A festa estava cheia e o ambiente
fervia, mas tudo parecia muito confuso para Aline. Pessoas indo e vindo
desconfiadas, olhando para ela e Ana como se as duas fossem
alienígenas nada bem-vindas ao recinto. Percebendo o ar de
familiaridade hostil (“ahh, que básico...”, ri Ana), riu
junto com a amiga. E avistaram Fernando. É, algumas coisas
não mudam.
Ele veio logo falar com Ana.
— Oi!
— Hei!
Os dois, Ana e Fernando, começam a conversar animadamente sobre
o “teor” do bar, os drinks bons ou ruins, a cerveja que está
sendo vendida, etc. Aline, a ridícula, parece se transformar
numa criança de 5 anos que segura na alça da bolsa da
mãe-Ana enquanto espera a conversa acabar. Ela não quer
dar corda para Fernando, e sabe que se piscar o olho já era.
“Não posso beber; ele não pode falar as coisas que ele
fala” é o que Aline repete para si mesma sempre que se
encontram. Às vezes funciona, outras não. Quando ela
consegue NÃO ficar com ele é uma vitória pessoal,
e por aí vai, mas como cada dia é diferente do outro, as
coisas tendem a ficar iguais... Mas dessa vez não! Ela
não vai permitir!
Já no bar, Fernando começa a sondagem:
— Vocês sumiram um bom tempo, cara...
Aline acabara de receber sua gin tônica e mexia no canudinho
daquele jeito totalmente sem-noção. “Aimeudeus!”,
pensa Ana, que coça a cabeça, olha para Fernando e
engrena:
— Eeerr... é verdade, é que... ahh, sei lá,
é que isso aqui tá chato.
— Mas como, se vocês nunca mais voltaram? Pra mim tá igual
como sempre.
— Ahh, pois é, mas sei lá, entende?
Ana estava visivelmente procurando uma desculpa esfarrapada para dar a
Fernando. Para qualquer outra pessoa ela já tinha a resposta
decorada, mas com Fernando batia uma coisa estranha, e ela sabia que a
versão não ia colar. De fato, não está
colando mesmo:
— Não, não entendo!! [ri] Por onde vocês
andaram??
Ana olhava para uma Aline aparentemente desconectada do mundo real, que
tentava ajeitar o limão do seu drink de forma a não
atrapalhá-la. Que ódio, vai levar um cutucão!
*TUC!*
— Ai! – Aline retorna e se vira para Fernando. – O quê?
Ana quebra o silêncio empurrando Aline para a fogueira (quem sabe
assim a louca melhora?):
— O Fernando quer saber por que a gente nunca mais saiu...
Aline levanta as sobrancelhas, dá um gole no drink, mexe o
cabelo e, na maior falta de tato que aquele bar já presenciou,
solta:
— Ahn? Ahh...! Ah, é que eu vou casar! [rindo, em tom de
escárnio consigo mesma] Acho, né. [dando de
ombros e voltando a mexer no canudinho do drink]
Descrever a cara da Ana na hora daria todo um outro capítulo. O
cabelo vermelho parecia ter ficado ainda mais vermelho (ou seria
reflexo do rosto?). A latinha de cerveja na sua mão deve ter
ficado quente em dois segundos. O tênis preto batia forte no
chão enquanto se mudava para o outro canto do bar.
Fernando? Ah, ele nem esquentou. Quer dizer, não levou a
sério, para falar a verdade. Por isso que,
tranqüilíssimo, respondeu:
— Ahh, é? E o que isso tem a ver?
— Tem a ver com o quê?
— Com vocês nunca mais aparecerem aqui.
— Ahh, ‘tem-a-ver’ que eu não tenho mais vontade.
— De vir aqui?
— É. Sei lá.
— Mas boate pra você não é só galinhagem,
né? Você pode muito bem vir sem esse intuito.
Fernando falou isso como se tivesse passado a vida inteira ouvindo um
discurso que Aline nunca proferiu para ele. Isso fez o sangue dela
ferver:
— Galinhagem independe do estado civil. [fala dura, quase trincada.
Os olhares trocados são um absurdo]
— Eu sei, você sabe. Então o que o fato de você
casar impede a sua presença aqui? Ele não deixa mais?
— Nenhum homem me proíbe de nada. [voz definitivamente
trincada. O olhar fuzila. O copo do drink parece que vai estourar a
qualquer momento]
— Então essa decisão vem de você mesma? Você
decidiu que depois de casar, ou de oficializar o casamento,
não deve mais sair pra noitada?
— Não é isso. [quase rosnando]
— Então é o quê?
Silêncio.
Fernando estava claramente provocando-a. Aline estava sem saída,
apenas mexeu com as sobrancelhas e desviou o olhar, fingindo não
estar nem aí. Sacudiu o canudinho e fez que não ia dar
trela. Mas desde quando isso impede Fernando de alguma coisa?
Foi o próprio quem tomou a palavra:
— É vergonha de trazer ele.
Silêncio. Goles e goles no gin. Canudinho arremessado pra longe.
— Você não vai assumir o relacionamento, vai sumir.
É, pode funcionar.
Silêncio. Olhar lá embaixo. Vontade de chorar.
— O que me espanta é essa “alegria” toda que você
esbanja. [ênfase irônica no ‘alegria’]
Olhos cheios de lágrima, mão e copo tremendo, voz baixa:
— Cala a sua boca!
— Então volta.
Aline, que já tinha pronta a próxima fala (“Se
você não se conforma, o problema é seu!
Ninguém entende o que eu sinto!”, ou algo do gênero),
até engasgou. Como assim “Então volta”???? Volta o
quê??
— ---Hã?!
— Volta. Volta pra cá.
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