AS FORMAS DE
UMA COMUNIDADE ILUSÓRIA
O interesse geral
Qualquer sociedade deve ser ou deve fazer crer aos homens que a constituem
que é uma emanação dos seus interesses. Ao contrário das comunidades
precedentes, que tinham uma existência natural para todos como fonte e condição
da sua existência, as sociedades mercantis, nas quais os indivíduos são
independentes, separados, devem apresentar-se como associação voluntária num
grupo nacional oposto aos outros e tendo por objecto a defesa dos seus
interesses comuns. São, na guerra de todos contra todos, uma espécie de
associação, de sindicato, cujo nome é a nação.
O famoso interesse geral, que faz as delícias de todos os ideólogos e serve
para esconder todos os atentados e violências contra os indivíduos, é a ideologia
fundadora desta sociedade. Mas de onde provém então a necessidade deste
interesse geral unificador, numa situação em que a «mão invisível», segundo os
economistas, supostamente coordena pelo melhor as atividades de todos, e aquilo
que os filósofos chamam a razão impõe a sua lei unificadora através da astúcia?
É porque, logo que o indivíduo se torna independente, como um novo ídolo da
sociedade moderna, solicitado a actuar de acordo com os seus interesses
privados, estes surgem representados pelo valor, o dinheiro, e todas as
categorias daí derivadas. Os seus interesses, necessidades e formas de os
satisfazer, são o ganho; essa é a validação social dos seus esforços e da sua
existência. Logo «o espírito empreendedor» e o dinamismo são também, necessariamente,
o egoísmo, a ambição, num processo cego e anárquico da produção, que é ao mesmo
tempo o seu próprio fim. Todos estes comportamentos fundam o que nós chamamos o
interesse privado.
Mas numa sociedade em que a concorrência e a luta são o pão-nosso de cada
dia, os interesses privados agrupam-se em conjuntos mais ou menos largos na
base de interesses comuns face aos outros. Vimos assim nascer as classes com a
extensão da divisão social do trabalho própria das sociedades mercantis. Em
primeiro lugar a burguesia, pequena e grande, rural e urbana (o «terceiro
estado» de 1789) organizou-se a fim de obter o seu acto oficial de nascimento:
a propriedade pessoal e a livre empresa. Afinal não é assim tão livre, visto
que necessita da organização de um mercado, com as suas regras, as suas leis e
instituições para as fazer aplicar e também para garantir a sua defesa e
extensão.
É então, como sabemos, que o interesse geral adquire a forma de interesse
nacional. Quer dizer, que o mercado se insere pouco a pouco no quadro das
antigas comunidades fundadas nos laços pessoais (tais como a monarquia
centralizadora, que provém do feudalismo). Este quadro forneceu o seu invólucro
acabado à nova sociedade (limites geográficos, unidade da língua, da cultura,
da administração e da história comum).
Já voltaremos à nação (e ao Estado que lhe corresponde). Por agora vejamos
apenas que se trata de uma comunidade paradoxal: no fundo existe a separação
dos indivíduos em proprietários independentes. De fato o que os une, o
interesse geral, é-lhes imposto como necessidade, obrigação e limitação.
Portanto, se a burguesia teve de desenvolver a noção ideológica do
interesse geral, quando a unidade e a complementaridade dos actos individuais
deveriam ser asseguradas pela mão invisível ou pela astúcia da razão, foi
porque, evidentemente, não se tratava de nada disso. Comportamentos individuais
baseados em escolhas isoladas, ignorando a dos outros, só podem conduzir à
anarquia. Baseados no lucro pessoal, e portanto na economia no tempo de trabalho,
só podem conduzir a crises, visto que a redução do tempo de trabalho leva à
diminuição da riqueza, pois é ele que produz lucro neste sistema. Determinadas
pela divisão social do trabalho que cava cada vez mais as diferenças de classe,
só conduzem a conflitos que minam a unidade social. E a lista de separações e
contradições que são a essência do capitalismo não se fecha aqui. A unidade
social tem então que ser garantida por outros meios, autoritariamente.
Assim, o indivíduo mercantil, o burguês, tem e vive interesses privados na
esfera económica que devem ser completados pelos interesses do «cidadão», outro
homem completamente inventado para viver numa esfera igualmente inventada para
esse fim: a esfera política.
Na primeira, encontramos os interesses pessoais do indivíduo independente.
Na segunda, o indivíduo organiza uma unidade social separada dele, através de
instituições engenhosas em que delega o seu poder.
Fá-lo porque é-lhe necessário encontrar condições gerais que permitam o
exercício da sua atividade, a qual, embora por ele concebida como independente
da dos outros, nem por isso deixa de ser colectiva e social. Por exemplo, são
necessárias leis que dêem base a um mínimo de organização fora da qual os
indivíduos não podem socializar as suas atividades (protecção da propriedade,
regulamentação das trocas, gestão das finanças públicas, da moeda, etc.). É
necessário que as atividades de uns não impeçam as atividades de outros; seria
o caso, se o apetite do ganho imediato fosse arbitrário, acabando na pilhagem
generalizada dos recursos, no roubo, na desordem social, no esgotamento total
dos homens (no trabalho infantil, por exemplo) se um estragasse o que outro
precisa de utilizar.
