Parte 2
O coração de Linda começou a acelerar assim que a enfermeira Bárbara disse que ela estava sendo chamada com urgência à ala de pronto-socorro. Ela veio correndo do quarto andar, mal conseguindo se lembrar de que tinha um novo paciente no CTI e que ela adoraria contar as novidades para ele, mesmo em coma. Mas chamados urgentes no pronto-socorro tinham precedência, claro. Isso ficaria para mais tarde.
Quando as portas do elevador se abriram automaticamente, ela logo ouviu os ruídos típicos de um atarefado pronto-socorro de um hospital de uma grande cidade como Chicago. Havia gritos, é claro. Mas estranhamente, ela reconheceu uma das vozes mais altas daquele caos. Aproximando-se, Linda descobriu que suas suspeitas estavam corretas. Isso não a impedia de estar escandalizada ao extremo.
- Ray?! O que está fazendo aqui?
Ele a avistou e foi na direção dela, arrastando uma pessoa reticente de maneira bastante decidida.
- Ah, Linda, finalmente! Eu só queria que você ouvisse algumas coisinhas que esse vagabundo imprestável quer dizer para você - Ele depositou a carga aos pés dela. - Fala aí, cretino!
Era um jovem rapaz, um que Linda tinha visto ao ir dançar no fim de semana com Frannie. Agora ele parecia intimidado e furioso.
- Ei, cara! Isso dói!
Linda estava espantada:
- Ray, o que está fazendo?
- Olha, Linda, quero apenas que você ouça o que esse cara tem para dizer a você - Virou-se - Vamos lá, miserável, eu não tô ouvindo!
O homem olhou para Ray intimidado, depois, com relutância óbvia, disse baixinho, sem conseguir encarar Linda:
- Eu... peço... desculpas.
O italiano agarrou a jaqueta do garoto e deu umas sacudidas nele, de maneira a deixar bem enfatizadas suas palavras cheias de ódio:
- Não é isso que eu quero, seu monte de bosta! Agora diga para a moça que você lamenta muito, e que você tem muita sorte por eu não te prender agora mesmo, e que você nunca mais vai fazer isso para ela ou para qualquer outra moça! Não é verdade, canalha?
- Tá bom, tá bom! - disse o menino, e finalmente desembuchou, sempre de olho em Ray - Desculpe as coisas que eu e os rapazes falamos de você. Não faremos mais isso. Com ninguém.
Ray reforçou:
- Isso mesmo, porque se fizerem, vocês sabem o que vai acontecer, certo?
- Certo. Sim, senhor. Sim, senhor, sim. Posso ir agora?
- Eu não tenho muita certeza - disse o detetive. - Vamos deixar a moça decidir. Está tudo bem, Linda? Ele pode ir?
A moça estava mais do que embaraçada quando respondeu:
- Por favor, Ray, deixe o moço ir.
- Tudo bem, monte de bosta, eu só estou fazendo isso porque ela me pediu. - Ele atirou o rapaz contra uma parede, e o cara rodopiou e correu rapidinho para fora dali. - Lamento por tudo, Linda. Frannie também me garantiu que não sabia sobre as coisas que eles faziam.
- Claro, Ray - sorriu - Obrigada. Foi muito gentil.
Ele sorriu de volta e abraçou-a:
- Ei, é para isso que servem os amigos. E somos amigos, não somos?
- Claro que sim. Ray, preciso trabalhar agora.
- É, eu também. Escute, que tal um jantar hoje? Pego o Benny e depois passamos na sua casa. Tudo bem?
Linda enrubesceu e disse:
- Eu gostaria.
- Vamos pegá-la à noite. Até lá.
Ele deixou o hospital e Linda ficou vermelha de novo, ao voltar para sua rotina. Jantar com Ray era bom, mas a presença do Sr. Fraser ia ser um outro esforço para ela. Ultimamente, a companhia do polícia montada tinha produzido nela sentimentos muito ambivalentes.
Linda descobriu que estava apaixonada pelo canadense. Mas ela também sabia que não tinha chance de ver seu amor se tornar realidade. Era uma dor doce ficar perto dele, reparando na respiração dele, nos seus dentes prefeitos, todas as coisas que ele fazia com a sobrancelha, ou as discussões entre ele e Ray. Sem mencionar a deferência especial para com ela. Linda ficava tocada com aquilo, mas ela sabia que esse era o comportamento dele com relação a todos os membros de seu sexo.
Ela notava como as mulheres eram atraídas para perto dele, e ele não podia fingir ignorar o efeito que causava nas mulheres. Algumas delas eram mulheres muito bonitas, o tipo de beleza com a qual Linda não podia competir. Mais cedo ou mais tarde, uma dessas mulheres iria capturar o coração dele.
Além disso, por que Fraser pensaria em Linda de qualquer outro modo? Linda sabia que já era uma bênção, uma sorte dos céus, que aquele homem maravilhoso a chamasse de amiga. Portanto, esses sentimentos deveriam ficar bem escondidos, ou a amizade ficaria arruinada.
A moça terminou seu turno em paz, disse adeus a todos os amigos no CTI e foi para casa, dormir um pouco antes de Ray passar para pegá-la para jantar. Então ela notou o carro, não pela primeira vez. Ela reconheceu: era um Plymouth marrom, 1979, e em seguida, ela sorriu, pensando que passava tempo demais com homens para saber tanto de carros. Não era a primeira vez que ela via aquele carro perto do apartamento. Mas provavelmente era o carro de algum vizinho novo.
A noite passou muito agradavelmente, e depois do belo jantar italiano, Ray a deixou no hospital para uma noite de trabalho. Quando ela voltou para casa, notou de novo o Plymouth. Mas dessa vez tinha alguém dentro dele. De tocaia. Um homem com mais de 40 anos. Ela olhou para ele, ele pareceu se apavorar. E foi atrás dela. Ela pensou em correr.
- Por favor - ele chamou - Por favor, espere!
- O que você quer? Quem é você?
- Por favor, não tenha medo. Meu nome é Carter, e trabalho com o detetive Vecchio.
Linda estranhou:
- Nunca o vi no distrito.
- Fui transferido recentemente. Olhe, Vecchio me mata se souber que você me viu.
- Por quê?
- Eu estou aqui para protegê-la. Um criminoso perigoso que jurou vingança contra Vecchio acabou de escapar da penitenciária. Como você é amiga dele, ele quer proteger você. Esse homem faria tudo para machucar os amigos de Vecchio.
- Por que Ray não me disse nada disso?
- Ele não queria assustá-la. O homem pode até ter fugido do país. Olhe, senhorita, eu tive alguns problemas com o departamento e esse trabalho é minha última chance. Se alguém souber que você sabe estar sendo vigiada, eu me encrenco todo. Pode manter isso entre nós?
- Claro, Sr. Carter. Mas por favor, tente ser mais discreto.
- Claro. Obrigado, Srta.
- Pode me chamar de Linda. Quer entrar para um café?
- Não, obrigada. Já basta que eu a tenha assustado, mas confraternizar vai totalmente me deixar em encrencas. Portanto, não se preocupe. Estarei por aqui o tempo todo.
- É bom saber. Obrigada, Sr. Carter.
Linda entrou em casa sentindo-se feliz por ter um amigo tão bom quanto Ray Vecchio, que se preocupava com a segurança dela. Ela tomou um banho relaxante, depois dormiu pacificamente durante a tarde. Quando a noite caiu, ela foi ver o Dr. Lennyard, como estava marcado. Ele repetiu que ela deveria dizer a Benton Fraser como se sentia. Ela repetiu que ela não queria arriscar a amizade deles e disse que estava mais do que contente em ser amiga dele. A conversa entrou num padrão conhecido e terminou da maneira de sempre. Linda sentia que tinha progredido tanto nos últimos meses, que ficava imaginando: quem sabe o Dr. Lennyard pudesse recompensá-la falando de coisas que não machucassem? O amor por Fraser era meio dolorido. Ela preferiria não falar dele.
Ela entrou no seu turno planejando um jantar para a noite de domingo, quando ela estaria de folga. Quem sabe convidaria também o tenente Welsh e Elaine. Ela falou sobre isso no CTI, enquanto fazia seu trabalho. Ela gostava de falar de coisas pessoais com alguns dos pacientes de lá.
Ao meio-dia, na volta para casa, ela nem chegou ao prédio. Na calçada, foi interceptada pelo Sr. Carter.
- Srta. Linda!
- Sr. Carter! - Ela estava atônita. - Não deveria estar escondido?
Ele agarrou o braço dela:
- Não temos tempo. Precisa vir comigo agora.
- Por quê?
- Vou levá-la para um lugar seguro. O criminoso mandou uma mensagem dizendo que viria atrás de você. Vamos.
Linda ficou tão assustada que começou a tremer, mas disse:
- Preciso pegar umas coisas lá em cima.
- Não temos tempo. Já avisei sua senhoria que iria viajar uns dias, e Vecchio vai avisar o hospital que você não vai trabalhar. Precisa avisar mais alguém?
- Depende de quanto tempo vou ficar fora.
- Só alguns dias. - Ele a levou - Não se preocupe, isso não vai demorar.
Linda entrou no banco de trás do Plymouth, e ele disse:
- Vou ter que pedir que se deite aí atrás, Srta. Não deixe ninguém vê-la. Só por garantia, OK?
- OK. OK também se eu ficar apavorada?
Ele brincou:
- Não está com medo de mim, está?
- Não, mas se esse cara é mesmo perigoso, não vai nos encontrar?
- Vamos sair da cidade, e vamos para uma casa segura. Não se preocupe. Estarei por perto o tempo todo.
- Obrigada, Sr. Carter.
- Agora durma um pouco, se quiser. Deve estar cansada do trabalho.
- Está bem. Pode me acordar quando chegarmos.
Eles pararam na estrada para beber alguma coisa. Linda tinha sede e, bebendo o seu refrigerante, viu que o dia estava terminando. Depois ela se sentiu muito, muito cansada. E deitou de novo, para dormir mais um pouco.
