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OS
DIFERENTES TIPOS DE RESULTADOS
Consultor de
Plantão nº 32
Em
consultoria nem sempre o resultado
desejado está diretamente associado à competência do profissional
que se empenha em produzí-lo. O problema pode estar nas
cabeças dos que contratam o trabalho, que já têm pré-definido o
modelo do que acreditam ser o melhor e insistem em transformar o
consultor em mero executor de suas vontades, muitas vezes
completamente distanciadas do que realmente pode surtir algum
efeito. .
Um campônio vivia a cultivar a terra a
distribuir sementes por toda parte onde passava. Dizia que o
pouco alimento que podia reunir não faria muita diferença, mas
as árvores que plantava poderiam matar a fome de muitas e muitas
pessoas ao longo do tempo, e assim se dispôs a fazer durante
toda a sua vida.
Porém nem sempre encontrava um bom
destino para as preciosas sementes que semeava. Algumas, mal
tocavam o solo, eram devoradas por insetos e pássaros que
queriam tão somente saciar a fome daquele momento; outras caiam
sobre rochas, e pereciam ao sol antes mesmo de brotarem.
Algumas ainda caíam sobre solos rasos, nos quais finas camadas
de terra escondiam terrenos rochosos e áridos, que deixavam sem
apoio as tenras raízes, mal começavam a buscar apoio nas
profundezas para poderem crescer.
O plantador sabia de tudo isso, mas ainda
assim confiava que as sementes que germinavam nos solos férteis
e saudáveis se transformassem em belas e frondosas árvores que,
ao longo de muitos anos, produziriam sombra e alimento para
tantos quantos buscassem aproveitar e valorizar sua existência.
Ao
longo
de minha vida como profissional de consultoria tive oportunidade
de voltar a instituições onde havia feito trabalhos algum tempo
antes, e descobri que podemos nos deparar com três tipos de
situação:
a)
a daquelas que não deram qualquer continuidade a tudo o que fora
planejado, e por isso estavam agora piores do que se encontravam
na ocasião;
b)
a daquelas que cumpriram com todas as metas propostas na época, e
estavam colhendo o resultado planejado;
c)
a daquelas que não só cumpriram tudo o que fora planejado, como
souberam reproduzir os resultados muito além do que se poderia
prever na época, utilizando o conhecimento absorvido para criar
muitas outras formas de se desemvolverem.
A pergunta que ocorre após essa constatação é a seguinte: a que
se deve tais diferenças, se trabalhadas com o mesmo empenho e
pelos mesmos agentes? Difícil responder com precisão, mas formas
tão diversas de resultados têm origem muito menos em dificuldades
técnicas para implantação do que as provocadas pela própria
cultura instalada. Trocando em miúdos: mudar as cabeças é muito
mais difícil do que simplesmente mudar procedimentos.
O problema já começa pela interpretação errada que se faz de um
velho jargão que afirma que "o cliente tem sempre razão".
Isto está correto em se tratando de um cliente eventual e
momentâneo, como todos somos quando consumidores de um
supermercado ou quando buscamos um produto numa loja qualquer,
cujo processo se concretiza alí mesmo. Mas quando aplicado a um
serviço de médio a longo prazo, que envolve transferência de
tecnologia e capacitação de pessoas, o buraco é bem mais
embaixo. A começar pelo fato de que o profissional de
consultoria funciona como SOS para as empresas: da mesma forma
que na nossa cultura o médico é chamado somente quando o paciente
já dá sinais claros de estar mal, as consultorias no Brasil também
só são acionadas quando as empresas já se encontram em situações
críticas para caminharem com as próprias pernas. Assim como a
saúde física é direcionada para a doença, em vez de para a
prevenção, raros são os casos de instituições que direcionam a
melhoria de seus processos para gerar diferencial de excelência,
ao invés de apenas correr atrás do prejuízo. E é aí que a gente
vê a total distorção do provérbio com que começamos este
parágrafo: o médico que encontra o paciente em estado crítico não
pode perguntar-lhe se prefere um comprimido no lugar da
quimioterapia. Este vai ter que se submeter ao que surtir efeito
mais rápido e produzir a eficácia desejada, e o único que está
capacitado a decidir isso é o médico, não o paciente!
