INFÂNCIA MUTANTE

Escombros... Tijolos e vergalhões bem a mostra, pedras para todos os lados, um enorme muro quase todo esburacado, multidão de mutantes em festa pelas ruas, multidão de curiosos não mutantes também pelas ruas, polícia, exército, aeronáutica escoltando as comemorações e vigiando os x-men bem de perto. Luzes, câmeras, repórteres por todos os lados; um presidente preparando um discurso para ser passado em rede nacional em algumas horas. O fim de um gueto mutante, a vitória dos mutantes fracos do gueto que souberam achar uma força maior: união e um ideal a ser buscado! A igualdade estava na boca de todos, o fim do preconceito também. 

A festa dos vencedores era animada, a apreensão do poder instituído era muito grande. As forças que detém o monopólio da violência perderam para os x-men e seus mutantes liderados. Os x-men retiraram o governo militar do gueto, poderiam se quisessem retirar também o governo eleito do país! Scott Summers, o líder do grupo, prometeu não ter a mínima intenção de mexer em casa de abelhas! Aqueles mutantes queriam tudo como antes, as mudanças só deveriam surgir no que diz respeito a igualdade entre os mutantes e humanos e o fim dos preconceitos. Mas obviamente aquela algazarra nas ruas, aquelas pedras, aqueles vergalhões, tijolos, gente azul, verde e cinza, aqueles estranhos cabelos, aquela força de multidão vencedora assustava muito o monopólio da força legítima, o Estado Americano. 

E no meio de toda essa alegria, Fera acabara de dar uma notícia maravilhosa para Scott: sua filha Rachel tinha acabado de nascer! Mas antes de irem ao apartamento onde estava Jean com o bebê, todos eles foram para o presídio de mutantes que ficava ao lado. Tempestade tinha visto Noturno ser aprisionado e torturado por homens do exército. E lá ainda deveria estar desacordado. Enquanto andavam pelas ruas do gueto em algazarra pelo meio da multidão em festa, viam também muitos mutantes feridos sendo ajudados, alguns mortos, alegria e tristeza ao mesmo tempo. Wolverine foi na frente e farejou Noturno no presídio, ele estava no pátio bem amarrado e sem seus poderes. Também tinham injetado nele o micro chip inibidor de poderes. 

Tempestade: Kurt, onde você está?

Noturno: Aqui...

 Falou com uma voz fraquinha... Todos correram para vê-lo. Wolverine começou a cortar com suas garras as cordas que amarravam o amigo.

Noturno: Deus o pague, Logan.

Wolverine: Fala sério! Tu fica me devendo umas cervejas e tudo bem.

Tempestade: Estou feliz que não tenham feito nada sério demais com você, Kurt.

De repente, como que se tivessem esquecido do fato; foram relembrados por um choro de recém nascido que vinha do prédio próximo: Uma pequenininha x-menzinha tinha nascido. Scott colocou a mão na cabeça e saiu correndo subindo as escadas do prédio como um louco, Tempestade queria ver a menininha que tanto trouxe dor a Jean na hora do parto (uma mutante totalmente desacostumada a sentir dores), Wolverine deixou que Noturno se soltasse das cordas restantes sozinho mesmo; saiu correndo para subir o prédio também. Vampira estava pelas ruas com as mãos na cintura procurando Gambit, onde estaria aquele safado? Voou bem alto para rastreá-lo de cima. Como poderia ter sumido? Ah... Claro, o gueto em algazarra, Gambit certamente estava na farra com algumas mutantes. Ela o encontrou! Lá estava o cajun de olhos vermelhos ao lado de Bobby Drake dando uma entrevista a uma repórter e um câmera do canal 5. 

Repórter: Então, esse gueto era uma espécie de campo de concentração para mutantes?

Gambit: Oui, madame. Existe uma grande parcela da população dita normal que odeia os mutantes e querem exterminá-los. 

Bobby: É! Maior absurdo! Eles desenvolveram uma arma com um micro chip que inibia nossos poderes e nós ficávamos fáceis de sermos presos e executados!

Repórter: Ah! Vocês são mutantes e tem poderes? Bem que eu estava desconfiando... 

