Porta de boate
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- Tudo bem, você fica aqui até sua amiga chegar. Aí
pode entrar direto.
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O segurança orienta Aline a esperar no
canto, para não ter que pegar fila de novo. E Ana nunca mais que
chegava, que agonia!! Aline detestava ficar muito tempo ali na porta,
sempre um ou outro ser 'estranho' surgia. Era um saco, pelo menos lá
dentro ela ficaria relativamente mais calma e se distrairia dançando.
Mas não! O tempo passava e nada de Ana. Aimeudeus, onde essa louca
se enfiou?!?
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Mas, falando em louca... Olha só
quem aparece!
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Claudinha, ou melhor, Claudete, a piroquete
, de micro-vestido ultra-decotado preto, sandália de tiras
entrelaçadas que subiam pela batata da perna e novíssimo
cabelo Blonde Ambition. Ué, mas ela, tão foda,
tão VIP
, está indo para a fila?? Aline não consegue esconder
o sorrisinho de escárnio.
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Então começou o melhor espetáculo
que poderia esperar: assistir Claudinha sendo barrada! A espera
por Ana estava ficando divertida...
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Aline costumava sentir a maior
admiração
por Claudinha, se impressionava com a petulância, a postura
ousada e, principalmente, com a sua falta de medo para fazer o que der
na telha - só para ter Pedro de volta. Mas desde a
visitinha
e o surto-mor
que a garota teve pra cima dela, Aline vinha torcendo para vê-la
perder o salto, nem que seja uma única vez. Não é
possível, alguma hora ela tinha que se ferrar!
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Então Aline permaneceu ali, na moita,
observando a quicação nervosa do grupinho de teenagers
ansiosos para passar pelo crivo do segurança. Pareciam ensaiar
todos os passos, desde o jeito de ficar em pé até o cigarrinho
'pseudo-cool' na boca. Aline não conseguia acreditar que Claudete
precisasse disso. Então ficava olhando-a sem parar com um sorriso
satisfeitíssimo no rosto. E sem a menor vontade de se esconder
dela.
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Até que, de fato, Aline conseguiu ser
vista. Ahh, e foi aí que começou o deleite: a cara assustada
de Claudinha. Pela primeira vez Aline via a menina ficar intimidada.
Então continuou com seu olhar, sarcástico até a
raiz dos cabelos, e deu o já clássico sorrisinho
"piroqueeeete"
para cumprimentá-la de longe. Claudinha fechou a cara na
hora, mas não podia perder a pose por causa do segurança.
Aline achava aquilo o máximo, e ficou provocando-a de propósito.
Não tirava os olhos dela, desafiando-a. Como se dissesse "vai...
tente fazer qualquer coisa...pirralha!" E parece que Claudinha
sentia esse olhar, pois só fazia se mexer, incomodada, irritadíssima,
olhando cada vez mais pra cima com o narizinho empinado, como que dizendo
'pirralha coisíssima nenhuma, sua...!". E o "diálogo"
estava nesse nível quando o segurança abordou o grupinho:
- Identidade, por favor.
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Aline até cruzou os braços, fazendo
um 'HA!' pra dentro. Viu que a primeira menina passou; a segunda também;
o rapazinho idem... ué. Ahh, que frustração, eles
devem ser profissionais de falsificar documento! Tsc... Aline se desaponta,
e até olha para baixo e engole seco quando vê o olhar superior
de Claudinha, na sua vez de mostrar a identidade. Mas aí...
- Epa, você não. [o segurança olha para
Claudinha e olha para a identidade seguidamente, desconfiado] Péra
lá.
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Aline dá um pulo. Está exatamente
do outro lado do segurança, a meio metro de Claudinha (que também
deu um pulo na hora), que começa:
- Como assim?!?! Como assim 'péra lá'????
- Péra lá... calma... estou olhando sua... 'cópia'
da sua carteira....
- Ihh, o que foi, hein?? Quer que eu recite os números,
é isso?? O nome da minha mãe, o nome do meu pai???
- Calma...
- Não sabe ler não?? 1975!! [pronunciando todas
as sílabas com força] Faz as contas!! O que você
acha que isso vai dar, quinze??
.
.
Aline quis rir. 1975?!?! Claudinha estava querendo
passar por TÃO MAIS VELHA ASSIM??? Ai que vontade de chamá-la
de 'tia'... Mas engoliu o riso e permaneceu impávida, olhando-a
até mais discretamente, por trás do segurança.
