só sua total incapacidade de funcionar para o trabalho, mas também uma sessão de sexo incrível que tinha acabado em cima do baú de seu pai. Fraser precisou reprimir a memória ardente, ou ele ficaria severamente envergonhado na casa do seu melhor amigo, na frente de toda a família.
Linda voltou para a cozinha e Fraser aproveitou uma pausa no que Frannie falava para ir atrás dela. Ele abaixou a voz e disse, sem ter certeza de como dizer o que queria dizer:
- Linda...
Ela se voltou para olhá-lo, e a intensidade do que ela viu nos olhos azuis perfeitos quase a fez atacar os lábios ardentes ali mesmo. Mas havia uma multidão de Vecchios bem perto, e aquilo não seria...
- Linda, você está bem?
A voz de Ray pareceu ser o chamado à realidade que quebrou o encantamento entre os dois. Infelizmente, o casal ainda estava sob os efeitos do feitiço.
- Sim - disse Linda.
- Não - disse Fraser, ao mesmo tempo.
Houve um silêncio embaraçoso. Imediatamente, os dois falaram ao mesmo tempo:
- Quero dizer, não.
- Na verdade, é sim.
Ray olhou o teto, murmurando:
- Era uma pergunta simples... Olhe, quando vocês se decidirem, me avisem, OK?
Linda apressou-se a explicar:
- Não, Ray, na verdade o que quero dizer é que estou um pouco cansada, mas não quero sair tão cedo. Sua mãe iria ficar muito chateada.
Outra voz se ouviu na cozinha:
- Não, bambina - Os três se viraram para a porta, onde Mamma Vecchio abanava a cabeça - Você é uma boa moça, e trabalha duro, além de estar estudando também. É natural que de tempos em tempos fique cansada. Só porque voc6e quer descansar não é motivo para me magoar.
- Sra. Vecchio, eu estava...
A velha italiana ergueu a mão, interrompendo-a, e Linda se lembrou:
- Quero dizer, Ma... Isso não é mesmo necessário, eu gostei muito do jantar e -
Ela interrompeu Linda mais uma vez:
- Bobagem, cara. Todos nós vimos que você estava um pouco distraída hoje. E você desmaiou outro dia. Eu soube.
Como ela poderia saber? Linda corou e repreendeu:
- Ray!
Ele deu de ombros:
- Ela é minha mãe e ela perguntou, Linda. O que deveria fazer? Mentir para minha própria mãe?
- Claro que não. - Benton tentou, como sempre, ajeitar as coisas - Você fez bem, Ray.
- E agora - decidiu a Sra. Vecchio - você vai fazer outra boa ação, Raymondo, e levá-los para casa.
Fraser disse:
- Não, obrigada, mas não será necessário. Podemos andar.
- Benton, eu não quero ouvir isso - A italiana sempre fora decidida, e ele deveria saber que não havia como fazê-la mudar de idéia - Linda está cansada, precisa descansar. Andar vai ser muito cansativo. Não discuta comigo. Raymondo, você vai levá-los.
- Claro, mãe. Vamos lá, gente. Ah, eu vou chamar o Dief.
Linda a abraçou:
- Obrigada, Ma. É a melhor mãe de todo o mundo.
- Eu gosto de tomar conta de meus filhos, mesmo que eles não cuidem de si. Benton, certifique-se de que ela vá para cama assim que chegar em casa.
Por uma fração de segundo, ele lutou contra um sorriso malicioso.
- Não se preocupe com isso, Sra... Er, Ma.
- Boa noite, bambini miei.
No caminho para o apartamento de Fraser e Linda, Ray podia sentir algo estranho no Riv, mas não saberia dizer exatamente o que estava acontecendo. O casal estava bem quietinho, e Linda ainda tentou dizer a Ray que ela não estava realmente doente, e ele disse que não adiantava nada tentar discutir com a mãe dele. Fraser ia calado no banco de trás, respirando com cuidado, acariciando Diefenbaker. O lobo sabia direitinho que aqueles dois estavam a ponto de se acasalar de novo, mas aparentemente dessa vez até os humanos podiam sentir o cheiro.
As despedidas foram rápidas, e Ray só teve o tempo de lembrar sobre o jantar com Martha no dia seguinte. Linda e Fraser assentiram polidamente, sorrindo, sem ouvir sequer uma palavra do que Ray dizia. Eles mal podiam esperar que Ray fosse embora, mas continuaram abanando adeus, mantendo o sorrido congelado nos rostos, até o carro clássico desaparecer na esquina, já subindo as escadas para o apartamento, Fraser com a chave na mão.
Quando o Riv finalmente saiu das vistas, Fraser se virou para Linda e indagou enigmaticamente:
- Sofá?
- Sofá.
Eles correram para o apartamento e entraram a toda velocidade. Por um minuto Diefenbaker imaginou que eles tivessem esquecido o impulso de acasalar (afinal, já tinha se tornado um impulso tão comum) e tinham trocado por uma prática de caça e rastreamento noturno, como ele e Fraser costumavam fazer. Mas quando ambos começaram a retirar as roupas um do outro como se estivem pegando fogo, o lobo sabia o que eles realmente queriam. Ele só agradeceu aos deuses lupinos que eles já tinham jantado naquela outra casa onde havia uma grande matilha com filhotes e humanos barulhentos com a melhor comida daquele estranho local chamado cidade.
Eles não conseguiram se desgrudar dos lábios nem parar de tirar suas roupas.
- Eu... tentei... me controlar...Não pude...
Os lábios dela estavam sob os de Fraser, o som era entrecortado:
- Nem eu...Ben... Acha que eles... notaram?
Ele jamais tinha soado assim antes:
- Espero que não... Podemos... nos desculpar... mais tarde...
- Sim, suponho que sim...
- Linda... Querida... Quero você... Agora...
- Eu também quero você... Ben...
Ele a puxou contra seu corpo nu e deu alguns passos para trás, até cair sentado no sofá, e ela se espalhou em cima dele, ainda beijando-o avidamente. Não havia tempo para preliminares, nada os satisfaria a não ser ir direto ao assunto.
Linda rapidamente se pôs de joelhos no sofá acima de Benny, cujas mãos estavam nos seios dela, e ela os aproximou dos lábios dele, enquanto uma mão a apoiava no sofá e a outra ia para baixo, procurar a ereção entre as pernas dela. Enquanto a boca dele explorava e mordiscava os seios macios, ela esfregava o centro úmido dela contra o sexo inchado dele, espalhando seus sucos no aço sedoso que pulsava entre seus dedos e ele gemeu alto, arfando com a boca quase anexada ao mamilo duro que tinha entre os dentes.
Incapaz de prolongar o céu, Linda sentou-se no seu colo, tomou-o dentro de si por completo, perdendo o fôlego quando sentiu-se preenchida por ele e sentindo que seus pelos púbicos encontravam as esferas delicadas, tão fundo que eles tinham se unido. Após segundos saboreando a sensação e deixando-o sentir-se dentro dela, ela começou a escorregar para cima e para baixo, tomando mais e mais dele a cada movimento. As mãos de Fraser se moveram para os ombros dela e os agarraram em forma de gancho. O corpo másculo dele adicionava sua força aos esforços dela, e Linda sentiu que ela estaria explodindo logo, cedo demais para seu desejo, e ela tentou retardar até que Benny pudesse se juntar a ela.
Os movimentos dos dois logo chegaram a um frenesi descontrolado. O corpo de Linda começava até a ter espasmos. Em seguida, ela pôde sentir um jato ascendente da semente dele a enchê-la, o que ocasionou sua própria erupção. Tudo pareceu ser muito rápido. Dessa vez, ele foi quem a recebeu nos seus braços, e ambos deitaram-se no sofá, tentando recuperar o fôlego. O sofá não estava aberto para servir de cama, então eles estavam amontoados na mobília estreita. Não era confortável o suficiente para que eles adormecessem, então eles ficaram apenas um nos braços do outro, acariciando-se. Linda usava a ponta dos dedos para desenhar círculos no peito de Benny, e ele tocava o cabelo dela.
- Eu amo você mais que todo o sempre - disse Linda, encarando-o com devoção - Ben, eu amo você tanto...
Ele voltou a mão para apertá-la contra si e disse, antes de beijar os lábios dela de maneira terna:
- Eu também amo você. Para sempre, Linda.
Linda começou a beijar o peito dele, depois continuou a desenhar os círculos nos lugares onde tinha beijado. Era como se ela tivesse começado a decorar o corpo dele. Em seguida, ela parecia envergonhada ao dizer::
- Ben, nós... parece que temos estado... bem ativos, não acha?
Fraser sentiu o calor que vinha do rosto dela, e sabia que ela estava corando. Bom, ele também estava.
- Você quer dizer... "inaugurando" o sofá e coisas assim?
Ela assentiu, e ele encolheu os ombros:
- É, acho que temos estado mesmo... er... ativos, como você disse. Por que pergunta?
- Você acha que isso... Bom, será que é normal?
Fraser pensou um pouco, depois respondeu:
- Eu não tenho meios de comparação, Linda. Nunca tinha vivido com mais alguém dessa maneira antes, então não sei qual é o padrão para essas coisas. Além disso, você provavelmente deve saber melhor do que eu que o que é considerado normal para uma pessoa, para outras pode ser diferente.
