A estrela de Newton subiu nos céus ilustrados de Sanca, assim quis a estrela do Povo. 

 ÍNTEGRA DA ENTREVISTA CONCEDIDA AO PORTAL TERRA, NO FINAL DESTE TEXTO. 

No decorrer da década de 80 surgiram análises cada vez mais freqüentes (p. ex., do Instituto de Estudos Avançados, IEA-USP), dando conta de que o poder político e a condução econômica das nações estava prestes a mudar de mãos, de uma classe social para outra. Uma espécie de revolução silenciosa estava em curso, deslocando os centros decisórios e o poder das mãos de antigos coronéis e dos capitães da indústria dos séculos XIX e XX,  passando a concentrar as funções dirigentes na mão dos "experts", os especialistas formados pela universidade. Essa avaliação acertou na mosca, especialmente se for considerado que naquela época não se previa o fim do socialismo real, a derrocada da URSS e a queda do Muro de Berlim. Nem a ascensão do neo-liberalismo como principal força política dos anos 90. O que se detectou foi apenas a emergência (pobre palavra) de novos atores sociais, e de novos contextos estruturais, indicando uma transformação mais do que superficial no modo de produção capitalista.

Chegamos ao final da década de 90 e nos deparamos com esse fenômeno espraiado em todo o mundo. Em países como o Brasil, assistimos o extremo disso, com a eleição e reeleição do governo Fernando Henrique Cardoso. Essa foi, por assim dizer, a fase 1. A opção pela Terceira Via em países europeus, o surgimento da Quarta Via como nova alternativa e, no Brasil, as eleições municipais do ano 2000, marcam a entrada na fase 2, aprofundando o processo histórico nascido da costura entre a política e o conhecimento. Por mais que a classe dominante tente segurar e negar a existência desse processo, ele é inerente ao próprio desenvolvimento capitalista, principalmente em países do Terceiro Mundo. A nova geração de universitários-especialistas que chega ao poder tem concepções ideológicas muito mais próximas de uma democracia popular. Este é o caso de Marta Suplicy, Newton Lima, Tarso Genro, Cristóvam Buarque, Ciro Gomes e muitos outros.

Newton Lima e Cristóvam Buarque são casos clássicos do momento atual, por serem ex-reitores de universidades federais importantes (São Carlos e Brasília) lançando-se com sucesso na carreira política e assumindo projetos de governo populares. Estes são fatos muito alvissareiros para a população brasileira, de um lado, de outro, reacendem um debate igualmente clássico do processo democrático: até que ponto a experiência acadêmica e universitária é indicada e adequada à preparação de um cidadão para a vida política? E mais uma questão: as novas equipes de governo, principalmente em São Carlos, compostas por quadros oriundos da universidade, ou de posturas semelhantes ao perfil dos novos dirigentes universitários, não estariam tentadas a serem racionais demais, acadêmicas demais, projetando um governo frio e técnico, recaindo em equívocos racionalistas com caiu, por exemplo, o PSDB?

O debate político que se trava já há algumas décadas, desde a fase final da ditadura é o de que o melhor perfil para se assumir cargos políticos seria o perfil de um político. Quer dizer, o mais indicado a governar uma cidade ou um país não é um general, nem um campeão da falsa-moralidade (Jânio e Collor),  nem um empresário. Os cidadãos não são empregados que podem ser contratados ou demitidos, não desejam cumprir ordens de governos-patrões; as cidades e os países não são quartéis, nem pequenos clubes sociais em que o diretor manda os namorados pararem de se beijar em público. A política é muito mais complexa e rica do que uma empresa, um exército ou um quarteirão de cidadezinha. Da mesma forma então, um especialista, cientista, professor ou pesquisador, não seria a pessoa mais indicada a governar. Nem as equipes de governo de primeiro escalão poderiam ser formadas por técnicos, empresários, militares, artistas, esportistas, jornalistas, etc. Um cargo político deve ser ocupado por políticos. Este é o discurso mais ou menos consensual. Porém, o fato de alguém ter uma profissão específica, como as citadas acima, de modo algum significa que determinada pessoa não tenha um bom perfil político. Não é essa a questão que se quer mostrar, criticando-se cidadãos por puro preconceito. O que se quer trazer para o riquíssimo debate do novo processo político brasileiro que se inicia é o fato de que as novas equipes de governo não devem assumir posições estereotipadas e recortadas por suas origens profissionais. Porque a exigência de se liderar o processo político de toda a sociedade, e de fazer isso politicamente, negociando e fazendo alianças através de princípios partidários e da transparência democrática, é irrevogável. Ë Política.

