"Planespotting":
a Ver Passar Os Aviões
Por INÊS NADAIS
Domingo, 3 de Março de 2002
Visitas assíduas aos aeroportos, binóculos, bloco de notas, máquina fotográfica, "scanner" de frequências e muita paciência - são estes os sinais exteriores de entusiasmo pela aviação. Em Portugal, o "planespotting" é um "hobby" em franca expansão. Cada vez há mais gente - do sexo masculino, entenda-se - empoleirada nas vedações das pistas a ver os aviões passar.
"O KLM deixou de vir? Só vem às 23h30? Que pecado!", lamenta Sérgio Crista. É sábado à tarde, faz um frio de Inverno nas imediações do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, e a ventania atravessa até os mais guarnecidos agasalhos. Nada que desmobilize uma dúzia de "planespotters" militantes. Muitos aviões para observar? Nem por isso. Mesmo assim, muito poucos dispensam picar o ponto. Ser "spotter" é ter paciência para dar e vender, e passar tardes inteirinhas à espera de uma eventual surpresa literalmente caída do céu. É um dos ossos do ofício de uma comunidade em expansão que ainda não consta do dicionário da língua portuguesa. As definições, contudo, abundam. Luís Rosa, um farense que muitos consideram o melhor "spotter" cá do sítio, arrisca uma: "O 'spotter' é alguém que tem uma paixão pela aviação e que gosta de observar e registar movimentos de aviões". Entre outras coisas.
O principal lugar-comum do discurso sobre o "planespotting" assenta na tese da diversidade da espécie: não há dois "spotters" iguais. Alguns só observam, outros registam tudo - modelo, matrícula, companhia, número de série -, outros ainda fotografam meticulosamente cada aeronave à vista. Nem todos, porque a especialização faz caminho, como em qualquer outra modalidade de coleccionismo: há "spotters" peritos em fotografia artística, em aviação militar, em ultraleves, em descolagens ou numa companhia específica. Qualquer que seja a forma ou o feitio, há, porém, um elemento em comum: os olhares espantados da família, dos amigos e do mundo geral perante tão estranha forma de vida. "Somos encarados como maluquinhos, mas já vejo isso com normalidade", garante Luís Rosa, que até tem a sorte de juntar o útil ao agradável: trabalha em pleno aeroporto de Faro, no sector de apoio às operações aeroportuárias. Um pouco como Adelino Oliveira, um dos "spotters" mais assíduos no Francisco Sá Carneiro: "Praticamente já nasci aqui. Os meus pais trabalhavam cá, o meu avô foi pioneiro na construção do aeroporto. Agora trabalho no 'catering'. Tenho acesso a mais informação e um chefe compreensivo: a qualquer altura do dia, posso sair para fotografar uma raridade", garante.
Os "spotters" de fim-de-semana, esses estão sujeitos aos humores da família. Pedro Becken, o mais novinho - estuda no 11.º ano e considera seriamente a hipótese de ser piloto de aviação ou engenheiro aeronáutico -, depende da boleia da tia ou do primo e encaixa as idas ao Sá Carneiro nos intervalos de aulas, exames e explicações. Os mais velhos têm outros afazeres. "Não deve faltar muito para a minha mulher telefonar a dizer que temos de ir às compras. É a vida!", completa Rui Ferreira, completamente alheio ao que se passa para além das nuvens. Nada, de resto. Para quem já anda nesta vida há alguns anitos, o Aeroporto Francisco Sá Carneiro pode bem ser "uma caixinha de surpresas", como o define Luís Gonçalves, presidente da Associação Portuguesa de Entusiastas da Aviação (APEA), mas de surpresas bem escassas. Talvez por isso a maior parte dos "spotters" da região passe mais tempo a ver álbuns antigos e a folhear revistas da especialidade do que propriamente a disparar, embora sempre de "scanner" (receptor de frequências) colado ao ouvido, não vão o diabo tecê-las e alguma preciosidade aterrar de imprevisto. "Como faço isto há alguns anos, este aeroporto já tem poucas novidades para mim", explica Agostinho Santos. Os poucos aviões que aparecem são cromos repetidos, mas a esperança é a última a morrer. "Estamos à espera do Euro 2004", confirma Sérgio Crista, confiante numa brutal inflação do tráfego aéreo à boleia do futebol.
