Eterno Preconceito
Sexta feira à noite. Diversão é o que Bobby Drake,
nosso Homem de Gelo, mais gostaria de ter. Mas não é a porta da mansão X que
ele abre. Abre a porta de um quarto. Bom, quem sabe ele não está bem
acompanhado? Até que está, mas ela é só uma amiga. Alguém que pediu a ele
um favor, um favor que ele já vem fazendo há três semanas. Ele dorme no
quarto dela, num sofá pequeno e apertado. Essa amiga passou por maus bocados exatamente
há três semanas. Ameaças de grupos extremistas anti-mutantes quase
mataram Vampira.
Um
casamento feliz parecia estar ao fim, uma pena que fosse tão recente. Machucada
por dentro, por fora e ainda traumatizada, ela pediu um favor que seu amigo não
iria nunca negar.
Scott: Bobby? Não vai sair?
Bobby: Não, Scott, aluguei uns vídeos.
Scott: Eu e a Jean vamos a um restaurante. Se você quiser ir se arruma rápido... E... chama a Vampira! Veja se ela se anima, porque o Gambit você sabe... Não quer nada mesmo...
Bobby: Não vai dar, a Vampira já quer ir dormir.
Scott: Ainda dormindo no quarto dela?
Bobby: Aham.
Scott: A Vampira ainda está com medo de dormir sozinha?
Bobby: Inacreditável, né? Eu pensei que essa fosse a última pessoa a ter medo, ou a ficar traumatizada com alguma coisa. Já viu de tudo na vida!
Scott: É, mas dessa vez foi demais. Tudo de uma vez, Bobby.
Bobby: Fica pra próxima. Té mais ver, cara. Brigadão pelo convite.
Scott: Bobby, eu sei que você vai acordar moído de dormir naquele
sofá pequeno, mas amanhã tem treino na sala de perigo, e você é o primeiro.
Bobby: Ninguém merece... Té mais, velho!
Bobby entra no quarto e vê que Vampira já está na cama toda coberta com os lençóis. Ele acende a luz e ela reclama baixinho.
Bobby: Vampira, vou ligar a TV pra gente, tá? Tá cedo ainda, a gente pode ver uns filmes legais que eu peguei. É tudo comédia.
Vampira: Vê você, Bobby, quero dormir. Valeu pela intenção. Apaga
a luz pra mim e coloca o som da TV baixinho? Tá bom?
Bobby: Tudo certo, me amarro em ver filme no escuro mesmo. Pode deixar.
Vampira dorme na primeira meia hora do filme. Volta e meia dá uns gemidos, Bobby sabe que ela está tendo um pesadelo. Toda noite tem sido assim. Ele chega perto dela para ver o que está acontecendo e percebe que ela ainda está toda machucada no rosto, pode ser que esteja também no corpo, não dá pra ver. Melhor não tocar nela, ele está sem luva. Voltar a ver o filme é a melhor opção, mas o tédio do quarto o contagia, e dormir é o que lhe resta.
São 9 horas da manhã de sábado. Wolverine abre a porta do quarto de Gambit, entra no recinto e a fecha de novo. Ele, que não é chegado a delicadezas, tenta ser ao menos legal com o amigo e fala com Gambit para acordá-lo, mas percebe que o cajun já estava acordado.
Wolverine: Coé? Se tava acordado, por que me deixou falando sozinho?
Gambit: ...
Wolverine: Aí, Cajun! Levanta daí, anda logo.
Gambit: ... Wolverine, eu quero ficar sozi...
Wolverine: Você quer ficar na mesa do café com todo mundo! Cai fora!
Gambit: ... Merde! Você não vai embora mesmo, não é, mon ami?
Wolverine: É... Podes crer. Gambit, olha só, você não sai desse quarto há três semana. Se não fosse o povo dessa casa trazendo comida, eu acho que você não comia.
Gambit: Eu não como com vocês trazendo a comida mesmo.
Wolverine: Xará, vou lá fora. Volto em alguns minutos. Quer dizer, eu não. Alguém volta, mas a gente não vai te arrastar desse quarto se você não quiser. Principalmente eu que tenho mais o que fazer.
