RELAÇÕES SOCIAIS E IDEOLOGIAS
As ideologias são as representações que os homens produzem a partir das
relações que estabelecem entre si e com o resto da natureza, nas suas atividades,
na produção da sua vida. Revestem as mais variadas formas: políticas, jurídicas,
religiosas, filosóficas, artísticas, etc.
Estas representações derivam das condições materiais, objectivas, destas atividades.
Mas, estando por definição delas separadas, desenvolvem-se com uma certa
autonomia, constituindo-se progressivamente em pensamento estruturado, o qual,
por sua vez, conduz as atividades humanas.
Se fossem apenas o simples reflexo destas condições, as representações não
seriam justamente ideologias, «isto é, a busca de ideias como entidades com uma
vida independente, desenvolvendo-se de modo independente e unicamente sujeitas
às suas próprias leis»[24].
Por isso, as relações entre as mudanças das condições materiais da produção
da vida e os seus fatores ideológicos são complexas. A ideologia pode, num
certo momento histórico, ter um papel determinante, bloqueando a sua evolução
(poder reaccionário), ou acelerando-a (fase revolucionária), ao passo que,
durante um longo período, se vai modificando em relação com as condições de
produção, o que não significa que essa mudança seja simultânea.
Para fazermos uma análise mais concreta destas relações, convém examinar
aqui três exemplos: a religião que, devido à sua longa existência, surge como
imutável e independente das condições de produção; os direitos do homem,
ideologia da democracia própria das relações mercantis; e o egotismo, ideologia
do eu indiferente aos outros e à sociedade, própria do indivíduo totalmente
despojado no sistema capitalista.
A Religião
É normal, quando se fala de ideologia, dar a primazia à religião, já que é
ela que, na sua forma, tem uma história mais longa. E também porque exprime a
ideologia que trata das relações dos homens com o cosmos, constituindo o
exemplo mais completo de ideologia.
Pela sua forma, a religião parece imutável, eterna, independente das
condições de produção. É a expressão do sagrado, do mistério das origens e dos
fins. Como se tivesse de existir necessariamente origem e fim; como se, em
qualquer circunstância, a ignorância tivesse de ser necessariamente
representada; como se a vida não pudesse existir sem responder a outra
finalidade que não seja a sua.
A religião (do latim religare, ligar) é o que une os homens ao que
eles crêem ser os mistérios. Mas estes homens e estes mistérios estão longe de
ser sempre idênticos e imutáveis. Se, de fato, a forma religiosa perdura, o
conteúdo, no entanto, muda constantemente: não há religião, há religiões.
No princípio todos os fenómenos naturais são um mistério, os homens povoam
a natureza de almas, seres misteriosos que a «animam». Posteriormente, à medida
que estes se tornam transparentes, os homens apercebem-se que transformam a
natureza e tomam consciência de si próprios. Estas almas desaparecem,
afastam-se da terra, na medida em que esta é apropriada através da prática.
Surgem assim os deuses, sempre mais abstrato, à medida que os homens tomam
consciência de que são os autores da sua própria história. O mistério torna-se
metafísico: quem sou eu, para onde vou, porquê, etc? Questões que os homens,
outrora integrados no mundo cósmico mas agora sós na Terra, criam para si
próprios.
É claro que haverá sempre mistérios. Dizer que a religião é uma ideologia
não significa que seja só uma resposta imaginária para superar a ignorância.
Ficarmos por aqui seria aceitar como possível que as ideias podem nascer do
vazio, cair do céu, ou resultar da própria ignorância. Por isso, quando dizemos
que a religião é uma criação dos homens, queremos mostrar que as perguntas,
assim como as respostas que trazem, são determinadas pelas condições em que os
homens exercem as suas atividades. Só o homem que produz e come trigo porá a
questão de saber porque o faz de tal modo, uma vez que este problema é
concretamente posto como uma necessidade e pela atividade que lhe permite dar
uma resposta. Terá que haver sempre uma resposta em função das condições
concretas das atividades dos homens.
Observámos que as comunidades originárias viviam mais da natureza que do
trabalho, com ela formavam um todo; era a comunidade que existia, se reproduzia
e não os indivíduos. Juntamente com ela, os outros elementos deste todo são
também forças vivas: o vento, o fogo, a água, etc., forças anímicas, não
pessoas (visto que a pessoa é desconhecida). À medida que se vão desenvolvendo
as atividades produtivas, outras forças se juntarão como, por exemplo, com o
advento da agricultura, a terra e a fecundidade.
A vida religiosa é a da comunidade, único sujeito, visto que o indivíduo
não existe. Nada tem de pessoal, ainda não tem como fim tornar os homens
melhores, «através da vida interior» (aliás, ainda não existe separação da alma
e do corpo). A sua finalidade é venerar o poder ancestral criador da
comunidade, pedindo-lhe actos favoráveis, assim como a outras forças exteriores
(chuva, fecundidade, etc.), e evitar os desfavoráveis (secas, tempestades, etc.).
Enfim, participar simplesmente na vida cósmica onde a comunidade é um elemento,
para que o ciclo da sua reprodução continue sempre.
Assim, ao modo de produção e de apropriação das comunidades primitivas
corresponde, de certo modo, uma não religião. É que nada há a ligar, visto que
nada existe separado, sendo os homens a própria comunidade e esta uma força
natural no meio de outras forças naturais.
Com o surgimento do trabalho agrícola, os homens começam a produzir a sua
própria vida. Como já foi dito, humanizam-se afastando-se do estado natural,
separam-se da natureza, através do utensílio e do trabalho. Neste movimento
aparecerão as primeiras divisões do trabalho. Graças à especialização,
singularizam-se e personalizam-se.
O mesmo acontece com os poderes misteriosos. De potências naturais passam
pouco a pouco para a categoria de deuses especialistas, profissionais: um na
arte da guerra, outro na cultura, na arte da forja, etc. Os deuses saem da
natureza, abandonam os rios e as florestas e sobem ao Olimpo, primeira etapa a
caminho do céu. Já não são os elementos naturais, mas sim personalidades que os
comandam.
A personalização das relações sociais que a divisão do trabalho criou
tornou-se ainda mais complexa com o desenvolvimento das trocas. Nesta altura,
os homens já não se confrontam apenas com forças naturais, mas também com
forças sociais, com outros homens, outros povos. Os deuses são então dotados de
sentimentos humanos, visto que actuam numa sociedade construída de relações
pessoais. São apaixonados, ciumentos, rivais, confrontam-se e urdem intrigas.
Defrontam-se para impor o domínio dos seus povos ou heróis favoritos, no
estabelecimento de certas relações sociais (como o domínio do pai).
O deus único propagar-se-á sob a forma universal na época do império romano
universal. Esta tendência para colocar um deus, o seu, acima dos outros já era
vulgar desde há muito tempo, acompanhando a unificação de clãs e tribos num
povo (como foi o caso dos hebreus). Todavia, estes deuses únicos eram ainda
deuses étnicos. Assim, em que bases históricas se criou a ideia de um deus
único para todos (para todos os que pertencem a um mundo conhecido,
mediterrânico, ocidental, etc.)?
O império romano criou um mundo relativamente unificado, misturando as
populações na expansão de um determinado universalismo. A noção de pessoa
reforça-se porque o desenvolvimento da divisão do trabalho e das trocas quebra
a exclusividade dos laços étnicos.
Surgem na cena social toda a espécie de personagens: proprietários,
cidadãos, escravos, plebeus, artesãos, imperadores. Falar de uma pessoa
distinta da comunidade é falar também da aparição da ideia do eu, da
consciência de si próprio, do questionamento de si. O homem, ao afrouxar os
seus laços comunitários, não pode de imediato reconhecer a sua situação
particular, pessoal, como proveniente da divisão social do trabalho: isso
equivaleria a aperceber-se de imediato do carácter histórico e social, o que
está fora do seu alcance no começo desta história e quando ainda está sob a
influência das concepções tradicionais. Como pode então representar-se como
singular, único, pessoa? Pelo pensamento. O espírito surge como o que é
singular de cada um, o corpo como o que é comum.
A bem dizer, foi entre os gregos que se colocou em primeiro lugar a separação
entre a alma e o corpo (Platão), porque com eles o processo da individualização
do trabalho e da apropriação avançou mais (no Oriente, a evolução da
agricultura foi ainda mais precoce; no entanto, o problema da água e da
irrigação exigiu a manutenção das formas comunitárias de trabalho). A alma
adquire com os gregos um conteúdo completamente diferente das comunidades
primitivas: cada vez menos concreta, na vida, na natureza, e cada vez mais
espiritual, na abstração, no mistério. Mistério da pessoa que se pensa como
sujeito, mas que só o consegue representando-se como espírito eterno,
desembaraçando-se das contingências terrestres que parecem limitar esta pessoa
ideal: os confrontos, os laços de dependência comunitária, a dor, a morte, etc.