Embora a comunidade "planespotter" esteja definitivamente em expansão, as relações com as autoridades e com a população em geral ainda não estão completamente no ponto. "Tratam-nos como 'voyeurs', como 'paparazzi'", explica Rui Ferreira. "Às vezes vêem-me aqui a fotografar e gritam: 'Ó parolo, nunca viste um avião?'", acrescenta Adelino. Buracos na rede - "aparecem acidentalmente, mas a verdade é que dão um certo jeito para encaixar as objectivas", ironiza alguém - e invasões de propriedade privada à parte, as coisas são mais ou menos pacíficas. Mesmo assim, Adelino já teve o azar de ser chamado a tribunal à conta do seu inofensivo passatempo: o avião fez escala em Lisboa em direcção a Milão, mas vinha com ameaça de bomba a bordo. "Vi carros de bombeiros alinhados ao longo da pista, mas continuei a observar de binóculos. Meia hora depois, passou um 'jeep' da polícia que me identificou. Passados uns meses, recebi um postal em casa para ir a tribunal. O juiz até se riu...", recorda.
A preciosa ajuda dada aquando da queda do Concorde em Paris - foram dois "spotters" húngaros os autores das primeiras fotos, que se revelaram mais tarde um instrumento indispensável às investigações - pacificou as relações, mas os atentados de 11 de Setembro obrigaram as conquistas dos "spotters" a recuar à estaca zero. "Estive no aeroporto de Madrid em Novembro de 2001. A polícia chegou a revistar-me o carro todo", exemplifica Júlio Calixto. A queixa é generalizada: em Portugal, diz-se unanimemente, "não há condições de 'spotting' providenciadas pelas autoridades". As tradicionais varandas receberam ordem de extinção e "zonas dedicadas, como há em Amesterdão, Zurique ou Miami", nem vê-las.
O veterano José Luís Lopes foi quem mais sentiu na pele os anos inglórios. Há quem diga que é pioneiro no "planespotting" nacional e é bem provável que o seu "portfolio", com cerca de 11.500 fotografias, seja recordista. "Tenho casa em Olhão e costumo lá passar férias. Houve um ano, talvez ainda na década de 80, em que vi a placa do Aeroporto de Faro com 15 aviões, todos diferentes. Achei engraçado. Desde então, fotografo tudo o que voa - desde que tenha matrícula", sublinha. Admite gastar em média 300 contos por ano: um valor que inclui material fotográfico diverso e o investimento em "scanners", binóculos, blocos de notas, protecção solar, revistas e álbuns, descontadas as despesas de transporte. "Gasta-se mais com um maço de tabaco por dia", argumenta.
Mas a inflação das despesas não é o único sacrifício a que se sujeita um "spotter" que se preze. Lama, intempéries, cães ferozes e insultos vários são alguns dos rituais de iniciação que fazem a praxe. E, claro, as intermináveis esperas. "Já me aconteceu abandonar refeições a meio ou passar um dia inteiro sem comer nem beber à espera de um avião que não veio", confessa Luís Rosa. Há mesmo quem esteja em casa de orelha colada ao "scanner", à coca de alguma novidade anunciada via comunicações aéreas. Luís Gonçalves leva o passatempo às últimas consequências. Em casa, tem uma sala inteiramente dedicada à aviação: um móvel com miniaturas, uma prateleira pejada de álbuns, as melhores fotografias emolduradas na parede, um computador só para os registos e a guarnição está completa.
É talvez por essas e por outras que o "spotting" é um "hobby" tendencialmente masculino - a APEA tem uma associada, mas trata-se da namorada de um "spotter" a pôr em prática o ditado "se não podes vencê-los, junta-te a eles". Aos poucos, porém, o entusiasmo ganha terreno. E até há um ou outro piloto que entra no jogo e faz a "paradinha" sempre que avista um "spotter" de máquina em riste. Paixão é paixão, garante Luís Rosa: "O elemento natural do homem não é o céu. Por isso, cada vez que um avião descola, o homem desafia a Natureza".
