A noite de sábado de Wolverine foi como ele esperava. Tempestade seguiu os conselhos dos amigos e ligou para Forge na sexta a noite. Eles saíram juntos para almoçarem no domingo. A segunda feira chegou e nenhum sinal de Gambit. Um final de semana inteiro sem nenhum sinal. O professor não quis invadir a privacidade do cajun, usando o cérebro para saber exatamente onde ele estava. Apenas fez contato mental e sentiu que Gambit estava bem e por perto. Todos da casa se sentiram mais aliviados, mas Tempestade ainda estava nervosa com a situação. Inacreditavelmente, Vampira era a única pessoa que nem mencionava o nome de Gambit naquela casa. Era simplesmente como se nada tivesse acontecido, como se ela não tivesse casado com ninguém, sido sequestrada por ninguém, não estivesse preocupada com o sumiço de alguém importante. Depois de três semanas trancada num quarto, ela saiu como a Vampira durona de algum tempo atrás. Sam voltou da casa dos pais naquela tarde de segunda - feira.

Narrador: Vampira está lendo no quarto os relatórios do processo que está para ser julgado no superior tribunal contra a MHESS. Todos já sabem que em pouco tempo acontecerá o julgamento final. Ela está lendo no quarto escondia, porque não quer que ninguém saiba que pensa em tudo que aconteceu com ela: o sequestro, a lua de mel interrompida, seus problemas pessoais. Ela ainda está visivelmente machucada, mas não quer que ninguém mais a veja assim. Por isso se tranca no quarto, local onde pode ficar mais a vontade, sabendo que ninguém verá seus ferimentos externos e internos. Pode ficar a vontade com menos roupa, já que está sempre fadada a se enclausurar dentro delas caso não queira ferir ninguém com seus poderes. Mas do lado de fora do quarto ela tem se mostrado alguém de muita fibra. Todos estão impressionados. Ela sabe que ficará muito exposta com esse julgamento. Advogados de defesa da MHESS farão de tudo para incriminar os x-men de alguma forma. Todas as acusações que os x-men fizeram a eles serão amenizadas pelo advogado, irão parecer menos nefastas do que foram, irão parecer mentira dos x-men. O advogado de Vampira, sabedor disso, já havia tirado várias fotos do corpo de Vampira, com todos os machucados, e ela já havia passado pelo exame corpo de delito na maldita delegacia quando foram prestar queixa inicial. O exame foi complicado, tá certo que esses médicos têm sempre que usar luvas, mas Jean estava na sala o tempo todo para ver se o médico não encostava nela sem as luvas. Mike, o irmão de Edward Norton, era imprescindível ao julgamento. Ele era a melhor testemunha para relatar tudo que Vampira passou, todos os momentos sórdidos. Muitos desses momentos são desconhecidos pelos x-men, porque ela quase nada contou. Vampira ficará muito exposta. Todos saberão de tudo e ele odeia ficar exposta. Está muito apreensiva. Fica imaginando a reação de Wolverine na platéia a tudo assistindo. Consegue ver perfeitamente a cena de Mike dando seu relato e Wolverine, então, pulando com as garras para fora em cima do banco dos réus. Consegue ver Wolverine irado matando cada integrante da MHESS e indo preso por isso. Mas o pior de tudo, é saber que também terá que relatar cada momento de tudo que aconteceu, desde a lua de mel inacabada, sabendo que Gambit também estará lá; já que é o esposo da vítima. E ainda terá que ouvir o relato dele. Não vai ser nada fácil.

No meio de seus pensamentos, Vampira percebe que tem alguém batendo na porta. Ela leva um susto. Esconde os papéis, abre correndo a porta e entra correndo de baixo das cobertas para que ninguém a veja com tão pouca roupa.

Sam: Boa tarde, dona Vampira. Posso entrar?

Vampira: Oi, Sam! Entra, gatinho. Tudo certo? Não sabia que você tinha voltado hoje...

Sam: Pois é, cheguei agora. Fui na sexta de manhã, quando tudo parecia ainda muito difícil para a senhora. Levei um susto agora quando me disseram que você saiu do quarto poucas horas depois que eu fui, e saiu com ótimo ânimo. E que desde sexta está tudo bem com você. Por isso vim te ver.

Vampira: Fofo, Senhora está no céu. Você sabe que pode me chamar de Vampira.