Os estóicos foram dos primeiros a ensinar que a felicidade pessoal reside nas
qualidades espirituais de cada um (a coragem, a virtude, etc.), face ao corpo,
que é comum, vulgar, mortal, doloroso. É necessário privar o corpo para cuidar
do espírito. A alma é o celeste, a relação com os deuses, o eterno; o corpo é o
terrestre, o perecível, o contingente.
Em suma, com a divisão do trabalho, o homem singulariza-se como pessoa e os
deuses separam-se da Terra ao mesmo tempo que a alma se separa do corpo. Nas
antigas representações, o homem era um elemento da comunidade eterna. Ao
separar-se dela, singularizando-se, conserva esta noção de eternidade criando
uma alma para si próprio.
A partir daí, a sua relação com os deuses adquire uma forma cada vez mais
pessoal e também cada vez mais separada do mundo. A religião pode, portanto,
coexistir com o poder hierárquico no mundo. Mas os proprietários deste poder,
os reis, os imperadores, deverão perder o estatuto de deuses sobre Terra.
Trocá-lo-ão pelo estatuto do seu representante (mas então, para fundamentar a
exclusividade do seu poder, cada um escolherá representar um único deus).
Existem agora dois mundos, outrora misturados: o mundo real e o mundo
imaginário, onde todos podem encontrar a libertação, a felicidade e a salvação.
A religião, como ligação dos dois, vai servir um e outro, acompanhando os seus
percursos políticos.
E uma vez que se supõe ser o mundo imaginário superior ao mundo real, a
religião permite aos oprimidos, a todos aqueles que não podem afirmar-se como
homens na Terra, opor a lei de Deus à de César. Mas a César também é permitido
dizer que foi escolhido por Deus, uma vez que é este que decide tudo. Podemos
citar a este propósito o célebre ditado: «Dai a César o que é de César, e a
Deus o que é de Deus».
Deus único porque, na época do império romano, estavam reunidas todas as
condições para o nascimento do cristianismo: o desenvolvimento das técnicas, a
capacidade dos homens para se criar a si próprios e a divisão do trabalho, a
especialização e a hierarquização dos homens farão emergir o homem como pessoa
singular no mundo romano. Daí a separação universal entre a alma e o corpo,
entre o céu e a terra, e a generalização de uma religião universal num império
universal.
César ainda tentou considerar-se deus por decreto, quando tal já era
impossível, uma vez que Deus se tornara num ser universal, reconhecido por
todos como ser perfeito, espírito no céu. Os povos reduzidos à escravatura ou
subjugados por Roma formavam uma enorme massa e tinham em comum este ponto para
lutar contra César. Os seus deuses étnicos tinham-se tornado impotentes para os
proteger, destruídos com as comunidades que representavam. Era preciso um novo
deus, um Deus único para todos, cuja vontade não era a de César, mas a
representação de outra ordem, de outro mundo superior ao dele. O papel de Jesus
e de Paulo consistiu em fazer do Deus dos hebreus oprimidos um deus único, já
disponível para todos os oprimidos, e tanto mais poderoso quanto era agora
universal, no império universal.
Transportado pela força destas massas, reforçado por todos aqueles a quem a
desagregação e o apodrecimento do império aterravam, este Deus transformou-se
na bandeira dos opositores que as perseguições não conseguiam subjugar. Restava
a César apoderar-se dele, adoptando o cristianismo, 300 anos depois do seu
nascimento, como religião oficial do Estado. De fato, César não perdia grande
coisa ao reconhecer Deus superior a si mesmo, uma vez que, em contrapartida,
adquiria o poder de representar a ordem terrena pela graça divina.
Certamente, depois, tiveram que se desenvolver incessantes combates para se
saber que homens representavam a vontade de Deus sobre a Terra: Roma ou
Bizâncio, o imperador ou o papa, este ou aquele profeta, a assembleia dos fiéis
ou o padre iniciado, etc. No Ocidente, o Deus celestial ganhou, finalmente, os
seus representantes exclusivos na Terra, que criaram a igreja romana.
Ela e César, apesar de estarem em concorrência, também se apoiam
mutuamente. A igreja consagra César, mas também se confunde com ele, ao ponto
de possuir na Idade Média um terço de todo o território. E consolida o seu
domínio anexando à teologia todas as outras formas de ideologia (filosófica,
artística, política, jurídica, etc.). Esta ordem terrestre tornada totalmente
religiosa só poderá ser contestada na contestação à própria religião. É por
isso que a luta social assumirá de início a forma religiosa.
Foi o que aconteceu com a Reforma, altura em que as condições de uma nova
subversão nas relações sociais de produção ficam criadas pela emergência do
predomínio das relações mercantis.
A Reforma é o exemplo clássico da modificação da ideologia, neste caso
religiosa, em função da modificação das relações sociais. Ao surgimento, com as
relações mercantis, dos indivíduos proprietários, independentes e isolados, vai
corresponder uma forma religiosa mais adequada, sobretudo na variante
calvinista da Reforma, a mais pura deste ponto de vista.
Como indivíduo independente, o homem da Reforma estava também só perante
Deus, suprimindo os intermediários especializados. Nada de papas, padres,
virgens e santos. A igreja deixa de ser um Deus na Terra, que reduz os
indivíduos a nada, para passar a ser uma associação voluntária de indivíduos
livres. Isto porque o indivíduo mercantil apenas pode ter uma relação pessoal
com Deus: a sua essência é a independência. Portanto, apenas se liga a Deus
pela oração, num frente-a-frente temível entre ele e o ideal.
Enquanto indivíduo proprietário, o seu trabalho pessoal é posto como
princípio de tudo e o seu resultado é sinal do êxito ou do fracasso. Deixou de
ser maldição e passou a ser escolha e prova, fim meritório e expressão da
vontade de Deus. O corpo é vulgar, já não de acordo com o sentido dos gregos
por ser comum, mas por ser consumo, dissipação e luxo, ao contrário do
trabalho, que é ascese, parcimónia e esforço no cumprimento desta nova vontade
divina. O bem é portanto a ruína do corpo.
Outras religiões fundadas na salvação pessoal, como o hinduísmo e o
budismo, fizeram da renúncia do mundo e das suas riquezas a base dessa
salvação, porque era esse o modo de poderem subtrair-se a César. Para o
protestante, pelo contrário, a atividade e a responsabilidade pessoal nos
negócios do mundo são um imperativo. Assim o exige a realidade mercantil do
enriquecimento pela sua atividade. E assim portanto o quer Deus. Dirá pois que
o sucesso é sinal de que ele e as suas obras são abençoadas por Deus.
Daí a teoria calvinista da predestinação: aquele que faz obra no mundo
fá-lo por vontade divina. Os trabalhos determinados pela igreja não conduzem à
salvação, como acontece no catolicismo; o sucesso pessoal é sinal de que se é
eleito por Deus. É a bênção divina sobre a vida pessoal. O que se justifica é a
atividade individual. O milagre é suprimido: se a atividade do indivíduo alcança
o resultado esperado, é porque Deus assim o quis[25].
Estamos no racionalismo, (modo de pensamento que se desenvolve com a sociedade
mercantil), mas ainda prisioneiro da sua origem, numa sociedade que estava
ligada apenas a uma forma religiosa de pensar.
Lutero rejeitou a justificação pelas obras, visto que elas são a submissão
aos ritos, às leis, às instituições da igreja, logo aos homens. Contudo,
conservou a justificação da fé: por uma relação puramente espiritual, o homem
pode aceder à salvação. A decisão pessoal de crer desempenha ainda um papel.
Mas no mundo mercantil não existe realidade louvável e racional senão a do
enriquecimento individual através do trabalho, senão a do indivíduo
empreendedor do capitalismo nascente. A importância desta realidade exige que
ela seja, na representação de Calvino, pura vontade divina, sem nada caber ao
homem, indigno de ser autor de uma coisa tão magnífica. O Deus calvinista já
não se encontra em nenhuma instituição terrestre, nem no milagre, nem pelo
efeito de qualquer vontade humana, mesmo sendo esta a vida espiritual. É
perfeitamente abstrato, está ainda mais longe no céu que os velhos deuses de
outrora.
O afastamento e a abstração dos deuses, à medida que os homens se
constroem, é sempre claramente visível nas representações que eles fazem de si
próprios. Com efeito, a princípio os deuses estão espalhados por toda a
natureza, são a própria natureza, depois vivem como homens em lugares
especiais, a seguir só assumem formas animais ou humanas para se manifestar de
quando em quando na Terra e finalmente, há aproximadamente 2000 anos, muito
antes da Reforma (e também anteriormente, com os hebreus e com o Islão)
qualquer imagem se tornou impossível e proibida.
