Parte 1
Apresentações
A voz era baixa e muito paciente.
- Na verdade, eles eram cinco pessoas, e eu não sei se posso lembrar todos, Sra. Ritter. Mas eles eram todos muito falantes e queriam saber tudo sobre o tratamento. Não podem esperar até que ela esteja num quarto mais privado. Talvez isso aconteça antes do que os médicos pensam. Tenho certeza que a senhora vai sentir falta dela quando ela se for daqui. Sabe, estamos cercadas pelo que há de melhor aqui na Terapia Intensiva. Do seu lado, Sra. Ritter, só tem o melhor.
O barulho da porta se abrindo chamou a atenção dela. A assistente de enfermagem Linda Lyme largou a mão da paciente comatosa com quem estivera falando e disse, em voz baixa:
- Agora eu preciso ir, Sra. Ritter. Amanhã a gente conversa mais, tá bom?
A enfermeira-chefe chamou:
- Linda?
- Sim, Sra. Sorelli?
- Terminou aqui? Estão precisando de você no Centro Cirúrgico.
- Já estou indo, Sra. Sorelli.
A enfermeira chegou-se até a assistente e disse, numa voz suave:
- Você sabe que não me importo que você fale com os pacientes, Linda, desde que isso não interfira com o seu trabalho.
- Eu sei disso, Sra. Sorelli. Tentarei melhorar.
A enfermeira mais velha sorriu para a jovem:
- Você trabalha bem, Linda. Agora termine aqui e vá logo para o Centro Cirúrgico.
- Sim, senhora.
A garota dedicou-se às vassouras, escovas e baldes e terminou de limpar o Centro de Tratamento Intensivo. Depois, cuidadosamente, como sempre, ela se desfez dos guarda-pós no latão apropriado e pegou outros, esterilizados. Quando ela passou pela sala de espera, notou o homem no canto, em frente à porta do CTI.
Não apenas ele era muito atraente, mas parecia exausto, olhando sem ver a porta do CTI. Trazia um rosto que Linda aprendera a conhecer: o rosto de alguém preocupado e temeroso de perder um ente querido. O que atraiu a atenção da moça não foram as feições clássicas do homem, mas sim o fato de que ela tinha visto o mesmo homem no mesmo lugar com as mesmas roupas no último turno dela, no dia anterior. Então ela achou melhor continuar seu trabalho.
Ela foi ao centro cirúrgico, e terminou de fazer as coisas que precisavam ser feitas: recolher o lixo, arrumar os instrumentos, limpar a aparelhagem. Depois ela retirou
cuidadosamente a roupa que usara e a jogou fora. Em seguida, recolheu os baldes e vassouras, bem como os produtos de limpeza e saiu. Passando pela sala de espera, ela reparou no homem, ainda no mesmo lugar.
A próxima parada de Linda era o balcão das enfermeiras, e ela viu que só tinham duas delas ali. Que bom, pensou. Pelo menos será menos gente a rir de mim.
Samantha jamais faria isso com ela. A enfermeira sorriu e saudou:
- Oi, Linda, tudo bem?
- Eu vou bem, Samantha, obrigada. Posso ajudá-la?
- Não, obrigada. As outras foram tomar café.
- Eu não gosto do café daqui, Samantha.
Samantha se inclinou e baixou a voz para contar um grande segredo:
- Elas também não. Mas parece que está na hora do lanche de David.
Linda baixou a cabeça e sorriu, enrubescendo feito um pimentão:
- Eu acho David bonito.
- Ah, então você também notou, hein? Você é muito engraçada, Linda. Estranha, mas engraçada.
- Samantha, pode me falar uma coisa? Sobre aquele homem. Quem é?
A enfermeira se esticou para ver a quem Linda se referia. Então disse:
- Ah, ele. Conheço o caso. O nome dele é Benton Fraser. Está aqui desde sexta-feira, por causa daquele policial que foi ferido. O nome é Vecchio.
- Vecchio - repetiu Linda, reconhecendo o nome - Ele está no CTI.
- Sim, ninguém sabe se ele vai viver. Talvez esse Fraser seja parceiro dele, coisa assim. Mas ele não deixou aquele banco desde que ele chegou. Pena que ele não pode entrar no CTI, porque ele não é da família. Ele está esperando Vecchio melhorar para sair do CTI. É um pão, não é?
Linda ficou espantada:
- Ele está aqui a noite toda?
- Ele está aqui há dois dias, Linda. Não se mexeu um centímetro, não foi à lanchonete, nem nada. Nunca vi nada parecido.
- Eu falei com Vecchio. Talvez eu devesse falar com o amigo dele, também.
- Linda, você é a única pessoa que eu conheço que perde tempo falando com pessoas que não podem responder.
A moça corou, mas respondeu:
- Bom, a enfermeira-chefe Sorelli disse que às vezes eles até podem melhorar um pouco com essas palavras. Além do mais, os parentes geralmente ficam tão chocados que não podem falar com eles naturalmente. Eu gosto de falar com eles, Sam.
- Não precisa ficar toda mordida, Linda. Eu estava apenas... elogiando.
- Oh - Linda ficou desconcertada - Obrigada. Bom, tenho que ir, Sam. Até logo.
A moça encerrou suas tarefas de limpeza e a enfermeira abanou a cabeça, desolada. Linda tinha se tornado uma espécie de mascote para aquela ala, pois ela era muito educada com todo mundo, dos pacientes aos graduados cirurgiões. Samantha não sabia muito sobre ela, pois a enfermeira-chefe não permitia que se intrometessem na vida particular de Linda. Mas ela era meio especial, talvez tivesse alguma deficiência. Ela provavelmente tinha alguma doença ou trauma neurológico, pois Samantha sabia que Linda tinha sessões semanais na ala psiquiátrica e apenas recentemente tinha obtido permissão para viver sozinha. Sam sabia que Linda tinha um outro trabalho além do hospital, e que ela alimentava esperanças de ir à escola de enfermagem, mas de maneira geral, ela era bem introspectiva. Na verdade, Samantha era uma das poucas pessoas com quem Linda falava. A pobre moça não era mais do que uma faxineira e uma alma muito gentil, mas as outras enfermeiras pareciam ter um prazer especial em tratá-la mal e rir dela. Samantha sabia que Linda era uma pessoa muito graciosa e atenciosa, por isso ela não deixava que se divertissem às custas de Linda na sua frente.
* * *
Linda chegou perto do homem de uma maneira muito, muito tímida.
- Senhor?
Nenhuma resposta. O homem estava distraído em seus pensamentos, olhando absortamente para a porta do CTI, dolorosamente encarando a placa que dizia "Só pessoal autorizado". Linda teve que pigarrear antes de tentar de novo, tímida:
- Senhor?
Ele olhou para ela. Ela sentiu algo amolecendo por dentro de seu corpo, porque ele era definitivamente belíssimo. Olhos azuis perfeitos, um nariz lindo, feições esculpidas por seres celestiais. A calça jeans e a camisa xadrez não lhe faziam justiça. Ela não conseguiu olhar para os olhos azuis perscrutadores.
- Sim? - A voz também era poderosa.
- Eu imaginava se gostaria de algo - água, café, sanduíche. Poderia trazer para o senhor.
- Não, obrigado - Ele olhou para o crachá dela e forçou-se a dar um sorriso cansado. - Eu fico muito agradecido, Linda.
Ela insistiu gentilmente:
- O senhor está aí há muito tempo. Não quer dormir um pouco? Posso acordá-lo se seu amigo melhorar.
- É muito gentil.
Linda arriscou olhar brevemente para ele, e viu que ele sorria cheio de gratidão, então corou, antes de dizer:
- Agora tenho que trabalhar. Posso voltar com café, se quiser.
- Não, obrigada. Mas agradeço a oferta.
Sem saber o que mais oferecer, Linda recolheu as vassouras, escovas e baldes de maneira desengonçada e voltou ao trabalho, preocupada com aquele homem. Ela fez uma promessa a si mesma de falar com o detetive Vecchio que o amigo dele estava ali o tempo todo, esperando que ele melhorasse.
* * *
Era madrugada alta e Fraser pareceu sentir dois dedos tocando levemente seu ombro. Era um toque tão suave que ele não teve certeza e olhou em volta. Viu a mocinha, Linda, cochichando:
- Quer ver seu amigo?
Os olhos azuis dele soltaram faíscas:
- Pode fazer isso?
- Terá que vir comigo.
- Você não vai arranjar encrenca com isso?
Ela o apressou:
- Venha logo, antes que nos vejam.
Linda pegou a mão dele e o levou ao closet onde guardava as roupas esterilizadas. Levou-o até lá dentro:
- Aqui - ela colocou uma muda dos guarda-pós na mão dele e murmurou - O senhor vai ter que colocar isso e lavar o rosto e as mãos, tá bom? Não se pode entrar no CTI sem isso. Eu vou ganhar tempo enquanto o senhor se veste.
Ela saiu cuidadosamente do closet e foi direto para a mesa das enfermeiras. Samantha não estava mais lá e sim uma das moças que mais se divertia às custas dela, Crystal. Linda tinha tudo planejado.
- Eu posso ter que entrar de novo no CTI. O novo paciente parece ter feito muita sujeira.
- Bom, então vai - disse Crystal, nariz enfiado numa revista. - Por que está anunciando?
- Esse paciente eu não conheço. Queria falar com ele. O nome é Vecchio? Ele é italiano?
- A família dele é italiana, eles são barulhentos e encrenqueiros. Ele é amigo daquela estátua que não se move no fim do corredor. É só o que eu sei, pirada, então vê se vai para outro lugar.
Linda sentiu os maus tratos, como sempre fazia quando Crystal lhe dizia aquelas palavras cruéis. A moça ainda disse:
- Tá bom, Srta. Crystal. Eu vou sair durante um tempo, tá?
- Tá, tá, como se eu me importasse mesmo, maluca.
Ela pegou um guarda-pó para ela e abriu a porta do closet. Viu o Sr. Fraser já vestido, e então cochichou:
- Tá, agora vem comigo, mas em silêncio.
Eles entraram no CTI e Linda se lembrou de dizer:
- Tá, Sr. Fraser, agora preciso dizer uma coisa. Seu amigo está aqui porque está muito doente, sabe? Então deve se lembrar que a condição dele é grave, e estamos fazendo tudo para ele melhorar. Algumas pessoas vêm ver pacientes no CTI e ficam chocados com o equipamento. Se o senhor ficar chocado, se desmaiar ou coisa assim, eu não vou poder ajudá-lo. Vou ter que chamar um médico. E aí estaremos em encrencas. Entendeu?
Pacientemente, ele disse:
- Eu já vi outros pacientes no CTI antes. Sei o que esperar.
- Oh, bom - Ela apontou - Seu amigo está ali. Pode ficar com ele, mas tem que vir comigo quando eu chamar, tá bom?
- Muito agradecido.
Ela observou atentamente o homem alto se mover em direção à cama no canto extremo da sala. Ele pegou a mão do seu amigo (bem como ela mesma faria) e murmurou algumas palavras. Linda se deu conta de que estava espiando, e aquilo não era gentil, então ela foi ver como estava a Sra. Ritter. Ela só disse um oi, pegou a mão dela e acariciou o rosto cheio de tubos. Todos os monitores estavam fazendo os mesmos barulhos, então ela concluiu que a condição da Sra. Ritter não tinha mudado.
