Sobre sua obra

Um dos temas centrais da obra de Vinícus de Moraes, indiscutivelmente é o AMOR em suas diversas formas, mas restringindo a forma de amor expressa neste poema,  o amor que faz sofrer a pessoa amada, encontraremos diversos exemplo na vasta obra deste poeta, como por exemplo:

Quero chorar porque te amei demais

Quero morrer porque me deste a vida

 

Oh,  meu amor, será que nunca hei de ter paz

Será que tudo que há em mim

Só quer sentir saudade

E já nem sei o que vai ser de mim

Tudo me diz que amar será o meu fim

Que desespero traz o amor

Agora sei porque não sou feliz  

(Canção do amor demais, Livro de Letras)

 

Podemos ainda compará-lo, levando em conta este sofrimento que o amor traz, com Camões, em um dos seus sonetos mais conhecidos:

 

Amor é um fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

 

É um não querer mais que bem querer;

É um andar solitário entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É um cuidar que ganha em se perder;

 

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

 

Mas como pode causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

Mas apesar do tema ser idêntico - “a infelicidade frente a um amor”, Vinícius ao cantá-lo, não reflete um amor platônico, mas sim um amor carnal, onde é valorizado o ato de estar próximo, de sentir o ser amado nos braços, mesmo sabendo da fatalidade que isto lhe ocasionará;  já Platão, (o amor platônico esta no soneto de Camões) pregava que a felicidade não significava ter o ser amado próximo, mas tê-lo em pensamento, pois só este sentimento já os aproximavam.

O Poetinha canta seus amores vividos em sua plenitude, sua vida e sua poesia são o fonte de sua inspiração, e por isso sua obra esta sempre ligada a figura da mulher,  e  afinal foram tantas, mas ele justifica-se:  

... Seguirei

Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma

Que ele seja, sem sua rota, uma dispersão de pegadas

Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim

Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber

Que fui amante e que entre a mulher e eu alguma coisa existe

Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, um promessa

De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.

 

(Obras Completas, 725)

 

Ao escrever, é deixado claro, que nesta necessidade de ferir-se, de sofrimento por amar tanto, é estabelecido uma transcendência, onde o amor não se restringe apenas ao prazer dos sentidos e nem tampouco à beleza física, apesar de sua famosa frase ... as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental -  Não dar sossego a pessoa amada, é o mesmo que obrigá-la a descobrir em toda a complexidade que realmente a caracteriza, a torná-la parceira de sua própria inquietação.

 

Maior amor nem mais estranho existe

Que o meu, que não sossega a coisa amada

E quando a sente alegre, fica triste

E se a vê descontente, dá risada.

 

E que só fica em paz se lhe resiste

O amado coração, e que se agrada

Mais da eterna aventura em que persiste

Que de uma vida mal-aventurada.

 

Louco amor meu, que quando toca, fere

E quando fere vibra, mas prefere

Ferir a fenecer - e vive a esmo

 

Fiel à sua lei de cada instante

Desassombrando

Numa paixão de tudo e de si mesmo.

(Soneto do Maior Amor -  Obras Completas, 202) 

E assim, este grande poeta define seu amor maior, um sofrimento que pode ser comparado a embriaguez causada por um bom Whisky, é ótimo enquanto se está vivendo, mas depois vem a ressaca e dor de cabeça (isto é no caso da bebida, pois no amor a dor é profunda - no coração)

Tento compor o nosso amor

Dentro da tua ausência

Toda a loucura, todo o martírio

De uma paixão imensa

Teu toca-discos, nosso retrato

Um tempo descuidado

 

Tudo pisado, tudo partido

Tudo no chão jogado

E em cada canto

Teu desencanto

Tua melancolia

Teu triste vulto desesperado

Ante o que eu te dizia

E logo o espanto e logo o insulto

O amor dilacerado

E logo o pranto ante a agonia

Do fato consumado

 

Silenciosa

Ficou a rosa

No chão despetalada

Que eu com meus dedos tentei a medo

Reconstruir do nada:

A tua pele amada

Tudo defeito, tudo perdido

A rosa desfolhada

(A rosa desfolhada - Livro de Letras, 152)

 

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