Uma
música doce e agradável, árvores que balançam seus galhos ao vento, uma
criança que corre em câmera lenta! A mãe a pega no colo e diz:
_ Foi muito
melhor pra minha vida!
_ Aqui eu
encontrei emprego facilmente!
_ Aqui todo
mundo é igual, eu não sofro mais preconceito!
Um
homem de terno batendo ponto numa máquina que mais parecia estar num corredor
de um lindo escritório, um estudante feliz rodeado de amigos falando em fim dos
preconceitos. Uma voz em “off” começa a narrar as maravilhas do local
enquanto cenas em câmera lenta mostram toda a beleza e comodidade do novo
bairro:
_ Reconstrução
de prédios destruídos pelo tempo, área de lazer para as crianças, praças
ganham lindas árvores, escolas novas em folha, hospital capacitado paras os
mais novos procedimentos cirúrgicos, ambulatório impecável, um novíssimo
shopping, creches para crianças, isso é o novo Harlem! Não tenha medo, se você
é diferente, uma nova vida te espera! Aqui você se sente em casa!
A
mesma mãe com a criança no colo aparece na pracinha, dizendo sorridente:
_ O novo
Harlem te espera! Recomece a sua vida num lugar que entende as suas
necessidades! Não tema os agentes sociais que te façam a proposta de morar no
Harlem. Venha com eles conhecer o local, mesmo que você não esteja com certeza
de vir morar aqui. O Harlem não é mais um bairro fantasma, ele está
totalmente e precisa de você! Aqui, os hospitais ainda precisam de muitos médicos,
enfermeiras, faxineiras, as creches de educadores, as escolas de professores,
venha! Emprego garantido! Um lugar só seu! Os preconceitos acabaram! Nova vida
para quem é especial! Harlem!
Nos
momentos finais em que a mãe sorridente falava segurando a criança no colo,
podia-se ver além das lindas árvores e prédios de 5 andares coloridos, uma
pequenininha inscrição na parte de baixo da tela da TV “O Harlem só
abriga aqueles que a agência social escolher”.
Tempestade:
Que anúncio é esse, Noturno?
Noturno: Anúncio
do Harlem, o maldito! Anúncio de Awshwits!
Bishop: Engraçado...
Parecia tããããão “divertido” morar lá...
Noturno: Um
bairro só para “diferentes”, onde todos são iguais! Claro, são todos
mutantes! Um gueto.
Professor: Um
campo de concentração.
Tempestade:
Professor, o senhor sabe quantas pessoas já “moram” nesse “bairro”?
Professor:
Pelo o que eu andei investigando, naquela histeria da semana passada contra os
mutantes, foram catalogados um pouco mais de mil mutantes a serem levados para o
Harlem. E pelo o que sei, outros mais estão sendo catalogados pelos “agentes
sociais”, que depois te convidam a morar no Harlem.
Bishop: Sei...
“Convidam”!
Professor: É...
“convidam” pra que você vá por livre e espontânea pressão.
Tempestade:
Mais de mil? Quem são, professor?
Professor: São
os mais fáceis de serem pegos, os visivelmente mutados! Pessoas como Fera,
Anjo, Noturno; aqueles que de bater o olho já sabemos que são mutantes.
Tempestade:
Algum conhecido nosso?
Professor: Em
minhas incessantes buscas pelo Cérebro ainda não identifiquei as pessoas
levadas, mas nenhuma delas é conhecida nossa!
Fera: A
pergunta que não quer calar é essa: Por que mudaram de tática? Por que
na semana passada nem falavam no Harlem, que já vinha sendo reconstruído,
sequestraram esses mutantes e os trancaram lá; e agora... agora mostram como o
bairro é lindo, como sua vida vai mudar para melhor????
Professor: Estão
sendo formais... Formais com a falsa ética, formais com os falsos direitos
humanos, formais com a falsa democracia... Viram que era um erro saírem fazendo
barbaridades, como invadir nossa mansão e prender a todos; perceberam que era
melhor fazer isso aos poucos, vendendo outra idéia... Querem todos os
mutantes, mas tinham medo que outros reagissem como nós... Se antes o Harlem
era um gueto sendo construído no silêncio, agora ele é um bairro modelo para
os “diferentes”, vão usar essa idéia para que pensemos que eles não estão
cometendo nenhuma atrocidade. Cinismo, Fera! Cinismo! Que lindas árvores, uma
criança que corre livre para a mãe, prédios coloridos, hospitais lindos
querendo te dar emprego, bonito, não? Muito bonito... Mas só quem vê a beleza
são os tolos...