O interesse privado deve incessantemente ser limitado pelo interesse geral,
sob pena de desaparecer. É o que diz o adágio: «A liberdade do indivíduo acaba
onde começa a liberdade dos outros». O que significa, em resumo, que acaba em
relações sociais baseadas na separação e na destituição.
E quanto mais o desenvolvimento do capitalismo aumenta as separações dos
indivíduos entre si e do domínio das suas formas de existência, tanto mais a
burocracia do Estado deve garantir as condições gerais da rentabilidade do
capital, tomando a seu cargo sectores cada vez mais extensos: estradas,
habitação, hospitais, circulação monetária, polícia, prisões, ensino, etc.
Aliás, com a concentração do capital nos monopólios, o capitalismo tende cada
vez mais a despersonalizar-se e a estabelecer-se como capital em geral, com o
seu exército de funcionários e de gestores, substituindo-se aos capitalistas
privados.
Assim, o interesse geral impõe as suas exigências, a sua coerção sobre os
interesses privados, que sem ele não poderiam existir. Ao mesmo tempo que é a
sua condição de existência, o interesse geral tem de opor-se-lhes e impor-se
como força estranha.
O interesse privado, alienação do indivíduo no dinheiro e em todas as
formas autónomas do valor, deve simultaneamente alienar-se no interesse geral
representado pelo Estado. «Os interesses pessoais acabam sempre por se
transformar, a despeito das pessoas, em interesses de classe, em interesses
comuns que, face às pessoas individuais, se tornam autónomos e, sob este
aspecto autónomo, tomam a forma de interesses gerais; depois, nesta qualidade,
entram em conflito com os indivíduos reais...”[19]
Verificamos isso claramente, por exemplo, no direito. O direito burguês é
antes de tudo e principalmente direito privado. É o direito do indivíduo
mercantil: da propriedade e da codificação da troca (o contrato). É o direito abstrato
do indivíduo abstrato, ignorando as diferentes necessidades dos diferentes
indivíduos, qualificados como iguais. O fetichismo da mercadoria desemboca no
fetichismo jurídico, numa ficção. Mas com o desenvolvimento da sociedade civil e
do Estado, desdobra-se em direito público, direito do interesse geral, que se
opõe aos interesses privados (por exemplo, o direito de expropriação no
urbanismo, o direito do trabalho, etc.).
Para estes indivíduos que não têm relações imediatas entre si a não ser
através das coisas, a sociedade (conjunto destas relações) é-lhes pois
exterior: política (no Estado) e ideológica (no interesse geral). Vimos que,
por estas mesmas razões, esta sociedade surge-lhes como constrangimento, por um
lado, e como meio para satisfazer os seus interesses privados, por outro. Resulta
daqui uma dupla atitude a respeito do Estado que a representa: o protesto, o
conflito, contra tudo o que coarcta a liberdade individual mercantil, e ao
mesmo tempo o apelo de socorro, o pedido de ajuda para proteger e valorizar os
seus interesses. O Estado acaba por ser o responsável de tudo no domínio
social, os indivíduos de nada: o cúmulo do paradoxo para um sistema
pretensamente fundado no indivíduo! Tocqueville já o assinalara quando descreveu[20]
a sociedade como um poder social colocado acima dos indivíduos, «um poder
imenso e tutelar, absoluto, minucioso, regular, previdente e indulgente. Ele
trabalha para a sua felicidade mas pretende ser o único agente e o único
árbitro. Tira-lhes o encargo de pensar e a preocupação de viver! Não destrói,
impede o nascimento e embrutece…». Até parece que este arauto da democracia
burguesa a descreve como o que viria a ser chamado o comunismo!
Neste sistema é apenas como cidadãos, como homens políticos, que os
indivíduos são membros activos (ou melhor, passivos) da comunidade, não como
indivíduos concretos. E é na medida em que têm, em função da sua pertença de
classe ou de grupo, a sua própria noção de interesse geral – tornado para eles
interesse ideal – que agem no domínio político para tentar impor esta noção aos
outros.
Por um lado, os outros homens são para os indivíduos apenas meios. Por
outro lado, a comunidade dos indivíduos é necessária à sua existência. Por um
lado, na vida prática da sociedade civil, o indivíduo não existe para os
outros. Por outro lado, é necessário construir uma comunidade, o Estado
político, onde o indivíduo é apenas membro imaginário, sem qualquer poder. Este
Estado é uma comunidade ilusória, oposta aos indivíduos de uma sociedade civil
real, não comunitária (sem relações sociais pessoais). Porque a sociedade civil
mercantil é uma comunidade impossível, torna-se necessário o artifício da
sociedade político-estatal, comunidade ilusória, aparelho coercivo real.