Mas na Terra o sucesso é o dinheiro, o deus concreto é o dinheiro. É o
indivíduo mercantil e a sua atividade contada em dinheiro que criam o Deus
calvinista. Tudo o que este indivíduo e esta atividade possam ter de aviltante,
de bárbaro, de desprezível, é simplesmente posto à conta de condenação divina,
derivada do «pecado original» da humanidade.
Deste modo, com o calvinismo, o livre arbítrio do trabalhador proprietário
é também o livre arbítrio religioso que, no mundo totalmente religioso da
época, se torna livre arbítrio político, com a instituição da igreja-associação
(ainda que não se trate de uma democracia avançada, visto que, por um lado, a
doutrina da predestinação indica que as novas elites, os poderosos do dinheiro,
são escolhidos por Deus, ungidos na sua riqueza mais seguramente que o rei
através do óleo de Reims; por outro lado, as atitudes consideradas contrárias
ao trabalho, à ascese, à poupança laboriosa e à ordem social subsequente, são
condenadas porque contrariam a vontade divina).
A ideologia protestante terá descendência. Como qualquer outra ideologia, a
sua forma servirá, ao modificar-se, para acolher novas representações. Esta
aparente continuidade das ideias serve também para os idealistas justificarem a
independência do pensamento face às relações de produção.
Por exemplo, acabamos de ver que o protestantismo criou um racionalismo
religioso valorizando a atividade individual e os seus resultados. Os filósofos
das Luzes apenas tiveram de suprimir a bênção divina, que se manteve ainda com
os protestantes quando a sociedade mercantil ainda emergia da sociedade
religiosa, para fazer triunfar o racionalismo laico, o culto laico da Razão (e
dos Direitos do Homem daí decorrentes) como fundamento da liberdade individual
«total» liberta dos preconceitos religiosos.
Depois verificou-se que o desenvolvimento do capitalismo não era capaz de
cumprir as suas promessas, ao mesmo tempo que a liberdade dos indivíduos estava
fechada em limites estreitos e cada vez mais vazia de qualquer conteúdo real.
Os românticos abandonam o culto da Razão e choram sobre os fracassos que o
destino fatal impõe ao indivíduo que, com eles, se torna trágico, um herói de
asas sempre cortadas.
Pela mesma época, Freud apresentou uma versão moderna, laica e racional, da
dualidade greco-cristã, corpo/alma transpondo-a para o consciente/inconsciente,
onde o Deus pai fica excluído, sendo substituído pelos pais reais.
A influência de Marx surge na análise de Freud, de certo modo suavizada, ao
retomar o carácter limitado e superficial da consciência, considerando que nos
comportamentos existem pulsões escondidas. O que torna Freud moderno é a
constatação do fracasso da Razão, incapaz de justificar as aberrações dos
comportamentos no capitalismo desenvolvido, substituindo-a pelo inconsciente, e
o fato de levar até ao fim a ideologia mercantil-individualista, na relação
puramente interna de cada um, entre o consciente e o inconsciente. Contudo,
continua dualista ao conceber esta relação não determinada pelas atividades e
relações sociais concretas dos homens, mas, de acordo com a lógica mercantil, pelo
fator externo da concorrência. E reduz ainda esta à oposição edipiana ao pai
por amor à mãe.
De fato, alma e inconsciente são a expressão da mesma coisa: a opacidade do
indivíduo a si próprio[26],
cuja causa fundamental é o fato de ele ser concretamente negado como indivíduo
nas sociedades mercantis (as únicas onde existe o inconsciente freudiano), por
estar em oposição aos outros e por a sua atividade ser apenas uma coisa,
dinheiro, tanto para os outros como para ele próprio. Alma e inconsciente são
apenas o mundo-refúgio onde existe idealmente, no imaginário, o sonho, o
indivíduo concretamente negado, que nele é projectado ou recalcado. Que este
imaginário possa desempenhar um papel real e que se possa agir por ele e sobre
ele por meio da prática religiosa ou da psicanálise é outra história. Lourdes
já tem curado pessoas, Freud também.
Seja como for, a ideologia mercantil desenvolve-se atualmente em duas
grandes direções aparentemente antagónicas: a que defende o primado da razão e
justifica a sociedade democrática dos direitos do homem como a melhor garantia
da realização dos indivíduos, e a do egotismo, que verifica o fracasso da
primeira e só encontra esta garantia no culto do eu, em oposição à sociedade.
Qualquer delas pode, no entanto, revestir formas religiosas ou laicas. Vamos
pois prosseguir o seu exame.
A Religião republicana dos Direitos do Homem
Historicamente ninguém contesta que os Direitos do Homem tenham nascido com
as relações mercantis. Uma vez que estas relações são consideradas naturais
pelo pensamento burguês, também os Direitos do Homem são afirmados como tal.
Mas é uma ideologia que formaliza estas relações numa representação idealizada
completamente diferente do que são, de fato, na prática. Esta, como toda a
representação em geral, autonomiza-se num pensamento, numa doutrina
constituída, que acaba por ser representada como ideia que cria a realidade.
Assim, quanto mais a realidade lhe for contrária, mais ela afirmará, alto e bom
som, a sua pretensão de a poder mudar, de a criar de acordo com a sua vontade.
Quanto mais o capitalismo real produzir homens alienados, despojados,
martirizados, sem direitos de qualquer espécie sobre a sua vida, mais os seus
ideólogos dirão que isso se deve a não ser suficientemente aplicada a sua
representação idealizada, mítica, a doutrina dos Direitos do Homem.
Qualquer revolução tem evidentemente tendência para imaginar a nova
sociedade que instaura como estando conforme à ideia que tem de perfeição. Ao
criar o indivíduo, quer dizer, simplesmente o proprietário livre saído dos
últimos entraves comunitários, a burguesia de 1792 julgou criar o Homem
finalmente conforme à sua natureza.
Mas ao proclamar a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, a burguesia
apenas generalizou em conceitos abstrato e ideais as condições de existência
das novas relações sociais que fez triunfar na revolução de 1789. Já se disse
que o que ela fez foi afirmar o indivíduo independente, liberto das relações de
dependência pessoal. Ela chama liberdade apenas à liberdade de ser proprietário,
de comprar e vender[27].
Chama igualdade à troca de quantidades de trabalho iguais (valores). Chama
fraternidade à ilusão de que os indivíduos desunidos, isolados, concorrentes,
na realidade da sua vida concreta, possam unir-se pela virtude, agir no interesse
geral por civismo, fazer através das ideias o contrário do que são na sua vida
social prática.
Os novos direitos que a burguesia proclama com o nome geral de Direitos do
Homem são os da sociedade civil que ela instaura, dos indivíduos proprietários,
separados, opostos, indiferentes, ligados pelas coisas. Não foi preciso muito
tempo para os ideólogos burgueses constatarem a evidência de que as virtudes
proclamadas da Liberdade, Igualdade e Fraternidade não existiam na realidade
concreta das relações entre interesses privados dos proprietários.
Se não existiam, era necessário criá-las. Foi essa a grande questão da
revolução. Como? Certamente, através de uma força superior aos indivíduos
privados; mas que não fosse Deus, nem o rei, nem nada que estivesse fora dos
indivíduos que acabavam de ser proclamados soberanos. Era necessário que fosse
através dos indivíduos associados. Diretamente associados? De fato, era isso
que propunham as forças políticas que tinham em mente que o povo conservasse o
poder, Babeuf e os Iguais, por exemplo. Só que isso estava em contradição com o
fundamento da própria revolução: o indivíduo é soberano porque é o único
proprietário de si mesmo e dos seus bens. Não podia, por isso, ficar submetido
a uma força popular que lhe negaria este direito de propriedade em nome de uma
igualdade niveladora.
Robespierre e os jacobinos tentaram resolver este dilema afirmando que uma
associação de indivíduos, superior a eles, representaria os seus interesses
comuns desde que estivesse nas mãos de pessoas íntegras, virtuosas, devotadas à
causa pública, tudo isto sob o olhar simbólico do Ser Supremo, novo Deus laico
da virtude que eles consideravam necessário criar naquele momento (sempre a
utilização das velhas formas ideológicas para nela moldar com mais força uma
nova ideologia, completamente diferente). A associação política torna-se, pela
vontade dos indivíduos que livremente decidiram delegar nela uma parte do seu
poder, o receptáculo e o instrumento da sua força colectiva. Esta força de que cada
um abdica, sob pretexto de que, concentrada noutras mãos, permitirá alcançar os
objetivos ideais da Revolução, transforma-se em força que lhes é estranha, numa
força política.
Como justificar que o indivíduo soberano perca assim o seu poder pessoal?
Pretendendo que o não perde, pretendendo que o poder político pertence aos
indivíduos através dos votos. Este estranho indivíduo que delega nos outros os
seus poderes sem os perder é o cidadão. O direito proclamará que esta
personagem possui o poder, embora de fato o aliene nos outros, abdicando dele.