Fera: Ouvi
dizer que esses prédios coloridos mal foram reconstruídos...
Bishop: É,
construídos com cuspe! E que só os que aparecem nos comerciais são bonitos
assim... Lá dentro a coisa é diferente. Dá para ver o topo de todos os prédios
pelo outro lado do muro.
Noturno: É...
o muro não apareceu no
comercial.
Tempestade:
Nem os soldados que guardam as únicas 3 saídas do bairro.
Bishop: Os que
entram, não saem.
Professor: Quero todos os meus x-men de volta! Fim das férias! Ligue para eles, Tempestade! Não! Pode deixar... Eu mesmo vou ao Cérebro e faço contato mental com todos eles... Sei que só 3 dias de férias não é muito, mas a situação pede cautela.
O
barco ia em direção a Paraty. Além as praias de lá, Jean, Scott, Vampira e
Gambit também visitariam o centro histórico da cidade. Eles estavam adorando,
Vampira achou
linda a praia
deserta onde morava Amir Klink com a mulher e as filhas. A praia, aquela casa e
o mar verde eram muito românticos. O barco dele estava lá, milagre! Ele não
estava mundo afora pelo mar. Vampira não estava usando a pulseira, tinha um
pressentimento ruim de que aquilo pudesse a surpreender em algum momento. Gambit
a olhava o tempo inteiro, ela fazia com os olhos que era para que ele esperasse
pela noite. Na frente da praia do Amir Klink tinha uma parada para o mergulho.
Mais uma vez, a diversão de todos no barco! Era um tal de catarem estrelas do
mar, conchas, ouriços e tudo mais que achassem! Tiravam fotos de tudo! Gambit
não conseguiu ficar longe de Vampira, até debaixo dágua ele demonstrava que
tudo que mais queria era estar naquele quarto do hotel. O Cajun ficou tão
próximo a Vampira em um dos mergulhos, que ela chegou a se assustar! Quando
escureceu, o barco resolveu voltar a Angra. Uma hora de viagem de volta. Foi
tudo tranqüilo.
Jean: Já
estava cansada. O passeio de hoje foi cansativo.
Vampira: Tudo
isso aqui é um paraíso. Mas eu queria tanto que a gente fosse conhecer o Rio
de Janeiro.
Scott: Iremos.
Gambit: Depois
de amanhã, non?
Jean: Eu acho
ótimo.
Vampira: Por
mim, poderíamos ir amanhã mesmo.
Jean: Ah,
Vampira! Nós temos pouco tempo mesmo... não vale a pena você ficar amuada por
causa disso. Escuta! Eu e o Scott vamos para aqueles quiosques cabaninhas que têm
ali perto de um restaurante la em baixo na praia. Vocês querem ir?
Gambit
olha para vampira e sorri.
Gambit: Non,
chere. Hoje vai só você e o Scott.
Scott: Vocês
vão comer sozinhos no restaurante aqui do hotel? Tão anti-social!
Gambit: Nós
vamos pedir comida no quarto, mon ami!
Jean: Ah.....
Scott:
Cuidado, viu?
Vampira:
Cuidado com o que, Scott? Cuida da tua vida!
Scott: Calma,
nervosinha! Só estou tentando lembrar a vocês que vocês são especiais! Devem
evitar certas coisas.
Gambit
vai levando Vampira pelas costas.
Gambit:
Sossegue, mon ami. Acredite em mim que nadinha vai sair da normalidade.
Scott
e Jean sorriem e vão descendo praia abaixo em direção ao quiosque cabaninha.
Scott vai pensando que acreditar no Gambit é algo complicado. O quiosque era
uma gracinha, a localidade era a melhor! Do lado da praia, dava para ver a lua
prata
refletida na água! Os dois ainda de roupa de banho sentam nas cadeiras e pedem
algo para beber! Jean fica brincando de fazer bolhinhas com o canudinho e faz
com que elas flutuem até Scott com sua telecinésia. Scott continua sério,
mesmo com as gracinhas dela. Depois ri!
Scott: Isso é
bolha de baba!
Ela
ri mais ainda!
Jean: Não é
não, seu bobo... É bolha de refrigerante.
Scott: Com
baba do seu canudo, e tudo voando no meu rosto com a sua telecinésia.