Depois ela foi para a cama de Vecchio. Fraser estava lá, dizendo como queria que ele melhorasse logo. Linda olhou para os monitores e outros equipamentos. Um deles estava diferente. Parecia melhor. Claro, só um médico poderia saber, nem uma enfermeira poderia dizer com certeza. A presença de Fraser parecia ter melhorado a condição do paciente. Eles devem mesmo ser muito bons amigos, pensou Linda.
Linda queria dar ao Sr. Fraser mais tempo com seu amigo, mas ela começava a achar que estavam abusando da sorte, e se Crystal descobrisse, ela entraria num inferno. Então ela tocou (com gentileza, como sempre disseram) Sr. Fraser e cochichou:
- Sr. Fraser?
Ele assentiu, e Linda pôde ver que ele tentava conter as lágrimas. O impulso dela era de abraçar aquele homem que sofria tanto, mas ela tinha sido severamente advertida mais de uma vez para jamais fazer isso. Sr. Fraser deu uma última apertada na mão do amigo e seguiu obedientemente Linda para fora do CTI. Ela o levou de volta ao closet e instruiu:
- Agora tire essas roupas e jogue naquela lata ali. E não saia daí até que dizer para sair, tá bom?
Ela voltou para o CTI e colocou um lençol sujo num balde, para ter uma desculpa no caso de alguém vê-la saindo da sala. Mas parecia que tudo estava bem. Então ela teve outra idéia.
Quando ela bateu na porta do closet, Fraser saiu. Então ela disse:
- Venha comigo, Sr. Fraser - Ela o levou para uma outra ala e orientou - Vê aquela sala? O senhor tem que entrar nela, depois na próxima. Na terceira sala, tem uma cama lá. É para as enfermeiras, mas ninguém vai estar ali por algumas horas. Pode descansar ali até esse horário, e depois eu o acordo.
- Mas eu -
Linda o apressou:
- Por favor, Sr. Fraser, se não for agora, eu vou me encrencar.
Ele sorriu, formando covinhas no alto dos lábios, e disse:
- Muito agradecido.
Fraser fez como foi orientado e antes do amanhecer, quando o outro turno começava, Linda foi acordá-lo. Ao entrar, não pôde evitar um choque. Adormecido, o homem era uma visão divina.
Ele parece um anjo.
Ela tentou não tremer nem chorar ao encarar as feições lindíssimas, o modo como o corpo dele era construído. Ela não podia ter esse tipo de pensamento.
- Sr. Fraser?
Ele acordou e se sentou num pulo. A moça deu outro pulo para trás.
- Desculpe - falou ele. - Não quis assustá-la.
A voz dela estava trêmula quando ela disse:
- Não é culpa sua. Eu devia ter batido. Olhe - trouxe café.
Fraser notou que a mão dela estava tremendo ao segurar o copo de plástico. Ele se ergueu e pegou o copo, enquanto ela insistia, sempre de cabeça baixa:
- Precisa dormir, Sr. Fraser. Por que não vai para casa, dorme um pouco, come alguma coisa? Não pode ficar sem comer.
- Está tudo bem. Você é muito gentil.
- Bom, agora tenho que ir. Se precisar de alguma coisa, pode me chamar.
Linda saiu dali antes que ela pudesse ficar ainda mais envergonhada. Ela estava corada, quase da cor de um pimentão, e não conseguia acreditar nas coisas que ela tinha feito. Tinha arriscado o emprego e tinha ido contra tudo que todo mundo sempre dissera a ela, só para ajudar aquele homem a ver o amigo.
Mas ela não podia pensar sobre aquilo naquele momento. Ela tinha que ir para a casa da Sra. Robinson em menos de uma hora. Esforçando-se ao máximo para não pensar no que tinha acontecido, ela se preparou para largar o turno e seguir com a outra parte de sua vida.
A Sra. Robinson notou que havia algo errado com Linda aquela manhã. A velha senhora confiava cegamente naquela garota que aparecera em sua porta há quase meio ano, em resposta ao anúncio de jornal em que ela pedia uma dama de companhia. Para aceitar Linda, a Sra. Robinson recebeu a visita do médico que a tratava e sabia que não se tratava de uma moça apenas tímida. A senhora aceitara Linda assim mesmo. Com o tempo, ela também se dispôs a ajudar a velha senhora com as coisas da casa. Todos os dias em que Linda trabalhava no hospital, ela passava na casa da Sra. Robinson, lia para ela, preparava uma refeição para as duas, conversava com ela de maneira gentil e dava à velha senhora um carinho que a família não fora capaz de lhe dar.
Desde que a filha sumira, havia mais de seis meses, a Sra. Robinson tinha caído em depressão e só tinha Linda em quem confiar. Mas ela também se sentia responsável por Linda porque sabia que a moça tinha um problema de saúde e era muito ingênua em relação às coisas que aconteciam em uma grande cidade como Chicago. A Sra. Robinson também sabia que Linda não tinha ninguém que cuidasse dela. A relação já tinha ultrapassado a de empregado e patrão. Por isso é que a velha senhora tinha liberdade para comentar:
- Linda, você parece diferente hoje. Está tudo bem?
A moça olhou para o chão e sentiu as faces lhe queimando. Ela não queria dizer para a Sra. Robinson o que tinha acontecido, mas também não queria mentir. E ela estava perguntando.
- Eu fiz uma coisa errada hoje, Sra. Robinson.
- Foi? Alguém se machucou, querida?
- Não! - Linda ficou horrorizada com a mera idéia - Eu jamais poderia machucar alguém, Sra. Robinson. A senhora sabe disso, não sabe?
- Claro que eu sei. Quer me contar o que você fez?
- Eu posso perder meu emprego.
- Foi um acidente?
Linda balançou a cabeça, torcendo as mãos e braços. A Sra. Robinson sabia que esses eram sinais de que Linda estava muito, muito assustada.
- Olhe, Linda. Não precisa me dizer se não quiser. Eu só achei que você se sentiria melhor falando com alguém sobre isso.
De maneira hesitante, titubeando, Linda contou para a patroa o que tinha acontecido. A velha senhora sorriu de maneira doce e disse:
- Ora, mas não vejo nada de errado nisso. O homem queria ver o amigo, e eles devem ser bons amigos. Se você ainda se sente mal sobre isso, pode falar para sua chefe amanhã. Conte tudo a ela, diga que isso não vai mais acontecer e ela deve entender.
A moça a olhou, o rosto cheio de esperança:
- A senhora acha, Sra. Robinson?
- Tenho certeza - A velha senhora sorriu para a menina, tocada pelo constrangimento genuíno da moça. - Agora procure ficar calma, pequena Linda. Quem sabe um chá possa acalmá-la?
- Obrigada, Sra. Robinson. Vou lhe fazer um pouco.
Como sempre, Linda não só serviu o chá como cuidou de diversas coisas para a velha senhora, incluindo o remédio, a refeição, limpeza da casa, lavagem de roupas e o cuidado dos dois peixinhos que a Sra. Robinson tinha, os quais fascinavam Linda demais. Ao meio dia, a moça estava em casa, adormecida.
De noite, no começo do turno da noite, Linda estava de volta ao hospital, como sempre. Ela tinha decidido seguir o conselho da Sra. Robinson e confessaria seu pecado à Sra. Sorelli, e depois agüentaria a punição que sua chefe achasse adequada. Mal chegou ao seu andar, porém, ela teve uma surpresa.
- Linda? - Era a Srta. Crystal, e Linda já estava se encolhendo, esperando o insulto que viria a seguir. - Nem se incomode em ir ao CTI hoje. Precisam de você na Emergência a noite toda. Houve um grande acidente na Avenida Dan Ryan, a Sra. Sorelli avisou que está doente e estamos com pouca gente. Não bastasse tudo isso, eu estou encarregada de tudo hoje. Portanto, louca, faça logo o favor de ser útil para os vivos, para variar. Tem trabalho para todos.
Linda se encolheu ainda mais, mas respondeu de maneira polida, como sempre.
- Sim, Srta. Crystal. Estou a caminho da Emergência agora mesmo.
No caminho, Linda pegou o material que iria precisar e suspirou. Era um cenário que ela sempre odiou. Não que ela trabalhasse há muito tempo em hospital, mas ela já passara por acidentes antes, e sabia o que esperar. A Emergência estaria cheia de gente, confusa, e ela teria muito trabalho para fazer, incluindo a lida com cadáveres. Linda não tinha medo nem se importava. De fato, ela até achava que depois de uma noite atarefada, ela sempre tinha mais coisas para contar a Sra. Robinson mais tarde. Mas numa noite assim, ela teria que se concentrar muito, porque a presença de tanta gente podia distraí-la muito. Elas gritavam com Linda, e ela precisaria de todo o controle que tinha para não chorar. Linda sabia que as pessoas não queriam magoá-la, mas estavam nervosas e preocupadas com os doentes. E muitas iriam morrer, Linda sabia.
As previsões de Linda se concretizaram. O turno da noite tinha isso de bom: ou estava morto, ou frenético. Linda tinha se acostumado às variações extremas. O Dr. Lennyard ficaria orgulhoso do modo como ela tinha lidado com tudo.
* * *
Já era quase hora de ela ir embora, e geralmente ela levava muito tempo para desinfetar antes de sair do hospital. Naquele dia, porém, ela ficou ainda mais tempo que de costume para ir ao CTI. Ela lembrou que a Srta. Crystal lhe dissera para não ir lá, mas ela tinha que ir pelo menos dar um alô para a Sra. Ritter, por quem tinha um carinho especial. Talvez outros pacientes novos, vindos do acidente, gostassem de uma palavra amiga, também.
Linda foi pela outra entrada, tomando o cuidado de não passar pela frente da mesa das enfermeiras e contou as novidades do dia. Ela notou que havia pelo menos dois novos pacientes (do acidente, com certeza) e depois parou na cama do Sr. Vecchio, no lado direito da sala. Ela lembrou o que tinha feito e corou. O monitor indicou uma ligeira mudança, e ele poderia estar melhor. Linda ficou feliz e depois pegou a mão do paciente inconsciente para dizer, em voz baixa e com muito cuidado:
- Olá, Sr. Vecchio. O senhor não me conhece, mas eu já falei com o senhor antes. Vejo que está respirando um pouco melhor hoje e isso é um sinal muito bom, sabia? Quero que saiba que nós aqui do hospital estamos fazendo tudo que podemos para que o senhor melhore rapidamente. Tem tanta sorte, Sr. Vecchio. Sei que o senhor é da polícia, e foi ferido no cumprimento do dever. Deve ser um homem muito valente, e um bom policial. Fico feliz de ajudar a cuidar de uma pessoa que ajuda a manter nossas ruas seguras. E o seu parceiro, o Sr. Fraser, também esteve aqui falando com o senhor. Não o vi hoje, porque eu fui designada para trabalhar em outro lugar, mas ele provavelmente ainda está no hospital, esperando que o senhor melhor. De qualquer modo, acho que vai gostar de saber que o Sr. Fraser jamais deixou o hospital, nesse tempo em que o senhor está aqui. Olhe que eu até sugeri que ele fosse, porque ele podia descansar um pouco, mas ele disse que estaria bem. Ele é um amigo muito bom. Então eu o trouxe aqui dentro, e ele falou com o senhor ontem à noite. Espero que não se importe por eu ter tomado a decisão. Eu só estava tentando ajudar, Sr. Vecchio. Mas eu tomei conta dele direitinho para o senhor. Eu levei café para ele e deixei que ele dormisse um pouco numa cama dos enfermeiros. Sua família também esteve aqui. Eu não estava aqui na hora, então eles devem ter vindo de dia. Mas pelo que as enfermeiras me disseram, eles o amam muito, porque estavam muito preocupados com sua saúde e queriam saber tudo sobre a sua condição. É por isso que quero que saiba, Sr. Vecchio, que todos nós estamos rezando para sua recuperação. Há muita gente que o ama, Sr. Vecchio. Por favor, volte logo. Estaremos esperando e todos nós temos plena confiança que o senhor pode fazer isso. Sabemos que não vai nos desapontar. Nossa, desculpe por ter falado tanto. O senhor precisa descansar, e eu estou o interrompendo. Agora por favor -
Linda interrompeu-se quando ouviu um soluço abafado atrás de si. Quando se virou, ela perdeu a cor. Havia uma mulher de idade ali, de pé, chorando baixinho. Era baixinha, gordinha, roupas sóbrias e cabelos grisalhos, enxugando as lágrimas com um lenço. Linda entrou em pânico. Ela sabia que não deveria estar ali, mas ainda assim, ela tinha ficado. Agora tinha sido pega. Então ela correu para fora do CTI.