Deixemos Marx resumir uma vez mais este fato, dado que foi o primeiro a
colocá-lo: «É precisamente em função desta oposição entre o interesse
particular e o interesse comum que este toma, na forma de Estado, uma
configuração autónoma, desligada dos interesses reais, individuais e
colectivos, ao mesmo tempo que se apresenta como comunidade ilusória, mas
sempre na base real dos laços existentes... de sangue, de língua, de divisão do
trabalho e outros interesses; especialmente... na base das classes sociais
produzidas pela divisão do trabalho... onde uma domina todas as outras.
Segue-se que todas as lutas no seio do Estado, a luta entre a democracia, a
aristocracia, a monarquia**, a luta pelo sufrágio, etc., são apenas
formas ilusórias – o geral sendo sempre forma ilusória do comunitário – nas
quais as lutas das diferentes classes se travam... segue-se, por sua vez, que
toda a classe que aspira ao poder – mesmo se este poder tiver por objetivo,
como acontece com o proletariado, a abolição de todas as antigas formas da
sociedade e de dominação em geral – tem que apoderar-se do poder político a fim
de apresentar ela própria, também, o seu interesse como interesse geral, a que
é obrigada desde o início»[21].
Observemos que a afirmação de que o interesse geral é apenas uma forma
ilusória do comunitário vale também para o proletariado. Se ele faz passar, na
longa luta revolucionária, os seus interesses de classe como interesse geral, é
unicamente porque tem de conquistar o poder de Estado. Desde que haja Estado,
existe uma comunidade ilusória baseada na ideologia ilusória do interesse
geral. O comunismo não é o triunfo do interesse geral, mas o seu
desaparecimento (do mesmo modo, o interesse de classe último do proletariado é
o seu desaparecimento). O triunfo do interesse geral colocado como absoluto,
acima de tudo, ilimitado, é o totalitarismo, que é a tendência histórica de
todas as sociedades capitalistas.
A ilusão do poder político baseado no interesse geral é a de se julgar
(pelo menos quando é íntegro, o que não é fácil desde há muito tempo porque,
justamente, já não ilude, permanecendo apenas como suporte da ambição e do
enriquecimento pessoal) capaz de o representar efectivamente, de impor a sua
vontade. É esta ilusão que leva os reformistas sinceros (se é que ainda
existem) a acreditar que podem dirigir e afeiçoar a sociedade ao seu gosto,
através de uma judiciosa utilização do Estado.
De um modo geral, a ideologia patriótica e democrática julga poder apelar
ao sentido cívico, à consciencialização de que o bem comum é a mais elevada expressão
do bem privado, ao altruísmo, à solidariedade e a outros «valores» morais para
fundir interesses privados no interesse geral. Mas nenhum destes meios
ideológicos pode unir o que está concretamente, de fato, materialmente separado
nas relações sociais, na divisão social do trabalho capitalista onde as atividades
intelectuais e de execução, trabalho e fruição, produção e consumo, recaem
sobre indivíduos distintos.
O interesse geral oposto aos indivíduos, na qualidade de fundamento
ideológico de uma comunidade ilusória, na qualidade de força exterior, é, como
dissemos, representado pelo Estado. Deste modo não será inútil determo-nos
sobre algumas das suas formas modernas para mostrarmos que, sejam quais forem,
são de fato uma forma ilusória de comunidade.
O Estado-Nação
Se designamos a sociedade civil como a colectividade dos indivíduos
constituída nas suas relações mercantis, é necessário colocar acima dela um
Estado político incarnando supostamente o interesse geral. Paradoxo escandaloso
num sistema que despoja os homens do seu poder social ao mesmo tempo que os
proclama indivíduos.
Ao surgimento histórico deste indivíduo, proprietário, liberto de qualquer
laço de dependência pessoal, da sociedade civil mercantil, corresponde o
surgimento do cidadão e da democracia na sociedade política mercantil.
A revolução de 1789 é, como se sabe, o modelo clássico deste fenómeno
histórico. Ao confirmar decisivamente, pela abolição dos direitos feudais, a
primazia do indivíduo, teve ao mesmo tempo que afirmar o Estado, cujo aparelho
se esboçara na monarquia centralizada e absoluta, apresentando-o como expressão
e instrumento da voluntária associação de homens livres numa nação.
Este Estado, na altura revolucionário, é duplo. É a emanação dos indivíduos
(os clubes, o povo em armas, os indivíduos diretamente constituídos em força
política) e a garantia do seu novo estatuto. Simultaneamente organiza e protege
a liberdade fundada na propriedade, a igualdade de todos perante uma lei única,
necessária inicialmente para romper os laços de dependência pessoal, as
sujeições, os privilégios, acrescentando a fraternidade, visto que é preciso
tentar unir através de uma palavra (os jacobinos falavam de virtude) o que a
proclamação do indivíduo isolado tinha separado. Assim nasceu o indivíduo-cidadão.
Observámos o resultado disto na separação crescente entre o indivíduo real,
cada vez mais desapossado, e o cidadão, cada vez mais abstrato.
