Infância Mutante - Vigésima Quinta Parte
Noite fria, mais de 3 da madrugada. Os soldados correm pela margem do rio que descia revolto e gelado rumo ao Sul.
Soldado: Ele viu no radar as coordenadas dos chips no rio?
Soldado2: Eu vi também! Estava lá piscando na tela!
Soldado3: Eu não vejo nada!
Soldado: Eu mal vejo o rio. Tá muito escuro e frio aqui. - Foi abrindo caminho em meio a uns arbbustos na beirada da margem.
Soldado2: Malditos mutantes! Vamos ter que entrar nessa água!
Os soldados ouviam os cachorros farejando a água sem latir. Colocaram seus óculos de visão noturna, deixando todo o mundo completamente verde. Apontaram suas metralhadoras de chips e de balas e foram entrando na água. Só de colocarem as pernas, xingaram cinco gerações de mutantes pelo frio da água.
Soldado: Caraca! Correnteza nessa água dos infernos!
Soldado2: Será que tem cobra?
Soldado3: O Fábio do radar chamou pelo walk talk dois barcos para vasculharem o rio, além de um helicóptero. Por que ele nos mandou para água??? Pior impossível! Esses mutantes miseráveis já devem ter morrido afogados. São os corpos deles boiando correnteza afora que aparece piscando no radar!
Soldado: E se eles estiverem embaixo d'água esperando para nos afogar?
Soldado3: Ninguém respira tanto tempo debaixo d'água. Pra mim eles morreram e estão boiando! Ou então, estão no hotel! Rindo da gente por terem jogado os chips na água enquanto comem biscoitos calmamente!
Soldado2: E como iam arrancar aquilo? Com faca de cozinha?!
Soldado3: Daqueles imundos eu não duvido de nada! Quem quer abandonar esse rio maldito e ir vasculhar o hotel???
Soldado: E se eles estiverem no fundo do rio?
Subitamente, um dos soldados mergulhou na água!
Soldado2: Caraca! Ele mergulhou mesmo pra ver se os caras não estão no fundo! Louco, ficou todo embaixo desse gelo! Ir ao hotel era idéia bem melhor. - O soldado demorava para subir à superfície. - Vamos, cara! Vamos ao hotel, não tem ninguém aí em baixo. Estamos procurando mutantes e não peixes.
Os soldados repararam numa estranha movimentação da água onde ele havia mergulhado. Viam tudo verde por causa dos óculos de visão noturna, mas uma estranha coloração de verde surgiu na água. Eles levantaram os óculos e viram a água escura pela noite ficar ainda mais escura! Um deles pegou um pouco de água na mão para ver se ela estava límpida.
Soldado3: A água está roxa! Roxa!
O corpo do soldado voltou a superfície boiando com o rosto para baixo. Os soldados gelaram ao perceber que o cara tinha morrido afogado. Foram vira-lo de barriga para cima, mentalmente maldizendo todos os mutantes e aquela busca inútil na água.
Soldado3: Putzs! Cruz credo, o rosto dele tá inchado e mais roxo do que uma beterraba.
Soldado2: Ele parece que foi arranhado no pescoço e no rosto... - Ligou uma lanterna para ver melhor o ex companheiro. Percebeu que havia algo enrolado no braço esquerdo do morto. - Olha, tem uma corda, ou um troço enrolado aqui no braço dele.
Quando foi ver o que era e desenrola-lo, sentiu sua perna ser enrolada de baixo d'água!
Soldado2: Que merda é essa aqui na minha per?! - Nem conseguiu terminar a frase, também foi puxado para debaixo d'água!
A
lanterna caiu de sua mão e iluminou o fundo do rio. Tentáculos de polvo se
movimentavam de baixo d'água como cobras assassinas! Enrolavam o pescoço do
soldado que se debatia asfixiado, outros ainda seguravam o braço do morto
puxando-o novamente para o fundo. O terceiro soldado entrou em pânico. Saiu
correndo, mas a água até a altura de seu peito fazia-o andar como se estivesse
na Lua, bem lentamente! Ele entrou em desespero total! Chegou a gritar por uma
fração de segundo, mas seu grito foi abafado pela água: ele também foi puxado
para o fundo! As ventosas dos tentáculos grudavam neles com toda a força,
enquanto um líquido roxo era expelido na água. Veneno de polvo
para espantar as presas, servia para ajudar a matá-los! Seus tentáculos tinham a
capacidade de crescer em cumprimento e força, eles podiam enrolar um homem
inteiro!
O segundo soldado logo morreu. O terceiro ainda se debatia, preso nos tentáculos daquela coisa subaquática fantasmagoricamente iluminada pela lanterna caída no fundo. A coisa soltou os dois mortos e colocou todos os seus tentáculos em cima do terceiro soldado e levou-o para fora da água.
Soldado3: Mulher-Polvo?! - Falou cuspindo água e tossindo muito!
Mulher-Polvo: É, você tem razão. Eu vi eles entrarem no hotel. Mas se depender de mim, ninguém vai ficar sabendo disso. E se depender de você, só o Diabo vai ficar sabendo!
Um dos tentáculos dela começou a crescer e serpentear pelo ar, indo em direção a boca do soldado.
Soldado3: Não! Não me mata!