Sam: É, eu sei. Mas é só eu voltar e passar uns dias na minha casa que eu volto pra cá com esses hábitos meio antiquados, ainda tão preservado por lá... Mas, então... Tudo certo com você?

Vampira: Tudo ótimo.

Sam: Você sabe, não é? Sabe que o Gambit saiu da mansão. Saiu dos x-men.

Vampira: Deu pra perceber, cara. Mas eu não quero falar sobre isso.

Sam: Tudo certo, sem problemas. Eu também vim aqui para te dizer outra coisa.

Vampira: O que? Você e a danadinha da Jubileu estão ficando de novo?

Sam: Não... Não é isso. Não quero mais saber de Jubileu, ela já sabe disso. Eu vim aqui para saber sua opinião sobre uma coisa. Você sabe que eu já vou fazer 18 anos né?

Vampira: Mas ainda falta meio ano, gatinho.

Sam: Eu sei, mas essas coisas a gente tem que decidir com calma. É que estava pensando em me alistar no exército, o que você acha?

Vampira: Alistar no exército? Exército americano?

Sam: Ué! Só pode ser o americano. Mal talvez a aeronáutica, o que você acha?

Vampira: Sam, exército americano! Onde você está com a cabeça? Já andou contando essas idéias malucas aí fora?

Sam: Ué, qual o problema? Os x-men são uma organização para proteção de inocentes contra mutantes que se achem superiores e tentem eliminá-los. O exército também está aí para a proteção de inocentes.

Vampira: Inocente é você!!!! É você! No dia que o exército americano estiver protegendo alguém, que não seja o dinheiro dos governantes desse país, eu sou a rainha da Inglaterra! Sam! Pelo amor de Deus! Ainda mais agora que esse presidente idiota quer uma guerra contra o Iraque! Que momento mais imbecil pra você querer entrar no exército! Entrar no exército americano é a mesma coisa que seguir o exército do Magneto, é se considerar superior e eliminar os supostos inferiores. O magneto faz isso por ideologia preconceituosa, o exército americano faz isso por dinheiro. Sam, cresce!

Sam: Mas eu pensei que...

Vampira: Sam, você pensou errado. Inocente era só que você iria matar. Você está deixando que a mídia faça uma lavagem cerebral em você. Pra você ter uma noção, o último relatório do governo contra as armas do Iraque foram plagiados de uma dissertação de mestrado de um universitário americano. Copiado, Sam, linha por linha. Uma dissertação de anos atrás! Da guerra do Golfo! Plágio, mentiras para ganhar a opinão pública! E você está caindo nessas balelas!

Sam: Não foi o tal do Tony Blair que fez esse relatório?

Vampira: Sam, hoje, tudo que diz respeito a guerra que o boçal do Tony Blair venha a dizer, tem dedo e ajuda do Bush. Sem contar que o universitário dono da dissertação copiada era americano. Você acha que tem dedo de quem aí? Meu, por acaso? Ou do governo americano?!

Sam: Desculpa, Vampira. Eu só pensei que eu estivesse pensando certo em defender meu país e tudo mais.

Vampira: Sam, nós x-men lutamos contra o preconceito. Qualquer preconceito. Por mais que nós treinemos ataque e auto-defesa especializada para cada um de nossos poderes, você sabe que nós somos anti-guerra. Se não fôssemos, estaríamos ferindo nossos princípios. Sam, olha o que aconteceu comigo...

Vampira passou três dias como uma rocha, essa foi a primeira vez que seus olhos se encheram de lágrimas. Mas ela não chorou, apenas embargou a voz, continuou forte.

Vampira: Olha o que aconteceu comigo, Sam... Isso tudo que você está vendo aqui no meu rosto e nos meus braços são marcas do preconceito. Da não tolerância à diferença. Da ignorância. Não seja ignorante, leia o texto que existe por trás das linhas, Sam. Essa guerra só irá acontecer por dinheiro. Quanto mais guerra, mais a economia americana cresce. Legal a economia crescer, mas estou cansada de ver ela crescendo as custas dos sofrimentos de outras pessoas em outros países! Guerra no Iraque para tirar Sadan Russein porque ele é um ditador horrível? Balela! É para dividir o país e seu petróleo! Ou você não sabe que a família Bush tem uma empresa de petróleo? Você não acha que tem capital da família dele na TEXACO, não? Por sinal, capital britânico também. Ou você não sabe que Bush é a pessoa mais preconceituosa que existe no mundo? Só se preocupa com dinheiro! Tá pouco se lixando para questões ecológicas e sociais! No governo dele no Texas, ele matou um número enorme de pessoas que estavm no corredor da morte! Quase todos negros e latinos! Matou no Texas mais do que todos os outros estados que têm pena de morte mataram juntos. Sam, chega de ignorância! Chega de intolerância! Chega de maldade e ruindade nesse mundo! Quero paz!