Gambit olhou para Bobby e sorriu, o picolé sorriu de volta. Bobby fez nevar em cima da repórter e do câmera, ela ficou maravilhada, o câmera também! Algumas pessoas próximas da entrevistas começaram a olhar a cena. Um ou outro mutante entrava no foco da câmara e fazia uma pequena demonstração de poder. 

Mutante: Nós vencemos! Agora vamos vencer o preconceito! Somos da paz, não nos forcem a sair de nosso instinto pacífico, pessoal! - E saía do foco da câmara desaparecendo gradativamente no ar!

Repórter: Nossa! Devem estar todos em casa achando que isso são efeitos especiais, mas nós estamos ao vivo! Isso é tudo verdade!

Gambit: Se esses mutantes te impressionam, é porque você não conhece Remy Lebeau. 

Repórter: E quem é Remy Lebeau?

Gambit: Ce moi, madame!

E Gambit agarrou a repórter num beijo cinematográfico! Ela não sabia se subia as nuvens ou se continuava com os olhos arregalados por ser beijada ao vivo diante das câmeras! E Gambit que era bem ao estilo gosto de chamar a atenção, não só beijou a moça, como explodiu cartas do seu baralho ao mesmo tempo! Todos em volta bateram palmas, o câmera não perdia uma única mexida de cabeça do casal! Ainda dizia "nossa, melhor do que nas novelas"! 

Vampira: Legal! Muito legal! Tem alguém afim de ver os meus poderes inofensivos????  - Ela estava irada, algumas pessoas que estavam em volta e reconheceram quem era a recém chegada na cena aproveitaram para saírem de perto. Podia acabar sobrando para todo mundo! 

Gambit: Ma chere???? 

Vampira: Desgruda da mocréia, Gambit! 

Gambit: Pardon, mon amour. Gambit só estava...

Vampira: Ah, cala boca! Não tá sabendo que a filha da Jean nasceu não? 

Vampira voou de volta, cheia de raiva, para onde estavam os outros x-men, o apartamento onde nasceu Rachel. Gambit fez uma cara de "tô ferrado" para Bobby Drake e saiu pulando telhados a seguir a mulher que mais amava e mais magoava. Enquanto isso, o homem de gelo continuou a dar seu show diante das câmeras.

Bobby: Então, belezinha? Você sabia que todos os mutante são ótimos namorados???

Algumas mulheres que estavam em volta deram alguns risinhos e ficaram jogando charme!  

Repórter: E o que os mutantes costumam fazer senhor...?

Bobby: Bobby Drake, mas o senhor está no céu! Eu sou muito novo, moça... Bom, o que fazem os mutantes? Eu não sei. Só sei que eu curto sair pra dançar, adoro surfar, pegar uma praia cheia de gatinhas animadas, ir ao cinema, andar de skate, fazer esportes radicais! E esquiar no gelo! A gata que estiver afim, eu posso criar uma pista de gelo particular!  

Algumas gritaram "eu quero" e ficaram rindo, envergonhadas. Bobby estava no céu! 

Bobby: Ah, Claro! Eu também adoro arte! Faço muitas esculturas de gelo!

Repórter: Esculturas de gelo?! Que interessante! Vai ter alguma exposição? 

Bobby: Exposição??? Nem tinha pensado nisso. Mas com certeza! As gatas e alguns críticos de arte podem me encontrar na minha primeira exposição de esculturas de gelo no Central Park no primeiro sábado do mês que vem! 

Repórter: E qual vai ser a temática da exposição?

Bobby: O amor, gatinha, o amor! Eu faço cópias idênticas de Rodin, Camille Claudel, Salvador Dali e muitos outros em gelo! Mas também crio algumas coisas minhas! Esperem e verão!

Saiu de lá aclamado pela mulherada! Gambit sempre foi sua maior inspiração, e ele estava conseguindo ser descolado como o próprio cajun! Essa super exposição dos mutantes com o fim do gueto ainda traria muita animação para vida de Bobby. 