E Claudinha continuava esbravejando, como só uma teenager
tentando enganar segurança faria:
- Olha só, você está duvidando, é???
Então vou te mostrar aqui o cartão da outra boate!!!
Isso mesmo, aqueeeela boate concorrente, sabe??? Tenho a carteira
de SÓCIA dela!!! Vê se eles iam permitir uma sócia
menor de idade!!! Ainda duvida??? Olha aqui, então!! Ó, o
cartão de crédito do meu pai, tá vendo aqui?? É
o mesmo nome da identidade, ai que saco!! Ainda duvida??? Então olha
o cartão do clube da minha mãe!!! Olha! Tá olhando???
Como ainda duvida que essa carteira de identidade é minha??
- Veja bem, estou só preocupado com a foto... não
parece você...
- Ô meu filho, você sabe quantas vezes eu já
tingi o cabelo?? Sabe quando eu tirei essa maldita carteira?? Então...
ai! Não acredito que isso está acontecendo comigo! Não,
não posso acreditar!! Eu venho aqui sempre, meu amigo! Há
três anos!!! TRÊS ANOS!!! Antes sequer de você saber que
isso aqui existia, tá ouvindo???
.
Aline estava chocada com a cena. De dentro da
boate costumava sempre ver uma entrada glamourosa
de Claudinha, e não imaginava nunca esse tipo de coisa acontecendo
do lado de fora. Sentiu até um pouquinho de pena. Mas, claro, achando
tudo 'bem-feito para a pirralha'.
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Alguns minutos se passaram, com Claudinha fumando
que nem uma chaminé, inconformada por ter visto todos os seus
amigos entrando e ela não. A discussão prosseguia, em vão,
e Aline começou a sentir um comichão, uma vontade irresistível
de sacaneá-la, de passar ali e ainda falar para o segurança
umas coisinhas... Primeiramente olhou para os lados, procurando Ana
ou Pedro, e nenhum dos dois estava à vista. Ninguém conhecido
ali por perto, então tudo ok. Resolveu entrar, já estava
esperando Ana há mais de uma hora, e a amiga saberia que ela estaria
lá dentro. Então interrompeu a discussão do segurança
pedindo:
- Oi... acho que...[sorri e se vira para Claudinha] quero
entrar agora. Minha amiga me encontra lá dentro mais tarde.[encarando-a,
numa clara afronta]
- Ok, só aguarde a liberação lá dentro
um instantinho tá?
- Claro. [sem tirar os olhos de Claudete, que já ficara
vermelha de ódio]
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Aline estava maquinando algo. Dava para sentir
seus olhos faiscando para cima de Claudinha. Quando lhe foi permitida a
entrada...
- Pode ir.
- Obrigada. E ah...[vozinha irritantemente meiga] Ela
não nasceu em 75 não, foi em 85, o que faz dela...
maior de idade só daqui a alguns aninhos....[solta um risinho
sarcástico]
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Aline anda rápido para a entrada, só
ouvindo os berros ensandecidos:
- ESCUTA AQUI, VOLTA AQUI!!! SUA... SUA!!! DESGRAÇADA!!!
QUE MENTIRA!!! ELA É UMA INVEJOSA, NÃO ESCUTA ELA!!! ELA
QUER ENTRAR AÍ PARA ROUBAR MEU NAMORADO!!!! ELA É UMA INVEJOSA
DESGRAÇADA!!!!
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Aline ria. Sua vingança não poderia
ter sido melhor.
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Neste mesmo momento, contudo, Ana chega lá
fora esbaforida. Entra na fila, ainda grande, e o burburinho da entrada
lhe chama a atenção. Na ponta do pé, Ana enxerga
uma loira argumentando com o segurança, mas não reconhece
Claudinha. Então olha ao redor, nervosa, se abanando com o flyer.
Estava impaciente, com raiva por ter atrasado, e nem se ligou da gritaria
que estava acontecendo por ali. Foi só uns 15 minutos depois, quando
já estava quase na 'boca' da fila, que viu Claudinha.
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Na hora se arrepia. Esta é uma garota
que Ana deveria odiar, afinal foi com *Claudinha* que Pedro começou
a namorar depois que eles pararam de ficar. Mas não, Ana estranhamente
sente algo bom por ela. Talvez sinta pena, afeição... mas,
principalmente depois que viu Claudinha se transformar em uma garota completamente
MALUCA e DESCONTROLADA por causa do fim do namoro, passou a sentir uma
solidariedade sem tamanho por ela. Ana tem uma teoria sobre a sina de
quem apaixona
pelo Pedro: pirar. Pirar totalmente! Todas piram, ela própria
se considera a "pioneira das piroquetes", apesar do protesto de Aline
sobre isso. O fato é que Ana se sente muito parecida com Claudinha
- por dentro e por fora
, aí está a ironia.