* * *
Quando Linda acordou, ela estava numa cama, num quarto escuro de um lugar que ela não conhecia. Então ela se lembrou que estava sob proteção policial. Ela levantou-se, sentiu-se meio tonta e espreguiçou-se, segurando-se numa parede quando cambaleou a ponto de cair. Então ela saiu do quarto.
Ela chegou a um conjugado de sala e cozinha, onde o Sr. Carter estava cozinhando alguma coisa. Ele ouviu o movimento dela e sorriu:
- Oh, você acordou. Espero que tenha descansado bem.
- Sim, obrigada - Ela disse - Onde estamos?
- Num lugar seguro. Olhe, tem roupas para você no quarto. Tive que pedi-las emprestadas, não sei se vão servir.
- Daremos um jeito, obrigada. Mas eu gostaria de tomar um banho antes, se possível.
- Claro, o banheiro fica ali - ele apontou. - Quando você terminar, poderemos jantar.
- Está bem.
Ela entrou no chuveiro, ainda sentindo os efeitos de dormir por tanto tempo. Era ótimo sentir a água quente na pele, e de algum modo aquele toque gentil a fez lembrar de Benton Fraser, cujos dedos deveriam ter também de toque suave e sedoso como -
NÃO! Ela estava chocada por pensar essas coisas e ralhou consigo mesma de maneira severa. Pensamentos proibidos, Linda, proibidos para você!
Linda correu para terminar o banho, ofegante e enrubescida. Ela tinha que dar um fim a esses pensamentos. O amor que ela sentia estava condenado a jamais se concretizar, e a amizade com o Sr. Fraser era tudo que ela poderia obter. Ela deveria ficar grata por isso, não ter esses pensamentos impossíveis. Linda pensou que talvez aqueles dias longe dele pudessem ajudar a disciplinar seu coração.
O Sr. Carter estava esperando por ela com a mesa posta assim que ela saiu do banheiro, e disse:
- Espero que goste de comida ruim. Não cozinho bem.
- Não se deprecie. Além disso, está com sorte: estou com tanta fome que dificilmente reclamaria.
- Bom - Ele esperou até ela se sentar e a serviu. - Sabe, você não parece estar com medo.
- Não estou.
Carter serviu-a de suco de laranja e disse:
- Mas tem um homem que pode estar atrás de você. Isso não a assusta?
Ela respondeu com um sorriso:
- O senhor está aqui.
- Fico lisonjeado com sua confiança. Mas eu falei que já me encrenquei antes. Não tem medo que eu faça uma burrada protegendo sua vida?
- Você veio recomendado por Ray Vecchio, não foi? - Ele assentiu - Ray jamais teria lhe confiado esse trabalho se não achasse que você pode lidar com ele.
A declaração parece ter tido grande impacto em Carter:
- Confia em Vecchio tanto assim?
- Ele salvou a minha vida... de uma certa maneira.
- Como é isso?
- A amizade dele me ensinou que eu tenho uma vida digna de ser vivida. Antes que ele e o Sr. Fraser entrassem na minha vida, todo mundo achava que eu iria voltar para uma instituição mental para terminar minha vida lá. E eu tenho menos de 20 anos. Mas eles me ajudaram muito, sabe? Eles me apoiaram, me deixaram ir para suas vidas. A família de Ray praticamente me adotou. Eu... nunca tive nada disso antes - Linda não conseguiu deter as lágrimas. - As pessoas não me tratavam decentemente até eles aparecerem na minha vida. Eu devo a eles minha vida, Sr. Carter.
- Então você arriscaria sua vida pela deles?
Linda respondeu, atacando a comida com entusiasmo:
- Sem pensar duas vezes. Hummm, isso está bom - Ela apontou para a comida. - Oh, estou faminta!
- Eu calculei algo assim - disse Carter, pensativo - Eu sabia que vocês eram amigos, mas eu não podia saber que era... assim.
- Somos bons amigos, e eu tenho orgulho disso.
- Você é namorada dele?
A garota riu-se:
- Não, claro que não. Eu não tenho namorado. Meu... histórico médico, vamos dizer, assusta qualquer candidato - Ela sorriu da própria ironia e a imagem de um Benton Fraser sorridente foi severamente dispersada. - Mas eu tenho meus amigos, e desde então, não fiquei mais sozinha. Nunca mais.
Carter disse, com sorriso suave:
- Você é muito interessante, Linda. Sabe, quando eu li sua ficha, fiquei com uma imagem bem diferente na cabeça.
- Você leu minha ficha? - Ela estava espantada. - Eu tenho uma ficha?
Ele riu:
- Claro, eu tinha que saber tudo sobre você.
Os olhos dela se arregalaram antes de ela beber o resto do suco:
- Tinha?
Ele deu de ombros:
- É parte do trabalho.
- É muito meticuloso, Sr. Carter. É difícil acreditar que possa ter cometido um erro.
A voz dele era bastante amarga ao responder:
- Na minha linha de trabalho, tenho que ser muito detalhista. E na verdade, Linda, agora estou ficando triste. Preciso lhe dizer uma coisa. Não importa o que aconteça, quero que saiba de uma coisa. Você é uma boa moça, e não merece o que vai acontecer com você.
- Não vai acontecer nada, eu tenho certeza - Ela sorriu - O senhor está aqui.
- Vai acontecer sim, porque eu estou aqui - disse ele, de modo quase embaraçado - Sabe, eu sou precisamente o homem eu está atrás de Vecchio.
Linda sorriu e encerrou a refeição, certa de que ele estava brincando. Depois perguntou:
- É uma brincadeira, não é?
O rosto dele era muito triste quando ele fez não com a cabeça:
- Lamento, mas não é. Fico triste por ter sido obrigado a mentir para você. E lamento o que tenho que fazer a você.
Linda olhou para ele atentamente. O Sr. Carter não parecia estar brincando mesmo.
Ela sentiu o medo penetrando em sua pele, o coração quase parando, alarmes sendo disparados por sua cabeça. Os olhos dela se arregalaram de novo, desta vez em pânico, e ela arrastou a cadeira para trás, tentando ganhar distância dele, enquanto sentia a garganta se fechando, a voz ficando fina:
- Por favor, fique longe de mim.
Ele respondeu:
- Eu posso fazer o que me pede, mas não vai adiantar. Sabe, eu tenho posto drogas em tudo o que você bebe. Logo vai estar dormindo de novo.
Num reflexo, ela correu para a porta mais próxima, mas estava trancada. Ela gritou:
- Me solta! Por favor, me solta!
- Desculpe, Linda - Ele disse, e parecia sincero. - Eu realmente lamento muito.
Ela estava fortemente inclinada a acreditar que estava num sonho porque aquilo não podia estar acontecendo. Linda se encostou na parede mais próxima, tentando permanecer longe dele. Ela tentava não chorar, mas saiu em choramingos:
- Sr. Carter... Por favor... Confiei no senhor... Deixa eu ir....
- Linda - Ele tentou manter a atenção dela em foco - Já é tarde demais. Vecchio precisa de uma lição.
Linda sentiu o mundo girando e sentou-se no chão, tonta. O mundo continuou girando. Carter explicou:
- É a droga. Você vai apagar logo.
Era verdade. Ela podia sentir sua consciência indo rapidamente embora. Ainda implorou:
- Por favor... Não me machuque... Por favor.
Linda podia sentir a escuridão e a inconsciência se aproximando, tomando conta de seu corpo. Uma das últimas coisas que ouviu foi a voz de Carter, cheia de amargura:
- Por favor, Linda, me perdoe.
* * *
Estava escuro e Linda não tinha certeza de estar acordada. Ela se mexeu na cama, tentando se lembrar do que tinha acontecido. Ela achava que tinha ouvido uma voz, uma voz que ela provavelmente conhecia...
Então ela se ergueu de repente, os eventos passados vindos de um maneira abrupta, de uma vez só. Ela tinha sido traída. O homem se apresentou como amigo de Ray, um policial, mas não era. Ela ouviu de novo o diálogo na cabeça e teve certeza. Ele devia estar por perto.
Preciso sair daqui.
No escuro, ela se levantou e esticou o braço até a parede, por onde passou as mãos, procurando um interruptor de luz ou algo assim. Talvez ela pudesse tentar escapar quando o Sr. Carter não estivesse olhando. Ela tinha que encontrar Ray de algum modo e avisá-lo.
Linda lutava contra a tremedeira e as lágrimas de terror enquanto tateava a parede. Mas foi quando as luzes se acenderam por si mesmas que o coração dela quase parou. Ela se viu numa sala sem móveis, só a cama e um grande espelho de dois lados, como aqueles do distrito policial, e...
Uma porta.
Linda correu em direção à saída, e a porta se abriu, mas foi para deixar o Sr. Carter entrar, carregando uma bandeja. Assustada, ela correu de volta à cama, como se tentasse se esconder. Ele pareceu satisfeito:
- Que bom que está acordada.
- Fique longe de mim - Ela tentou não tremer a voz, mas não conseguiu - Não chegue mais perto.
Ele sorriu e pôs a bandeja no chão:
- Aqui tem comida. Deve estar com fome.
- Não estou - Ela sabia que ele colocava drogas na comida - Não, obrigada.
Carter sorriu:
- Olhe, agora que você já sabe sobre as drogas, não acha que eu não faria o mesmo truque, não é? Agora vou ter que dispensar as drogas, só isso. Vamos, Linda, deve estar com muita fome.
Como se tratasse de um animal enjaulado, ele se afastou da bandeja e olhou para ela. Como se fosse mesmo um animal enjaulado, ela apenas o encarou, lutando para não entrar em pânico. Ele deu de ombros:
- Vou deixar aqui. Mas não quero que você passe fome. Voltarei mais tarde, quando estiver alimentada.
Ele saiu do quarto e Linda ouviu uma tranca fechando a porta.
Ela suspirou, deprimida. Tentou com muito esforço não chorar novamente.
Linda logo notou que estava mesmo com fome. Talvez ele estivesse dizendo a verdade e a comida não contivesse químicos. Com cuidado, ela se aproximou da bandeja e mordiscou o sanduíche e o suco fresco. Era bom, e fez bem a ela. Ela estava com mais fome do que tinha se dado conta e comeu tudo.