- Sim, eu sei, Ben, mas eu estava pensando. Nós fazemos isso de três a quatro vezes por dia, todos os dias. Ou mais.
- Tem algo errado? Você quer... ir mais devagar?
Linda quase riu:
- Ben, acho que mesmo que tentássemos não conseguiríamos ir mais devagar. Quero dizer, olha só para nós agora. Nós mal conseguimos manter as mãos longe um do outro durante o jantar na casa de Ray.
- Linda, na verdade nós não conseguimos ficar longe um do outro durante o jantar com a família de Ray. Por isso voltamos mais cedo. Mas isso está incomodando você?
- Não, não de verdade, acho. Acho que... - Ela não terminou, depois deu de ombros - Não é nada.
- Você pode me falar qualquer coisa, você sabe.
- Sim, Ben, eu sei. Mas pode ser só uma coisa muito boba.
- Boba como?
Ela deu de ombros:
- Talvez seja só o fato de eu ser sensível quando se fala em coisas normais, sabe. Eu posso estar exagerando.
- Sim, pode ser que esteja exagerando. Na minha opinião, é perfeitamente normal que duas pessoas romanticamente envolvidas se dediquem a atividades sexuais. Não acho que deva haver motivo para preocupação.
Linda suspirou e voltou para os beijos no peito dele:
- Acho que...tem razão... Como sempre... - Ela se concentrou no que fazia - Hummm... Gostei disso...
Os beijos dela evoluíram de carícias suaves para uma dedicada arte de lamber, e Fraser sentiu seu corpo respondendo aos estímulos de Linda, muito mais cedo que ele tinha esperado. Ele começou a sentir o sangue viajando para sua virilha e adjacências, e ele tentou colocar as mãos em pontos sensíveis, mas Linda de repente pulou do sofá.
- O quê...?
Fraser jamais pôde terminar a pergunta. Antes mesmo que ele se desse conta, Linda já estava em cima dele, a cabeça dela na direção dos pés dele, e ela estava de quatro no sofá, a língua viajando do umbigo para baixo. Ele gemeu alto, e de repente viu a parte traseira de Linda a apenas alguns centímetros de seu rosto. Quando ela o engoliu por inteiro, sem qualquer aviso, os quadris dele reagiram como se tivessem vontade própria, pulando para cima para aumentar o contato com a boca dela. Fraser se deu conta de que ele sequer tinha se recuperado totalmente do primeiro round, mas sua masculinidade, sempre orgulhosa, já tentava preencher todos os vazios da boca de Linda, e tudo que ele podia pensar era que não havia sensação como essa, e que ninguém jamais fizera ele sentir o que Linda o fazia sentir.
Como sempre, Linda estava disposta a arrancar o máximo de prazer de Benny dessa maneira. Com a cabeça entre as pernas dele, ela podia sentir o cheiro da ereção dele, misturado a sêmen e aos sucos lubrificantes dela própria, e isso a fazia queimar de desejo. Então decidiu ir bem devagar ao lamber o membro dele, os dedos brincando com os dois globos bem no centro de Fraser, erguendo-os só um pouquinho e procurando o ponto mais sensível de qualquer homem, a língua enfiando-se quase por debaixo da pele delicada da cabeça rosada. De repente, ela assoprou delicadamente no órgão hiperexcitado, e ele estremeceu debaixo dela, sentindo a pele sensível, quente como se estivesse em brasa, recebendo um ar fresco suave. Ela puxou o cabelo para o lado e voltou a mergulhar no centro dele novamente.
A reação dele não foi nada inesperada: Benny ergueu a cabeça e de repente se viu entre as pernas dela, toda sua feminilidade postada a poucos centímetros do rosto dele. Ele não contou tempo e enfiou sua boca diretamente no âmago dela, provocando um gemido alto da garganta preenchida dela, aparentemente como um guincho. Lábios sedosos viajavam para cima e para baixo de sua caverna gotejante, as narinas dele recheando-se com o aroma mais puro dela, e as mãos dele se voltaram para a cintura dela, para poder conter os quadris dela. As ações dele quase fizeram Linda perder a concentração, mas ela conseguiu manter um ritmo estável no modo como a boca dela trabalhava no sexc dele. Em poucos segundos, eles conseguiram entrar em sincronia, um servindo ao outro com prazer, gemendo alto, o sofá novo enchendo-se de chiados estrepitosos.
Linda sabia que Benny estava a ponto de se dissolver em prazer, e ela se apiedou do seu amado, mesmo que não estivesse em melhor forma. Ela decidiu agarrar a base do membro e dedicar-se a uma violenta sucção da parte superior, fazendo-o contorcer-se, e a língua dele se enrolava em cada dobrinha da caverna de Linda, portanto levando-a ao êxtase ao mesmo tempo em que ela sentiu um jato quente familiar penetrando sua garganta. E mais uma vez ela conheceu o paraíso.
Então, enquanto Fraser desabava no sofá, praticamente desacordado, ela cambaleou para o quarto, as pernas bambas, pegou um lençol limpo e uma esponja do banheiro para limpar os dois e cobri-los antes de mergulhar no sono, ambos felizes e saciados. E, claro, no novo sofá, agora oficialmente inaugurado.
* * *
Embora o dia seguinte fosse um sábado, Fraser tinha que ir ao Consulado para pôr em dia alguns papéis. Linda decidiu ir junto, não apenas para exercitar Dief, mas também porque ela se sentia mais confortável sabendo que a Inspetora Thatcher não estaria ali. Thatcher assustava Linda imensamente. A moça ficou aliviada ao saber que não era a única a se intimidar com a superiora de Fraser.
Eles foram cedinho de manhã. Fraser entrou no seu escritório e Linda admirava o retrato da rainha a quem Benton servia no corredor principal, com Dief ao seu lado. Então um barulho a assustou. A garota ficou surpresa ao ver outro polícia montada no Consulado.
- Constable Turnbull? Não devia estar de folga?
- Oh, bom dia, Srta. Linda. - saudou o polícia montada grande e desengonçado. - Bom, embora não seja um dia de trabalho, a Inspetora me pediu que pusesse em ordem alfabética alguns arquivos que eu tinha dado como sumidos essa semana. Na verdade, eu acredito que minha presença aqui hoje tem alguma relação com minha responsabilidade na requisição da manutenção de três computadores do consulado.
Linda pensou por um momento:
- Então... ela o deixou de castigo?
Turnbull olhou para a moça, piscou e depois admitiu:
- Bem... essencialmente, sim.
- Lamento ouvir isso, Constable - ela disse sinceramente - A Inspetora pode ser muito intimidante, na minha opinião.
- Suponho que sim - foi a resposta polida de Turnbull.
Fraser os ouviu conversando no fundo, e indagou a si mesmo o que os dois poderiam ter em comum para manterem uma conversa tão animada. De qualquer modo, aquilo ajudou que ele terminasse seu serviço muito mais rapidamente, e depois de arrumar o seu escritório apropriadamente, ele saiu para encontrar Linda e Turnbull ainda conversando. O desengonçado polícia montada dizia animadamente:
- ...mas depois disso, o pior está realmente feito. Tudo fica muito mais fácil dali para frente.
- Eu jamais teria pensado nisso - disse Linda, surpresa - Obrigada, Constable.
Turnbull corou e disse:
- Fico feliz em ajudar, senhorita - Ele notou Fraser se aproximando - Ah, Constable Fraser, senhor. Já terminou?
- Na verdade, sim, obrigado - Ele se virou para Linda - Pronta para ir, Linda?
- Sim, Ben - Ela se voltou para Turnbull - Posso voltar outro dia para continuarmos essa conversa? Tem muita coisa que eu gostaria de perguntar, mas não quero atrapalhar seu trabalho.
Ele sorriu polidamente:
- Será meu prazer, Srta. Linda. Fico feliz em poder servir.
- Mais uma vez agradeço muito sua ajuda, Constable - disse Linda - Tenha um bom fim de semana.
- O mesmo para os dois - desejou Turnbull - Até segunda-feira!
Fraser abraçou Linda e eles deixaram o Consulado, Diefenbaker trotando alegremente na frente. Enquanto caminhavam pelo centro de Chicago, Fraser observou:
- Você e Turnbull parecem ter encontrado interesses comuns.
- Não sei muito sobre isso, Ben, mas ele me deu ótimos conselhos sobre roupas. Ele parece ter muito jeito para lidar com essas coisas.
- Roupas?
- Sim, sabe, como lavá-las. Aquelas suas túnicas de sarja são muito difíceis de lavar, deixe-me dizer. Mas não é impossível, eu sabia que não era! Turnbull sabe tudo sobre isso, e ele me deu ótimas dicas.
Fraser ficou confuso e olhou para ela:
- Eu pensei que você levasse para a lavanderia.
Linda não escondeu a surpresa:
- Por que eu faria isso se posso lavá-las em casa? Eu gosto de fazer isso. Não percebeu?
- Na verdade, eu percebi uma diferença, mas pensei que você tivesse encontrado uma outra lavanderia.
- Eu também coloco amaciante. Só um pouco, para o tecido permanecer firme. Mas pelo menos tem um cheirinho bom, não é? E, claro, agora não deve pinicar tanto quanto antes.