Gambit: Hnm...
Wolverine: Acorda pra cuspir, cara! Também já tive muitos problemas e tristezas na vida. Tchau.
Na mesa do café alguns segundos depois...
Tempestade: Wolverine? Alguma esperança de que ele venha comer com a gente?
Wolverine: Não. Tá lá largado na cama.
Tempestade: Ai... Tudo bem, eu vou lá levar esse...
Wolverine: Não vai mesmo. Acabou o paparico. Se vocês levarem comida, ele não sai de lá.
Tempestade: Wolverine, ele está claramente depressivo, e deixá-lo com fome não ajuda.
Wolverine: Vamos ver se um depressivo não sai do quarto pra buscar um rango... E chama um psiquiatra, já que ele não quer conversar com a gente. A não ser que você esteja colocando Prozac nessa gororoba de galinha.
Tempestade: Eu vou no quarto ver como ele está, já que você acha que os problemas da vida dele são tão fáceis de resolver.
Wolverine: Não me venha falar de problemas da vida, moça. Eu sou PHD nisso. E não acho que as coisas são fáceis de se resolver, sou eu que estou propondo um especialista para esses dois, eles estão precisando. Não é essa canja de galinha nojenta que vai resolver alguma coisa.
Tempestade: Eu decido o que levo ou deixo de levar para o meu amigo, você também não está ajudando em nada.
Tempestade vai com a canja de galinha e cheia de boas intenções para ajudar o amigo. Abre a porta do quarto, ninguém lá. Entra pelo quarto adentro, quem sabe não está no closet? No banheiro...
Tempestade: Gambit? Você está no banheiro? ... Posso abrir a porta? Está me ouvindo? ... Vou abrir. Ué!? Não está aqui no banheiro também... Onde está o Gamb...
Vê a janela aberta e a cortina ainda se mexendo no ar. É o segundo andar da mansão, ela sabe, mas isso é altura pouca para aquele ladrão acostumado a pular muitos muros. Senta na cama dele e suspira.
Tempestade: Bom! Pelo menos ele saiu do quarto! Já é um avanço!
Jean: Falando sozinha? Onde está ele? O povo lá em baixo quer saber se ele finalmente vem. Está no banheiro?
Tempestade: Não.
Jean: Nossa, foi para a mesa do café?! Que bom!
Tempestade: Acho que não.
Jean: E foi para onde então, Tempestade? Para o quarto da Vampira!!!!!
Tempestade: Acho que não.
Jean: Você acha alguma coisa pelo menos?
Tempestade: Acho. Acho que ele está muito machucado por dentro, mas voltou a colocar " o lado de fora" para funcionar.
Jean: O que você quer dizer com isso?
Tempestade: Ele levou os 3 baralhos que estavam no quarto com ele, ainda levou o sobretudo de estimação. Inclusive o cajado. Ele vai entrar em ação, pelo visto. Mas ação no que?
Wolverine: Quem sabe não vai roubar esmola de igreja?
Jean: Wolverine! Ouvindo atrás da porta!
Tempestade: Se o Gambit roubar um só centavo de qualquer lugar que
seja, eu vou
ficar
muito irritada com ele. Roubar não é hobbie, nem válvula de escape, nem
esporte. Um x-men não age mais da forma que agia no passado, aconteça o que
acontecer.
Jean: Nós mutantes já temos muitos problemas, isso é uma atitude que só viria a manchar mais a nossa imagem. O professor vai ficar muito irritado. O Gambit já apareceu na mídia mês passado com toda aquela confusão. Vira e mexe ainda somos notinhas de jornais. Nada mais de escândalos!
Wolverine: Vocês duas parem de prever o futuro! Nem sabem o que o cara foi fazer e já estão supondo. Acalmem o facho, ele logo vai voltar. Se não voltar em 24 horas, Jean, use o cérebro e o localize.
Jean: E se ele fizer alguma besteira séria?
Wolverine: Que besteira séria?! Aí ele vai se ver comigo.