Proclamará também que todos os cidadãos são iguais, porque têm o mesmo poder, o
seu boletim de voto (pelo menos para a metade masculina, até 1945).
Foi assim que a revolução burguesa tentou fazer coincidir a realidade com
as ideias: criou toda uma realidade e um indivíduo fictício, abstrato, ao lado
do indivíduo concreto das relações mercantis. Este indivíduo é o cidadão da
sociedade política. É decretada por lei a existência da igualdade, da
soberania, da liberdade, da comunidade fraterna, que os indivíduos concretos
não possuem. O cidadão que não existe vive os direitos que existem e o
indivíduo que existe tem direitos que não existem.
Esta ideia de que o indivíduo só se pode realizar por uma vontade exterior
a si próprio ocorreu aos nossos ideólogos quando constataram que os
comportamentos individuais arruinavam a necessária unidade social. Liberto do
determinismo comunitário e dos laços de dependência pessoal, das instituições
religiosas e do poder real absoluto, o indivíduo tem que, segundo eles, ser
tutelado por novos poderes exteriores, por uma nova transcendência.
Já afirmamos que os filósofos tinham chegado, neste sentido, ao triunfo da
Razão, sendo o racionalismo a ideologia mais avançada da sociedade mercantil.
Ela diz-nos que cada um age racionalmente procurando a eficácia pessoal (medida
pelo enriquecimento), ao mesmo tempo que a racionalidade individual conduz a
uma racionalidade global, de tal modo que parece finalmente, que todos executam
o plano de uma Razão universal.
Mas quem detém a responsabilidade de dizer o que é racional e de assegurar
esta racionalidade global, senão aquele que representa o todo? Se não é Deus,
agora mudo e exilado, num céu muito longínquo, nem o rei, que já não existe,
então é na Terra, a sociedade, e mais precisamente o Estado. Assim, o movimento
da civilização do homem será apresentado pelos ideólogos da sociedade mercantil
como o do desenvolvimento do poder social, e até do Estado, que está acima dos
indivíduos.
Para Hobbes, por exemplo, o homem no estado natural é um animal violento,
pobre
Rousseau desenvolverá estas ideias. Para ele também, existe uma ruptura entre
o homem da natureza e o homem civilizado. O seu aspecto revolucionário reside
no fato de ele substituir a transcendência do soberano pelo interesse geral (o
contrato social, celebrado entre os cidadãos). O bom governo é aquele que
protege e desenvolve «a pessoa e os bens de todos os associados». A vontade
geral não está em contradição com a vontade individual, mas é a sua mais alta
expressão, manifestada no voto maioritário. O indivíduo é um «todo perfeito e
solitário». Reforça-se no todo social que lhe é superior, ao qual apenas
abandona a sua solidão. A sociedade política e o Estado são idênticos à
sociedade civil como livre associação representando as suas forças conjugadas.
Mas Rousseau não nos explica porque é que a unidade dos indivíduos obriga a suprimir
«no homem as suas próprias forças para lhe dar em troca aquilo que lhe é
estranho»[28].
Evidentemente, porque ignora as separações concretas que opõem os indivíduos
mercantis. Vimos que ao decretar o seu apagamento no interesse geral, nada se
resolve e aliena-se seguramente os indivíduos.
A contradição entre o indivíduo concreto, isolado, só existindo através do
dinheiro, da sociedade civil, e o cidadão ideal, Livre e Igual, da proclamação
política, só pode evidentemente resolver-se pelo triunfo do primeiro, do
concreto sobre o abstrato. Eis porque, desde a sua origem, chefes da jovem
República, como Robespierre, tentaram contrariar os efeitos dos poderes reais
do indivíduo proprietário, isolado e egoísta (poder de se apropriar de todas as
forças sociais através do dinheiro) pelos deveres da Virtude em geral e da
devoção à coisa pública
Mas virtude, moral, sacrifício, não passam de votos piedosos se se pretende
que os indivíduos mercantis se comportem em contradição com os seus interesses
privados. Assim, Robespierre, depois de ter tentado recorrer ao Ser Supremo
para impor a virtude, depressa se viu obrigado a servir-se do meio mais
concreto do bom doutor Guillotin*. O que cansou o seu mundo de proprietários e
interesses privados, perfeitamente estranhos à virtude, que, por sua vez, lhe
anunciou o seu despedimento para dar lugar aos seus verdadeiros representantes,
os corruptos, os ladrões, o Diretório, os Bonaparte, Fouché, Talleyrand, o que,
no fim de contas, era natural.
Desde então, os Direitos do Homem não passam de princípios proclamados nos
discursos. Os direitos reais foram cuidadosamente consignados no Código Civil
por Bonaparte. O seu conteúdo é o conflito dos interesses privados, o que eu
tenho que o outro não tem, o que ele me deixa ou o que eu lhe deixo. É a
codificação das relações de força entre proprietários, entre a classe que
concentrará a propriedade material e intelectual e aqueles que delas são
desapossados.
Com efeito, o sistema político da democracia organiza o poder da classe
dominante. Em primeiro lugar, cada proprietário torna-se cidadão, quer dizer,
delega no Estado a gestão dos seus interesses. E a partir do momento em que uma
classe açambarca a propriedade, o Estado também lhe pertencerá. Para os outros
fica sempre a liberdade de vender aquilo que lhes resta, a sua força de
trabalho – se encontrarem compradores.
Com o desenvolvimento do capitalismo, quanto mais se acentuam a divisão de
trabalho e a concentração da propriedade das suas condições, mais os
proclamados Direitos do Homem se tornam formais, em contradição flagrante com a
realidade. É então que se manifesta a força autónoma da ideologia, quando os
seus servidores podem fazer crer que o desrespeito dos Direitos do Homem é a
causa dos males da realidade e não as relações sociais capitalistas que
engendram necessariamente esse desrespeito.
Podem pretendê-lo, justamente porque a força de uma ideologia é a de
aparecer, com o decurso do tempo, separada das suas origens concretas, como
puro produto de um pensamento livre. Isto é assim porque o indivíduo isolado e
egoísta é um resultado social e histórico que as gerações encontram já feito
perante si e que portanto parece ter sempre existido, ser natural, ao passo que
o cidadão e os direitos parecem ser pura criação do pensamento, da vontade dos
homens, um progresso na sua civilização.
O resultado é a necessidade de prosseguir este progresso, afirmar esta
vontade, para melhorar o funcionamento da democracia e dos direitos e afastar
assim sempre cada vez mais os homens do seu estado natural, animal, origem de
todas as barbáries. Quanto mais exclusões, misérias, perturbações, violências
gera a sociedade capitalista, mais se ouvirá reafirmada em altas vozes a
necessidade de respeitar esses direitos. Assim como a religião pregava, e prega
ainda, a guerra santa para conduzir os homens ao respeito da lei de Deus,
também os ideólogos modernos afirmam a necessidade de cruzadas para a religião
laica e democrática dos Direitos do Homem. O «dever de ingerência», por
exemplo, é uma verdadeira cruzada moderna, visto que este chamado esforço de
«solidariedade», «humanitário», só existe através da força de expedições
militares, eventualmente sob a cobertura da ONU, para que a burguesia possa
impor a todos a sua civilização, as leis do mercado.
Este esforço brutal para tentar impor em todo o lado o direito e a ordem
democrática deriva da necessidade de o capitalismo e a burguesia estenderem ao
mundo inteiro o seu domínio, poderem encontrar em qualquer lado homens livres
para explorar, mercados e fornecimentos livres. A necessidade do petróleo livre
preparou assim o massacre e o cerco (embargo) ao povo iraquiano. Por todo o
lado é preciso proteger a «raposa livre no galinheiro livre». Por todo o lado
também se torna transparente a camuflagem das operações militares dos países
imperialistas com o álibi da «defesa dos Direitos do Homem». O ministro que
oferece simbolicamente um saco de arroz, assim como toda a espécie de
associações «sem fronteiras» (apenas no sentido Norte-Sul), podem mobilizar os
meios de comunicação para filmarem a sua caridade, mas não conseguem esconder
que curam com a mão direita algumas feridas enquanto, com a mão esquerda,
mantêm o sistema que é causa de todas elas.
As pregações sobre os direitos, a caridade e a solidariedade, num mundo
fundado na exploração, na exclusão e no dinheiro, são como a promessa do
paraíso para os que sofrem: um discurso que proclama ideais míticos
incompatíveis com as sinistras realidades engendradas pelas relações sociais
terrestres. Não passam de preces religiosas, de drogas.
Com os exemplos da ideologia religiosa e da dos direitos do homem temos uma
primeira ideia do que é a ideologia: uma representação idealizada das relações
sociais na consciência dos homens. Ela permite embelezar e até mesmo travestir
a realidade com o objetivo de a justificar. Como se os homens, tal como a
ostra, tivessem de rodear de nácar todos os grãos de areia que os afectam. Tal
como a pérola que esconde a sua origem, a ideologia inverte os fatores. Ideal,
e como tal proclamada universal, evidente, natural, atribui-se-lhe como origem
o pensamento desligado de tudo. As ideias conduziriam a outras ideias, e isto
criaria o movimento da história: ideias caídas do céu para o cérebro de algumas
elites.