Fraser pensou e teve que admitir: o tecido parecia mais macio sobre a camiseta, e ele não tinha percebido o motivo.
- Como conseguiu fazer isso naquela lavanderia do prédio?
Linda olhou para ele como se estivesse explicando Física Quântica a uma criança de 10 anos:
- Não, Ben, eu não usei a lavanderia, pois suas túnicas não iriam resistir às máquinas de lavar. Ficariam arruinadas em pouquíssimo tempo.
- Então como fez isso?
Ela respondeu alegremente:
- Eu lavei à mão no apartamento, claro. Deu um pouco mais de trabalho, admito, mas o resultado foi muito melhor. E agora, com as dicas de Turnbull, deve sair melhor ainda.
- Mas... deve ter sido muito trabalho. Por que fazer isso?
Linda sorriu candidamente e respondeu, com a inocência de uma criança:
- Porque amo você. Sem falar na economia que fazemos.
Fraser repentinamente parou de andar, em plena rua, o vento frio de Chicago soprando por baixo de seu Stetson. Ele não sorria, nem olhava para Linda. Ela também parou, e foi até ele, preocupada.
- Benny - A garota parecia preocupada - Foi algo que eu fiz?
Ele olhou para a calçada perto dos seus pés e depois olhou para ela, antes de suspirar:
- Eu não sei, Linda. Cada vez que acho conhecer você, você sempre consegue me surpreender. Sempre achei que seria impossível amar você mais do que eu já amo, mas nesse exato momento, é assim que me sinto. Eu a amo mais, e às vezes eu me assusto, porque eu... eu... - Ele parou, incapaz de continuar.
Emocionada, Linda apenas envolveu seus braços na cintura fina dele:
- Oh, Ben, eu amo você também. Não precisa me dizer isso.
Fraser passou a língua no lábio inferior, apertou os olhos e finalmente olhou dentro daqueles olhos verdes que o encaravam, cheios de amor e confiança. E ele gaguejou para dizer:
- Tem uma coisa que eu preciso lhe falar... Venho querendo falar há algum tempo, mas nunca parece ser o momento adequado, e -
Linda sorriu com ternura e disse, levando sua mão até o rosto dele:
- Agora também não é uma boa hora, Ben.
Fraser espantou-se:
- Não é?
- Não, Ben. Estamos no meio da rua, o vento está esfriando, pode nevar. Não acha que seria melhor se fôssemos para casa e conversássemos sobre isso de uma maneira mais confortável?
Olhando para o rosto sorridente dela, Fraser não pode evitar de sorrir também, e cedeu aos desejos dela. Mas eles precisavam ter aquela conversa. Ele estava ficando inquieto, queria logo falar sobre Victoria e tirá-la de suas vidas de uma vez por todas.
De alguma maneira, a determinação dele se esvaneceu quando eles chegaram em casa e souberam que o Sr. Mutchnik tinha tido um ataque de gota. A Sra. Mutchnik pediu um pouco do bálsamo inuit de Fraser, e assim que eles se certificaram que o velho senhor estava melhor, Linda começou a fazer as preparações para o jantar daquela noite. A conversa ficaria para outro dia, decidiu o canadense.
Enquanto isso, Linda se concentrava em evitar outra conversa com ele. Ela jamais disse a Fraser como ela estivera perto de desmaiar mais uma vez no meio da cozinha. Preocupá-lo ainda mais era a sua última intenção. Ele parecia ter muita coisa na cabeça. Ela vinha tendo os sintomas sempre, mas evitava preocupá-lo.
Apesar de Ray e Martha não estarem realmente interessados em comida e em outra companhia que não um ao outro, o jantar foi agradável. Fraser e Linda chegaram a trocar olhares significativos quando se deram conta de que seus amigos pareciam estar se dando bem. Após o jantar, enquanto Ray e Fraser discutiam o caso que estavam trabalhando, Martha insistiu em ajudar Linda com os pratos e fazer o café, alegando não gostar de papo de polícia. E essa tinha sido a razão de Martha ter sido a única pessoa a ver as pernas de Linda falharem.
- Oh, meu Deus, Linda! - Martha correu a ajudar a amiga - Você está bem?
Linda tentou diminuir a preocupação dela:
- Claro que estou. Está tudo bem.
- Você quase caiu, Linda. Está doente, ou coisa assim?
- Não, estou ótima. Posso ter ficado um pouco tonta como sempre, só isso. Por favor, não diga nada aos rapazes. Eles ficariam preocupados sem motivo algum.
Martha olhou severamente para a amiga e disse:
- Linda, se você está sentindo isso há algum tempo, precisa ir a um médico. Pode ser sério.
- Eu já fiz exames, Martha - Ela tentou dissolver as preocupações da outra moça, sorrindo e esforçando-se para não mostrar o quanto ela estava apavorada com aquilo - Acredite, está tudo sob controle.
- Bom... - Martha hesitou - Se você diz, eu acredito.
- Então vamos, é melhor apressarmos tudo. Eles podem se preocupar. Por que não me passa aquelas xícaras?
A noite terminou de maneira muito prazerosa, com promessas de repetição em breve. Mas não domingo, porque Ray iria trabalhar e Fraser se ofereceu para ir com ele. Na verdade, normalmente Linda se ofereceria para ajudar os dois no trabalho aos domingos (apesar das objeções de Fraser), mas dessa vez havia mais uma campana noturna envolvida e Linda tinha que trabalhar pela manhã na segunda-feira. Fraser se mostrou irredutível, então Ray a levou para casa e saiu para a campana com Fraser.
No meio da noite, quando Fraser chegou em casa, Linda estava dormindo a sono solto. Ele estava cansado e frustrado, porque a campana mais uma vez parecia ter sido em vão. O caso que ele estava ajudando Ray era um assassinato complicado, e parecia não haver qualquer tipo de pista, ou então talvez pistas demais. O homem assassinado tinha todo tipo de ligação criminosa, então não faltavam candidatos nem motivos. Estava ficando difícil imaginar quem tinha apagado Teddy "Terceiro Páreo" Namy. Fraser sorriu. Um nome como esse era digno de um gângster da antiga Chicago. As ações dele, ao que tudo indicava, também.
Muito embora estivesse cansado, Fraser estava feliz que Ray lhe desse a oportunidade de voltar à linha de frente do trabalho policial. De tempos em tempos, as tarefas consulares que ele cumpria o deixavam inquieto, sentindo-se um burocrata. Normalmente paciente e disciplinado, Fraser sabia que trabalho com papelada não era de sua natureza. Ele estava contente de poder estar fazendo trabalho de polícia com Ray.
Fraser trocou a água na vasilha de Dief e caminhou silenciosamente no apartamento escuro e silencioso, procurando não acordar Linda. Ele pendurou a jaqueta de couro no closet e deteve-se ao entrar no quarto. Linda dormia de costas para ele, a forma esguia de sua silhueta estampada contra a luz da rua, uma sombra pálida e suave caindo sobre a cama, a respiração tranqüila dela começando a afetar a dele. Ela parecia lindíssima, um sonho adormecido, um anjo caído.
Ele começou a se apavorar. Apavorar não só por amar tanto essa moça, mas também porque ele teria que falar a ela sobre Victoria. Era a coisa certa a fazer, e isso exporia a alma dele totalmente, como se fosse uma oferenda do seu sagrado amor por ela. Era a maneira correta de começar um casamento. Não havia jeito de ele arriscar o que já tinha conquistado.
Nessa hora, ele se lembrou do fantasma do pai, Bob Fraser. Ele aparecera algum tempo depois de sua morte, tentando dar conselhos ao filho. Ben geralmente não via qualquer utilidade para os conselhos do falecido, mas tinha ficado grato pela preocupação, algo que Bob Fraser não tinha deixado claro em vida. Ben sentia que uma conversa com seu pai (irritante como às vezes podia ser) poderia ajudar sua relação com Linda. Pena que ele tivesse sumido.
Fraser ficara extremamente tocado com a confissão de Linda que ela lavava à mão suas túnicas como um ato de puro amor. E ele olhou para ela dormindo calma e tranqüila, lembrando da época em que ela acordaria durante a noite gritando, assustada, desorientada, revivendo uma fase negra de sua vida. Parecia ter sido uma outra encarnação... Naquele exato momento, tudo que Fraser queria era tomá-la em seus braços e fazê-la sua, e depois de novo, e mais uma vez.
A mera idéia gerou e enviou poderosas correntes elétricas pelo corpo de Fraser. Ofegando, ele viu que estava ficando seriamente excitado e por uma fração de segundo lembrou-se da pergunta de Linda, sobre a atividade sexual deles. Talvez ele estivesse mesmo ficando fora de controle. Fraser sorriu para si mesmo, porque ele não queria voltar a ter controle de suas emoções. Ele não sentia mais que poderia fazer isso. Ele sequer queria isso.
Fraser subiu na cama, e o movimento fez Linda se mexer ligeiramente. Ela olhou por cima do ombro nu, meio dormindo, sorrindo ao ver Fraser:
- Oi... É muito tarde?
- Muito - Ele tocou o ombro dela, encheu-o de beijos doces e disse, a voz dele ficando grossa de desejo incontrolável, o corpo dele se acendendo todo - Linda... Tão macia... tão quente...