Vampira está no seu quarto, sentada no chão, ao lado
da cama. Está pensativa e melancólica. Olha algumas antigas fotos, inclusive
as fotos de seu casamento. Depois olha para o próprio corpo e percebe que não
é como Wolverine, não cicatriza rápido. Ela ainda tem muitos cortes e vários
tipos de machucados. Pega uma outra caixa de sapatos com mais fotos dentro, vai
tirando uma por uma, vendo momentos semi-felizes.
Ela
nunca foi inteiramente feliz, a não ser antes de descobrir que era mutante.
Sim, ela recorda, sua infância pode ser chamada de felicidade, mas ela quer
esquecer. Não quer lembrar dos pais, sua infância morreu quando seus pais a
chamaram de monstro e ela fugiu de casa por ser diferente. Teria Vampira alguma
foto de sua infância, alguma foto com seus pais? Será que ela ainda sabia seu
verdadeiro nome depois de tantos anos sem ninguém pronunciá-lo? Certamente
sabia. Quem sabe alguma pessoa próxima não tem o mesmo nome dela e Vampira
passou anos o escutando a cada instante? Porém, o mais provável é que ela o
repetisse para si mesma muitas vezes. Clarisse é uma mera formalidade que
Gambit arranjou para facilitar a vida de uma "sem - documentos".
Talvez ela odeie Clarisse, porque não é assim que se reconhece. Tenta se
lembrar de como se reconhecia antes de se envolver mais intensamente com Joseph
e Gambit. Vampira lembra de grande parte de sua vida em que foi a mais durona
dos x-men, tinha sempre resposta para tudo, podia muitas vezes estar na
defensiva, barrava sentimentos, pena de si mesma estava fora de seus planos,
homens ela não poderia ter e por isso eles só serviam para serem
ridicularizados. Era assim que ela se reconhecia, essa era sua personalidade, a
verdadeira Vampira. Agora ela estava no chão de um quarto, chorando; isso não
era ser Vampira há um tempo atrás.
Que se danem esses cortes e
machucados, pensa ela. Machucada sempre esteve a vida inteira, mas fingiu não
sentir. Talvez a Vampira de antes não fosse realmente a sua verdadeira
personalidade, mas um mecanismo de defesa para seus sentimentos. Já que não
pode ter uma vida nem um pouco normal, tenta viver sem os sentimentos que lhe são
proibidos. Se não podia abraçar os amigos, não tinha problemas, era só
fingir que não gostava muito de contato tão próximo com colegas de trabalho;
se não podia colocar uma criança no colo, inventava que elas são sempre umas
pentelhas choronas; se não podia ficar sem usar luvas, dizia que era muito
chique usá-las com um pretinho básico; se não podia ter namorados, dizia que
no seu caso eles não serviriam para nada mesmo, já que só serviam
para
"abrir potes duros de maionese" e isso ela faria sorrindo, até mesmo
se a tampa estivesse soldada. Seu jeito irreverente, durona, e cômica de suas
próprias desgraças a fazia ser uma pessoa encantadora aos olhos dos outros.
Mas quem tivesse um mínimo de sensibilidade e a conhecesse melhor, reconheceria
nisso uma verdadeira e profunda infelicidade. Mas para a grande maioria, ela
realmente parecia ser alguém que superava obstáculos e era feliz! Fazia um
estilo "sou feliz do meu jeito, qual o problema?" E assim ela ia
vivendo, no fundo esperando dia a dia que o professor encontrasse algum meio de
ensiná-la a controlar seus poderes danosos ao contato humano. Seu passado era
uma farsa, a durona só existia na frente dos outros. Por mais que por dentro
ela também tentasse ser, muitas vezes lembrava de sua condição digna de pena
e amolecia escondida num canto. Tentar se convencer que era feliz era um exercício
mental diário, assim como muitos naquela mansão deviam ser. Quantos nessa casa
não deveriam fazer aqueles risíveis exercícios na frente dos espelho ao
acordar: "eu sou feliz, eu sou feliz, sou uma pessoa de sucesso."