Estamos perante uma inversão total: de filha, a representação torna-se mãe.
É no que se torna realmente, visto que os homens agem também em função das
ideologias e não apenas das ciências. As religiões, os direitos do homem, etc.,
geram comportamentos e instituições. Que toda a ideia possa desembocar num
projecto, em actos, é uma evidência. Pode-se morrer por ideias. E pode-se
morrer por ideias ultrapassadas, por ideologias que já não têm correspondência
com qualquer realidade, no presente ou no futuro, que já só podem ser impostas
pela força bruta, como é o caso, por exemplo, do nacionalismo e do fascismo nos
nossos dias.
É que as ideologias têm a sua vida própria, autónoma, na cabeça das pessoas
e sobrevivem muitas vezes durante bastante tempo depois de se terem modificado
as condições materiais que lhes deram origem, e mesmo depois de estas terem
desaparecido. Daí os comportamentos políticos considerados reaccionários. Eles
são socialmente transportados por grupos em extinção (os pequenos
proprietários, por exemplo) que propõem o regresso aos «valores» e a uma «ordem
moral» que existiam anteriormente e cuja restauração, pensam, lhes devolveria
também a sua antiga situação material, mais próspera que a atual. Ignoram porém
que não eram esses «valores», essa velha ideologia, que serviam de base às suas
condições materiais, mas o contrário. E ignoram que tudo isso está
definitivamente acabado.
Observámos, com o exemplo da religião, que o envólucro ideológico do
sagrado subsiste como forma geral de representação dos mistérios, se bem que
estes sejam completamente diferentes em cada época, e o conteúdo das religiões
se transforma constantemente no seio desta forma aparentemente imutável.
Os homens justificam muitas vezes a força das suas ideias mantendo-as numa
forma que lhes dá a aparência de eternas. Verifica-se o mesmo tipo de evolução
nos direitos do homem republicanos. De início este envólucro cobre os direitos
reais do pequeno proprietário da sociedade civil burguesa, venerados e idealizados
nos direitos do cidadão abstrato da democracia parlamentar. Depois, com a
concentração do capital, vê-se esses direitos ideais afastar-se cada vez mais
da realidade, tornando-se simples fórmulas que se afixam nos frontões dos
edifícios públicos ou que se proclamam nos discursos de circunstância.
Liberdade, Igualdade, Fraternidade, etc. já só servem como ideais míticos para
impor uma «nova ordem internacional».
Mas quando a representação se torna a tal ponto contraditória com a
realidade é porque o seu fim está próximo. Não obstante, ela não pode
desaparecer completamente enquanto subsistirem as relações sociais que lhe
deram origem. É por isso que uma ideologia não pode vencer outra ideologia, são
essas relações que é preciso mudar.
Por outro lado, a ideologia não teria existência se não respondesse a uma
necessidade. No que concerne à Democracia e aos Direitos do Homem, vimos que
ela deriva da própria comunidade. A ideologia republicana é o cimento (formal e
ilusório, é certo, mas isso é outro assunto) de uma comunidade que os
indivíduos mercantis não encontram no mundo real nem na atividade prática da
sua própria vida.
Não existe ideologia quando as representações, ideias e abstracções são
fiéis (o que não quer dizer idênticas) à vida concreta: por exemplo, nas
comunidades primitivas, onde as ideias e representações, são a própria vida dos
membros da comunidade e não estão em contradição com as suas atividades
práticas. Mas logo que os indivíduos ficam separados nas suas relações sociais,
portanto em contradição com a sua essência de indivíduos sociais, a ideologia
fornece-lhes a representação de uma comunidade, dá-lhes a imagem de uma unidade
social que lhes é exterior (o interesse geral, a religião, o cidadão, a
democracia etc., são as suas formulações). O Estado, as igrejas, a escola, os
meios de comunicação, etc. são as instituições que organizam materialmente essa
comunidade, dando-lhe o aspecto de uma comunidade real, se bem que não tenha
nada de pessoal nem de concreto.
E poderíamos mesmo acrescentar que não só essa comunidade é uma ficção da
sociabilidade dos indivíduos, dos seus laços interindividuais fazendo parte da
sua essência de indivíduos sociais, mas que é também uma ficção de eternidade
porque, considerada natural, admite-se que existe e se reproduz desde que a
vida existe. E porque as ideologias são admitidas apenas como fruto do
pensamento humano, tendo mesmo brotado antes das condições materiais onde se
unificam, independentemente das classes que lhes deram origem, decorre daí que
são elas que criam essas condições, essas relações sociais, as classes, etc.
Assim, Deus ou os Direitos do Homem, o Espírito Santo ou a Ideia da Razão são
os criadores da História! Espírito, Ideia, Razão, tudo isso caído do céu.
Podemos dizer que a ideologia dos Direitos do Homem é também ela uma religião,
uma religião laica.
Mas, como afirmamos, uma representação ideológica que já não tenha qualquer
correspondência com a realidade não pode satisfazer toda a gente. Por mais que
se faça, a comunidade é inexistente na realidade capitalista, os indivíduos são
cada vez mais isolados e oprimidos pela sociedade, os cidadãos cada vez mais
impotentes. Tinham que surgir pensadores para o dizer. Só que a maioria não
quis tentar reconciliar o indivíduo com os outros a partir de novas relações
sociais, e pretendeu antes conduzir a um novo ideal a lógica individualista da
insociabilidade.
A sua forma de mitificar o existente para o tornar aceitável foi negar que
o homem é um ser social, conclamando o indivíduo a recusar a opressão social e
propondo a rejeição dos outros e do Estado ao mesmo tempo; em vez de
pretenderem tornar a sociedade não repressiva, julgam que cada um por si pode
desenvolver a sua força pessoal.
Na medida em que alguns destes pensadores criticam radicalmente o domínio
da sociedade política e do Estado em nome do indivíduo, encontrar-lhes-emos um
lado revolucionário positivo. Mas estes egotistas, todos em conjunto, acabam
apenas por propor uma ideologia sem fundamento e sem futuro ao pretender basear
a riqueza do indivíduo em si próprio, o que não só é arrevesado e absurdo, como
equivale inclusive a negar-lhe a existência.
A Sociedade dos Egos
Pequeno jogo de palavras: G. Babeuf, como se sabe, queria que a revolução
de 1789 desse à luz, como tinha prometido, uma sociedade de iguais. Mas, ao
instituir a sociedade mercantil, ela apenas gerou indivíduos isolados, acabando
por criar uma sociedade de egos.
O individualismo produz o egotismo. Não cria indivíduos ricos em
qualidades, pessoas singulares distintas de quaisquer outras, contra o que
afirmam os cantores do indivíduo privado-desapropriado das sociedades
mercantis.
Pelo contrário, o movimento da individualização destas sociedades,
sobretudo nas suas formas capitalistas, isola, petrifica e esteriliza os indivíduos.
Tudo se exprime na forma de dinheiro, e o que trocam é apenas dinheiro, o que
faz com que não possam existir enquanto pessoas trocando as suas necessidades,
os seus desejos, enriquecendo mutuamente as suas qualidades. São bem conhecidas
as características deste individualismo moderno hostil aos indivíduos.
Recordemos alguns dos seus traços.
O indivíduo existe como aparência, através dos sinais atribuídos às coisas
que possui (o que alguns chamaram «sociedade de consumo», onde tantos têm tão
pouco para consumir). O seu «sucesso» é o dinheiro. No entanto, ele vive no
isolamento, na indiferença recíproca, na hostilidade. Vive por procuração
diante da televisão, comprando, por vezes, uma viagem organizada como uma
pseudo-aventura. É tomado ou rejeitado pela máquina, enquanto possa funcionar
ou não, como capital absorvendo mais trabalho vivo do que custa a sua
reprodução. As necessidades vitais dos indivíduos ficam submetidas a esta
valorização do trabalho morto. A solidariedade é apenas uma fria e anónima
redistribuição organizada pela força da lei e reduzida ao mínimo pelo qual a
classe dominante espera comprar a paz social indispensável aos seus negócios.
Nunca se trata de desenvolver as qualidades pessoais, mas de comprar a
colaboração dos indivíduos, a sua submissão, a aceitação do seu estado
miserável, ou comprar para si mesmo, eventualmente, a boa consciência, dando
dez para adquirir 1000 ou 10 000 (isto é bastante evidente nas relações
Norte-Sul).
Em todos os domínios, na cultura, na arte, no desporto, na informação, na
saúde, reina a concorrência entre os indivíduos na conquista de dinheiro,
perante o qual se apagam todos os pretensos «valores» que criam a sociedade.