Então ela se sentiu sonolenta novamente. Podia ser efeito colateral das drogas? Ela entrou em pânico, mas não por muito tempo. Voltando para a cama, ela desabou na colcha, entrando nas trevas da inconsciência novamente, num mundo cinza líquido e quente.
* * *
Por poucos segundos enquanto ainda não estava acordada, Linda imaginou o que poderia estar impedindo seu braço de se mexer. Ela abriu os olhos, quase ficou cega com a luz no quarto e mexeu a cabeça, vendo que estava acorrentada pelos pulsos e tornozelos. A realidade chegou a ela como um soco no estômago. Ela era uma prisioneira.
Estava sendo mantida na cama, ganchinhos prendiam as correntes aos pulsos e tornozelos. Ela sacudiu as correntes, o barulho metálico nada promissor para ela tentar escapar. Na verdade, uma fuga acabava de se tornar mais difícil.
As roupas tinham sido trocadas. Linda ruborizou com a possibilidade de o Sr. Carter tê-la visto apenas com roupa de baixo. Mas a minissaia e blusa pareciam bem mais confortáveis do que ela queria admitir. Claro, ela não iria admitir isso. Não estando acorrentada a uma cama, prisioneira de um homem com confessas intenções de vingar-se de Ray Vecchio.
Linda olhou em volta e descobriu que a sala tinha mudado também. Agora havia uma cadeira perto do cama e, na parede, um daqueles espelhos que não davam para ver do outro lado, como ela tinha visto no distrito. Ela imaginou qual podia ser o plano de Carter. Ele a usaria, com certeza, mas com que propósito? Atrair Ray e Sr. Fraser?
As chances de resgate não eram muitas. Ninguém sabia onde ela estava (incluindo ela mesma), e ninguém iria sentir sua falta por alguns dias. Talvez Ray tivesse se dado conta de que algo estava errado quando tinha passado pelo apartamento para levá-la a jantar e ela não estava em casa. Mas ela não sabia quanto tempo fazia aquilo, ou quanto tempo estava ali. Talvez ele descobrisse algo errado quando a senhoria dissesse que ela tinha ido viajar. Afinal de contas, Ray era um bom policial. Se não, Sr. Fraser poderia pescar algo no ar, como ele parecia fazer a maior parte do tempo. Talvez ainda houvesse chance.
Ela olhou as correntes e tentou puxá-las com força. Não, elas estavam firmes e não iriam ceder. Ela suspirou, tentando se convencer a não cooperar com o raptor. Afinal, a cooperação poderia significar a vida de Ray. Se Carter queria cooperação, iria sofrer um pouco.
Como se lesse os pensamentos dela, Carter abriu a porta, e disse:
- Você está acordada. Bom - Fechou a porta - Agora podemos começar.
- O que quer de mim?
- Só algumas respostas.
- O que vai fazer comigo?
- Você vai ver.
Ele se aproximou.
Linda sentiu o coração acelerar e tentou recuar, mas estava amarrada e não tinha como escapar. Ela podia sentir o medo nas entranhas, mas manteve o foco na raiva para não se entregar ao medo. Sentando-se na cadeira, Carter sorriu:
- Você está com medo, não está?
- Você sabe que sim. - Admitiu - Mas não sei que pode querer de mim.
- É amiga de Vecchio. - Ele dizia como uma afirmação, não uma pergunta.
- Sim, sou.
- Disse que faria qualquer coisa por ele.
Linda não via o objetivo dele.
- E daí?
- Quero saber até que ponto isso é verdade.
Ela desabafou a raiva que sentia:
- Olha, eu não menti. Eu disse que arriscaria minha vida pela dele. Portanto, se vai me matar, pode fazer isso agora mesmo, porque eu faria qualquer coisa para proteger Ray.
- Por quê? Ele não presta.
- Ele é meu amigo!
- Ele nem se interessou em proteger você. Você está aqui.
- Ele é um bom homem. Não pode saber o que se passa na sua mente doentia!
- Você está aqui por causa dele. Tudo isso é culpa dele!
- Não é, não!
- Você é teimosa, garota - Ele suspirou - E quanto ao amigo dele, o polícia montada?
À menção do homem que amava, Linda empalideceu, mas ela não iria deixar que as palavras de seu raptor a fizessem perder controle. Não, ele não ameaçaria o Sr. Fraser daquele jeito!! Ela tentou se comportar de um jeito casual:
- O que tem ele?
- Também é seu amigo?
- Sim, ele também é meu amigo. Por quê?
- Ele também me prendeu.
- Isso é mentira.
- Eu não menti para você.
- Não pode ser verdade.
- Como pode ter tanta certeza?
- É que ele é canadense, não tem jurisdição em Chicago ou no Estado de Illi -
Ele gritou, interrompendo-a:
- Não se faça de esperta comigo, mocinha! Aquele polícia montada vive ajudando Vecchio e você sabe disso. Eu até tentei matá-lo uma vez, sabia? - Linda estremeceu e tentou se controlar - Agora tenho planos para ele.
Linda tentou não parecer muito afetada:
- Para o Sr. Fraser? Ele é esperto demais para você!
- Você tem uns amigos e tanto, garota. Eles abandonam você e você agora está aí, raptada, à mercê de uma pessoa que você nem conseguiu prever que era um inimigo... Se eles fossem mesmo bons amigos, eles a teriam protegido.
- Eu já disse: eles não podem prever o que se passa na sua mente doente. - Ela suspirou, depois abriu o coração - Olhe, Sr. Carter, eu também estive doente. Mas agora estou melhor. Posso conseguir ajuda para o senhor, se quiser.
Carter sorriu para a garota e disse:
- Talvez eu possa esquecer os dois. Você me ajudaria a fazer isso?
- Claro. Qualquer coisa.
- Qualquer coisa?
- Sim.
- Você estaria mesmo disposta a fazer qualquer coisa para ajudar Vecchio e o polícia montada?
- Claro.
- Eu vou perguntar de novo, Linda. Está mesmo disposta a fazer qualquer coisa pelos seus amigos?
- Se prometer que não vai machucá-los, farei qualquer coisa que me pedir.
- Você transaria comigo?
Linda ficou vermelha e olhou para ele, procurando ver sinais de hesitação. Não encontrou nenhum. Tentou manter a voz firme quando respondeu:
- Sim.
Ele se aproximou e ela ficou tensa.
O dedo de Carter começou a percorrer a parte de fora das coxas dela, ainda coberta pela saia, e ele indagou, a voz mais branda e pastosa:
- E se eu trouxesse um amigo para a nossa festinha? - Ele a encarava intensamente, e ela tentou mas não pôde evitar um arrepio - Você iria com dois ao mesmo tempo?
Por um momento, Linda ficou cega com a dolorosa lembrança de seu pai e dos abusos dele. De repente, ficou difícil respirar, o peito apertava. Tudo o que ela conseguiu fazer foi assentir com a cabeça e fechar os olhos com força. Tanta dor...
De repente, um soluço. E lágrimas.
Ela ouviu um barulho de porta e abriu os olhos. Carter tinha saído e retornou um pouco depois, com um copo de água. Ele ajudou Linda a beber e depois só a encarou, parado. Depois ele saiu e Linda conseguiu chorar o que ela queria desabafar. Aquilo estava ficando mais perigoso do que ela tinha imaginado. Ela começou a se sentir cansada, muito cansada, a cabeça doendo.
Então ela terminou adormecendo.
* * *
Linda ouviu tudo de longe. Havia uma voz insistente falando coisas, e isso a acordou. Mas Linda não estava mesmo totalmente desperta, e tudo parecia um sonho.
Ela ergueu a cabeça e viu o Sr. Carter falando severamente com alguém que ela não via. Seus sentidos parcos permitiram que ela percebesse que o Sr. Carter estava tentando hipnotizar aquela pessoa. Ela só captou poucas palavras: "Meia-noite, terça-feira, vergonha, impensável..." Não faz sentido, pensou Linda, dopada.
Lutando para se sentar, ela percebeu que estava sem as correntes nos pulsos e tornozelos. Alegremente, ela tentou mexer braços e pernas e firmar a vista. Seus olhos, porém, não ajudavam. Ela viu o Sr. Carter, e mais uma pessoa, alguém que ela teve que apertar os olhos para ver. Mas nem assim teve certeza de tê-lo reconhecido:
- Sr. Fraser?
Ele estava sentado numa cadeira, estranhamente parado, olhos imóveis e arregalados, o corpo tenso.
O Sr. Carter se voltou subitamente para ela e ordenou severamente:
- Linda, volte a dormir.
Havia algo na voz dele ao qual ela não pôde resistir. Sem reclamar, ela deitou de novo e voltou a dormir.
* * *
Naquele mundo cinza de sonhos e névoa, Linda acreditou ter ouvido seu nome. Logo em seguida, algo a sacudia intensamente, e ela abriu os olhos. Ficou feliz por tê-lo feito.
- Sr. Fraser!.... - Ela sorriu, com muito sono - Que bom ver o senhor...
O canadense a apressou:
- Linda, você pode andar?
- Não sei... - disse, depois reclamou - Não me sinto bem, Sr. Fraser.
- Você vai melhorar, Linda, mas agora temos que sair daqui. Preciso que me ajude, tá bom?
- Tá bom, Sr. Fraser - disse ela, sentando-se na cama - Farei qualquer coisa.
- Então venha.
Ele a ajudou a ficar de pé e depois a andar. Linda tentou não pensar na sensação causada pelas mãos dele a abraçando, os seus dois corpos juntos, o calor que ele exalava, o modo como cheirava...
- Agora precisamos fazer silêncio - disse Fraser, interrompendo os pensamentos dela.
- Espere - disse ela - Temos que levar Mr. Carter conosco.
- Não, ele vai depois. Agora vamos.
Ela tentou andar, mas ao invés disso ela só conseguiu cambalear até a porta com a ajuda dele. Ela se sentia estranhamente feliz, a cabeça leve e bem arejada. Havia coisas que ela não entendia totalmente.