Fosse o que fosse, falsidade, mentir para si mesma e para os outros; aquela antiga forma de viver da Vampira talvez fosse mais saudável do que os últimos dias que se passavam. Vampira ficou pensando fixamente sobre o assunto, queria voltar a ser o que era. Iria se empenhar a fingir para si mesma que era feliz, que ia superar tudo o que passou, até que um dia essa mentira virasse verdade para ela. Quando muito se mente, acaba-se acreditando no que diz. Decidida a ser o que era antes, encheu-se de vontade de finalmente sair daquele quarto. Foi tomar uma banho que fizesse acordar melhor seus desejos e vontades. Queria usar a sua beleza como uma ajuda para sua auto-estima. Se anormais eram seus genes, ela pelo menos se olharia no espelho e diria: "sou forte, poderosa, inteligente e linda, os homens correm aos meus pés e eu nego todos. Não porque não posso tê-los, mas porque não os quero. Eu me basto." Essa seria a frase que Vampira usaria a partir daquele dia: "eu me basto". Que venham todos atraídos pelos meus dotes esculturais, para que eu possa rir deles! Porque eu me basto.
Narrador: Enquanto isso, o café da manhã vai findando no andar de baixo.
Scott: Bobby? Você pode ir me passando esses pratos para a Jean colocá-los na máquina de lavar?
Bobby: Claro. Pega aí, cuidado que esse tá melequento. Cadê o Fera?
Tempestade: Passou a noite na casa da Trish. Talvez só volte amanhã de noite, acho que ela foi fazer uma reportagem em Washington e ele foi com ela.
Bobby: Cruzes, quero distância de Washington!! Só tem mau caráter e megalomaníaco por lá.
Tempestade: Todo mundo quer distância de lá, Bobby.
Bobby: E cadê o caipirão do Sam?
Scott: Foi desde sexta visitar a casa dos pais, não sei como você ainda não sabia.
Bobby: Ah! Então ele foi para o "interiorrrr", "interioRRRRR" visitar mamãe e papai do "interiorrrrrrrrr"?
Tempestade: Pois é, Bobby. As vezes nós esquecemos que algumas pessoas raras nessa casa ainda têm família.
Jean: Dormiu direito lá no sofá da Vampira, Bobby? Porque o treino hoje vai...
Scott: Ah, é mesmo. Já ia me esquecendo. Vai terminando logo aqui, deixa que eu pego os restos da mesa, porque eu te disse que você era o primeiro a treinar na sala de perigo hoje.
Tempestade: Quer que eu fique na parte dos comandos lá na sala de perigo enquanto você treina, Bobby?
Scott: É o professor que vai estar lá hoje, Tempestade.
Bobby: Nossa, que droga! Tô todo moído e ainda vai ser o prof que vai estar lá tirando o meu coro!
Tempestade: Essa situação não pode mais continuar. Bobby, se por acaso a Vampira pedir a você que durma hoje no quarto dela, diga que eu durmo lá com ela.
Jean: Você cabe naquele sofá, amiga?
Tempestade: Ele também não cabe, Jean. Três semanas dormindo assim, imagina a coluna desse pobre menino!
Bobby: Pode deixar, galera. Deixa eu ir andando logo. Eu falo com a Vampira que você vai dormir lá com ela hoje, minha Deusa!
Todos riem da brincadeira de Bobby e ele sai correndo para sala de perigo, antes que Tempestade solte uns raios nele.
Tempestade: Esse menino não é mole. "Minha Deusa"! E "interiorrrrr".
Scott: "Minha Deusa"... Eu também chamaria assim a heroína que me livrasse daquele terrível sofá. Mas não vai deixar o Forge ouvir esse tipo de coisa, ele pode não conhecer bem a personalidade do Bobby.
Jean: Deixa de besteira, Scott. Quem não conhece o Bobby? O Forge vem aqui hoje, Tempestade? Faz alguns dias que ele não vem...
Tempestade: É por causa dessa confusão toda que aconteceu, ele achou melhor alugar um apartamento lá em Manhattan para ficar mais próximo do tribunal, já que está tendo que frequentemente ir lá prestar depoimento do caso. Mal tem tido tempo de vir aqui na mansão...