Jean: E você
tem nojo da minha baba?
Scott
levanta, esticando-se para dar um beijo nela. Depois do beijo diz:
Scott: Não
tenho não.
Jean: Ai, que
lugar lindo esse! Maravilhosa a idéia de virmos comer nesse quiosque! Vampira e
Gambit não sabem o que estão perdendo...
Scott: Tudo
bem... Melhor assim. Ficam os dois casais com privacidade total para namorarem.
Jean: Disse
tudo, Scott! Alguma coisa me diz que esses dois estão tramando... Tramando para
poderem se encostar! Acredite!
Scott: Não
sei como, mas pelas caras e olhares de hoje em Paraty, também acredito em você.
Jean: É,
acredite mesmo... Afinal, a telepata sou eu!
Ela
sorri de novo.
Jean: Scott...
Jean
Grey Summers
não sabe bem como começar esse assunto mais uma vez.
Jean: Amor,
você lembra das outras vezes que falamos sobre... filhos?
Scott
passa a mão no rosto. E olha para a lua respirando fundo.
Scott: Jean,
querida, não estrague a noite tão agradável.
Jean: Ai,
Scott!
Scott:
Querida, você sabe o motivo. Não é porque eu sou chato, ou que eu não goste
de crianças... É o Sinistro!
Jean: ...
Scott: Tivemos
outras oportunidades que foram terríveis.
Jean: Tivemos?
Um dos nossos filhos é de uma realidade alternativa, ou seja: um sonho que
Bishop nos conta! Cable é filho da Madeleine, não ouse dizer que é meu filho.
Scott: A
Madeleine pra mim sempre foi você.
Jean: Tudo
bem... Chega desse assunto.
Scott:
Jean.... Para que termos um filho e ter que viver uma vida o escondendo do
Sinistro ou vê-lo seqüestrado pelo Sinistro, ou ter que passar a vida fugindo?
Ele é poderoso e nos vigia. Pode ter certeza que deve saber que conversamos
sobre filhos freqüentemente. Lembra-se do Escariotes, filho da Vampira com
Magneto? Mais uma tramóia dele!
Jean: Eu sei
disso...
Scott: Amor, nós
podemos adotar uma criança se você tanto quiser que formemos uma família.
Jean: Eu
queria um filho meu.
Scott: Eu também
queria. Mas queria um filho que pudesse ser meu. Pra ter um filho e vê-lo
seqüestrado ou escondido ou perseguido, prefiro não tê-lo. Adotar uma criança
seria um gesto de amor. Essas crianças sofrem por não terem pais. Para que
colocarmos mais uma que sofreria no mundo? Vamos é fazer com que menos uma
sofra, uma que já nasceu e nos espera! Que tal?
Jean: Não
sei.
Scott: O termo
adotar significa que a pessoa adota aquela criança como verdadeiro filho. E
conheço pessoas que adotaram que me confirma que é como se aquela criança
tivesse sempre sido deles!
Jean: Mas e se
um dia eu aparecesse grávida?
Scott: Isso não
vai acontecer, porque eu não quero que você pare de tomar a pílula. Por todos
esses motivos que estamos falando aqui.
Jean: Você não
gostaria, não é?
Scott: Não,
amor. Não gostaria. Mas adoraria adotar um bebê, ou uma criança maior. Você
escolhe!
Jean
abaixa a cabeça e chora. Scott se surpreende! Já tinha dito aquilo tudo tantas
vezes! Ela sempre ficava tão triste! Talvez chorasse sempre escondida depois,
mas nunca na frente dele. Scott levanta-se da sua cadeira e agacha-se ao lado da
cadeira dela. Os garçons percebem a movimentação dele e se retiram com os
pratos que iriam entregar na mesa.
Scott: Jean...
Linda, desculpa. Você sabe que tem um marido sincero. Um marido racional, que
pensa sempre adiante. Não ajo por impulsos, meu amor. Eu penso no que essa
criança sofreria, no que você e eu sofreríamos! Adotamos e você será tão
feliz quanto qualquer outra mulher...
Jean
chora mais um pouco. Scott solta uma longa baforada e fecha os olhos.
Scott: Amor...
eu estive pensando... Sei que pode parecer horrível e talvez seja horrível...
pra mim é horrível... Mas se você quer tanto um filho seu, quer tanto uma
gravidez, um parto seu, um ser para gerar e carregar e criar... Se você quer
tanto algo seu, eu permito que você faça inseminação artificial de qualquer
doador.