No entanto, segundo os ideólogos, o mais elevado dos valores a seu olhos, o
«eu», escapa a este naufrágio: todos devem desenvolver-se livremente, realizar
o seu ser. O busílis da questão é que este eu elevado às nuvens, definido como
uma natureza pessoal inata que é necessário realizar, não existe. O eu não é
outra coisa senão a sombra das relações sociais de uma época determinada. É o
conjunto das representações que os indivíduos fazem dessas relações sociais, do
lugar que aí ocupam, do papel que desempenham, dos comportamentos que daí
decorrem. Também a essência do eu na sociedade capitalista é a separação e a
concorrência, a luta e o isolamento na procura do «sucesso pessoal».
Em todo o lado, na escola, no desporto, no trabalho, reina a luta para
«ganhar» em detrimento dos outros, multiplica-se o número de excluídos, de
desesperados, de suicidas e de outras manifestações trágicas de isolamento
(englobando os Citizen Kane); isto já se tornou uma evidência. Nada
detém, todavia, os ideólogos na contínua exaltação do «eu».
Vimos, por exemplo, que Freud e os seus discípulos fizeram da concorrência
não a característica de uma época determinada, mas a da natureza humana eterna.
Descobriram que ela está em toda a parte, inclusive nas relações familiares,
através do desejo inconsciente de matar o pai para se apropriar da mãe e
noutras pulsões sexuais. Desejos recalcados no inconsciente pelas proibições
impostas pelo «Super-Ego» da consciência social.
É óbvio que a luta de todos contra todos se exprime também através dos
desejos inconscientes; o contrário é que seria surpreendente, visto que ela é a
consequência inevitável das relações mercantis nos comportamentos humanos.
Assim, também é necessário que a sociedade desempenhe o seu papel coercivo, ao
impor regras que se opõem aos extremos lógicos destrutivos da concorrência pela
apropriação.
A validade dos trabalhos de Freud não está em causa, pelo menos no que se
refere aos indivíduos das sociedades capitalistas. Mas também em Freud trata-se
de uma nova formulação da teoria apologética da natureza humana em que as
características dos indivíduos de uma determinada época são consideradas
eternas e naturais. Como se a família e os comportamentos sexuais e afectivos
não fossem também determinados pelas condições em que os homens produzem a sua
vida, pelos instrumentos e pelas relações através dos quais assim procedem. Mas
segundo Freud nada se pode alterar, a família, o sexo, os desejos são desde
sempre a mesma coisa. É a sociedade da época que se justifica através dessas
leis consideradas universais.
Na realidade, Freud é apenas original na forma que dá às velhas teorias
racionalistas. O seu «Super-Ego» não é outra coisa senão a interiorização da
opressão social civilizadora dos filósofos das Luzes. A repressão que se exerce
nos indivíduos é a das pulsões, como nos racionalistas é a da natureza animal porque
anti-social. Freud retoma Rousseau assimilando a civilização à socialização
crescente. As doenças psíquicas são assim dificuldades de adaptação, o seu
tratamento visa eliminar um comportamento associal, quer seja experimentado
como tal pelo indivíduo (e tratado em terapia pessoal com psicanálise), ou seja
decretado como tal pela sociedade (e tratado, neste caso, pelo internamento
psiquiátrico). Mas quem são, de fato, os verdadeiros animais? Quem desenvolve
comportamentos bestiais na sociedade capitalista?
Freud pensa ligar solidamente a sua teoria a uma noção de natureza humana
tornando a sexualidade (a libido) fundamento dos desejos. Com efeito,
que coisa poderá parecer, à primeira vista, mais natural que a sexualidade?
Só que explicar os comportamentos através do complexo de Édipo, do ciúme,
da conquista sexual, é explicar muito pouco. Visto que não nos diz nada sobre a
origem desse complexo, desse ciúme, etc. É o impasse a que se chega
necessariamente quando, através da teoria da natureza humana, se consideram os
sentimentos, as estruturas familiares e matrimoniais, os desejos de uma dada
época como causas, quando são resultados. Aliás, falar de desejo e não de
necessidades é já uma maneira de falar como qualquer mercador para quem as
necessidades, motores e produtos da atividade humana, são reduzidas a coisas
que se compram, a objectos que se possuem, negando-as enquanto qualidades que o
indivíduo procura trocar para as desenvolver como suas, enquanto seu
construtor. Resta apenas o desejo, que é açambarcamento, fundado no indivíduo
reduzido à sua sexualidade e a outros gozos físicos.
Ao fazer da libido a essência dos desejos, Freud restringe
consideravelmente o que constrói os homens, o que os enriquece e o que o
sistema capitalista reprime: a criatividade e as atividades dos indivíduos. Não
vê que o homem é produto das relações sociais, nas quais encontra as suas
condições de vida, como determinações do seu ser, estabelecidas antecipadamente
em função da sua situação concreta nestas relações. Não alcançando sequer o
humanismo banal que, pelo menos, reconhece em palavras que a essência e a
riqueza dos indivíduos são fundadas nas qualidades e na amplitude das suas
relações mútuas.
Freud regressa não apenas a Rousseau, mas também a Hobbes. Como este, vê
apenas a rivalidade pela obtenção de bens. A agressividade e a violência são
comportamentos naturais porque os desejos que as constituem são sempre os da
posse. Esta identidade fundamental dos desejos torna todos os seres rivais. Só
que a identidade está na sociedade mercantil que reduz tudo a quantidades, a
coisas e a dinheiro. A rivalidade é o desejo da apropriação dessas coisas. Se
se tratasse da apropriação das condições de vida, do desenvolvimento das
qualidades pessoais, não haveria rivalidade senão para com a classe que a isso
se opõe porque só existe através do açambarcamento. Visto que aqueles que têm
estas necessidades humanas e pessoais só podem satisfazê-las pela troca, não
mensurável, gratuita, de qualidades e de modo nenhum pela compra de coisas, de
quantidades.
O sucesso oficial de Freud foi possível porque, sem pôr de modo algum em
causa a sociedade capitalista, ele ter encontrado, apesar de tudo, algumas
receitas para tentar que alguns indivíduos favorecidos pudessem adaptar-se-lhe
melhor. A sua teoria convém perfeitamente à burguesia que tolera todos os
curandeiros sociais, sejam padres ou pessoas que se consideram dotadas de
poderes supranormais, desde que se proponham tratar a doença sem, todavia,
erradicar as causas.
Melhor será, portanto, interessarmo-nos pelos egotistas mais radicais.
Designamos assim aqueles que afirmam que o indivíduo deve rejeitar a coerção da
sociedade (política e civil), tomar conta apenas de si próprio e submeter tudo
ao seu eu. Neles o fim é a soberania e a liberdade do indivíduo singular, o que
tem, pelo menos, a ousadia de empurrar de forma historicamente positiva a
lógica mercantil para um dos seus extremos ideológicos (sendo o outro a
racionalidade).
Stirner é um antepassado significativo desta ideologia egotista, declarando
que é necessário que cada um se oponha a qualquer Deus e a todos os Mestres,
assim como a todas as forças exteriores ao indivíduo (estado, moral, religião,
ideologia, etc.), para ser ele próprio livre e soberano e assim poder dar
largas ao seu ser. Aquilo que faço só deve ser a expressão daquilo que sou e a
minha existência deve coincidir com a minha suposta essência inata. Para isso
devo rejeitar todas essas forças, ou pelo menos só aceitar do exterior o que me
convém, aquilo que eu decido que coincide comigo.
Esta concepção nega evidentemente que a essência de um indivíduo é
histórica e determinada pelas relações sociais concretas da sua época. Pretende
que cada um possa escolher e rejeitar o que não é o «ele», pegar ou largar de
acordo com a sua conveniência. Se é humilhado, explorado e desprezado, é no
fundo porque o aceita. O indivíduo apenas tem que se considerar um homem como
os outros e ter com eles as relações que lhe convenham. No fim de contas, cada
um é responsável pelo seu eventual infortúnio, ou então as desgraças da vida
são acidentes inevitáveis. Há que suportar com coragem o que é inevitável e
recusar o que não é. Os descendentes de Stirner, os anarquistas, são assim
muitas vezes levados a desprezar os outros, pois que, em sua opinião,
demonstram uma cobarde submissão, quando basta que cada um «se liberte do
polícia que tem na cabeça», como diziam em Maio de 68, para que possa ser
livre. Isto é lógico, se acreditarmos que as ideias falsas provêm da propaganda
e não de bases materiais da vida concreta de cada um.