O corpo sonolento de Linda começou a acordar de maneira sensual, estimulado pelo toque de Fraser, os beijos começando a se espalhar pela nuca dela, enviando tremores pela espinha. As mãos dele afastavam as cobertas, as roupas, a lingerie e seguraram o corpo dela contra o dele, deixando-a sentir o pulsante desejo dele, rijo e quente, sendo esfregado com entusiasmo contra as nádegas dela. Linda tentou manter a respiração estável, mas falhou de maneira miserável.
- Ben... - A voz dela sofria alterações severas - Assim você me excita...
- Ótimo - Ele voltou aos beijos e usou o joelho para separar as pernas dela. - Era isso mesmo que eu pensei...
- Oh... - Ela gemeu - Adoro suas idéias...
Ele manteve os beijos na nuca dela, a língua passeando pela orelha, deitando-se em cima dela, de barriga para baixo, o peso dele sobre ela, as pernas se entrelaçando. Linda podia sentir seus sentidos ainda meio letárgicos, mas o desejo crescia, e uma completa sensação de irrealidade. Se isso for um sonho, eu não quero acordar, pensou ela, com os últimos vestígios de pensamento racional.
Fraser usou as duas mãos para puxar os quadris de Linda para mais perto de si e gentilmente penetrou-a por trás, saboreando o sentimento de adentrar em seu calor. Linda contorceu-se e arqueou o corpo quando sentiu os dois corpos se unindo, suas entranhas se enchendo de Fraser, de prazer e de um sentido de familiaridade quando deu um gritinho. Ela tentou se mexer, mas não podia devido ao grande corpo masculino em cima dela, então ela apertou os lençóis quando Fraser começou a cavalgá-la, as mãos nos quadris dela, puxando-a para si, mais e mais dele entrando nela a cada movimento. Linda também tentou erguer os quadris, aumentar o contato com ele, o corpo dela se acelerando rumo ao contentamento total. Fraser também aumentou o ritmo, e deitou-se totalmente sobre ela, o sangue fervendo, esticando-se para agarrar os seios dela, sentir a maciez nas mãos enquanto ofegava na nuca dela, enchendo suas narinas com a mistura de suas essências, do perfume dela.
Ambos estavam com temperaturas altíssimas, e Linda sentiu um orgasmo arrasador estilhaçando seu corpo ao arquear-se para trás, sem poder respirar, e receber quase ao mesmo tempo a semente quente de Fraser dentro de si, sentindo-o estremecer, gritar e espremê-la em seus braços como se quisesse fundir os dois corpos juntos.
Mais uma vez, Fraser esperou até que ela recuperasse o fôlego antes de sair de dentro dela, girar-lhe o corpo letárgico e envolvê-la em seus braços, possessivamente. Ela o beijou e sussurrou, incapaz de manter os olhos abertos, quase dormindo:
- Amo você...Para todo o sempre...
Ele beijou o cabelo dela e murmurou:
- Amo você também para sempre.
Então ele cobriu ambos com o cobertor que tinha jogado para o lado. Linda se arrumou alegremente em seus braços, totalmente adormecida, um pequeno sorriso nos lábios. Fraser sentiu que seu coração inchava de tanto amor, antes de se entregar ao sono.
* * *
Linda percebeu uma frustração crescendo dentro de si. Era a última coisa que ela esperava. Não depois de todo o tempo e trabalho que ela tinha passado. Ela repetiu:
- Nada?
O Dr. Lennyard olhou para os resultados e suspirou:
- Bom, não achei nada errado com você. Ao menos nada que explique por que tem desmaiado. Mas tem que haver alguma explicação. Talvez seja bom ir ao ginecologista. Pode ser algo relacionado a hormônios. Seus períodos estão OK?
- Sim - ela deu de ombros - até onde eu saiba.
- Pode se lembrar do último?
- Na verdade, não. Não desde que me mudei há uns... dois ou três meses.
O médio a encarou e disse, severamente:
- Sabe o que isso quer dizer, não sabe?
- Não, doutor.
- Você pode estar grávida.
Os olhos de Linda se arregalaram com as palavras dele. Ela jamais pensara nessa possibilidade.
- Mas... eu agora tomo aquela pílulas. Elas não são para prevenir isso?
- Sim, mas você sabe que não existe remédio 100% à prova de falhas. Pílulas são consideradas o método mais eficiente - O doutor deu um meio sorriso - Claro, se vocês não praticam o celibato...
Linda sabia o significado da palavra. Por um momento, tentou imaginar ela e Ben celibatários. Era tão hilário que ela não pôde evitar sorrir nem enrubescer. O Dr. Lennyard entendeu a mensagem:
- Bom, pelo menos consegui arrancar um sorriso de você. Mas talvez esteja levando isso muito a sério, Linda. Olhe, vou marcar uma hora para você e aí teremos esclarecido isso. Pode não ser nada disso. Você pode não estar grávida, OK? Mas acho melhor sabermos, você não?
Ela tremia, e não sabia o que fazer, a não ser assentir:
- Sim, doutor.
- E eu quero que me diga como foi, está bem? Outra coisa: pare de tomar as pílulas imediatamente.
Linda assentiu e saiu do consultório sentindo-se estranha. Seus sentimentos estavam todos misturados. Ela sabia que já tinha engravidado antes, mas não se lembrava de coisa alguma, porque o homem que se dizia seu pai lhe dera drogas para não saber. Depois o bebê tinha sido roubado. Linda só veio a saber disso muito depois, quando era muito tarde, e isso a magoava imensamente só de pensar nisso.
Se ela estivesse mesmo grávida, então... Ela poderia ter que desistir da escola, para tomar conta do bebê. Ela jamais seria uma enfermeira. Era um pensamento dolorido, pois era um sonho antigo. Linda pensou que ser mãe de um bebê de Fraser seria um preço justo a pagar pelo fim do seu sonho de ser enfermeira.
Mas logo em seguida, ela começou a ficar com medo. Fraser poderia não querer o bebê. Ela certamente sabia que ele queria crianças, mas talvez quisesse esperar. Ela também não tinha completa certeza de que poderia dar conta de cuidar de uma vida pequenina e dependente. Ela tinha visto bebês e adorava-os muito, mas eles sempre pareciam ser tão dependentes, frágeis e exigentes. Será que ela estava à altura do trabalho?
Linda se sentia muito dividida. Ela nem sabia se deveria contar a Fraser antes que os resultados chegassem. Não tinha jeito de ela se concentrar no trabalho enquanto todas essas coisas dançavam na sua cabeça. Ela estava até aliviada por não ter que limpar a UTI naquela noite. Naquele ponto, os corredores e o centro cirúrgico eram mais do que ela podia lidar.
Foi lá que as coisas ficaram ainda piores.
- Você é Linda?
Ela olhou para a porta. Um homem negro que ela não conhecia, vestido com uniforme de segurança, a olhava. Ela respondeu:
- Sou Linda. Posso ajudar?
- A Sra. Sorelli queria que eu lhe dissesse que um tal Frasier deu entrada na emergência.
- Emer... gência?
- É. Um polícia montada, túnica vermelha, não é?
- Sim - Ela encarava o homem, coração acelerado - Sim, o que aconteceu com ele?
- Não sei. Alguém falou alguma coisa sobre um tiroteio. Acabaram de trazê-lo. Sala 2 da Emergência.
A vassoura que Linda segurava só atingiu o chão quando ela já estava no corredor, correndo para o térreo, onde ficara a Emergência. Ela não via ninguém à sua frente, não ouvia coisa alguma de um hospital em pleno funcionamento, pois havia muito ruído em sua cabeça.
Quando ela achou a Sala 2, entrou e deteve-se na porta. Viu a figura de túnica vermelha deitada na cama, imóvel. As pernas dele balançavam para fora, a túnica estava pingando. Havia gotas vermelhas pintando o chão branco. Linda se aproximou lentamente, uma estranha pressão no seu peito, os olhos insistindo em se encher de lágrimas.
Fraser estava coberto de sangue, manchas carmim no pescoço, os olhos fechados dando ao seu rosto uma expressão enganosamente pacífica. Linda não conseguia se lembrar como respirar, mas caminhou silenciosamente, bem devagarinho até ele. Os olhos cheios de lágrimas lhe bloqueavam a visão.
Ela debruçou-se sobre ele, reprimindo os soluços. E sussurrou, numa voz frágil:
- Por favor... Ben, não esteja morto... Não. Por favor... Não me deixe...
E quando ela se debruçou sobre o peito ensangüentado, sem sequer se preocupar com a sujeira em seu guarda-pó, ela não viu dois olhos azuis da cor de safiras se abrindo. Mas ouviu a voz amada chamar:
- Linda?
Ela ergueu a cabeça e viu o rosto dele, cheio de perguntas, a encará-la. Então ela se sentiu tão tonta que não viu mais nada, mas sentiu o corpo ficar leve, leve, muito leve mesmo, enquanto a voz de Fraser parecia soar tão distante...
* * *
Quando seus olhos se abriram, Linda ainda estava muito confusa. Olhos azuis pairavam sobre ela, cheios de preocupação, e ela não tinha certeza de estar consciente.