O Sr. Fraser recebeu uma pancada na cabeça, e a largou, pois perdeu os sentidos. Os dois caíram no chão. Linda estava um pouco tonta, mas viu que quem tinha batido no Sr. Fraser tinha sido o Sr. Carter. Depois o Sr. Carter a ajudou a voltar para cama e ela recebeu ordens de dormir novamente. Sem problemas, pensou, caindo alegremente na inconsciência.
* * *
Desta vez, Linda foi acordada pelo seu estômago revolvendo. E ela não podia se mexer - as correntes estavam de volta à cama. Tornozelos e pulsos atados à cama, as pernas abertas, tudo como antes. Mas dessa vez, ela se sentiu bem melhor, ao menos mais desperta. A fome a ajudava a se sentir mais consciente, também. Então ouviu a pergunta:
- Está com fome?
Ela ergueu a cabeça e viu o Sr. Carter a encarando. Ele parece cansado, ela reparou.
- Não.
Na verdade, ela estava com fome, mas não queria admitir, temerosa de que ele a drogasse novamente. Sr. Carter deve ter percebido alguma coisa porque sorriu e disse:
- Sei que está mentindo. Mas talvez seja melhor assim. Poupa-nos tempo.
Linda estremeceu e ficou acompanhando seu captor com os olhos, enquanto ele apanhava uma cadeira e se sentava ao lado dela:
- Sabe, Linda, você tem muita sorte. Temos um visitante. - Ela o encarou, intrigada - Parece que seu amigo Benton Fraser sabe rastrear fugitivos como ninguém. Ele nos achou - Linda tentou não parecer muito alegre, mas ele deve ter percebido algo, porque disse: - Não, querida, lamento desfazer suas esperanças desse jeito, porque agora Sr. Fraser é também um convidado. Como você. Para falar a verdade, ele está agora mesmo além desse espelho. Faço questão que ele nos veja. Quero que ele nos observe.
- Por quê?
- Você diz que ele é seu amigo.
- E daí?
- Estou lhe dando a chance de provar - Linda pareceu ainda mais intrigada - Eu tenho seu amigo em meu poder e eu vou matá-lo. - Ela estremeceu - Ou posso soltá-lo. Depende de você.
- Eu?
- Sim, você - Carter chegou mais perto - Você é mesmo amiga dele?
- Claro que sim.
- Faria qualquer coisa para soltá-lo?
- Sim, faria.
- Quer que eu o deixe livre?
- Sim, por favor.
- Então está disposta a me pedir com gentileza?
- Por favor, deixe o Sr. Fraser livre.
Carter sorriu e abanou a cabeça, erguendo-se:
- Não, não, Linda, minha querida Linda. Vai ter que fazer melhor do que isso se quiser ver o seu amigo livre. Ele provavelmente está nos olhando agora mesmo, através daquele espelho. Eu fiz questão que ele nos visse juntos. Ele está contando com você, Linda. Se pudesse vê-lo, ele provavelmente iria implorar para que você o soltasse.
Linda ficou emocionada, e quase estava em lágrimas, quando pediu:
- Por favor, eu lhe peço: solte o Sr. Fraser, Sr. Carter.
- Você é amiga dele, não é? - Ela assentiu, lágrimas nos olhos - Não quer que ele sofra coisa alguma, não é mesmo? - Ela assentiu de novo - Então me diga mais uma vez, Linda, você está disposta a fazer qualquer coisa pelo seu amigo? É isso o que os verdadeiros amigos fazem uns pelos outros, não é verdade?
- Sim. Por favor, deixe o Sr. Fraser ir. Eu farei qualquer coisa.
- Diga-me de novo, Linda: você deixaria que eu tivesse você?
O coração de Linda se apertou, pois ela sabia o que ele queria dizer. Ele tinha dito antes. Uma lágrima caiu na sua bochecha, quando ela assentiu e Carter indagou de novo:
- Eu quero ouvir, Linda. Vai me deixar ter você?
- Sim. - Era quase um soluço.
- Eu quero seu corpo, Linda - Ela teve que apertar os olhos para não chorar alto - Vai me deixar ter seu corpo? - Ela assentiu e ele indagou, ríspido - Não estou ouvindo, Linda.
Imediatamente, ela respondeu em voz alta:
- Sim, Sr. Carter.
Ele avisou:
- Quero ouvir suas respostas, Linda. Não quer me deixar zangado, quer?
Ela estremeceu:
- Não, Sr. Carter.
- Boa menina - Ele se sentou na cama e gracejou - Sim, boa menina. Agora, Linda, eu não quero que você faça coisa alguma que não queira, está bem? Eu quero que você se divirta tanto quanto eu sei que eu vou me divertir.
- Sim, Sr. Carter - ela choramingou.
- Lembre-se: tudo isso é culpa de seus amigos. Eu poderia machucá-los pelas coisas que eles estão fazendo a você. Tem certeza de que não quer vê-los punidos por isso?
- Não, Sr. Carter. Por favor, libere o Sr. Fraser.
O homem colocou a mão na coxa dela, dizendo:
- A seu tempo, Linda, tudo a seu tempo. Seria com conversarmos um pouco primeiro. Sabe, eu estou curioso. Você, Vecchio e esse Fraser eram amigos, certo?
- Sm, senhor.
- E vocês se divertiam juntos, não é?
- Sim - Ela não estava entendendo - nós nos divertíamos.
- E como vocês faziam isso? Você fodia Vecchio enquanto chupava Fraser ou era o contrário, fodia Fraser e chupava Vecchio?
Linda quase ficou sem fala, mas ainda conseguiu dizer:
- Não! Nós... nunca!.. Isso...!
- Pois é, Linda, é nisso que eu não acredito. Os três saindo juntos e ninguém se engraçou?
- Não!
A mão dele subiu para a cintura e ele dizia sensualmente:
- Não tente me dizer que nenhum dos bravos rapazes pôs a mão nessas coxas, nesses peitos, ou não provou sua boceta quente...
Linda sentiu os músculos enrijecendo diante do toque indesejado da mão dele e segurou-se para não gritar. Mas soltou um gemido. Depois ficou com medo que isso pudesse prejudicar o Sr. Fraser.
Foi aí que ela ouviu um barulho abafado, talvez uma batida, vinda do outro lado do espelho de duas faces. Carter sorriu:
- Parece que o nosso bravo polícia montada está ficando um pouco inquieto lá dentro. Talvez ele esteja se sentindo sozinho. O que me diz se ele se juntar à nossa festinha, Linda?
- NÃO! - Ela não pôde segurar o grito - Por favor, deixe-o ir!!
- O quê? Você não quer servir o seu amigo? Não quer dar prazer a ele?
Linda já não conseguia mais segurar o choro e implorou:
- Por favor, Sr. Carter... Se quiser fazer algo comigo, então faça, mas por favor não machuque o Sr. Fraser...
- Isso é tão tocante que chega a me excitar - Carter tocou um dos seios de Linda e ficou acariciando-o, mesmo por cima da roupa e a garota tentava não gritar - Sim, me excita mesmo...
Ele desabotoou a blusa e o sutiã dela, acariciando-lhe sensualmente os seios, e Linda sentiu o mundo girar, tamanha a repulsa causada pelo toque dele. As mãos dele logo foram substituídas pelos lábios dele, e a garota sentiu os mamilos endurecerem ao contato macio e úmido da língua dele.
As batidas no espelho aumentaram, enquanto Linda tentava distanciar sua mente das sensações que seu corpo estava experimentando. Talvez aquilo tudo fosse um pesadelo, e pudesse ir embora. Ela tinha tanto medo de que uma reação errada pudesse prejudicar o Sr. Fraser que nem sabia se tentava se refugiar em alguma fantasia ou se agüentava o sacrifício de seu corpo.
Carter deixou os seus lábios passearem pela barriga, pelos seios e pelo pescoço dela, antes de subir para as bochechas e lábios, saboreando a pele pálida e firme. Ele usou as duas mãos para abraçá-la e esticar seu corpo ao longo do dela. Linda tremia e tentou suprimir um grito quando sua saia foi levantada e a calcinha começou a ser retirada de maneira vagarosa por dedos rústicos.
De repente, a calcinha foi rasgada violentamente, e Linda gritou de susto, enquanto Carter se colocou entre as pernas abertas dela. Ele se curvou para lamber o interior das coxas dela. Assustada, ela se mexeu mesmo acorrentada, e ele lhe mordiscou a virilha, perto do coração de sua feminilidade
Lágrimas corriam pelas bochechas de Linda, mesmo que ela temesse a reação de seu captor se ela reclamasse. Carter escorregou um dedo para dentro do centro úmido de Linda, e ela gemeu, arqueando-se na cama.
Foi quando um barulho alto se ouviu, de vidro quebrando, e Linda gritou, fechando os olhos e tentando se esconder, enquanto Carter era violentamente retirado de cima dela. A porta também foi arrombada, e ela ouviu gritos, e começou a chorar. Então ela reconheceu a voz de Ray:
- Peguem aquele cobertor!
Linda gritou:
- Ray! Ray!
Outras mãos a libertaram das correntes e ela finalmente pôde se jogar nos braços de Ray, sem se importar com sua nudez, chorando e dizendo:
- Ray, Sr. Fraser! O Sr. Fraser está preso aqui!
- Nós o pegamos, Linda, está tudo bem. - Os olhos de Ray estavam cheios de dor quando ela enterrou a cabeça no peito dele, soluçando - Tudo vai ficar bem agora.
Linda ainda tremia nos braços dele, e não largou de Ray por nada. Ela só ergueu a cabeça quando ouviu outra voz conhecida e chamou:
- Sr. Fraser!!
- Linda! - Ele chegou perto dela, parecendo também ter sofrido nas mãos de Carter. - Linda, eu lamento tanto...
Ela olhou para ele, viu a dor nos olhos azuis e disse, sorrindo:
- Está seguro agora, Sr. Fraser.