Nietzsche prolonga Stirner ao afirmar que a sociabilidade e a consciência
social não passam de manifestações de impotência dos indivíduos. E contradiz
Rousseau afirmando que elas são reminiscências de uma época em que a fraqueza
dos homens, ainda quase animais, os obrigava a agruparem-se em hordas, clãs ou
nações. Esta necessidade de cooperação e de sociedade levou à necessidade da
comunicação, da linguagem, origem da consciência social, que exprimia
minimamente o que os indivíduos devem partilhar e abandonar e não todo o
indivíduo. Seria apenas o que há de comum no rebanho gregário no qual o
individual se dissolve.
Nietzsche contradiz os iluministas que consideram a sociedade como um
produto, um fator e um marco da civilização. Para estes, os homens reforçam-se
se prescindirem de uma parte de si próprios, do seu poder. Em Nietzsche é o
contrário, o progresso significa a libertação do indivíduo em relação à horda
colectiva e primária, ao rebanho do Todo, de Deus, da Razão, realizando a
vontade de poder, sua essência natural (sempre Hobbes!). E não se deve opor ao
todo como se fosse um qualquer, representando o direito igual de todos, mas
como pessoa única, afirmando a sua diferença. «Dizer ‘eu’ mais vezes e com mais
força que a maioria dos homens, impor-se-lhes, resistir a todas as tentativas
que o reduzem ao papel de um instrumento ou de um órgão, tornar-se
independente, mesmo, se necessário, sacrificando ou submetendo os outros; e se
a independência tiver que pagar um preço alto, é preferível um estado social
precário do que viver em agrupamentos fáceis, seguros, uniformes e considerar
que uma maneira difícil de viver, insensatamente pródiga e absolutamente
pessoal é necessária ao homem se ele se quiser tornar maior, mais poderoso,
mais fecundo, mais ousado e mais raro...».[30]
Nietzsche reconhece de fato que a sociedade é hostil para os indivíduos, a
gregarização e a mediocridade a que ela os amarra, a sua incapacidade para lhes
enriquecer a personalidade. Mas daí só retira a conclusão estúpida de levar a
lógica mercantil, que provoca este resultado, ao seu ponto extremo: afirmar-se
nela como indivíduo só é possível contra os outros, esmagando-os se necessário.
Nietzsche cai no absurdo por não compreender a história que produziu tais indivíduos,
por negar que os homens só se enriquecem pelas suas atividades recíprocas, e
que só se elevam ou se rebaixam
Stirner e Nietzsche tentaram fazer uma crítica radical dos poderes
exteriores que oprimem e debilitam os indivíduos. Mas não é suficiente afirmar
a sua recusa para a concretizar. A vontade individual não basta. O dilema dos
egotistas é que o indivíduo livre e proprietário do seu poder pessoal só se
pode realizar através de uma inversão da sociedade que necessita do
reagrupamento colectivo e da disciplina que eles amaldiçoam; daí a sua
impotência e o seu desespero.
Os egotistas tentam, por vezes, sair desta contradição com a realização de
«actos exemplares», com a intenção de servir de detonador para que cada um mude
de ideias e de comportamentos e actue em função do mesmo objetivo, espontaneamente,
sem abdicar do seu «eu». Só que isso nunca acontece, porque as ideias e os
comportamentos estão ancorados nas relações sociais, que os produzem todos os
dias, e não desaparecem facilmente.
Os que postulam que cada indivíduo possui um eu que apenas procede dele
próprio, do qual se pode tornar senhor pela simples vontade, libertando-o das
ideias falsas que o sufocam, das forças exteriores que propagam essas ideias,
negando que esses indivíduos, assim como essas forças e essas ideias, são no
fundo o resultado da mesma história, das mesmas relações sociais, e que devem
por isso transformar-se conjuntamente, só vêem a origem destes males
contemporâneos na ideologia e têm eles próprios um comportamento ideológico. Ao
ignorarem as bases materiais da ideologia – que é a própria vida de cada
indivíduo e da sociedade como conjunto das suas relações – não conseguem
combatê-la.
Em Maio de 68, por exemplo, vimos um considerável número de intelectuais
que «conceberam o domínio pelas ideias como característica específica dos
tempos modernos e identificaram o nascimento da livre individualidade com o
derrubamento dessa dominação das ideias»[31].
Os culpados eram os meios de comunicação, a publicidade, o ensino, a
manipulação sob todas as formas. São certamente meios poderosos que a classe
dominante utiliza à saciedade para fortalecer o seu poder. Só que nenhuma
ideologia pode existir, impor-se e perdurar se não repousar sobre relações
sociais concretas. Todas as mediações do mundo burguês, não apenas a ideologia,
mas também o dinheiro, o Estado e as diversas categorias económicas mercantis,
assentam sobre essas relações e não podem desaparecer sem que elas desapareçam.
«Vivei sem peias e gozai sem constrangimentos», proclamava R. Vaneigem. A
fórmula tornada célebre é deliciosamente provocante. Mas também bastante
hipócrita: o que é gozar a vida, quando isso é a reivindicação de uma
ociosidade e de um gozo fundados na pilhagem dos oprimidos? E bastante
mesquinha, pois o que é um gozo fundado nos desejos mercantis do eu coisificado,
egotista e avaro?
Mais comummente a juventude estudantil de Maio de 68 ficou submetida à
ideologia egotista originária das relações mercantis que proclama que o eu e os
seus desejos, dados, inatos e sagrados, apenas pedem para viver de acordo com o
que são, do que os impede o autoritarismo desse monstro frio e desumano que é a
sociedade.
Sociedade autoritária, manipuladora, de espectáculo e de consumo, os nossos
ideólogos atiram para cima desse animal de carga tudo o que entendem, menos as
relações sociais. G. Debord denuncia a sociedade do espectáculo: os homens
dão-se ao espectáculo, mas não passam de espectadores, nunca são eles próprios,
tudo é falso. Desenvolve o tema de que o parecer substitui o ser, glosa sobre o
indivíduo manipulado, que existe apenas através das coisas que consome, dos
sinais que exibe, por procuração dos meios de comunicação que o tornam voyeur
daquilo que lhe querem fazer ver. Enfim, a descrição tem encanto, mas não passa
de uma descrição, de um quadro, um espectáculo dentro do espectáculo: não passa
disso. De fato estamos perante um encenador que critica os seus confrades.
Definir a sociedade contemporânea como espectáculo é uma coisa banal e
muito insuficiente. Mas não acontece por acaso, nem inocentemente. Os actores
representam o seu papel. Uns vivem, outros morrem. O que os faz agir, a uns e a
outros, tem causas cujas raízes não se encontram de forma nenhuma no domínio
das representações, das quais o espectáculo referido por Debord é apenas uma
das encenações.
A definição de «sociedade de consumo» foi também muito estimada pelos
intelectuais, sobretudo desde que se debruçaram sobre as condições do
proletariado, descobrindo uma situação bem distante da do Germinal.*
E eis rapidamente descoberta a causa da preguiça revolucionária do dito
proletariado.
H. Marcuse foi um dos representantes desta teoria segundo a qual Marx está
ultrapassado visto que as necessidades dos trabalhadores estão satisfeitas, a
ponto de, empanturrados de televisão, frigorífico e automóvel, já não se
poderem mexer, mas segundo a qual Freud se mantém atual, uma vez que a
contrapartida desse bem-estar material é a repressão dos desejos (afectivos,
eróticos, espirituais, etc.) dos indivíduos de todas as classes.
Ora, não só Marx nunca reduziu as necessidades ao campo material (e menos
ainda, sabendo-as históricas, a uma quantidade dada de mercadorias), mas,
naquilo que contêm de aproximado à realidade (a saber, a subordinação dos
indivíduos às coisas), verificamos que as formulações de Marcuse são um reflexo
bastante empobrecido das análises do nosso barbudo sobre o fetichismo e a
alienação. As análises constatam a evidência de que, vivendo como qualquer um
nas relações superficiais do «Mundo Encantado», o proletariado não acede
espontaneamente à consciência revolucionária e à atividade que daí decorre.
Muito menos numa fase de prosperidade do capitalismo, como aconteceu nos anos
50-70 (pelo menos nos países imperialistas). Então, este Mundo Encantado
parecia trazer alguns benefícios e permitir um progresso permanente. Esta
esperança de vantagens pacíficas reforçou necessariamente o peso das ideologias
e organizações reformistas (como o PC e o PS em França), verdadeiros
propagandistas da ideologia capitalista no seio dos trabalhadores. Segundo a
formulação do «compromisso fordista», a aceitação do embrutecimento do trabalho
e da mediocridade das necessidades satisfeitas foi a contrapartida para um
maior nível de consumo.
Em suma, poderia dizer-se do capitalismo, segundo Marcuse e C.ia,
que satisfaz as necessidades tendo como preço a repressão dos desejos. Como se
esta diferença fizesse algum sentido! Não vamos discuti-la aqui. Observemos
apenas que eles confundiram um aspecto particular de um momento particular de
uma época particular com o todo e o seu movimento. A não ser assim, teriam
constatado outros fatos bem significativos. Como por exemplo:
– o enfraquecimento do capitalismo com as suas derrotas coloniais,
– a revolta dos operários contra o trabalho taylorizado e sem interesse,
– a rejeição das representações políticas burguesas (incluindo os partidos
ditos comunistas),
– o ressurgimento de formas de luta radicais, etc.
