Um Cidadão Buarque de Holanda altamente suspeito

Em 1976, por uma dessas vicissitudes da vida, era cadete na Academia da Força Aérea. Fazia porém o curso de intendência, pois para mim nada superava a sensação de segurança da terra firme e o fato de se poder pisar no chão. Passava a semana em Pirassununga, na caserna, e nos finais de semana estava nos bares, em São Carlos, discutindo temas doutrinários, políticos e ideológicos com os amigos, alguns deles profundamente engajados no movimento estudantil. Aos 18 anos, educado na escola moldada pelo regime militar, muito pouco sabia ou queria saber de política. Certo dia as atividades na AFA foram interrompidas e os cadetes foram levados ao naquela época moderno e luxuoso cinema da base. Alguns oficiais do SNI, se me lembro eram um coronel e dois majores, fariam uma palestra de iniciação aos assuntos de inteligência, para os futuros oficiais. Considere-se que naqueles tempos os militares eram todo-poderosos e mandavam e desmandavam no país. Passamos o dia todo escutando a exposição dos oficiais, no auditório repleto de militares e alguns comandantes. Contaram-nos a história do Brasil na perspectiva deles, desde a Intentona Comunista até a atualidade pré-eleitoral daquela época, abordando os assuntos de subversão, censura e infiltração comunista. Franco Montoro, Ulisses Guimarães e outras personalidades foram ligados ao Partido Comunista. Propagandas de televisão, rádio e revista foram analisadas à luz da perspicácia do patrulhamento ideológico. As táticas de Mao-Tsé-Tung e as referências aos cubanos foram repassadas. A platéia não proferia um pio. Em sinal de respeito... e de medo. Ali era um cenário da Guerra Fria pra valer. A gente não entendia muito do que escutava pela primeira vez. E se achassem que a gente era subversivo, por perguntar algo de errado? Por perguntar qualquer coisa? Por se expressar? O ambiente lacônico, disciplinado, sisudo, positivo e devotado reinava. Havia bons amigos ali, a grande maioria formada por  pessoas valorosas, honestas, sinceramente dedicadas ao Brasil, mas entre nós nascia o temor de olhar para o colega do lado. E se alguém entre nós estivesse observando as reações? O pescoço doía, os joelhos permaneciam grudados e imóveis, até para engolir saliva se fazia o mínimo ruído. Tudo era um pouco estranho, soando como uma história distante, no mundo visto de uma maneira que nunca antes tínhamos visto claramente. Devia ser certamente um assunto muito sério. Eu tentava guardar os nomes de todas as pessoas citadas, para colocá-las em minha lista de subversivos e de suspeitos. E a palestra de doutrinação prosseguiu nesse clima austero e grave, até que falaram do Chico Buarque.

O Chico foi citado como exemplo. Como apelo aos jovens presentes. Não estavam bravos com ele. Nem decepcionados. Apenas lamentaram. "Puxa vida, justo o Chico! Um cara legal, boa pinta, de boa família,  muito bem educado, talentoso. Logo ele foi ser comunista? Não compreendemos isso! ". Era um tom que pretendia reforçar para nós a idéia da dissidência política como sendo um desperdício das valiosas jovens vidas brasileiras. Ser "comunista" perante o grupo de generais mandatários da época queria dizer, no final das contas, qualquer sinal de opinião própria, de espírito crítico e de divergência de opinião. Ou qualquer traço que julgassem inconveniente. Ou qualquer coisa, se estivessem de mau humor naquele dia. E eles eram bem mal-humorados. Tanta coisa boa para se fazer! Não sejam comunistas, por favor! E aí começaram a tocar para o auditório a música "Apesar de você", como evidência subversiva. Muitos anos depois, percebi que aquele tinha sido um erro elementar de nossos ideólogos doutrinadores. Quando o sambinha começou a tocar no auditório, houve um momento de relaxamento dissimulado. Enfim, algo familiar e agradável nos entretinha, fazendo uma pausa no clima carregado. Naquele momento, o Chico ficou ainda mais popular para mim. Apesar de você, essas foram e continuam sendo três palavras mágicas na cultura brasileira. Não somente contra a ditadura,  mas contra todas as formas de obscuridade e opressão. Contra toda forma de arbítrio e de tirania. Esse foi um hino de desabafo e de renovação de forças contra qualquer fato que levasse à opressão, à infelicidade e à revolta. Cantava-se a música do Chico Buarque e ela nos revigorava. Trazia esperança e um sentimento de força e de união. Mas não era só essa música do Chico que inspirava a população, e não era só o fazer música que o tornava admirável. A voz dele se levantou em momentos agudos ou cruciais da vida brasileira, como um marco do espírito brasileiro. A resistência popular expressa por ele reforçou e libertou o valor eterno, intocável e inalienável dos cidadãos brasileiros. 

Desde aquele dia, o samba para mim começou a se tornar mais do que um gênero musical, e a imagem que tinha do Chico Buarque tornou-se mais próxima e mais amiga. Chico Buarque de Holanda passou a encarnar e a simbolizar o sentimento de cidadania e o ser brasileiro. Traduzia em palavras e notas certeiras as angústias e as alegrias dos brasileiros, com empatia inigualável, interpretando almas masculinas e femininas, falando ao coração popular e decifrando o coração popular, em que todos se incluem.  O cidadão "suspeito" acabou tornando-se na verdade um herói popular, digno da pureza e da simplicidade da população brasileira. E, para sempre consagrado, em vez de mostrar arrogância ou preconceito contra a "gente humilde",  tão comuns nas elites nacionais, fez questão de ser apenas mais um cidadão, como todos os outros. E concordamos com isso, não é mesmo? Um cidadão "comum", só pra deixá-lo contente.

Oito anos mais tarde, em 1984, firmemente empenhado na campanha das Diretas-Já!, ouvi essa mesma música, dezenas de vezes. Desta vez cantei, bem alto,  junto com milhões de pessoas, junto com o Chico Buarque, a mesma canção que antes escutara calado.

Zacio Geribello

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