Jean
levanta o rosto incrédula. Para Scott chegar a dizer isso é porque ele
realmente se importava com as vontades e sentimentos dela.
Scott: Afinal,
eu não disse que queria adotar? Um filho biológico seu com outro sêmen
qualquer também seria adoção. O que não podemos, amor, é juntar nossos
DNA numa criança.
Jean: Você não
ficaria com ciúmes?
Scott: Ciúmes
do que? De um médico que pega com um tubo vários espermatozóides de um
copinho e coloca em você? Não! Não tem porque ter ciúmes. Vários homens que
tem problemas com fertilidade recorrem a esse sistema. Para ele, é uma adoção
como outra qualquer, mas adoção de um filho da mulher dele!
Jean
sorri. Mas depois fecha o rosto de novo.
Scott: Qual o
problema, amor?
Jean: O
problema é que eu estou grávida, Scott. E grávida de você mesmo, é
óbvio!
Scott: Desde
quando?
Jean: Desde
anteontem.
Scott:
Anteontem? E como é que você pode saber disso?
Jean: Eu sou
telepata, Scott. Eu sinto!
Scott: Foi
premeditado, Jean?
Jean:
Premeditado, Scott? Mas parece um crime “premeditado”!
Scott:
Desculpa... Quis dizer se...
Jean: Se eu
fiz de propósito? Fiz! Desde que chegamos a Angra eu parei de tomar. Achei esse
o paraíso ideal para que algo nosso fosse feito... ...Como você se sente?
Scott:
Preocupado, assustado, sem chão, atordoado, chateado, enganado, a mercê de uma
escolha que foi só sua... e feliz!
Jean: Confuso,
seria o termo.
Scott:...
Jean: Fiquei
feliz que você esteja feliz também. Além de outros sentimentos, você também
está feliz.
Scott: Amor, e
agora?
Jean: O aborto
é legalizado na Califórnia, Scott. Não se desespere.
Scott: ...
Jean: ...
Scott: Você
escolhe o que você faz, linda. Seja o que for, sabe que eu estarei sempre do
seu lado. Você é minha mulher pra sempre.
Jean: Perdeu a
confiança em mim?
Scott: Não,
Jean. Você não é uma mulher em que alguém possa perder a confiança. Isso
foi só um desejo seu de muito tempo que você já vinha ameaçando fazer. Não
perdi a confiança em você, linda.
Jean: Eu não
quero abortar uma criança que eu resolvi ter.
Scott: Tudo
bem. Eu estou feliz que meu filho venha nascer. Pode não parecer... é que os
sentimentos ainda estão confusos... Mas eu estou feliz e preocupado. É só
isso. Estou feliz e seja o que Deus quiser. Que Ele não nos tire essa
felicidade, esse é meu medo.
Jean: Vamos
proteger esse pequeno com unhas e dentes, Scott. Não terá viva alma que ele
nos tire!
Scott: Você
falou em “pequeno”, “ele”. É um menino?
Jean: Ah! Não...
É uma menina.
Scott
sorri.
Scott: É a
Rachel?
Jean: É... é
a Rachel.
Scott
deixa dinheiro em cima da mesa. Pega Jean no colo e vai embora do quiosque
carregando ela pela areia fofa da praia. Os garçons nem tinham colocado os
pratos na mesa!
Scott:
Desculpa por ter sido tão ridículo hoje com você. Eu estou com medo, é só
isso.
Jean: Aonde
vamos?
Scott: Fazer a
mesma coisa que Gambit e Vampira! Comer no quarto!
Jean: Oba!
Scott: Estou
com medo...
Jean: Eu
sei... tenho um elo com você, eu sinto o que você sente.
Scott: Sua
danadinha!
Jean: Vai!
Pode me chamar de inconseqüente!
Scott: Não chamo porque sei que você não é uma. Apenas se passou por uma!
Scott
não consegue ficar irritado com aquela mulher. Era impossível, ele a amava
demais. Ainda mais, ficar irritado com uma mulher grávida dele, que fez isso
por amor! Era impossível. Ele estava com medo, ligeiramente chateado, mudo. Mas
tudo o que mais queria era protegê-la de qualquer sofrimento que Sinistro
viesse a causá-la. Obviamente, ele próprio queria se proteger de sofrimentos
que também poderia vir a ter. Amar um ser e ter ele roubado seria terrível.
