I. O QUE É O COMUNISMO?
O comunismo é a negação do
capitalismo. É um movimento gerado pelo desenvolvimento e até mesmo pelo sucesso
do modo de produção capitalista, que acabará por derrubar, dando lugar a um
novo tipo de sociedade. Onde se encontra agora um mundo baseado no salariado e na mercadoria deverá vir a estar um mundo no
qual a actividade humana não mais será o trabalho assalariado e no qual os
produtos dessa actividade não mais serão objectos de comércio. A nossa época é
a época dessa metamorfose. Reúne os elementos da crise do capitalismo e todos
os ingredientes necessários à resolução comunista dessa crise. Descrever os
princípios do comunismo, examinar como permitem assegurar a vida futura da
humanidade e mostrar que estão já em funcionamento sob os nossos olhos é o que
tentaremos fazer aqui.
FICÇÃO CIENTÍFICA?
Queremos ilustrar o que será o mundo
de amanhã, a sociedade comunista com a qual sonhamos. Não se trata, de todo, de
rivalizar com a ficção científica nem com o jornalismo, escrevendo uma
reportagem sobre a vida das pessoas e dos animais do futuro. Não dispomos de
nenhuma máquina do tempo!
Apesar do interesse da questão, não
podemos prever quem levará a melhor na guerra que os opõe: as calças ou as
saias, a sopa de legumes ou a sopa de ninho de andorinhas. Em última análise,
nem sequer podemos garantir que a humanidade terá um futuro. Quem nos garante
que não vamos ser varridos por uma guerra atómica ou por um cataclismo cósmico?
Dito isto, fazer previsões continua
a ser possível e desejável. Pretendemos descrever a sociedade comunista com
base nas suas regras gerais de funcionamento, insistindo nas suas diferenças
relativamente à sociedade presente. É preciso mostrar que o amanhã pode ser
diferente de um hoje simplesmente melhorado.
Para não sermos demasiado insípidos
entraremos por vezes em pormenores, daremos exemplos. Estes não são para levar
demasiado a sério. Poderão imaginar outros diferentes, recusar os nossos.
O futuro não é um terreno neutro. O
capital tende a ocupar e a submeter a si todo o espaço social. Não consegue,
como imaginam os autores de ficção científica, organizar o comércio das suas mercadorias
e dos seus assalariados entre o passado e o futuro. Desforra-se no domínio da
publicidade e da ideologia. Somos convidados a viver o presente à hora do
futuro, a comprar hoje o relógio ou o carro de amanhã. Concepções sucessivas,
concorrentes e por vezes “anticapitalistas” de um
futuro capitalista baralham o nosso presente.
Debater a organização comunista da
sociedade é, apesar do risco de errar, começar a levantar a chapa de chumbo que
pesa sobre as nossas vidas.
A velha questão dos reaccionários,
“Mas o que propõem vocês então, como alternativa?,
deve, desde já, ser refutada. Nós não somos mercadores de ideias. Não andamos a
lançar no mercado nenhuma sociedade alternativa, como se estivéssemos a lançar
alguma marca de sabonete. O comunismo não é objecto nem de comércio nem de
política. É a crítica radical destes. Não é nenhum programa que se oferece,
mesmo democraticamente, à escolha dos eleitores ou do consumidor. É a esperança
para as massas proletarizadas de não mais ser reduzidas ao estado de eleitor ou
de consumidor. Quem se puser na posição de espectador, quem quiser julgar sem
se comprometer fica excluído do debate.
Se é possível falar da sociedade
revolucionária é por esta estar em gestação na sociedade presente.
Algumas pessoas acharão certamente
as nossas teses muito levianas e ingénuas. Não esperamos convencer toda a
gente. Se isto fosse possível seria inquietante! De qualquer forma há quem
prefira arrancar os olhos a reconhecer a verdade das nossas posições.
A revolução proletária será a
vitória da ingenuidade sobre uma ciência servil e insensível. Que aqueles que
exigem demonstrações tomem cuidado! Estas arriscam-se a ser feitas não na calma
dos laboratórios mas violentamente e na sua pele.
Antes de dizer o que é o comunismo
convém antes de mais limpar o terreno. Há que denunciar as mentiras a propósito
deste e há que dizer aquilo que não é o comunismo. Pois se o comunismo é uma
realidade tão simples, tão ligada à experiência quotidiana que quase se torna palpável,
não deixaram de se desenvolver as maiores mentiras a seu respeito. E isto, só é
um paradoxo para aqueles que ignoram que na “sociedade do espectáculo”, é
justamente o significado do que é quotidiano e familiar que deve ser recalcado.