Os olhos de Fraser cintilaram com mais força para ela, ainda agarrada aos braços de Ray. Ela sorria para ele, e havia tantas emoções que Fraser achou que não fosse agüentar e cairia no choro. Ray cobriu Linda com o cobertor e a abraçou, dizendo:
- Venha, vamos sair daqui.
Os três estavam quase fora daquele quarto horroroso quando um grito se ouviu:
- Você! - Carver (o verdadeiro nome do Sr. Carter) ergueu o dedo para Fraser, olhos brilhando de ódio. - Eu o amaldiçôo. Não machucará ninguém, mas fará uma coisa que achava impensável até agora. Não poderá escapar disso. Isso vai consumi-lo, e vai fazê-lo agir sob compulsão. Ninguém morrerá, e você também não será machucado, mas vai se sentir o pior dos homens, indigno de seus amigos e de seu uniforme. E essa será minha vingança.
Ray sentia Linda se encolhendo nos braços dele e disse:
-Vamos, Benny, vamos deixar que eles recolham o lixo.
Linda chorou em silêncio durante todo o caminho de volta a Chicago.
No 27º Distrito, ela só reclamou quando tentaram separá-la de Ray, para que ela pudesse colocar algumas roupas. Só a garantia de Fraser a fez obedecer e ir com Elaine para mudar as roupas esfarrapadas. Depois disso, ela foi levada a uma sala de interrogatórios.
- Linda, não precisa fazer isso agora - explicou Ray - Se não quiser falar sobre isso...
Ela disse, mesmo entre lágrimas:
- Não, eu preciso falar, Ray. É melhor se eu falar.
- Está bem - Ele a abraçou com ternura - Lembre-se, não precisa ter medo de nada. Você não fez nada de errado.
Linda foi interrogada por outro detetive, mas ela fizera questão de que Ray estivesse sempre ao seu lado. O italiano estava orgulhoso de sua jovem amiga. Embora a garota tivesse acessos de choro ocasionais, as respostas eram seguras e sem qualquer traço de hesitação. Se ela precisasse ir para um tribunal, seria uma excelente testemunha.
Durante os três dias que ela tinha ficado com Carver, Ray temera pela vida da garota. Ele se culpava por jamais ter pensado que ela pudesse ser um alvo. Afinal, quem iria querer machucar uma criatura doce feito Linda? Só mesmo um animal como Carver faria algo assim. O sangue italiano dele vibrava nas veias, e ele queria ter certeza de que dessa vez o miserável teria o que merecia. O único consolo de Ray era que ele não tinha ficado tão apavorado quanto Benny.
Desde que Linda sumira, Fraser mudara totalmente. Ele tirou folga do Consulado só para acompanhar o caso e ajudar os detetives do distrito. Nesse tempo, ele tinha desaparecido por um dia inteiro e depois deixara uma mensagem dizendo onde estaria e que não poderia esperar por reforços. Então, também tinha sido aprisionado. Mas ao menos Fraser tinha achado Linda.
Não a tempo de evitar o pior, pensou Ray, desgostoso. Ray sabia que àquela hora o médico dela, Dr. Lennyard, provavelmente já teria chegado. O testemunho dela seria levado a ele mais tarde, claro. Ray estava mesmo orgulhoso dela. Claro que ela estava abalada, mas Ray tinha temido que ela se fechasse como tinha acontecido quando fora assaltada no El e deixada para morrer num buraco meses atrás. Desta vez ela reagia bem. Na verdade, Ray achava que ela tinha reagido melhor do que a maioria das vítimas de estupro que ele vira.
Depois do depoimento ter sido tomado, Linda foi para uma outra sala, onde o Dr. Lennyard a esperava. Ela hesitou em entrar. Ray indagou, ao ver a hesitação da moça:
- Linda, tudo bem?
- Eu quero falar com o médico, Ray, mas...
- O que é?
- Podia esperar para me levar para casa?
- Claro que sim - sorriu e tranqüilizou-a - Leve o tempo que quiser.
- Er... Ray?
- Linda?
Ela parecia envergonhada, mas pediu:
- Podia ver o Sr. Fraser por mim, por favor? Ele parece precisar de um amigo.
- Eu vou fazer isso. Agora pare de se preocupar com os outros e vá falar com seu médico.
Linda ficou na ponta nos pés para beijar a bochecha de Ray, que sorriu e foi ver seu amigo. Achou Fraser sentado em sua mesa, limpando as feridas dos braços. Ninguém se dera conta, mas ele tinha estourado um espelho de duas faces no esconderijo de Carver, e alguns cacos tinham se alojado na sua pele. Ray chegou a pensar que Fraser tinha sido drogado, pois ele estava irracional quando saíram do local. Só depois Ray se deu conta que Fraser tinha ficado fora de si tamanha a revolta pelo que Carver estivera fazendo a Linda. Pela primeira vez, Ray vira Fraser incapaz de conter suas emoções.
Naquele exato momento, tratando de seus machucados, Fraser parecia distante, pensou Ray. Parecia pensativo. Arrependido.
Ray se aproximou com cuidado.
- Oi, Benny.
- Como está Linda?
- Melhor do que pensei, amigo. Ela está preocupada com você.
- Eu sei. Ela é muito... doce.
- Benny, o que houve?
O canadense abaixou a cabeça, examinando suas mãos com atenção, e depois disse, sem encarar Ray:
- Isso tudo foi minha culpa, Ray.
O amigo não entendeu:
- Como assim?
A voz de Fraser trazia mágoa e remorso:
- Carver não a teria machucado se eu não estivesse lá, Ray. Eu só piorei tudo. Se eu não estivesse lá...
- Então Carver teria achado outra maneira de torturar Linda, Benny. Você sabe disso. Sabe o que ele fez antes, o inferno pelo qual nos fez passar. Agora você está fazendo exatamente o que ele quer: está sofrendo e chorando por algo que ele fez. Sabe o que Linda acabou de me ensinar? O que ele fez pode ter machucado o corpo dela, mas não seu coração. Não deixe que ele pegue você, Benny. Não dê a esse canalha o que ele quer.
Fraser encarou o amigo, viu solidariedade nos grandes olhos verdes. Os olhos azuis dele relaxaram, antes que ele dissesse:
- Acho que tem razão, Ray.
- Claro que tenho. Agora por que não vai para casa? Aproveite a folga que a Mulher-Dragão deu para você.
- Eu quero ficar com Linda, Ray. Preciso... pedir desculpas.
- Benny, você não fez nada de errado. Não tem do que se desculpar.
- Eu... - Ele tentou encarar Ray, mas não conseguiu. - Eu... me sentiria melhor.
- Tá bom, amigão. Ela vai ficar feliz de ver você.
Fraser sorriu e seguiu Ray num outro corredor da delegacia. Contudo, o coração do canadense não estava totalmente em paz. Ele ainda sentia muito ódio ao pensar no que aquele homem fizera com Linda. Agora sabia que tinha sentimentos verdadeiros pela garota. Devagar, gradualmente, Linda conquistara seu coração, com sua sinceridade, seu sorriso genuíno e a preocupação verdadeira e desinteressada. Fraser queria fazê-la sua, mas não sabia como. Especificamente, devido aos traumas do passado de Linda, ele tinha medo que ela se assustasse. Linda parecia estável, mas o histórico médico dela indicava que era um risco muito grande. Fraser tinha conscientemente escolhido amá-la à distância, apenas por estar ao seu lado. Algum dia aquilo poderia mudar, quem sabe.
Talvez as esperanças de Fraser não estivessem tão fora de alcance.
Mesmo que ela tivesse que recontar pela décima vez tudo o que acontecera, Linda só tremeu uma ou duas vezes ao falar com o Dr. Lennyard, e isso foi quando ele perguntou a ela sobre Fraser. Os sentimentos dela sobre o canadense não mudaram, mas ela tinha medo. Ela ainda não conseguia falar com ele chamando-o de outra coisa que não Sr. Fraser, embora ele repetidamente pedira a ela que o chamasse de Benton, lembrando que ela chamava o outro amigo de Ray. Mas isso era intimidade demais. Ela não conseguia acreditar que ele algum dia quisesse estar com ela, então ela se acostumou à idéia de que apenas estar ao lado dele era o bastante. Quando aquele homem horrível tinha ameaçado Fraser, Linda sabia que faria de tudo para não deixar nada acontecer a ele. Dr. Lennyard dissera a ela que era um gesto nobre, e que ela deveria pensar em contar a Fraser sobre seus sentimentos. Ela não iria arriscar a amizade que tinha.
Meia hora depois de ter entrado, Linda saiu da sala e Ray foi até ela. Fraser estava com ele.
- Você parece cansada - disse Ray. - Venha, eu vou levá-la para casa.
Ela indagou:
- Que horas são? Tenho que ir trabalhar.
Ray explicou:
- Linda, você não pode ir trabalhar. Está exausta. Além disso, eu já liguei para a Sra. Sorelli. Ela disse que você pode tirar uma licença médica.
Linda suspirou:
- Isso é bom. Estou cansada.
Ray levou os dois amigos até seu Buick Riviera verde, que estava estacionado bem em frente ao distrito policial, já que era alta madrugada. Ele avisou Linda, assim que entraram no carro:
- Ma está esperando a gente em casa com uma bela sopa. E você vai dormir no quarto de Frannie.
- Por quê?
- O médico disse que você não deveria ficar sozinha essa noite.
- Bom. Mas eu não quero incomodar sua mãe, Ray.
- Não é incômodo. Só vamos levar Benny em casa primeiro, tá bom?
- Tá - Linda olhou para o canadense - Sr. Fraser, o senhor está bem?
Ele parecia surpreso:
- Por que pergunta?
- Parece chateado. Está preocupado com a maldição?
Fraser empalideceu, e Ray percebeu na hora que algo estava errado. Indagou:
- Benny?
- Bom, Ray...
- Não acredito! É por isso que está com essa cara? Está preocupado com essa tal maldição? E como pode acreditar nisso, Benny?
- Eu já vi muitas coisas estranhas, Ray. Entre os inuit...
- Carver certamente não é inuit, Benny.
Linda entrou na discussão:
- Mas temos tempo para quebrar a maldição. Temos até amanhã à noite.
