CARTA AOS
MEUS ALUNOS E COLEGAS
Alfenas, 10 de
Abril de 2002
Prof.
Luciel Henrique de Oliveira
[email protected] - (35) 9974-1401
Por ser fiel aos meus princípios,
ético em minhas relações profissionais e pessoais, por sempre falar aberta e
diretamente, fazendo sugestões e críticas para a melhoria dos processos e
sistemas de trabalho (disciplinas que leciono e nas quais acredito), tornei-me
uma pessoa indesejável na Unifenas, e numa medida arbitrária, típica das
organizações centralizadoras, que são gerenciadas pelo medo, fui demitido na
última segunda-feira (08/04) sem nenhuma justificativa plausível, e sem sequer ser
me dada uma oportunidade de defesa.
Sempre procurei colaborar para a
melhoria e o crescimento da Unifenas, muitas vezes indignado por verificar que
a falha principal estava na forma como a instituição sempre foi administrada.
Por diversas vezes comentei com colegas e alunos, que era muito duro lecionar
Administração e trabalhar em uma instituição que não praticava, e às vezes até
ignorava os princípios básicos desta ciência. Sempre gostei da Unifenas e
dediquei-me bastante a esta instituição, apesar de não ser reconhecido nem
valorizado. Em hipótese alguma pretendia ser demitido, ou forcei para que isto
acontecesse, queria continuar, apesar de tudo, até mesmo como desafio para
contribuir com as mudanças em curso. Embora não estivesse de acordo com muitas
medidas gerenciais tomadas, sempre tentei mostrar outras alternativas, e
procurava ser ouvido. Sempre falei o que julgava conveniente, sem medos...
Em 12 anos de trabalho na
Unifenas, sempre acreditei que uma Universidade antes de tudo deve nutrir-se de
inteligência, sempre estimulei meus alunos a pensarem, a questionarem, a
reivindicarem melhorias para seu curso, para sua vida pessoal, para sua
formação profissional. Sempre tentei levantar debates, na esperança de ser
convidado a discutir o assunto com os “gestores oficiais”, oportunidade que
nunca me foi dada. Em reuniões, em muitas conversas com diretores e
professores, e em artigos de jornais,
sempre fiz críticas e sugestões, sempre questionei, recusando-me a “entrar
no esquema” e a concordar com o estilo de gestão praticado na instituição. Agir
diferente seria negar minha função de professor e minha formação acadêmica e
profissional como administrador “agente de mudança”, que acredito e ensino nas
aulas.
Gostaria de expressar nesta carta
minha análise, como acadêmico e pesquisador em Administração, para iniciar uma
ampla discussão sobre o “Caso Unifenas”, e contribuir de alguma forma para a
melhoria das condições de trabalho e de ensino dos que ainda permanecem na
instituição, muitos que como eu, querem continuar, apesar de tudo.... Só desta
forma a instituição poderá ser melhorada, atingir melhores resultados no Exame
Nacional de Cursos, o famoso “provão do MEC”, e ter reconhecimento pela sua
“qualidade”, que pode ser alcançada, desde que se tenha vontade.
Entendo que o problema central
desta instituição está no estilo de gestão baseado no medo. Aliás, “afastar o
medo” era um dos Princípios de Deming, o principal autor das Teorias da Qualidade. Afastar o medo para fazer com que
todos trabalhem de modo eficaz para a organização, para que todos tenham
segurança e o tão falado “comprometimento”. Ninguém pode dar o melhor de si a
menos que se sinta seguro. O principal prejuízo resultante da administração
pelo medo é a incapacidade de servir aos interesses da organização, devido à
necessidade de satisfazer determinadas regras, de manter aparências, de “entrar
no jogo”, de “fazer de conta” que está tudo bem, sob pena de perder o cargo, o
salário, o emprego, o prestígio, etc. Além disso, ainda se costuma atribuir a
culpa dos problemas nos empregados. As pesquisas mostram que, em geral, a
responsabilidade pelos problemas é 15% dos empregados e 85% do sistema de
administração.