.
Agora chegara a vez de Ana mostrar a identidade.
Enquanto isso, Claudinha permanecia ali, incrédula por ter sido
barrada, imaginando vencer o segurança pelo cansaço nem
que fosse às 5 da manhã. De repente ouve-se uma voz tremida,
tensa:
- Você vai barrar a minha irmã?
.
Claudinha se vira, sente que seguram seu ombro
e fica sem entender nada. Ana engole seco, nervosa, mas prossegue:
- Essa é a Claudinha, minha irmã. Pode olhar na identidade
dela. Ela é maior de idade sim, o senhor pode confiar. Ela tá
comigo.
.
Claudinha emudeceu. Nunca tinha visto essa garota
antes, quem seria???? De qualquer forma, foi ela que a pôs pra
dentro...
Ana se sentia abduzida. Da onde tirou tamanho surto?? Como pôde
fazer isso, se arriscar assim, e por nada??? E pior: por uma EX
do Pedro??? Who would say??
.
Não estava acreditando que havia feito
isso, se Aline soubesse....... ui! E se Pedro estivesse na boate?? Ouch!
Onde ela estava com a cabeça??? Até que ouve:
- Muuuuito obrigada!!! [saltitando e abraçando Ana bem
forte] Uuuff, aquele chato não me deixava entrar!!
Mas... como sabia meu nome? Quem é você.... sister???[sorriso
carinhoso e, a partir de agora, eternamente grato]
- Eu sou... sou?...err... eu sou... sou sua irmã, errr...
hã?
- Nossa, que sacada!! Adorei, adorei, mas nunca tinha te visto...
e não é que você é mesmo parecidíssima
comigo?? Se eu ainda tivesse cabelo ruivo... seríamos gêmeas,
ia ser ainda mais fácil passar por aquele imbecil! [abraça
novamente Ana, que agora está se corroendo de dor e se achando
a pessoa mais louca do planeta]
- ...
- Muito obrigada, muito obrigada!!!
.
As duas ainda estavam na pequena escada de entrada
da boate, e Ana parecia ter ganhado uma 'friend for a lifetime'. Glup.
Imaginou ser vista lá dentro conversando com ela. Imaginou Aline
e Pedro, juntos, vendo a cena. Gasp! Pensou em passar a noite no banheiro.
Mas Claudinha não parava de falar:
- Putz, eu tava querendo entrar há um tempão, tô
tentando voltar pro meu namorado, sabe?? Acho que ele vem aqui hoje.
Aliás, ele vem aqui sempre, sabe??
- ...
- Você conhece ele?? Ahh, deve conhecer! Todo mundo conhece
o Pedro! Ele é uma gracinha, sabe quem é??
- Eu?? Eerrrr...
- É, deve saber sim... enfim! Ahh, ele é o meu amorzinho,
e vai voltar comigo! Que horas são??
- H-hã...u-uma e q-quinze.... [catatônica]
- Humm!! Ainda?? Ele deve chegar até no máximo três
horas, quer ver?? Eu sei!!
- ...
- Ei, qual o seu nome, sis?? [já íntima]
- A-Ana...
- Ana! Posso te chamar de Aninha?? Ou é Ana 'alguma coisa'?
- ... Só... só Ana...
- Só Ana... Ana-sis!!! Minha sister! [bate palmas]
Você é muito legal, Ana, quer vir comigo procurar meus
amigos?? Acredita que eles entraram e eu não??? Ha! Segurança
idiota!!! Grunf! Vem, vem comigo procurar o povo [puxando Ana pelo
braço]
- N-Não...! Não, eu...eu...
.
E nessa hora Ana sente seu braço ser apertado
com força, enquanto Claudinha congela. Ana passa a sentir um
ligeiro pânico, afinal está de costas para a porta e alguém
TENSO acabou de entrar por ela. O problema é que Claudinha e Ana
têm esse mesmo alguém tenso em comum. O-oh.
Então ouve o berro descontrolado:
.
- Peeeeeeedro!!!
.
Claudinha corre para abraçar Pedro, que
mal se mexe, boquiaberto que está de vê-las juntas.
.
Ouch.
Ana sai correndo.
.
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