Um novo dia amanhece. Quem olhasse pela janela ainda veria um ou outro curioso lá longe no portão da mansão semidestruído pelos sentinelas. Ainda veria um carro da polícia só com as luzes piscando, ainda veria um ou outro jornalista procurando bons ângulos para melhor filmar. Charles Xavier acordou cedo e pressentiu que Magneto era o único já acordado da mansão. Fez contato psíquico com ele.
Professor: Erik, venha ao meu quarto. Precisamos conversar seriamente.
Magneto sobe as escadas e abre a porta do quarto. Encontra o professor ainda deitado. Charles Xavier, desde que perdeu os movimentos das pernas, sempre praticou uma intensa musculação para seus braços. Por isso consegue levantar seu corpo com a força dos braços e sentar na futurista cadeira de rodas. Quantas e quantas vezes ficou Jean monitorando os exercícios dele, quantas e quantas vezes Fera e Tempestade o levaram para piscina para fazer fisioterapia aquática para as pernas. Quantas e quantas vezes ele também não teve dias em que ficou cansado e pedia a Jean para levantá-lo da cadeira para a cama com sua telecinésia! Quantas e quantas vezes também Scott não o ajudava a vestir alguma roupa, a tomar um banho... A casa era toda adaptada para ele, seu quarto e seu banheiro eram cheios de corrimãos, para que ele se agarrasse.
Magneto: Então, velho amigo? Quer que eu o ajude a sair da cama?
Professor: Não, Erik. Obrigado. Estou num bom dia, meus braços musculosos me tomam muito tempo de exercícios, eles têm que me servir de alguma coisa. Não sou um inútil.
Xavier se virou para o lado, fez força com os braços para baixo e levantou o corpo, de forma meio desajeitada sentou-se na cadeira de rodas ao lado da cama. Ficou se ajeitando depois para sentar melhor.
Magneto: Então, por que me chamou aqui?
Professor: Erik, por que você não foi contra a mim, ontem a noite quando todo aquele exército chegou aqui?
Magneto: Imagine porque!
Professor: Eu sei que você é a favor da causa mutante, e considerou tudo aquilo um absurdo, assim como todos nós consideramos um absurdo! Mas... o que eu disse para eles vai contra ao que você acredita.
Magneto: Eu sei... Mas sou inteligente, e vi que naquele momento minhas
palavras só acirrariam a luta. Quando o que você queria era justamente acalmar
os ânimos de todos mostrando justiça e legalidade.
Professor: Mas é isso que eu não entendo, Magneto... Você acredita na superioridade mutante e quer justamente que ela se sobreponha aos humanos. Enquanto eu quero a convivência pacífica. Por isso eu não quis acirrar a luta. Mas você! Você seguindo seus loucos princípios deveria sempre buscar o acirramento para conseguir a luta entre as "raças"!
Magneto: Você, como diriam esses jovens, é da "turma do deixa disso", enquanto eu prezo a luta de raças!
Professor: Então por que me deixou falar diante de todas as câmeras sobre a igualdade que deve haver nessa sociedade? Sobre a paz que deve reinar!
Magneto: Eu não tinha um exército para acirrar ânimos e conseguir meus objetivos naquela hora, Xavier. Quem eu tinha? Só a Mística que pensa como eu! Nem com Noturno eu poderia contar... Diante de todo aquele exército e mais seus alunos que se colocariam contra mim eu nada poderia fazer se não criar mais histeria humana contra nós.
Professor: E se essa histeria de vez terminasse, Erik? E se de vez tudo fosse como as palavras que saíram de minha boca e de meus alunos? E se eu, se nós, finalmente conseguíssemos isso? Você abandonaria esse plano que lhe tira o prazer de viver, Erik?
Magneto: Conhecendo a raça humana e sua imensa cretinice, eu lhe digo que esse dia nunca chegará.
Professor: E se chegasse?
Magneto: Não seja infantil, Charles. Não chegará.
Professor: Eu quero que você suponha, que sonhe, que imagine, já que não acredita! E SE conseguíssemos essa paz, Erik? Continuaria lutando para subjugar os humanos? Mesmo com eles convivendo pacificamente e nos tratando como iguais?
Magneto: Acho que ainda sim.