Sam: E você acha que Sadan Russein é um cara legal, por acaso?

Vampira: Não, Sam. Sadan Russein é outro filho da p...! Assassino político, ele e o filho dele! Mas isso é problema interno do Iraque, Sam. É para isso que existe soberania nacional, para que os próprios países resolvam seus problemas. Ou eu me meto na casa dos outros para resolver brigas familiares? Só entro se me pedirem ajuda. E o povo iraquiano está apoiando esse cara em massa, ninguém tá pedindo ajuda para nenhuma intervenção. É sinal que a maioria da população ainda quer ele. Parece coisa de maluco, acho horrível, mas o que é que vamos fazer? Invadir é que não é! Um absurdo completo! Outros ditadores existem por aí, por que esse? Claramente por causa do petróleo. Sem contar, que muito da miséria dessa país hoje é culpa do embargo econômico que existe sobre ele. Com embargo, Sam, qualquer país fica na miséria. Olha Cuba aí do nosso lado! Ridículo, Sam. A impressão que eu tenho é que só existem ridículos no mundo.

Sam: Tá me chamando de ridículo?

Vampira: Estou quase, Sam. Por enquanto posso dizer que essa sua idéia foi muito ridícula. Chega de intolerância, de sofrimento, de injustiça. Agora vai dar um passeio e pensar sobre isso porque eu preciso ficar sozinha.


Alguns dias se passam. Um homem alto e misterioso anda pelos corredores da galeria de quadros europeus do Metropolitan Museum que fica perto do Central Park. Já conhecia todos os quadros, assim como o museu inteiro. Ele estava alí em busca de dinheiro. Observa, observa. Roubar alguma obra de arte mais tarde na calada da noite seria muitíssimo arriscado. Principalmente sozinho, na certa seria pego. Sem contar que ele sempre achou roubar obras de arte um sacrilégio, as vezes fazia, mas era sacrilégio. Ele chega  mais perto de um quadro.

Gambit: Bon jour, madame.

Mulher: Bon jour. Te conheço?

Gambit: Non.

Mulher: Então por que se aproximou de mim?

Gambit: Me aproximei do quadro.

Mulher: Por que falou comigo?

Gambit: Falei com a mulher pintada no quadro.

Mulher: Ah! Claro, muito boa essa.

Gambit: Já viu a seção de vestimentas do museu? É linda. Acho que deve ser bem o seu gosto. Tem lindos vestidos de época e inclusive vestidos de alta costura como Channel e Armani.

Mulher: Como sabe que eu gostaria dessa seção?

Gambit: Eu percebi que a senhora está usando um modelo Versace.

Mulher: Se não estivesse me dando uma cantada, diria até que você é meio fresco por perceber isso.

Gambit: Talvez seja por isso que eu ganho todas, porque não sou fresco, mas percebo coisas que quase nenhum homem percebe. Non?

Mulher: Trabalha com o que?

Gambit: Não posso contar, ma belle. Sou misterioso.

Mulher: Ah ta... Mas eu percebo que você não é qualquer um pelo que diz e pelo que veste. E... pelo que aparenta, e até mesmo pelo sotaque.

Gambit: Senhora... Estou vendo que um mendigo francês que quisesse roubá-la a enganaria, ele também teria sotaque. E aparência não quer dizer nada.

Mulher: Bom, você também é sincero.

Gambit: Gostaria de ir tomar um chá em alguma confeitaria?

Mulher: No restaurante do Plazza Hotel aqui na frente?

Gambit: Eu não entro no Plazza por nada desse mundo.

Mulher: Você tem medo que o episódio dos homens de lata aconteça de novo? Foi horrível aquilo, não? Fico pensando no pobre casal que estava hospedado no último andar.

Gambit: Deve ter sido horrível para eles mesmo, non? Por isso não quero entrar lá.

Gambit e a mulher vão para uma confeitaria de esquina, ele paga tudo para ela.

Mulher: Olha, você não precisa pagar tudo. Eu tenho dinheiro.