- Não, espere! - disse a mulher em prantos - Espere!
Linda não pôde obedecer. Ela estava apavorada demais, então ela se lavou o mais rápido que podia e saiu correndo do hospital. Só quando ela chegou à casa da Sra. Robinson é que suas bochechas tinham recuperado a cor (pelo menos um pouco). Ela contou tudo à velha senhora. Linda tinha certeza de ter perdido o emprego, e ficou desesperada, porque agora provavelmente o Dr. Lennyard iria devolvê-la à instituição de onde ela viera. Só a insistência da Sra. Robinson a convenceu a aparecer de novo no hospital, no dia seguinte.
E ela fez isso mesmo. Não porque a Sra. Robinson a tivesse convencido, mas sim porque ela não sabia o que mais fazer. Ela foi à sala de empregados e estava trocando o uniforme verde quando a Sra. Sorelli entrou. Linda se agitou.
- Sra. Sorelli, a senhor está bem?
- Sim, Linda, por que pergunta?
- A senhora não veio trabalhar, fiquei preocupada.
- É gentil, mas agora estou bem. Falando nisso, se estiver livre agora, preciso que venha comigo.
- Sim, senhora - Linda a seguiu obedientemente, tentando reunir coragem para confessar o que tinha feito - Mas... er... Sra. Sorelli...
A enfermeira-chefe não parou de andar para indagar, enquanto elas atravessavam os diferentes corredores e alas do hospital:
- Linda, você se lembra do que eu lhe disse sobre essa sua mania de falar com os pacientes na Terapia Intensiva?
O coração de Linda quase parou. Ela não sabia exatamente como responder, porque não sabia por que estava sendo repreendida.
- A senhora me disse que eu podia fazer isso desde que isso não interferisse com meu trabalho. Sra. Sorelli, eu juro que -
A moça foi interrompida, mas a enfermeira-chefe sorria quando falou:
- Bom, parece que um paciente da CTI saiu do coma e foi transferido para um quarto particular. - Ela parou de andar e olhou para Linda - A vida dele não corre mais perigo. E você pode ter ajudado nisso, Linda. - Os olhos da moça se arregalaram, mas ela não os tinha erguido - A mãe do paciente viu você falando com ele ontem à noite, quando ele ainda estava no CTI. Ela me pediu que a encontrasse e a levasse até o filho dela.
Não havia jeito de Linda ficar com ainda mais medo. Ela não entendia direito aquela repreensão.
A Sra. Sorelli a levou para a ala particular, uma à qual Linda estava terminantemente proibida de entrar. Lá ela foi levada para dentro de um quarto e a Sra. Sorelli anunciou:
- Aqui está ela, Sra. Vecchio. Nossa Linda Lyme.
Linda mal teve tempo de olhar em volta, quando foi abraçada por uma mulher baixinha e gordinha que era bastante efusiva:
- Carissima! Que bom finalmente conhecer você!
A moça estava apavorada quando saiu dos braços da mulher e olhou para a Sra. Sorelli, que procurou explicar:
- Receio que Linda não esteja acostumada a essas demonstrações de afeto, Sra. Vecchio.
A mulher mais velha pegou Linda pela mão e insistiu, amigavelmente:
- Não, ela não pode ser tímida. Ela salvou meu Raymondo!
Só então Linda reconheceu a mulher mais velha, de cabelos grisalhos. Ela estava no CTI a noite passada, e a tinha flagrado conversando com Sr. Vecchio. Obviamente, era a mãe dele. Ela tentou se desculpar por seu comportamento:
- Eu ... Desculpe.. Eu só queria...
A Sra. Vecchio colocou a palma de sua mão ternamente na bochecha de Linda e sorriu afetuosamente:
- Eu sei. Ouvi o que você disse para o meu Raymondo. Fiquei tão emocionada que chorei. Depois você correu, antes que eu pudesse agradecê-la. Hoje eu soube que você também fez uma coisa boa para Benton, que para mim é como um filho. Você é uma moça muito boa, e tem um nome lindo.
Por tudo que ela tinha de mais sagrado, Linda não sabia por que aquela mulher a agradecia tanto. Mas ela não queria parecer ingrata, e ela balbuciou, enquanto corava num tom de rosa furioso:
- Eu... só estava f-fazendo meu trabalho, senhora. F-Fico feliz de ajudar.
- Agora Raymondo está dormindo. Mas precisa vê-lo quando acordar.
- Eu - Eu - Linda não sabia o que dizer, os olhos se desviando para todos os lugares ao mesmo tempo, a postura ainda denotando medo - Eu preciso trabalhar...
A Sra. Sorelli interveio:
- Não tem problema algum, Linda. Você pode ver o Sr. Vecchio quando ele acordar.
- Tá bom - falou Linda, desejando ardentemente poder ir embora. - Obrigada, Sra. Vecchio.
- E precisa ver Benton também - a mulher continuou - Ele procurou você por toda a parte.
Linda deixou soltar um gemido inaudível, esforçando-se ao máximo para não mostrar àquela simpática senhora o quanto aquilo tudo a deixava desconfortável. Felizmente, a Sra. Sorelli se deu conta e sugeriu:
- Talvez Linda possa voltar ao fim do turno dela, quando o Sr. Vecchio provavelmente estiver acordado e o Sr. Fraser voltar. Como isso lhe parece, Sra. Vecchio?
- Por mim, tudo bem.
- E você, Linda?
-Tá bom, Sra. Sorelli - A voz da garota estava cheia de gratidão eterna por sua superiora.
- Então, minha carissima - disse a velha senhora - é melhor voltar logo para seu trabalho, e eu estarei esperando.
Depois de ser efusivamente abraçada mais uma vez, Linda se desculpou e alegremente voltou para sua rotina. Ela se deu conta que Crystal tentou incessantemente fazer pouco dela pelo interesse demonstrado por Sr. Fraser em agradecê-la, mas a garota já conhecia dos truques de Crystal e conseguiu não cair naquelas armadilhas que tanto a magoavam.
No fim do turno, ela foi procurar a Sra. Sorelli para receber sua punição. Ela tinha feito uma promessa à Sra. Robinson e ela sempre cumpria suas promessas. Contudo, ela foi surpreendida quando a Sra. Sorelli sequer deixou que ela terminasse a primeira frase:
- Linda, Linda - Ela tocou o ombro da moça e sorriu, o que só aumentou a surpresa da garota. - Eu sei o que você fez, e fico feliz que você se apresente para me falar sobre isso. Mas está tudo bem.
Linda tentou argumentar:
- Mas eu não -
- Sim, você desobedeceu uma ordem, e isso é errado. Você sabe que só familiares podem entrar no CTI. Mas você demonstrou compaixão quando deixou o Sr. Fraser ver o Sr. Vecchio. Isso é muito humano, Linda. Você sempre se portou de uma maneira respeitosa e gentil. A Sra. Vecchio adorou você, e ela está ansiosa em vê-la de novo. Apesar de você ter agido errado, não posso puni-la quando suas ações só fizeram bem às pessoas.
A enfermeira-assistente, sempre olhando o chão, ficou em silêncio uns segundos. Depois indagou:
- Então não estou despedida?
- Claro que não - a enfermeira mais velha riu - Agora seria uma boa hora para ver a Sra. Vecchio.
- Sim, Sra. Sorelli. Obrigada, Sra. Sorelli.
Com cuidado, Linda se dirigiu à ala particular do hospital ainda incapaz de acreditar que tinha se livrado de uma punição assim tão fácil. Mas ela sempre fazia o que lhe diziam, então ela foi para o quarto do Sr. Vecchio, batendo à porta polidamente e esperando ser atendida antes de ser admitida no quarto.
- Bambina! - foi o grito que a saudou, seguido de outro daqueles abraços que sempre a amedrontavam - Bom que veio! Meu Raymondo está acordado. Você se lembra de Benton?
Linda enrubesceu até ficar rosa e usou a cabeça para cumprimentar o homem, agora barbeado, limpo e usando camisa azul e jeans:
- Olá, Sr. Fraser.
Ele sorriu:
- Olá, Linda. Não tive chance de lhe agradecer pelo que fez por meu amigo Ray.
- Não foi problema, Sr. Fraser. Estou feliz que o Sr. Vecchio esteja se recuperando tão rapidamente.
A Sra. Vecchio a guiou delicadamente.
- Venha, minha cara. Venha vê-lo.
A moça, sempre de olhos no chão, foi levada até a cama de onde o paciente olhou de maneira ainda débil. Ela constatou que ele estava mesmo melhor: um pouco de cor nas faces, lindos olhos verdes que a olhavam e um nariz pronunciado para emoldurar a testa alta. Vecchio tentou sorrir:
- Oi...
Seja polida, Linda.
- Olá, Sr. Vecchio - ela saudou, tentando sorrir. - O senhor parece bem melhor.
Ray completou:
- Graças a você, pelo que ouvi.
De novo a moça enrubesceu, totalmente embaraçada:
- Não fiz coisa alguma, Sr. Vecchio. Não sou médica.
- Obrigado, Linda.... Por tudo...
Muito rapidamente, ela disse:
- Não há de quê, Sr. Vecchio. Todos são muito gentis. Agora devo deixar que descanse. Obrigado a todos.
Aproveitou a deixa para sair do quarto o mais rápido que pôde, pois ela se sentia bem desconfortável com todas aquelas palavras gentis. Ninguém dizia palavras gentis para ela, e ela não sabia como reagir.
Além disso, Linda não via motivo para tanto alvoroço. Falar com os pacientes do CTI era uma coisa que ela sempre fazia. Provavelmente, eles estavam nervosos demais com a saúde de Sr. Vecchio para se dar conta do que faziam. Como uma moça gentil que era, Linda não iria dizer para aquela gente tão atenciosa que eles tinham exagerado nos elogios.
E não estavam encerrados. No corredor, ela ouviu seu nome:
- Linda!
Ela se voltou a tempo de ver Sr. Fraser correndo para alcançá-la e sorrindo quando conseguiu:
- Oi, eu imaginei se gostaria de um café, ou -
Ela abaixou a cabeça e disse:
- Eu tenho outro emprego, por isso -
Foi interrompida gentilmente:
- Por favor, deixe-me pagar-lhe um café ou chá. Eu insisto.
Seja polida, Linda.