Mulher-Polvo: Vocês me colocaram num aquário minúsculo para o meu tamanho! Vocês espancaram homens e mulheres na minha frente, me insultaram, me deixaram sem comida. Vocês estupraram mulheres na minha frente. Vocês usavam meu aquário para enfiar a cabeça de prisioneiros até eles quase desmaiarem! Eu lá de baixo via os rostos deles ficarem roxos pela falta de ar enquanto vocês riam! Vocês jogaram uma garota dentro do meu aquário que ficou berrando por horas porque tinha medo e horror de mim!
Soldado3: Caraca! A garota tinha toda razão de berrar! - Tinha pavor nos olhos e tremia a cada palavra.
Mulher-Polvo: Vocês tiraram a liberdade de seres humanos, sem o menor direito!
Soldado3: E quem te dá o direito de tirar minha vida?
Mulher-Polvo: Não fui eu quem começou. Só estou reagindo, isso é legítima defesa.
Soldado3: Então me liberta que eu prometo nada fazer contra a você! Se me matar não será por legítima defesa.
Mulher-Polvo: Então, vai ser por vingança.
Soldado3: É crime. Não existe lugar para a vingança, para a justiça com as próprias mãos, num mundo onde existe a Justiça. Vai ser um crime!
Mulher-Polvo: Iguais aos seus lá dentro daquele complexo!
Soldado3: Pois é. Exatamente igual!
Mulher-Polvo: Então, quando chegar minha hora, eu te encontro no inferno ao lado do Demônio. Mas não vou deixar você sair vivo daqui.
O tentáculo crescido já tinha uns dois metros e começou a entrar na boca do soldado. O homem arregalou os olhou e se debateu dentro dos outros tentáculos que o enrolavam! Não conseguia gritar. Morreu. O tentáculo foi se retraindo completamente, até que quando a ponta saiu, trazia consigo o coração do soldado.
Mulher-Polvo: Assassinato com requintes de crueldade. Não tenho escapatória, nem da Justiça dos homens, nem da Justiça divina.
Quarto de Gambit e Vampira.
O cajun estava sentado na janela daquele chalé de madeira, recebendo vento frio e olhando a Lua se espelhar nas águas do rio agitado lá em baixo. Árvores enegrecidas pela noite balançavam do outro lado da margem. Ele nem imaginava que a estranha Mulher-Polvo do aquário tivesse também conseguido fugir e que vagava agora pelo fundo do rio em busca de mais soldados. Gambit não sabia, mas a Mulher-Polvo velava por seu sono e pelos demais dentro do hotel. Foi por causa daqueles poderosos mutantes que seu aquário quebrou e ela conseguiu fugir. Já no rio, usou suas garras afiadas na ponta das mãos de pato para arrancar o maldito chip e voltar a ter tentáculos que crescem e ficam fortes como o abraço de uma jibóia. Voltar a ter seu veneno roxo. Mas Gambit não sabia de nada disso. Ele só olhava para Lua e tentava acalmar o espírito. Tentava parar de ouvir em sua mente os gritos de Vampira na sala de Edward Northon. Ele ainda não sabia o que ocorrera ali dentro, mas imaginava o pior.
Gambit
olhou para trás e viu o rosto triste e abatido de Vampira olhando vagamente para
o abajur. Ele quis ir abraçá-la, mas não podia. Ela era intocável novamente.
Tinha que tomar coragem para ir lá e se certificar do que ocorrera. Ir
conforta-la seria muito difícil para ele, assim como para ela. Talvez fosse
melhor não perguntar nada e apenas ficar ao seu lado. Ele saiu da janela e foi
para o lado da cama, ajoelhou-se no chão e também olhou para o abajur. Depois
fez um carinho na mexa branca de cabelo dela. Vampira sorriu triste por um
segundo. E disse um "oi" sem som.
Gambit: Um dia aqueles sujeitos vão pagar, não só pelo que fizeram com você, mas também pelo que fizeram com os outros. Eu prometo vingança pelo que fizeram com você, mon amour.
Vampira chorou, Gambit também não se conteve ao vê-la chorar.
Vampira: Viemos ao mundo para sofrer. Nós mutantes. Eu principalmente.
Gambit: Não fica assim, chere. Isso vai ser apagado pelo professor, tenho certeza.
Vampira: Isso não se apaga, Gambit. Isso não pode nunca ser esquecido. Deve ser sempre lembrado e justiçado. E proibido de ocorrer novamente com qualquer um.
Gambit: Se eu ao menos pudesse te beijar...
Vampira lembrou que era intocável novamente. Já havia se desacostumado a isso. Não ia poder encostar nem no Gambit, nem em ninguém. Voltaria a usar luvas. A ficar distante de todos. Gambit foi para o outro lado da cama, cobriu o corpo dela com um cobertor e abraçou aquele embrulho, encostando seu rosto precisamente em cima do cabelo dela. Vampira fechou os olhos e suspirou, conseguia ao menos receber um pouco de carinho distante, mesmo estando intocável.
Vampira: É muito bom ficar assim com você.
Gambit: Je t' aime, chere.
Vampira: Edward não conseguiu consumar o ato, Remy.
Gambit ficou petrificado por alguns segundos. Com os olhos úmidos, não expressava nenhuma emoção. Aquilo não era razão para comemoração nenhuma. Era apenas uma informação de que o sofrimento dela foi menor do que ele imaginou. Pensou bem e viu que foi bem menor. Antes tinha conseguido visualizar em sua mente a pior imagem de todas: Edward possuindo sua mulher com uma movimentação brutal dos quadris e uma fila de homens atrás para fazer o mesmo. Nada daquilo ocorreu. Mas ainda assim era um trauma grande e horrível.