Professor: Não, Erik. Você não é assim, porque eu te conheço. Sem motivos você não ataca. Não pode ter mudado tanto assim.
Magneto: Não pense tanto se eu mudei ou não, Charles. Você nunca conseguirá comprovar, porque esse dia de harmonia total nunca chegará.
Professor: Acredita mesmo na superioridade mutante? É por isso? Mesmo reinando a paz, você acha que os ditos "evoluídos" é quem devem comandar?
Magneto: Não somos ditos evoluídos, somos é mais evoluídos mesmo.
Professor: Um nazista de bigodinho costumava dizer isso, meu amigo judeu.
Magneto: Você já me cansou com essa história de me comparar ao nazismo, Charles. É tudo tão diferente, chega a ser blasfêmia você querer comparar a isso!
Professor: Estou procurando o lado humano que existe dentro de você. O lado humano que por tantos anos foi meu amigo. Que eu pensei ter visto de volta de forma ainda ingênua com o Joseph. Quando eu vi o Joseph, eu vi meu amigo de anos atrás. Alguém mais calmo, que ainda acreditava, que ainda vivia uma vida normal... até mesmo que se apaixonava mais facilmente... Vê-lo encantado por Vampira foi revê-lo apaixonado por Magda mãe de Pietro e da feiticeira Escarlate. Você era humano... Pensei ter encontrado esse humano de novo... Mas Joseph se lembrou de tudo e Magneto voltou a reinar dentro desse corpo. Como tratou mal seus filhos a vida inteira! Como já esqueceu Vampira tão facilmente, como quem relembra que não nasceu para amar e murcha um sentimento que nutria. Ainda se lembra de como Erik Lensherr amava Magda? Ainda se lembra de como Joseph estava apaixonado por Vampira?
Magneto: Lembro.
Professor: E como se sente?
Magneto: Me sinto como alguém que simplesmente mudou com o tempo, mas que ainda lembra das intensidades de sentimento do passado. Só não consigo tê-los no presente. Mas não se aborreça, Charles. É até bom, seu aluninho francês não precisa ficar tão preocupado...
Professor: Eu fico é preocupado com você, Erik. Você está vendo aquelas fotos em cima da cômoda? Veja, é o Scott quando chegou aqui! Quantos anos ele tinha? 13? Não me recordo ao certo... Aquela é a Jean ainda criança sendo trazida pelos pais que tentavam entender as dores de cabeça da menina e as estranhas coisas que fazia com a mente. Aquela é uma foto do casamento de Gambit com Vampira, aquela outra do casamento da Jean com o Scott, aquela outra é de Moira! Lembra-se da Moira? Já subindo aqui a estante perto dos livros, você pode ver que aquela dali é do Warren, nosso anjo, esquiando na suíça! O porta retrato maior é de minha aluna falecida Elizabeth Badrock, a Psilocke! Ainda tem fotos da Tempestade com Bobby Drake e Fera. E veja quantas fotos suas, Erik! Olhe eu ainda andando ao seu lado e com Moira! Veja essa de nós dois pesquisando para o aparato tecnológico dessa mansão centenária... Até Jean e Scott ainda chegaram a te ver enquanto ainda sobrava um pouco de humanidade em você, Erik. Eu lembro de uma boneca que você deu a minha pequena ruivinha. Hoje ela te olha com desconfiança e ressentimento. Voltemos a partilhar um mesmo sonho, Erik.
Magneto: Não. Eu cresci, Charles, não acredito mais em história da carochinha. Guarde suas fotos como eu guardo a imagem de Magda com meu casal de gêmeos no colo, e minha paixão por Vampira: como boas lembranças. Mas acorde para realidade.
Professor: O que vai fazer agora, então?
Magneto: Bom... como o cerco aos mutantes deve ter diminuído ligeiramente, acredito que posso ir embora dessa casa tranqüilamente com a Mística. Até porque a convivência dela aqui com os demais é complicada. MAS, o gueto mutante ainda está de pé, e muitos mutantes já foram levados para lá. Quero impedir que outros mais sejam levados. Por que a situação pode ter acalmado mais, porém não podemos nos enganar! A qualquer momento uma reintensificação acontece!
Professor: Eu também quere impedir isso.
Magneto: Quero soltar os que estão lá e acabar com o gueto.
Professor: Eu também quero.