Mesmo hesitando, assustada, ela lembrou-se de que não poderia ser indelicada com o moço. E chegar um dia atrasada à Sra. Robinson seria tolerável. Portanto, ela respondeu:
- Tá bom.
Em frente aos dois copos de plástico com chá, Fraser viu que amanhecia antes de dizer:
- Eu sei que a Sra. Vecchio pode ser bem... expansiva. Mas ela é uma boa senhora.
- Sim, claro que sim - concordou Linda, sem olhar para ele - Ela ama muito o filho. A gente vê isso.
- Sim, ela o ama muito, por isso ela está realmente grata pelo que fez por Ray.
- Ray é o nome de seu parceiro?
- Sim. Bom, na verdade não somos parceiros de verdade. Ray é da polícia de Chicago, e eu sou oficial de ligação da Polícia Montada do Canadá.
Linda quis ter certeza de que entendia apenas o essencial do que ele falava:
- Você é canadense?
- Sim. Vim para Chicago na busca dos assassinos de meu pai, e por razões que não devo declinar no momento, fiquei aqui como oficial de ligação no Consulado Canadense. E você, Linda, tem família?
Ela baixou a cabeça mais ainda e fez que não. Ela não entendia por que Sr. Fraser estava falando com ela daquela maneira. Ele já tinha agradecido, o que mais ele queria?
- Parece ter muitos amigos - continuou ele. - A Sra. Sorelli, talvez as outras enfermeiras...
Cabeça perpetuamente baixa, ela assentiu:
- Às vezes, talvez.
- Eu também não tenho muitos amigos. Não tenho família, também. Talvez uma exceção seja meu lobo.
Aquilo fez a cabeça de Linda se erguer pelo menos por alguns breves segundos em que ela deixou entrever sua surpresa, antes de perguntar:
- Seu... lobo?
- O nome dele é Diefenbaker. Não pude trazê-lo para o hospital.
- Não é permitido - concordou Linda - Ele também é do Canadá?
- Sim, viemos juntos de lá. Gostaria de conhecê-lo?
- Gosto de animais. Ele morde?
- Não, ele é bem amistoso. Quem sabe eu trago Dief amanhã, no final de seu turno? Gostaria disso?
- Sim - Ela pareceu se alegrar um pouco, imaginou ele. Mas então Linda se ergueu da cadeira e disse, tentando não parecer indelicada - Desculpe, mas preciso sair agora.
- Eu é que preciso me desculpar por tê-la prendido até agora.
- Eu gostei - falou, sem conseguir evitar de torcer o braço. - Obrigada.
- Foi um prazer, Linda. Tenha um bom dia.
- O mesmo para o senhor, Sr. Fraser.
Linda notou que ela estava ainda mais avermelhada quando saiu do hospital e lembrou o que tinha ocorrido. Mais tarde, a Sra. Robinson lhe disse que ela deveria estar se sentindo orgulhosa de estar recebendo atenções de um homem tão bonito. Linda não ousou acreditar no que a Sra. Robinson estava implicando. Ela sabia que o Sr. Fraser estava sendo gentil, e isso era tudo. Claro, ele era muito mais gentil do que todos os homens que ela conhecia, mas aquilo provavelmente tinha mais a ver com o fato de ele ser canadense. A cena dançou o dia todo na cabeça de Linda. Ela tentou não fazer disso uma grande coisa, mas os pensamentos insistiam em voltar para a cabeça dela.
Naturalmente, as conseqüências viriam.
* * *
Linda tentou manter a cabeça baixa, para ninguém notar o machucado. Uma vez que a enfermeira-chefe Sorelli estava ocupada demais e ela era praticamente a única que poderia se importar, a tática quase funcionou. Mas depois, no fim do turno, Linda foi parada no lado de fora por Fraser. Ele estava diferente.
Linda o encarou: chapéu, calças pretas bufantes com listras laterais e uma vistosa túnica vermelha de sarja com botões dourados e insígnias, o que fazia dele ainda mais atraente que antes, se é que isso era possível. Fraser sorria.
- Olá, Linda. Queria cumprir minha promessa - deu um passo para o lado. - Este aqui é Diefenbaker.
Ela esqueceu totalmente o machucado quando um grande e alvo animal decididamente lupino apareceu ao lado de Fraser. Hesitante, ela esticou a mão como se quisesse acariciá-lo. Fraser a incentivou:
- Pode tocar nele. Não vai atacá-la.
Poucas vezes Linda se sentiu tão feliz quanto ao timidamente acariciar as orelhas do lobo, depois usou as duas mãos para acariciar sua cabeça antes de se ajoelhar no chão e abraçá-lo. Ele era tão macio, tão lindo. A moça sussurrou:
- Oi, Diefenbaker.
Ele lambeu o rosto dela e ela deu uma risadinha solta e livre, voltando a acariciar o animal. Fraser a observou atentamente. O sorriso dela caiu quando ele indagou:
- O que houve com seu rosto?
Imediatamente esquecendo Dief, Linda se pôs de pé e abaixou a cabeça, respondendo:
- Eu caí. Foi ontem.
Fraser esperou alguns segundos antes de dizer:
- Ah. Da escada?
- Sim - Ela assentiu rapidamente, esperando que ele desistisse do assunto - Sim, foi isso que aconteceu. Mas está tudo bem agora.
- Que bom. - Foi o que disse. Depois passou o polegar pela sobrancelha e disse. - Bom, eu preciso ir para o trabalho, também, e hoje Dief vai comigo, então eu pensei que gostaria de nossa companhia. Incomodaríamos se nós a acompanhássemos até seu trabalho?
Ela enrubesceu mais uma vez:
- Não, se realmente quiserem...
Começaram a caminhar em silêncio. Dief ia solto, vistoriando as ruas. Depois de um tempo, Linda indagou:
- Viu o seu amigo?
- Sim, ele está melhorando. Deve ser liberado em alguns dias.
- Isso é muito bom, Sr. Fraser.
- Pode me chamar de Benton. Algumas pessoas me chamam de Ben.
Ela abaixou os olhos novamente:
- Devo mostrar respeito pelas pessoas, portanto não posso tratá-las pelo primeiro nome. É uma regra.
- Ah. É uma boa regra. Você respeita as regras, não, Linda?
- Sim, Sr. Fraser.
Ele assentiu:
- Então você sabe que mentir é uma coisa feia, não sabe?
Aquilo ela tinha que responder - mas mostrando respeito:
- Mas eu não menti sobre o que eu fiz. Eu mesma falei para a Sra. Sorelli que tinha deixado o senhor entrar na CTI para ver o seu amigo, e ela disse que isso tinha sido bom, porque eu tinha demonstrado compaixão. Eu não menti. Essa é uma das regras que tenho que seguir. Não posso mentir nunca.
- Então por que me disse que tinha caído da escada?
Linda sentiu o sangue vindo para o rosto, deixando-o quase roxo. Ela não tinha previsto aquela pergunta e não soube o que responder. Fraser insistiu:
- Alguém fez isso com você, não?
Ela começou a entrar em pânico e encolheu-se:
- Não, Sr. Fraser, por favor...
- Quem fez isso com você, Linda? - Ele insistiu mais, porém sua voz era suave. - Eu quero ajudar.
- Não! Ninguém pode me ajudar! - Ela estava à beira das lágrimas, Fraser podia ver, o corpo dela inteiro sacudia. - Sr. Fraser, por favor, esqueça isso! Por favor, não insista!
Antes que Fraser pudesse evitar, ela saiu correndo pela rua, fugindo para não ouvir mais nada, dobrando a esquina, depois mais uma vez. Ela corria com as lágrimas escorrendo, tentando se livrar daquele homem. De tanto chorar, menos de quatro quadras adiante, ela teve que parar, sem fôlego, só então olhando para ver se ele a estava seguindo. Ele não estava. Ainda levou alguns momentos para que ela recobrasse a compostura, e pudesse pensar direito novamente.
Ai, não. Vou me atrasar. De novo.
Ela tentou esquecer aquilo tudo e foi para a casa da Sra. Robinson. Desta vez, porém, ao invés de relatar o que tinha ocorrido, Linda não pôde sequer tocar no assunto. Nem pôde tampouco responder a qualquer perguntas que a Sra. Robinson lhe fazia. A velha senhora tentou consolar a moça, mudar o assunto, procurando ajudar Linda a esquecer o assunto tão dolorido, fosse ele qual fosse. Mas a despeito de todos os seus esforços e boas intenções, nada adiantou. Aquele dia, Linda esperou impacientemente as horas passarem para que ela pudesse ir para casa e ficar sozinha, talvez dormir um pouco e esquecer o mundo inteiro durante algumas horas.
Aquilo, porém, lhe seria negado. Quando ela deixou a casa da Sra. Robinson, aliviada por se ver longe de uma fonte de pressões, ela localizou, na esquina, uma túnica vermelha à sua espera. Antes que Linda pudesse correr de novo, Fraser foi até ela, dizendo:
- Lamento, Linda, mas não pude esquecer.
- Mas precisa - ela choramingou - Só vai piorar as coisas!
- Seja lá quem for essa pessoa, podemos pegá-lo. Levá-lo até a justiça.
- Não! Não pode pegar um fantasma!
Linda queria correr de novo, mas dessa vez Fraser se atravessou em seu caminho e agarrou os dois punhos da moça. Ela ainda se debateu por uns dois minutos, antes de se render ao choro. Ela podia sentir os braços de Fraser a envolvendo, e ela sabia que isso era errado, mas ela não podia lutar contra isso, e isso era tão bom, mesmo errado. Durou só uns minutinhos e depois disso, Linda empurrou Fraser para longe, tentando controlar as lágrimas, soluçando alto ao mesmo tempo em que parecia muito irritada:
- Eu sou assombrada, tá bom? Eu sei que as pessoas falam que eu sou louca, e elas usam muitas palavras para falar a mesma coisa, e como se não bastasse isso tudo, um fantasma me bate se as pessoas são gentis comigo!! Não posso ser tratada com gentileza!!
Ela tentou correr de novo, e Fraser a segurou pela segunda vez:
- Não, Linda, isso não é verdade. Quem lhe disse isso?
- É assim que as coisas são! - Ela se debatia - Por favor, deixe-me ir!
- Por favor, Linda, deixe que eu prove que você está errada - Ela hesitou, ainda se encolhendo com o toque dele, mas ele não a soltou. A voz dele, porém, estava muito mais suave. - Você confia em mim?
Ela hesitou, depois gaguejou:
- Eu - Eu -
- Linda, por favor - Ele insistia cada vez mais suavemente - Deixe eu provar que está errada.
- Eu... - Ela engasgou - Eu... tenho medo!
- Eu estarei com você.
- Não! - Os olhos dela se arregalaram - Pode se machucar também!
Fraser tentou sorrir:
- Eu sou maior do que você. Além disso, Diefenbaker pode ajudar.
Linda viu que ele parou de segurá-la, mas ela também parou de tentar fugir. A cabeça dela estava baixa, os olhos se movendo nervosamente para os lados. Ela estava ficando sem desculpas para tentar demovê-lo. Portanto usou a última:
- Não posso tê-lo no apartamento. Minha senhoria é muito rígida quanto a isso.
- Posso ficar no corredor. Se nada acontecer, nem vou precisar entrar. Linda, precisa tentar. O que tem a perder se provar que eu estou errado?