Significa que os nossos ideólogos não reflectiram suficientemente sobre as
revoltas anteriores que deram origem às de 1968, as quais não tinham as suas
raízes nos problemas da libido do eu, mas nas relações sociais concretas
do capitalismo. Hoje, com as suas dezenas de milhões de desempregados, mesmo
nos países desenvolvidos, faz com que os nossos intelectuais já não se atrevam
a falar na «sociedade de consumo», nem no aburguesamento das massas. E
pensarmos que esta definição ainda há bem pouco tempo era para eles um
argumento «definitivo»!
Que solução encontrar então para fazer desaparecer o proletariado da cena
da história, visto que se desvaneceu o pretexto do seu «elevado» nível de vida?
Escolher uma nova manifestação da modernidade: os robôs. A. Gorz decidiu assim
dizer «adeus ao proletariado» (que se saiba, nunca lhe tinha dito bom dia), com
o pretexto de que as máquinas estavam em vias de extinguir os trabalhadores. O
Sr. Gorz tem a liberdade de só reconhecer como proletário o modelo de 1936
corrigido pelo de 1945. Mas o desempregado moderno ou o trabalhador
«enriquecido» nas atividades «flexíveis» continuam a pertencer à massa
trabalhadora, assim como os explorados do «terceiro mundo», que aumentam com as
deslocalizações dos capitais.
Seja qual for o pretexto, os nossos intelectuais voltam sempre ao mesmo
refrão: os proletários já não existem, já não há lutas de classe por
necessidades (materiais). Resta, tão-só, a luta de cada indivíduo contra o
recalcamento dos desejos. Mas se tentarmos perceber as manifestações dos seus
recalcamentos, este indivíduo não recalca nada de pessoal. É que estes famosos
desejos do eu adquirem furiosamente formas materiais: o seu objecto é o
dinheiro, a posse de coisas, a afirmação de si próprio na luta contra os outros
(no desporto, no roubo, na degradação dos espaços públicos, etc.).
Como anedota, podemos observar que não surpreende que um grande número dos
que santificaram, em 1968, o ego e os seus desejos espontâneos, se tenham
encontrado, volvidos alguns anos, nos cargos e nas delícias da sociedade
burguesa. Já que o gozo pelo dinheiro e o seu poder é nesta a única saída dos
desejos por ela determinados, o indivíduo da sociedade burguesa, se não agir
para destruir as relações sociais de separação, jamais poderá elevar a sua
crítica além da contestação ao lugar e à fortuna que lhe couberam, sempre
insuficiente a seus olhos, para reivindicar um maior quinhão.
Por fim, todos os egotistas são ideólogos. Possuem uma ideia do Homem e do
seu «eu» e pretendem realizá-la. Esta realização confronta-se com a repressão
da sociedade «industrial», «tecnocrata», «burocrática», «totalitária». Que fazer?
Proclamar a sua «essência», não aceitando as aparências. Que cada um rejeite o
que não é «ele». Existem chefes, hierarquias, leis, Estado? É assim porque vós
o permitis e não, creiam, por causa da divisão do trabalho específica e
profunda, que não é possível suprimir de um dia para o outro e muito menos pelo
indivíduo isolado. Afirmai a vossa força pessoal, a inteira soberania do vosso
eu, e sereis livres.
É evidente a necessidade da libertação da opressão das forças exteriores,
que se designa por vezes de «super-estrutura», das leis, da ideologia, do
Estado, porque tudo isto reforça o domínio das coisas sobre os homens, assim
como das forças de classe que acumulam essas coisas. Mas nesse caso é
necessário reconhecer que isso é impossível se não se suprimir o que as
sustenta: a divisão do trabalho e a desapropriação dos homens das condições das
suas atividades.
No entanto, é o que recusam os ideólogos modernos, uma vez que a sua
ideologia, nas suas diversas formas, representa, justifica e corrobora sempre a
separação indivíduo/sociedade que engendra as relações mercantis. Permanecem
sempre dualistas.
Umas vezes exageram os poderes exteriores nos quais se concentram e se
perdem os poderes pessoais, num Deus ou noutra força suprema como o interesse
geral, a nação, a sociedade. De Calvino a Kafka, o indivíduo fica assim
submetido à sua autoridade, ao julgamento de um ente misterioso, anónimo e
temível.
Outras vezes percebem com nitidez esta força exterior na Terra, «a
sociedade», e transformam-na no demónio. De Max Stirner a Jean Genet, o indivíduo
é negado na sua essência social e mercantil e colocado como Santo, devendo-se
afirmar na vontade, na recusa, no escárnio.
Assim, para os ideólogos burgueses, adeptos da teoria mercantil de que o
homem é lobo do homem, passado apenas um século, de Rousseau a Nietzsche, a
sociedade que era a civilização tornou-se o inimigo. Para Rousseau, os
abandonos de soberania consentida pelos indivíduos à sociedade transformavam-na
em força civilizadora, garantindo em troca aos indivíduos a sua elevação e
enriquecimento. Para Nietzsche, é o contrário: só afastando-se da sociedade,
reminiscência da horda animal, é que o homem se personaliza.
O que se passou simplesmente entre os dois foi que não se cumpriram as
promessas da revolução burguesa, porque não podiam sê-lo. E a sociedade
apareceu tal como é: o domínio do cidadão mítico, o esmagamento das pessoas
reais, a destruição das qualidades humanas, a organização mortífera das suas
rivalidades mercantis, ditas nacionais.
Praticamente o único aspecto interessante das ideologias egotistas é a
oposição indivíduo/sociedade própria das relações mercantis. Mas ficam
inteiramente nestas relações, sacralizando o indivíduo mercantil, como se ele
fosse capaz de se libertar dessa essência negando simplesmente a sua outra face,
a sociedade. E permanecem inteiramente na ilusão da sociedade burguesa, que é a
de acreditar que é possível todos prosseguirem livremente os seus fins.
Quanto aos descendentes de Rousseau, já não são hoje senão um pântano
lamacento de hipócritas tentando justificar o seu lugar no mundo político e
mediático pela reutilização de argumentos de há dois séculos. Mas estes
argumentos, como por exemplo os Direitos do Homem e o mito do cidadão, já não
têm qualquer força, uma vez que foram vencidos pelos fatos bárbaros,
ditatoriais e anárquicos destes dois séculos de crimes democráticos. Ao
vestirem a pele de sábios e de defensores do «justo meio termo», que não é
justo nem está no centro, estes ideólogos pretendem realizar equilíbrios
impossíveis no mundo capitalista: um pouco de poder para a sociedade, um pouco
para o indivíduo; um pouco para os lucros, um pouco para os salários; um pouco
de exploração, um pouco de caridade, etc. Nos fatos não passam de defensores do
mórbido statu quo de que tiram dividendos. É unicamente por causa disso
que tentam fazer crer que é possível melhorar a sociedade sem romper as suas
cadeias, o que, na sua opinião, nos conduziria ao destino miserável da cabra do
Sr. Séguin.
Na realidade os indivíduos só existem socialmente. São, simultaneamente
eles próprios e a sociedade que é preciso transformar, construindo o indivíduo
social, de tal modo que as suas relações diretas, pessoais e transparentes
substituam a opacidade das separações e das mediações através de coisas,
instituições e ideologias que lhes são exteriores.
Deste modo, é necessário agora expor o que constitui, na realidade, o
movimento histórico e portanto a superação da contradição indivíduo/sociedade
pela destruição destes dois termos.
[24] L. Feuerbach et la fin de la philosophie
classique allemande, in K. Marx - F. Engels, O. Choisies,
E. S. T. 3, p. 355.
[25] Esta ideologia mercantil
já está presente na parábola bíblica dos talentos, segundo a qual aquele que
receber dez de Deus e lhe devolver dez será abençoado, enquanto aquele que
receber apenas um, não conseguindo devolver nada, será amaldiçoado.
[26] Sobre o tema da opacidade
e da transparência, cf. o anexo «O mundo das metamorfoses mistificadoras
da vida», in Ecologia do Absurdo,
T. Thomas, Ed. Dinossauro, Lisboa.
[27] Em A questão judaica, Marx diz justamente a este propósito que esta
liberdade «faz com que o homem encontre no outro não a realização mas o limite
da sua própria liberdade».
[28] J. J. Rousseau, Le Contrat
Social, Ed.
[29] Renan, Conferência «
Qu’est-ce qu’une nation?».
[30] Nietzsche, La volonté
de puissance, 1880-81.
[31] K. Marx, Idéologie
Allemande, sublinhado por mim.