- Linda? Pode me ouvir?
Ela olhou para o rosto de Ben. Ele ainda estava coberto de sangue, ainda havia manchas de sangue no seu pescoço, mas as mãos dele acariciavam o cabelo dela espalhado na cama onde tinha sido posta. De repente, ela pulou para agarrá-lo num abraço tão apertado, como se temesse que ele fosse fugir ou desaparecer diante de seus olhos.
- Oh, Ben!... - Ela ainda tinha a voz alterada, e mal conseguia falar, em prantos - Pensei que tivesse perdido você! Pensei... que tinha morrido!!
Fraser sentiu que ela tremia, e acariciou-lhe as costas com carinho:
- Shhh... Agora está tudo bem. Nada aconteceu comigo. Esse sangue não é meu.
Ela achou que tivesse ouvido mal e repetiu:
- Não é seu?
- Não. Fomos procurar um suspeito, e então houve tiros, mas nenhum me atingiu. O médico veio ver você, e está tudo bem. Estamos os dois bem.
- Oh, graças a Deus, Ben - Os tremores de Linda melhoraram um pouco. - Fiquei muito... assustada... E... alguém me disse que você tinha sido trazido... Me desculpe.
- Linda, você está bem? Você desmaiou. Já é a segunda vez.
- É só que eu... fiquei com muito medo. Estou tão feliz que você esteja bem.
Ele beijou a testa dela com carinho e ela o encarou. Ben quase sorriu:
- Ah, agora veja você. Está também coberta de sangue.
Ela se sentou na cama e disse:
- Posso me limpar antes de ir para a escola.
Fraser indagou:
- Tem certeza de que quer ir à escola? Deveria descansar.
Ela fungou e livrou-se do resto das lágrimas, ajeitando-se na cama para se sentar:
- Não tem problema, Ben. As provas estão chegando, e não posso faltar às aulas.
- Está bem. Mas vou apanhá-la à noite. Espere por mim, mesmo se me atrasar.
- Atrasar?
- Tenho que ir à delegacia ajudar Ray com os relatórios. Pode demorar. Mas espere por mim. Não vá sozinha.
- Está bem, eu espero.
A Sra. Sorelli entrou naquele momento, dizendo:
- Com licença. Linda, me desculpe. Acho que a culpa de tudo isso foi minha. Pedi a Louis para avisá-la que o Constable Fraser estava aqui, e ele parece ter sido... infeliz na sua construção frasal.
- Não tem problema, Sra. Sorelli. Está tudo bem, agora.
A enfermeira disse, de modo sincero:
- Não tenho tanta certeza. Por isso, tomei a liberdade de chamar o Dr. Lennyard, e ele me pediu que lhe desse isso - Ela passou a Linda um frasquinho com pequenas pílulas amarelas - Esses são tranqüilizantes leves, e ele me assegurou que são totalmente seguros. Deve tomá-las, se precisar. Uma a cada seis horas.
- Obrigada, Sra. Sorelli. - Linda conseguiu sorrir - Estarei bem.
- Ótimo - ela sorriu e foi à porta, antes de falar diretamente a Fraser - Por favor, tome conta dela, Constable.
Benny assegurou:
- Farei isso. Muito agradecido - Quando a enfermeira saiu, ele se virou para Linda, que já saltava da cama alta - E eu falei sério, Linda. Espere por mim depois das aulas. Mas se precisar falar comigo antes disso, ligue para o Ray.
- Ben, agora está tudo bem. Eu fiquei assustada, mas agora estou melhor - Ela se esticou para beijá-lo com carinho - Agora é melhor nós dois irmos nos lavar.
- Está bem. Até mais tarde, então.
Fraser a beijou mais uma vez e saiu, ainda incerto se teria sido a melhor decisão de deixar Linda sozinha. Mas ela prometeu esperá-lo e também ligar para Ray. Ele lutou todos os seus impulsos de segui-la até a escola. Era hora de saber que ele confiava nela. Portanto, ele foi para casa se lavar antes de ir à delegacia, confiando que Linda estaria bem.
* * *
Era muito difícil para Linda concentrar-se na aula aquela noite. De fato, ela quase não ouviu o sinal anunciando o intervalo de 15 minutos. Martha não pôde evitar de indagar:
- Ei, Linda. Onde é que você está?
- A aula já acabou?
- Venha, vamos comer alguma coisa.
Martha a levou para Chandler's, o pequeno café em frente à escola onde elas geralmente tomavam chocolate quente numa noite fria como aquela. Elas até tinham uma mesa favorita, e foram para ela. Depois a curiosidade falou mais forte:
- Linda, tem alguma coisa errada? Você mal prestou atenção na aula. E era história. Você adora história. O que é que você tem?
- Desculpe, Martha. Acho que estou distraída, só isso.
- Tem algum problema? Será que eu posso ajudar?
Linda sorriu para a amiga no restaurante enfumaçado e mal-iluminado.
- Obrigada por perguntar. Mas eu tenho que tomar uma decisão. Eu... não sei o que fazer.
- Que tal se eu lhe dissesse o que eu faria no seu lugar? Às vezes ajuda.
- Sim, isso pode ajudar - Linda se animou - Diga-me, por favor, o que você faria na minha situação?
Martha lembrou:
- Puxa, você tá mal mesmo, hein? Eu nem sei do que é que estamos falando.
Linda se sentiu envergonhada e baixou a voz:
- Será que poderia guardar um segredo?
- Segredo? Linda, você está me assustando. Está com algum problema?
- Pode ser que eu esteja grávida e não sei se devo contar a Ben.
Os olhos de Martha se arregalaram:
- Grávida? Ah meu Deus. Tem certeza?
- Não, eu ainda tenho que ver o médico - respondeu Linda - Por isso é que não sei se devo contar a Ben. Pode não ser nada, e ele pode ficar chateado por eu tê-lo preocupado sem motivo.
Martha disse, pensativa:
- Ah, agora entendo porque estava desmaiando...
A garota estava mesmo angustiada:
- Sim, pode ser isso mesmo. Martha, o que você faria?
Ela suspirou:
- Confesso que nunca passei por isso, Linda e não gostaria de estar no seu lugar, com sinceridade. Mas se eu fosse você, a primeira coisa que eu iria me perguntar era se eu quero esse bebê. Você quer, Linda?
Linda abaixou a cabeça, suspirando:
- Claro que eu quero. É o bebê de Ben, o filho dele. Nada poderia me fazer mais feliz do que dar um bebê a ele. Mas talvez não agora, sabe? Quero dizer, eu sempre sonhei em ir para uma escola de enfermagem. Como vou poder fazer isso com um bebê para cuidar?
Foi a vez da outra moça suspirar:
- Bom, você é bem jovem, Linda. Mais nova que eu. Pode esperar até a criança crescer um pouco antes de ir para a escola. Muito bem, já temos uma questão respondida, o que é muito bom nessa situação. A segunda é: você acha que Ben quer ter essa criança?
- Acho que sim. Mas só estou adivinhando, porque eu sei que ele gosta de crianças. Sabe, devia vê-lo com os sobrinhos de Ray. Mas mesmo assim, ele pode achar que essa não é uma boa hora. Não sei se devo contar a ele. E se for, e fizermos um monte de planos, mas no final não tem nada?
- Acha que ele se irritaria com você?
- Não sei, Martha. Preciso pensar, mas já estou com a cabeça doendo e ainda não sei o que fazer. O que você faria?
A outra moça abanou a cabeça:
- Sabe, eu também não sei. Eu falei que nunca estive numa situação parecida. Não é uma decisão fácil. Mas talvez você nem tenha que tomá-la. Por que não espera para só falar com Ben depois que fizer os exames? Aí você vai estar mais segura, certo?
- Pode ser uma boa idéia. Minha cabeça está mesmo doendo.
Martha olhou para o relógio do restaurante e disse:
- Eu tenho uma aspirina lá na escola. Por que não entramos agora, hein? Agora tente prestar atenção. Pode ajudar a aliviar sua cabeça.
Linda sorriu:
- Obrigada, Martha. Você é mesmo uma grande amiga.
A outra garota não respondeu, mas sorriu de qualquer forma, antes que elas se dirigissem de volta para a escola e para a sala de aula.
* * *
Linda logo percebeu que não estava dando certo. Quanto mais tentava negar, menos dava certo. Não havia jeito de ela pegar no sono. Ela estava tão inquieta que acabaria acordando Ben. Depois do que acontecera à tarde, ele estava de olho nela, e se sentisse a inquietação dela, acordaria também. Então ela decidiu se levantar.
Ben se mexeu quando ela se ergueu, mas não acordou. Linda o encarou enquanto dormia, aliviada. Dormir com alguém ainda era uma experiência relativamente nova para Linda e ela sorriu de maneira dolorosa, porque adormecido Ben era ainda mais bonito do que quando acordado, se é que isso era possível. Então ela passou alguns segundos a contemplá-lo, sentada na cama, a adorá-lo em silêncio, a sentir o seu amor por ele crescendo de maneira lenta e firme.
Ainda assim, havia tantas coisas que ela precisava pensar. Dr. Lennyard a ensinara a lidar com um problema de cada vez. Se o problema parecia muito grande, ela teria que cortá-lo em pedaços menores, depois resolvê-los pedaço por pedaço, e assim o problema grande estaria resolvido. Mas dessa vez parecia não estar dando certo...