A Unifenas está doente! Sofre de algumas doenças
gerenciais, há muito estudadas pelos pesquisadores de administração, e para as
quais, geralmente, todos os funcionários envolvidos conhecem a “cura”, apesar
de não terem oportunidade nem coragem de falar. Não é necessário gastar em
consultorias caras para ouvir o que os funcionários, professores e alunos já
sabem. Basta criar um ambiente favorável
para que expressem seu ponto de vista, apontando erros e propondo
soluções. Ao invés disso, muitas vezes as medidas tomadas são paliativas, são
“rebates falsos”, que trazem apenas um alívio temporário, dando a impressão de que está sendo feita
alguma coisa...
As doenças gerenciais a que me refiro são:
1) Falta de constância de propósito - Uma organização sem constância de propósito não possui planos
de longo prazo para continuar no ramo; sua administração é insegura, seus
funcionários são inseguros. Não basta apenas anunciar intenções de melhorar a
qualidade, mesmo repetidamente...é necessário passar do discurso à ação.
Algumas medidas concretas podem ajudar
a convencer funcionários e alunos de que há vontade de mudar: investir e
valorizar pessoas, investir em treinamento e equipamentos; interromper
operações quando há algo errado.
2) Ênfase nos lucros em curto prazo – isto prejudica a qualidade e
a produtividade, sendo alimentada pelo medo de que a organização passe a ser controlada por mãos estanhas.
Deming afirmava que “os lucros no papel não fazem crescer o bolo. Dão-nos um
pedaço maior. Tiramo-lo de alguém. Isso não ajuda sociedade.”
3) Falta de valorização das pessoas, falta de critérios de transparentes
de avaliação de pessoal, falta de um plano de carreira, critérios de avaliação
subjetivos - Estas práticas destroem o trabalho em equipe, promovem a
rivalidade, espalham o medo e a insegurança, deixando as pessoas amargas,
desanimadas e abatidas; jogam as pessoas umas contra as outras em busca das
mesmas recompensas; estimulam a rotatividade nos cargos intermediários da administração. E ainda cometem uma grande
injustiça: atribuem às pessoas do mesmo grupo diferenças que podem ser causadas
pelo sistema em que trabalham.
4) Rotatividade nos cargos intermediários da administração - a
troca constante de diretores e chefias faz com que eles nunca atendam às
organizações para as quais trabalham; Nunca permanecem nelas (ou o cargo) o tempo suficiente para acompanhar
as mudanças de longo prazo necessárias para a qualidade e produtividade. A
principal causa é insatisfação com o emprego; as pessoas precisam tempo para
aprenderem a trabalhar juntas.
5) Dirigir a empresa apenas com base em números visíveis - É
necessário entender que os números mais importantes são desconhecidos e
impossíveis de conhecer integralmente. São os ganhos indiretos, como por
exemplo o efeito multiplicador de um aluno ou funcionário satisfeito; os ganhos gerais em qualidade, resultantes
da cura destas doenças fatais da organização. Estes resultados só aparecem com
o tempo e não podem ser corretamente mensurados.
6) Centralização e ausência de delegação de poder de decisão – A
empresa costuma tomar as decisões nos níveis hierárquicos elevados, com uma
estrutura muita centralizada, sem dar autonomia para os níveis inferiores
tomarem decisões. A estrutura centralizada é a mais primitiva forma de
administração, tendo baseada na hierarquia rígida do Exército e da Igreja, e
tendo sido duramente criticada pelos estudiosos de organizações. Nas
organizações centralizadas as decisões geralmente são tomadas sem o devido
conhecimento dos fatos, mas isto não é percebido nem aceito, existe pouco
contato entre os eventos e os responsáveis pelas decisões, o processo decisório
é demorado e com maior custo e as decisões ainda podem ser distorcidas quando
comunicadas entre os diversos níveis. Além disso existe sempre baixa
uniformidade, baixo comprometimento e adesão às decisões, falta de aproveitamento dos especialistas existentes
na organização, e falta de equipe apropriada para as atividades. Tudo isso
ainda é agravado pelo fato dos decisores estarem longe do ponto onde as
decisões devem ser tomadas, e em conseqüência há a redução da eficiência e da motivação dos envolvidos, logicamente
comprometendo a qualidade das decisões.
Em
janeiro de 1980 Konosuke Matsushita, fundador do Grupo Matsushita (National /
Panasonic), escreveu os motivos pelos quais a administração japonesa havia
“vencido” a batalha com o Ocidente. Suas palavras são ainda muito atuais e
servem perfeitamente para ajudar a entender o “Caso Unifenas”. Ele explicava
porquê na época as empresas ocidentais perderam a concorrência para as
japonesas...