Scott: Por sinal, a Vampira já extrapolou o tempo dela de resguardo. Já recebemos duas intimações para ela depor e sempre tivemos que dizer que ela ainda estava abatida e chocada com tudo. Polícia e juiz vêem isso todo dia, não acreditam que alguém fique tanto tempo em choque. Sem contar que essa demora dela só atrasa mais a sentença final desses infelizes anti-mutantes.
Tempestade: Ai, pela Deusa! Por falar em Vampira, eu esqueci dela! Vou lá ver se ela quer alguma coisa... Nem levamos nada para ela comer hoje... Sobrou alguma coisa, Jean?
Jean começa a falar psiquicamente com Tempestade, para que Scott nada ouvisse.
Jean: [ Tempestade, não mude de assunto. Olha lá,
não vai deixar o Forge te escapar pelos dedos mais uma vez. Talvez, se ele não
está vindo é porque não pode mesmo, mas ficaria feliz se você fosse vê-lo.
Seria mais uma prova de que você está interessanda, Tempestade. Não se feche,
não se feche. Não vai perde-lo de novo. ]
Tempestade pensa para que Jean a escute pelas ondas cerebrais.
Tempestade: [ Eu sei, Jean. Eu vou lá em breve. Ele tem me ligado sempre que pode.]
Jean: [Você tem que ligar também.]
Scott, que limpava os farelos da mesa, vê as duas colocando os pratos e copos na máquina de lavar em tanto silêncio, mas as vezes uma olha para a outra e faz certas caras.
Scott: Tá certo, amor. Se queria uma conversa particular com a Tempestade era só ter me dito, eu sairia da cozinha.
Jean percebe a gafe.
Jean: Ai, lindo. Desculpa, é que eu só estava falando umas coisinhas, nem pensei que você pudesse perceber. Mas você não está atrapalhando em nada, eu já disse o que tinha que dizer para Tempestade.
Jean deixa os copos e pratos, abraço a marido e vai andando com ele para a sala. Tempestade fica sozinha vendo que já está quase tudo limpo, menos a parte do Wolverine.
Tempestade: O Logan é ótimo! Come, vai embora, deixa tudo na mesa, os outros é que se virem.
Uma voz grita la fora do jardim.
Wolverine: EU OUVI ISSO, TEMPESTADE!
E Ela grita também, com um certo ar de graça.
Tempestade: QUE BOM QUE OUVIU!
Tempestade ouve passos de salto alto se aproximarem da cozinha. Ela continua lavando o prato do Wolverine sem olhar para trás.
Tempestade: Que bom que você voltou, Jean. Você ouviu essa do Wolverine agora, reclamando que me ouviu dizer...
Vampira: Não é a Jean, não. Sou eu, Tempestade.
Tempestade olha para trás surpresa. Era Vampira toda bem vestida e parecendo bem animada. Jean e Scott que a viram descer a escada, correm para cozinha para falar com ela também.
Jean: Nossa, Vampira! Que surpresa! Que bom que
você desceu, está com uma aparência ótima. Ela finalmente veio comer com a
gente, Tempestade. Vamos fazer alguma coisa pra ela, Scott.
Vampira: Não estou com fome agora não, gente. Como mais tarde tá? Tô indo dar uma saída por aí. Volto bem mais tarde. Treino outra hora, tá grandão?
Scott: Que isso, Vampira!... nem ia pedir que você treinasse hoje. Eu entendo o que você está passando e...
Vampira: Eu não estou passando por nada mais, bonitão. É sério, Jean, não precisa fazer essa cara de assustada. Eu estou me sentindo ótima.
Jean: Puxa, que bom! Né, Tempestade?
Tempestade: Nossa! Claro, é ótimo mesmo. Surpreendente, mas ótimo. Bem surpreendente... É... Vampira? Não está tão frio lá fora para essas roupas de manga comprida.
Vampira: Deixa eu cicatrizar direito esses cortes e sair todos os roxos, que eu volto a usar meu guarda roupa de sempre. Sem contar que eu vou andar nas ruas, tem sempre gente meio lerda que esbarra na gente. Sabe, dizem que quando a gente se casa acaba engordando, mas eu continuo com o mesmo corpinho de sempre!