Gambit: E os guardas?
Vampira: Brincaram comigo como se eu fosse... - ela chorou - uma boneca inflável. ... Mas não conseguiram nada além disso.
Gambit levantou da cama irado! Foi até a janela e berrou alguma coisa em francês. Pegou o cinzeiro do quarto, energizou-o e jogou-o pela janela! A explosão ocorreu acima da água do rio. Depois ficou batendo com a testa na parede de madeira do chalé. Vampira se encolheu ainda mais e enfiou o rosto no travesseiro. Depois ele voltou a se ajoelhar na frente dela. Dessa vez segurou sua cabeça colocando sempre as mãos por cima de seu cabelo. Chegou bem perto dela e quase encostou sua testa na dela.
Gambit: Calma, mon amour... Desculpa minha reação... Chere, isso que você me contou me deixa incrivelmente mais aliviado. É lógico que ainda existe uma tonelada em cima de mim e uma pedra na minha garganta, mas é muito mais leve de suportar do que antes. Acho que se eles tivessem feito o que eu imaginei, você também não estaria conseguindo suportar.
Vampira: Aquelas pessoas totalmente desconhecidas me tocavam. Me humilhavam de propósito e com gosto. Queriam me ver sofrer e conseguiram: que ódio!
Gambit: Eu sei, mas vai ser mais fácil de superar. Bem mais fácil pra mim e pra você.
Vampira contou aos prantos que eles tiveram a coragem de ameaçar colocar o cassetete dentro dela! Que teve que implorar para que eles não fizessem. Mas ela não pôde evitar que aqueles dedos nojentos penetrassem seu corpo enquanto eles riam dizendo o que Edward ia fazer. Os dois ficaram chorando pensando em quantas moças ali dentro passaram por coisas piores do que Vampira e por muitas e muitas vezes. Toda noite sofrendo a mesmíssima coisa e muito mais!
Gambit voltou a deitar por trás dela e abraçá-la.
Gambit: Você está comigo agora, chere... Vamos tentar dormir e parar de pensar nessas coisas horríveis.
Vampira: Não vou conseguir dormir, Remy. Nesse exato momento
existem mutantes sendo espancados. Mutantes levando choques elétricos. Mutantes
que estão sendo estupradas nesse exato momento. Mutantes que devem estar sendo
esterilizados como cachorros. Quem sabe não é Jubileu... Quem sabe não estão
batendo no professor que é velho e paraplégico?!

Gambit: Ai, pára, chere... Não consigo nem pensar nessa coisa horrível.
Vampira: Não vou conseguir dormir. Como posso dormir enquanto pessoas sofrem?
Gambit: ... Realmente vai ser difícil...
Vampira: E isso tudo bem aqui perto, deve dar até para ver o complexo lá longe pela janela de um dos quartos do hotel. E só de pensar que a mesmíssima coisa está acontecendo agora em tantos lugares! A maldade, a ganância e a estupidez humana não têm fim. Gente sendo brutalmente humilhada, massacrada, privada de liberdade, sofrendo. É aqui, é no Iraque, em países da África, na China.
Gambit: Nos presídios de Paris, de Nova Iorque, Rio de janeiro... Injustiça transborda no mundo, chere. Mas se você não consegue dormir por essa aqui do lado, que te fez vítima, é melhor tentar não pensar nas outras agora. Ao menos, não por agora...
Gambit teve que sussurrar a música What a Wonderful World por mais de uma hora e meia até a resistência do sono dela ceder.
Os mutantes foram novamente algemados, não só nos punhos como nos tornozelos. Inúmeros buracos inutilizavam aquele enorme complexo. O plano de transferência para a antiga fábrica já estava sendo realizado. Os mutantes andavam em fila indiana, por dentro de um corredor polonês de guardas com suas armas engatilhadas e apontadas. A distância era pequena. Os guardas volta e meia chutavam um, cuspiam em outro, davam coronhada na cabeça de outro, davam rasteiras. Os x-men iam andando como todos os demais mutantes pelo corredor de soldados que os escoltavam até a fábrica. Se entreolhavam para saber quem tinha conseguido fugir. Scott não conseguia encontrar nem Jean nem Bruna. Fera não via Gambit nem Vampira. O enorme peludo azul quando passou por dois guardas que já conhecia, foi novamente humilhado.
Soldado: Ah, o Capitão Caverna!
Um dos guardas parou a fila só para segurar Fera, enquanto outro abria a braguilha e urinava nos pés do x-man azul.
Soldado2: Ah, tá tomando banho! Só assim você lava esses pés nojentos, né, Capitão Caverna?!
Riram e jogaram ele novamente contra a fila, forçando-o a continuar a andar. Mesmo com Fera já longe, os soldados ainda riam.
Soldado: Nossa! Muito boa idéia mijar nesse idiota!
Soldado2: Esse Primo Witch já era na nossa mão!
Soldado: Primo Witch???
Soldado2: É, cara. Da Família Adams, aquela coisa que era só cabelo até os pés. Um monte de fios e mais nada! Aquela aberração!
Soldado: Hahahahahahaha! Primo Witch é muito melhor que Capitão Caverna! Hahahahaha! Boa, boa! Quando ele passar a gente chama de Primo Witch!
Enquanto os mutantes eram transferidos para a fábrica, Edward Northon mostrava o complexo destruído para o Senador Zack Abraan, que havia chegado de helicóptero ha poucos minutos.