Chegando ao quarto do hotel, Scott por mais mudo, chateado, com medo e feliz que
estivesse, só teve vontade de amar aquela mulher. Vontade de entrar nela e
nunca mais sair, assim ficariam juntos para sempre.
Um
general sai de um carro que pára na frente de um dos enormes portões do gueto.
E diz ao motorista para ir embora, ele não quer entrar ali com o carro, ia
“sujar as rodas”. Os soldados que guardam o portão batem continência. O
general faz um gesto nojentinho para que eles abram logo o portão. Entra todo
seguro de si recebendo todos os boas tardes, senhor que já pôde ouvir em sua
vida.
General:
Soldado!
Soldado: Sim,
senhor!
General:
“Pessoas” só entram aqui acompanhadas dos agentes sociais! Só acompanhadas
dos agentes! Qualquer outra “pessoa” não entra! Os agentes irão trazer
muitos deformados, e outros também que vão parecer normais. Mas não se
engane! Parecem normais, não são! A população que é realmente
normal também não pode entrar, a não ser que traga um documento oficial
autorizando a entrada. Entendido?
Soldado: Sim,
senhor.
General: Ótimo.
Avise isso mais uma vez a todos os seus subalternos. Mais uma vez eu vou
preparar um outro memorando de aviso sobre as entradas. Eu nem preciso dizer que
não quero nem sentir o cheiro da mídia, não é?
Soldado:
Entendido, senhor!
General: Eu
volto aqui amanhã pelas 8:00 horas.
Um
dos soldados mais ao longe espera o general se retirar pelo portão do gueto em
direção ao seu carro de “rodas limpas”, para fazer um pedido ao seu
superior. O turno desse soldado era até as 6 da tarde, quando a guarda da tarde
era trocada pela guarda da noite, num ritual coreografado de marchinhas e encenações
com armas e espadas e cavalos. Ele argumentou com o soldado de mais alta patente
se poderia ir embora mais cedo naquele dia, estava passando mal, ficaria até
mais tarde no outro. O soldado de alta patente perguntou grosseiramente se
aquilo era uma feira de frutas! Se aquilo era baderna! Se ele queria ficar preso
no 13º quartel por uma semana! O soldado teve que voltar a sua posição de
guarda e esperar até as 6 horas. A guarda foi trocada no ridículo ritual, e o
soldado, assim como os outros, saíram pelo portão. O soldado vai andando pelas
ruas de Nova York não cercadas pelo muro. Vai atravessando as ruas para se
distanciar mais e mais do muro. Encontra depois de uns 5 quarteirões um sujeito
de capuz. O soldado o arrasta para dentro de um beco imundo! O sujeito tira o
capuz e revela seu rosto!
Mercúrio:
Falei com meu pai! Concordei com tudo.
O
soldado vai se transformando em uma mulher loira bem magrinha, enquanto olhava
para o filho de Eric Lensheer e para a saída do beco, com medo que alguém os
tivesse visto.
Mística: Ótimo.
Peguei as informações. Quis sair antes, não pude. Tive que prender o real
soldado de quem eu roubei a imagem e semelhança!
Ela
sorri.
Mística:
Tomara que ele consiga se libertar logo, se não amanhã ele vai faltar ao
emprego. Desertor! E ainda vai sofrer uma advertência por ter pedido para sair
mais cedo hoje! E também será, provavelmente, preso por uns dias por inventar
a descabida história de que ele foi preso no dia anterior e por isso não foi
ele quem pediu para sair mais cedo.
Ela
sorri mais um pouco. Era uma loira bonitinha, de uns 15 anos.
Mística:
Adoro o que eu faço, Pietro! Se alguns mutantes consideram-se portadores de uma
desgraça, eu só lamento por eles! Porque eu tenho uma mutação fantástica.
Como é que tá seu paizinho lindo?
Mercúrio:
Tudo bem, Mística. Não quero muito papo com você, nunca fui muito chegado a
você. Você tem muitas caras, se é que me entende... Só concordei com tudo
porque acho a causa de meu pai completamente justa!
Mística
se transforma em Elizabeth Taylor quando era nova.
Mística: Tudo
bem... Sem mais papos, vamos só discutir o plano.
Mércurio
segura o braço dela e ordena o fim das palhaçadas.
Mércurio: Sem
essa de Elizabeth Taylor, e nada de Giselle Bundchen! Não chame atenção!