Gambit: Um cavalheiro sempre faz as honras. Permita-me tudo pagar, ce bien?

Mulher: Ce bien, mon cavalheiro.

Gambit: Afinal, eu já disse que sou misterioso. E a senhora, também é?

Mulher: Não. Meu nome é Lívia. Eu sou gerente da Johnson & Johnson.

Gambit: Ual! Vou até me retirar para não passar vergonha!

Mulher: Não seja bobo! Minha condição não quer dizer nada. Principalmente porque eu tenho certeza que você está blefando e se duvidar é presidente da Johnson & Johnson.

Gambit: Non, pode acreditar. A esmeralda da sua pulseira é muito bonita. Gosto de verde, de olhos verdes.

Mulher: Bom, os meus são castanho... Mas obrigada. Você acredita que essa pequena pedra vermelha aqui desse anel é mais cara do que essa pulseira?

Gambit: Acredito, sei que rubi pode ser bem mais caro do que esmeralda, dependendo da qualidade da pedra. E essa na seu dedo é magnífica! Cravejada em volta por brilhantes e o anel em ouro branco.

Mulher: Já sei! Você é algum judeu dono de joalheria!

Gambit: Non...

Mulher: Então você é um ladrão!

Gambit: Talvez...

Mulher: Hahaha! Estou gostando de você! Tem senso de humor.

Gambit: As vezes tenho.

Gambit chega mais perto dela e a beija. Ela fica enlevada, era um dos homens mais empolgantes que ela já havia conhecido. Não se deixar levar era difícil, principalmente para ela que já estava sem namorado ha bastante tempo.

Mulher: Nossa, você é lindo! Deve sempre conseguir tudo o que quer.

Gambit: Ninguém consegue tudo o quer na vida só com uma cara bonita.

Mulher: Digo "tudo o que quer" em relação as mulheres.

Gambit: Não se consegue qualquer mulher só pela aparência.

Mulher: Bom, você conseguiu me impressionar com esse beijo e com esse seu jeito.

Gambit: Merci. Você também é impressionante, ma belle.

Gambit segura a mão dela e mais uma vez a beija.

Mulher: Olha, eu até tinha um almoço de negócio hoje num restaurante japonês, mas eu vou ligar desmarcando se você puder ficar aqui comigo.

Gambit: Claro. Vai ligando, enquanto eu vou ao banheiro num instante.

A mulher esperou por vinte minutos, já estava impaciente; mas esperaria até mais tempo se não tivesse percebido que seu anel não estava mais no seu dedo. Onde estava o anel? Gambit tinha voltado a entrar em ação.


Mais um final de semana chega bem recebido na mansão dos x-men. Jean Grey resolve sair para comprar algumas roupas. Jean sabe que a mansão fica em um lugar um pouco afastado. Não tem nenhuma casa muito perto, mas isso não significa que não tivessem algumas pessoas por perto. Mal ela sai dos portões dos jardins e as pessoas já começam a olhar para ela com desconfiança. Todo dia que alguém saísse por aqueles portões a pé era a mesma coisa, encontrava pares de olhos curiosos e preconceituosos. Não era a toa que a maioria dos x-men saía pelos fundos de carro e com óculos escuros. Isso quando não saía por outros métodos menos convencionais como voar!

Jean tem o poder de ler mentes, ainda quando jovem não controlava esse dom, e ela o considereva uma maldição. Todas as vozes entravam em sua cabeça, ela estava sempre perdida, ouvindo o que não queria ouvir. Sabendo de tudo o que os outros pensavam realmente a respeito dela e de tudo mais. Ouvia o que o padeiro achava de sua mãe, o que o lixeiro achava de seu quintal, o que seu pai achava de seus brinquedos, o que seus amigos achavam de seu cabelo, o que o menino que ela gostava na escola achava dela, o que as meninas que não gostavam dela pensavam de mais ordinário, o que o vendedor de sapatos achava de suas pernas, a inveja que a manicure nutria de seus olhos verdes, todas as pessoas nas ruas que olhavam pra ela e se perguntavam se aquele não era um cabelo ruivo pintado. Ela não tinha paz! se trancava no quarto com um travesseiro na cabeça, não queria ninguém por perto! Por mais que estivesse em silêncio aparente, estaria sempre pensando alguma coisa, e ela estaria sempre ouvindo. Com o tempo e com a ajuda do professor Xavier, ela pôde controlar a maldição que se tornou o mais maravilhoso dos dons! Certamente, muito melhor do que a estranha telecinésia, é ter o poder de ler mentes. Melhor ainda, com o tempo ela pôde até aprender a como induzir pensamentos, como controlar mentes! Mas quase sempre, quando Jean usa algum poder, é a sua telecinésia, vive na mansão mexendo coisas de um lado para o outro sem ter que colocar suas mãos. Objetos voam por todos os cantos e estacionam onde Jean quer. Ler mentes, ela nunca o faz. Acha isso de uma extrema falta de ética, de caráter. Controlar mentes, então, é algo que Jean só exercita na sala de perigo sob os comandos do professor. Jean tem completa noção do quão poderosa poderia ser se fizesse uso de seus magníficos poderes! A mais poderosa de todas e sem ter que precisar dar um peteleco em ninguém! Mas ela também tem completa noção do quão ordinária e tirana  seria se fizesse uso de tudo isso. Portanto, Jean é uma pessoa pacata, que move objetos pela casa, rega plantas a distância e pega o controle da TV na mesinha sem ter que se levantar do sofá.

