No início era uma gracinha.
Todo intervalo de aula, toda segunda e quinta-feira, lá vinha
ele, todo teatral, pulando do topo das escadas que levavam a um
pseudo-pátio onde as mais diferentes “figuras” daquela faculdade
se reuniam. Ele vinha na direção das amigas empunhando um
violão imaginário e cantarolando a balada mega mela-cueca
dos Rolling Stones, bem na parte mais pegajosa: “Anybody seeeeeeen
my baaaaaabyyyyyyy?”
Aline ria gostosamente. Vivi, ahn, fingia
que ria gostosamente.
— Alexandre, você saaabe que a Crica não faz essa aula com
a gente... – diz Aline, sorridente, enquanto se levanta para
cumprimentá-lo e abrir espaço para o amigo na pequena
roda.
— É, ela fez com você, semestre passado. –, Vivi
murmura trincando os dentes e aparentando um incrível ar
amistoso. Como ela consegue isso é
um mistério, mas que funciona, ahh, funciona. Alexandre parece
ter adorado o comentário. O que deixa Vivi ainda mais irada,
claro.
— É verdade, Vivi! É verdade... [seus olhos brilham,
seu sorriso idem. Ele olha, ou melhor, admira as folhas de uma
árvore caquética e mal-tratada responsável pela
sombrinha bacana, ou melhor, aconchegante. Tudo é mais
poético para um Alexandre apaixonado.]
Vivi lamenta tamanha patetice. Aline ri da cara de Vivi. Alexandre,
alheio às duas, suspira, acena para um calouro qualquer que
passa num dos corredores, pergunta que aula é aquela, não
consegue ouvir a resposta, mas também não se importa -
todo o corredor já parou para olhá-lo. De repente, se
vira para Aline:
— Você... por acaso não viu a Crica hoje?
— Alexandre, [rindo muito] alô som!! Eu acabei de sair de
uma aula que ela NÃO FAZ comigo!
— Eu sei, mas você podia ter visto... [a cena aqui é
sempre impagável. Alexandre cata um matinho no chão para
ficar rodopiando entre os dedos enquanto se senta na borda do pequeno
chafariz cheio de lodo que não funciona, ou melhor, onde o
sol reflete suas belíssimas águas profundamente
verde-escuras. É de rachar o bico.]
— Como, se essa é a primeira aula do dia?? [voz cantarolada,
quase que decorada]
— São 9 horas ainda, credo!! –, Vivi intercede, querendo acabar
logo com aquela palhaçada toda.
— É... é verdade... com quem é a próxima
aula de vocês?
— Nogueira. –, as duas respondem juntas, mas Vivi acrescenta:
— Achei que você já teria isso decorado agora, depois de
---
Aline, com peninha, olha de banda para
Vivi, pressionando-a para baixar o facho. Resignada, continua:
— [pigarreando]---depois de ter cursado exatamente a mesma
coisa semestre passado, claro.
O sorriso que ela força quase mata Aline. Ainda bem que
Alexandre não capta farpas tão facilmente quanto percebe
os mais leves elogios.
— Ah, sim. Claro. Mas é que... ah...
Alexandre está perdido em seus pensamentos, ainda rodopiando o
matinho para lá e para cá e quase se deitando na borda do
chafariz, o que provoca rápidos pensamentos violentos em Vivi.
E então, depois de muita conversa fiada e papinho ameno, ela
surge, bocejando, no alto da escada. Ou melhor, reluzindo
esplendorosa no alto da colina. (Alexandre apaixonado,
Alexandre apaixonado...)
No início era mesmo uma gracinha. Crica descendo toda
envergonhadinha do comportamento do namorado: Alexandre correndo para a
escada, ajoelhando-se e romanticamente à espera da amada. Meia
faculdade parava para assistir aos pombinhos.
Então eles se juntavam à Aline e Vivi até o temido
Nogueira chegar.
Isso na quinta. Nas segundas-feiras a vida mansa era geral: o professor
quase nunca dava o ar de sua graça – e o casal ficava ali
até Crica esgotar assunto (o que não era assim tão
difícil), ou até Túlio, o galã, se
aproximar. Mas aí já é outra história...
Então chega a quinta-feira de novo. E depois a outra segunda. E
a quinta. E a segunta. O ciclo (circo?) não pára.
Alexandre salta da escada, Aline ri, Vivi trinca os dentes, ele observa
a árvore, cata um matinho estúpido, espera a Crica, acena
para calouros, avista a amada, corre em sua direção,
ajoelha-se e todos param para assistir.
Só que, claro, com Vivi ficando cada vez mais sem saco. Aline
também já não tem mais tanta paciência, mas
continua um bocado admirada. Não é de se incomodar tanto
com a repetição porque gosta de observar Crica. Toda vez
Alexandre parece igual - mas a Crica, não. A cada
recepção escandalosa do namorado na escada para o
pseudo-pátio ela reage diferente.
Será que Crica está satisfeita? Será que para ela
é tudo tão lindo quanto para Vivi é entediante?
Aline tinha curiosidade de saber, porque nunca esteve numa
posição assim, de rotina, com um namorado. Com
relacionamentos sempre à distância
não há essa convivência, e muito menos uma rotina.
(Ainda bem)
Mas – dizem – parece que você se acostuma. Dizem que é
legal ter esse amor ostensivo, público, ensolarado e em eterno
replay.
Ah, Aline até achava bonitinho de ver. No início. Mas
é estranho que Crica aceite isso assim tão bem agora.
Afinal, essa já não é a segunda vez que eles voltam?? E como assim tudo volta
*do nada* para o mesmo lóvi inicial?? Não é meio
que cismar na tecla errada??
Se no início era uma gracinha, no final torna-se um saco
acompanhar, responder, conversar sobre qualquer coisa enquanto ela
não chega.
Não é possível que Alexandre passe por "altas"
crises de macho, resolva terminar e depois queira correr atrás
de Crica como um louco incrivelmente pentelho.
E Aline e Vivi ali, só matutando por que diabos nem Crica nem
Alexandre não saem dessa.
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