- Já sei - disse Ray - Vamos jantar juntos amanhã. Você vai ver que nada vai acontecer, e que Carver só estava tentando assustar você.
- Espero que tenha razão, Ray.
Eles levaram Benny para casa e depois foram para a casa dos Vecchio. Linda foi paparicada pela família inteira, devido ao que tinha acontecido, e depois ganhou a sopa de galinha especial da Mamãe Vecchio. Em seguida, a própria Ma a colocou na cama, e ela dormiu sem pesadelos, sentindo-se segura e cuidada.
Linda acordou muito tarde no dia seguinte. Após agradecer apropriadamente à família Vecchio, ela foi para o seu apartamento e falou com a senhoria sobre o que tinha acontecido. Depois ela se dedicou a tarefas domésticas, como cuidar da roupa e arrumar a casa. No final da tarde, ela decidiu voltar à delegacia de polícia para perguntar a Ray se o jantar ainda estava de pé.
- Claro que está - sorriu o detetive italiano. Mas o sorriso logo caiu. - Vamos indo. Pegamos Benny no caminho.
Linda indagou, preocupada:
- Tudo bem, Ray?
- É o Benny, Linda. Essa coisa de maldição o assustou para valer. Eu tentei falar com ele, mas você sabe como Benny pode ser teimoso quando quer. Ele nem aproveitou a folga dele!
- Talvez devêssemos ficar com ele - sugeriu ela - Depois do jantar. Para ele não ficar sozinho na hora da maldição.
- Boa idéia.
O canadense os esperava do lado de fora do Consulado. Quando ele entrou no Riv, Linda sentiu que ele estava mesmo preocupado, embora ele evitasse até tocar no assunto. O coração dela ficou pesado por ele. Ela o amava, importava-se com ele. Gostaria de tirar aquele peso de sua alma.
Os três foram a uma nova cantina que Ray ouviu falar, e a noite passou muito gostosa, até a sobremesa. Foi quando o telefone celular de Ray tocou e ele atendeu. Quando ele colocou o aparelho de volta no seu paletó, não tinha uma cara muito boa.
- Lamento, Benny, mas aquele jogo de xadrez vai ter que ficar para outro dia. Parece que o Welsh está me esperando para uma vigia noturna.
Linda notou que os ombros de Fraser caíram de decepção, mas ele disse apenas, tentando manter a voz neutra:
- Tudo bem, Ray.
- Eu vou levar vocês dois para casa, está bem?
Linda precipitou-se em dizer:
- Não, eu - eu gostaria de ir até a casa do Sr. Fraser.
- O quê?
- O Sr. Fraser não deveria passar a meia-noite de hoje sozinho. Depois disso eu posso ir para casa.
Ray pensou um minuto, depois concordou.
- Parece bom. O que diz, Fraser?
- Bom, eu- eu, quero dizer...
Ray abanou a cabeça:
- Eu não acredito em você, Fraser. Você é a pessoa mais irritante que eu conheço. Linda tem razão. Você está agindo bem estranho, ou pelo menos mais estranho do que o de costume, de qualquer jeito. E não é bom deixá-lo sozinho. Claro que eu não acredito nessa história de maldição, mas tá na cara que você acredita, então não é nada bom deixar você totalmente sozinho nessa noite.
- Mas - Fraser parecia hesitante - Ray, tem certeza que isso é prudente?
Ray não estava particularmente paciente naquele momento:
- Linda é sua amiga, e está se oferecendo para ficar a seu lado. Eu gostaria de estar com você também, mas não posso, Benny. Qual parte você não acha prudente?
- É que... Se a maldição for real... Linda pode ficar em perigo...
Linda entrou no diálogo:
- Não, Sr. Fraser. Carver disse em alto e bom som que o senhor não machucaria ninguém. E que não seria machucado também. A compulsão que deve atingi-lo à meia-noite o levaria a fazer algo que o senhor acha impensável. Eu não acho que vá correr perigo.
- É, Benny, tá tudo bem. Agora vamos.
Ray quase deixou o telefone celular com Linda, mas pensou bem e achou melhor deixar com os dois a instrução de ligar para ele se qualquer coisa acontecesse. Linda podia sentir a inquietação de Fraser dentro do Riviera durante todo o caminho até o prédio dele, e depois disso, quando os dois subiram para o apartamento.
Portanto, assim que eles entraram no apartamento, ela perguntou de modo sincero:
- Sr. Fraser, o senhor prefere que eu me vá?
- Não! - Ele parecia embaraçado. - Por favor, Linda, não me entenda mal.
- Eu estou aqui para ajudar - ela falou - e são só 23h10min, portanto não vou ficar aqui muito tempo. Mas se ainda assim, estiver desconfortável, eu posso ir embora. Sem problema.
Ele sorriu, e quem ficou vermelha foi ela, mas ouviu:
- Me desculpe, Linda. Não é que eu não queira você aqui. Eu estou ficando bem preocupado, só isso. Talvez Ray tenha razão, e isso não seja nada.
- Talvez - Ela sorriu. Depois ela olhou em volta. - Onde está Diefenbaker?
- Eu o deixei com um amigo, chamado Willie Lambert. Eu não sabia se ele estaria em perigo, então achei que estaria mais seguro fora daqui.
Linda encarou o amigo e disse:
- O senhor está muito tenso, Sr. Fraser. Acho que um belo chá de camomila vai fazer bem. Quer que eu lhe faça um chá?
- Eu gostaria de um, Linda, obrigada.
Ela adorou poder fazer chá para ele. Na verdade, Linda estava se entregando a uma fantasia íntima, imaginando como seria estar perto dele o tempo todo, ou como seria cozinhar para ele, limpar sua casa. Ela nem ousava olhar para a cama, embora enquanto preparava o chá, ela se lembrasse das palavras de Carver sobre ela e Ray e Fraser.
Não, ela se censurou severamente. Pensamentos proibidos, Linda!
Eles bebericaram o chá em silêncio, e Linda podia sentir a tensão crescendo no ar, tentando superar o momento embaraçoso. Contudo, Fraser começou a respirar severamente, como se estivesse em dificuldades. Linda indagou:
- Sr. Fraser, o senhor está bem?
Ele respondeu:
- Posso sentir... Está funcionando....
Era a maldição!
Linda arregalou os olhos e olhou para o relógio. Quase meia-noite.
Subitamente, Fraser se ergueu da cadeira e abriu a janela que dava para o beco ao lado do apartamento dele. Os movimentos dele foram tão inesperados que Linda reagiu num impulso e correu atrás dele, agarrando-o pelos ombros, e gritando:
- Sr. Fraser, não! - Ele parou, encarando Linda, e ela enrubesceu num tom vívido de rosa, ao perceber que o tinha tocado, e foi para trás - Desculpe... Achei que... Poderia pular.
Foi então que ela enrubesceu ainda mais, o rosto chegando a ser escarlate, quando ela se deu conta não apenas de que o tinha tocado, mas também que ela tinha ousado pensar que poderia tê-lo detido se ele realmente quisesse pular. Um homem daquele tamanho, na verdade um policial que sabia se defender, treinado para tal, a teria desarmado num piscar de olhos.
Fraser ainda estava ofegante:
- Não, eu... só... precisava de ar... Não queria... pular...
Linda tentou se recompor, levando-o de volta à mesa, e disse:
- Bom, então... Talvez... Quem sabe... Por favor, sente-se nessa cadeira, longe da janela, está bem? Provavelmente era o chá que estava muito quente. Vou trazer uma bebida gelada agora mesmo. Deixe-me ver o que o senhor tem na geladeira.
Ela foi ao refrigerador, enquanto ele continuava ofegando, sentado na cadeira. Ela abriu a porta do refrigerador:
- Olhe, que tal um belo copo de leite? Só espere um segundo, Sr. Fraser, vou lavar os copos para que possa beber.
Linda foi à pia, e começou a lavar copos, preocupada. Se Fraser adoecesse, ela poderia tentar primeiros-socorros, mas não sabia onde tinha um telefone para chamar os paramédicos. Além disso, se Fraser estava com calor, ele poderia pensar em tirar a camisa, ou algo assim. Linda ficaria ainda mais embaraçada. Só de pensar nisso, ela também começou a se sentir acalorada. De uma maneira diferente, claro.
Antes que Linda pudesse se recompor, ela sentiu que os seus ombros eram tocados, e que Fraser estava bem atrás dela. Na verdade, o corpo dele estava se amoldando ao dela - pernas, quadris, peito - tudo estava pressionado contra o corpo dela, as mãos dele nos ombros dela. Era uma espécie de pressão suave, quente. Linda sentiu o calor do corpo dele.
- Linda - ele cochichou, a voz dele soando bem no ouvido de Linda, de uma maneira que ela jamais ouvira antes - A maldição... está me fazendo... querer... você....Querer... de um jeito... você entende?
Linda teve que evitar um gemido, o seu corpo sentindo o estímulo do toque sensual. Ela não confiava em si mesma o bastante para se mexer, portanto ficou imóvel, reunindo forças apenas para pedir:
- Sr. Fraser... Por favor... Não...
- Não posso... me controlar... - Ele começou a beijar a nuca dela, e ela estremeceu, porque era uma sensação tão boa - Desculpe... Linda.... Não consigo...
A respiração dele era ofegante e a dela não era muito diferente. Ela tirou as mãos da água, sem se voltar para ele, apenas parando o que fazia, sem saber direito o que fazer em seguida. Seu desejo era dar meia volta e beijá-lo, entregar-se àqueles lábios e mãos que estavam passeando pelos seus braços, fazendo-a estremecer. Mas ela não podia fazer o que queria, ou perderia a amizade com o Sr. Fraser. Linda podia sentir Fraser lutando contra as compulsões trazidas pela maldição, e sabia que seu amor era perdido. Mesmo sob um tipo de magia, Fraser achava que tocar nela era repulsivo. O coração de Linda se esfacelou:
- Por favor, Sr. Fraser... Não... Por favor, pare...