Os segundos que ela passou olhando para Benny se transformaram em minutos, e neles Linda lembrou como se sentiu no pouco tempo que pensou que ele estivesse ferido... ou morto. Só de pensar, uma mão invisível apunhalou seu coração quando ela recordou o desespero, a impotência, o horror de ver aquela linda presença sendo negada a ela. E pior: por um segundo, ela se viu sozinha, abandonada, grávida e sem condições de cuidar de uma criança.
Linda suprimiu um soluço, pois os olhos se encheram de lágrimas sem que ela se desse conta, ao reviver o momento. Ela sabia que morreria se fosse separada de Ben, qualquer que fosse o motivo. Então ela se deu conta de um aspecto da situação que não tinha lhe ocorrido até então: se o pior tivesse acontecido, se ele a tivesse deixando só e grávida, ela teria uma responsabilidade ainda maior do que tinha imaginado. Pois ela não teria simplesmente que cuidar de seu filho. Ela seria responsável por criar a última pessoa que teria o sobrenome Fraser. O último dos Fraser.
Lágrimas rolaram por suas faces, desta vez de alívio, quando Linda se lembrou do que sentiu ao descobrir que Fraser não tinha morrido. Ela se deu conta, todavia, que, se a relação deles continuasse, haveria muitos momentos como aqueles, quando exatamente aquilo poderia acontecer: um chamado, um tiro, o medo. Fraser era um policial, e dos bons. Ele se arriscava um monte de vezes, pondo sua vida em risco para salvar outras pessoas. Se Linda ficasse a seu lado, um dia, o chamado como aquele poderia ser real. Ela também teria que estar pronta para encarar aquilo.
Poucos minutos depois, Linda estava de joelhos no chão, cabeça baixa, ao lado da cama, tentando enxugar as lágrimas e tentando respirar sem acordar Fraser, fungando baixinho. Diefenbaker estava ao seu lado. O lobo sentia toda a sua tensão, Linda podia sentir isso. E ela estava muito agradecida por saber que Dief tomaria conta dela tanto quando de Fraser. Agora eles eram uma matilha, mais do que uma família.
Então ela tentou se convencer da realidade. Nada acontecera, ele estava vivo, respirando na cama onde eles dormiam, e para todos os propósitos o bebê ainda era apenas uma peça de ficção. Não havia motivo para ela estar tão tensa. Linda repetiu isso para si mesma algumas vezes, para tentar se convencer de verdade.
Mais uma vez, não funcionou.
- Linda? - A voz de Ben a assustou, e ela ergueu a cabeça, dando de cara com olhos azuis cheios de preocupação a encarar os seus cheios de lágrimas. - Meu Deus, Linda, o que houve?
Prontamente, ele se levantou da cama e a juntou em seus braços, os dois no chão, e os braços dele ofereciam tanta segurança que Linda mal conseguiu disfarçar as lágrimas:
- Nada aconteceu, Ben. Estou bem.
Ben tentou olhar para os olhos dela, mas ela evitou o olhar dele. Ele suspirou:
- Eu não vou falar o óbvio, Linda.
Ela suspirou e deu de ombros:
- Eu não consegui dormir. Desculpe se o acordei. Não queria acordá-lo.
- Devia tomar outra daquelas pílulas que o Dr. Lennyard enviou. Mas... - Ele a encarou - Agora não estou certo de que tenha tomado uma.
- Não tomei - confessou ela. - Eu só deveria tomar se precisasse delas.
- E não acha que isso se enquadra?
Linda não pôde responder. Tudo que ela falou, em voz bem baixa, foi:
- Desculpe ter lhe causado tanta preocupação, Ben.
A voz dele era muito gentil e atenciosa quando ele a acariciou:
- Eu só quero ajudar. Não quer me falar sobre o que a aborrece?
- É uma bobagem.
- Não parece ser. Pode falar.
Linda não pôde mais segurar a emoção e agarrou-se nos braços dele:
- Desculpe, Ben....! Eu fiquei tão assustada!...Pensei que... tivesse perdido você, Ben...!
Ele a segurou com carinho:
- Pronto... Está tudo bem agora.
- E eu também não posso mais esconder isso. Preciso falar uma coisa.
- Pode falar qualquer coisa, Linda. Sabe que pode.
Ela inspirou fundo, engoliu ruidosamente e depois indagou, de cabeça baixa:
- Lembra que eu fiz exames?
- Sim. O que têm eles?
- Dr. Lennyard acha que eu posso estar... - Ela tropeçou na palavra - grávida.
Fraser a encarou cuidadosamente. Linda arriscou olhar para ele, o silêncio a apavorando mais ainda. Mas ele logo indagou com cautela:
- E isso também a assustou muito, não foi?
- Sim - Ela assentiu desviando o olhar - Eu... não sabia como você reagiria.
- Linda, você sabe que eu não me irritaria por causa de um bebê. Não há motivo para ter medo. Talvez não tenhamos planejado, mas eu sempre quis ter um filho, e você sabe disso.
Ela ergueu a cabeça, e Fraser viu os olhos verdes quase translúcidos, de tanto chorar:
- Mesmo que não estivéssemos esperando por isso?
Ele sorriu para ela, cheio de ternura, e beijou a ponta do seu nariz:
- Eu adoraria ter um bebê seu a qualquer hora, Linda. E pense só: o tio Ray ficaria fora de si.
Linda não pôde evitar sorrir ao pensar na reação de Ray às novas, e isso ajudou a dissolver a tensão que ela sentia.
- A família dele também iria adorar.
- Especialmente a mãe dele - Então foi a vez do sorriso de Ben se apagar - Sim, ela iria mesmo.
Ela sentiu a tristeza dele:
- Benny?
Ele mexeu a cabeça e sorriu com tristeza:
- Nada, eu... só estava lembrando da minha mãe. Queria que ela visse isso.
Linda sabia que Fraser tinha perdido a mãe quando muito pequeno. Há poucos anos tinha descoberto que ela tinha sido assassinada. Ele nunca falava sobre isso, e Linda sabia que era uma ferida muito profunda. Ela tinha tantas dessas... Então, ela sentiu um pouco da dor dele e beijou-lhe a face:
- Sei que sente falta dela. Queria poder me lembrar da minha.
- Sabe, é estranho - falou ele - Praticamente não conhecemos nossas mães, mas nossa criança definitivamente não cresceria sem uma avó.
A moça sorriu, o primeiro sorriso verdadeiro que deu:
- É sim, a Sra. Vecchio certamente cuidaria disso.
- É isso que a estava incomodando?
- Bom... Tem mais uma coisa. - Linda voltou a chorar baixinho, lágrimas que rolavam sem que ela quisesse - Eu fico tentando me lembrar, Ben, mas às vezes...dói muito.
- O que foi, Linda?
Ela respondeu, uma voz baixinha sumida e derrotada:
- Eu não sei onde está nosso bebê... Ele teria quase um ano...
Aquilo atingiu Fraser direto no estômago, e ele a apertou contra si. Ele mesmo não se permitia pensar muito nisso, era doloroso para ele também. Ele mal conseguiu dizer:
- Ninguém sabe onde ele está, Linda. Mas esperemos que ele esteja bem.
- Ben... Dói tanto.
- Eu sei, querida... Também sinto falta dele.
- Não me deixaram saber que eu o tinha... Depois me tiraram ele, Benny... Eu não sei nada sobre ele... Não sei se é menino, se é menina... Não sei se sente falta da mãe... Se eles o tratam bem... Se ele come bem, se ele chora quando vai dormir, se alguém o põe no colo...- Ela chorava copiosamente, enrolada nos braços de Ben, que também estava em lágrimas. - Será que mais tarde ele vai me culpar, Ben? Eu não tive culpa, Ben...
- Não, Linda, você não teve culpa. Mas ninguém conseguiu achá-lo.
- Nosso bebê... Eu não sei onde ele está, Benny...Eu queria que ele tivesse seus olhos... Fosse menina ou menino... Eu queria... Oh, Ben, eu queria tanto...!
Ela chorou por mais alguns minutos, e Ben tentou dizer:
- Olhe, Linda, sei que é duro, mas acho que podemos concluir que ele está sendo bem cuidado. Se ele foi roubado para ser vendido, é porque alguém poderia pagar. Deve estar com pessoas que serão capazes de dar um bom lar para ele. Talvez nem saibam como ele veio parar nas suas mãos. Podem ser inocentes.
De repente Linda se assustou:
- Será que eles estão pensando que eu sou uma dessas mães que abandona seu bebê na porta de uma igreja ou coisa parecida? Oh, Ben! Eu jamais faria isso!... Não, eu nunca faria isso...!
- Claro que não. Mas seja como for, tenho certeza de que eles vão notar que foi um bebê fruto de muito amor. Eu amo você, Linda. Amo você para sempre
- Amo você também, Benny. Mais que todo o sempre.
Eles se beijaram, uma forma de reafirmar o amor que sentiam, a dor que partilhavam, o conforto que precisavam. Durante longos minutos apenas se beijaram, como se o toque dos lábios pudesse ser um bálsamo para aliviar a dor e o sofrimento por tudo que tinham passado. Em seguida, ficaram abraçados, ainda em busca de conforto. Linda quebrou o silêncio:
- Benny?