Edward: E esses são os estragos e a lista dos fugitivos.
Zack: Hum... sei... - Falava enquanto olhava em volta e lia os nomes na lista.
Ainda havia uma última leva de mutantes saindo de suas celas e ingressando na fila indiana. Ele levantou a cabeça do papel e viu Mística. Achou estranho que ela o estivesse encarando enquanto era empurrada para a fila.
Edward: Pois é. Essa azul aí é aquela mutante que se fez passar por sua secretária Bruna.
Mística não parava de olhar para ele. Ela sentia alguma coisa de estranho no Senador. Algo diferente que só ela conseguia reconhecer. Não porque foi sua falsa secretária por meses, mas pelas habilidades inapagáveis que seus poderes lhe deixaram.
Zack: Mulher estranha, não parou de me olhar um só segundo até sumir no meio da fila. - Voltou a olhar a lista de nomes dos fugitivos. - Jean Grey?
Edward: Sim. Por que? O senhor a conhece?
Zack: Essa mutante é reconhecidamente poderosa.
Edward: Infelizmente é. Mas acabei de ser informado por um dos meus soldados da busca dos fugitivos, que as coordenadas deles foram encontradas no rio. Eles já vão ser novamente recapturados, senhor. Fique tranquilo.
Zack: E as crianças?
Edward: Que crianças, senhor?
Zack: Os mutantes crianças?
Edward: Aqui nós só guardamos os exemplares adultos para a esterilização.
Zack: As crianças vão ser esterilizadas também?
Edward: Um dos redatores do projeto para os mutantes é o senhor, não compreendo porque está me perguntando isso. O senhor não sabe?
Zack: É claro que sei. Só quero me certificar de que vocês não estão infringindo as regras.
Edward: Está tudo nos conformes. As crianças serão colocadas na fila para adoção exterior. Essa geração não infectará nosso país! Quem não as conhecem que as comprem! Não permitiremos que sejam adotadas nem por famílias do Canadá ou México. Devem ir para longe, muito longe.
Zack: Sei... Então tudo está correndo bem. Gostaria que um de seus homens me levasse para ver o local onde estão as crianças.
Edward: Agora mesmo, senhor. Vou chamar um de meus homens e o carro, é longe daqui.
Enquanto isso, em outro chalé do hotel...
Jean ficava olhando o nada vagamente, enquanto Wolverine não parava de olhar para ela.
Wolverine: Desculpa, ruiva. Desculpa pelo o que eu fiz contigo hoje. Mas não havia outro jeito, tínhamos que agir rápido.
Jean: Eu sei. - Ela usou sua telecinésia e fez um travesseiro flutuar de cima do armário até o seu colo. Abraçou-o e depois escondeu o rosto ali dentro. Wolverine conseguiu farejar o cheiro de lágrimas.
Bateram na porta, era o serviço de quarto
do hotel. Wolverine desceu as escadas do chalé de madeira e foi abrir a porta da
sala que dava para o gramado comum a todos os chalés. O garçom entrou com duas
bandejas e subiu as escadas, colocando-as na mesa próxima à cama. Ainda
perguntou se não era para colocar na mesa grande da sala no andar de baixo, mas
Wolverine disse que não. Grosso como sempre, não deu uma gorjeta para o garçom e
ainda fez cara feia pela demora dele em ir embora. Wolverine ouviu-o fechar a
porta no andar da sala e caminhar pelo gramado para a cozinha do hotel. O
canadense destampou as duas bandejas e sorriu para as costelas de porco
apimentadas e piscou para Jean mostrando um filé de frango ao molho de ervas e
uma salada de rúcula com mussarela de búfula.
Wolverine: Vem comer, Jeanny. Olha só que comida de fresco que eu escolhi pra você. Mas se quiser da minha costela, pode comer!
Jean: Logan, não vou conseguir comer nada. Estou com um nó na garganta e um aperto no peito.
Wolverine: Cê tá grávida, ruiva. Vem comer, senão vou ser obrigado a te forçar a comer.
Jean: Estou com meus poderes de volta, Wolverine... Ninguém mais me força a nada.
Ele sorriu.
Wolverine: Eu estava brincando. Vem. - Levantou da cadeira e puxou ela pelo braço, que foi chorosa e manhosa para a cadeira da mesa. - Não comeu nada naquele buraco imundo, o guri só come se você comer. É injustiça com ele.
Ela concordou que era injustiça com Natan com um sinal de cabeça. Soltou o ar longamente como quem vai se preparar para algo ruim. Cortou o primeiro pedaço do frango com bastante molho e comeu. Logo sorriu.
Jean: Hum, está muito bom.
Wolverine: Ainda bem que você gostou do meu pedido. Olhei para o cardápio e pedi o prato mais comida de passarinho que eu vi. - Dizia sorrindo enquanto ascendia as longas velas da mesa. Ele apagou a luz do quarto jogando um sapato no interruptor. Jean se assustou com a forma dele de conseguir a escuridão no quarto. A luz bruxuleante das velas não fez o ânimo dela melhorar.
Jean: Não espere que minha estadia nesse quarto seja um encontro romântico, Logan, por favor.
Ele abaixou a cabeça e bebeu cerveja no gargalo da garrafa long neck.
Wolverine: Não fiz nada, só apaguei a luz. Se quiser apago essas velas idiotas.
Jean: Não... Está bem assim... Você só quis tornar o ambiente menos pesado, me desculpa se fui clara e direta demais.
