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Subject: 16 de julho - esboçando um início,
enfim...
Date: Tue, 17 Jul 02:26:33 -0000
São
7h30 de uma manhã qualquer. Esse maldito barulho me
desperta. Todo dia, o mesmo barulho. Seqüenciado, agudo,
se repete e repete e repete até que eu me dê
por vencido e aperte o botãozinho do relógio.
Mais um dia, um dia qualquer, não importa. Ele será
igual a qualquer outro, eu sei disso desde o momento que o
barulho me acordou. Eu sabia isso desde ontem à noite,
pois o dia que se findava então havia sido igual ao
anterior. Repito os mesmos movimentos inicialmente débeis
e sem vontade, minutos depois mais ágeis, mas ainda
sem vontade - os mesmos movimentos que fiz na manhã
de ontem e de antes de ontem, e de antes. O caminho de casa
ao serviço será o mesmo, as pessoas que estarão
no ônibus, que eu sequer sei os nomes, mas que já
me são tão familares, serão as mesmas,
e as mesmas serão suas expressões resignadas,
tolerantes, desinteressadas. E tudo irá ser mais uma
vez idêntico, tão idêntico que já
não preciso pensar para repetir esse ritual. Basta
acionar o piloto automático e tudo se encaminhará.
Existe uma gama restrita de variações dentro
dessa seqüência, mas tão previsíveis
e limitadas que não serão o bastante para alterar
a ordem das coisas. São apenas atenuantes. Na verdade
esse é um excelente plano de suicídio coletivo.
Repetir e repetir e repetir até que você já
não precise pensar para executar sua parte no jogo,
e possa assim subtrair a si mesmo, deitar em coma o que há
de você em você. Se eu não me empenhasse
em repetir a seqüência que me foi incubida qualquer
outro poderia repetí-la, a diferença seria mínima
e o resultado o mesmo. Minha existência é, portanto,
indiferente, e se dilui na massa pegajosa de existências
indiferentes que compõem o todo. Eu sou dispensável.
To: "Mikka Luttinen" <[email protected]>
Subject: 17 de Julho
17
DE JULHO
Cheguei há pouco tempo aqui em casa . Na verdade, faz
um bom tempo que cheguei. Mas o dia foi tão desgraçadamente
chato que pouca ou nenhuma vontade resiste em mim. Então
fixo a idéia de que "acabei de chegar" para
não compreender que estou em casa a várias horas
e que mesmo assim não fiz nada de interessante. Sim,
eu comi, eu respondi os telefonemas , eu arrumei o meu armário
e preparei a roupa para trabalhar amanhã ; de fato,
cheguei a fazer muitas coisas . Porém, a sensação
de inutilidade permanece . Agora, por exemplo, estou próximo
da janela . Às vezes, pessoas passam por aqui ; vocês
sabem como minha rua é tranquila , uma típica
rua dos bairros residenciais onde tudo sempre é calmo
e o maior motivo de agitação são crianças
correndo a brincar . Eu não entendo porque as pessoas
passam por aqui - tento imaginar bons motivos para as pessoas
se movimentarem , fico atentamente observando aquelas faces
e não encontro nada, nenhuma paixão, nenhum
amor. Talvez eu esteja sendo pretensisoso buscando razões
de ser na vida de outras pessoas - sim, eu admito que buscar
os fundamentos da vida dos outros é algo tolo e desnecessário,
um passatempo no sentido literal da palavra. Mais que isso
: trata-se de um sintoma alertando-me que a minha existência
é tão intensamente nula de significado quanto
a daquele velho estranho que atravessou a rua agora com sua
pálida e entediante expressão de cotidiano.
Eu sou dispensável. Você admitiu então.
E isto não é pouco. Admitirmos que somos merda
sem brilho necessita antes de tudo um exercício mental
formidável, além de alguns bons anos de intensas
decepções para forjar uma espécie de
couraça. E embora ela possa nos proteger de algumas
surpresas , outras ainda nos estarão reservadas. Sorte
nossa :-)
To:
<[email protected]>
Subject: 18/07/01
Date: Thu, 19 Jul 2001 13:45:03 -0300
Help18/07/01
Agora
são 11:25 da manha; é meio cedo para ter fome
mas estou vendo que vou ter que sair mais cedo do trabalho.
Nunca como nada de manhã pois sempre quero aproveitar
ao máximo o pouco tempo de sono que tenho todos os
dias. Estou dormindo muito pouco, me alimentando pior ainda.
A um ano atras eu já estava meio ruim e de lá
para ca foram quase 7 kg. Não sei o que acontece, mas
para falar a verdade não me importo muito com essas
coisas. Mas isso esta tão forte que não consigo
sentir vontade de me alimentar. Talvez seja uma auto - flagelação
inconsciente. Ou talvez isso seja punição, no
melhor dos dogmas de nosso santíssimo cristianismo.
E isso me mata. E esta me matando. E isso acaba de se tornar
estúpido a medida que por vezes é reconhecido
por mim como auto-flagelação. Mas é involuntário.