- Sim, Linda?
- Um filho seria uma grande mudança, não seria?
- Seria sim.
- Posso ter que desistir da escola. Talvez até do trabalho. E também... Ah meu Deus.
- O que foi?
- Só me ocorreu agora. O que o Dr. Lennyard vai fazer?
Benny ficou perdido:
- Do que está falando?
- Tenho que conversar com ele sobre a situação. Sabe que não posso fazer planos. Ele é meu guardião legal, e ele toma as decisões.
Fraser fechou a cara:
- A decisão tem que ser sua. Tenho que confessar uma coisa. Não gosto do modo como ele interfere na sua vida, Linda. Sou muito grato por tudo que ele fez a você, e do jeito como a tratou, mas francamente, tenho planos para nós, e já faz algum tempo desde que eu precisei pedir a qualquer um permissão para escolher sobre a minha vida.
Linda o encarou, um pouco surpresa. Ela nunca tinha ouvido Ben falar assim, e jamais suspeitara do tipo de sentimento que a guarda legal do Dr. Lennyard pudesse provocar... Espere um pouco. Ele falou planos?
Fraser sentiu que ela o encarava, e disse, a voz suave:
- Já que parece que não vamos dormir tão cedo, sugiro que façamos um pouco de chá. Vamos à cozinha?
Linda assentiu e eles foram à cozinha, acendendo a luz pela primeira vez no apartamento escuro. Fraser pôs uma chaleira de água no fogão, dizendo:
- Por favor, não entenda mal o que eu disse, Linda. Não quis assustar você com o que eu disse sobre o Dr. Lennyard. Ele é um bom homem e tenho certeza de que ele só quer o melhor para você. Mas, como eu disse, tenho planos para nós, e não gostaria de ter que enfrentá-lo por algo que queremos.
- Que planos você tem?
- Já falei algumas vezes que quero me casar com você. E quero me casar de verdade. Além disso, achei que também podíamos ir visitar o Canadá.
Os olhos de Linda se arregalaram:
- Canadá?
- Sim. Quero lhe mostrar a cabana de meu pai, e minha casa. Gostaria de ir?
Ela se aproximou dele.
- Adoraria ir, Ben. Mas eu jamais saí nem para fora de Chicago. Mais do que isso, tem lugares em Chicago que eu nunca fui. O Canadá para mim é como um outro mundo.
Ele colocou os braços em torno dela e garantiu:
- Para a maioria dos americanos, o Canadá é um outro mundo, acredite. Mas eu tenho certeza de que você vai gostar dos Territórios. Vou adorar mostrar tudo para você. E... se você gostar de lá, podemos pensar em nos mudar.
Linda estava cada vez mais surpresa:
- Mudar? Para lá? Para sempre?
- Sim - Ben sorria, e Linda percebeu que era um sorriso que ela jamais vira antes, um de um homem que pensava em seu verdadeiro lar, o lugar ao qual ele pertencia de coração e alma. - Poderíamos morar na cabana, e seria seguro mesmo quando eu não estivesse lá porque tem uma vila inuit na região. Eu tenho certeza de que os nativos ficariam de olho em você e o bebê se eu saísse numa patrulha. E também, durante o inverno, haveria muita oportunidade para nós...
A chaleira com a água ferveu e o apito o interrompeu. Linda sorria enquanto ele fazia o chá de ervas. Depois ela perguntou:
- Tem certeza, Ben? É isso mesmo que quer? Sabe, eu sou tão... inexperiente, e ficar totalmente sozinha no meio de uma área tão afastada...
- A vila inuit não é tão longe, e você estaria segura lá. Além disso, não é como se eu fosse deixar você sozinha o tempo todo. Mas mais importante do que isso é que eu sei que você vai conseguir. Para alguém que lava à mão túnicas de sarja vermelha, viver no mato vai ser moleza.
Linda riu de maneira gostosa, ao perceber que ele acabara de provocá-la. Ele se sentou à mesa, em frente ao bule fumegante e pôs a moça no seu colo, dizendo:
- Eu também estive pensando no casamento. Quero começar os preparativos, se você aprovar.
- Agora? - Linda estava meio surpresa. - Achei que você tinha dito que viveríamos juntos por um tempo, e depois pensaríamos em casamento.
- Sim, e exatamente é isso que estamos fazendo. - Ele a encarou, um brilho maroto nos olhos azuis profundos como o céu canadense de madrugada - Está pensando em recusar minha proposta honesta? Não quer envelhecer junto comigo? Numa cabana nos Territórios?
Linda derreteu ali mesmo no colo dele e o abraçou:
- Eu nem sonharia em fazer algo assim. Eu amo você, Ben. Amo você mais que todo o sempre, mais que a minha própria vida.
Eles se beijaram de maneira apaixonada, e antes que ficassem os dois sem fôlego, ele a colocou sentada numa cadeira para servir o chá:
- Linda, tem algo que eu preciso lhe falar. Tenho pensado em falar isso antes, mas... de algum modo... eu não sei... Eu não consegui falar...
Ela assentiu:
- Sim, você falou isso antes. O que é, Ben?
Ele não sorria mais, e parecia bem nervoso:
- Uma coisa que eu acho que você precisa saber. Mas eu não sei como lhe dizer isso.
Linda sorriu de maneira doce e agarrou as duas grandes mãos dele entre suas pequenas e disse, encorajando-o de forma delicada e gentil:
- Só me conte se quiser, Ben, ou então quando estiver pronto. Eu o amo demais. Não precisa se torturar por causa disso.
Fraser beijou as mãos dela, emocionado, mas depois as colocou na mesa e garantiu:
- Eu também amo você, Linda. Quero que você saiba que eu quero e preciso lhe falar isso. Você tem o direito de saber antes que possamos ir em frente.
Linda confessou:
- Ben, está começando a me assustar. Do que se trata tudo isso?
Ele teve ímpetos de desviar o olhar, mas com esforço não fez isso. Ainda assim, Linda não pôde deixar de notar que a voz dele tinha mudado consideravelmente:
- Eu preciso lhe falar sobre uma mulher. Uma mulher que conheci.
Linda o encarou, sem saber com certeza o que ele dizia. Fraser abaixou a cabeça e começou a encarar a xícara fumegante de chá:
- Ela... era... Bem, eu... Eu passei quase 10 anos da minha vida pensando sobre ela. Eu a prendi e culpei-me terrivelmente pelo que fiz. Não que ela fosse inocente, mas... eu não podia encará-la. Por minha causa, ela passou 10 anos na prisão.
Linda notou o quanto isso era difícil para Ben, o quanto ele sofria a cada palavra. Ela tentou livrá-lo disso, e começou a dizer:
- Ben, por favor, escute...
Ele a interrompeu, lutando contra as emoções:
- Não, Linda, por favor. Preciso lhe dizer. Só me deixe falar, está bem?
Foi a vez de Linda abaixar a cabeça e assentir:
- Tá bom, Ben.
Fraser inspirou profundamente e começou:
- Ela e dois homens roubaram um banco no Alasca. Ela dirigia o carro da fuga. Um deles morreu, outro foi para o sul e ela foi para o Canadá num avião pequeno. O aparelho teve que descer devido ao mau tempo. O piloto a abandonou. Eu a segui até um lugar chamado Fortitude Pass. Uma tempestade soprava há dias e quando eu a encontrei eu tinha perdido tudo, minha mochila, provisões. Ela estava encolhida contra uma montanha. Quase congelada, quase morta. Então eu afundei meu rifle na neve e coloquei meu casaco em cima dele, e eu a segurei enquanto a tempestade chegava mais para perto de nós. E eu continuei falando com ela para evitar que ela dormisse. E nevou por um dia e uma noite e um dia, e quando eu não conseguia mais falar, eu peguei os dedos dela e os coloquei dentro da minha boca para mantê-los aquecidos...Eu não me lembro de ter perdido os sentidos, mas eu me lembro de saber que estava morrendo... E então eu ouvi a voz dela. Ela recitava um poema. De novo e de novo. E eu não consegui distinguir as palavras, mas não podia parar de ouvir. Ela tinha a voz mais linda. Era como se eu a tivesse conhecido para sempre, por várias vidas... A tempestade finalmente passou e tínhamos sobrevivido. Depois de um dia encontramos minha mochila. Comemos tudo, tudo que eu tinha em uma refeição. E levamos quatro dias para chegar ao posto mais próximo. Acampamos à noite bem perto da cidade, dava para ver a torre da igreja. E eu a segurei nos meus braços e ela me pediu para deixá-la ir. Sabe, ninguém sabia que eu a tinha encontrado. A polícia sequer sabia o nome dela. Eu podia deixá-la simplesmente ir. E ela poderia fugir durante a noite.
Linda estava hipnotizada com a narração, lágrimas caindo por suas faces, tanto quanto das faces de Ben, a emoção clara na voz dele. Ela percebeu:
- Você a amava.