Wolverine: Amanhã cedo vamos nos reunir no quarto de Tempestade para decidirmos como atacar da próxima vez.
Jean: Por que eu, Wolverine?
Wolverine: Que foi?
Jean: Por que você salvou a mim? ... Por que não Bruna?
Wolverine levantou da cadeira, limpou os dedos na toalha de mesa e foi para a janela olhar o céu.
Wolverine: Não fala daquela guria que me dá um aperto no peito, ruiva. Eu preciso voltar lá o mais rápido possível e tirar Bruna dali. Como ela sofreu desde o dia que me conheceu... Nem mutante ela é...
Jean: Você ainda não me respondeu. Por que deixou Bruna para trás?
Wolverine: Você acha que eu vou dizer que é porque eu te amo?
Jean: Espero que não tenha sido por isso. Espero imensamente.
Wolverine: Então não espere, porque foi por isso.
Jean: ... Logan...
Wolverine: Mas não foi só por isso, Jeanny. Eu só podia levar uma e eu tive que pensar na batalha futura. Você fora do complexo seria uma peça chave! Se eu salvasse Bruna, seria menos um x-men aqui do lado de fora.
Jean: Quando voltar lá, diga apenas isso para ela.
Wolverine: Aquela guria sabe que eu ainda gosto de você, ruiva. Ela vai saber que as duas coisas pesaram no teu resgate e abandono dela. ... E ela sabe que quando se ama de verdade, não se pensa em porra nenhuma e só se salva o ser amado. Mesmo que ele seja um inválido. E é isso que ela vai me dizer e cobrar quando me encontrar, antes de me dizer que não quer mais nada comigo.
Jean: Você estava numa encruzilhada. Tomara que ela entenda e possa perdoar com o tempo. Mas deve estar muito sentida. Você gosta dela?
Wolverine: Gosto. Ela me deu momentos de felicidade e paz, que não tinha há muitos anos. Mas...
Jean: Mas?
Wolverine: Existem coisas aqui dentro que eu não consigo segurar quando te vejo, Jean. Ainda é assim. Bruna topou tentar arrancar essa coisa de mim, mas acho que agora ela vai desistir. Viu que pode se machucar demais.
Jean: Logan, eu só penso em duas coisas: onde está minha filha e como conseguir libertar meu marido. Nem tente me seduzir agora. Não depois de tudo o que passei.
Enquanto isso, o galpão maior da antiga fábrica já estava com todos os mutantes dentro. Ali não havia celas, ficariam todos juntos dentro de um mesmo galpão. Os soldados estavam soldando as últimas grades das janelas, enquanto outros iam tirando as algemas dos mutantes. As portas foram trancadas e apenas uns vinte soldados armados até os dentes permaneceram ali dentro, fazendo a ronda entre os mutantes. Todos os outros ficaram estrategicamente posicionados em baixo de cada da janela e porta do lado de fora. Os x-men começaram a buscar conhecidos entre a multidão para sentarem próximos. Charles Xavier estava nua e largado no chão, movimentando-se como aqueles mendigos sem pernas nas ruas que pedem esmolas. Logo Fera o encontrou e colocou no ombro.
Fera: Boa noite, magnífico professor.
Professor: Bom noite, Hank.
Fera: Eu, Scott, Bobby, Sam, Jubileu, Anjo e Mística estamos em baixo de uma janela na quina daquela parede. Ali tem iluminação lunar. Estávamos a procurá-lo.
Todos eles se reuniram em baixo da janela e sentaram no chão, nus e desolados.
Mística: Quando saí do complexo, na última leva da fila, vi o Senador Zack Abraan com aquele Edward Northon.
Scott: Sério? Deu para ouvir o que eles falavam?
Mística: Não era Zack Abraan.
Bobby: Como assim "não era"? Você não disse que era!?
Mística: Conheço um metamorfo de longe! Sei quando as pessoas fingem ser outras. Percebo em cada olhar, cada movimentação de braço. Afinal, eu sou uma! Aquele Zack Abraan era o Senhor Sinistro!
Scott: O que???
Mística: O próprio. O que ele fez com o verdadeiro Zack, eu não faço a menor idéia e não dou a mínima!
Scott: Será que ele foi me procurar?
Fera: Talvez procurar a Jean.
Jubileu: Mas Jean conseguiu fugir.
Bobby: Talvez ele não soubesse.
Professor: Não... Ele veio procurar Rachel e obter informações. Sinistro só irá voltar a se preocupar com Scott e Jean, se as duas crianças falecerem.
Scott: Pelo amor de Deus, professor! Nem me diga uma coisa dessas!
Scott levantou agitado. Estava muito nervoso e trêmulo.
Scott: Então ele veio buscar minha filha.... Pior impossível! E eu não posso fazer nada para impedir! Ao menos Jean conseguiu fugir! Alguém viu como?
Um estranho silêncio entre o grupo.
Jubileu: Eu só Wolverine correndo pelo corredor e cortando algumas grades.
Scott: Isso eu também vi.
Mística: Quem levou Jean foi Wolverine. - Ela não tinha receios de falar. - E deixou Bruna na cela.
Scott: Por que?
Mística riu.
Mística: Ué?! Tá perguntando pra mim?!?! Pensei que fosse óbvio...
Professor: Mística, por favor...
Mística: Deve ser porque ele entrou aqui única e especificamente para tirar ela daqui de dentro.