Linda pensou e não pôde encontrar uma resposta, portanto deixou que ele a levasse para casa. Primeiro, ela fez questão de ir até a casa da senhoria e dizer que ele era apenas um amigo. Claro, o uniforme vermelho ajudou bastante a satisfazer a mulher, que deu indiretas e insinuações que fizeram até Fraser enrubescer. Finalmente, ficou resolvido que a senhoria estaria dentro do apartamento, pois Linda estava acostumada a dormir de tarde, assim que chegava de seu turno.
Após tamanho estresse emocional, Linda estava exausta. A despeito da presença de estranhos em sua casa, ela caiu no sono minutos depois de deitar-se. Então começou.
A senhoria foi a primeira a dar o alarme, Fraser invadiu o quarto assim que os barulhos suaves começaram. Foi bem a tempo.
Enfiada em pijamas, Linda estava quebrando o vidro da janela que dava para a escada de incêndio. No seu sono, aparentemente. Havia vidro por todo o lugar e Linda entrou em convulsões. Fraser a retirou do local perigoso e aplicou primeiros socorros. Ela não acordou. Então Fraser se deu conta de que ela estava em choque.
Fraser deixou instruções com a senhoria, que estava muito assustada mesmo. O canadense a acalmou e lamentou que ele não pudesse ficar e tomar conta de Linda como queria. Ainda bem que ele sabia que as informações que tinha recolhido mais cedo no hospital vinham a calhar.
O sol estava se pondo em Chicago quando ele ligou para o Dr. Lennyard para avisar de sua visita. Se alguém podia responder suas dúvidas sobre Linda, tinha que ser o psiquiatra que tratava dela nos últimos cinco anos.
Quando Linda acordou e encontrou sua senhoria varrendo o chão do seu quarto perto da janela, ela sabia que alguma coisa estava errada. Sua senhoria lhe garantira que tudo estava bem, exceto que a janela tinha se quebrado e que o seu amigo, Constable Fraser, tivera que sair. Linda deu de ombros e foi para o trabalho como sempre.
No hospital, ela recebeu um recado para ir até a ala psiquiátrica, pois o Dr. Lennyard a chamava. Linda achou aquilo estranho, especialmente por que a consulta semanal dela só seria de manhã, no único dia em que ela não ia à casa da Sra. Robinson. Mas quando ela chegou ao consultório, viu que o psiquiatra não estava só.
O médico a recebeu com um sorriso, como sempre:
- Alô, Linda. Espero que não tenha se importado com meu chamado.
Ela não respondeu. Ao invés disso, ela olhou rapidamente para Fraser, que estava ali de pé, perto da poltrona, de chapéu na mão. Ele parecia muito embaraçado.
Ela se sentou numa outra cadeira, e começou a torcer as mãos. Não se atrevia a olhar para nenhum dos dois homens.
- O Sr. Fraser estava preocupado com você, Linda. Ele veio falar comigo.
Ela abaixou a cabeça e lutou contra as lágrimas. Sentia-se traída. O Sr. Fraser mentira para ela. Ela pensara que podia confiar nele, mas ele mentira para ela. Viera falar com Dr. Lennyard sem avisá-la.
- Parece que você tem um machucado aí no rosto - Ela ficou ainda mais vermelha - Linda, Sr. Fraser disse que você acha que tem um fantasma assombrando você. Isso é verdade? - Linda assentiu, e foi a primeira resposta que deu. - Linda, aqui não tem nada para machucá-la e somos todos seus amigos. Por que não me fala mais sobre esse fantasma?
Ela se encolheu e disse apenas:
- Eles vêm quando eu durmo.
- E porque vêm, Linda?
- Querem me machucar.
- Por que iriam querem isso?
- Não posso ser tratada com gentileza.
- Mas você é uma moça gentil. Você fez coisas gentis para o Sr. Fraser e o amigo dele. Por que ele iria tratá-la mal se você não fez nada errado?
Ela ainda não tinha encarado nenhum dos dois. Soltou um suspiro desconfortável, limitando-se a torcer as mãos.
Fraser se mexeu e decidiu:
- Talvez seja melhor eu sair.
Ele reparou que Linda não se mexeu, e de novo notou que a moça até agora não tinha encarado nenhum dos dois. Só então o Dr. Lennyard aquiesceu. O canadense olhou para o chão, depois colocou seu chapéu Stetson e despediu-se:
- Obrigada por tudo, doutor.
- Sim, Constable.
Por tudo que ele tinha mais sagrado e mesmo depois de todo o trabalho que tivera, Fraser não podia explicar por que não pudera estar presente numa hora tão importante para Linda. Ele sabia que encarar esse "fantasma" seria muito duro para ela. Dr. Lennyard tinha conversado longamente com ele, especialmente depois de se dar conta de que o polícia montada ficara tão intrigado com a moça que começara a investigar a respeito dela. O psiquiatra praticamente contara ao canadense toda a história da vida de Linda. Ou ao menos, o que sabiam dela.
Deixada órfã aos três anos, Linda ficou com um pai alcoólico que era pervertido, displicente ou ambos. Quando o pessoal do serviço social a resgatou, aos cinco anos, a garota mostrava desnutrição crônica e variada evidência de abuso físico e sexual. Durante mais três anos, ela foi abandonada num orfanato, mal tomando conhecimento do mundo. Achava-se que ela tinha problemas mentais. Depois ela foi levada para uma instituição mental, por onde ficou quase uma década, sendo tratada como demente. Até que os médicos descobrissem que ela tinha uma doença séria, mas apenas emocional, o estrago já tinha sido feito. Ela estava fechada para o mundo. Exceto para animais e pessoas em dificuldades, Linda não respondia.
Mas ela ouvia tudo. E reagia emocionalmente. A Dra. Lester, mentora do Dr. Lennyard, foi a primeira a notar. Ela pegou o caso de Linda, e notou que ela poderia aprender rapidamente a ler e escrever. Com paciência, a menina apresentou grandes progressos e começou a se tentar se reinserir na sociedade. Logo ela estava ajudando os empregados da clínica, limpando, cozinhando, ajudando no jardim e assim por diante.
Quando o caso passou para as mãos do Dr. Lennyard, Linda já estava no limiar da barreira de socialização. Depois que ela começou a tomar a medicação como lhe era pedido sem auxílio dos enfermeiros, o médico decidiu que era hora de ela tentar algo novo - viver sozinha. Ela precisaria de um emprego, então ela alegremente aceitou a recomendação do Dr. Lennyard e pôs-se a trabalhar no hospital onde ele clinicava. Tudo tinha uma supervisão severa do Dr. Lennyard, que tinha a guarda legal da moça. Ainda menor de idade, ela era considerada mentalmente incompetente. Linda sabia que tinha regras a serem seguidas. Mas ela as seguia de bom grado. Foi de sua própria mente que saiu a idéia de procurar um segundo emprego, e foi então que a Sra. Robinson apareceu na vida dela. Tão só quanto a garota, a velha senhora sabia tudo sobre a condição de saúde de Linda e tinha prazer em cuidar da moça como se ela fosse de sua família.
A comunidade médica concordava unanimemente que Linda fizera tremendo progresso, um caso único para a ciência. Mas aquilo não significava estabilidade emocional. Lidar com o sexo oposto era uma das poucas coisas que fazia Linda voltar a cruzar a linha de volta para a retração emocional.
Portanto, quando Fraser começou a demonstrar gratidão e interesse nela, ela reagiu da única maneira que lhe pareceu aceitável: dor física e autopunição, revivendo os maus tratos do pai. Não era de se estranhar que ela referisse àquilo como um fantasma que só vinha quando ela estava dormindo.
Enquanto andava de volta para sua casa, Fraser notou que tinha sido apenas instrumental na atual crise de Linda. Ela provavelmente teria muitas outras semelhantes. Ele tinha esperança de estar por perto para ajudar a aliviar as feridas emocionais, tentar ajudá-la a confiar no mundo, a ser feliz. O canadense sabia que ele apenas refletia seus próprios sentimentos, porque durante sua permanência em Chicago, algumas vezes ele se sentia tão alienado quanto ela, num mundo estranho que não entendia totalmente. Assim como Linda, ele também não era bom em demonstrar, expressar ou lidar com seus sentimentos. Talvez ajudar Linda fosse um modo de ajudar a si mesmo.
Fraser chegou em casa, o apartamento novo numa vizinhança tão ruim quanto a antiga. Já era o seu segundo apartamento em Chicago. O primeiro tinha sido queimado por uma incendiária chamada Greta Garbo, na mesma época em que ele descobriu que Ray Vecchio tinha sido "substituído" por um outro homem. Tinha sido uma época tão difícil de sua vida. Sozinho, sem seu melhor amigo numa cidade estranha, num outro país, tendo como parceiro um completo estranho que ele tinha que chamar de amigo, expulso da ratoeira que ele quase chamava de casa - ele achara que tinha atingido o fundo do poço. Então ele decidiu viver um tempo no Consulado. Lá ele se sentia um pouco mais seguro, um pouco mais em casa. Mesmo que isso significasse dar de cara com Turnbull e Thatcher sete dias por semana. E com o fantasma de seu pai Robert Fraser de vez em quando.
Depois dos eventos que se seguiram à volta do verdadeiro Ray Vecchio, Fraser decidiu se mudar para um outro apartamento. O trabalho dele no Consulado não tinha mudado, portanto o salário continuava o mesmo e ele foi forçado a recorrer aos lugares da cidade onde o aluguel era menor. Ele e Ray retornaram à antiga amizade, e Stan Kowalski, o homem que "substituiu" Ray, aceitara outro trabalho disfarçado. Fraser esperava que esse policial, com quem convivera, pudesse se achar na vida. Tinha aprendido a apreciar Kowalski, e eles eram amigos, claro, mas o tipo de ligação que Fraser tinha com Vecchio era muito diferente. Eles eram como irmãos, e os Vecchios eram sua própria família.
Não foi à toa que Fraser se sentiu tão mal quando Ray tinha sido baleado durante uma batida estúpida, e ninguém sabia se ele ia viver ou não. Sabendo do poderoso senso de lealdade de Fraser, a inspetora Thatcher tinha dado a seu subordinado alguns dias de folga. Contudo, por não ser da família, ele não tinha recebido permissão para entrar no Centro de Terapia Intensiva. Estoicamente, ele ficou na porta do centro durante dias, esperando que Ray melhorasse. Ele tinha que vê-lo. Ficaria o tempo que fosse preciso.
Dali vinha toda a gratidão pela menina que, sem saber, tinha dado tanta paz ao coração do canadense. A atitude de Linda de mentir por ele, e ainda tomar conta para que ele dormisse e dar café, tinha sido extremamente tocante. Antes dela, ninguém, exceto Ray, tinha feito isso por ele. Mas Linda ainda tinha a vantagem de sequer conhecê-lo. Era um estranho, e ela fizera tudo isso por ele. Fraser sentiu que seu coração se inchava por Linda, e ele sentia uma necessidade quase física de ajudá-la.
Na primeira vez, Linda simplesmente desaparecera antes que ele pudesse agradecê-la. Fraser procurara por ela por todo o hospital. Falou com os funcionários e começou a desvendar o quebra-cabeças que Linda se revelou ser. Ao contrário das demais enfermeiras, a chefe da moça, Sra. Sorelli, tinha sido muito prestativa, dando a ele o endereço dela, o telefone do Dr. Lennyard e o endereço da Sra. Robinson.