O cidadão é o indivíduo que aliena o seu poder social na representação
política. Quanto mais o delega no voto, menos poder tem. E quando não vota,
ainda é pior: é dominado pela força. De fato, o poder real do Estado está cada
vez mais nas mãos de uma burocracia não eleita.
Democracia, nação, estado, são os meios e as formas de uma comunidade
ilusória. Dizer que ela é ilusória é dizer que não é a realidade vivida pelos
indivíduos concretos da sociedade civil, é a ilusão de um poder sobre o seu
destino. Não é dizer, por conseguinte, que não existe na consciência
mistificada dos indivíduos. Muito pelo contrário, a história já mostrou
suficientemente a consistência que adquiriu a nação como base ideológica e
política da unificação dos indivíduos e dos seus comportamentos.
A sociedade mercantil utiliza naturalmente como quadro da sua unidade laços
comunitários precedentes, como o território, a língua, a cultura, a história
comum, etc. Mas isso não resolve o problema: por que razão a língua e a cultura
são necessariamente representadas por uma nação ou por um Estado? A resposta é
porque o Estado ou a nação as põe ao seu serviço; de meios de comunicação entre
os homens que eram, tornam-se meios de troca ao serviço do mercado (suportes
dos valores de troca). Este fixa-se num território em concorrência com outros
mercados. E aqui temos o Estado a organizar a luta e a história a justificar
estes combates (guerras coloniais e nacionais) em nome da eternidade nacional,
desde os nossos ancestrais gauleses, e da santificação da pátria (e da negação
da luta de classes).
Enfim, evita-se a questão para não se responder que a nação, com a sua
língua e a sua cultura, é a forma territorial, estatal, cultural, de um
mercado, o qual, como já vimos, é o reino das coisas, o contrário de uma
comunidade, e é necessariamente dominado pela classe que organiza o seu pólo
acumulador. Citando apenas um exemplo, é sabido que a promoção da francofonia
esteve sempre ao serviço do imperialismo francês.
Na origem da dispersão e unificação dos múltiplos territórios feudais, no
quadro de uma circulação livre e alargada dos homens e das mercadorias, a nação
fixa-se progressivamente numa ideia, apoiada na força do Estado, domando os
indivíduos e afirmando que isso é um exigência em seu próprio nome, que remem
na mesma galera, que lhe devem ser devotados até ao último sacrifício na
veneração da deusa pátria, e fuzilados se lhes ocorrer a ideia de querer ser
indivíduos livres.
O Estado moderno é claramente um estado de classe, de organização do poder
da classe dominante. Esta verdade é de tal modo evidente em cada dia que passa
que se torna inútil retomar aqui a sua demonstração, tantas vezes já feita.
Face a este fato, as eternas discussões sobre a sua forma, centralizada ou
federalista, presidencial ou parlamentar, liberal ou policial (até mesmo
fascista), são irrisórias, de qualquer forma secundárias.
Estado de classe não significa que seja apenas um instrumento passivo nas
mãos da burguesia. Por um lado, ele deve persuadir o mais possível que incarna
o interesse geral, que é a justificação da sua existência, e apresentar-se
assim como instrumento de conciliação, de arbitragem, de equidade, de «serviço
público». Toma essa aparência quando organiza as alianças de classe necessárias
ao exercício do poder da burguesia, propondo um certo número de vantagens
financeiras, de lugares, de sinecuras no aparelho de Estado, protecções
corporativas, gerindo serviços centrais como o ensino, a saúde, etc. Por outro
lado, inclusive na nossa época dos monopólios, a burguesia não está unida, mas
dividida segundo interesses, castas e grupos. O Estado tem então, também, de
fazer o papel de «conselho de administração» da burguesia, de ser gerente do
capital, a fim de desempenhar uma estratégia que lhe seja comum.
Por fim, o Estado é o instrumento de classe no sentido em que tem por
função reproduzir as condições de acumulação do capital, relações sociais
capitalistas, que são as condições de existência da burguesia como classe, o
que não exclui, antes pelo contrário, a autonomia do Estado em relação aos
burgueses tomados como indivíduos ou grupos particulares. Seria demasiado
restritivo defini-lo apenas como «o Estado dos patrões», obedecendo-lhes
totalmente, ou tomá-lo como simples correia de transmissão. Por exemplo, quando
toma decisões sobre a fiscalidade, faz investimentos de infra-estruturas e
procede a nacionalizações, não é este ou aquele patrão que favorece, mas a
reprodução do capital em geral.
Pode mesmo acontecer que, em situações históricas de crise, a burguesia se
encontre enfraquecida e as forças de classe quase equilibradas num face-a-face
caótico. Neste caso o Estado ainda se autonomiza mais, ao mesmo tempo que a
burguesia desacreditada se deve apagar um pouco da cena política, procurar
alianças, e para isso ceder mais lugar no Estado à pequena burguesia e fazer
aparecer um aparelho político com uma imagem mais popular, como instrumento ao
serviço de todos, de toda a nação e acima dos interesses particulares das
classes de cuja exacerbação parece ter resultado uma desordem insuportável.