Ah, mas que vontade ela tinha de se deixar ler as mentes dessas pessoas chatas que ficam olhando para ela desse jeito nas ruas! Ela entra na loja, que fica a alguns quarteirões de distância da mansão. As vendedoras conheciam Jean de vista. Uma fala baixinho para a outra:

Vendedora1: Essa não é aquela ruiva da mansão estranha?

Vendedora2: É, mas fica quieta que ela tá vindo em nossa direção.... Bom Dia! Em que posso ajudá-la?

O que elas estariam pensando? Cada uma delas? As vendedoras mexeram um pouco a cabeça num sinal de "responda logo em que posso ajudá-la"!

Jean: Eu quero o preto da vitrine. Tamanho M.

A vendedora dá um risinho e sobe as escadas para pegar o modelo preto no estoque. Por que o risinho? Por que a outra vendedora não pára de olhar para ela? Jean resolve deixar o bloqueio de seu poder de lado. Ela ouviria agora qualquer mínimo pensamento, estava cansada de ser sempre certa enquanto todos só sabem lhe retribuir com preconceito e desconfiança.

Vendedora1: [Será que eu desliguei o feijão quando saí de casa? Hum... Queria que já fosse hora do meu almoço pra eu dar uma fugida... Ai, mas que saco, eu aqui nessa loja que só tem roupa brega tendo que atender esse público estranho. Tipo essa estranhona ruiva pintada que vem lá da casa dos Franksteins! Ela até que é a mais normalzinha que sai daquela casa aberração!]

Vendedora2: Está aqui o vestido! Era o último M lá do estoque. Desculpa pela demora, ele estava bem escondido. [Será que esse cabelo é pintado?]

Jean fecha a cortina da cabine de vestir a roupa. Ali dentro ela continua ouvindo os pensamentos das vendedoras.

Vendedora 1: [Há bem pouco tempo uma das mulheres daquela casa foi sequestrada pelos homens de lata... Bem que eu sempre desconfiei desse povo estranho. Essa daí, apesar de parecer normal deve ter alguma coisa errada também. Nunca vi ninguém normal naquela casa. Como é que se chamavam os homens de lata mesmo? humm... Ah, lembrei pelo menos que eu desliguei o feijão antes de sair de casa... mas o nome dos homens de lata é?]

Vendedora 2: [Ah! tomara que essa mulher vá embora logo da loja. Já vi uma senhora que passou aqui na frente e só não entrou porque viu ela entrando na cabine para se trocar. Só falta ela não querer comprar nada! Faz bem a cara dela mesmo!]

Vendedora1: [Sentinelas! Lembrei!]

Vendedora 2: [Eu acho que essa estranha aí que é casada com um altão bonitão que tá sempre com um óculos estranho meio vermelho... É, bem casada! O cara é bonitão! Só não dou em cima porque ele também deve ser esquisito igual a ela. Só tem um cara naquela casa que realmente mereça um esforço, é um que tá sempre de sobretudo. Ai, mas ele também deve ser esquisito igual o marido dessa magrela peituda cabelo de fogo aí dentro. Eu acho que eles são essa tal de corja mutante.]

Jean foi se enfurecendo dentro da cabine. Mais uma vez ela se lembrou de outro motivo para não ouvir os pensamentos das pessoas: quase todas "não pensam" de fato, só ficam voando em um mar de idiotices, acompanhadas de seus preconceitos e de seus desvios de caráter.