Ele entrou no seu apartamento espartano tentando com muito esforço manter seu coração calmo. Linda estava ali, e ela precisava dele. Ela não precisava que ele se enredasse em qualquer tipo de confusão à custa de seus sentimentos sempre tão cuidadosamente escondidos. Fraser deu comida a Dief, e em seguida o lobo colocou a cabeça no colo de seu companheiro de matilha. O canadense sentou-se à mesa sem comer, imaginando o quão vulnerável a moça deveria estar naquele momento e decidiu dar um telefone para o hospital mais tarde, no final do turno dela, talvez levá-la para casa.
Mal sabia ele que o futuro tinha planos diferentes para ele...
* * *
- Bambina - Havia alegria genuína na voz da Sra. Vecchio quando ela saudou Linda. - Entre.
A moça entrou no quarto e falou, baixinho:
- Desculpe, eu sei que é tarde.
- Bobagem, sei que você é uma moça trabalhadora. Estou feliz que tenha vindo.
- Não acorde o Sr. Vecchio. Só vim saber como ele está.
- Ele vai bem - disse a italiana - Amanhã pode ser que comece a andar um pouco.
- Isso é bom - disse Linda, tentando sorrir ao olhar o homem adormecido na cama. - Fico feliz.
- Cara - disse a Sra. Vecchio, notando a expressão de preocupação e cansaço no rosto da garota. - Não se sente bem?
- Estou bem - disse Linda - Talvez cansada. Dr. Lennyard me deu folga hoje. Mas tive que passar no CTI para ver a Sra. Ritter e quis saber como estava o Sr. Vecchio.
- Você é gentil. Mas deve ir descansar - disse a Sra. Vecchio. - E não vá andando. Tome o trem. Aqui - ela apanhou uns trocados da bolsa - Eu pago. Vou ficar tranqüila sabendo que você não precisou andar até em casa.
- Oh, isso é muito gentil, eu não poderia -
- Não quero ouvir isso, bambina. Agora vá descansar. Eu digo a Raymondo que você esteve aqui.
- Espero que ele melhore rápido.
- Ele ficará feliz por sua preocupação. Boa menina.
Linda se lembrou de perguntar.
- Sra. Vecchio, precisa de alguma coisa? Está tudo limpo? Posso trocar os lençóis, ou limpar o banheiro, ou...
A italiana abanou a cabeça:
- No, bambina, você deve ir e descansar. Aqui estamos todos bem.
- Então tá. Obrigada, Sra. Vecchio. Tudo de bom para o Sr. Vecchio.
No fundo, Linda estava feliz que o Sr. Vecchio estivesse dormindo. Isso dava a ela um pouco de tempo antes que fosse hora de ela chegar na casa da Sra. Robinson. Ela precisava daquele tempo. Precisava pensar.
A conversa com o Dr. Lennyard tinha sido muito perturbadora. Trouxera à superfície velhas feridas que deveriam estar saradas àquela altura. Ela tinha que pensar muito sobre ela. Não era de se admirar que Linda não visse coisa alguma do mundo à sua volta quando ela entrou no El, ainda de uniforme, e deixou que o trem a levasse embora, enquanto sua mente corria mais que os vagões.
Lembranças da infância difícil tinham vindo à luz, e ela chorara intensamente por dentro, embora nem uma única lágrima tivesse sido derramada no consultório do médico. Ela podia ouvir um grito longínquo dentro de sua cabeça e sabia que era seu próprio grito, na tenra idade, soltado enquanto o pai abusava dela. Imagens aos clarões apareciam na sua mente, passando mais rápido do que o trem, horríveis, machucando-a. Desta vez, as lágrimas inundaram seu rosto.
Ela não conseguia ver a imagem de ela se machucando a si mesma, como o médico disse que ela fazia e colocava a culpa no fantasma do pai. Será que aquele fantasma que a perseguira por tanto tempo estava apenas dentro de sua mente? Ela tinha o hábito de se machucar?
Isso tudo era espantoso, e ela não se importava com os passageiros indo e vindo na madrugada, os olhos fixos do lado de fora, sem olhar a paisagem noturna de Chicago, mas ainda assim além dela. Linda podia recordar as muitas vezes em que acordara com machucados e cortes que não pareciam ter explicação, portanto ela os escondia. Teria sido ela mesma? O médico dissera que o inconsciente dela poderia estar punindo o corpo pelo desejo.
Como aquela conversa pudera perturbá-la tanto? As palavras e idéias que o Dr. Lennyard usara durante essa conversa não tinham sido diferentes das que ele usava em outras conversas. Ela não ouvira nada de novo. Mas parecia novo. Era como se ele tivesse dado a ela os meios para que ela pudesse obter sua própria revelação. Sim, revelação, ela pensou. Era isso que parecia.
Linda sabia que tinha entrado numa viagem de culpa e autopunição tamanha que poucas pessoas sequer poderiam imaginar. As cicatrizes das feridas profundas impostas pelo pai resultaram na total inabilidade de Linda em lidar com o sexo oposto. Ela jamais tivera um namorado. Acreditava que jamais teria um. Ela não acreditava que alguém pudesse amá-la. E essas coisas não deveriam ser tocadas.
Pois o médico fizera justamente o oposto. Ele tocara nessas coisas doloridas, e dessa vez tinha doído muito. Mas tinha feito Linda reconhecer que tinha desejos. Ela não queria ser sozinha e viver sem alguém do seu lado. Ela via os colegas de trabalho falando sobre encontros, namoros, saídas e essas coisas, e sentia-se muito só. Ela queria ir. Mas ela jamais saberia o que faria perto de um rapaz. Se um homem viesse falar com ela, ela não saberia o que fazer. Linda nunca fizera isso antes. Ela era envergonhada, desengonçada, desinteressante e francamente estranha - sem mencionar que ela era constantemente chamada de maluca e tinha aprendido a viver com aquilo.
Portanto, Linda costumava isolar esse tipo de pensamentos, porque não valiam a pena. Pensar nesse tipo de coisa era uma grande e total perda de tempo. Ela jamais teria um namorado. Muito menos um marido. Era mera questão de tempo até ela voltar à instituição mental de qualquer modo. Talvez, enquanto ela ainda estivesse no mundo exterior, ela pudesse sonhar, mas isso era o máximo que ela podia fazer. Esses sonhos jamais se tornariam realidade, não para alguém como ela. Acreditar em outra coisa era tentar se enganar, e isso a levaria ainda mais rápido de volta à instituição.
Quanto a isso, ela tinha muito cuidado. Mas nos seus sonhos, Linda desejava que seu namorado imaginário fosse tão gentil quanto aquele homem, Sr. Fraser, tinha sido com ela. Ela tinha ficado brava com ele durante alguns minutos por ele ter falado com Dr. Lennyard, mas depois ela lembrou que ele sempre a tinha tratado com tanto respeito que ela mal acreditara. Ele também tinha ficado muito grato a ela pelo que ela tinha feito ao amigo dele, Sr. Vecchio. Linda gostava sinceramente de falar com os pacientes da CTI, por isso não entendia o auê que tinham feito sobre o assunto. Aqueles pacientes não reclamavam, nem a magoavam com palavras ásperas ou brincadeiras de mau gosto. Das pessoas vivas e conscientes, Sr. Fraser foi um dos homens mais gentis que ela conhecera. O Sr. Vecchio e a mãe dele também. Ela desejava que eles fossem muito felizes, pois eram pessoas muito boas.
Alguns ruídos altos do lado dela a perturbaram em seus pensamentos. Irritada, Linda olhou para o lado e seu rosto mudou de expressão. Havia um homem jovem com um forte cheiro de álcool a encarando. Ele tinha uma arma na mão, um parceiro e uma atitude bem malvada.
- Não me ouviu, dona? Eu disse, vamos lá! Vai saindo!
Linda correu em direção à porta que ia se abrir quando o trem parasse, todas as suas coisas caíram no chão, esquecidas. Mas quando ela tentou correr, o agressor se antecipou, capturando-a em seus braços e dizendo:
- Não, enfermeirazinha, não... Vai se arrepender de ter tentado fugir - A arma estava apontada para os outros passageiros, mas Linda não conseguia se desvencilhar daqueles braços. - Agora todo mundo quieto, porque vamos sair daqui. Se ninguém se mexer, ninguém se machuca, OK?
Linda viu tudo acontecendo como se estivesse num sonho. Um sonho mau. Um sonho que era terrivelmente parecido àquelas memórias do pai dela, batendo nela, tocando nela, xingando ela... À medida que ela foi arrastada na noite fria pelos dois estranhos, a realidade parecia estar cada vez mais e mais distante, e podia nunca mais voltar.
* * *
Levou dois dias inteiros até que alguém tivesse uma notícia de Linda. Claro, ninguém sabia sequer que ela estava sumida até que a Sra. Robinson tentou contatar com a senhoria, perguntando se ela estava doente. Então as duas mulheres tentaram o hospital. Elas receberam a resposta que Linda saíra cedo à noite, por motivos pessoais. As duas senhoras, então, recorreram ao Consulado do Canadá em Chicago. Fraser ficou muito preocupado com o que ouviu e tentou encontrá-la sozinho. Ficou espantado ao ver que ninguém conseguiu produzir uma única informação concreta sobre o paradeiro da moça.
Então o crachá dela apareceu, encontrado num El que tinha sido assaltado naquela noite. Ela também combinava com a descrição de uma moça tomada como refém durante a ação dos dois criminosos. A Polícia de Chicago estava no caso, e seguia um monte de pistas, com a ajuda de Fraser, como sempre. Ele disse que era um pedido pessoal do Detetive Ray Vecchio e sua família - o que não estava longe da verdade. Fraser tentou de tudo para achar Linda. O polícia montada seguiu pistas, falou com marginais, caçou pessoalmente os bandidos. De um trem, ela poderia ter sido levada para um outro, ele raciocinou.
Graças a insistentes telefonemas para a área inteira da Grande Chicago, o resultado apareceu: um hospital fora de Peoria disse ter recebido uma moça sem identificação ou consciência. Fraser foi verificar a informação e encontrou Linda em coma induzido pela extensão de seus ferimentos.
Até onde as autoridades locais sabiam informar, Linda tinha sido deixada para morrer num buraco fora da cidade. Desnutrida, espancada, ela foi encontrada por crianças que brincavam no terreno baldio e resgatada por paramédicos semimorta. O canadense entrou numa crise de culpa e raiva e arranjou para que ela fosse transferida.
Passaram-se dois dias até que Linda saísse do CTI. Os médicos só sabiam que ela estava acordada pelo fato de ela ter aberto os olhos e pelo EEG. Os olhos tinham uma expressão vazia. Fraser tentou falar com ela, sorrir. Ela nem olhou para ele. Ela não se mexia, não reagia. Quando Fraser começou a se agitar pela falta de reação ela, foi gentilmente retirado da presença de Linda pelas enfermeiras.
O médico tentou explicar algo sobre o trauma num caso que já era delicado. Linda tinha ficado catatônica, e podia jamais voltar a ser o que era antes. Fraser não aceitaria isso. Não depois de tudo que ela conquistara. Ele tentara obter permissão para ficar ao lado dela, mas como não era nem família nem tutor legal, só podia ficar nos horários de visitas. Além disso, a Inspetora Thatcher tinha retornado da viagem a Ottawa e estava pegando no pé dele, mesmo antes de ter ido viajar. Ele precisava ficar no Consulado.
Mas Fraser estava magoado. Ele se sentia culpado pelo que acontecera a Linda. Se ele não tivesse sido tão teimoso ou egoísta em falar com Dr. Lennyard, talvez ela não tivesse se machucado. Ray Vecchio tinha tentado falar com ele. O policial estava para ser liberado do hospital, e também visitava Linda. Ambos falavam com ela, como ela costumava falar com os pacientes da CTI. Mas parecia que nada a tiraria daquele estado. Ela ainda estava imóvel.