Há muito que se comemorar em São Carlos. A vitória de Newton Lima foi realmente um acontecimento histórico. Como em São Paulo, ocorreu uma disputa simbólica muito importante. O eleitorado identificou nas propostas da campanha do "Newtão" e do Partido dos Trabalhadores uma alternativa e se projetou nela. Refletiu um ganho de maturidade da cidadania local. Houve a ruptura com um processo político tradicional-conservador que sempre se saiu vitorioso na cidade. Em outros tempos, o processo liberal conservador de São Carlos foi, digamos, "adequado" ao desenvolvimento da cidade. Entretanto, a continuidade dessa vocação seria desastrosa e se mostrava superada e arcaica. As eleições de outubro marcaram um certo ponto de mutação para o futuro da cidade. A festa do Ginasião, a explosão de alegria nunca foi vista antes na cidade. Antes eram cumprimentos moderados e contidos. O festejo ensurdecedor mostrou que quando o povo vence, a história é diferente. Mas isto tem que se confirmar agora na nova gestão. Inúmeras seqüelas e lacunas foram deixadas na cidade, resultantes de diversos abusos, alguns pequenos, outros gigantescos, cometidos por administrações anteriores. A dívida de R$ 60 milhões para um orçamento de R$ 90 milhões é preocupante. A parceria com empresas que desejem participar de um novo modo de governar, é fundamental. A transparência "on-line" e "real-time"do orçamento, das concorrências públicas e dos pagamentos efetuados é o cerne da popularidade de um governo popular. A negociação política projeto a projeto é básica para a governabilidade do Prefeito, tendo apenas 4 vereadores de seu partido. E a equipe de governo precisa ter muita humildade, por mais habilitados e preparados que possam estar os Secretários e seus cargos de confiança. Uma cidade importante, complexa, em franco desenvolvimento e de grande repercussão nacional como São Carlos é muito maior do que o modo empresarial de administrar, ou do que o modo científico de conduzir as coisas, ou do que o modo populista de governar. Como deve ser então essa Política, com "P" maiúsculo? Ninguém sabe ao certo. Mas o povo, em sua sabedoria democrática, escolheu o Professor Newton, o Partido dos Trabalhadores e a nova equipe de governo por achá-los os mais indicados para procurarem essas respostas e, encontrando-as, aplicá-las na administração e no desenvolvimento da cidade. O Língua Solta deseja ao novo governo muito boa sorte. Tomara que a nova geração política nos faça esquecer os desmandos e atrasos da antiga política brasileira.

A vitória de Newton Lima cria também uma oportunidade única de aproximação e integração entre a universidade e o município, mediados pelo governo municipal. Isto será ótimo para a reciclagem dos ares acadêmicos, mantidos muito distantes da vida real, especialmente desde o governo militar. Mais do que nunca a universidade pública precisa do povo, e vice-versa. Eis a oportunidade! Há também o fato de que os conservadores brasileiros ficaram muito, mas muito assustados, e observam com muita inquietude os movimentos da esquerda. Foi notória a reaparição pesada, mal-dormida e fatigada da direita, discursando com olheiras e cansaço derramando-se para os lados. No esforço de tentar se apropriar do avanço e da reorganização da esquerda no Brasil, com intensidade nunca antes vista neste país (e consistência), a grande imprensa de imediato entoou o refrão eficiência e honestidade, apregoando um PT e uma esquerda "social-democratas". Isto só pode ser explicado como tática dispersiva e situação de pré-pânico. A tônica das propostas petistas e de outros oposicionistas que se reapresentam revigorados não é simplesmente a honestidade e a eficiência, é a participação popular e a transparência. Decidir e observar o curso do dinheiro. Gerir com as comunidades o "din-din" público e a administração pública. Democraticamente. Este é o eixo dos governos populares.

 ÍNTEGRA DA ENTREVISTA


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