Vendedora 2: [Deve ser mutante mesmo, tomara que tenha uma agulha no vestido para espetar ela! E pra que ela nunca mais volte aqui! Cruz credo, esses mutantes podem até infectar a gente pelo ar com alguma nojeira deles!]

Jean abre rápido a cortina e mete o dedo na cara da vendedora.

Jean: Nojenta é você, e quem me infecta é sua inveja, cobiça e desdém dissimulado! Seu preconceito me envenena, sua ignorância me corrói por dentro; por saber que existem outros milhões que pensam igual a você!

Vendedora 2: Senhorita, eu não sei do que você está falando...

Vendedora 1: Eu acho melhor eu chamar o segurança ali fora...

Jean: Você não vai chamar ninguém! E Frankstein é você, não a minha casa! É você que só dará a luz a monstros iguais a você! E olha só o que eu faço com as roupas de vocês!!!

Jean começa a rasgar a roupa que está no próprio corpo em sinal de protesto! Com sua telecinésia, ela faz com que a máquina registradora voe em direção ao espelho, quebrando-o em mil pedaços! Várias roupas dos cabides também começam a voar em todas as direções da loja! Várias notas fiscais voam em direção a escada e a porta da loja! Jean está enfurecida! A Fênix que vive dentro dela estava quase acordando. Mas ela pára e pensa no que está fazendo... As duas vendedoras atônitas, uma agarrada com a outra, agachadinhas no chão, vêem Jean se acalmando. Jean vai respirando profundamente até a porta da loja, olha para as duas no chão e emite uma mensagem psíquica para duas. Elas simplesmente esqueceriam que Jean esteve na loja e achariam que na verdade foram vítimas de um assalto feito por um trio de homens mal encarados e armados. Ela chega ainda enfurecida na mansão e não quer conversar com ninguém.

Scott: Jean, aconteceu alguma coisa especial com suas roupas?

Jean: Estou irritada, Scott! Não me perturbe!

Bobby: A gente já percebeu isso!

Scott: Desculpa, amor. Não quis te irritar. Tem alguma coisa nessa sacola na tua mão?

Jean: Tem, Scott. Preconceito e ignorância! As vezes fico me perguntando se o que fazemos aqui com o professor Xavier tem realmente alguma serventia. Não vejo nunca mudança nas pessoas lá de fora.

Scott: Jean, eu também não sei se estamos jogando nossas vidas fora por um sonho utópico de igualdade e harmonia entre os povos e as diferenças. Mas é assim que eu gosto de viver, nutrindo a esperança de que talvez eu valha a pena para o mundo.

Jean: Também sei que essa é minha única forma de viver. Sem essa esperança eu perco meu chão. Mas sei que não será um grupo de dez cabeças que mudará o mundo inflexível lá fora, Scott.

Scott: Esperemos que outros muitos grupos de dez cabeças existam pelo mundo, Jean.


Vampira, como combinado, vai para a agência fazer o seu book de 400 dólares e esperar para ser chamada para algum trabalho.

Secretária: Oi, fofa! Tudo certinho com você? Olha, o Ken vai tirar suas fotos, tá? Vai querer que a gente faça a sua maquiagem e cabelo?

Vampira: Não! Não quero que encostem em mim! Já vim totalmente preparada de casa.

Secretária: Ih! Nossa, não quero "encostar" em você não, fofa! Já cicatrizou todas aquelas perebas da semana passada?

Vampira: Olha aqui, perebas tem o seu cérebro! Não gosto da forma que você fala comigo desde a primeira vez que você abriu essa sua boca.

Secretária: Ai, nossa! Mais uma modelinho agressiva! Ui, ui, ui!

Vampira: Nem queria saber o quanto eu posso ser agressiva.

Vampira entra no estúdio, o fotógrafo diz  que ela é muito bonita e tem grandes chances nesse ramo. Vampira pede a ele que sempre diga a ela o que fazer, mas que não chegue perto. Ele acha meio estranho, mas imagina que seja nervosismo de primeira seção de fotos. Eles tiram algumas fotos de rosto e corpo. Uma delas Vampira tirou até com o uniforme dos x-men, o que o fotógrafo achou que fosse alguma espécie de fantasia. O fotógrafo realmente achou que ela teria sucesso.