Fraser contava para Linda uma linda história infantil inuit sobre o último caribu quando uma enfermeira entrou para tirar a temperatura dela. Fraser a reconheceu e indagou:
- Devo sair, Srta. Crystal?
Os olhos da moça pareciam ainda mais famintos do que os de Francesca quando ela respondeu:
- Oh, não, Constable, não será preciso. Não vou demorar.
Realmente, foi uma intervenção rápida. Fraser indagou pelos resultados:
- Como ela está?
- Na mesma, receio. Ao menos ela não tem febre - Fraser suspirou e a enfermeira disse: - Depende dela, sabe? Mas Linda nunca soube lutar. O que ela ganha? Por exemplo, aquela mulher no CTI de quem ela gostava tanto, sabe? Ela saiu do coma agora, depois de mais de 16 meses. Sabe, aquela a quem Linda chamava de Sra. Ritter. Ela gostava de chamá-la assim porque não sabíamos o nome dela e Linda achava que ela merecia ter um nome como qualquer um. De qualquer forma, agora ela já saiu do CTI, mas jamais vai reconhecer Linda, ou tudo que ela fez por ela. Aquela Sra. Ritter é uma ingrata, isso sim.
O canadense jamais teve chance de partilhar suas idéias sobre o assunto, porque a enfermeira sorriu e então saiu. Ele voltou para o lado da cama e segurou a mão de Linda ternamente, tentando falar para ela as boas notícias sobre a Sra. Ritter. Ela não se mexeu. Sequer piscou.
Dr. Lennyard não escondeu de Fraser que se Linda não esboçasse qualquer resposta quando os ferimentos físicos dela sarassem, ela seria levada de volta para a instituição mental. O médico também disse que havia grande chance de que isso acontecesse, pois Linda tinha um histórico de se fechar em si mesma, e também tudo indicava que Linda não seria capaz de cuidar de si mesma após um trauma tão grande. E uma vez dentro da instituição, eram grandes as chances de que ela jamais conseguisse sair. Fraser quase se desesperara ao ouvir isso. O que poderia fazer para forçar Linda a sair de seu casulo?
Medidas desesperadas para tempos desesperados. Ele logo tinha um plano formulado.
Naquela noite, a Sra. Vecchio ficaria com Linda e Francesca tinha sido voluntária para cuidar de Ray, pois Maria estava com o bebê. Com isso, Fraser teria tempo mais do que suficiente para fazer os preparativos que fossem necessários.
No meio da noite, enquanto Linda dormia sem o auxílio da medicação, Fraser tinha entrado no quarto e com um gesto, chamou a matriarca dos Vecchio para o corredor. Ele disse:
- Eu posso assumir agora, Sra. Vecchio.
- Não, Benton, não. Pode ir descansar. Você tem trabalho amanhã.
- Está tudo bem, Sra. Vecchio. - ele insistiu gentilmente - Pode ficar com Ray, se quiser ficar no hospital.
A velha senhora sorriu e disse:
- Você é um homem gentil, Benton. Eu ficarei com meu Raymondo.
Fraser sorriu e esperou até que a mãe de seu amigo desaparecesse do corredor para produzir um assobio camuflado. Em seguida, um raio branco entrou no quarto de Linda na forma de um lobo. Fraser instalou Diefenbaker na cadeira próxima à cama dela e o animal passou a lamber o rosto da moça, que dormia tranqüilamente. Então ela se mexeu e abriu os olhos. Diefenbaker ganiu baixinho, e os olhos dela brilharam, mostrando reconhecimento - pela primeira vez. A voz dela parecia extenuada:
- Dief...?
O animal abanou o rabo e lambeu o rosto dela ainda mais entusiasticamente do que antes. A moça apertou os olhos e ergueu os braços, tentando se proteger do ataque lupino, dizendo:
- Tá bom, rapaz. Dief, eu acordei. Pode parar. Dief.
Dief afastou-se um pouco e ficou de língua para fora olhando seu companheiro de matilha, que também sorria. Então Linda se voltou para Fraser, que disse suavemente:
- Bem-vinda, Linda.
Ela pôde sentir os olhos se enchendo de dor e lágrimas, e virou a cabeça de novo, para longe dele. Dief chamou-a de novo, enfiando o focinho nas cobertas. Então Fraser viu os ombros sacudindo e ouviu um som horrível. Era um soluço. Linda começara a chorar.
Os sons de choro caíram sobre Fraser como uma bênção. Era o primeiro sinal de que ela tinha começado a se curar.
* * *
Agora que Linda tinha se tornado cooperativa, estava muito mais fácil tratar dela. A tarefa difícil era fazer com que ela se permitisse ser tratada. Ela constantemente se sentia mal por estar dando tanto trabalho a tanta gente. Fraser, porém, notou que ela já não se sentia tão desajeitada em frente às pessoas.
Quando os médicos permitiram a Linda andar, Ray a levou pelo corredor para visitar a Sra. Ritter, que na verdade se chamava Srta. Lorraine Robinson, e vinha a ser filha da mesma senhora que aceitou Linda como dama de companhia. Linda estava muito feliz que a Sra. Ritter teria um lar e que a Sra. Robinson tinha recebido a filha de volta. Parecia um final feliz para todos - exceto para Linda, que perdera o seu segundo emprego. Mas ela não se importava com isso.
Então Linda ganhou alta do hospital e uma licença médica em casa. Ela recebeu cuidados não só dos Vecchios e de Fraser, mas também da senhoria, e de alguns de seus colegas de trabalho, que foram até o apartamento para ver como ela estava passando. A moça jamais se sentira tão amada, e havia horas em que ela chorava de pura alegria quando ninguém olhava.
Após alguns dias, ela voltou para o trabalho, e todos notaram que havia uma mudança sutil nela. Linda não era mais aquela garota estranha, ou a maluca que limpava o chão. Ela parecia ter adquirido um senso de confiança em si mesma. Claro que ela era respeitosa e cortês com todos que encontrava. Mas ela não era mais submissa ou amedrontada.
Para os que não acompanharam o caso, a mudança pareceu radical. Tornou-se muito comum ver Fraser ou Ray acompanhando a moça ao hospital. Linda descobriu que gostava da companhia deles, e ela começou a ser regularmente convidada para a casa dos Vecchio, para algum almoço de domingo, ou mesmo nenhuma ocasião em especial. As irmãs de Ray, Francesca e Maria, gostavam muito de Linda, e o mesmo acontecia com as crianças - os sobrinhos e sobrinhas de Ray. Linda tinha um talento especial não apenas com os doentes e animais, mas também com crianças.
Linda também se tornou extremamente conhecida no 27º distrito inteiro. Às vezes ela até saía com os detetives e investigadores. Não havia uma única pessoa que pudesse dizer qualquer coisa contra ela, e mesmo o sisudo tenente Welsh desenvolveu uma afeição por ela. Como o turno dela começava tarde da noite, ela ainda tinha tempo de ir a um bar com os detetives antes de ir para o trabalho.
Dr. Lennyard estava extremamente satisfeito com os resultados de sua paciente. Ela estava se tornando uma mocinha confiante e ajustada, rapidamente chegaria a ser um membro funcional da sociedade. E tudo acontecera em tão pouco tempo. Bastaram uns poucos meses de amor e dedicação, e Linda estava respondendo muito favoravelmente. Ele sempre soubera que ela não tinha qualquer doença mental, por isso ele decidira dar ao caso dela uma atenção especial. Agora os resultados começaram a frutificar.
Outra pessoa extremamente satisfeita com o progresso de Linda era Fraser. O canadense tinha plena consciência de seu papel e responsabilidade em tudo que acontecera. Sua gentileza em chamá-la para fora de sua casca e se juntar à raça humana tinha como base a convicção do polícia montada de que a moça era gentil e amorosa, e só precisava de amor e carinho. Por um lado, ele percebia que o que fazia por Linda era mais ou menos o que o seu amigo Ray fizera por ele mesmo quando ele chegara do Canadá depois que seu pai tinha sido assassinado. Linda também se sentia deslocada no ambiente, e ele sabia que solidão era um sentimento muito ruim, portanto ele tentou melhorar as coisas para ela.
A experiência suprema de socialização só veio quando Fraser se viu sem par para uma recepção no Consulado. Ele achou que seria uma excelente oportunidade para Linda saber o que era uma festa de verdade. Ela ficou chocada quando ele a convidou, e bem na frente de todo o clã Vecchio, num almoço durante um domingo de sol. Ray estava radiante.
- Benny, que grande idéia!
- Obrigado, Ray. Então, Linda, posso confirmar sua presença?
- Eu?! Sr. Fraser, não pode falar sério. - A moça estava enrubescida - Eu não poderia ir.
- Por que não? Achei que gostaria de ir.
- Mas... ali não é meu lugar... Além do mais, nem tenho roupas para ir a uma coisa assim.
Francesca interferiu:
- Não seja boba, eu empresto um vestido. E já está mais do que na hora de você ir a uma festa de verdade. Eu vou ajudar você. Maria também.
- Viu? - disse Fraser - Está tudo pronto. A menos que não queira ir comigo.
- Não! - Ela falou mais alto do que pretendia. - Quero dizer, não é isso, Sr. Fraser, é só... Bom, eu... Eu sou tão desajeitada e tudo mais...
Antes mesmo que Fraser dissesse algo, Francesca disse:
- Pare de dizer isso. Já falei que não quero mais ouvir você dizendo coisas assim. E venha comigo, vamos procurar um vestido especial para você.
Maria disse:
- Esperem por mim!
As moças subiram, a Sra. Vecchio seguiu-as com os olhos. Quando as meninas sumiram escada acima, a velha senhora sorriu e apertou a mão de Fraser na sua:
- Sempre soube que você era um bom homem, Benton - falou ela, do jeito especial que ela tinha de falar as coisas. - Isso é muito generoso de sua parte.
Foi a vez de Fraser enrubescer, porque as intenções dele estavam longe de ser generosas. Ele tinha pensado no convite à recepção depois que alguns dos seus sentimentos tinham vindo à tona de maneira bastante incômoda. Agora ele precisava confirmar alguns deles, e Linda estava envolvida.
Dez dias depois disso, Fraser estava engalanado, postado em atenção total e mexendo num buquê na tentativa de esconder sua ansiedade, enquanto encarava as escadas da casa da família Vecchio. Daqueles degraus, Linda emergiria após passar a tarde inteira nas mãos de Frannie, preparando-se para a recepção. Fraser lembrou-se da frenesi que as garotas ficaram durante aqueles dias todos, escolhendo vestidos, tecidos, maquiagem e tudo. Linda parecia ter muitas expectativas sobre isso e Frannie parecia ansiosa em mostrar ao mundo sua "criação".
Por um segundo, ele começou a duvidar de que tudo tinha sido realmente uma boa idéia. O Consulado estaria cheio de gente, e haveria diplomatas e autoridades estrangeiras por todo o lugar durante a recepção. Não era sequer uma grande ocasião, apenas uma recepção protocolar de boas-vindas a algumas delegações estrangeiras. Além disso, ele estaria trabalhando, e poderia não ser capaz de dar a Linda toda a atenção que ela merecia. Ela entendia aquilo e prometera se comportar como lhe fora ensinado. Mas Frannie enchera a cabeça da moça com imagens de um baile digno do Império Britânico, então Fraser imaginou se ele poderia proporcionar à moça tudo que as expectativas dela apontavam.
