Surpresas e
gentilezas
.
Contribuição
para o desenvolvimento do texto: Cris Gore
Que
humilhante... Crica, com mala de viagem daquelas com rodinha e bem
compacta, na fila do guichê de vendas de passagens de
ônibus para São Paulo. Quase oito da manhã, em raro
sábado sem plantão na redação.
Na verdade, o humilhante não é
a viagem – e sim, sua condição: agora, ela
é “namorada à distância”. Alexandre está num
grande jornal de São Paulo.
Não é à toa que desde a mudança dele, Crica
não olha na cara de Aline. Óbvio! Ela se lembra muito bem
de como criticava a “amiga” por agir assim.
“— Ai, namoro à distância!?!?
Que coisa esquisita, eu não acredito que isso possa existir! Eu
nunca namoraria assim!!”
Pois é, e lá está ela,
seis anos depois, QUATRO vai-e-volta
com Alexandre depois, pegando a “ponte rodoviária”. Ahh,
Aline daria tudo para estar ali vendo a histórica mordida na
língua.
Não
que Crica estivesse olhando para os lados desesperada com medo de ser
vista! Estava é se perguntando como diabos se enfiou numa
situação que claramente não é para ela.
Quando voltou com Alexandre, não fazia idéia de que ele
já tinha passado na seleção para o estágio
em São Paulo!!
(Se ela
soubesse, provavelmente não teria dispensado tão
rápido aquele repórter do RJTV só porque ele ficou
5 dias sem ligar.)
De qualquer forma, Crica não pensava
em se esconder. Estava com o rosto encoberto pelos cabelos porque
procurava dentro da bolsa uma caneta para preencher os dados do
bilhete, quando...
— Ora, ora, veja só quem se esconde de vergonha!!! Fique
tranqüila, a Line não está aqui para fotografar a
cena PATÉTICA...
Antes fosse a
Aline. Antes fosse.
— ... mas pode ter certeza de que eu vou contar tudinho para ela na
volta!
É Ana,
que está mais do que atacada; está
satisfeitíssima, com um prazer mórbido no olhar e um tom
de voz adoravelmente cínico e sarcástico. Crica
esboça o sorriso mais constrangido.
As ex-amigas não se falavam há muito tempo. Até se
cruzavam vez ou outra pela cidade e – mais raramente – em festas em
comum. Mas Ana sempre fazia por onde NÃO falar com ela – e a
própria Crica também evitava. Não havia o que se
dizer depois daquela briga horrorosa entre as duas.
Ana poderia perfeitamente ter passado direto por Crica e ido ao
guichê sem sequer notá-la. Mas não, claro que
não! Como NÃO zoar? Esta é uma
situação formidável: Ana está indo para
São Paulo justamente para se encontrar com Alexandre!
Os dois vão juntos ao show dos Breeders hoje à noite!!!
Está tudo combinado há semanas...
Das duas, uma: ou Crica conseguiu se livrar do plantão de
última hora e resolveu fazer uma "surpresinha" para o namorado, ou
vai visitar outra pessoa – tipo o Túlio!
Qualquer das opções será um prato cheio para Ana,
que não perdoa:
— Ele também conseguiu free pass pra você?? [voz
sempre naquele tom delicado-ácido da Ana]
— ???
— É, pro show do Breeders hoje...
— S-show?! [voz entalada, quase que não saiu]
— É, menina...! Em que planeta você vive?? Não sabe
que Alexandre ralou dois meses atrás desses VIPs??
Ana já sabia que viria uma cara de mega-espanto. Alexandre
não ia conversar sobre isso com a Crica, seria como falar para
uma porta. Então fez de propósito, e continuou:
— Ahh, ele não te falou...?? [fingindo dó] Vai
ver também está planejando uma supresinha
pra você....[dando um leve tapinha nas costas de Crica]
Uhh, esses casais são tããão
românticos...! [já de frente para a mocinha do
guichê] Você me vê uma passagem para São
Paulo no executivo de 8:15, por favor??
— Vocês estão juntas?
