Relembrando as raízes populares do Teatro
Hoje em dia, quando um cidadão diz que gostaria de ir ao teatro, isto pode traduzir um desejo de se ver de perto a atuação de artistas famosos. O público também pode ser atraído para o espetáculo teatral motivado pela magia e pela estética teatral em si, que proporciona à platéia experiências únicas e ricas. A apresentação das peças, a montagem dos cenários, a interpretação dos atores, continua a ser a expressão artística mais pura e mais direta, no contato com o público. A platéia, porém, tem mantido um distanciamento prolongado das casas e espetáculos teatrais, isolamento que levou o teatro à beira da falência e da extinção. Censurado, perseguido, esquecido pelos patrocinadores, desprezado pelos governantes, desafiado pela televisão e cercado pelas dificuldades imensas da vida moderna, o teatro só não desapareceu porque é teatro. Porque sem teatro não se vive, não se alimenta a alma. E também, porque neste mundo mercantilizado, as montagens teatrais não deixam de ser, em contextos muito particulares e controlados, uma excelente mercadoria, ou marketing cultural.
Só que o teatro é muito mais do que isso. A memória teatral, enraizada na história humana, não se encaixa nas reduções do "monoteísmo de mercado", nem nas conveniências de governantes, políticos e grupos econômicos. O interesse e a paixão pelo teatro têm raízes profundamente populares, de relações muito íntimas entre os artistas e as populações das cidades visitadas. Há motivos para isso. Os espetáculos eram montados e os personagens eram adaptados conforme as tramas locais das comunidades. A população comparecia em peso, porque havia uma quantidade enorme de informações e de fruições somente possibilitadas pelas antigas companhias teatrais que percorriam o interior do país. As personagens teatrais desvelavam os traços de caráter e o coração de autoridades e poderosos, da mesma forma que davam ao cidadão comum perspectivas de si próprios. O teatro era uma forma essencial de descoberta e de processo social e cultural. Este era o caso da Itália e da França. Da Commedia dell'Arte italiana e de Molière.
Com a incorporação do teatro pela sociedade industrial, apesar dos vários ganhos havidos em favor dos espetáculos e das montagens teatrais, ocorreu a grave perda dessa vida intensa, de cumplicidade entre o teatro, a população e a história da sociedade, atuando como referência básica para a formação de um ideário e de um imaginário popular. O gosto popular pelo teatro não esmoreceu à toa. Autores e atores continuam figurando entre os artistas e escritores mais irreverentes e ousados das formas de expressão cultural, mas perdeu-se um pouco da substância comum que havia entre o fazer teatro e o assistir teatro. O teatro dos grandes vôos, das metáforas aperfeiçoadas, depuradas e desenvolvidas ao longo do tempo, das experiências conceituais e cênicas, tem um valor universal insubstituível, porém, estará incompleto enquanto não puder retomar espetáculos que combinam com maestria a universalidade e os contextos locais. A pequenez e a grandeza têm o mesmo potencial dramático, o provinciano e o cosmopolita também. Do equilíbrio e do choque dessas realidades antagônicas nasceram grandes criações da dramaturgia mundial, compondo um teatro de grandes públicos e de grande impacto sócio-cultural, sem cair no patrulhamento, no utilitarismo ou em dramaturgias de teses ideológicas. Mesmo as comédias escrachadas que criticavam a sociedade expondo o ridículo ou o trágico de reis e de classes privilegiadas, tinham um poder corrosivo sobre esquemas totalitários e injustos. Mesmo sem o engajamento teórico e político, essa alienação aparente era compensada pela ligação muito grande e direta com o público. Em muitas ocasiões, essa forma mais crua e simples de dramaturgia (nem por isso pode ser simplória, nem descuidada) ainda é a melhor forma de se cultivar e resgatar a cultura teatral da sociedade.