Foi este fenómeno que a França conheceu com os dois Bonaparte, depois mais tarde
a Europa com o fascismo, onde encontramos um dos seus fatores explicativos
essenciais. As diferentes formas de Estado não mudam na essência a sua natureza
de classe, assim como o seu papel, enquanto instrumento de opressão sobre os
indivíduos. Mas como isto é constantemente negado, convém que nos detenhamos um
pouco sobre esta questão.
Formas de Estado, totalitarismo e democracia
A Alemanha nazi é o protótipo do sistema fascista que acabamos de evocar.
Conhece-se bem a sua origem. Foram as lutas revolucionárias do proletariado, a
ruína do país e do Estado imperial depois da Primeira Guerra Mundial, a
impotência da burguesia para pôr a funcionar um Estado democrático clássico
(República de Weimar) nesta situação de caos, acentuada pela crise económica
dos anos 20 que arruinou as classes médias, e o seu ressentimento e
permeabilidade, que acabaram por favorecer a demagogia fascista. Nesta
situação, o proletariado alemão lançava-se na via insurreccional, apoiado no
exemplo russo, e isso levou a burguesia a aceitar e a favorecer política e
financeiramente a tomada do poder pelos nazis.
O Estado fascista é burguês neste sentido: numa situação de crise aguda, é
a última solução que se oferece a esta classe para salvar o que lhe serve de
alicerce, as relações sociais capitalistas. Neste caso, a aliança do grande
patronato com o exército e com os nazis (que agrupavam os desclassificados ou
os que receavam vir a sê-lo, de todas as camadas populares, nomeadamente os
pequeno-burgueses) constituiu o compromisso necessário para derrotar um
proletariado que se mostrava muito bem organizado e ameaçador, a fim de
estabelecer a «ordem» da exploração salarial. Em
A burguesia alemã, em pânico com o comunismo, apoiou o fascismo até quase
ao fim sem se aperceber, a não ser quando já era demasiado tarde, também para
ela, das relações de força mundiais, da irracionalidade generalizada, do
absurdo das suas teorias primárias que empurravam a Alemanha capitalista para
um beco sem saída que só poderia acabar na derrota.
Todavia, o fascismo não foi apenas um instrumento do grande capital, como
pretendeu, equivocadamente, a III Internacional. Se este apoiou os nazis foi
porque eles eram uma força anticomunista muito influente que enquadrava as
massas populares na esperança de um futuro melhor fundado num renovamento
mítico da comunidade, manchada e destruída, segundo ele, pela luta de classes,
pelos internacionalistas, pelos cosmopolitas, pelos estrangeiros, etc. A
ideologia fascista é uma miscelânea de reminiscências de laços comunitários
primitivos com as suas formas ilusórias modernas, levadas ao extremo: do
nacionalismo ao racismo, do Estado «nem capitalista nem comunista» ao
totalitarismo absoluto, com a pátria acima do próprio Deus.
As circunstâncias particulares do seu advento, a base ideológica e social
específica do fascismo, justificando a ditadura do chefe, a violência,
reforçada pela conquista do aparelho do Estado, tornaram-no uma força que
obteve uma certa autonomia no plano político em relação à burguesia, à qual
impôs os seus próprios quadros e também, em parte, a sua estratégia política.
Mas vejamos a especificidade do fascismo sob o ângulo que nos interessa
aqui: quem são os indivíduos do capitalismo? Nesta perspectiva, o fascismo é a
expressão política do extremo a que é conduzido o movimento histórico das
sociedades capitalistas quando os antagonismos indivíduos/sociedade, interesse
privado/interesse geral são levados ao ponto em que o indivíduo e o interesse
privado se devem apagar perante o interesse geral constituído em força
dominante absoluta e exclusiva.
Para o fascismo alemão, o indivíduo só existe na medida em que triunfem
acima de tudo e todos a nação e a «raça» alemã. É uma resultante lógica e
necessária do capitalismo quando o movimento histórico, feito de separações e
de antagonismos, atingiu, com o desenvolvimento inelutável de crise na
sociedade civil, uma extensão tal, que só a força bruta colocada acima dos indivíduos,
em nome da nação ou da raça, parece poder impor a unidade social sem tocar nas
relações mercantis fundamentais (o que permitiria a outra solução,
revolucionária). Este sentimento nacionalista reforçou-se na Alemanha, devido à
derrota de 1918 e às humilhantes reparações impostas pelos Aliados. Mas o
paradoxo é que na nação e na raça que pretensamente dariam o triunfo ao
indivíduo alemão, este desapareceu completamente, para ficar apenas o bando, a
multidão, a massa uniforme e gregária.
Na crise, e tendo em conta as particularidades que ela assumiu na fase do
capitalismo dos trusts mundiais, o fascismo emergiu como uma condenação
das divisões sociais, propondo a reunificação (o «fascio», o feixe) da
comunidade. Em palavras condena o egoísmo de todos os interesses privados e o
cosmopolitismo «sem pátria». Nos fatos ataca a classe operária e, no que toca
aos capitalistas, apenas a alguns bodes expiatórios (como os judeus na
Alemanha).