Professor: Tempestade, Wolverine e Magneto tentaram salvar o maior número de mutantes possíveis, Mística. Infelizmente não foi possível. Não fique fazendo mal juízo das atitudes de Logan. Se ele levou Jean, é porque ela estava mais próxima no momento.
Scott: E Bruna? Não estava próxima? As duas na mesma cela.
Professor: Bruna não tem poderes, Scott. Fique calmo. A escolha de Jean foi estratégica.
Scott passou a mão no rosto e no cabelo, mordeu os lábios. Ficou andando de um lado para o outro e olhando a Lua que vinha cortada pelas grades da janela.
Scott: Eu não confio nele. Não confio nele para ficar com a minha mulher.
Professor: Pois devia confiar. Ninguém é mais dedicado e protetor dela do que Wolverine.
Scott: Isso eu sei. Não é disso que estou falando.
Scott chutou a parede. Todos arregalaram os olhos! Ele sempre era tão centrado e racional, era estranho vê-lo extravasar sentimentos. Xavier engrossou o tem de voz para falar com ele, outro acontecimento completamente inusitado! Ninguém nunca vira Xavier engrossar a voz para Scott.
Professor: Você deveria agradecer que sua mulher conseguiu ser salva desse inferno! E engolir esse ciúmes! Veja o que aconteceu com Vampira! Veja o que está acontecendo com inúmeras mutantes aqui dentro! Agradeça a Wolverine com todo o amor que você tiver! Sua mulher está grávida!
Scott: Eu sei de tudo isso! E agradeço muito por ela estar fora daqui. O problema é que eu não confio nele... Tenho certeza absoluta que está fazendo o possível para conseguir o que sempre quis.
Professor: Nada acontece quando só um quer, Scott. Você deveria confiar mais nela.
Scott: Nela eu confio.
Um barulho de confusão fez com que os x-men parassem a conversa. Eles viram um grupo do soldados jogarem um mutante verde contra uma parede e enchê-lo de socos e chutes. Fera, Bobby e Scott foram correndo impedir a agressão.
Scott: Parem com isso! O que foi que ele fez?
Fera, só pelo seu tamanho gigante conseguiu arrancar a arma da mão de um dos soldados e dar uma rasteira nele que o fez cair batendo com a cabeça no chão. O soldado ficou desacordado. Scott e Bobby trocaram socos com outros guardas e imediatamente os 20 soldados vieram com as suas armas apontadas na direção dos três. Principalmente de Fera, um mutante que estava com uma arma na mão!
Soldado: Abaixa a arma, peludão! É uma ordem!
Soldado2: Abaixa a arma, Primo Witch! Ou você quer ver seus miolos estourarem igual aos do presidente Kennedy?!
Fera: Não abaixo.
Outros soldados chegaram e caíram de socos e chutes para cima de Scott e Bobby, que apanhavam de um número enorme de homens, todos armados.
Fera: Parem! Parem de bater neles agora! Isso não é um pedido! - Fera apontou a arma para o grupo de homens que batia em seus companheiros de equipe.
Imediatamente todos os soldados engatilharam suas armas. Fera gelou com aquele barulho.
Soldado: Anda, Capitão Caverna! Tá querendo morrer?!
Fera: Eu imponho uma condição!
Soldado: Você não impõem nada! Nós somos 20 e mais reforço chegando, e você é apenas uma ameba insignificante que roubou uma arma!
Fera: Eu largo se vocês libertarem Charles Xavier! E a menina nova, Jubileu Lee! Os dois não merecem isso aqui dentro!
Três tiros secos foram ouvidos! O sangue de Fera espirrou nos soldados! Gritaria geral! Todos os mutantes levantaram-se do chão e começaram acorrer de um lado para o outro com o barulho e a visão horrível daquela cena!
Jubileu: Nãããão!
Professor: FERA! - Ele abaixou o rosto e chorou pela primeira vez em longos anos. - Isso não pode estar acontecendo.
Scott e Bobby, todo arrebentados, sangrando pelo nariz, com os lábios cortados e os olhos roxos, jogaram-se em cima de Fera tentando levantá-lo do chão.
Scott: Hank! Acorda!
Bobby: Cara! Não faz isso com a gente! Acorda!
Scott: HANK! - Scott sacudia Fera com toda força.
Sam: Meu Deus do Céu!
Jubileu correu para também acudir Fera. Anjo e Bobby Drake partiram como loucos para baterem aleatoriamente em todos os soldados, enquanto gritavam como loucos. Eles não sabiam quais dos 20 haviam atirado! Foi inútil o que fizeram. Foram imobilizados e jogados num canto.
Jubileu: Vamos, gente! Todo mundo pra cima dos caras! Eles são 20, nós somos 1000 ou mais!
Bobby: Todo mundo, pra cima dos caras!
A multidão de mutantes começou a voar para cima dos soldados. Os reforços chegaram. Já eram uns 50 soldados na sala, mesmo assim os mutantes ganhavam. Tiros para cima! Tiros para frente! Tiros para tudo quanto era lado! Os soldados estavam amedrontados! Outros mutantes foram acertados! Gritaria geral! Muitos resolveram parar de agredir os soldados quando ouviram os tiros. Outros partiram com mais ódio para cima deles! Mais e mais tiros! Um dos soldados avisou Edward Northon pelo walk-talk da rebelião dentro da fábrica.
Um estalido e um ruído metálico. De repente a voz amedrontada do soldado.
Soldado: Edward?! Edward?!
Edward: Sim.
Soldado: Rebelião na fábrica! Todos os mutantes ficaram loucos!