Só ela riu. A piada não teve graça. Todo mundo se entreolhou. Silêncio chato.
Tempestade: É bom que você esteja com o ânimo para cima, Vampira! É ótimo que você saia mesmo! Vai ver o Sol, as árvores, sentir o vento! É bom sairmos e vermos pessoas!
Jean: É impressionante como você está mais linda do que já é, Vampira! Ótima produção.
Vampira sai. Foi andando pelo jardim, e pegou um taxi que estava na porta da mansão esperando por ela. Wolverine também vai para cozinha.
Wolverine: Eu ouvi a conversa la de fora. Achei estranho, mas continuei la fora. Quando eu vi a guria passando pelo jardim e entrando num taxi, confirmei que realmente a situação é bem estranha.
Scott: Bom, pelo menos ela parece bem.
Tempestade: Com auto estima lá em cima, pela graça dos Deuses!
Wolverine: Será que ela sabe onde o Cajun está e foi toda produzida assim encontrar o cara?
Jean: Acho que não, Logan. Ela nem sabia que o Gambit sumiu hoje antes dela sair.
Wolverine: Talvez vocês pensem que ela não sabia. Mas talvez eles tivessem combinado. Porque é estranho os dois assim tão pra baixo e de repente na maior coincidência sairem da fossa no mesmo dia.
Jean: Um pouco improvável, Logan. Eles não se falaram aqui em casa durante todo esse tempo. Não tinham como combinar nada. Mais provável que ela tenha ido logo ao tribunal avisar que já pode ser marcada uma audiência, para ser ouvida como testemunha de acusação daqueles infelizes, já que foi a vítima principal. E assim, finalmente poderemos caminhar com o caso. Antes que os advogados deles os tirem da prisão alegando qualquer coisa infame, que eles sempre alegam. Bom, mas vamos tocar nossas vidas que ficar especulando sobre as vidas dos outros não leva a nada.
Vampira caminhava pelo Central Park. A corrida de taxi até Manhattan deve ter sido cara, mas ela não quis voar, quis ser um pouco normal naquela tarde. Do parque dava para ver o Hotel Plazza onde ela passou a sua lua de mel. O Plazza teve uma certa baixa dos hóspedes com toda aquela confusão de sentinelas, mas o teto foi rapidamente refeito. Perto do parque também ficava o Metropolitan museu de arte. Até pensou em ir lá, mas isso só a faria lembrar do Gambit, que era quem verdadeiramente gostava de pintura, escultura, antiguidades. Sentou num banco, ficou vendo as folhas amarelas caírem das árvores, até que duas grávidas passaram na frente dela conversando. O olhar de Vampira, com um brilho vago, se perdeu dentro daquelas barrigas. Ficou assim um tempo até que balançou a cabeça, acordando dos momentos hipinóticos, numa clara expressão de que aquilo era passado na vida dela. Nesse meio tempo não percebeu que alguém tinha sentado ao lado dela no banco. Levou um susto ao perceber que era apenas uma criança e que olhava para ela.
Menino: Oi!
Vampira: Oi.
Menino: Você é bonita. Mais bonita que a minha mãe.
Vampira: Hum... Nossa, que demais!
Menino: Quer ser minha namorada?
Vampira: Bom... Quantos anos você tem?
Menino: Cinco, quase seis.
Vampira: Ah... Se ao menos você tivesse 7 anos...
Menino: Mas não é para namorar só comigo, é com o meu irmão Vitor também. Ele tem dez anos. Tá ali escondido atrás daquela árvore enquanto eu falo com você. Ele disse que me dava um saco de pipoca se eu viesse falar com você.