Há aeroportos e aeroportos. E um "spotter" que se preze passa a vida a inventar formas de visitar as maiores mecas do mundo: Miami, Los Angeles, Tóquio, Hong Kong, Dubai, Sharjah, Sydney, Frankfurt e S. Paulo. A oferta caseira é escassa e redundante, pelo menos ao fim de alguma rodagem - ainda que cada aterragem do Antonov 124, o maior cargueiro civil do mundo, continue a entupir o trânsito da Estrada Nacional n.º 107, invariavelmente condicionado aos domingos por dezenas de famílias de nariz no ar. E se os "spotters" do Porto esperam que as obras de ampliação reanimem o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, cuja vivacidade vai dependendo da frequência de imprevistos - escalas técnicas, reabastecimentos, voos de entrega do Brasil para o Norte da Europa, e fluxos gerados pela Exponor, pelo Europarque e pelas competições europeias -, também os frequentadores da Portela se queixam da monotonia do seu aeroporto, cujo tráfego regular é mais intenso graças às companhias de bandeira.
Luís Padrão, por exemplo, aproveitou o fórum de discussão do "site" avioesonline.net, para dar conta da rarefacção dos motivos de interesse em Lisboa: "Amigos 'spotters': se quiserem passar umas horas de repouso, este é o aeroporto ideal. Não têm de apontar muitas matrículas, nem de gastar muitos rolos de fotografias. Há o perigo de o rolo se estragar por estar meses dentro da máquina, mas isso resolve-se com uma ida a Madrid. E até dá para dormir uma sesta, à espera que chegue o próximo". Um Verão no aeroporto de Faro, contudo, já é outra coisa. "É uma época alta para a aviação: podem operar aqui 60 ou 70 companhias diferentes. Os voos 'charter' trazem outro ritmo", nota Luís Rosa.
Em qualquer dos casos, os fóruns de discussão vão servindo como jornal de parede: é lá, e no "site" da ANA, que os "spotters" vão recolhendo as novidades sobre a navegação aérea em espaço nacional. E as páginas pessoais com "dicas" sobre os melhores locais para o "planespotting" vão-se expandindo: Pedro Becken e Luís Rosa, por exemplo, usam-nas também como montra para os seus "portfolios". Mas se é fotografia de aviação que se pretende degustar, não há que enganar: a morada é http://www.airliners.net e está lá tudo.
"Spotters"
Fundaram Associação em 1997
"Hobby" teve origem numa organização semimilitar britânica da II Guerra Mundial, o Royal Observer Corps
A Associação Portuguesa dos Entusiastas da Aviação (APEA) foi fundada em 1997, quando uns quantos "spotters" do Porto perceberam que a melhor maneira de "ver o 'hobby' reconhecido pela Força Aérea e pela ANA" era criar uma estrutura legal capaz de defender interesses comuns, explicou ao PÚBLICO o presidente, Luís Gonçalves. Desde então, já angariou "entre 40 e 50 sócios" e organizou viagens a aeroportos, uma exposição de fotografia, visitas de estudo a torres de controlo e até sessões oficiais de "planespotting" na placa do Aeroporto Francisco Sá Carneiro para membros credenciados. "Já trabalhamos bastante bem com a ANA", afirma Luís Gonçalves. Os planos para o futuro incluem o lançamento de uma "newsletter" com notícias da aviação em Portugal e visitas ao museu e aos serviços de manutenção da TAP, à base aérea de Beja, ao Museu do Ar, à placa do Aeroporto da Portela e às obras de ampliação do aeroporto do Porto. E, claro, o alargamento da base de sócios.
Os números não têm base científica, mas haverá já largas dezenas de "spotters" portugueses. Luís Gonçalves calcula que sejam entre 300 e 500, Luís Rosa, mais cauteloso, estima uma comunidade de 70 a 100 entusiastas. Uma gota de água: em 1997, havia mais de 66 mil "spotters" registados em associações britânicas. Não admira: ao que tudo indica, foi lá que nasceu o "planespotting". "Julgo que este 'hobby' teve origem numa organização semimilitar britânica da II Guerra Mundial, o Royal Observer Corps. Este corpo complementava a rede de radares de defesa aérea, consistindo em grupos de voluntários que tinham por missão detectar visualmente os aviões alemães e avisar a Royal Air Force da sua proximidade", explica José Mira, lembrando que o "hobby" corresponde a uma extensão do conhecido "trainspotting" britânico.
In Público