Magneto: Quero congregar esses mutantes que foram presos no gueto a se unirem aos meus ideais!
Professor: Não, Erik! Vamos pensar numa forma do próprio governo soltá-los para que eles não queriam essa sua vingança suja!
Magneto: Não sonhe, Charles. Já chega dessa conversa. Vou chamar a Mística para irmos embora ainda hoje. Noturno deve querer ficar.
Professor: Eu vou agir contra você, Magneto!
Magneto: Aja!
Bobby e Vampira também já estão acordados. Vampira está tentando convencê-lo a que ele lhe dê um presente um pouco trabalhoso por causa dos detalhes.
Vampira: Vai, Bobby! Não custa nada...
Bobby: Custa sim...
Vampira: Você já fez em segundos umas esculturas incríveis para eu ver!
Bobby: Eram de criação minha. Copiar escultores importantes é complicado.
Vampira: Ah, Bobby! Você fez enormes esculturas de gelo no jardim outro dia a mando de Tempestade! Fez até o Pensador! Fez aquela Vênus alada que fica na frente do Louvre.
Bobby: Tá certo, eu faço o Beijo do Rodin em tamanho real de um metro e oitenta pra você. Também faço esse tal de Amor e Psiqué que ficava originalmente na tal porta do Inferno.
Vampira: Igual ao pensador.
Bobby: Isso...
Bobby não demora nem dez minutos e já estava com as esculturas prontas.
Vampira: Ual, Bobby! Que lindo! E elas ainda ficam soltando essa fumacinha gelada!
Vampira fica passando a mão no Beijo de Rodin que Bobby reproduziu pra ela no tamanho original de um metro e oitenta praticamente. Fica com os olhinhos marejados meio que gelatinosos, vendo cada músculo de gelo dos amantes que se beijam apaixonados. Fica com os dedos vermelhos de tanto tempo encostar no gelo. Depois admira longamente Amor e Psiqué, no qual o casal se funde num só no ato do amor, deitados nus maravilhosos.
Vampira: Por que ficou fazendo tanto doce se fez tudo tão rápido e facilmente?
Bobby: Por... por causa disso, né, Vampira?
Vampira: Disso, o quê, cara?
Bobby: Disso. De você ficar assim gamada nas estátuas. Pensando besteira. Ficando pra baixo.
Vampira: Não estou pra baixo.
Bobby: Não está agora, que eu estou aqui. Depois eu saio do quarto e você fecha a porta e fica olhando fixamente para a estátua... Passando a mão até perder os dedos congelados... Pensando no Gambit... Ou pensando até no Joseph, sei lá...
Vampira: Pára com essa besteira, Bobby! Se você acha isso, toma! Pode levar essas estátuas com você.
Quebrar blocos de gelo daquela espessura era coisa que muita marreta poderosa não faz, mesmo depois de muitas marretadas. Mas Vampira não precisou dar dois socos pra quebrar as duas esculturas!
Vampira: Pode levar, leva com você. Esses pedaços que agora não significam nada!
Bobby: Sinceramente, eu acho melhor assim.
Bobby sai do quarto dela e Gambit encontra-o no corredor, já que ia para o quarto dela.
Gambit: Bon jour, mon ami. Espero que não estivesse em nenhuma situação comprometedora no quarto da minha chere, hahn?!
Bobby sorri.
Booby: Huuuh, Gambit! Nem te conto, você realmente não deve confiar em mim!
Gambit também sorri, e quando os dois se cruzam, o francês lança uma carta pouco carregada nas costas de Bobby! Ela mais faz barulho do que explode! Bobby leva um susto e Gambit ri.
Bobby: Congelo teu sangue, hein!
O próprio Homem de Gelo ri ao dizer isso...
Gambit: Huuuh, Bobby! Nem te conto, que medo que estou de você!
Os dois abaixam a cabeça e vão rindo ao seus destinos. Um era a cozinha, o outro era o quarto de Vampira.
Vampira: Oi.
Gambit: Bon jour, ma belle! Vim convidar essa flor pra tomar café comigo!
Vampira: Perdeu seu tempo, Bobby me deixou sem fome.
Cretino! E você achava que estava brincando com ele, mas ele realmente fez alguma coisa séria? Calma, Gambit... Deixa de ser desconfiado...