Mística
se transforma numa mulher qualquer que viu numa esquina pouco depois de sair do
gueto.
Mística:
Espero que assim eu agrade. Escuta, o general estará lá amanhã as 8 horas! Nós
vamos chegar as 6:30!
Mercúrio:
Certo. E eu sou teu filho.
Mística:
Muito bem, Magneto já te disse tudo. Meu
filho, já arranjei esse uniforme lindo da marinha! Meu filho almirante!
Mercúrio:
Tudo bem... Fazer o que, não é?
Mística: Nós
vamos ter que cortar seu cabelo agora! Você não pode ficar com esses rabichos
maiores de papaléguas! E seu cabelo tampouco pode ser branco. Comprei Hena
preta para pintar isso. Você tem que parecer o mais “normal” possível.
Nada de corridinhas por lá.
As
6:30 da manhã do dia seguinte, pára uma limusine preta, dessas de hotel, na
frente do portão principal do gueto. Saem dela o general acompanhado de um
marinheiro de negros cabelos. Todos os soldados batem continência, apesar de
estranharem a falta do carro oficial.
General:
Mandei lavar as rodas, chegaram muito perto dessa nojeira ontem. Por isso vim
com esse carrinho medíocre.
Soldado:
Perfeitamente, senhor! Não disse nada, senhor!
General:
Resolvi chegar mais cedo também para resolver uns problemas. Esse aqui é meu
filho Pietro. Ele é almirante.
O
soldado mais uma vez bate continência.
General: Vai
entrar comigo. Pode deixar que ele está comigo.
Mística
vai levando Mercúrio por ruas adentro! Mercúrio se assusta com a quantidade de
guardas em cada esquina! Com a quantidade de cães pastores prestes a atacar,
com a quantidade de guarda montada que sujava as ruas com cocô verde de cavalo!
Se assusta ao ver que o anúncio da TV deve ter mentido um bocado ao mostrar o
maravilhoso Harlem! Se assusta com o fato de, por enquanto, todos os mutantes
ali presentes serem azuis, ou peludos, ou com defeitos no rosto, ou com
estranhos cabelos; e todos têm uma carinha de desolação de partir o coração!
Sentem-se jogados na lixeira das aberrações da natureza! Só um grupo de 7 prédios
são coloridos. Todos os outros ainda não têm nem pintura, estão só nos
tijolos e reboco! Há também algumas horríveis casas do antigo Harlem, que não
foram nada reconstruídas. Muitas delas com as paredes pretas demonstrando os
antigos incêndios. Quantas árvores de cemitério, dessas sem folha nenhuma! A
escola era bonita, mas estava vazia, ainda não tinham crianças suficientes,
nem professores suficientes! Era sinal que o bairro ainda receberia novas levas
de mutantes! Não tinha nem uma banca de jornal, muitas das antigas casas do
Harlem tinham portas de madeira colada uma na outra, ou janelas de pano! Foi
numa dessas centenárias casas de paredes pretas e portas de madeira capenga que
o “general” enfiou o “filho”, e entrou também logo em seguida. Lá
dentro tinha um velho com uma cor meio acinzentada... Ele tinha o cabelo já
branco, mais um outro fio verde, de quando ainda era jovem. O nariz era um
buraco, ninguém podia dizer que a aparência dele era das melhores.
Velho: Oi, moça.
Mística:
Cuidado ao me chamar de moça, eu sou um general, não vê?
Velho: Só
vejo que você é uma moça em pele de general. E quero saber se alguém viu a
moça entrar com o rapaz aqui?
Mística: Não,
ninguém viu.
Velho: Ótimo.
Então... o rapaz é filho Dele?
Mística: É...
é filho Dele. E Ele virá.
Velho:
Esperaremos por ele.
Mística: E a
espera será feita com a organização de um exército. Mercúrio está aqui
para te ajudar.
Velhor: Mercúrio
então é o nome do rapaz. Rapaz, esse cabelo está muito feio para você. Acho
que se eu conseguir te arranjar um balde d’água podemos tirar essa tinta.
Eles
escutam uma tropa marchando na rua! Galopes de cavalo e latidos de cachorros
também são ouvidos! Eles sobem correndo pela escada podre e velha da casa até
o segundo andar. Um soldado chuta a porta velha de madeira podre e a põem no chão!
Soldado: Ninguém
aqui!