Mas esses pensamentos fugiram de sua mente quando da escada dos Vecchio, Ray apareceu trazendo Linda pela mão. Fraser sentiu o coração perder o ritmo e suas pupilas se dilatando. Linda vestia um vestido longo azul de veludo, o pescoço comprido emoldurado num delicado colar, o cabelo escuro longo preso num coque exótico. Para ele, um sonho. Dief ganiu e até a Sra. Vecchio emitiu um gemido ao ver a moça descendo as escadas.
Ray passou Linda a Fraser, sorrindo:
- Bem, Cinderela, este é seu príncipe. Vai ter que desculpá-lo, Linda. Acho que ele não estava preparado para você.
Fraser não podia tirar os olhos dela e Linda tinha a cabeça baixa, timidamente, evitando olhá-lo. Frannie indagou:
- Benton, você não vai dizer nada? Ela não está linda?
Ainda mais avermelhado que Linda, Fraser estava da cor do uniforme ao gaguejar:
- Eu.. Bom, eu... Sim, eu... Com efeito, Francesca, eu.. devo dizer... Você está muito bonita, Linda.
A moça sorriu e ficou rosa, dizendo:
- Obrigada, Sr. Fraser. O senhor também está muito elegante.
Sem jeito, ele ofereceu o buquê para ela:
- Aqui... está. Para você, quero dizer.
- Eu? - Ela se confundiu. - Mas... eu... er...
Frannie interveio:
- Deixa comigo. - Ela pregou o buquê no vestido de Linda - Pronto.
Ray disse:
- Tudo pronto? Posso levar vocês agora mesmo.
- Obrigado, Ray - disse Fraser, e o trio saiu.
De muitos modos aquilo era um sonho para Linda. Não era apenas a aparência dela - roupas, cabelos, unhas, maquiagem, perfume -, mas também o par dela, era tudo muito além de tudo que ela jamais sonhara. Quando Ray os deixou no Consultado, um homem abriu a porta do carro para ela. Era Benton Fraser. Ele a levou pela mão, e todas as cabeças da redondeza se viraram para vê-la entrando solenemente na representação diplomática do Canadá em Chicago. Ela olhou para Fraser, que lhe sorriu de forma a encorajá-la.
Ele a levou para um salão onde uma multidão estava conversando, e uma música suave era produzida por uma orquestra de câmara. Hipnotizada pelas visões e sons, Linda mal reparou que Fraser a levava para um lado do salão e a colocou sentada a uma mesa, dizendo:
- Preciso ir trabalhar agora. Pode se sentar aqui, se quiser.
Ela apenas assentiu, incapaz de pronunciar uma única palavra, extasiada de excitação. Fraser sumiu entre os convidados, e foi para suas tarefas. De vez em quando, ele esticava o pescoço para verificar Linda. Ela nem piscava, olhos grudados na pista de dança, nas mesas, nas pessoas. Como um cavalheiro, Fraser tirou cinco minutos para levar um refrigerante e uma bandeja de canapés, mas a comida permaneceu intocada, pois ela estava tão excitada que nem conseguia comer. Linda estava feliz só em estar ali.
A noite ia avançada quando Fraser pediu permissão especial à Inspetora Thatcher para poder dançar com Linda. Quando ele a tomou pela mão, ela nem acreditou no que acontecia. Ela estava a ponto de se misturar com todas aquelas pessoas tão bonitas, elegantes, ricas e educadas... e ela iria dançar com Fraser!...
Então ela se lembrou.
- Mas eu não sei dançar...!
- Tarde demais - Fraser lançou-lhe seu sorriso mais sedutor - Já estamos na pista de dança.
Sem esperar por outras respostas ou resistência, Fraser colocou sua mão na cintura delicada antes de conduzi-la numa música lenta. Linda manteve os olhos abaixados, tentando com muita força manter o coração dentro do peito, pois ele parecia querer pular para fora do seu corpo. Dançar parecia ser algo inebriante, mas com Fraser ela sentia que iria derreter como neve no sol. O casal atraiu olhares no salão e jovens rapazes começaram a se perguntar sobre aquela moça de veludo azul.
Como um cavalheiro, Fraser não pôde recusar quando lhe foi pedido para entregar Linda a um homem mais jovem, que a olhava à distância, e que estivera fazendo isso mesmo quando ela apenas estava sentada à mesa, observando a festa. Fraser viu o pânico nos olhos da moça quando ela se viu ser levada pelo rapaz pela pista de dança, mas Fraser cochichou que seria descortês recusar. Assim, ela dançou com o rapaz, procurando de vez em quando Fraser com os olhos verdes para extrair confiança de seu par.
O canadense sentiu seu coração inchando de orgulho. Semanas atrás, Linda teria fugido daquele lugar, talvez tivesse fugido dele se ele a convidasse para dançar. Naquela noite, porém, ela era uma das mulheres mais atraentes do salão de bailes, o seu jeito delicado e gracioso era notado por todos os homens da sala. E ela era a acompanhante dele. Até a Inspetora Thatcher o tinha parabenizado por trazer Linda, sugerindo que ela seria diversão para alguns dos filhos ou sobrinhos dos embaixadores ou adidos. Ele resolveu ignorar as implicações do comentário de sua superiora. Fraser sentiu um misto de orgulho e ciúme dos jovens que obviamente competiam pelas atenções da moça. Ela era a dama dele, e isso era muito satisfatório.
Fraser voltou para suas atribuições enquanto ela dançava noite adentro, e ele finalmente se deu conta de que estava ficando tarde. O canadense a encontrou num canto do salão, cercada de rapazes, e pela intimidação em seus olhos, Linda parecia estar ficando bem assustada. Era muita coisa, muito rápido para a pobre moça. Ele teve que "resgatá-la" de todas aquelas atenções masculinas, e ela lançou-lhe um olhar que era pura gratidão e alívio enquanto ele a levava de volta para a mesa. Após alguns minutos, ele retornou com o casaco dela e permissão da Inspetora Thatcher para levá-la para casa.
O táxi estava parado em frente ao prédio quando Linda perguntou, polidamente:
- Gostaria de entrar?
- Tenho que voltar - ele disse. - Ainda estou trabalhando. Você se divertiu?
O sorriso de Linda iluminaria todo o Meio-Oeste durante uma semana:
- Muito. Muito obrigada por me levar, Sr. Fraser.
- Fico contente que tenha gostado. Eu também me diverti. Você dança muito bem. E tinha muitos parceiros.
Ela ficou vermelha:
- Eram pessoas simpáticas.
- Você está adorável, Linda. Os rapazes viram isso.
Ela ficou profundamente embaraçada e disse:
- Eu me diverti bastante.
- Agora descanse. Boa noite.
- Boa noite, Sr. Fraser - Num impulso, ela se curvou e beijou-o na bochecha. - Obrigada.
Depois, envergonhada pelo que tinha feito, Linda correu para dentro. Fraser olhou para o Stetson em suas mãos, também desconcertado pelo gesto da moça e reação que tinha provocado em seu corpo. Ele entrou no táxi e retornou ao Consulado.
Dentro do apartamento, mesmo excitada como estava, Linda não demorou a dormir e ver-se no céu. De novo.
* * *
Francesca decidiu que era hora de Linda aproveitar mais da vida noturna de Chicago, então ela e suas amigas levaram-na para a noite numa folga de Linda. Para Ray, era resultado direto da noite que Linda fora à festa no Consulado. Ele estava feliz ao ver Linda finalmente tendo a vida que deveria ter, e Fraser concordou, imaginando o efeito que Linda causaria em rapazes da sua própria idade, como acontecera no Consulado.
No primeiro fim de semana, Linda insistiu em ir dormir em casa e foi atendida, mas da segunda vez que Frannie e as amigas a levaram para a boate, a caçula dos Vecchio convenceu a moça a dormir na casa, apesar da a oposição de Linda. Ray levou Fraser e os policiais para o bilhar, e ele lembrou que Linda tinha se divertido lá, portanto os olhos da moça tão suplicantes pareciam ter justificativa quando ela pediu para ir jogar bilhar. Mas ela logo foi convencida a ir dançar.
Quando Ray chegou em casa de madrugada, porém, ele podia jurar ter ouvido soluços vindo do quarto onde as moças estavam dormindo. Alguém tentava chorar bem baixinho, para não acordar o resto da casa. Talvez Frannie precisasse de ajuda, ele pensou. E quem tinha talento para atrair homens encrenqueiros sem dúvida era Francesca.
- Frannie? - ele chamou, discretamente, entrando no quarto.
Na madrugada, ele reconheceu a respiração tranqüila da irmã dormindo. Ao lado dela, Linda estava deitada imóvel, coberta da cabeça aos pés, provavelmente exausta de tanto dançar. Ray saiu do quarto achando que tinha ouvido mal.
De manhã, porém, Ray parou no bar mais próximo para pegar um café, e viu alguns dos rapazes do bairro. Ele pegou o jornal e sentou-se no balcão, para os jovens não perturbarem a leitura do seu jornal. Mas os garotos falavam muito alto.
- Ei, e ontem?
- Cara, a festa foi ótima! Tem uma garota nova, uma que você não acredita!
- Mesmo?
- Muito gostosa. E parece ser fácil de conseguir.
- Tá brincando.
- Não, cara. Ela é doidinha. Sério, já esteve até em hospício. Deve ser fácil de transar.
- Deve ser. Alguém já abateu?
- Não, mas tem uma bolsa de aposta rolando. O primeiro que conseguir ganha uma bolada.
- Ei, quem sabe a festa vira pública?
- Boa idéia. A doida parece ser gostosíssima, cara. Uns peitinhos...
Eles riram alto. Fazendo as ligações com o que tinha ouvido, Ray perdeu a cor. Não tinha sido à toa que Linda tinha pedido para não ir com Frannie. Depois, ela tinha chorado!...
Quando Ray entrou em casa, foi feito um trovão:
- Francesca!
- Ray, fale baixo!! - Ela veio descendo as escadas de robe, com cara de quem mal tinha acordado. - O que é que você tem?
- Onde está Linda?
- Ela foi embora. Qual é o seu problema, Ray?
Ele não escondeu sua ira da irmã:
- Meu problema? Deixa eu lhe dizer qual é o meu problema! Eu estava num botequim de segunda, ouvindo homens fazendo comentários nojentos sobre Linda. Esse é o meu problema. Agora pergunto: você sabe alguma coisa sobre isso?
- Que tipo de comentários?
- Eles estava apostando em quem fatura primeiro a doida, esse tipo! - Ray desabafou, fumegando - Frannie... Diga-me o que você sabe.
Ela parecia chocada e escandalizada:
- Eu?! Ray, o que eu saberia sobre isso? Quem foi?
Mas ele estava resmungando:
- A menina sempre foi maltratada pela vida afora e aí quando ela pensa que finalmente parou - Ele se interrompeu - Você disse que ela foi para casa?
- Eu acho que foi, Ray - disse Frannie, ainda chocada. - Deixa eu me trocar, e eu vou com você.
- Não - Ray a deteve - Eu vou dar um jeito nisso. Da minha maneira!
E saiu batendo portas, a raiva fazendo seu corpo inteiro tremer, enquanto Francesca ficou para trás, gritando dentro da casa. Ray entrou no Riviera, a mente italiana em ação, formando um plano.