Crica se
colou no vidro do guichê, quase histérica. Ana olhou de
lado, soltou um risinho e respondeu:
— Não muito, mas eu estou indo me alojar na casa do namorado
dela. Só que EU marquei com ele, e ela não!! Não
é meigo? Por isso, nada melhor do que uma booooa conversa de 5
horas entre a gente, não?? [sorrisinho]
— N-não, [a mocinha deve ter percebido a tensão entre
as duas] é que e-eu ia explicar que não seria
possível sentarem juntas porque só restam dois lugares,
mas separados: um na janela, segunda fileira, e um no corredor, mais
para trás.
— Ah, o corredor está ótimo pra mim.
— [virando-se para Crica] A senhora fica com a janela
então?
— Não, não, não eu já... eu já...
já tenho a passagem aqui, obrigada. Comprei por telefone ontem e
retirei o comprovante com a outra funcionária.
— É só para mim, obrigada. Fico com a do corredor,
detesto janela.
— Pois não. [processando o bilhete] Poltrona 26.
Crica quase
morre. Olha para sua passagem e vê: poltrona 25. Ana
percebe o pânico e ri:
— Ahahahahahahahahaha! Não é
possível!!!!!! Sua poltrona é a 25???? HAHAHAHAHAHA!
Vê?! [virando-se para a assustada mocinha do guichê]
É o destino! [para Crica]Me empresta a caneta pr'eu
fazer o cheque, colega de viagem??
Crica
não se mexeu, Ana puxou a caneta mesmo assim.
— Brigadinha.
Que pesadelo
essa viagem não vai ser.... Crica estava no maior desespero,
arrependidíssima de ter resolvido fazer esta surpresa (sim, era
surpresa!) – ela já até esqueceu do tal show que Ana
mencionou (aliás, quem disse que é verdade?!); só
pensa nas medonhas, horríveis, tenebrosas, cinco horas de
silêncio incômodo que estão por vir. E isso porque
ela está tentando ser otimista: cinco horas de
diálogo seria pior ainda!
Mas até que a viagem seguiu “tranqüila”. Ana não
falou mais do show, mas em compensação sacou seu discman
com o CD-demo da banda do Alexandre e
ofereceu um fone à Crica, só pra espezinhar. Fingiu saber
as canções, se espichou na poltrona só para
dificultar (e encurralar!) a vida da ex-amiga, pegou um mate para beber
só para ter que tirar-e-pôr do porta-copos localizado na
janela. E assim foi por cinco horas.
Crica seguiu muda. Se fosse uma história em quadrinhos, seria
possível ver um balãozinho com
váááários “GLUP” dentro. Crica passou cinco
horas engolindo seco, sem ousar pedir passagem para ir ao banheiro e
sem sequer molhar a garganta com alguma das bebidinhas
disponíveis no fundo do ônibus.
Cinco horas.
Cinco loooongas horas. O cheiro ruim da baía na Linha Vermelha.
A periferia. O filme na TV do ônibus. ‘Inteligência
Artificial’, A.I., que só fez o tempo passar mais devagar do que
deveria. Vaquinhas pastando. A serra das Araras. A pausa de 5 minutos
do motorista. Os pedágios da Dutra. A placa para Campinas, para
a qual Ana começou a apontar, rindo, sem nenhuma razão
aparente. O crac-crac das pessoas consumindo o lanchinho ao meio-dia. O
céu com o sol a pino se tornando nublado. As fábricas.
Guarulhos. O trânsito ficando pesado na entrada da cidade. As
pessoas acordando.
Quisera ela ter pregado o olho. Claro, ela fingiu que dormia para
evitar as pérolas da Ana, mas a verdade é que se sentia
esgotada, como se tivesse passado 15 horas, e não 5, viajando.
Mas isso foi pouco se comparado ao susto da rodoviária paulista:
Alexandre havia preparado sua própria surpresa
– só que para Ana. Em vez de encontrá-la, conforme
combinado, na estação do Anhangabaú, perto de
casa, resolveu que a buscaria direto no Tietê. Não custava
nada para ele, afinal.
Aquele
corredor de desembarque já viu coisas MUITO estranhas desde que
Ana e Aline ali desembarcaram juntas, nos fins do século XX. Mas
nada, NADA como aquilo: Ana, surpresa, não esperava por
Alexandre. Crica, pasma, não imaginava vê-lo.
E Alexandre, coitado, só queria ser
gentil.
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