Com a pretensão de construir um Estado acima das classes e dos interesses
privados, diz que trabalha para o interesse geral de todos, da nação, discurso
que recebe necessariamente bom acolhimento num momento de caos que instiga a
«cerrar fileiras», quando a desordem, a corrupção, a impotência da classe
política tradicional, desacreditada, convida à sua substituição por algo
«novo».
Uma vez que condenava verbalmente as classes egoístas que dividiam a
sociedade e pretendia poder uni-las em «feixes» solidários, é lógico que
condenasse também a cidadania e a democracia, expressão política do chamado
primado do indivíduo e do individualismo divisionista. A unidade social seria
então baseada na combinação do mito moderno da nação como comunidade, cuja
unidade é simbolizada pelo chefe, com os laços desaparecidos das velhas
comunidades: o sangue, a raça, a terra. Como se a partir de tais fantasmas
fosse possível dar alguma substância a esta pseudocomunidade que é a nação!
Verificámos que a época do capitalismo dos monopólios é evidentemente a
divisão do trabalho conduzida ao extremo, e portanto o antagonismo das classes.
E o fascismo não podia modificá-lo. Pelo contrário, agravou a situação dos
operários, dos camponeses (embora adulados verbalmente como próximos da santa
terra que «não mente») e também das classes médias, antes de arruinar toda a
gente com a guerra. Por isso, a comunidade que o fascismo pretende fundar por
«mil anos» é duplamente ilusória: se por um lado o interesse geral e nacional é
um fundamento ilusório que o fascismo exacerbou até à tragédia, também os
elementos em que se apoiava, baseados nos laços diretos dos homens com a terra
e a natureza, estavam desde há muito tempo desaparecidos.
Eis porque, longe de poder fundar esta comunidade mítica, o fascismo teve
que impor pela força bruta a ideia que representava, instituindo o contrário de
uma comunidade, um Estado, que foi o mais violento, o mais militarista e mais
burocrático de todos! Tanto mais que os homens portadores de uma tal ideologia
primitiva só podem ser primitivos, medíocres e limitados. Os antagonismos, ao acentuarem-se
cada vez mais, tornaram o fascismo ineficaz e pouco produtivo. Escasseiam-lhe a
mão-de-obra e os recursos, que enfraquece e desperdiça, sobretudo nas funções
burocráticas, militares e policiais.
O fascismo não é apenas um simples despotismo, o poder absoluto de um
tirano que se apodera da comunidade através da força de uma clique armada. É um
fenómeno específico de países industrializados na época do capitalismo
monopolista, que supõe um tipo de crises, de ideologia, de conflitos sociais só
nesta situação possíveis; ou, dito de outra maneira, que leva ao extremo o
despojamento dos indivíduos e a constituição paralela da ideologia do interesse
geral, da nação, do Estado, como expressão acabada e exacerbada das relações
mercantis.
Só que a burguesia capitalista cai aqui na sua própria armadilha, pois
quando maneja o nacionalismo, sabe que ele é relativo e provisório. É a forma
com que ilude as massas por detrás dos seus interesses («estamos todos no mesmo
barco»), contra os seus concorrentes. Na realidade, ela tornou-se bastante
cosmopolita, colocando os seus interesses financeiros à frente de tudo,
investindo através do mundo inteiro sem se preocupar com os seus nacionais, não
hesitando, quando afrontada por algum deles, a reclamar antes Bismarck ou
Hitler que a Comuna ou a Frente Popular. Mas com o fascismo, ao recolher aquilo
que semeou, ela irá finalmente viver o pesadelo do poder totalitário de uma
pseudocomunidade estatal, fantasmagórica, sem nenhum laço com as relações
sociais concretas, a tal ponto ilusória que nada tem de humano, reduzida a
soldadesca bárbara, a «sub-homens» e a cadáveres.
É o totalitarismo a essência do fascismo? A expressão esteve em voga depois
da guerra. Mas não deixa de ser duplamente útil à burguesia. Em primeiro lugar,
permitiu fazer crer que a democracia e o fascismo não são irmãos um do outro,
duas formas diferentes do «totalitarismo» geradas pela mesma mãe e pelo mesmo
pai. Em segundo lugar, ao assimilar o estalinismo ao comunismo, permitiu fazer
passar este também por um totalitarismo. O resultado da teoria do totalitarismo
é bem conhecido: comunismo = fascismo, sendo a democracia a única forma
política que respeita o indivíduo como sujeito.
Mas, na realidade, o qualificativo de totalitarismo apenas se aplica a regimes
de brutalidade clara, tais como o fascismo, se o entendermos por aquilo que ele
encobre de fato e não só pela forma, a saber: o movimento pelo qual o domínio
do interesse geral e do Estado sobre os indivíduos se estende e se generaliza a
todos os domínios da sua vida. Este domínio sem limites, como vimos, é inerente
ao capitalismo, pois a sua essência é o desenvolvimento incessante das relações
de separação e de despojamento da grande maioria da população, o que implica a
intervenção cada vez mais vasta de forças estranhas numa sociedade artificial e
repressiva em face deles, nos domínios ideológico e político, numa unidade
social artificial e coerciva.