Fotógrafo: Olha, as fotos devem ter ficado todas lindas. Vem aqui daqui uns dias dar  uma olhada. Mas veja se perde essa timidez, quando te chamarem para algum trabalho, não vão querer que você venha maquiada de casa. Ele vão querer te fazer! Rosto, cabelo, corpo! Encostar em você é tudo o que eles vão fazer.

Vampira: É, eu sei...

Fotógrafo: E eles não vão encarar isso como timidez, e sim como estrelismo.

Vampira entende perfeitamente o que o fotógrafo da agência lhe disse. Vai ser difícil para ela conseguir qualquer emprego como modelo. Ela está até mesmo pensando em nunca mais aparecer na agência. Mesmo que eles liguem para ela avisando que ela conseguiu alguma coisa, mesmo sabendo que terá perdido 400 dólares. Só queria mesmo aumentar sua auto-estima com tudo isso. Nunca teve realmente vontade de ser modelo, até acha isso muito fútil. Sabe que a confusão que uma seção de fotos lhe traria só iria diminuir mais sua auto estima. Ela ao sair da agência sente fome e resolve passar numa lanchonete.

Vampira: Oi, cara, eu quero um croissant e um café cappuccino.

"Cara": Vera! Vera! Atende a moça aqui que eu tô ocupado!!!!

Vera: Oi.

Vampira: Um croissant e um café cappuccino.

Vera: Certo, vai querer mais alguma coisa?

Vampira: Não, obrigado.

Vera: Tá, 4 dólares e 75 centavos. O próximo?

Vampira: ...

Vera: 4 dólares e 75 centavos.

Vampira: É... eu sei. Mas é que eu esqueci de pegar dinheiro hoje. Posso pagar com cartão de crédito?

Vera: De crédito?

Vampira: É cartão de débito automático. Toma, tá aqui.

A atendente da lanchonete pega o cartão de Vampira para analisar. Ela vê o nome Clarisse Lebeau.

Vera: Lebeau?

Vampira: O que? Ah... O nome... é esse sim.

Vera: Puxa! Depois de tanto tempo eu finalmente encontro uma pista! Toma o cartão, já passei na máquina. Vem aqui desse lado do balcão comigo, rapidinho. Ô, James! Vem você agora atender que eu tô ocupada!

Vampira: Olha, eu não sei do que você está falando...

Vera: Toma, croissant e cappuccino, mas espera um pouco. Eu não sabia que ele tinha uma irmã.

A atendente põem a mão no rosto, ri sem graça, rói um pouco as unhas e continua.

Vera: Você é Lebeau, irmã do Remy, não é? Nossa!!! Ele sumiu de mim! Eu tentei procurar, mas ele some na noite quando quer. Ninguém mais acha!

Vampira: Eu não sou a mais indicada para te dar qualquer informação sobre ele. E ele não é meu...

Vera: Ah! Quer dizer então que nem você que é irmã sabe onde ele está? Droga, sinto tanta falta dele. Era o cara mais legal que eu já fiquei, pode dizer isso pra ele se você encontrar com ele.

Vampira: Tá certo, se eu encontrar eu digo. Mas ele não é meu...

Vera: Diz assim pro seu irmão: "Olha, Vera da lanchonete Pão de Mel mandou dizer que você é o cara que ela nunca vai esquecer." Tá? Diz assim pra ele, por favor.

Vampira põem a mão no rosto. Fecha os olhos e pensa no que essa mulher está te dizendo. Respira fundo e sente que realmente é hora de esquecer Gambit. Não faz o jeito dele ser um cara sozinho. Vampira sabe de sua impossibilidade de tocá-lo, de manter um relacionamento com aquele que ama, e acaba de encontrar uma prova cabal de que ele sozinho não fica por muito tempo. Era hora de tentar esquecê-lo.

Vera: Moça? Você tá legal? Não parece bem...

Vampira: Eu estou ótima. Tenho que ir. Pode deixar, se eu encontrar com ele eu dou o recado.

Vera: Olha! Meu cartão com meu telefone. Dá isso pra ele.

Vampira: Eu dou.

Vera: Brigado, brigado mesmo! Eu nunca vou esquecer você! Clarisse seu nome, né? Tomara que ele me ligue e nós sejamos amigas!

Vampira: ... Tomara. ... Tchau.

Vera: Tchau! ... Ei! Seu croissant e seu cappuccino! ... Nossa, ela não levou o que comprou!