Fraser começou a mordiscar o lóbulo de sua orelha, a língua dele mexendo cuidadosamente no brinco dela. E ele sussurrou, enquanto as mãos dele se encaminhavam para os seios dela:
- Não posso... Linda... Preciso de você....
Linda podia sentir a ereção dele dentro das calças roçando a parte de trás de sua coxa, e deu-se conta de que não tinha muita escolha. Ele era muito mais forte do que ela e podia dominá-la com facilidade. Por outro lado, se ela pudesse pensar, ela provavelmente não saberia como lidar com isso. Ela acabara de sair de uma experiência traumática e sabia que isso era apenas uma maldição, que acabaria logo. Não vinha do coração.
Mas naquele momento, o pensamento racional era algo que fugira dela. Tudo o que ela sentia eram os dedos de Fraser sob a blusa dela, em seus seios, enrijecendo os mamilos, mandando uma onda de sensações direto para o centro de fogo de Linda, ou a língua dele no pescoço dela, beijando a pele delicada da região, fazendo-a estremecer de prazer.
A mão de Fraser passeou pela pele de Linda, até chegar ao cós de suas calças. Ela tentou voltar à razão, tentou recuperar a voz:
- Sr. Fraser, por favor... Pare...!
O que estou dizendo?, ela indagou-se. Eu não quero que ele pare! Mas isso é errado!!!
Ele sussurrou:
- Linda... Desculpe... É...poderoso... Eu tenho - que tocar você... Preciso... de você - Linda.
Linda sabia que se Fraser a tocasse onde ele queria, ele saberia, pela umidade, que ela o desejava tanto quanto a maldição estava fazendo com que ele a desejasse.
Os dedos dele se insinuaram por dentro das roupas dela a partir da cintura, depois os braços dele alcançaram mais abaixo e as mãos dele entraram dentro da calcinha para chegar à umidade dela com dedos graciosos e ágeis. Linda não pôde mais lutar e jogou a cabeça para trás, descansando-a no ombro de Fraser, gemendo baixinho enquanto mexia os quadris no ritmo dos dedos de Fraser dentro dela, o coração tão acelerado que ela achava que iria explodir no peito.
- Por favor... Sr. Fraser... - O som saía em golfadas, a voz alterada - Por favor, não...
As sensações eram demais para que ela se controlasse. Linda pensou que aquilo era melhor do que qualquer coisa que ela já tinha se permitido imaginar. Ela aconchegou a parte de trás da cabeça no peito de Fraser, e ele beijou-lhe o pescoço, enquanto ela ofegava.
Era demais para Linda.
- Por favor, Sr. Fraser... Não pare...
Ela se rendera.
Os ombros dela sentiram a ligeira hesitação de Fraser quando ele ouviu a rendição dela. Poderia Fraser estar lutando contra a compulsão e ainda estar repelindo Linda ou será que ele estava tão enojado ao ver que ela o desejava daquela maneira apaixonada? Ela não se importava. Embora ela tivesse tentado, era impossível resistir. Ela tinha vergonha de admitir, mas aquela era a oportunidade que o destino lhe dera. Era uma ilusão, ela sabia muito bem, mas pelo menos, depois que tudo terminasse, ela teria uma lembrança.
Fraser girou o corpo de Linda, para colocá-la de frente para si e tomou-lhe a boca, invadindo-a de maneira ávida. Sua língua entrou esfomeada, explorando sua boca de maneira sôfrega, e os braços fortes de Fraser apertaram Linda contra si, seus corpos o mais próximo que podiam estar. Ela se entregou àquele beijo, as mãos dela nas costas dele, puxando-o para ela, apertando um contra o outro ainda mais, ciente da ereção dele, dura como uma rocha, começando a ensaiar um movimento para frente e para trás, esfregando o membro rijo entre os dois corpos. A realização do que acontecia ali fez Linda também colocar sua língua dentro da boca de Fraser sem qualquer delicadeza, com a avidez de um pirata diante de um tesouro longamente cobiçado.
Num movimento gracioso, Fraser girou os corpos deles e desgrudou-se dos lábios dela apenas o suficiente para erguê-la nos braços e carregá-la para a cama. Lá, ela retirou todas as roupas dele, e ele as dela, a um ritmo desesperado, entre beijos, gemidos e carícias. Quase arrancando as peças, sem qualquer zelo por seu estado, os dois se despiram, tanto ele quanto ela. Também não houve tempo de admirar a plasticidade o corpo nu do parceiro. Fraser atirou-se como um animal sobre o corpo de Linda, sua boca, lábios e língua fazendo contato íntimo com cada centímetro de pele quente que podia alcançar. As mãos de Linda passeavam por todo aquele corpo masculino amado e sonhado, enquanto ela mal respirava, o corpo estremecendo em prazer, a garganta soltando gemidos e murmúrios sem que ela sequer se desse conta do que dizia:
- Ben... Oh, Ben....
O uso sem precedentes de um nome coloquial aparentemente excitou Fraser ainda mais e ele destemperadamente usou o joelho para separar as pernas dela. Não houve resistência quando ele se posicionou entre as pernas abertas dela, e guiou sua inchada masculinidade direto para o centro feminino de Linda.
Ao sentir os corpos se unindo, Linda arqueou na cama, jogou a cabeça para trás e a pélvis para o alto, sentindo-se esticada pelo membro masculino dentro de si. E embora ela quisesse que aquilo demorasse, que o momento fosse saboreado, o seu desejo tinha se tornado muito urgente. Portanto, embora Fraser estivesse ansioso em dar início a outros ângulos de penetração e aumentar a sensação, Linda também se mostrava ansiosamente disposta a colaborar para o prazer. O suor era estranho, mais oleoso, a realidade mudava de perspectiva. Em menos tempo do que ela esperava, ela pôde sentir o corpo do canadense estremecendo, e o interior dela se encheu da semente de Fraser, enquanto o nome dela era gritado como numa declaração de posse. Fraser a possuíra. Ele era seu dono dali para frente. A alma de Linda agora tinha um proprietário. Ela segurou o homem que ofegava, os músculos dele relaxando, mesmo dentro dela ainda.
Tudo girava, o mundo parecia desacelerar, mesmo que Linda não tivesse sentido isso. Ela ainda ofegava, mas sentiu o doce coração dele batendo junto ao seu, forte, a respiração ritmada dele fazendo cócegas nos ombros dela.
De repente, ele ficou tenso e se libertou dos braços dela.
Era isso. Tinha acabado.
Um lindo sonho, mas a realidade chegara.
Linda enrolou o corpo ainda ardente em posição fetal e virou-se de costas para Fraser. Ela se sentia vazia por dentro. Antes ela imaginara que o desejo por Fraser pudesse ser satisfeito pelo que eles tinham feito. Ao contrário: o desejo dela não tinha sido saciado, só tinha se aguçado pela experiência. Antes que ela pudesse se controlar, lágrimas corriam pelo seu rosto. Ela sentiu um cobertor sendo posto sobre seu corpo nu.
- Eu.... lamento muito, Linda - A voz de Fraser era alquebrada, cheia de dor, mais do que ela já tinha visto - Eu não pude... me controlar...
Linda não podia responder. Eram emoções demais. Ele continuou:
- Eu não queria... me impor daquela forma. Por favor, acredite.
Ela só assentiu, ainda de costas, sem saber se ele a vira. Mas ela não podia falar, as lágrimas ainda corriam pelo rosto.
- Vou me entregar - Fraser decidiu, triste - Não sei como lhe pedir perdão... Eu nunca... Por favor... Eu jamais quis...
Fraser estava tão perturbado que comoveu Linda. Ela se deu conta que ele se condenaria pelo que acontecera, então ela tinha que ajudá-lo. Ela juntou toda a sua coragem e sentou-se na cama, segurando o cobertor:
- Não foi culpa sua, Sr. Fraser... Sabíamos que a maldição... poderia ser estranha....
- Já acabou - ele garantiu - A maldição se foi.
E com ela todas as minhas chances de ser feliz, pensou Linda sombriamente, lágrimas escorrendo.
- Eu vou... me entregar à polícia - Fraser repetiu - Por favor, Linda -
Linda o interrompeu (algo inédito):
- Não faça isso, Sr. Fraser - Não foi culpa sua.
A voz dele parecia cheia de mágoa:
- O que eu fiz... foi indesculpável. Eu - me impus sobre você. É imperdoável, Linda.
- Sr. Fraser - Ela ainda não podia encará-lo, mas não podia deixá-lo se culpar daquela forma - Por favor, não pense assim. Ora, eu poderia ter... protestado... Eu poderia... ter...
Fraser a interrompeu e quase sorriu:
- Linda, você é uma moça tão doce. Mas não precisa me justificar. Você me pediu que parasse. Eu a forcei. Você me implorou que não fizesse o que fiz. É minha culpa mais uma vez.
Linda sentiu que precisava tomar uma atitude. Ela sabia que Fraser iria mesmo se culpar por tudo que acontecera, e poderia ir para a cadeia, se ela não fizesse nada. Ela tinha que jogar limpo. Tinha que falar com ele. Contar tudo. Impedir que ele cometesse um erro e levasse a culpa por um erro que era dela. Em prantos, Linda abriu seu coração, pesarosa:
- Sr. Fraser, por favor, me escute. Não estou chorando por causa do que fez comigo. Estou chorando porque eu tirei vantagem disso. Traí sua amizade. A verdade é que amo o senhor. Eu o amo há muito tempo. Sei que o senhor jamais poderia me amar desse jeito, por isso nunca falei coisa alguma, para não perder sua amizade, que eu prezo tanto. Agora, quando a maldição o fez... agir assim, eu tentei controlar meu desejo. Juro que sim. Mas depois, eu não consegui, ou não quis mais, me controlar. Estou chorando porque agora o senhor pensa que eu não mereço seu respeito e que sou uma moça pouco honrada, porque eu queria que isso acontecesse. Pensei que... podia ser uma ilusão de felicidade... Não iria lhe dizer nada, mas não posso deixar que continue pensando que cometeu um crime. Sabe, também estou chorando porque traí a nossa amizade num momento de fraqueza, em troca de um pouco de prazer e algumas lembranças. Eu sinto muito, e sei que agora vai querer me expulsar de seu apartamento porque eu me aproveitei do senhor quando estava vulnerável, e eu entendo que jamais queira me ver novamente. Eu vou embora. Eu... sinto muito... Tente me perdoar.