O fato de o interesse geral se adornar de diversas justificações – serviço
público, informação objectiva, ciência neutra, Estado ao serviço de todos,
delegação de poderes, leis económicas, direitos do homem, etc. – e revestir a
forma de uma necessidade objectiva não impede que no regime democrático a vida
das pessoas seja cada vez mais penetrada e modelada pelo saber oficial, pela
visão oficial do mundo, pela lei oficial (que regula hoje até aos mais ínfimos
pormenores toda a atividade das pessoas, como fumar ou não fumar, andar a tal
velocidade, viver em comum desta ou daquela maneira, etc.), pela polícia oficial,
pelos media oficiais (que de forma abjecta se introduzem na vida dos
indivíduos), etc. Oficial significa todas estas forças estranhas, anónimas,
encarregadas de gerir e de reproduzir as relações sociais capitalistas.
Enfim, não existe um comportamento individual, um momento, um lugar, que as
forças representantes do interesse geral da burguesia como classe não se
esforcem por modelar e investir, a fim de fazer prevalecer a unidade e o
consenso dos modos de vida e de pensamento, necessários à reprodução das
relações capitalistas, minadas pelas contradições internas. Podemos por isso
dizer: quanto mais dividida está a sociedade civil, mais a sociedade política e
ideológica tem de intervir para se lhe substituir.
O totalitarismo é inerente ao capitalismo da fase monopolista. O que difere
segundo as situações é a forma que ele toma e os meios que utiliza.
A democracia é um meio mais insidioso, mais pacífico, uma vez que é aceite
pela grande maioria. E isto porque se funda na ilusão de que os indivíduos se
associam e participam do poder, ou pelo menos julgam ter uma influência na sua
orientação. A democracia, forma política de unidade da sociedade, é aceite
enquanto esta é percebida pelos indivíduos como meio de se enriquecer. Mas
assim que a sociedade deixa de surgir com esta possibilidade (durante uma
crise), a democracia que a representa é imediatamente rejeitada, em vez de se
começar por rejeitar a sociedade e as suas relações sociais. Há então que
encontrar outra forma de existência da comunidade. Como não se faz uma mudança
de fundo pelo comunismo, opta-se pela forma duplamente ilusória do fascismo.
Ele aparece como totalitarismo declarado e afirmado, como a unidade imposta
pela força bruta, negando os indivíduos.
Este totalitarismo impõe-se também aos partidos e ideólogos burgueses na
medida em que já não se podem envolver facilmente em disputas, rivalidades, no
assalto aos lugares, às honras remuneradas, ao poder (no que eles chamam, na
sua gíria inimitável, a «liberdade de expressão»). O que os toca e os leva a
caracterizar esta situação nova como totalitarismo é o fato de já não gozarem
de um sistema aberto de escolha das elites próprio da democracia e de serem
empurrados pelo totalitarismo para junto da massa dos excluídos.
O fascismo proclama uma ideologia oficial onde a burguesia conseguia
impô-la sem o afirmar; estabelece um partido único onde ela autorizava vários
partidos idênticos; exige o recrutamento obrigatório onde o mesmo se conseguia
por outros meios; uma justiça arbitrária onde vigorava a justiça de classe e de
sentido único; o monopólio da informação onde ela já era uniforme.
Não se trata aqui de sabermos se a forma democrática do totalitarismo é ou
não preferível para a luta do proletariado. Isso é uma questão conjuntural, que
só pode ser discutida com eficácia depois de estar compreendida a relação de
parentesco do totalitarismo fascista com a democracia.
Na confusão atual, é essencial refutar que o conceito de totalitarismo
possa traduzir validamente a noção de fascismo, porque esvazia qualquer análise
concreta das situações, das classes, das origens e do conteúdo do fascismo,
para reter apenas uma forma particular que toma a dominação do interesse geral,
vista como um acidente da história, uma ideologia herética vinda não se sabe
donde, engendrada por desconhecidas relações sociais, proveniente da loucura de
um homem dotado de um inconsciente distorcido. É um conceito ideológico que tem
por função fazer a apologia da democracia e deste homem puramente ideal do
paraíso terrestre que é o cidadão.
Os ideólogos da democracia não ignoram no entanto o desaparecimento do
cidadão (para já não falar do indivíduo) no próprio seio desta forma, como
testemunha um grande número de trabalhos. Por exemplo, uma recente sondagem
sobre a «hierarquia dos valores em França»[23]
registava a degradação da unidade social deste modo: 65% dos inquiridos
colocavam em primeiro lugar a liberdade individual (a vida para si mesmo),
enquanto o civismo e o respeito pelo bem comum representavam apenas 3%. E os
comentadores lamentavam este «individualismo cego», «último estádio das
democracias» (quando, de fato, está na sua origem).