E me encontro aqui em minha mesa de escritório, milhares
de pensamentos horríveis em minha cabeça e pilhas
de papéis sobre ela. Nem me lembro ao certo do porque
esses papéis continuam aqui. Apenas sei que cada um
desses papéis é uma pessoa insignificante para
mim. Não tenho vontade de conhece-las, talvez para
não ter a chance de transformar essa insignificância
em repulsa dentro do meu peito. As vezes sinto vontade de
esmagar todas essas criaturas habitantes dessa merda de mesa
e joga-las no lixo juntas com seus sonhos que, assim como
eu, são ridículos e desnecessários. talvez
eu julgue mal essas criaturas - as pessoas - mas não
quero mudar o meu ponto de vista sobre elas. Esses dias li
numa revista uma entrevista com uma mulher "emergente"
que tinha milhares de pares de sapatos. tinha até casa
só para os sapatos. E essa era sua vida: o amor pelos
sapatos, que vejam só, começou quando essa era
criança e comprou um sapatinho lindo, que adorava.
Um certo dia seu pai chegou para ela e disse que seu lindo
sapatinho era igual ao da empregada da casa. Ela ficou terrivelmente
frustada com aquilo, e desde então, disse ela, começou
a escolher melhor seus sapatos. Quando eu li pensei comigo:
"quero cortas os pés dessa mulher". Um amigo
virou, me xingou e falou: "o que ela fez para você?!"
Mesmo agora tendo um idéia do que responder a esta
pergunta, no momento não tive reação.
Apenas a chamei de ridícula, de "como pode?",
essas coisas. Mas o estranho dessa estória e que até
hoje sinto vontade de arrancar os pés dela.
To:
<[email protected]>
Subject: 30/08
Date: Thu, 30 Aug 2001 11:21:54 -0300
30/08/01
Semana
passada mais uma pessoa se matou em frente ao local onde estudo.
Vários andares abaixo e uma platéia atônita
ao ato que ali se repetia. E ele se jogou. 19, 20 anos retrocedendo
andar por andar até o nada. Sólido e úmido
de sangue. Pessoas aglomeradas e varias perguntas sem resposta.
Problemas financeiros, falta de perspectivas, desilusões,
fracassos. Especulações do que poderia ser verdade
ou mentira para o fato. Ano passado, a poucos metros do mesmo
local, um barzinho freqüentado por estudantes universitários
pomposos assistiu cena parecida. Numa mesa de amigos um deles
se levanta com uma arma e da um tiro de cima para baixo em
sua cabeça. Tudo no instante perde a cor, apenas o
vermelho escuro brilha. Casos com várias semelhanças
entre si, mas com motivos que ninguém ao certo descobrirá
por completo. No mesmo ano deste incidente um moleque de no
máximo 16 anos se matou enforcado num parquinho de
crianças em frente sua própria casa. Sua família
afirmou ser um fatal desentendimento amoroso. Seus conhecidos
mais próximos - incluindo um amigo que me contou o
fato - dizem ser sim, uma desilusão amorosa; mas mais
que isso, desentendimentos em família que não
cessavam. Outro dia estávamos andando e passamos em
frente ao local. Abandonado e agora com uma carga simbólica
que faz tremer as pernas. "-Foi logo ali"- meu amigo
aponta. "E logo em frente é a sua casa..."
É estranho como na hora consegui visualizar toda a
cena: do corpo sendo solto por vontade própria e da
mãe correndo da porta da casa até o brinquedo,
para tentar salvar o corpo já sem vida. Especulações
e mais especulações. Dizem que antes de se matar
uma mensagem foi deixada para os amigos por ICQ. Bastava o
computador ser conectado a internet e todos saberiam os "por
quês". Dizem também que sua mãe chegou
em casa, leu a mensagem e a apagou do computador. Fatos como
estes geram profunda indignação por parte da
maioria das pessoas. Mas o que realmente assusta a humanidade
em se tratando de suicídio talvez seja o fato do possível
arrependimento. Este nos seduz com seu conforto derrotista
para nos colocar em posição coerente. Muitos
para se manter longe de tal idéia extremada o julgam
como falta de coragem para encarar a vida e seus inúmeros
espinhos. Mas nunca, nunca a idéia de que pode ser
o contrário, de que a pessoa apenas descobriu o vazio
a que pertence a existência em si e apenas tomou a real
decisão "coerente" de que "se vivo para
sofrer por nada, então porque seguir vivendo?".
Por que suprimir a força de vontade dessas pessoas?
Por que suprimir sua coragem? Se pudéssemos provar
apenas por um instante o silencioso repouso do não
existir absoluto com certeza nossos índices mirrados
de suicídios anuais teriam um feliz acréscimo.
Sem arrependimentos. E aqui fica minha homenagem a esse pequeno
mais significativo numero de pessoas com nomes e vidas tão
singulares mas também tão de encontro com a
vida de cada um de nós, à essas pessoas com
nomes, idades e sonhos que, com olhares vazios ou rasos d'água,
hora ou outra trazem o pânico, a duvida e a instabilidade
para nosso mundo. Eles serão os sinais modernos de
que existiu vida em algum lugar do universo.
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