Ainda segurando o cobertor, o rosto coberto de lágrimas, Linda lentamente se arrastou para sair da cama. Ela nunca imaginou que pudesse sentir tanta dor. Sentia-se tão vazia por dentro, e deu-se conta, mais do que nunca, que ter feito amor com Fraser só serviu para deixá-la querendo mais. Isso, porém, ela jamais teria. Nunca mais. Linda teria que se contentar com o que obteve. Pior ainda: ela teria que se acostumar a Fraser observando-a, temeroso que ela tentasse alguma coisa. Talvez fosse melhor que eles jamais se vissem novamente. Seria difícil, mas talvez fosse a única solução.
Fraser estava chocado com as palavras dela, mas conseguiu reunir presença de espírito suficiente para segurá-la pelos braços, e viu que ela não olhava em seus olhos. Linda sentiu a força dos músculos dele a impedindo de se mexer. Ai, pensou Linda, coração em tiras. Agora ele está com raiva de mim, vai gritar comigo, talvez me bater. Eu mereço isso, por tudo que eu fiz com ele. Traí sua confiança e só mereço punição.
- Não vou expulsá-la de meu apartamento, Linda
Oh, não, ele vai me punir. Ela arriscou um breve olhar para Fraser, envergonhada até a última raiz de cabelo, lágrimas ainda molhando o seu rosto. Os olhos azuis do canadense cintilavam como Linda jamais vira, e ela imaginou que ele estava mais bonito do que nunca. Ele era lindo. Tanta beleza, e ela nunca poderia tê-la... A angústia espalhou-se pelo peito dela e ela não conseguiu mais encará-lo. Estava ficando difícil respirar, com tanto pesar. Ai, como ela teria coisas para sofrer dali para a frente... E desta vez teria que enfrentar tudo sozinha. Sem a amizade dele. Talvez Ray também não quisesse mais falar com ela também, quando soubesse do que tinha acontecido. Ela traíra todos eles.
O que ela iria fazer sem eles?
- Eu nunca quis... magoá-lo, Sr. Fraser - As lágrimas vieram naturalmente - Me desculpe... Eu lamento....
Fraser aplicou ainda mais pressão para segurá-la em seus braços:
- Linda, não lamente.
Ela estava tão aflita que nem escutou:
- O quê?
- Eu disse para não lamentar - Ele repetiu, os olhos azuis cheios de ternura - É verdade, tive medo de magoar você com o que aconteceu. Depois do que aconteceu com Carver, achei que a tinha traído, que não a tinha protegido. A verdade é que eu queria me controlar agora, pois tinha medo de magoá-la, depois daquilo que aconteceu. Além disso, eu odiaria pensar que você se forçou a fazer alguma coisa só por amizade. E você é tão doce que faria isso, Linda. Eu a tenho observado por muito tempo, tenho amado você à distância. Nunca falei nada porque tinha medo de assustá-la, medo que você pensasse que eu só queria me aproveitar de você. Talvez por isso a maldição tenha tomado essa forma. Por eu ter reprimido minhas emoções, elas afloraram sem eu poder controlá-las. Mas eu jamais poderia imaginar que você tinha medo que eu descobrisse como você se sentia a meu respeito. Porque eu amo você, Linda. Nunca me senti assim por ninguém. Não de verdade. Tentei combater a maldição a princípio, justamente pelo desejo que tinha por você. Entende? Não foi por não desejar você. Mas depois não pude mais combater esse feitiço, porque finalmente teríamos uma chance de ficar juntos, mesmo que depois eu tivesse que pedir desculpas... E agora amo você ainda mais por ter tido a coragem de ter me dito como se sentia. Não sabe como isso me deixa orgulhoso, Linda. Amo você muito, e estou quase agradecido pela maldição de Carver. Ela nos deixou juntos. Eu a amo, Linda. Jamais se esqueça disso.
Linda estava ficando tonta. Ela fechou os olhos com força e chorou ainda mais, sempre em silêncio. Fraser a recolheu gentilmente em seus braços, chamando:
- Linda?
Ela chorava no peito dele, tremendo. Fraser podia sentir as lágrimas molhando sua pele.
- Hm?
- Você me ouviu? - Ela assentiu. - Por favor, olhe para mim.
Ela sacudiu a cabeça decididamente:
- Não!
Fraser sentiu uma dor aguda no peito:
- Não pode olhar para mim? Eu sou tão repulsivo assim para você?
Ela ainda escondia o rosto e soluçava:
- Não! É que... Tudo isso é um sonho...Se eu abrir os olhos, vou acordar e você vai desaparecer.
- Não vou, prometo - Fraser beijou carinhosamente o topo da cabeça dela, o coração inchando de tanto amor pela moça. - Nunca vou deixar você.
As palavras fizeram Linda erguer a cabeça e pesquisar atentamente a intensidade azul dos olhos dele, que tinham um brilho tão forte que a fez tremer. E ela arriscou indagar, o rosto molhado de lágrimas revelando apreensão:
- O senhor me ama?
- Sim, amo.
- De verdade?
- De verdade.
- E isso não é um sonho?
- Não, não é.
Linda começou a tremer forte, as emoções ficando intensas demais. Ela pediu:
- Por favor, me abrace.
Pensando que era só isso que ele queria fazer por toda a sua vida, Fraser a apertou contra seu corpo, sentindo o coração dela acelerado.
- Linda, você está bem?
A voz dela era tão baixinha, um barulhinho escorregadio:
- Estou com medo.
- De mim?
- De mim - corrigiu - Acho que estou feliz. Nunca pensei que alguém pudesse ser feliz assim. Assusta.
- Quero que você seja feliz assim durante todos os dias de sua vida. Isso é para sempre, Linda. Quero você sempre do meu lado. Sempre. Quero que Ray seja nosso padrinho, e que...
- Sr. Fraser?
- Esta é outra coisa que precisaremos trabalhar, Linda. Não quero que me chame assim. Você me chamou de Ben antes. Não pode me chamar de Ben, como fez há pouco?
Linda enrubesceu e abaixou a cabeça. Depois assentiu, embaraçada até o último fio de cabelo.
- OK... Ben. Er... Bom, er... Podemos esperar um pouco antes de contar a Ray?
- Claro, mas por quê?
- Não sei... Foi tão repentino. Ele pode ficar surpreso.
Fraser encarou-a, o rosto dela ainda sem conseguir olhar o dele:
- Estou indo depressa demais, Linda, é isso que está dizendo?
- Bem.... - Ela tremeu, hesitante... É que... eu...Desculpe....
- Linda, não precisa ter medo de me dizer coisa alguma.
Amo você, e não vou parar de amar você só porque você quer que nós andemos devagar no nosso relacionamento. Posso esperar até você estar pronta. A menos que você não queria me amar.
- Não! - Ela estremeceu - Eu quero... É só... Estou com medo. Confusa.
- Tudo bem, Linda - Fraser a consolou nos braços - Tudo bem....
- Preciso ir - Ela disse - Estou cansada.
- Pode descansar aqui. Pode dormir.
- Não! - O grito saiu sem que ela pudesse controlar - Quero dizer... As pessoas.. iriam dizer que nós...nós dois, sabe... que nós estamos...
Fraser sorriu e lembrou:
- Bem, Linda, a verdade é que nós estamos. Mas não precisamos fazer, se não quiser.
- Está bem.
Ela estava ficando mesmo cansada. Os olhos quase não se mantinham abertos. Fraser disse:
- Relaxe, Linda.
- Difícil acreditar que não é sonho... Estou tão cansada.
- Então durma um pouco.
- Não posso. Tenho que voltar para casa.
- Não - Fraser esticou-se para colocar a coberta novamente sobre o corpo nu dela. - Você não vai sair daqui, Linda. Vou cuidar de você.
- Mas o que vamos dizer a Ray?
Fraser sorriu:
- Diremos a ele que eu tive uma reação emocional à maldição de Carver. Você também. Não é mentira.
- Ele vai querer saber mais.
- Conto para ele uma história inuit.
- Sei - disse Linda - Aí ele vem perguntar para mim.
- Por que está tão preocupada com Ray?
- Ele é meu amigo. Como um irmão. Gosto muito dele.
- Eu também gosto muito dele, mas não quero que ele arrisque nosso relacionamento. Eu acabei de encontrar você, Linda, e não vou deixar ninguém, mesmo Ray, ameaçar o que temos. - Ela ergueu a cabeça e encarou os olhos azuis dele, sentindo-se afundar em duas lagoas profundas de amor que olhavam para ela. - Amo você, Linda. Pretendo continuar amando você. Vai me deixar?
Ela sentiu o rosto em fogo, os olhos enchendo-se de lágrimas, a garganta se fechando e a pele formigando quando tentou dizer:
- Eu... Eu amo você também... Ben...
Os lábios dele desceram sobre os dela, e ela sentiu novamente a boca dele, quente e úmida, explorando a dele, as línguas dançando naquele ritmo frenético que fazia o corpo de Linda estremecer. Ofegante, Fraser interrompeu o beijo, embaraçado:
- É melhor eu deixar você dormir... Se não, poderei não me controlar de novo.
Ele se mexeu na pequena cama, indicando que iria quebrar o contato com os dois corpos, e Linda pediu, agarrando-se a ele.
- Por favor... Não vá.
Ele disse:
- Só vou pegar outro cobertor. Você está tremendo. Volto já.
Linda sabia que os tremores dela nada tinham a ver com a temperatura dentro do apartamento, mas ficou quieta, observando Fraser entrar no armário e sair de lá com um cobertor, que ele prontamente colocou sobre Linda. Depois ele também se enfiou embaixo das cobertas e segurou os dois corpos juntinhos, fazendo Linda se sentir tranqüila e amparada como nunca tinha se sentido antes.
A meia-noite tinha passado e um novo dia raiava.
O primeiro dia do resto da vida deles.