Gambit: Que foi, chere? Quer que eu desça e o ensine a não te deixar mais sem fome?
Vampira: Gambit, corta essa! Eu faria isso muito melhor do que você!
Gambit: Mas tudo bem... Vamos descer assim mesmo. Parece que o professor quer conversar com todos nós.
Na mesa do café, estavam todos presentes, menos Magneto e Mística.
Professor: Meus x-men, a ajuda de Magneto acabou ontem.
Wolverine: Ele ajudou em alguma coisa???
Jean: Também não seja mal agradecido!
Professor: O gueto mutante foi rapidamente construído, já tem alguns mutantes lá dentro. Quase que nós também fomos levados. Ainda não sei se existe algum programa de esterilização dos habitantes do gueto.
Fera: Minha santa Querupita, ainda essa idéia infame de esterilização???!!!
Professor: Com o escândalo que demos ontem, muito provavelmente o governo, a mídia e a opinião pública estarão menos sedentas por essa ânsia de prender mutantes no gueto e esterilizá-los. Mas não se iludam, a idéia não morreu. O gueto não morreu, os mutantes de lá não foram soltos. E o processo de continuar a prender mutantes deve continuar.
Scott: Isso significa que ainda ficaremos trancafiados aqui dentro da mansão?
Professor: Não, Scott. Vocês já podem sair. Até mesmo para sentirem a situação externa e me informarem.
Gambit: Mon Dieu! Já era tempo!
Wolverine: Olha o outro subindo pelas paredes por causa do tempo que ficou trancafiado em casa sem ver novos rabos de saia!
Vampira: Wolverine, tá querendo perder as garras?
Wolverine sorri.
Wolverine: Você e mais quem iam tentar tirá-las?
Professor: Vocês parecem que voltaram ao colegial... Não param de falar enquanto eu estou falando...
Jean fulmina Vampira e Wolverine com os olhos. Scott faz cara feia para Gambit.
Professor: Eu achava bom, que enquanto existe esse pequeno período de questionamento populacional a respeito das prisões de mutantes, que vocês saíssem mesmo de casa... Se separassem um pouco. Até para ver se não ficam mais achando que somos um grupo de terroristas reunidos numa casa arquitetando um plano diabólico.
Scott: Isso quer dizer...
Professor: Quer dizer isso mesmo. Você e Jean podem tirar as férias que tanto queriam!
Jean dá um ligeiro gritinho baixo de felicidade e agarra o pescoço do marido. Scott também demonstra felicidade, mas não é tão aberto como ela. Wolverine se ajeita na cadeira.
Gambit: Professor, eu gostaria de perguntar se também poderia viajar.
Professor: Mas é claro, Gambit! Nem precisava perguntar, justo você que volta e meia viaja, some mesmo, sem avisar.
Gambit: Non, é que dessa vez quero arrastar a Vampira comigo.
Todos se entreolham. Por que fazer isso? Ela não tem mais o colar, seria isso algo realmente sensato?
Vampira: Eu por acaso disse que ia com você???
Gambit: Belle, não faz isso comigo!
Jean: Vampira...
Vampira: Aceitar pra que? Por que?
Scott: Eu e Jean vamos para Angra dos Reis, no Brasil. Talvez você queira ir junto, Vampira.
Vampira: Pra ficar olhando vocês dois e ficar chupando dedo? Não obrigada!
Gambit levanta Vampira da cadeira e a leva para um canto na parede.
Vampira: Me desencosta da parede, seu sedutor.
Ele faz cara de cachorro pidão.
Gambit: Me deixa passar um tempo com você num lugar paradisíaco?
Vampira: Quê que você vai fazer a noite? Me deixar no quarto e ir caçar mulheres diferentes e novas? E de dia? Vai arranjar alguma bonitinha de bikini pra ficar abraçando?
Gambit: Chere, não diz isso. Assim você me machuca.
Vampira: Ah, lógico! Você pode chamar a Karen pra ir com a gente!
Gambit a abraça forte, bem apertado com ela. Vampira ainda consegue dizer um "cuidado" enquanto era apertada contra a parede e o corpo dele. Gambit diz: "vai comigo, por favor? Você é tudo pra mim, amour. Tudo!" E ela acaba aceitando... Gambit tinha alguma surpresa.