No apartamento... Scott abriu a porta e viu uma cena de pintura renascentista: uma linda mulher alva como a neve amamentando um bebê lindinho e cheio de dobrinhas; a luz que entrava pela janela do quarto só aumentou a beleza da cena. Se ninguém reparasse em algumas toalhas com sangue na lixeira do banheiro, no rosto de exaustão da mãe renascentista, na mobília pobre daquele "apartamento modelo" do maldito gueto e nos sons de multidão que vinham distantes pela janela, teria visto a mesma beleza que Scott viu! E todos viram a mesmíssima beleza! Tempestade chegou logo atrás e se enterneceu, Wolverine também chegou mas brecou na porta do apartamento, ficou ouvindo os "ohhhh que lindinha", "mamãe mais linda" de longe, imaginando a cena. Ficou tanto tempo lá fora, que o resgatado Noturno chegou subindo mancando as escadas e entrou no apartamento antes dele com uma cara de "por que está aqui fora?". E por último veio Jubileu com um rosto enfezado e as mãozinhas na cintura.

Jubileu: Legal, ninguém me esperou! 

Estava toda irritadinha daquele jeito que só ela sabia ficar e explodiu com sua rajada brilhante de plasma a luz do corredor do prédio. Wolverine fez um muxoxo de "estamos te mimando demais". Mas foi só a chinesa Jubileu ouvir um choro de bebê, que abriu um grande sorriso e entrou correndo no apartamento. Wolverine ficou no corredor escuro sozinho.

Tempestade: Vencemos todos, Jean! Os mutantes, você, a Rachel! Vitória total! 

Scott estava ajoelhado no chão a beira da cama, pegando na mãozinha do bebêzinho que sugava fraquinho o seio da mãe. Ele ria todo bobo, se alguém pudesse ver seus olhos veria lágrimas de contentamento.

Jean: Não é porque é minha filha não... Mas é fato que é muito raro um recém nascido ser tão lindo!

Fera entrou no apartamento logo em seguida e complementou:

Fera: Exatamente! Deve ser a beleza mutante que brilha tanto nessa criança.

Noturno: Beleza mutante?! Olhem para mim... - Disse sorrindo sem jeito, achando-se estranho e feio.

Tempestade o abraçou e deu tapinhas em suas costas dizendo um "você tem sua beleza própria, olhe só para essa negra de cabelos brancos!" 

Jubileu: Cara, essa é a coisa mais gostosa que eu já vi em toda a minha vida! Eu vou ensiná-la a mexer com fogos de artifício e plasma! Morram de inveja, ela vai a-d-o-r-a-r  meus poderes coloridos!

Sem tirar os olhos do bebê e de Jean, Scott conseguiu abrir a boca para agradecer a Fera pelo parto.

Scott: Obrigado, Hank... Obrigado por tudo o que fez... Eu devo muito a você. 

Fera: Fique tranqüilo, aceito seu agradecimento e prometo cobrar tudo o que me deve muito em breve. Foram dois obstetras, o anestesista, a enfermeira e a pediatra de plantão. Bom... mais a internação nesse centro hospitalar de luxo e o café da manhã devem dar uns 5 mil dólares. 

Eles riram. Scott beijou a mão trêmula e cansada da esposa e agradeceu a ela por existir e dar a existência de Rachel a ele. Nesse momento Wolverine entrou no quarto do apartamento, fez um pouco de silêncio entre todos. Ninguém conseguia deixar de olhar para Wolverine e ver suas reações. Completamente sem jeito e envergonhado é como podemos defini-lo. Não sabia se podia olhar aquela cena imaculada cheia de curvas angelicais ou se era proibido, não sabia se podia chegar perto, não sabia se podia sorrir abertamente ou mais contido, não sabia nem ao menos o que sentia. 

Fera: Não vai pronunciar nem uma única palavra?! É o único mudo do quarto?

Wolverine: Fica na tua! Eu falo quando eu quiser. 

Jean ajeitava-se na cama, Scott pediu a criança para segurar um pouco. A ruiva tirou a menina do próprio corpo e entregou ao marido. Era a primeira vez que ele segurava a menina no colo, todo zeloso segurou-a como se fosse a mais frágil das criaturas. É incrível como as mães que amamentam perdem bastante o pudor do seio, ao retirar Rachel do corpo seus seios ficaram a mostra por alguns instantes. É como se mãe não tivesse apelação ao sexo, é como se a criança fosse algo que barrasse a libido de qualquer um que olhasse aquela cena. E de fato realmente assim é, nem Fera, nem Noturno, nem Tempestade, nem o próprio Scott ficaram perturbados com aquilo. Muito pelo contrário, o pequeno espanto inicial da visão do seio logo se vai e tem-se a certeza que aquela cena irá se repetir muitas vezes nos próximos meses. Mas Wolverine... Wolverine não gostou. Justamente porque sabe que desejar aquilo é mais absurdo e sujo do qualquer canalha poderia supor. Mas o que sentiu de fato foi o nervoso ao ver a mulher que ama daquela forma, ele se sentiu desejante, ele se sentiu Wolverine. 

