A CURVA DE GAUSS
Para: Magnífico Reitor Edson A. Velano
De: Prof. Dr. Alexandre Christófaro Silva
Escrevo esta carta a partir de
uma reflexão, após passar treze anos na UNIFENAS. Não tenho a pretensão
de julgar atos, deliberações ou prioridades da direção da instituição. Apenas
expresso minha opinião após refletir longamente sobre o papel da instituição e
dos docentes na formação profissional de jovens brasileiros e da relação da
UNIFENAS com seus clientes internos.
Há treze anos a
UNIFENAS ainda se encontrava na adolescência, e como tal, crescia sem parar, o
que refletia positivamente na economia da cidade. Como muitos cursos estavam
sendo criados, estudantes e docentes do Brasil inteiro chegavam a Alfenas, em
busca de educação superior e de emprego, respectivamente. Eu fui um desses
docentes, que chegou no início dos cursos de Agronomia e Zootecnia. Era
pós-adolescente, pois tinha vinte e
cinco anos e estava terminando o mestrado.
Notava-se um grande
entusiasmo nos diretores, docentes e discentes em tornar a instituição um
centro de referência do ensino superior e como não poderia deixar de ser,
surgiam nichos de pesquisa e extensão. Apesar das diversas crises que o Brasil
passou nesta fase (Governo Collor, confisco, inflação, crescimento negativo do
PIB), a UNIFENAS continuava crescendo.
Com a criação das
pró-reitorias, agilizou-se significativamente o apoio ao ensino, à pesquisa, à
extensão e à capacitação docente. Nesta época começaram a surgir significativos
projetos de extensão, que perduram até os dias atuais. Vários laboratórios
foram construídos, outros foram reformados, ampliados e equipados. O corpo
docente, até então formado principalmente por egressos sem treinamento em nível
de pós-graduação, passou a ter seu perfil alterado. Muitos docentes foram
capacitar em cursos de mestrado, doutorado e pós doutorado (meu caso) de outras
conceituadas IES do Brasil e do exterior. Como a demanda para a capacitação de
docentes ainda permanecia grande, foram criados cursos de mestrado validade “interna
corporis”, que priorizavam os docentes da casa e se constituíam protótipos
de cursos de mestrado recomendados pela CAPES.
Paralelamente a qualidade de
ensino crescia e com ela também o nome da Instituição em Minas Gerais e até
mesmo no Brasil, uma vez que não existe qualidade de ensino sem um corpo
docente qualificado e curioso, ou seja, com tino e capacidade investigativa,
que vive em constante busca de novas informações que os auxiliem nas pesquisas
e que passam a ser incorporadas no conteúdo das disciplinas. Não se conquista
qualidade com propaganda, mas com esforço, empenho, dedicação e competência.
Ninguém ensina o que não sabe. Para se formar um professor são necessários de 5
a 10 anos.
Professores em início
de carreira se espelhavam nos mais experientes e qualificados e procuravam
realizar rapidamente seu treinamento, para passar a compor os grupos de
pesquisa que se formavam na Instituição. Foi criada uma revista científica na
instituição, com corpo editorial externo e qualificado, o que possibilitou, com
o decorrer do tempo, sua indexação na CAPES. Dezenas de artigos produzidos na
UNIFENAS e em outras IES foram publicados. Milhares de exemplares foram
permutados com bibliotecas de outras IES do Brasil e exterior, elevando significativamente a visibilidade da
Instituição. O editor recebeu centenas de e-mails do exterior, solicitando
artigos publicados na Revista de Universidade de Alfenas.
A mudança do calendário escolar
de anual para semestral provocou explícitas alterações no comportamento de
discentes e docentes. Os protagonistas tiveram que adequar os conteúdos
programáticos de suas disciplinas ao novo regime e os aprendizes tiveram que
estudar mais. Com esta decisão foi fechada a colônia de férias UNIFENAS.
A criação do exame global
foi, em um primeiro momento, uma ferramenta capaz de treinar os alunos para
interpretar e responder questões objetivas. Porém, com o passar do tempo, o sistema mostrou suas falhas,
pois ninguém é criativo a ponto de elaborar 200 questões por semestre durante
20 anos. Aspectos essenciais das disciplinas deixaram de ser indagados
nos exames globais subsequentes ao primeiro exame, já que os alunos passaram a
gravar as questões dos exames anteriores para estudá-las. Muitos discentes
estudam apenas estas questões. O exame global passou a ser um macetão, uma vez
que muitas questões se tornaram repetitivas na forma e/ou no conteúdo.
A instituição já dava sinais de paralisação do crescimento da qualidade.
Tinha chegado ao topo da
curva e começava a descer a ladeira. A chegada do consultor externo, de
grande experiência em administração universitária (boa ou ruim???!!??? Pergunte
aos docentes da USP e a outros reitores que foram seus conteporâneos!!!), foi um alento para aqueles que
percebiam a descida da ladeira da qualidade. Acreditavam que ele
reacenderia a chama da pesquisa e da pós-graduação, motivando docentes, que por
sua vez motivariam alunos e consequentemente a qualidade retomaria seu curso de
crescimento.
