— Hmm, quê? [desinteressada]
Beth faz aquela cara de suspense. Suspense um tanto sádico, mas
enfim.
Aline fica pra morrer. Olha para os lados,
puxa a revista da mão de Beth, sobe na janela da sala e pula.
(É que a janela dá para um amplo corredor, uma “sacada
gigante”, que leva a outras três salas e à escada pro
pátio, e na hora do recreio praticamente pertence a ela e
Zé)
Ela quer fazer picadinho da revista, mas antes precisa gritar com o
amigo.
Zé puxa a revista da mão de
Aline e pergunta, com a cara mais séria que conseguiu naquele
momento:
— GRRRR!!!
Beth pra variar se atrapalhava com a
janela (ela sempre sentava ali, mas nunca tinha coragem de pular).
Enquanto isso Zé aproveitava para irritar
Aline,
um de seus passatempos favoritos. Corriam cada vez para mais longe da
janela, Zé com a revista atrás das costas e de vez em
quando lendo as “meiguices” escritas:
— ME DÁ ISSO AQUI!!!!!
— [pulando de um lado pro outro] Você tem que ouvir isso... ‘... é a revelação do seu time...’ hahahahahaha....
— ZÉ-ÉÉ!!! [furiosa]
— Alininha, isso aqui é MUITO gay!!!!
— Não, isso é uma revista MUITO idiota para garotas! E É POR ISSO QUE EU QUERO FAZER PICADINHO DESSA DESGRAÇA!!!!
E da janela, escutam:
— Qualé Beth, você não pode estar de fato interessada nessa COISA! [Zé fica fazendo gracinhas com a foto na mão, enquanto Aline tenta em vão alcançá-la] Essas revistas são feitas para modelar o cérebro da gente, todas cheias de dicas imbecis, reportagens estúpidas e FOTOS DESNECESSÁRIAS DE HOMENS!!!! Você não pode consumir DE FATO revistas descerebradas como esta!!!
— Eu assino a revista.
Dois segundos de silêncio. Aline
respira fundo e continua o raciocínio.
Ela pára antes de piorar a
situação. Se Aline queria se ver livre da maldita foto
(ateando fogo nela, de preferência), era bom não
desagradar quem pagou pela revista a ser depenada.
— Ué, você prefere que eu mostre pro resto da sala? Resolvi trazer a revista só para *você* ver – mas quem saiu correndo com ela na mão, louca para mostrar para alguém, não fui eu...
— Humpf!
— Tô achando que o que você mais quer é mostrar isso pra todo mundo...... [seu tom de voz é quase um escárnio]
Zé viu que a coisa ia ficar preta e Aline logo logo
começaria a xingar Beth de tudo quanto é nome.
Aline sorriu.
— Sei! Vai mostrar então pra Fernanda, vai...
— Grunf!
— Ou pro Andrezinho, seu graaaande amigo! Vai lá, grita com aquele nanico, quero só ver...
— Não enche o saco, ele não entenderia...
— Não entenderia ou você morre de vergonha do que ele pode achar disso? Ou, quem sabe, você não confia naquele pigmeu???
— Fica quieto!!
— Graaaaande amigo, esse ---
— Pára, Zé!
Beth intervém:
— Ué, você não vai dar essa foto pra Aline?
— E rasgar a minha revista?? Ficou louco?
— [cutucando Aline] Cara, ela COLECIONA! Não perde um pôster!
— Lamentável!
— MUITO lamentável.
— Aiai.
— E olha que o namorado é seu. Ou será justamente por causa disso??
— ÔU!!!! [Beth se revolta, mas não o suficiente para arriscar uma pulada de janela]
Aline tem um senso de humor estranho.
E Beth, uma falta de noção absurda:
Zé estava tão perturbado com
a fala de Aline que até obedeceu. Beth rasga a revista e entrega
a folha à Aline.
— Eu não quero.
— Não quer????
— Eu não. Credo!
Toca a primeira sineta. Zé puxa
Aline pelo braço e seguem até a escada, descendo contra o
fluxo.
Beth, atônita com a falta de atenção recebida,
desce da janela (para dentro da sala), vai até a mesa de Aline e
sorrateiramente coloca a foto de Rodrigo dentro da agenda
emborrachada da amiga.
Enquanto isso, lá embaixo, Zé e Aline estão
sentados no “banquinho do infantil”, um canto do pátio que
ninguém gostava muito, afinal era colado na janela do jardim de
infância. Era o lugar favorito dela. Não falam nada um com
o outro – apenas observam a correria, os grupinhos se desfazendo, os
mais pirralhos formando fila, o pátio esvaziando. Ela encosta a
cabeça no ombro dele e dá um suspiro profundo.
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