A estranha conversa teria continuado, se uma mulher com um carrinho não tivesse chamado o menino do banco e o outro atrás da árvore. O tal saco de pipoca prometido deu água na boca. Vampira começou a ficar com fome e resolveu pegar a carteira para comprar um super saco. Foi quando viu um cartão de um agente que há muito tempo a tinha convidado para uma seção de fotos. Vampira pensou que nada poderia ser melhor para sua auto estima do que ser reconhecida como padrão de beleza e ainda ganhar dinheiro por isso. Muito dinheiro, às vezes. Por um trabalho ridículo, em que a única exigência era ser bonita. Isso ela era e muito. Não comprou a pipoca, não queria dar mal impressão com casquinha de milho no dente. Aproveitou que o endereço era próximo e foi andando até a agência. Chegando lá, encontrou uma secretária com uma cara emburrada e uma garota magricela e alta esperando para ser atendida.
Vampira: Oi.
Secretária: Oi...
Vampira: Olha... Faz algum tempo, eu sei. Mas um tal de George Hilton me deu esse cartão e disse para eu vir aqui fazer umas fotos com ele.
Secretária: Olha, fofa, faz tempo mesmo. George Hilton não trabalha mais aqui.
Vampira: Ah, então você sabe onde ele está agora?
Secretária: Ele parou de tirar fotos, tá? Mas isso aqui é uma agência, fofinha. Nós temos outros fotógrafos e fazemos seu book se você quiser.
Vampira: Book pra que?
Secretária: Na verdade se chama portofolio. Mas eu continuo chamando pelo nome antigo. Você me parece meio por fora, vou explicar. A gente faz teu book e fica com ele aqui, ou só com algumas fotos dele aqui. Aí, quando alguma empresa ligar pra gente procurando uma garota, a gente mostra as fotos que tem e eles vão ver se te chamam ou não pra fazer um trabalho, entendeu, fofinha?
Vampira: Entendi, gracinha.
Secretária: Ótimo. Escuta, o book custa 400 dólares.
Vampira: Espera, fofinha! 400 dólares para tirar fotos e sem saber com certeza se eu terei retorno desse dinheiro em trabalhos futuros? Gracinha, fofinha, lindinha, eu tô caindo fora daqui.
Secretária: Ei! É assim que todas as agências funcionam. E eu tenho certeza que vão te chamar pra fazer algum trabalho. Vem aqui fazer sua ficha sem compromisso, só para constar que você quer fazer o book. Nome? Idade? Estado civil? Endereço? Telefone? Altura? Busto? Cintura? Quadril? Tamanho de perna? Olhos? cabelos? Nome artístico?
Vampira: Clarisse Lebeau. L-E-B-E-A-U. Tenho 23 anos e sou... é... casada... O meu endereço...
Secretária: Ih! Casada! Espero que o marido não seja ciumento. Já vi muita garota aqui fazer trabalhos depois vir pegar o cachê chorando porque o marido, ou namorado, achou as fotos isso ou aquilo.
Vampira: Pode deixar que eu não vou ter problemas com isso. Eu não posso te dizer meu endereço, vou te dar só meu celular tá? Qualquer coisa é só ligar. Eu tenho 1 metro e 72 cm de altura, 93 cm de busto e...
Secretária: Olha só, fofíssima, o mínimo para modelo de passarela é 1 metro e 75 cm de altura. O mínimo tá? Não que você seja baixa, longe disso. Eu me considero numa altura ótima e tenho só 1 metro e 65. Mas você nunca ia ser modelo de passarela mesmo! Já não é nenhuma garotinha, tem 23 anos, eles tão pegando garotas de 13, 15 anos... Você não tem a altura ideal e já deu pra perceber que seu corpo não é de modelo mesmo...
Vampira: Graças a Deus que não tenho corpo de modelo! Quer dizer então que eu posso ir embora, essa idiotice aqui não vai dar em nada?
Secretária: Claro que não! Vão te chamar pra
ser modelo de foto. Ou você acha que são as modelos de passarela que são
chamadas pra fazer comercial e foto para anúncio de cerveja? Que nada! São
todas com seu corpo. Vamos continuar com a ficha. Parei no tal "93 cm"
de busto. Escuta, depois a gente vai medir tudo isso, hein? Não é para mentir
não.
Vampira: Eu não estou mentindo. 60 cm de cintura, 90 cm de quadril. Sei lá qual é a droga do tamanho das minhas pernas. Tenho olhos verdes e meu cabelo é cast...