Porém, infelizmente o que se
verificou foi o contrário. O consultor sugeriu o fim de todos os cursos
de pós-graduação em nível de mestrado, não considerando que haviam se formado
núcleos de pesquisa em torno destes cursos e que certamente muitos deles
acabariam sendo reconhecidos pela CAPES, pois fatalmente o corpo docente
qualificado conseguiria aprender o “caminho das pedras” a ser seguido para
recomendar oficialmente os cursos.
Sugeriu, também, o
extinção da Revista Científica, sob o falso argumento de que ninguém perde
tempo em ler uma publicação deste nível. Este fato mostrou toda sua prepotência e arrogância, já
que o consultor ‘não leu e não gostou’ de um periódico que estava indexado
(Qualis – CAPES) e se constituía em um canal para veicular resultados de
pesquisas conduzidos pelos discentes e docentes da UNIFENAS e de outras IES.
Aqueles que são pesquisadores sabem das dificuldades e do tempo que leva para
se conseguir publicar um trabalho em revista indexada.
As exigências cada vez
maiores de comprovação de atividades de pesquisa e extensão, de elaboração de questões,
de editoração dos exames globais e finais, da orientação e atendimento a alunos
e de outros “incêndios” que tem-se que apagar semanalmente, juntamente com a
necessidade de ministrar muitas horas-aulas para manter o salário em um nível
aceitável provocou, provoca e provocará a saída de muitos docentes,
principalmente aqueles mais qualificados e experientes, que muitas vezes vão
trabalhar para os concorrentes diretos, recebendo menor remuneração, mas com
melhores condições de trabalho, pois aqui falta respeito e planejamento. É fato
concreto e visível que a UNIFENAS tem treinado docentes que atingirão o auge de
suas carreiras em IES concorrentes diretas.
Não ficamos inquietos e nem
insatisfeitos com a avaliação externa. No meu caso, os gestores podem
lhe informar sobre a minha produção no ensino, na pesquisa e na extensão em
2002 e nos últimos 5 anos. A pergunta que fica é a seguinte: tenho 38 anos e
até quando suportarei esta pressão???? Esta pergunta não vale só para o autor
dessa missiva.
A intervenção
do consultor provocou e provoca uma aceleração no decréscimo da qualidade da
Instituição. A curto prazo isto pode não ser visível, mas a médio e longo prazo
pode ter conseqüências graves. O referido “salvador da pátria” tentou desabonar
os cursos de Ciências Agrárias, explicando que tinham poucos alunos, muitos
livros e muitos professores titulados. Um
dos cursos, Agronomia, conseguiu o conceito B no exame nacional de
cursos do MEC, o melhor da história da Universidade, provocando lamúrias de
alguns docentes e diretores de outros cursos, que procuravam justificar esta
façanha com mediocridades como “também, com 20 alunos até eu” ou como “também,
com este corpo, docente, é muito fácil”. A percepção é setorial e não institucional.
Através do corpo docente das Ciências Agrárias, em especial da
Zootecnia, conseguiu-se recomendar na CAPES o curso de mestrado em Ciência
Animal, contrariando as orientações do consultor. Este é um fato lamentável; já
que a manutenção do título de universidade depende da existência de cursos de
pós-graduação recomendados.
Não se pode exigir de um
trabalhador rural que capine uma roça sem enxada. Não se pode exigir de um
pesquisador produção semestral sem tempo para ler, refletir e buscar
referências na literatura sobre o tema a ser pesquisado e sem contar com
infra-estrutura e equipamentos adequados.
Não se pode exigir
qualidade de cursos onde predominam docentes sem treinamento e experiência. Ë
pelo oposto disso que os cursos de Ciências Agrárias obtiveram um “B” no exame
nacional de cursos e conseguiram recomendar um curso de mestrado na CAPES. Lá
existe uma equipe multidisciplinar afinada, composta por docentes qualificados,
comprometidos com a instituição e com capacidade para avaliar qualidades e
defeitos. Temos autocrítica e podemos fazer críticas construtivas.
A grande maioria dos
docentes, me incluindo entre eles, já que ajudei a formar cerca de 3000 jovens
em Agronomia, Zootecnia, Engenharia Florestal, Engenharia Agrícola, Medicina
Veterinária, Medicina, Enfermagem, Fonoaudiologia, Nutrição, Farmácia e
Engenharia Civil estão comprometidos com a formação profissional dos
estudantes, que serão seus espelhos e espelhos da Instituição no mercado.
Ninguém quer ver sua imagem tenuamente refletida. Não sei se esta preocupação é
Institucional, pois cortes semestrais de cargas horárias de cursos e de
salários de docentes não são exatamente indicadores desta preocupação.
Nosso comprometimento
com a Nação é muito grande e aumenta ano a ano, na medida em que ajudamos a
formar os profissionais que a sociedade necessita. A sociedade melhor
organizada tenderá fatalmente a escolher aquelas instituições que preservam e
elevam a qualidade de seus egressos. E a concorrência bate às suas portas.
Não se constrói uma instituição
de qualidade com arrogância, prepotência e sentimento de superioridade vindos
de consultores externos ou de quem quer que seja. Se consegue com paciência,
perseverança, esforço, dedicação e treinamento. A instituição ainda
conta com várias cabeças capazes de refletir e auxiliar no crescimento da
qualidade institucional. Preservá-las é preservar a instituição, a sociedade e
o saber. Ainda dá para reverter a queda de qualidade.
Cordiais saudações,
Alexandre Christófaro Silva