Soldado2: Então
vamos nas outras casas logo! Quem foi o imbecil que não sabia que o general não
tem filhos?????
Soldado: Ora!
O soldado chefe que toma conta do portão!
Soldado:
Aposto que ele vai ser mandado embora e preso por alguns dias!
Os
soldados vão embora, os galopes de cavalo já estão longe. Não se ouve mais
os cachorros. Ainda bem que eles não entraram na casa, teriam subido facilmente
ao segundo andar por causa do cheiro!
Mística:
Velho, você já sabe o que fazer. Esconda Mercúrio em algum buraco. Mercúrio,
você não vai sair na rua por nada nesse mundo até eu voltar!
Mercúrio:
Pode deixar, essas ruas não são muito tentadoras! ... Quando você vai voltar?
Mística:
Daqui alguns dias! Primeiro vou tentar sair daqui! Depois vejo como volto a
entrar! Velho, de qualquer forma, esteja nessa casa todos os dias as 5 das
tarde! Um dia nos encontraremos com esse horário e lugar marcado.
Velho:
Ficaremos na espera Dele e da moça.
Mística: Mercúrio,
mesmo escondido, vá auxiliando o Velho na disseminação das idéias. Dêem um
jeito e sejam sempre discretos!
Quando eu voltar, quero ver alguns progressos.
Mística
sai da casa não mais como o general, mas sim como um dos altos soldados!
Encontra a guarda dos cães numa esquina próxima.
Mística:
Soldados, por que não estão procurando?
Soldado:
Existem outros para procurar, senhor! Nosso dever é guardar as esquinas com os
cães.
Mística: Alguém
entrou aqui com uma homem vestido de almirante! Algum sósia do general!!!
Vocês deveriam quebrar um pouco as regras e as hierarquias e começarem a
procurar!
Mística
deixa os sujeitos confusos, e vai andando por umas ruas estreitas e quase
vazias. Ainda não tinha muita gente para encher aquele gueto. Muitas ruas
ficavam vazias, muitas casas ainda estavam abandonadas, só habitadas por ratos.
Mística foi andando em direção a uma parte do muro que não tinha guardas. Lá
encontrou uma mulher sentada no chão, encostada no muro. Viu que ela estava com
os olhos inchados de tanto chorar. Viu também que o muro tinha marcas das unhas
dela, e viu que as unhas da mulher sangravam muito. Dedos em carne viva!
Mulher: Você
vai me prender, soldado?
Mística
se transforma na mulher azul de sempre.
Mística: Não.
O
rosto da pobre mulher se ilumina.
Mulher: Há
muitas partes do muro que não tem guardas! Extensões imensas sem guardas! Só
há guardas mesmo nos portões! Mas eu já tentei subir o muro, não dá! Veja,
perdi minhas unhas! Esses muros devem ter mais de 4 metros! E mais os arames
farpados acima.
Mística
se transforma em Wolverine e coloca as garras pra fora. SNIKT! Vai escalando o
muro enfiando as garras nos tijolos e cimentos! A mulher se levanta para ver
isso maravilhada.
Mulher: Eu
sou mutante, mas a senhora é mágica!!!!
Wolverine
chega no topo do muro e rasga os arames farpados como se fossem feitos de
manteiga. Antes de pular para o outro lado, ainda olha para a mulher lá em
baixo. A pobrezinha tinha os olhos de um cachorro pidão. Implorando ocularmente
para que aquele Wolverine a tirasse dali.
Mulher: Me
leva com você, pelo amor de Deus, mágica!
Mística: Eu
vou te tirar daqui! Você vai ver! Me espere, eu voltarei! Guarde segredo! E
procure um velho cinza nas casas abandonadas! Ele também vai te ajudar. Não se
desespere, apenas lembre-se do velho! E lembre-se na mágica que pode ser
qualquer pessoa! Boca fechada!
Mulher: Pode
deixar.
Mística:
Agora fuja dessa parte do muro sem arame farpado e com marcas de garras! E
lembre-se! O Velho irá mostrar a todos vocês, que todos os mutantes podem
fazer mágicas! Descubra com ele que você também pode ser uma mágica!
Mística
pula para o outro lado! Não tardou muito para que os soldados percebessem uma
parte do muro violada e entendessem que o sósia do general e o seu “filho”
tinham ido embora. Nunca mais tantas extensões do muro ficaram sem guardas.
Seria muito difícil Mística refazer uma atuação tão Wolverinística!