Secretária: É... esse teu cabelo estranho aí é que vai ser complicado. Você talvez tenha que pintar essa mecha fashion branca, tá? Nome artístico?
Vampira: Estranho é o seu cabelo! Coloca aí: Vampira.
Secretária: Ah, fala sério! Algum nome normal.
Vampira: Então meu nome artístico vai ser o meu próprio nome. Tá bom assim, fofíssima?
Secretária: Tá ótimo assim. Vai querer tirar as fotos agora? Não se preocupe, não precisa pagar hoje.
Vampira: Eu tive uma... uma queda ha alguns dias e estou ainda com alguns roxos e alguns pequenos cortes. Vai ficar feio na foto.
Secretária: Tá certo. Volta aqui semana que vem, no próximo sábado, essa mesma hora. Como é só o book, você pode vir maquiada de casa se quiser, ou então a gente te maqueia aqui. Pode vir com a roupa que quiser, mas nós temos um guarda roupa aqui. Pagamento em dinheiro, cheque para daqui a 30 dias, viu como não precisa pagar na hora com cheque? E cartão só Visa, tá? Ah! Com cartão a gente parcela em duas vezes.
Sábado anoite. Mansão de Chales Xavier. Tempestade bate na porta do quarto de Wolverine, que estava se arrumando sem se olhar no espelho.
Tempestade: Logan, estou preocupada. Meia Noite
e onde está o Gambit?
Wolverine: "Ah, nossa! Que preocupação séria! Meia noite de sábado! E ele não está em casa! Nossa!" Deixa de besteira, seu "filhinho lindo" não tem medo de escuro, ele sempre ficou perambulando madrugadas a dentro. A rua é mais casa dele do que essa mansão.
Tempestade: Não brinque, Logan. Você consegue ser grosso quando quer.
Wolverine: Até quando não quero, Ororo. Escuta, para você ter uma noção, eu estou me arrumando para sair de casa agora. Vai dar ataque de procupação também?
Tempestade: Ele fugiu pela janela do quarto pela manhã. E até agora não deu sinal de vida.
Wolverine: Cadê a Vampira? Ela não saiu hoje de manhã também? Já voltou? Vai lá perguntar pra ela, essa guria deve saber dele.
Tempestade: Já voltou faz muito tempo e não se encontrou com ele. Nem perguntei dele, até porque ela só me disse que foi ao Central Park e depois foi numa agência de modelos e nada mais... A camisa está amarrotada, Logan.
Wolverine: A camisa tá ótima. Quem anda engomadinho é o Scott.
Tempestade: ... Ficou bonito.
Wolverine: Eu fiz o que pude, não sou bonitão. Não faço o tipo das mulheres... Dane-se, não dou a mínima. Escuta, o Gambit é um homem adulto. Um puta grandalhão adulto com um poder bem nocivo, você não tem do que se preocupar. E... desculpa aí seu eu fui grosso com as suas preocupações bestas, não quis magoar.
Tempestade: Logan, até pedindo desculpa você consegue ser grosso. Mas eu não me importo. Te conheço. O Gambit deve estar mesmo em algum lugar seguro sem querer saber dessa casa por um tempo. Ele faz bem, mas devia avisar.
Wolverine: Agora você está sendo sensata. Escuta, mas se ele ligar, diz pra ele que eu tô lá no bar de sempre. Manda esse cajun mostrar as fuças dele por lá.
Tempestade: E eu que estou bem aqui? Onde é o
"bar de sempre"? Não posso ir com você?
Wolverine: Você de jeito nenhum. Um dos motivos é porque eu quero que você ligue para uma certa pessoa com cara de índio. Vocês deviam sair sozinhos. Tá com medo de que, mulher?
Tempestade: E os outros motivos?
Wolverine: Esses são confidenciais. Tchau.
Tempestade: Sei. "Confidencial" virou sinônimo de "rabo de saia" agora, é?
Wolverine: Não mude de assunto. Confidencial é confidencial, e agora ligue para o Forge. E tchau mesmo.