Vocês estão perdendo, e não podem fazer muito para evitá-lo, porque já trazem consigo a sua própria
derrota. As suas organizações são Tayolistas; mas o pior é que também o são
suas cabeças. Vocês estão totalmente convencidos de que podem fazer funcionar as
suas empresas distinguindo de um lado os chefes e do outro os executores; de um
lado aqueles que pensam, do outro os que trabalham. Para vocês, a administração
é a arte de fazer passar convenientemente as idéias dos chefes às mãos dos
operários.
Nós, pelo contrário somos pós-tayloristas: sabemos que o “business” é
muito complicado. A sobrevivência de uma empresa é díficil e problemática, num
ambiente sempre mais perigoso, imprevisível e competitivo, que a obriga a
mobilizar toda a inteligência de todas as pessoas para atingir uma
possibilidade de fazê-lo.
Para nós, “administrar” é a arte de mobilizar e canalizar toda esta
inteligência a serviço do projeto da empresa. Havendo medido melhor que vocês a
amplitude de nossos desafios tecnológicos e econômicos, sabemos que a
inteligência de alguns tecnocratas - embora brilhante - é insuficiente para
vencê-los.
Como conseqüência, somente a inteligência de todos os seus membros pode
permitir a uma empresa enfrentar a turbulência e as exigências deste novo ambiente.
É por isto que as nossas empresas investem 3 ou 4 vezes mais na formação de
seus recursos humanos do que fazem as suas; esta é a razão da existência em
nossas empresas de um clima de diálogo e uma comunicação tão intensos.
Solicitamos continuamente as sugestões de todos e, sobretudo, do Sistema
Educativo Nacional a preparação de diplomados generalistas, iluminados e cultos
que representam a base indispensável para uma indústria que deve nutrir-se de
inteligência.
Os seus líderes sociais, muitas vezes gente de boa vontade, acham que devem defender o homem na empresa. Realisticamente; pensamos que devemos fazer com que o homem defenda a empresa, a qual lhe renderá 100 vezes o que lhe haverá dado. Fazendo assim, acabamos por ser mais “sociais” do que vocês.
Gostaria que os gestores da
Unifenas entendessem que é um erro pensar que quem quer que venha tentar
ajudar-lhes tem que entender tudo sobre suas atividades. Deming sempre fazia contratos de consultoria
com clientes de ramos de atividades que não conhecia intimamente. Afirmava que
é possível saber tudo sobre uma atividade empresarial, exceto como melhorá-la.
A ajuda para a melhoria geralmente vem de algum tipo de conhecimento externo,
de pessoas não envolvidas diretamente com a gestão da organização, e que podem
ter um olhar atento e sem paixões. Espero finalmente poder ser ouvido e
contribuir, ainda em tempo, para a melhoria e recuperação da Unifenas.
Caros alunos, entendam que sempre
tive a maior preocupação em preparar aulas atualizadas e adequadas ao seu
curso, apesar das reduções de carga horárias. Entendam que sempre procurei
colaborar com o desenvolvimento e melhoria do curso e da instituição, e em
nenhum momento desejei sair da Unifenas, embora soubesse que corria este risco,
por sempre falar o que pensava, por não aceitar imposições arbitrárias e sem
diálogos, por questionar e discordar do “status quo”. Pelo menos tenho a
consciência tranqüila por ter sido ético e fiel aos meus princípios. Desejo-lhes
boa sorte, e acredito que nos encontraremos em nossa jornada profissional.
Prezados colegas professores, nós
que somos antes de tudo educadores, formadores de opinião, podemos ajudar a
construir uma sociedade melhor, mais justa e menos desigual. Nós, devemos
enfrentar o medo, defender a liberdade de expressão e buscar sempre o debate
pela melhoria contínua de todas nossas atividades e organizações, deixando de ser vítimas e testemunhas dessa
“violência insana”, desse “assédio moral” contra professores, funcionários
e alunos, por conta desta administração pelo medo e desse autoritarismo
vigente. Só assim a Unifenas poderá ser
“salva” e curada de suas doenças.
Leia
também a carta do Prof. Alexandre Christófaro Silva, intitulada “A curva de
Gauss”,
e
publicada em 03 de dezembro de 2002. Clique aqui.