Embora não fosse uma pergunta, Ben assentiu:
- Sempre pensei que sim. Quando ela veio para Chicago, tentei ajudá-la. Achava que ela somente tinha parado de confiar nas pessoas, e eu queria fazê-la acreditar no mundo de novo. Mas ela quase arruinou a minha vida, quase destruiu a vida de Ray, Dief quase morreu e tudo acabou quando Ray atirou em mim, o que me impediu de ir com ela. É por isso que tenho aquela cicatriz nas minhas costas, e é por isso que é tão dolorida.
Linda estava ficando confusa, a dor no peito não a deixava se lembrar como se respirava, e ela mal pôde perguntar:
- Você vai me deixar?
Ela falou tão baixinho que ele não teve certeza de tê-la ouvido:
- O quê?
Ela repetiu, a voz tremendo, a dor no peito adquirindo proporções bíblicas, mas ela tinha que perguntar:
- Você vai me deixar porque ainda a ama?
Deus meu.
Fraser ajoelhou-se em frente a ela e respondeu, de modo solene:
- Linda, preste atenção. Eu jamais vou deixá-la. Quero lhe dizer isso agora, e de novo, e mais uma vez, até que você acredite. E tem outra coisa que você precisa saber. Por mais que eu tenha amado essa mulher, nunca foi assim. Nunca foi tão bom, tão cheio de paz. Ela tinha uma escuridão e uma frieza que eu nunca vi em você. Você me mostrou o que o amor de verdade é, Linda. Só por isso, eu juro viver o resto da minha vida a seu lado. Só que posso fazer é rezar para que você me aceite.
Linda olhou para os olhos dele, imensas safiras azuis que a encaravam com adoração, cheias de lágrimas e amor. Ele não estava mentindo sobre aquilo. Ela devia saber que o que ele dissera sobre a tal mulher viria algum dia. Claro que ele já deveria ter tido alguma mulher na vida dele.
Mas ela estava confusa:
- Por quê... Por que você... resolveu me falar...?
Ben mal a deixou terminar:
- Achei que deveria saber. Precisa saber, Linda, o quanto você afeta minha vida. E como amar você é certo para mim. Só agora posso ver com clareza que ela era apenas uma fonte de dor.
- Ela... morreu?
- Não, ainda está sendo procurada pela polícia. E o ponto final é que eu não quero mais nada com ela. É você quem eu amo. Desculpe tê-la magoado, Linda. Só achei que era a coisa certa a fazer. Bom, eu ainda acho, mas -
Ela colocou dois dedos nos lábios dele e pediu:
- Por favor. Não diga mais nada. Só... me abrace, por favor, Ben.
Ele obedeceu, e no abraço apertado, Linda sentiu o coração dele acelerado, batendo contra o seu. Ela sentiu que tudo aquilo deveria estar sendo extremamente extenuante para Ben, e sugeriu:
- Ben, escute. Por que não esquecemos isso? Posso ver que isso o magoa muito, e também me assusta demais, então por que não colocamos isso para trás e nunca mais falamos disso?
- Você entende que eu tinha de lhe contar isso, não entende?
- Claro. Agora eu sei, e não precisamos mais falar disso. Deixe isso para trás, Ben. Deixe isso passar, tá bom?
O sorriso nos olhos dele em direção a Linda valia muito mais do que cinco milhões de dólares e ele indagou:
- Viu? É por isso que eu amo você.
Linda sorriu e enrubesceu, as lágrimas dela sendo enxaguadas pelo beijo profundo e apaixonado que Ben lhe deu. Quando ela conseguiu respirar, abraçou-o com força e disse, solene:
- Você é tudo o que tenho, Ben. Toda a minha vida. Sem você, eu morro. Eu te amo tanto. Mais que todo o sempre.
Fraser viu a seriedade nos olhos na moça e sentou-se, dizendo:
- Eu também a amo para sempre, Linda. Agora porque não prova um pouco do chá? Pode ajudar a relaxar um pouco.
Depois de bebericar um pouco, Linda concordou:
- Deveríamos mesmo tentar dormir um pouco. Amanhã será um dia longo.
- Você vai ao médico amanhã?
- Não, só no outro dia. Mas as provas de final de período estão chegando. Preciso estar alerta para as aulas. É por isso que não quero tomar as pílulas do Dr. Lennyard. Elas podem me deixar sonolenta.
Os cantos dos lábios de Fraser subiram de repente e ele disse, tirando as xícaras de chá da mesa:
- Bom, existe método muito conhecido, totalmente natural e livre de ingestão química para provocar o sono. É muito tradicional, embora talvez nem sempre tenha sido usado com a intenção de favorecer o sono.
Linda sentiu que ele escondia um outro objetivo com aquelas palavras, mas mordeu a isca:
- Mesmo? Qual é?
Ben puxou o corpo dela contra o seu e deixou a voz ficar mais baixa até chegar a um tom enrouquecido antes de dizer, pensativo:
- Deixe-me ver... Começa assim - ele beijou os lábios dela, depois as bochechas e em seguida o pescoço - Depois vai assim... - Ele continuava, beijos flutuando por toda parte exposta de Linda, fazendo-a fechar os olhos em êxtase, e ele não parava para dizer, entre beijos - Algumas pessoas dizem que é muito relaxante... O que você acha?
Como se ela estivesse em condições de falar.
- Eu... - Ela tentou recuperar o fôlego - Eu acho...que pode... me excitar ainda mais...
Ben fez suas mãos passearem pelo corpo dela e disse:
- Hmmmm.... Eu posso... estar fazendo...algo errado... Talvez... se eu fizer...assim...
Ato contínuo, ele a arrebatou em seus braços e a depositou na mesa da cozinha, subindo por cima dela, cobrindo o corpo dela com o seu, os lábios também recebendo o tratamento especial. Linda parecia um pouco surpresa com a sofreguidão de Ben, mas não conseguia protestar, o cérebro parecia se dissolver à medida que mãos ágeis e seguras começaram a retirar suas roupas de uma maneira extremamente sensual. Tudo que ela podia fazer era gemer, arfar e ajudá-lo a sair dos pijamas vermelhos.
- Oh, Ben... - Ela conseguiu dizer - Benny...
Com a voz dela a denunciar sua total rendição, Linda sentiu os lábios a pressionarem os seus, a língua exigindo passagem para dentro de sua boca, e ela sabia que estava derrotada. Ben era puro poder sobre ela, e ela estava na obrigação de obedecer a tão amoroso amo. Animada, ela envolveu as pernas na cintura fina dele, arfando, mas ele ainda não estava disposto a ceder aos desejos dela. Continuou a lavar o corpo dela com beijos, prolongando o prazer, excitando pontos no seu corpo que ela mal prestava atenção
Os sentidos de Linda entraram em estado crítico, uma sobrecarga total assim que ela sentiu o cutucão conhecido da coluna quente, pulsante, reta e adorável em sua barriga. À medida que Bem movia sua cabeça sobre o peito dela, os mamilos duros esperavam por ele em êxtase. A pele dela estava formigando, a respiração falhava, e ela pensou que se pudesse escolher um momento ideal para morrer, seria aquele.
A língua hábil brincou com Linda, tremulando nos lados de seu delicado umbigo, e ela se arqueou, sentindo-se umedecer como jamais tinha feito antes. Ela estava tão excitada que achou que não fosse agüentar. Ela abaixou as pernas, plantou os pés afastados na mesa e o puxou para si, implorando:
- Benny... por favor...
O som de seu pedido era demais para ele. Ele ficou tão rijo e tão dolorido que quase se desequilibrou ao se debruçar sobre Linda. Ele a beijou profundamente, ela ergueu as pernas para enlaçá-lo pela cintura fina, e desta vez ele guiou seu membro pulsante para o interior quente dela. Entrar Linda era sempre o paraíso, e ela soltou um grito ao se sentir preenchida, todos os lugares escondidos de seu corpo abertos para ele, e só para ele, o homem a quem amava.
Ben tinha os olhos bem fechados, saboreando as sensações antes que pegasse as pernas dela e as erguesse até seus ombros, para poder penetrá-la ainda mais fundo. Linda tentou suprimir um berro de prazer, e ao invés disso conseguiu soltar um gemido alto quando ele se pôs a mover os quadris para a frente, usando as mãos para segurar a pélvis dela contra a dele. Ela se arqueou o quanto pôde, procurando mais contato, para que houvesse mais dele dentro dela, desejando que aquela sensação maravilhosa jamais terminasse. Ela amava o jeito como ele a fazia se sentir.
Tanto prazer não passaria impune, e Linda começou a sentir a explosão se formando dentro dela. Ela não tinha se dado conta de que seus gemidos tinham crescido de volume e timbre, mas Ben sim, e a velocidade dele crescera, dando a ela a única opção de se elevar e explodir como uma supernova, uma sensação cegante que fez Ben imediatamente se juntar a ela. Não foi qualquer figura de linguagem quando ela simplesmente apagou.
Linda não descobriu quanto tempo ficou fora de si, mas quando abriu seus olhos, estava na cama, e Fraser descansava a cabeça contra seu ventre, o cabelo escuro totalmente desalinhado, pequenos cachos começando a se formar, o corpo lindo enroscado contra as pernas dela, roncando baixinho.
Aquele era mesmo um método muito natural de provocar o sono, pensou Linda alegremente, enquanto ela se deixava escorregar para um descanso reparador.