Professor Xavier se intera que Jean chegou na mansão visivelmente transtornada e com as roupas rasgadas. Sai de seu escritório para vê-la. Lá ele a encontra junto com Tempestade, Wolverine, Scott e Bishop.

Professor: Jean. O que aconteceu?

Jean: Nada demais, professor. Na verdade, aconteceu o de sempre.

Professor: Alguém te destratou na rua?

Scott: As vendedoras da loja estavam olhando para ela de forma estranha, mas hipocritamente e capitalistamente, tratando-a muito bem. Elas querem sempre vender.

Wolverine: Daí que a Ruiva resolveu ouvir o que as barangas tavam pensando, acertei? E chegou em casa nesse estado. Ruiva, você ainda se afeta com isso... 

Tempestade: Ela está certa, Wolverine. Nunca podemos nos conformar.

Wolverine: Não precisa se conformar. Dá umas porradas nelas, mas sem se abalar internamente com o que elas disseram ou pensaram. Não é o que eu sempre faço?

Scott: Isso não faz o estilo da minha esposa, Wolverine.

Professor: É tudo tão complicado, meus filhos. Outras formas de preconceito e não aceitação existem pelo mundo afora. Se inclusive grupos vizinhos e irmãos históricos brigam entre si, imagina contra nós, o quanto eles nos odiarão!

Wolverine: É por isso que eu sempre estraçalho! 

Professor: Violência não leva a lugar nenhum, Wolverine.

Wolverine: Pra você não leva, professor. Pra mim, sempre levou!

Professor: Tem razão. Devo fazer uma correção. Violência leva a um lugar sim, e é sempre um lugar pior do que o original. Eu tenho medo de pessoas como você no mundo, Wolverine.

Wolverine: Não é só você que tem não, professor.

Scott: Pois é. Não é mesmo!

Wolverine: Tem medo de mim, engomadinho?

Scott: Nunca tenho medo de você, Logan!

Wolverine: Tá! Vou tentar acreditar nessa sua lorota!

Jean: Parem!!! Os dois, agora!!!

Scott: Não tenho medo de você, meu medo é saber que outras muitas pessoas no mundo pensam dessa mesma forma doentia que você pensa! 

Jean: Pára, Scott! Pára!

Scott: Jean, você também acha a mesma coisa.

Jean: Eu concordo com você, Scott. Mas já chega de brigas por idéias diferentes lá fora! Aqui, pelo menos, eu quero paz!

Wolverine: Bom, se a Ruiva discorda de mim, eu agora me retiro. Não quero incomodar vocês. Sei que meu jeito de agir não é certo. Mas essa é minha natureza. Tchau, vou dar uma volta.

Tempestade: Volte, Wolverine!

Professor: Deixa, Ororo. 

Tempestade: Coitado, deve ter se sentido magoado. Todo mundo sabe que ele é violento, mas ele tem um bom coração.

Professor: Chega de violência, Tempestade. Bom coração é um conceito variável. Precisamos agora apenas ter força. Não violência, mas sim força. Força em nossas idéias contra a injustiça, contra a desigualdade, contra a tirania, a cobiça desenfreada, contra o preconceito, contra a violação dos direitos humanos.

Scott: Precisamos mudar o mundo com a mobilização de todos contra todas essas impunidades.

Bishop: Que mudar o mundo? Me perdoem, mas vocês sonham demais! Mobilização de todos, com conscientização das mazelas do mundo? Vocês são loucos! As vezes penso como Wolverine, que sem uma "real ação", nada anda!

Professor: Bishop, mesmo que você haja com a violência, achando que está fazendo uma boa ação, e indo contra aquilo que considera o mal: você ainda sim estará cometendo um crime!

Bishop: E eles não cometem?

Professor: Não estamos aqui para nos igualarmos com eles, Bishop! Sejamos sempre diferentes daquilo que consideramos mau.

Tempestade: Não vamos nos rebaixar ao nível deles! Vamos ser superiores! 

Professor: CUIDADO, Tempestade! Ninguém nunca é superior! Nunca, nunca! Nós seremos mais justos agindo de forma diferente. Mas não seremos superiores! Cuidado, porque quem se cansa de todos esses erros do mundo e resolve agir de forma "superior", vira Magneto!

Todos: ...

Professor: Aprendam, meus filhos. Ninguém no mundo é superior a ninguém. O que existem são aqueles que têm princípios e ética, e aqueles que não têm. 

CONTINUA AQUI!

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