Edward: Como assim? Eles recuperaram os poderes???
Soldado: Não! O poder deles é serem inúmeros! É uma massa de gente em cima da gente!
Edward: Vocês não estão com armas?!
Soldado: Não dá conta desse número de gente!
Edward Northon chamou todos os soldados que foram enviados para resgatar os mutantes fugidos para irem direto para fábrica. Ainda pediu reforços para a base do exército. Em poucos minutos uma legião de soldados arrebentou as portas da fábrica e tomou conta de todos os espaços do galpão. Fez-se o silêncio. Além de Fera caído baleado no chão, agora haviam outros dez mutantes feridos a bala e uns dois aparentemente mortos. Três soldados também estavam caídos e pareciam mortos. Outros tantos estavam em pé, mas estavam visivelmente machucados pelas agressões físicas.
Soldado: Todo mundo parado como estátua aqui dentro, se não morre!
Soldado2: Seus bandos de merda podre! Quem começou essa arruaça?
Soldado: Com que direito vocês partem para cima dos soldados?! Tão querendo morrer?!
Soldado2: Se continuarem desse jeito violento que vocês sempre foram, só vão reforçar o que nós dizemos: são perigosos!
Soldado: É com exemplos como esse que o Congresso pode modificar a lei de esterilização mutante para extermínio!
Soldado2: Eu mato um a um com muito gosto! Aborto da natureza! Anormais!
Jubileu: Pelo amor de Deus! Levem ele daqui rápido. Se não ele morre! - Apontava para Fera.
Soldado: Cala a boca! Ninguém me diz o que fazer.
Outros soldados entraram com macas e levaram todos os feridos e mortos embora. Dessa vez, 100 soldados ficaram dentro do galpão e a porta foi rapidamente consertada e acorrentada. Os x-men voltaram para o canto de antes e ficaram abraçados. Alguns estavam muito feridos. Jubileu estava suja do sangue de Fera. Scott e Bobby nem reconheciam qual sangue era deles e qual era de Fera.
Anjo: Isso é um pesadelo... Não está acontecendo. - Estava com uma de suas asas machucadas.
Jubileu: Será que ele vai morrer?
Sam abraçou Jubileu com mais força.
Sam: Eu duvido que tratem ele como se deve.
Scott: Vai morrer por negligência médica porque é mutante e começou a confusão.
Professor: Vamos rezar para que os médicos daqui honrem o juramento que fizeram quando se formaram. De que vão sempre tentar salvar vidas, e nunca tirá-las. Vamos rezar para que ao menos na profissão deles o preconceito não interfira.
Jean: FERA!
Acordou gritando, trêmula e assustadíssima! Wolverine, que dormia ao lado dela na cama de casal, com o braço por cima do corpo dela, ouviu o grito 100 vezes mais alto por causa de sua super audição e pela proximidade.
Wolverine: Quê que é? Onde? - Saltou da cama com as garras para fora. *SNIKT*
Jean: Fera foi baleado. - Tremia como quem tinha mal de parkinson. Chorava descontrolada. - Eu vi, eu senti.
Logan sentou na cama próximo a ela e tentou acalmá-la, segurando seu rosto de pele fina. Colocava as mexas ruivas para trás da orelha.
Wolverine: Calma, ruiva. Deve ter sido um pesadelo.
Jean: Não! Eu estou com meus poderes de volta! O que eu senti aconteceu! E eu vi!
Wolverine: Onde? No complexo?
Jean: Eles foram transferidos para aquela fábrica onde nós dois fomos esperar Magneto e Tempestade.
Wolverine: Você vai ter que se acalmar agora, guria. Porque seja lá o que está acontecendo naquele muquifo, nós não podemos ir lá agora. Precisamos nos preparar. Já são 5 da manhã. Daqui a pouco amanhece e nós mal dormimos. Volte a dormir, você é quem mais precisa.
No quarto de Gambit e Vampira, o cajun também acordou. Foi porque ouviu um barulho de água. Quando abriu os olhos não viu Vampira do outro lado da cama. Viu a luz do banheiro acesa e quando foi ver o que era, encontrou-a dentro da banheira.
Gambit: Oi, belle. O que foi, ma chere?
Vampira: Lembrei que não tinha tomado banho. Tenho que limpar minha pele das marcas daqueles imundos que me tocaram. Preciso me limpar.
Gambit: Ha quanto tempo está aí?
Vampira: Mais de meia hora.
Gambit: Já está na hora de sair, amour.
Vampira: Acho que não importa quantos banhos tomar, vou sempre estar suja das marcas daqueles homens imundos.
Gambit estendeu uma toalha para ela. Vampira pegou-a bem pela pontinha extrema. O mais longe possível dele. Gambit entendeu porque ela fez isso e achou melhor voltar para o quarto. Não podia tocá-la, era melhor nem ficar tão próximo da tentação.
Jean havia voltado a dormir, depois de muita insistência de Wolverine. Ele é que não conseguiu pegar no sono imaginando o amigo Hank Mackoy realmente baleado.
Wolverine: Será? - Ele pensava alto.
Se aquilo fosse verdade e Fera viesse a falecer, Wolverine jurou que buscaria o culpado até o quinto dos infernos para lhe arrancar as vísceras. A reunião do dia seguinte teria que ser rápida. Eles tinham que voltar a atacar o mais breve possível. Logan sentiu um cheiro conhecido se aproximando do chalé e ouviu passos no gramado. Antes que a pessoa batesse na porta, ele desceu as escadas.