Caminhou cheio de inveja para perto de Scott e olhou a criança bem de perto no colo do pai. Olhou para o rosto de Scott profundamente, Ciclope também olhava para ele longamente. Wolverine voltou a olhar a menina linda e sorriu sem jeito para o pai. 

Wolverine: Aê, magrão! Legal tua filha mesmo.

Scott sorriu de volta e estendeu a menina para Wolverine segurar. Logan recuou de cabeça baixa sorrindo para o chão.

Wolverine: Não... Quê isso! Tenho jeito pra essas coisas não. Valeu a intenção. 

Já que Wolverine não quis segurar a fofinha, Tempestade correu e pegou-a de Scott. Noturno e Fera foram para o lado dela e ficaram mexendo naqueles minúsculos dedinhos dos pés e das mãos, reparando no espamos de recém nascido e naqueles sons de acabei de chegar ao mundo, aqueles olhinhos ora apertadinhos ora abertos e apertadinhos de novo de quem não agüenta ainda a luz do mundo que lhe invade a vida.

Enquanto isso Scott sentou-se na cama ao lado de Jean e beijou-a com ternura, Logan foi o único a ver aquilo, todos os demais só olhavam o bebê.

Wolverine: Parabéns, Ruiva. Tua filha só podia ser bonita mesmo. Tô indo, bom repouso aê, te cuida e cuida da pequena também. Até breve.

Jean: Você vai a algum lugar, Logan?

Wolverine: Já que a parada do gueto já foi resolvida, vou dar umas voltas pela vida. Depois eu apareço na mansão.

Scott: Quanto tempo vai ficar fora?

Wolverine: Não é da tua conta, "chefinho". Mas se tua preocupação são os treinos na mansão, pode deixar que quem é vivo sempre aparece. 

E saiu para o mundo. 

Vampira o encontrou na porta do prédio enquanto entrava. Ainda perguntou um aonde você vai, mas não ouviu resposta do canadense durão. Ela deu de ombros e subiu as escadas até ouvir as vozes mais próximas e um gemidinho de bebê. Entrou no apartamento e viu aquela mínima menina cheia de dobrinhas no colo da mãe e um Scott todo zeloso ao lado sorrindo. Jean levantou aquele rosto materno de olhos verdes e lindamente cansados, uma mexa ruiva lhe passou o rosto e um sorriso de "olha minha filha, Vampira" se colocou em seu rosto. Vampira viu ali a felicidade. Jean despercebidamente fez a mesma coisa que Scott fez com Wolverine, esticou Rachel na direção de Vampira para que ela a pegasse no colo. Mas a sulista respondeu da mesma forma que Logan, um passo para trás.

Vampira: Estou sem minha pulseira, Jean.

Jean: Mas você está cheia de roupas, Vampira.

Scott: É melhor mesmo, querida. Deixa que na mansão, com a pulseira, Vampira pode ficar com nossa filha no colo o dia inteiro. Ela vai se sentir mais segura assim e nós também.

Vampira entendeu perfeitamente o zelo e a preocupação de Scott, ela própria não queria pegar no bebê sem a pulseira, mas sentiu-se novamente um ser estranho, danoso aos amigos. Lembrou do porquê não teve o filho no colo como Jean estava com Rachel toda contente, porque foi danosa até mesmo com o próprio filho. Sua própria pele matou o bebê. Gambit chegou no apartamento logo em seguida. Sorriu ao ver a criança, se disse tio Gambit ao apresentar-se para o bebê. Jubileu morria de rir. Já Vampira o olhava com cara feia, enquanto ele segurava a criança com os olhos de cachorro pidão para ela.

O Anjo voou até o pássaro negro e pousou-o bem próximo ao prédio. Os x-men voltavam para a mansão. Foi no caminho de volta que o sorriso de Scott diminuiu, por alguns instantes ele tinha esquecido que SINISTRO existia no mundo.

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