Não é incomum o consultor se deparar com um cliente que insiste em
interfefir no método de trabalho antes mesmo de conhecer o
objetivo e os resultados que ele se propõe a atingir. O cliente
age exatamente como o predador da fábula, preocupado apenas em
resolver o problema imediato sem medir as conseqüências dessa
decisão em termos de futuro. Para o consultor resta a difícil
decisão entre fazer o que o cliente quer, e deixá-lo satisfeito
naquele momento, ou ser fiel ao que realmente acredita em termos
de resultado e insistir que precisa ser feito da forma planejada,
o que é muito mais complicado e pode determinar a resistência para
a continuidade da relação.
A primeira alternativa - a de fazer como o cliente quer - é muito
mais simples e, por isso, bem mais utilizada por uma série de
razões, como veremos a seguir. Eu considero esse procedimento o
comumente adotado pelos que acostumei a chamar de "consultor
oba-oba". Isto porque:
a)
Implica em não levantar polêmica com o cliente e deixar tudo
"correr" conforme ele quer. Ele vai ficar feliz, achando que foi
valorizado, e vai fazer elogios depois ao trabalho (afinal a idéia
era dele!). Se a coisa piorar a longo prazo, o consultor não vai
estar mais ali, e o cliente dificilmente irá associar o fato à
escolha da pior alternativa.
b)
o mercado valoriza muito esse tipo de postura, que é típica dos
"medalhões" que vendem palestras a quilo. Tive oportunidade de
conhecer e até trabalhar com alguns consultores desse tipo: o
cara é conhecido como "showman" (seu discurso impressiona
de tal forma que o cliente sai dos encontros como quem sai de um
verdadeiro espetáculo de circo, com a alma exultante por tanto
humor, injeção de ânimo e massagem no ego); só que se tentar
aplicar o que foi mostrado na teoria, vai ser um desastre! Porém
o cliente gostou tanto do "show" que é capaz de acreditar que foi
ele que não entendeu bem como deveria ter feito. Não é difícil
entender porque se torna a alternativa mais utilizada.
c)
É a forma mais rápida de criar fama e aumentar o "cachê" sem
grandes esforços. Como verdadeiros "showmen" que se
tornam, estes medalhões estão muito mais preocupados com o próprio
sucesso e com o dinheiro que podem ganhar com ele do que com o
sucesso das empresas que os contratam. E, acreditem ou não, a
nossa cultura consumista do capitalismo ocidental reconhece muito
mais esse tipo de profissional do que os que realmente se
dedicam a produzir um resultado consistente a longo prazo. Basta
comparar quem recebe mais convites para falar na mídia e publicar
livros: se um conhecido escritor de contos místicos ou se o Dalai
Lama. Nestes tempos de sucesso instantâneo profundidade é o que
menos interessa, o que importa é a projeção!
Perdoem-me, então, os bons profissionais de consultoria - que se
dedicam a deixar um rastro de competência pelos caminhos que fazem
- se toda esta reflexão assume um caráter desestimulante para o
esforço legítimo que praticam em prol de seus clientes. Me
alenta, porém, o fato de que esses profissionais estão também
muito mais preocupados em satisfazer suas próprias consciências do
que em criar impactos pirotécnicos para os clientes ocasionais do
dia a dia. Daí porque sugiro que insistam na importância de
diagnóticos que identifiquem os verdadeiros obstáculos desde o
início (que, inclusive, representa grande economia de esforços
e recursos), e criem projetos que comecem por transformar cabeças
antes de corrigir processos.
Estes profissionais também sabem que, entre os três tipos de solos
em que atiram suas sementes, o mais frustrante e o pior deles é
aquele raso, o que aparentemente as acolhem e fingem que as deixam
criar raízes, para pouco depois abortarem a plantinha que nunca
vai virar árvore. Se serve de conforto, digo-lhes que não devem
se culpar por isso:
cada tipo de solo tem o adubo que merece.
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