Wolverine: Já vou abrir, Tempestade.
E ele abriu a porta. Tempestade ficou com o punho no ar de quem daria toques leves na porta.
Tempestade: Perdão pelo adiantado da hora. Estava dormindo?
Wolverine: Não. Jean está. Que foi? Magneto ronca?
Tempestade: Não. - Ela sorriu. - Botei ele para dormir no sofá. Não ia dividir a cama com Erik nem por um decreto papal. Está dormindo no sofá também?
Wolverine: ... Não.
Tempestade franziu o rosto. Ela não disse nada, mas sabia que aquilo deveria estar sendo um sonho para Logan.
Tempestade: Vim aqui para tirar umas dúvidas. Se por acaso não conseguirmos de uma primeira vez tirar todos os x-men de lá, quais nós deveríamos privilegiar? É uma escolha horrível.
Wolverine: Professor Xavier, Emma Frost, Bobby Drake. Os que têm melhores poderes.
Tempestade: Emma Frost foi presa?
Wolverine: Eu não vi em lugar nenhum, mas acho que senti o cheiro dela.
Tempestade: Por que não Fera? E Scott?
Wolverine: É, Scott pode ser. Tinha esquecido dele... Jean acha que Fera foi baleado.
Tempestade: Pela Deusa, não!
Wolverine: Vamos ter que nos certificar disso amanhã.
Tempestade: Agora é que eu não vou conseguir dormir mesmo.
Tempestade deu um abraço em Wolverine. Ele ficou paralisado por um segundo, mas logo abraçou-a também.
Wolverine: Fica assim não, Ororo. Ainda não temos certeza de nada.
Tempestade: Que pesadelo horrível.
Wolverine: Escuta, se tu quiser ficar aqui no quarto, eu durmo no sofá e você dorme com Jean.
Tempestade: Não. Está tudo bem. Boa noite, Logan.
Wolverine: Bom dia, quase.
Tempestade: Eu vou lá no quarto de Gambit e Vampira ver se eles estão precisando de alguma coisa. Os dois devem estar sofrendo muito. Principalmente ela.
Logan fechou a porta e voltou a subir as escadas. Encontrou Jean Grey dormindo como um anjo. Ainda estava escuro lá fora, mas uma luz prata bonita iluminava a pele dela. Wolverine lembrou de quando percebeu que tinha resgatado uma mulher nua. Ele balançou a cabeça. Nenhum pensamento poderia ser mais calhorda do que aquele. Mas ele não esquecia nem dos mínimos detalhes. Antes olhava e imaginava. Agora que via aquela ruiva dormindo com um pijama de seda negra, comprada na lojinha do hotel, ele não precisava imaginar. Lembrava exatamente de como era tudo ali por baixo. Ele sorriu da própria falta de caráter.
Wolverine: Eu não presto.
Sentou no chão, ao lado da cama, de joelhos. Ficou olhando para ela. Estava dormindo indefesa. Teve vontade de tocá-la de leve, sem que ela percebesse. Era um desejo de anos e anos. Ficou admirando cada curvinha, cada ponta de dedo, o contorno do joelho. Veio uma vontade louca de abrir o botão do pijama e rever os seios. Levantou rápido dali, foi jogar uma água no rosto na pia do banheiro. Depois voltou para junto da cama, percebendo que a água não adiantou de nada. Mas não tinha coragem de fazer aquilo com ela. E se ela acordasse e se encontrasse nua novamente?! Não o perdoaria nunca. Mas havia algo que ele não conseguia segurar: a vontade de beijá-la. Num momento louco, beijou-a como quem beija a bela adormecida. Mas como Wolverine não era nenhum príncipe, não conseguiu se conter e apertou suavemente uma das longas pernas.
Jean arregalou os olhos e voou para o teto do quarto. Wolverine ficou olhando para cima, como quem pede perdão a uma santa no céu.
Wolverine: Perdão.
Jean: Não me toque mais.
Wolverine: Não deveria ter feito. Nunca fiz isso em anos que te amo, não sei o que me deu agora.
O
que Wolverine fez, lembrava a Jean o que ela havia passado dentro da prisão
naquela mesma noite. A diferença estava na violência como ocorreu com os guardas
e na suavidade que o bruto do Wolverine empregou naquele ato. Mas não deixava de
ser um abuso contra seu corpo, já que não havia permitido nada.
Wolverine: Por favor, desce.
Jean: Estou com medo de você.
Wolverine: Eu durmo no gramado, pronto. Desce.
Jean: Só depois que você se afastar da cama.
Wolverine subiu na cama estendeu os braços para o teto tentando alcançá-la.
Wolverine: Eu te amo, ruiva. Deixa eu mostrar isso.
Jean: Logan, não faça isso. Vamos nos arrepender.
Wolverine: Eu não ia.
Jean: Se você prometer dormir o resto da noite no sofá, eu desço. Não posso mais ficar ao seu lado depois do que você fez.
Logan abaixou a cabeça e desceu da cama. Pegou seu travesseiro e colocou no sofá.
Wolverine: Desculpa de novo. Eu nunca fui o gentleman.
Jean: Mas comigo costumava ser.
Wolverine: Esquece tudo isso. Vamos dormir. Não precisa ter medo de mim, estou no sofá.
Ela desceu e cobriu-se toda com a coberta. Aquilo matou Wolverine. Mas a culpa foi dele e ele sabia.
Continua Aqui!