É fácil concluir por que razão as democracias já não podem servir de
modelo, mesmo que a queda do «muro» permita momentaneamente dizer o contrário.
Vemos todos os dias estadear-se perante nós a impotência do poder político como
força totalmente separada dos indivíduos
Para isso partimos do nascimento dos indivíduos sobre os destroços das
comunidades primitivas. Vimos porque se formou entretanto face aos indivíduos
isolados, separados, uma comunidade ilusória, fundada na necessidade de apagar
estas separações através da construção de uma ideologia e de instituições que
lhes são completamente exteriores: o interesse geral, a nação, o Estado, etc.,
compostos por indivíduos ilusórios, os cidadãos.
Quanto mais o indivíduo se privatiza, se isola, se centra em si mesmo e é
socialmente considerado como meio, mais a sua individualidade é negada e
sufocada pelo interesse geral do cidadão e pelas suas diversas formas
políticas. Usando a linguagem dos sociólogos, esta negação é a «perda de
identidade», a «perda de si». Estas «perdas» são afinal a própria essência dos
cidadãos em geral, e mais particularmente ainda daqueles que formam a massa dos
desempregados, dos excluídos oficiais (ao ponto de se dizer que eles já não
possuem mesmo qualquer cidadania) cujo número aumenta sem cessar. Para os
outros, para a sociedade, não só já não são indivíduos como já não são meios
para satisfazer as suas necessidades. Pior ainda, «custam dinheiro». É a este
título que são excluídos, uma vez que não são meios para os outros. O que
explica que as ideologias nacionalistas e racistas encontrem tanto eco junto
das camadas populares mais desfavorecidas, como exigência de que a sociedade, a
nação, os sirvam a eles e não aos estrangeiros à comunidade (ilusória) nacional.
Este racismo populista, e também a sua forma invertida, aquilo a que os
sociólogos chamam «busca de identidade», traduz-se na constituição de
reagrupamentos étnicos e religiosos, que não passam de fugas para trás,
tentativas de reactivar as bases comunitárias protectoras, há muito
desaparecidas.
Não há motivo para passar da tolerância humana face a estas «diferenças»,
que não podem ser apagadas de repente, para a sua exaltação como valores do
futuro. Isso seria confundir o respeito necessário para com as minorias
deserdadas com a glorificação das compartimentações e dos guetos étnicos. Não
se combate o racismo com um racismo inverso. Podem esperar ser tolerados pelo
capitalismo os que assim recuam para o passado e, fazendo o mínimo tolerado, o
apresentam como o máximo possível.
Estas formas arcaicas não são criticadas porque não põem em causa as
relações sociais capitalistas de separação e porque parecem livremente
escolhidas. Não criam nada de novo, apenas reactivam o racismo e o
nacionalismo. E não permitem de modo algum combater as causas de negação e de
exclusão dos indivíduos. Pelo contrário, mantêm e até reforçam a lógica da
separação e da concorrência. Por tal via, não é possível reconstruir relações
interpessoais ricas e avançadas, arrancando ao capital, ao Estado, aos poderes
intelectuais tudo o que açambarcaram desde há muitas gerações. Assim, só se
pode ficar confinado a situações limitadas, gerando indivíduos também
limitados. O mesmo se passa com o ressurgimento de seitas e formas religiosas,
que são apenas tentativas atrasadas e estupidificantes da reconstrução de si
nos particularismos de comunidades igualmente ilusórias.
Tratámos até este momento sobretudo das formas políticas que toma a
comunidade ilusória fundada no interesse geral desligado dos interesses
privados. É necessário agora desenvolvermos algo sobre a questão das
representações ideológicas que os homens têm das suas atividades e da sua vida
de acordo com as relações sociais em que são exercidas.
[19] K. Marx, Idéologie
Allemande.
[20] Tocqueville, A
democracia na América (1840).
[21] K. Marx, Idéologie
Allemande, Pl., Oeuvres philosophiques, p. 1064. Marx coloca nesta
obra não apenas as bases da necessidade da ditadura do proletariado (a classe
que aspira ao poder tem que pôr o seu interesse como interesse geral) como se
verifica que, longe de haver uma «ruptura epistemológica» na sua obra, existe
uma continuidade: O Capital apenas fundamentará cientificamente, através
da análise do valor e das suas formas autónomas, as descrições percutantes das
obras «filosóficas».
[22] Ian Kershaw, Qu’est-ce
que le nazisme? colecção Folio, p. 278. O que é evidentemente ocultado por
todos os meios de comunicação modernos que pretendem reduzir o nazismo apenas à
sua dimensão anti-semita. Esta simplificação do fascismo tem por objetivo
esconder as suas raízes e portanto impedir a luta contra o seu ressurgimento atual,
e, acessoriamente, apoiar essa outra face do fascismo que é o sionismo.
[23] Sondagem C. S. A., in Nouvel
Observateur de 26.11.92.